Ele atendeu ao telefone e ouviu:

— Preciso de um favor seu.

— Pode falar.

— Preciso que investigue duas pessoas para mim.

— Está certo… qual o nome delas?

— Ethan e Nicholas Lemnsack Hentz.

— Lemnsack Hentz? Eles são os filhos de…?

— Eu não sei. É isso que eu quero que você descubra.

— Vou ver o que posso fazer.

— Obrigado.

Fim da ligação.

OoO

Ele estava no limiar da consciência, como se estivesse na beirada de um mar que levou anos para atravessar e logo a seguir não houvesse mais nada senão escuridão, camadas e mais camadas de infinita escuridão. Um negrume tão profundo que parecia não ser apenas falta de luz, mas uma coisa viva, pulsante. E um frio tão espetacular que era como se sua própria alma tivesse congelado. O tempo não existia, ou passava muito devagar. Ele deu um passo para frente e começou a cair. Tentou gritar, mas sua voz não existia.

Quando abriu os olhos novamente, estava num plano branco, sem nada além disso, do branco nu e cru. Como se nada mais existisse, ou tivesse deixado de existir, sobrando apenas ele para começar tudo de novo. Então surgiu uma porta a sua frente. Marrom, grande. Como uma nódoa no branco. Abriu a porta e a viu. A cama. Na cama, uma pessoa nua, em posição fetal, pálida, sem cor, com um montante de cabelos louros e olhos azuis que escondiam o mundo. Não sabia como sabia que os olhos dele eram azuis, pois estava com os mesmos fechados. Parecia agonizar. Quando começou a gritar, ele acordou.

Ethan Lemnsack sentou na cama, o corpo nu molhado de suor de cima a baixo. Aquele pesadelo de novo. Cada milímetro de seu corpo doía, como se o tivessem espancado com um martelo enquanto dormia. Seu cérebro parecia estar sendo chacoalhado dentro de sua cabeça, de modo que ele teve de se apoiar no criado-mudo ao lado da cama para não cair quando se levantou. Caminhou até o banheiro e jogou todo o peso do corpo na pia, apoiando-se nela com os dois braços. Eram cinco e meia da manhã.

Ethan olhou-se no espelho. O rosto estava pálido como um fantasma e os lábios estavam rachados. O cabelo e os olhos não tinha aquele brilho natural de sempre. As olheiras estavam quase tão grandes quanto seus olhos. Molhou o rosto com água gelada e quase sentiu um choque térmico.

— Não… por favor, hoje não. Não posso ficar doente. — Forçou-se a dizer a si mesmo que estava bem, mas até o esforço de falar o cansava.

Os finos raios do Sol recém-nascidos invadiam o quarto atrevidamente quando ele voltou para a cama, jogando-se pesadamente nela. O ar do quarto estava gelado, mas sentia calor. E, ao mesmo tempo, estava morrendo de frio. Sua nuca estava pesada e a dor de cabeça não dava sinais de que ia diminuir. Sentiu a própria testa. Estava com febre.

Ethan passou a mão pelos cabelos cor de fogo do irmão menor que dormia tranquilamente, de bruços, na cama. Sussurrou o nome de Nick em seu ouvido. Como ele obviamente não acordou, gritou.

Nick resmungou alguma coisa.

— To acordado… não precisa gritar.

Nicholas sentou-se na cama cruzando as pernas, levou alguns segundos para encontrar força de vontade para abrir os olhos, esfregando-os com as mãos como uma criança. Focalizou o rosto pálido de Ethan.

— Você está doente.

— Hum? Não, não estou. Vamos logo, ou vamos nos atrasar.

— Você não vai a lugar nenhum.

Nick levantou-se da cama e empurrou Ethan suavemente contra ela, cobrindo-o com o lençol logo a seguir.

— Nick, eu não posso faltar.

— Claro que pode, alguns dias não vão fazer diferença. — Pôs a mão em sua testa. — Você está ardendo de febre. — Ethan resmungou algo e tentou se levantar, mas Nick o empurrou de volta. — Olha só, nem consegue lutar contra o meu empurrão.

— Nick…

— Não, cala essa boca. Você não vai à escola hoje.

Foi até o guarda-roupa de Ethan e tirou uma grande caixa de plástico cinza fosco guardada numa prateleira alta. Era uma caixa de remédios. Pegou uma caixinha azul e branca e depois guardou a grande novamente.

— Eu já te vi cuidando de mim quando eu tinha febre.

Pegou um copo d’água na cozinha e deu a Ethan com dois comprimidos em forma de bastão. Este os engoliu de uma só vez sentindo certa dificuldade. Sua garganta estava inflamada e a língua parecia duas vezes maior. Nick pegou um pedaço de pano, dobrando-o retangularmente, depois molhou-o com água gelada e fez dele uma compressa, pondo-o na testa quente do irmão. Pegou outro pedaço de pano molhado e colocou no congelador para usar mais tarde.

— Não é apenas a escola… Sue Molis vai vir hoje.

— E daí? Você tem todo o direito de ficar doente.

— Ah… Está bem então. Vou ficar em casa. Não mate aula nem se meta em encrencas, por favor. E vá de táxi.

— São só 800 metros. Você não confia em mim para ir sozinho?

— Hm, não, nem um pouco.

Nick deu a língua para Ethan e entrou no banheiro. O som do chuveiro o fez relaxar um pouco, mas a tensão em seu pescoço logo iria evoluir para um torcicolo, ele sabia disso. Sentia que seria um longo, longo dia.

OoO

Nick acabou se esquecendo de que tinha que tomar um táxi e foi andando. Só percebeu seu erro quando chegou à escola, mas pensou que Ethan nunca iria saber. Chegara cedo demais, as aulas só começariam dali a meia hora e havia poucos alunos pelos corredores. Cumprimentou alguns. Um ar de cemitério tomava a instituição. Enquanto se dirigia à sala, alguém o abordou.

Era a menina com quem havia ficado no dia anterior. Ela devia ter a idade de Ethan e embora Nick ainda não se lembrasse do nome dela, lembrava-se que ela tinha seios grandes.

Embora tivesse a voz mais irritante que já ouvira.

— Oiiii, meu amoooor! — “Parece um monte de gatos trancados numa caixa.” Ela o beijou demoradamente na bochecha, pondo as mãos em sua cintura. Nick sentiu o início de uma ereção. — Quer continuar o que começamos ontem?

Nick fez a voz mais fina, os olhos mais molhados e grandes, o maior bico e o maior ar de inocência que conseguiu, falando baixinho, quase que timidamente.

— Eu quero mais daquilo.

As pupilas dela dilataram.

— Pois você vai ter.

Havia um ambiente comprido parecido com um corredor da largura de um carro, chamado simplesmente de Corredor, por trás do Espaço. Era normalmente usado pelos funcionários da escola como depósito. Também era usado pelos alunos para se afastarem dos olhares de todos.

A garota sentou-se no chão de cimento do Corredor e Nick sentou em seu colo cuidadosamente, dando um gemido manhoso parecido com um ronronar de gato que fez a própria garota gemer. Aproximaram a boca na outra, famintos pelo contato e logo estavam numa batalha eletrizante, as línguas dançando num frenesi incontrolável enquanto o desejo fazia seus corpos tão próximos se arrepiarem. O menor aproveitou a energia do momento para deslizar as mãos lenta e sutilmente para os seios protuberantes da garota, agarrando-os de uma vez. Logo a seguir, fingiu uma expressão de surpresa e vergonha.

— Ah, me desculpe! — Nick tirou as mãos rapidamente dali e olhou para o chão timidamente, como se fosse chorar. — É só que…

— Tudo bem, meu querido — ronronou a garota, afagando seus cabelos gentilmente. “Se ela continuar tentando falar que nem um gato, meus tímpanos vão estourar.” Retirou então lentamente a camisa pertencente à farda da escola, revelando a pele lisa e macia, os seios praticamente expostos sob o sutiã quase transparente. — Anda, pegue neles.

Bem devagar, como se tivesse receio, Nick segurou em seus enormes seios, apalpando-os gentilmente, apertando um pouco, agindo de modo tão natural e discreto que a outra nem se deu conta da velocidade com a qual o menino deslizou a mão para suas costas, abrindo a peça íntima e jogando-o no chão de qualquer jeito.

Ele inclinou-se para frente, beijando lentamente seus seios, pousando os lábios sobre um de seus mamilos e sugando-o de leve, dando em seguida uma mordiscada e fazendo uma suave trilha até o outro mamilo com a ponta da língua, sentindo a garota estremecer sob si.

Repetiu a ação, desta vez deslizando as mãos por suas costas, aproximando-se mais, sugando com um pouco mais de vontade, apertando seu outro seio com ansiedade, conseguindo arrancar um gemido dela.

— Ah… Nicholas…

Sorriu de leve, começando a livrar-se de suas próprias roupas em velocidade assombrosa enquanto habilmente subia beijos até seu pescoço, sugando sua pele, apertando sua cintura, trazendo-a mais para perto de si, inclinando-se sobre ela.

A garota abraçou Nick, ajudando-o a retirar suas últimas peças de roupa e afastou as pernas, aproximando os quadris dos seus até estarem em contato, movendo a cintura, roçando-se ali, e Nick correspondeu, suspirando perto do ouvido da garota, mordiscando-lhe o lóbulo, deitando-a no chão e aumentando o ritmo da fricção dos corpos, ansiando por ir mais a fundo.

Começou a beijar seu corpo inteiro com vontade, arranhando a pele, afastando mais suas pernas, ouvindo-a suspirar e gemer seu nome, beijando seu tórax e trazendo-a mais para perto ainda, movendo a cintura como se implorasse pelo ato.

Nick ajeitou-se, adentrando-a com vontade. Puxou um pouco seus cabelos e beijou seu pescoço, mordiscou e deu chupões, começando a estocá-la, ouvindo os gemidos da garota passarem de suspiros a quase gritos numa velocidade absurda, enquanto ele continuava a gemer baixo, perto de seu ouvido, puxando-a mais para si. “Caramba, como ela é escandalosa.”

Apoiou-se sobre a menina, agarrando seus seios, faminto, apertando-os e sugando-os, deixando a cintura obedecer aos desejos de seu corpo. Pôs-se a penetrá-la cada vez mais rápido, sentindo ondas de prazer passarem por seu corpo como eletricidade, ouvindo a menina gemer mais e mais, gemendo ao ser apertado naquele interior quente. Não demorou até que os dois atingissem o orgasmo.

Parou um momento para descansar e recuperar o fôlego, em seguida saiu de seu interior, observando a garota com suas marcas de chupão e o cabelo bagunçado grudado na testa suada, assim como o seu.

— Isso foi incrível… — ela suspirou, lambendo as pontas dos dedos lentamente. Nick se perguntou se ela realmente achava que aquilo era sexy. — Que tal fazermos de novo ao final da aula?

Nick ignorou-a sob o pretexto de estar ocupado vestindo-se novamente, parando ao se levantar para responder de modo gentil.

— Não posso, desculpa, vou ter que voltar cedo para casa.

E saiu apressadamente do Corredor, deixando a garota lá, nua e excitada.

OoO

Ele já tinha passado pela Porta marrom de madeira e as viu. Aquelas pessoas. Aquelas pessoas repulsivas. Aqueles monstros.

Ele estava deitado no chão, em posição fetal, do mesmo modo que estava na cama. Nu, pálido, agonizando, indefeso. E aquelas Pessoas. Aquelas Pessoas estavam em volta Dele, fazendo-O sofrer. Estavam machucando-O pelo simples prazer de machucar, movidas pelo puro ódio. Não sabia quantas eram, talvez fosse apenas uma ou quem sabe 10, 100, 1000. Milhões, bilhões, trilhões. Talvez fossem infinitas, ou tinham tantas que seu cérebro não conseguia processar. Não importava. O que importava é que as Pessoas O estavam fazendo sofrer. E ele precisava pará-los, precisava salvá-Lo, salvar a Ele. Mas não sabia como. Não podia. Estava tão indefeso quanto Ele.

E então as Pessoas pararam de machucá-Lo e ele soube, soube que Ele estava morto, que de Seu corpo destroçado nada mais restava de Sua alma. Foi-se embora, levando consigo quem Ele era.

E ele não pode fazer nada para ajudá-Lo, apenas assistir a Sua morte.

Ethan acordou quase gritando. Era quase meio-dia e estava tão suado quanto quando acordou às seis da manhã. Sentia um frio tremendo e começara a tossir. Mas não era apenas isso. Era um aperto no peito, como se seu coração estivesse queimando, e sabia que aquilo não era causado pela doença, era outra coisa.

Era culpa.

Estava sentindo culpa. De quê? Não havia nada com o que se preocupar. Todos os alicerces de sua vida estavam bem, Nick logo estaria em casa e Ethan poderia desfrutar daquele instinto maternal que aflorava dentro dele. Estava bem na escola e dinheiro certamente não era problema. Deveria estar feliz. Porém, ele estava ali, sentado na beirada da cama, os olhos lacrimejando, respirando com dificuldade, queimando por dentro. Sentia como se tivesse acabado de fazer uma grande merda e não houvesse volta. Mas não sabia por quê. Era tudo muito irreal.

E aquele sonho. Não, sonho não, pesadelo. Aquele pesadelo que frequentemente mudava de cenário, mas que sempre preservava um elemento: a criatura loura e agonizante. Ethan não se preocupava tanto com o fato de estar tendo-o repetidamente há semanas, mas sim com o fato de que se lembrava perfeitamente dele. Não só quando acordava, mas várias horas depois de acordar, o dia todo, até quando ia dormir de noite. Lembrava-se de cada mínimo detalhe.

Lembrava-se do cabelo louro dEle, de como os fios alinhavam-se perfeitamente uns com os outros. Da pele translúcida e machucada. Lembrava-se de como estava sempre em posição fetal, fazendo-Se parecer ter 10 anos, como se tudo a Sua volta fosse machucá-Lo. E Ele sempre parecia estar exatamente igual, até o último fio de cabelo no mesmo lugar, em todo sonho, todo sonho, todo sonho.

E as Pessoas estavam sempre lá, até quando não estavam. E sempre O faziam agonizar até não aguentar mais. Bastava passar pela Porta e Ethan assistia às Pessoas O matando lentamente todas as noites. Todas as noites.

Mas eram os olhos que mais intrigavam Ethan. Aqueles olhos. Aqueles orbes azuis. Como sabia que eram azuis? Não sabia como sabia, apenas sabia. E sabia também que eram as coisas mais lindas que já vira em sua vida. Era como se escondessem um mar de sentimentos lá dentro, tristeza, alegria, raiva, felicidade, culpa, tristeza, apatia, nostalgia, tudo lá, tudo lá. Aqueles olhos. Aqueles olhos perfeitos e enormes, inocentes, imaculados, puros. Tão bons. Eles eram tudo e eram nada ao mesmo tempo. Eram todo o Seu ser.

— O que é que há comigo? — indagou-se em voz alta, como se alguém pudesse ouvi-lo e responder. Teve vontade de chorar, sentia-se triste. — Eu acho que estou enlouquecendo.

Como podia sonhar com alguém que nunca vira na vida? Ou melhor, uma pessoa que não existia? Forçou-se a dizer a si mesmo que era apenas criação de sua mente, que não era real, que o sentimento de culpa era inteiramente psicossomático. Será que era? Não, sabia que não era porque O amava. Mas não sabia como sabia disso. Apenas tinha essa certeza dentro dele, crescendo como uma semente na terra, uma ideia tomando forma e força, mas continuando sem razão. Amava uma pessoa produzida por sua própria mente!

— Eu preciso desabafar com alguém.

Foi nesse momento que Nick chegou em casa, parecendo apressado para alguma coisa, como sempre parecia. Ethan notou que ele não jogou as roupas no chão, dobrando-as desajeitadamente e pondo-as dentro do guarda-roupa. Claro, Nick nem devia imaginar que Ethan as lavava todo dia, mas isso não importava.

O menino pulou na cama completamente nu, abraçando o corpo quente do irmão.

— Você está melhor? — perguntou inocentemente.

— “Estou quase perdendo a cabeça, por quê?” Estou sim. Houve algum problema na escola hoje?

— Não, não matei nenhuma aula, como você pediu. — E deu um largo sorriso.

— “Eu amo muito você pra colocar esse peso nas suas costas… Eu não posso falar dos meus problemas com você.” Obrigado, meu amorzinho. — Beijou-lhe a bochecha demoradamente enquanto abraçava o corpo pequeno e quente e sentiu um estranho peso nas costas dissipar-se. — Agora vá tomar banho e se vestir, provavelmente a Molis chegará depois do almoço.

— Certo. Eu liguei para um restaurante que entrega em casa, pra você não ter que fazer o almoço. — Dito isso, se enfiou no banheiro social.

— Ah, graças a Deus — Ethan murmurou pra si mesmo. — Também preciso de um banho. Vamos Ethan, você consegue.

Levantou-se pesadamente e caminhou até o banheiro privativo de seu quarto, onde ligou o chuveiro. A água quente logo começou a jorrar, fazendo Ethan quase soltar um gemido ao sentir a quentura do líquido. Seu pescoço estava tão tenso que mal conseguia virá-lo 45º. Passou xampu cuidadosamente no cabelo preto, ensaboando o resto do corpo lentamente, quase de modo letárgico. Depois tirou cuidadosamente o sabão do cabelo, esperando a água terminar o trabalho no resto do corpo.

Saiu do banheiro com uma toalha enrolada na cintura e uma menor nas mãos, esfregando o cabelo para tirar o excesso de água.

Nick entrou no recinto, já vestido, medindo o irmão de cima a baixo.

— É estranho — falou.

— O quê? — Ethan perguntou, abrindo o guarda-roupa e escolhendo uma roupa qualquer.

— Eu não sinto atração por homens. Só por você.

— Que lisonjeiro da sua parte.

— Mas é sério. — Nick sentou-se em cima das próprias pernas, em cima da cama. — Nenhuma garota nunca me deu prazer como você.

Ethan deu um sorrisinho.

— E ninguém nunca me deu prazer além de você.

— O que quer dizer? — indagou, perplexo. — Você perdeu a virgindade comigo?

— Sim. Você também foi a primeira pessoa que eu beijei. — A campainha tocou. — Deve ser o delivery, vou atender.

Nick acompanhou o irmão até a porta, onde ele pagou ao entregador que lhe deu duas caixas de isopor, fechando a porta logo depois.

— Peraí, você tem 16 anos e nunca havia beijado?

— Você pediu comida pra caramba, hein? É pra durar todo o tempo em que eu estiver doente? Porque vai estragar antes.

— Ethan!

— O quê? É, eu perdi o BV com você, a virgindade também, enquanto você perdeu o seu com 11 anos. Feliz?

— Bom… na verdade eu perdi o BV com 9 anos, mas… caramba. Você podia ter perdido antes.

Ethan sentou-se na cabeceira da mesa de jantar e abriu uma das caixas de isopor, torcendo o nariz e abrindo outra logo depois. Fez o mesmo gesto.

— Por que é que você não pediu nada com verdura?

— Porque eu odeio verdura. Não perdeu por que não quis, não é?

— Não — disse, enfiando uma garfada na boca, mastigando mil vezes e fazendo uma careta de desconforto ao sentir a comida passando por seu esôfago. — E odeio quando dizem isso.

— Ah, pelo amor de Deus! — Nick parecia estar ficando histérico. — Como é possível?!

— Não dá pra transar quando ninguém quer dar pra você — disse distraidamente. — Me dá aquela maçã.

— Não me venha com essa — disse enquanto pegava uma das maçãs da fruteira em cima da mesa e jogava para Ethan. — Tenho certeza que a Amy sempre quis.

— Eu prefiro a outra fruta.

— Ok, tem o Gabriel Melnick então.

— O quê? Não, eu quero dizer que eu prefiro a outra maçã. Essa está amassada.

Nick pegou a outra maçã e jogou para ele.

— Mas você o quer.

— Eu nem o conheço direito.

— E daí?

— Nick… — A campainha tocou. — É a Molis.

Um sentimento de pânico atravessou Ethan de repente, que logo o substituiu por uma calma calculista. Pegou a bagunça em cima da mesa e levou-a para a cozinha, lavando as mãos e penteando o cabelo logo depois. Mediu Nick de cima a baixo, ajeitando suas roupas e mexendo aqui e ali em seu cabelo.

— Ethan, Ethan — disse Nick, lutando contra as mãos diligentes do irmão que insistiam em mexer em seu cabelo —, eu já estou bem, você também. Abra a porta.

— Está bem, está bem — Ele parecia meio desesperado, a fadiga o estava atacando —, certo, estou bem. — Suspirou longamente. — Essa é a primeira visita e o julgamento dela vai influenciar muito o Conselho Tutelar. Então vamos causar boa impressão. Não fale sobre virgindade, pelo amor de Deus.

— Eu não sou idiota, eu sei disso. Vamos, abra a porta.

Ethan abriu a porta e viu o mesmo rosto de Sue Molis, porém parecia envelhecido. Era incrível que a última vez que o vira fora há um mês, mas parecia estar dez anos mais velho. O sorriso amável com o qual ela se apresentou aos irmãos pela primeira vez sumira, dando lugar a uma expressão completamente neutra. Os olhos azuis dela estavam vagos. Inevitavelmente, Ethan lembrou-se dEle, mas deixou essa ideia para trás.

— Muito bem — disse ela. — Vamos começar.

Ela inspecionou todos os cômodos da casa, primeiramente. Estava tudo impecavelmente arrumado, até o quarto de Nick. Depois, fez algumas perguntas sobre o ambiente escolar. Ethan sabia que essa parte era completamente simbólica, pois ela certamente tinha uma cópia do desastroso histórico escolar de Nick. Depois, pediu para fazer algumas perguntas aos dois irmãos separadamente. Nenhum deles precisou perguntar para saber que se tratava de sexo.

A primeira pergunta que ela fez a Ethan foi sexualidade.

— “Nem eu sei, como vou poder contar a você? Mas não to afim de ter problemas.” Heterossexual.

Depois, perguntou se ele era virgem.

— “’magina, perdi com meu irmãozinho de 13 anos.” Sim.

Depois foi a vez de Nick. Duas perguntas com respostas idênticas depois, o interrogatório acabou. Sue Molis foi embora frustrada, mas com uma impressão indiscutivelmente perfeita sobre os dois irmãos Lemnsack Hentz.

OoO

Ethan forçou-se a ir à escola no dia seguinte. Ainda sentia-se fraco, mas a tensão em seu pescoço passara e as dores de cabeças eram menos frequentes. A tosse e a febre também haviam diminuído.

Aliás, precisava falar com Amy sobre o pesadelo. Sobre Ele e sobre as Pessoas.

Fez isso no intervalo de 20 minutos que ocorria de 9h30min até 09h50min da manhã. Havia um murmurinho barulhento infestando toda a escola e isso fazia a cabeça de Ethan rodar. Foi ao banco perto do Espaço em que comumente sentava quando Nick ia se atracar com alguma vadia após o término das aulas, pois sabia que ela estaria lá.

E estava. Chegou silenciosamente e colocou o braço em volta do pescoço dela, acariciando seus cabelos louros e fitando seus olhos azuis.

— Tudo bem? Você está pálido — Amy disse.

— Estou bem, só um pouco cansado. Sue Molis foi lá em casa ontem. Creio que ocorreu tudo bem.

— Mesmo?

— Sim. Nick disse que era virgem.

Ela riu.

— E… — continuou Ethan — bom, na verdade, não estou tão bem assim.

— O que houve? — ela perguntou, colocando uma mecha de cabelo dourado atrás da orelha.

— É que… eu ando tendo um pesadelo. Toda noite. Toda maldita noite eu tenho quase o mesmo pesadelo. E estou enlouquecendo com isso.

— Fale sobre ele.

— Na verdade… ele ocorre em diferentes cenários, mas há uma coisa que aparece em todos eles.

— Que coisa?

— Uma pessoa. Quer dizer, eu creio que seja uma pessoa. Um menino. Branco, loiro e tem olhos azuis. Parece ser besteira, mas… essa é a forma mais básica e crua de descrevê-Lo. Eu sinto muita coisa quando O vejo, sabe?

Ethan voltou a fitar os olhos de Amy e se surpreendeu quando se deu conta da dureza que os havia tomado.

— Continue.

— Bem… o sonho começa num plano branco, sem nada, apenas uma Porta. Então eu entro por ela e O vejo. Tem sempre pessoas… Pessoas em volta Dele. Não sei como, mas elas O fazem sofrer. Isso é estranho, porque as Pessoas estão apenas ali, em volta dEle, sem fazer absolutamente nada, só sei que Ele agoniza por causa delas. E continua assim até que Ele morre. E sabe, eu estou assistindo tudo. Eu estou como um telespectador em relação a toda a cena. E eu fico triste. Triste não, ansioso, desesperado. Fico tentando salvá-Lo, mas sem conseguir. Não sei como. E, quando acordo, fico com um sentimento de culpa tão intenso que fico com vontade de morrer. Como se fosse minha culpa Ele estar ali, sofrendo por causa das Pessoas. Eu sinto… eu sinto que eu O amo. — Voltou a fitar Amy, que parecia perplexa e assustada ao mesmo tempo. — Isso não é estranho?

Ela tentou falar, mas era como se sua voz tivesse deixado de existir. O que Ethan dissera estava pipocando em sua mente como em uma panela de pressão. Um fiapo de voz ridiculamente baixo saiu do fundo de sua garganta.

— É sim. Nicholas sabe disso?

— Não, por quê?

Foi aí que o sinal tocou, indicando que o intervalo havia acabado.

— Bem, eu tenho que ir. — Beijou-lhe a bochecha. — Até mais.

E partiu.

Amy ficou ali, parada, paralisada, a observá-lo partir. Sua mente estava numa agitação tão grande que assustava até ela mesma. O que Ethan havia falado? Um pesadelo? Sobre uma pessoa? Um menino? Loiro? Santo Deus, estava acontecendo, ela sabia disso. Por quê? Por que tinha que acontecer logo agora? Logo agora que Ethan estava tão fragilizado mental e fisicamente?

Naquele momento, Amy Bellafonte tinha apenas uma certeza: precisava falar com Nicholas Hentz. Ele devia estar matando aula a essa hora.

Caminhou até o Corredor, encontrando o menor abraçado a uma garota aleatória tão fortemente que pareciam um só, enfiando a língua na boca dela, como não podia deixar de ser.

— Preciso falar com você.

Nick parou com o que estava fazendo, os olhos dele fitaram os dela e se estreitaram. A garota começou a beijar a pele alva de seu pescoço, ignorando-a.

— Agora não.

— Agora sim — retorquiu ela. — Minha menstruação está atrasada, sabe?

A garota parou com o que fazia e fez uma expressão de perplexidade e depois de raiva, levantou-se e foi-se embora dali, lançando um olhar de ódio a Amy. Ela sorriu.

— Por que você fez isso?! — ele indagou, quase gritando.

— Eu preciso falar com você. Sobre seu irmão.

O olhar fulminante de Nicholas apaziguou um pouco, mas ainda guardavam uma centelha de rancor.

— O que tem ele?

— Ele acabou de falar comigo sobre um sonho. Aliás, um pesadelo. Ele sonha com um menino loiro de olhos azuis, agonizando. Toda noite. — Amy observou o rosto ruborizado de Nick empalidecer e todo o resquício de ódio que havia em seus olhos pretos desaparecer. — Onde um grupo de pessoas em volta dele o faz sofrer até que ele morra. E quando acorda, fica sentindo uma sensação de culpa.

Nick engoliu em seco e ficou em silêncio, olhando para o chão, passando a mão pelo cabelo espesso, estalando os dedos aleatoriamente, tentando manter os pensamentos em ordem.Amy achou incrível como ele se parecia com Ethan quando estava pensativo.

— Sabe o que isso significa? — ela perguntou.

Ele olhou para ela com uma expressão meio perplexa, meio surpresa, como se tivesse acabado de perceber que ela estava ali.

— Sei… sei sim… ai meu Deus, eu sabia que esse dia ia chegar.

— Eu também sabia. O que pretende fazer? Isso é decisão sua.

Sentia-se culpada de jogar aquela responsabilidade em cima do mais novo, mas não podia fazer nada.

— Não sei, sabe. Eu sempre disse a mim mesmo que ele havia se esquecido daquilo pra sempre e que nunca iria se lembrar… eu só estava me iludindo. Bem, fique de olho nele. Se ele continuar a ser atormentado por esse sonho… eu conto a verdade.

— Tudo bem. Nicholas… se você decidir contar a ele… deixe-me ajudá-lo, está bem?

— Está bem. Agora eu tenho que ir.

Amy assistiu Nick Hentz indo embora, subindo as escadas até desaparecer de vista. Pensou no quanto ele já viu, e no quanto um garoto de 13 anos não deveria ter visto. E sentiu uma pontada de afeição por ele, pois ele amava Ethan acima de tudo, assim como ela. Prezava a vida dele acima da sua. E percebeu que por isso, apenas por isso, decidira guardar o segredo dele, porque o admirava.

Também pensou pelo que Ethan já havia passado e se sentiu subitamente triste. Triste porque ele não sabia disso e Nick tinha que suportar tudo sozinho, triste porque ele tinha que cuidar para que ele nunca soubesse, porque tinha que protegê-lo. Perguntou-se como seria a vida de Ethan se aquele garoto não tivesse morrido.

Amy Bellafonte sentou-se no chão do Corredor, enfiou o rosto entre as pernas e começou a chorar.