Como Vivem Os Anjos

33 Canção De Ninar Para Uma Noite Tormentosa


Era tão divertido andar num carro alugado, sem ar nem vidros automáticos, sem películas escuras e com um motor que fazia tanto barulho que fazia parecer que eles estavam dentro de um liquidificador. Tão divertido.

— Eu não acredito que estamos aqui, eu não acredito. Santo Deus, eu serei demitida e presa.

— Não será não.

— Eu sequestrei o príncipe da Califórnia e o enfiei numa bomba relógio logo depois de alguém ter tentado assassiná-lo, Senn!

— Eu sou o príncipe da Califórnia, as pessoas fazem o que eu digo. Da próxima vez, digo para não me matarem. Como estão meus olhos?

— Castanhos.

Aileen dirigia surpreendentemente bem para uma mulher. Senn saudou-a com esse comentário após saírem às escondidas do hotel em que estavam hospedados e ela ameaçou bater o carro. Senn se calou com um sorriso, acrescentando que dirigia bem para uma mulher num carro alugado e a ponto de explodir. É claro que só ela conseguiria driblar a segurança da rainha. Henrietta estava no andar mais alto do hotel mais caro daquela cidade, e mesmo assim não pudera ver seu bisneto escapulindo de suas garras.

No momento, estava usando uma peruca feita de reais cabelos castanhos escuros e lentes de contato da mesma cor cobertas por óculos escuros. É claro que precisara disso; qualquer pessoa poderia reconhecê-lo ali. Poderia até tentar matá-lo de novo.

Aileen parou em frente a um prédio branco e vermelho. Suas mãos apertavam o volante com tanta força que as veias de seus braços saltavam.

— Não devia fazer isso, vai estragar sua pele.

— Calado. Entre lá e entregue o convite antes que eu morra intoxicada por monóxido de carbono. Por que não podia mandá-lo pela internet como qualquer adolescente normal?

— Não sou um adolescente normal — disse seriamente. — Sou o príncipe Senn. — Após alguns segundos de silêncio, ambos riram. — Eu já volto. Não saia sem mim. — Ela quase deu-lhe um tapa, de modo que Senn se apressou.

Ainda tinha as chaves que caíram do bolso da calça de Nicholas Hentz enquanto eles estavam na ambulância. Esperava que uma delas fosse do portão pequeno. Era. Subiu os catorze lances de escadas apressadamente, ciente de que estava tarde e que provavelmente acordaria todos os irmãos Lemnsack Hentz Barcarolli quando batesse na porta deles.

Atravessou o pátio e então o hall, esperando que ninguém notasse que estava de óculos escuros à noite. Quando viu as portas do elevador se fechando, Senn respirou profundamente. Era a primeira vez em várias semanas que tinha privacidade sem ter de estar se escondendo dos paparazzi. O fato de que havia uma câmera no elevador não dizia nada.

Chegou ao vigésimo terceiro andar, deparando-se com um longo corredor bem decorado e completamente inútil. De repente, sentia-se novamente no palácio real.

Tocou a campainha, esperando um minuto inteiro antes de ela ser aberta por Ethan Lemnsack.

Ele estava horrível. Os cabelos desgrenhados e grandes olheiras debaixo dos olhos, além de parecer estar carregando um enorme peso nas costas. Seu ombro não estava mais enfaixado, mas ainda tinha uma cicatriz. Senn também não deixou de notar que ele exalava um leve odor de uísque. Na verdade, não podia ter deixado de notar aquilo. Frequentemente ele tinha que levar sua mãe para cama sentindo aquele cheiro.

— Sim? — Ele levantou a sobrancelha. Senn tirou os óculos e arrancou a peruca de uma vez, balançando os cabelos rebeldes para trás. Seus olhos continuavam castanhos, mas aquilo devia ser o suficiente. Ethan arregalou os olhos. — Príncipe Senn?

— Me chame de Senn. — Sorriu. — Posso entrar?

— Ah-h, sim… está sozinho? Está aqui sozinho? Mas como?

— Saí sem ninguém ver. Sem mais detalhes, não tenho muito tempo. — Ambos sentaram-se no sofá da sala, onde apenas a luz amarela do abajur a iluminava. — Primeiramente, eu queria te agradecer por ter salvado a minha vida. Você fez uma grande coisa se colocando na frente daquela bala por minha causa, mesmo que isso só tenha sido ímpeto do momento. — Senn colocou uma mecha de cabelo por trás da orelha, apreciando sua própria habilidade de azedar qualquer elogio. — Então, por causa disso, eu gostaria te agradecer te fazendo um convite.

— Para quê? — ele indagou.

— É a celebração de posse do novo Primeiro Ministro. Vai acontecer no palácio real, em Sacramento, Northeria, no dia vinte e sete de julho, um sábado. Começará às cinco horas da tarde e terminará às cinco horas da manhã do domingo. E acredite, nós somos mais pontuais que os ingleses nesse quesito. — Ethan sorriu de leve. — A festa também será um evento beneficente. Alguém tem que ajudar aquelas pobres crianças famintas, não? Sendo um pouco mais realista, é bom se você quiser melhorar um pouco mais a sua imagem pública, o que, cai entre nós, é bastante necessário se você quiser começar algo parecido com a antiga empresa da sua mãe. Doar alguns milhares de dólares não faz mal a ninguém. Nicholas e Lorenzo estão convidados também, é claro. Vai ter muita gente famosa lá, artistas de Hollywood e tudo mais. A rainha Elizabeth II foi convidada, mas a velha recusou. Ela odeia Henrietta até hoje porque minha bisavó tem dois anos a mais de reinado que ela, e isso é a única coisa que a impede de ser a monarca mulher há mais tempo no trono do mundo. Tsc, picuinhas de famílias reais. E então, você vem?

— Pensarei nisso — Ethan sussurrou. Ele parecia tão sexy com aquela voz rouca e os olhos semiabertos, mas ainda assim penetrantes. — Seus olhos castanhos ficam mais bonitos em você.

Ele ainda sussurrou aquilo. Senn se arrepiou.

— Está… me cantando?

— Se você achar que sim. — Ethan deu de ombros. Senn teve que olhar para a garrafa de uísque aberta em cima da mesinha de centro.

— O que houve com você? — indagou, sem saber ao certo se gostaria da resposta.

— Dei um salto para a maioridade. Ou será que há coisa mais adulta do que encher a cara quando algo está errado? — Ele riu da própria desgraça. Senn sentiu imediatamente um aperto no coração.

— Ethan, não faça isso consigo mesmo. — Ele pôs a tampa da garrafa de volta na mesma. — Você tem dois irmãos que precisa cuidar e que precisam de você, mesmo que eles façam coisas estúpidas. Acredite no que eu digo. Minha mãe é alcoólatra. Isso dói. Muito. — Ele parou de sorrir, começando a fitar Senn fixamente. — Você teve que cuidar de Nicholas desde cedo e então de Lorenzo. Não faça isso com ele. Não o faça ter que cuidar de Lorenzo por si próprio. Eles precisam de você.

Senn sentiu a mão direita de Ethan em sua nuca antes de ele puxá-lo para si. Quando o maior enfiou a língua em sua boca, o príncipe pensou que fosse sufocar para então ver o quão boba aquela possibilidade era e se entregar totalmente a ele. Era engraçado. Ethan Lemnsack e Senn Walker-Fellow eram os adolescentes mais desejados da Califórnia e estavam ali, num sofá, se beijando.

Eles se separaram, arfando.

— Quer saber um segredo? — Senn sussurrou. — Eu nunca tinha feito isso antes. Isso, beijar alguém. Engraçado, não é? Um príncipe BV aos dezesseis anos. Se quiser fazer de novo, vá à Sacramento. — Senn se levantou, dando um selinho em seus lábios. — Deus, isso é bom. Eu preciso ir agora, mas, por favor, pare de beber.

OoO

Depois de Senn ir embora, Ethan se jogou de volta no sofá. Queria voltar a beber, mas estava se sentindo levemente mal por fazê-lo após o que o príncipe disse. Deixaria que a culpa passasse e então terminaria aquela garrafa. Estava quase no fim mesmo. É claro que não era uma boa ideia misturar os analgésicos que ainda estava tomando com a bebida, mas o que ele podia fazer?

Nick o odiava, Lorenzo não falava com ele.

Poucos minutos após ter lido o resultado do teste de parentesco que Nick fizera secretamente com o cabelo de Ethan, dele e de Lucas, Ethan estava no banheiro, ajoelhado, vomitando. Não conseguira se controlar. Também não conseguira se levantar. Suas pernas haviam perdido a vida.

Quando Nick voltou para casa, sua expressão de raiva, ódio, desprezo, decepção, cinismo e um pouco mais de raiva denunciou o que ele fizera. De todas as coisas mais estúpidas, contar a verdade a Lucas fora a maior. Ele não tinha aquele direito. Não tinha o direito de destruir a vida dele.

Ethan queimara aquele relatório, é claro. Não queria admitir a si mesmo que se importava com isso, mas se os laços parentais fossem realmente provados, Lucas tinha participação na herança. Na verdade, estava apenas procurando algo para se importar. Nick o odiava. Ele não tinha maturidade para entender que Ethan não podia simplesmente chegar nele após ter levado um tiro no peito e dizer Advinha só, maninho. Nós não somos irmãos.

Como ele não compreendia isso? Ah, é claro. Ele era Nicholas Hentz. Ele não se preocuparia em se importar com nada que não lhe fosse conveniente.

Deitado sozinho na sala de casa, Ethan se perguntava como tantas desgraças podiam estar acontecendo de uma única vez. Também se perguntava como podia ter sido tão estúpido em doar sangue para Lucas e demonstrar tanta preocupação com ele. A verdade é que ele se preocupava realmente com o garoto. Eram irmãos de sangue, afinal.

Depois de ter se perguntado como podiam ter trocado dois bebês cujos cabelos eram de cores diferentes, lembrou-se que Nick nascera careca. Lucas devia ter nascido assim também. Aliás, a coisa mais estúpida do mundo era os nomes dos pais dele: o pai, moreno, se chamava Charles, e a mãe, loira, Mary Alicia.

Como não podia deixar de ser.

É claro que Nick não podia ter sido loiro jamais. Todos aqueles que se relacionaram com os Lemnsack tiveram descendência morena. Doreah Lemnsack era morena, Olannis Olrwen era loiro. Orchild Lemnsack era moreno. Doris Martell era loira. Charles Lemnsack era moreno. Mary Alice Hentz era loira. E seus dois filhos são morenos. E Nick… é ruivo.

Ele até podia entender a revolta de Lorenzo, ele estava quase entrando na pré-adolescência, que é quando todos os garotos ficam com absoluta certeza de que estão certos em absolutamente tudo. Mas Nicholas. O Nicholas que ele amou incondicionalmente desde que tinha dois anos de idade. O Nicholas que ele guardou no coração e não deixou sair mais. O Nicholas que era sua vida, seu motivo de levantar todos os dias, que compunha as bases de sua alma. O Nicholas que ele amava mais que a si próprio. Aquele Nicholas que matara Oliver e que se arrependia disso todos os dias de sua vida.

Bem, ele estava com raiva. Mas passaria. Tinha que passar.

OoO

O dia seguinte era uma sexta-feira e, sem saber por que, Ethan foi à escola. Nick já tinha ido quando ele acordou (o que era incrível, porque Ethan acordou às cinco e meia da manhã), de modo que apenas precisou acordar Lorenzo. Por algum outro motivo, foram andando para a escola. A caminhada remontou ao maior o tempo de apenas um ano atrás, quando todas as coisas eram mais fáceis e a vida era menos complicada.

Estavam fazendo alguma obra no portão da frente, havia várias estacas de metal jogadas no chão. Ethan desejava de todo o coração que Nick não tivesse aberto o bico para ninguém sobre aquela história. Ele já pedira a Lorenzo para que ele fizesse o mesmo, embora não com aquelas palavras. Ainda precisaria falar com Lucas. Ele não podia ficar sem algumas palavras. Também havia toda aquela trama de Rowan e Gillian.

Quando foi que minha vida se tornou um livro de fantasia?

Após deixar Lorenzo em sua sala de aula (apenas porque queria impedir o acontecimento de um possível encontro entre eles), voltou à sua. O Campo Verde, o campo em que ocorreram os primeiros estágios da Revolução M, ainda continha alguns resquícios de baderna. A grama estava esmagada em alguns cantos. Ethan se perguntava como fora possível que Melchior não tivesse posto fogo em todo aquele papel jogado das janelas.

Bem, ele era praticamente Deus. Não era aconselhável questionar suas ações.

Quando se enfurnou na sala da turma Primeira do terceiro ano, na última cadeira da última fileira, simplesmente caiu no sono. Acordou no meio da primeira aula, esta qual Ethan não se lembrava de qual era porque voltou a dormir, acordando apenas no intervalo.

Gabriel Melnick foi vê-lo. Ele viajara durante quase todas aquelas férias da mesma forma que ele fizera com Nick e Lorenzo no ano anterior, onde acabara traindo-o com Danny. Gabriel podia ter feito a mesma coisa. Não, era mais fácil ele sugerir um ménage à trois.

— Você está horrível — ele disse, sentando-se na cadeira da frente da de Ethan. — Na última vez que eu te vi assim, foi quando… — Então se calou. Ethan deu de ombros, ajeitando seus óculos.

— Foi quando eu me lembrei de Oliver. Bem, Oliver se foi, mas meus problemas não. Embora esse tenha, de novo, a doce presença de Nick nele.

— Ah, então não tem nada a ver com você ter levado um tiro no ombro. O que há?

Ethan resumiu da forma mais sucinta possível sua descoberta no ano anterior sobre a verdade sobre o nascimento de Nick e Lucas. Falou que doou sangue para Lucas e sobre a crescente desconfiança do último leão dourado. Esse título era tão inútil àquela hora quanto podia ser. Mas ele fora engenhoso conseguindo os fios de cabelo dos dois Lemnsack Hentz originais.

Gabriel ouviu tudo aquilo com as sobrancelhas franzidas.

— Você acha que eu fiz a coisa certa não contando a ele a verdade?

— Claro que fez, você não podia ter feito qualquer outra coisa. O que aconteceu não foi culpa sua, foi um erro do hospital. Nicholas está bastante irritado agora e provavelmente terá uma crise existencial, mas, bem, ele é um adolescente. Acredite, eu sei como ele pensa, não há pessoa pior para falar sobre si mesmo do que um aspie, de modo que eu observo bastante as maneiras dos outros. Aliás, temos a mesma idade. Adolescentes são todos idiotas e arrogantes. — E então adicionou: — Quando estão com raiva. Apenas espere ele se acalmar e então tenha uma longa conversa com ele. Vai ser difícil, mas não leve o que ele diz para o lado pessoal. Pessoas com o coração partido tendem a mentir. Sabe, Nicholas já foi muito machucado na vida dele, e isso apenas o ensinou a ser uma pessoa cínica e a esperar o pior das pessoas.

— Ele nunca vai me perdoar.

— Bem, você alguma vez já o perdoou completamente da culpa que ele tem da morte de Oliver?

Ethan deu um riso sem alegria.

— Deve ser carma. Estou provando do meu próprio remédio. Mas você tem razão, tenho que me afastar dele por alguns dias… hoje é sexta-feira. O que acha de passar o final-de-semana fora comigo num hotel de luxo?

Ele levantou as sobrancelhas.

— Fora? Fora do país ou de Southeria?

— Podemos ir para Easteria, se você quiser. Não importa, desde que o lugar seja calmo e que a expectativa de vida seja tal que a população de idosos acima dos setenta anos exceda a de adolescentes no meio de uma crise de rebeldia. Acho que não posso aguentar mais nenhum.

— E quem cuidaria dos seus irmãos?

— Nicholas já tem idade para cuidar sozinho de si mesmo e de Lorenzo. Ele odeia a mim, não a ele. É claro que, só por precaução, vou arredondar todas as quinas da casa. Quer ir comigo?

— Vou ter que pedir para minha mãe.

— Ah, sim, esqueci que namoro uma criança.

— Uma criança que vem a ser uma das únicas pessoas que consegue te suportar.

— É verdade. Venha cá. — Ethan puxou-o para si e deu um selinho em seus lábios, calmo e amoroso. Andara ouvindo que o novo coordenador do terceiro ano era um ex-militar neonazista, mas, bem, pro inferno com ele.

OoO

Conforme o dia passava, os três irmãos permaneceram na Academia Alphonse Enoi. Ethan tinha aula a tarde, Nick pretendia fazer todos os esportes que conseguisse antes de ter um ataque cardíaco e Lorenzo tinha aula de música, que andavam mais interessantes do que ele esperava. Na verdade, Goldie andava.

No intervalo da aula, ambos estavam sentados numa mesa qualquer da cantina da Academia. Goldie falava sobre algo no qual Lorenzo não estava prestando atenção, apenas deixava a voz doce dele amaciar seus ouvidos enquanto tomava refrigerante desinteressadamente.

Então sentiu uma mão em seu ombro que identificou como sendo de Nick. No mesmo momento, pensou ter esquecido de como se respirar.

— Lore — Nick disse animadamente. Havia um requinte travesso no tom dele. — Que bom que te encontrei. Não é fácil achar um garoto tão pequeno e adorável como você no meio de tanta gente, mesmo que você seja italiano e cego. — Nick apertou suas bochechas alternadamente. Lorenzo sentiu vontade de matá-lo. — E olá, eu sou Nicholas, você é…?

— Goldie — ele respondeu adoravelmente. — Lovegood.

— Ah, sim, claro que é. Vocês estão na mesma aula de música, não estão? Você já olhou para os olhos do Lore quando ele toca piano? É incrível, eles brilham. — Voltou-se para o irmão. — Eu vou ter que sair agora para fazer umas coisas com um par de gêmeas, as quais espero que não sejam assassinadas. Você sabe, quase tudo que eu toco, morre. Ou quase morre. Depois eu volto para pegar você, certo?

— Ethan pode me levar para casa.

— Foi um prazer, Goldie. — Lorenzo imaginou que eles estavam apertando as mãos. Devia imaginar que Nick não levaria em consideração o nome de Ethan. Ele devia ter morrido para ele. — Depois eu volto para pegar você. — Deu um beijo em sua testa e murmurou em seu ouvido: — Você tem bom gosto.

— Você está bem? — Goldie indagou depois de Nick se afastar. — Está vermelho.

— Estou ótimo — Lorenzo falou, bebendo o resto do refrigerante. — Há mais alguém em volta?

— Hm, não, estamos sozinhos.

— Ótimo. — E dito isso, Lorenzo se levantou do próprio banco, debruçando-se sobre a mesa e encostando seus lábios nos de Goldie, que deixou por um momento antes de se afastar. Apesar disso, agradeceu a Deus por ter acertado sua boca, ao invés do nariz.

— O que está fazendo? — ele indagou, levemente arfante.

— Te beijando, mas acho que a sua pergunta é por que estou fazendo isso. Eu gosto de você. — Oh, olha só, a primeira vez que me declaro para alguém. — Gosto muito.

— Mas… você não pode nem me ver…

— Não, mas posso te tocar. — Então o beijou de novo. Dessa vez, Goldie deixou. Lorenzo deslizou os dedos pela palma da mão dele. — Posso te ouvir. Posso sentir seu cheiro e o gosto da sua boca. Há muitas maneiras de se ver.

— Então me veja de novo. — Então dessa vez foi Goldie quem o beijou. E ali ficaram, por muito tempo.

Às seis horas daquela tarde, Lorenzo decidiu não esperar nem Ethan nem Nick e seguir com Goldie para o portão principal. Ele não poderia ir embora sozinho, é claro, mas poderia desfrutar alguns minutos a mais com ele. Não tinha muita certeza de como as pessoas reagiriam ao verem dois meninos de dez anos andando por aí de mãos dadas, mas ninguém os incomodou. Quase se esquecera de que todos tinham medo de Ethan.

Ou quase todos.

OoO

Nunca mais vou transar com aquelas gêmeas, meu Deus. Que tipo de mente doentia iria querer usar um strap-on?, Nicholas Hentz pensava enquanto voltava para a Academia. Pretendia apenas pegar Lorenzo e ir para casa, tomar um banho e tentar não se matar por estar com tanta dificuldade para andar.

Enquanto se aproximava do portão principal, porém, viu que ele já estava lá com Goldie. Era tão adorável vê-lo vermelho que não resistira em constrangê-lo o máximo que era possível sem que ele lhe batesse. Agora ele estava ali, com os lábios levemente inchados e um brilho não característico nos olhos cinza. Ele estava apaixonado, isso era claro.

É claro que depois Nick teria que conversar com ele sobre as mazelas de ser um garoto que gosta de garotos e que ele não poderia sair exibindo isso por aí, mas, bem, que se fodessem as regras da sociedade. Era tão gratificante vê-lo sorrindo daquele modo apenas por tocar a mão de Goldie que…

De repente, Nick parou, estático, onde estava. Pensou ter se esquecido de como respirar. Lorenzo era cego, por Deus. É claro que ele não viu o pai de Goldie se aproximando deles para levar o filho embora para casa quando decidiu simplesmente encostar seus lábios nos dele.

Puta merda.

Foi quando Ethan apareceu ali, parecendo cansado e sonolento.

Quando Nick viu o pai de Goldie indagar, gritando, o que ele estava fazendo com o filho dele e então o viu empurrar Lorenzo, empurrar um garotinho cego para o chão, sentiu algo inflamar dentro de si. Porém, antes de poder se aproximar e acabar com a confusão que estava prestes a se formar (devia haver umas cinquenta pessoas em volta, alunos e pais), ouviu Ethan falar. Ele não gritou, não foi impulsivo como era de se esperar. Na verdade, seu sussurro foi dito de forma tão calma e passiva que Nick sentiu mais medo do que sentiria se ele tivesse dado um soco no pai de Goldie.

— Você não devia ter feito isso. — E dito isso, Ethan Lemnsack pegou uma das barras de ferro pertencentes à obra dali de perto e simplesmente a acertou no para-brisas do carro do pai de Goldie. Algumas pessoas gritaram e outras se afastaram. Ethan levantou a barra e a desceu de novo; foi quando o vidro se espatifou. Ele jogou os cabelos negros para trás e se aproximou novamente do homem que empurrara seu irmão para o chão; arrastava a barra no chão. Ela fazia um som sinistro. Naquele momento, ele gritou furiosamente com a voz mais alta que Nick já ouvira: — Da próxima vez que você tocar em qualquer um dos meus irmãos, eu vou fazer aquilo — Apontou para o carro — em você.

Todos em volta estavam em silêncio. Goldie tinha os maiores olhos azuis que Nick já tinha visto, mas não estava assustado, ele sentia isso. Lentamente, Ethan jogou a barra de ferro num canto e puxou Lorenzo pela mão, conduzindo-o até o carro. Nick não olhou nos olhos dele, mas sabia que estavam cheios de fúria, por isso não hesitou em entrar no carro também.

Sentado no banco de trás, ao lado de Lorenzo, Nick segurou sua mão. Tremia.

— Vi Sombras por todo lugar — ele sussurrou. — Você literalmente as emanou. Agora sei o que Rowan quis dizer quando disse que elas estão em todos os lugares em que acontece algo ruim. Elas são como uma parte das pessoas que se desprendeu delas e começou a contaminar as outras. São a representação física da raiva, ódio, rancor e etc., porque não se pode fazer uma coisa ruim sem essas características. É por isso que mau-humor é contagioso. — Ele se inclinou para frente no momento em que o carro chegou aos portões do prédio. Ethan fitou seus olhos cegos bem a tempo de Lorenzo lhe dar um beijo na bochecha. — Obrigado.

Ethan estava claramente prendendo o choro dentro de si.

O carro avançou silenciosamente.

OoO

Naquela mesma noite, Ethan disse a Lorenzo que sairia pelo fim-de-semana para algum lugar de Southeria e que voltaria no domingo. Ele não falou com Nick porque sabia que Nick não falaria com ele. Lorenzo sabia que era por causa de Lucas que ele estava indo, e fez questão de dizer isso a Nick.

— Oh, e daí? — Nick indagara irritado. — Se ele quer nos abandonar aqui, que o faça. Sequer teve coragem de falar com Lucas.

— Talvez Lucas não queira falar com ele. Você não quer. E como sabe que ele sabia da verdade?

— Porque ele me disse que, quando eu levei um tiro no peito, doou sangue para mim, mas isso é mentira porque nossos tipos sanguíneos não são compatíveis. Mas o dele é com o de Lucas.

— Como Lucas reagiu quando você contou a ele?

— Ele arregalou os olhos, depois perguntou se eu estava ficando doido, então eu expliquei tudo direitinho detalhadamente. Ele continuou sem acreditar. É um cabeça-dura idiota, exatamente como Ethan. Por que alguém hesitaria em acreditar que é filho de Mary Alice Hentz e Charles Lemnsack se o suposto filho deles lhe contasse? Quando ele finalmente acreditou, voltou para casa e me deixou sozinho lá no telhado.

— Você devia falar com ele direito.

— Não.

— Ele pode ser cabeça-dura de nascença, mas você aprendeu a ser assim, santo Deus.

— Deus jogou um avião no nosso apartamento e nos fez nos mudarmos para um condomínio onde você quase morreu. Deus não existe, Lorenzo. Deus matou Mia, Charlie e Oliver.

— Não, Owl matou Mia e Charlie. E quem é Oliver?

— Um garoto de olhos azuis e cabelos platinados que morreu e mesmo assim ainda conseguiu foder com a vida de todo mundo.

— Você está não está sendo racional, está dominado pela raiva. As Sombras estão aqui.

— Ótimo, espero que elas escureçam ainda mais meu cabelo. Estou com preguiça de pintar de novo e ele está todo ressecado e com pontas duplas… — Nick não terminou a frase porque Lorenzo não resistiu em meter a mão em seu rosto delicado. Ele ficou ali, estático e pasmo.

— Você é um imbecil, Nicholas Hentz — gritou, então foi para seu quarto e se trancou lá.

OoO

O tapa dele doeu mais do que deveria ter doído, Nick pensou, levemente magoado. Talvez não devesse ter brincado com as Sombras se Lorenzo conseguia vê-las. Rowan tinha razão, ele nunca conseguiria compreendê-las mais que alguém que realmente as via.

E falando no Diabo, Lucas Fontanelle estava no hall do prédio, parecendo pensativo. Ele arregalou só levemente os olhos quando viu Nick.

— Quer ir a algum lugar? — o ruivo indagou. Na verdade, não deveria deixar Lorenzo sozinho, mas avisara a ele que estava saindo. E não pretendia se demorar muito. — Podemos ir a qualquer lugar, na verdade. Eu tenho motorista. Você poderia ter também, mas não.

— Você é tão amargo.

— Eu sei. Agradeça por estar aí nesse sofá, e não aqui em pé. Vamos lá.

Dimitri levou-os ao edifício Dasvalkur, o primeiro e único arranha-céus de Middleland, onde Nick passara com Lorenzo seus aniversários do ano anterior. Havia um parque de diversões pequeno lá em cima, e Nick obrigou Lucas a entrar na roda-gigante. Quando o assento dos dois parou no ponto mais alto, Nick relaxou.

— Esse é o ponto mais alto de Middleland — Nick falou. — O mais alto. As pessoas dizem que apenas o topo desse edifício é o mais alto, mas não. Essa roda-gigante é o ponto mais alto desse lugar, então é o ponto mais alto da cidade também. Ninguém está acima de nós, consegue sentir isso?

Lucas estava verde.

— Consigo sentir meu almoço querendo sair pela boca. Pelo amor de Deus, pare de balançar esse assento. Tenho impressão de que essa roda-gigante vai desmoronar a qualquer momento.

— Não seja tolo. Você contou para alguém sobre o que eu te disse?

Ele balançou a cabeça, fazendo a mesma pergunta a Nick.

— Só a Lorenzo, e Ethan acabou descobrindo. Algo me diz que ele contou isso ao namorado dele também, mas ninguém mais vai saber. Como se sente sabendo que é filho de dois magnatas filantropos milionários?

— Horrível — Lucas disse. — Eu nunca gostei de chamar atenção, e você vive com holofotes apontados para você. Isso deve ser horrível.

— Não, é bem legal. Bem, se você pensar no lado bom da coisa, pelo menos agora não precisa se preocupar em morrer de infarto aos quarenta anos, como seu pai.

Lucas olhou demoradamente para ele com um olhar de piedade.

— Samuel Hentz morreu de infarto.

Nesse momento, a roda voltou a girar.

— Bem, não se vence todas.

Permaneceram num longo silêncio até que ela voltasse a parar no topo.

— Middleland é uma cidade bonita — Lucas sussurrou. — As estrelas parecem estar no chão.

— Me fale de você — Nick disse.

— O quê?

— Você pode saber tudo sobre mim na internet, mas eu quero saber como a minha vida seria se eu fosse um Fontanelle, e não um Lemnsack Hentz.

Lucas crispou os lábios.

— Você teria medo de marionetes por causa de um trauma da infância em que ficou perdido numa loja de marionetes por duas horas — ele sussurrou. — Você provavelmente se interessaria por música clássica, porque seu pai se interessava também. Você também gostaria das horas que passou no estúdio de pintura de sua mãe na infância, brincando de pintar os dedos de todas as cores possíveis antes que seu pai morresse e você fosse obrigado a se mudar porque sua mãe não poderia arcar com todas as despesas. Você nunca teria beijado ninguém, mas se interessaria por garotas. Você se apaixonaria pela sua própria prima e levaria um fora enorme dela para aprender a deixar de ser idiota — ele falou com asco. Nick colocou o braço em volta de seu pescoço e puxou-o para si, abraçando-o.

Não sei se estou enlouquecendo, mas me parece que até o cheiro do cabelo dele é igual ao de Ethan.

— E se você fosse eu, você teria um irmão que te amaria mais do que tudo nessa vida, que não precisaria descobrir uma verdade horrível e esconder de você.

A roda-gigante se moveu novamente. Nick pagou por mais dez minutos lá em cima, e logo estavam os dois novamente no topo.

— Ethan sabia? — Seus olhos eram mais negros do que qualquer coisa, eram olhos de um Hentz.

Se nós não tivéssemos sido trocados, será que Ethan estaria fodendo você hoje em dia, ao invés de a mim?

— Como você é bobo. É claro que sim. Mas escondeu de mim.

— Bem, o que você queria que ele dissesse? Tenho notícias terríveis, nós não somos irmãos? Você não está sendo razoável, nem entendendo o ponto de vista dele.

— Eu vivi uma mentira por quinze anos, Lucas. Tenho direito de estar com raiva. E se fosse sua mãe que tivesse descoberto isso?

— E o que ela ia fazer, me devolver?

— Deus, você realmente é irmão do Ethan.

— Não, você é, e sempre será. E Lorenzo me assusta.

— Por quê?

— Ele é horripilante.

— É verdade. Se sua mãe está com problemas financeiros, como vocês vivem naquele prédio e como você estuda na Academia?

— Ele é meio louca. Está usando o resto do dinheiro da herança do meu pai para que vivamos lá tanto quanto possível, o mesmo para a escola. Ela diz que prefere fazer assim, antes que tenhamos que viver como classe média baixa.

— Não vão, não. De um jeito ou de outro, Ethan é seu irmão, e ele nunca te deixaria passando necessidade. Nem que ele tenha que contar a verdade à sua mãe. Qual o nome dela?

— Mary… Alicia. E o do meu pai era Charles.

— E nós nascemos na mesma hora do mesmo dia e no mesmo hospital. Como não podia deixar de ser.

A roda-gigante se moveu de novo.

OoO

Quando Nick voltou para casa àquela noite, encontrou Lorenzo dormindo em sua cama, enrolado nos lençóis e pequeno como a criança que ele era. Cobriu-o melhor e beijou sua testa, sussurrando que o amava.

Então foi ao seu quarto e se despiu, olhando-se no espelho de corpo inteiro. Realmente, fizera bem em tirar os piercings. Eles não combinavam com seu rosto delicado demais. Olhando-se de perfil, Nick encolheu a própria barriga, então a soltou.

Meu metabolismo deve estar baixando, estou começando a engordar. Ah, tudo bem, nada que um regime não resolva.

OoO

O pôr-do-sol de Mono Lake, um lago salino no leste de Sierra Nevada, era realmente bonito. Ethan ficara a observar a profusão de cores roxas, vermelhas, laranjas e azuis que se misturavam no céu como um borrão de tinta, tudo salpicado por nuvens que escureciam cada vez mais.

Já era quase cinco horas da manhã quando chegou lá com Gabriel. O hotel em que estavam era pequeno e modesto, mas era exatamente isso que procurava. Assim, os paparazzi não os descobririam a tempo. Era levemente rústico, feito de madeira e conservava uma vivacidade e antiguidade que Ethan apreciava, principalmente quando jogou o menor na cama e deitou-se sobre ele.

— Finalmente, um pouco de paz — ele sussurrou, sentindo-se sonolento pelo ar pitoresco do lugar.

— Não acha que devia ligar para Nicholas ou Lorenzo e perguntar se estão bem? Sabe, seus pais morreram num acidente de avião e nós acabamos de pegar um.

— Se eu tivesse morrido, eles veriam na TV. Desligue a luz.

Gabriel desligou. Sem nem tirar as roupas do dia anterior, ambos dormiram quase que imediatamente, acordando no entardecer do mesmo dia treze de julho. Aproveitaram o jantar do hotel e então voltaram ao quarto, onde, finalmente, trocaram de roupa. Na verdade, ficaram sem elas.

— Você sabia que eu estou procurando um lugar para trabalhar? — Gabriel indagou. Ethan olhou para ele e levantou a sobrancelha.

— Por quê?

— Porque quero parar de deixar tudo por sua conta.

— Não faça assim.

— Faço sim, e não me diga que deve ser um inferno para um estudante trabalhar, minha mãe já disse isso. E é só um estágio de meio-período. Apareceram alguns lugares disponíveis, um deles é uma agência de publicidade chamada Lovegood & Martell. — Gabriel pareceu esperar que Ethan notasse alguma coisa, mas ele não notou. — Seus sócios majoritários são Stevie Martell e Romney Lovegood, pai de Goldie.

Ethan ficou calado por um momento e então sorriu.

— Tenho certeza que Romney impedirá Goldie de ver Lorenzo — o maior sibilou pensativo. — O que é uma pena. Seria ótimo se eu pudesse obrigá-lo a aceitar o relacionamento precoce de seu filho, mas como eu poderia fazer isso? Hm, Gabriel, aceite o estágio na Lovegood & Martell.

Ele sorriu de canto.

— Sabia que Stevie Martell é um parente distante seu? O meio-irmão do pai dele era um primo distante de Doris Martell, sua avó paterna.

— Quem diria, talvez os resquícios de sangue Martell das minhas veias tenham-no atraído até mim. Mas estou de olho em outro peixe. Romney.

— Você quer destroná-lo.

— Não, não destroná-lo, apenas… ensiná-lo uma lição e ajudá-lo a crescer, só isso.

— Ah, vaporizá-lo.

— É, isso mesmo, por que não? Venha cá.

Ethan beijou seus lábios vorazmente, puxando-o mais para perto de si, apertando-o contra o próprio corpo enquanto aprofundava o beijo. Deixava os últimos estresses que passou transbordarem em forma de luxúria, estimulando Gabriel a fazer o mesmo.

Seus lábios passaram para o pescoço do mais novo enquanto este subia em seu colo, começando a tirar sua roupa apressadamente. Com a respiração tornando-se mais pesada, parecia quase desajeitado com os lábios do outro sugando-o e marcando-o.

Quando as roupas de ambos já estavam no chão, Ethan deitou-se na cama puxando Gabriel para que ficasse deitado sobre si. Começou a mover o quadril para estimulá-lo, os membros de ambos roçando enquanto seus suspiros se misturavam.

Antes que Gabriel se acostumasse, Ethan invadiu-o, estocando ansiosamente. Enrolava os dedos em seu cabelo e puxava os fios, deslizando a língua por seu pescoço, cravando os dentes ocasionalmente. Gabriel apertou as pernas já fracas contra a cintura de Ethan, gemendo seu nome em êxtase e dor, expondo o pescoço para o mais velho.

O ritmo aumentou rapidamente, levando o maior a revirar os olhos enquanto beijava os ombros do mais velho, movendo a cintura em sincronia com a sua, sendo atingido na próstata até quase chegar a ápice.

E então Ethan parou, saindo de seu interior.

Colocou-o de quatro, mandando que agarrasse firme o dossel da cama do hotel. Atou suas mãos ali com os lençóis e afastou bem suas pernas, mordendo suas nádegas e brincando com seu ânus, vendo-o contraí-lo, como se implorasse para Ethan continuar o que havia interrompido.

Invadiu-o novamente, desta vez arranhando seus quadris e puxando-o para si com violência, fechando os olhos e entregando-se ao momento. Naquele momento, Ethan deixou as frustrações da vida e todo o êxtase fluir no movimento de seu quadril. Estocava fundo enquanto arranhava as costas do outro e puxava seu cabelo para expor novamente seu pescoço. Não percebeu que, apesar do óbvio prazer que estava dando a Gabriel, a pequena nota de dor não deixou sua voz até o momento do gozo.

Ethan ainda precisou estocar por alguns segundos antes de finalmente preencher Gabriel e soltar suas mãos, deitando-se ao seu lado de olhos fechados até recuperar o passo da respiração, só então abrindo os olhos para olhar seu namorado e beijá-lo longamente nos lábios.

OoO

Rowan Pyatt não imaginava por que motivos as livrarias baratas de Middleland ficavam todas na periferia, mas sabia que odiava isso. Pelo menos, desde que sua mãe inventara de reabastecer a própria livraria nas mais baratas com ele e Gillian, ele odiava.

Ela não sabia o que estava acontecendo, é claro. Ninguém mais sabia, nem poderia saber. Gillian andava perturbada com as Sombras que pareciam estar tomando aquela cidade para si e Rowan ainda tinha pesadelos com o que vira ao tocar a mulher. Mais de uma semana depois, ele ainda tinha, e a escuridão parecia estar tão densa quanto antes.

Ele ainda não arrumara coragem para tocar o punhal, que permanecia guardado em algum lugar da casa dos Lemnsack Hentz. Não falava com Ethan, Nicholas e Lorenzo já há alguns dias (mesmo que fossem da mesma escola), mas tinha uma ligeira impressão de que havia algo de errado com eles. A profusão de ondas negativas que vinha do andar de cima era surpreendente. Talvez Nick tivesse descoberto sobre Lucas. Talvez alguém tivesse descoberto sobre Ethan e Nick.

Ou melhor, Nicholas, não Nick.

Não voltavam à Ultimum Temporum já há alguns dias, mas Rowan tocou em Gillian e automaticamente viu tudo escuro, para então perceber que aquilo eram as Sombras que se emanavam.

Seja lá a importância daquele punhal que você roubou, era grande, Gillian disse mentalmente enquanto Rowan fitava seus grandes olhos azuis acinzentados. Alguma coisa está muito zangada, alguma coisa poderosa.

Ela sabia da respiração que Rowan sentira vindo daquele buraco da lareira do porão da loja. Que tipo de criatura podia viver na escuridão plena de debaixo da terra? Rowan sempre pensara que apenas pessoas podiam emanar Sombras, mas estava lidando com alguma coisa que jamais imaginara, alguma coisa antiga.

— Estou com medo — sussurro para a irmã. Ela o abraçou, fazendo-o perceber que sentia a mesma coisa. Há uma semana ele não tirava as luvas para tocar em qualquer coisa que não fosse sua irmã. Há uma semana não tinha visões. Gillian, porém, tinha muitas.

Se era normal ela ver apenas o pior lado das coisas, agora as coisas pareciam apenas ter um lado ruim. Aquela bala que devia estar no peito do príncipe Senn, por exemplo, Gillian não vira absolutamente nenhuma alternativa em que ela não machucava ninguém. Não importava o modo como Ethan empurrasse Senn para longe de seu trajeto, ela acertava um deles. Apenas os lugares eram destoáveis.

Tinha outra coisa também que ela vira, mas não contara a ninguém até que Rowan a tocasse: ela via o corpo de Nicholas. Na verdade, se Rowan não soubesse que era ele, não teria identificado a profusão de órgãos e ossos despedaçados num chão irreconhecível. Ele parecia ter pulado de algum lugar. Pulado, não empurrado. Não significava que ele cometeria suicídio, porém, não necessariamente. Se estava com tanta raiva acumulada dentro de si, aquilo era sempre possível. Sempre que alguém ficava com raiva, sem exceção, o suicídio era uma das possibilidades, mas era apenas uma das. Quase nunca acontecia.

Então por que se sentia tão ansioso? Nicholas poderia simplesmente se jogar do telhado de qualquer prédio a qualquer momento, e Rowan nem saberia por quê. Ele poderia ter feito isso no edifício Dasvalkur, Rowan o vira fazendo isso naquele edifício, através dos olhos de Gillian. Ele não fizera, porém. Talvez não houvesse motivo para se preocupar.

Quando se havia muitos talvez e poucas certezas, a única coisa a se fazer era permanecer atento.

Fora sua atenção demasiada enquanto esperava do lado de fora de uma loja de livros usados que o levou a notar uma criança sentada num banco de madeira de uma velha praça dali de perto. Era um menino, muito pequeno para estar sozinho. Ele chorava. E vestia apenas um shorts curto.

Ele não parecia ser um menino de rua, o rosto estava bem cuidado, mas o peito não. Estava cheio de hematomas e cortes e arranhões. Rowan não resistiu em ir lá, tanto que quando percebeu, sentava no mesmo banco que ele.

Tentou tocar seu ombro, mas ele se esquivou, e foi assim que Rowan viu que seus olhos eram os mais negros que já vira na vida. Ou não, os da mulher da Ultimum Temporum eram ainda mais. Mas era estranho, era como se os estivesse vendo em duas cores. Uma delas era preta, a outra era azul… ou talvez verde azulada.

— Jhahantar, Jhahantar. P-Por favor — ele soluçou, se encolhendo no banco. — Jhahantar. N-Não me machuque. Jhahantar. Jhahantar.

— Eu não vou te machucar, nem… ele — Rowan sussurrou. — Está com fome? Sei que não se deve aceitar doces de estranhos, mas você parece faminto. Gosta de chocolate? — Rowan tirou uma barra meio derretida do bolso e a abriu. Quebrou um pedaço e o mordeu, oferecendo ao menino depois. Ele aceitou relutantemente, mas então comeu com voracidade. Rowan deu-lhe o resto da barra então. — Meu nome é Rowan. Qual o seu?

Ele o olhou com olhos suspeitos, mas decidiu contar.

— Bran.

— Bran — Rowan repetiu. Ele tinha cabelos negros, mas quando a luz batia, pareciam ficar castanhos. Ou apenas estivesse louco. Talvez estivessem todas loucas, as pessoas. — O que aconteceu com você?

O menino largou o chocolate e começou a tremer violentamente enquanto repetia aquele nome estranho de segundos atrás. Rowan fê-lo parar segurando firmemente seus braços. Ele estava assustado com tudo.

Tirou suas luvas.

— Você quer ver algo bom? — indagou. Então tirou a luva e tocou o pulso de Bran com o dedo indicador, vendo-o afastá-lo logo depois. — Mantenha a calma, não vai doer. Feche os olhos… isso. Agora deixe-me entrar. — Voltou a tocá-lo.

Concentrando-se o máximo que podia, Rowan pensou na praia de Huntington Beach, uma cidade costeira no oeste Southeria, da Califórnia. Fora lá com apenas nove anos, antes de seu acidente, mas ainda se lembrava daquele lugar o qual o pôr-do-sol fazia parecer o paraíso. Bran gemeu de início, mas então se acostumou com a visão que Rowan esperava que estivesse recebendo. Na verdade, teve a impressão de estar até sentindo o cheiro do sal e da maresia. Quando viu, porém, que o céu de sua lembrança estava escurecendo, Rowan o soltou.

As Sombras contaminavam até suas memórias.

— O que foi aquilo? — Bran indagou, os olhos brilhando. Eles pareciam menos escuros agora.

Parece ser a melhor coisa que ele vê em dias.

— Uma memória minha. Eu posso fazer muitas coisas, posso ajudar você também. Mas primeiro você tem que me dizer o que aconteceu.

Bran balançou a cabeça negativamente, se encolhendo de novo.

— Jhahantar, Jhahantar, Jhahantar… — ele murmurou indolentemente.

Rowan suspirou. Não havia jeito. Aquela criança exalava Sombras.

— Vou cantar uma música para você — Rowan sussurrou. — Me ajudava a dormir de noite quando trovoava e eu sentia medo. Se chama Canção De Ninar Para Uma Noite Tormentosa.

Pequena criança, não tenha medo.

Embora a chuva bata violenta contra o vidro.

Como um estranho indesejado, não há perigo.

Estou aqui esta noite.

Pequena criança, não tenha medo.

Embora trovões explodam e raios flamejem.

Iluminam seu rosto marcado de lágrimas.

Estou aqui esta noite.

E algum dia você saberá.

Que a natureza é isso.

A mesma chuva que te traz para perto de mim.

Cai em rios e terra.

Em florestas e areia.

Cria o mundo bonito que você verá.

De manhã.

Pequena criança, não tenha medo.

Embora as nuvens da tempestade cubram sua amada lua.

E seus suaves feixes de luz ainda mantêm sonhos agradáveis.

Estou aqui esta noite.

Sem que ele percebesse, tocou-o novamente.

Dessa vez, não empurrou-lhe memórias, apenas puxou as dele.

OoO

Quando Nicholas Hentz abriu a porta de casa naquela tarde de domingo, esperava encontrar qualquer pessoa no mundo, menos Rowan Pyatt. Ainda mais naquele estado. Ele parecia não dormir há anos.

— As pessoas são tão complicadas, Nick — ele sussurrou. Então deu alguns passos para frente e abraçou o ruivo que retribuiu hesitantemente. Aquela era a primeira vez que alguém que não fosse Ethan o chamava de Nick e ele não ficava irritado. Por que sempre detestara aquilo mesmo?

Quando Rowan começou a tremer, Nick notou que ele estava chorando e acariciou seu cabelo. Foi só aí que notou que Gillian também estava no corredor. Ela era da altura de Ethan, mas chamava tanta atenção quanto o vento.

Fez um sinal para que ela entrasse, depois fechou a porta.

Sentou-se com Rowan e ela no sofá da sala.

— Preciso do punhal — ele disse. — Preciso tocar nele.

— Você não parece estar em condições de fazer isso.

— Você não entende. Jhahant… — ele começou a falar, mas então tapou a própria boca. — Isso vem acontecendo muito. Apenas me dê o punhal, então eu explico tudo para você.

Ele ainda teve de insistir um pouco mais antes de Nick finalmente se levantar e ir à estante da sala, abrir o livro que na verdade era uma caixa e tirar o punhal de prata de lá. Seu cabo era surpreendentemente pesado, completamente preto com inscrições estranhas e discretas talhadas. Havia um símbolo estranho em relevo amarelo, algo parecido com vários tentáculos se erguendo de um mesmo ponto.

Rowan tremeu quando tocou naquela coisa.

— O que você viu? — Nick indagou.

— Nada que eu não tenha visto ao tocar Bran… só algumas coisas curiosas. Hoje, eu estava na periferia com Gillian e a minha mãe para comprarmos algumas coisas quando vi uma criança seminua numa praça, chorando. Era um menino e o nome dele era Bran. Sendo sucinto, eu toquei nele.

“Eu toquei nele e senti na pele tudo o que ele sentiu. Primeiro, senti meu peito queimar, depois pareciam que várias unhas estavam rasgando minha pele e então que estavam dando socos no meu abdome. Depois que as Sombras se desanuviaram, eu vi pelos olhos dele o interior do porão daquela loja de novo, mas havia várias pessoas lá, todas juntas num círculo. Outras crianças também. E aquela mulher também estava lá.

“A questão, Nick, é que eles começaram a machucar aquelas crianças. Não só machucá-las, violá-las, amedrontá-las. Vi homens estuprando meninas mais novas que Lorenzo, mulheres jogando aranhas nos corpos de meninos para que eles gritassem de terror. Foi a coisa mais horrenda do mundo.

“Mas havia duas crianças desconhecidas lá sentadas em bancos lado a lado as quais ninguém tocava. Mas quando os adultos pararam de machucar as outras crianças, aquela mulher pegou um punhal parecido com esse e simplesmente cortou a garganta deles. Então ela bebeu o sangue e ficou jovem. Isso mesmo, ela voltou a ser Elizabeth. Você entende? As mulheres, Elizabeth e Bathory, são a mesma pessoa. O sangue que ela não bebeu escorreu para um buraco que havia lá e ouvi um urro gigantesco saindo de lá, junto a vários horrores formados por Sombras visíveis.

“Depois que Bran saiu de lá, ele conseguiu escapar de alguma forma que não sei qual, porque o cérebro dele pareceu se desligar depois disso. Ele passou a noite na rua e essa tarde, eu o encontrei.”

— O que fizeram com ele? — Nick indagou com os olhos duros e frios.

— Minha mãe o levou para um centro de assistência social. Eles vão tentar descobrir quem fez aquilo com ele, mas ele não dirá nunca. Está assustado demais para isso, e nunca vai deixar de estar. Eu não contei à minha mãe que o toquei, e disse que me recusaria a fazer isso porque é antiético tocar pessoas. Ela acreditou.

— O que era aquele nome que você disse, mas se interrompeu?

— Não sei, Bran não parava de repeti-lo e o ouvi diversas vezes nas memórias dele. Não tenho coragem de dizê-lo, Nick. As Sombras parecem ficar mais negras quando eu o faço. Como quando aqueles rituais acontecem.

— Mas você pode pará-lo, nós sabemos o que acontece lá.

— Nicholas, você não entende? Agora eu compreendo as memórias de Bathory. Ela não é humana, ou talvez já tenha sido, mas não mais. Aquela mulher é uma serva do que quer que esteja lá em baixo daquele buraco. Se ela tem mil anos de idade, há mil anos ela faz aqueles rituais. Tenho a impressão de que ela o estava alimentando, a criatura. Não adianta pararmos os rituais, não adianta nem destruirmos Bathory. A coisa acorda de tempos em tempos para se alimentar, e se não a tiver, encontrará outra pessoa.

“Tem outra coisa que me esqueci de te contar… quando eu e Lorenzo fomos hipnotizados para lá, Gillian teve uma visão de nossas gargantas sendo cortadas, da mesma forma que foram a das crianças cujo sangue foi bebido. Acho que aquela criança mendiga do terreno baldio de frente da loja tem algo a ver com isso. Quem quer que lhe dê uma moeda, volta lá. E eu e Lorenzo demos uma moeda para ela no dia em que formos comprar a bengala dele, e no mesmo dia voltamos. Bathory bebe o sangue para ficar jovem, mas no dia em que as supostas vítimas não apareceram, ela envelheceu. Por isso estava na meia-idade no dia em que eu roubei o punhal.”

— O que você pretende fazer?

— Pesquisar — Rowan disse. — Hoje em dia, ninguém acredita mais em nada, mas há muito tempo as pessoas acreditavam. E registravam em livros. Não é maravilhoso que nós dois trabalhemos numa livraria que vende livros antigos?

OoO

Maya Pyatt não ficaria feliz ao ver Rowan abrindo o lacre de livros novos apenas para folheá-los. Não estava apenas folheando, porém, estava procurando o símbolo do punhal. O problema é que a maioria dos arqueólogos e simbologistas atuais que também escreviam livros não pareciam estar familiarizados com tentáculos pretos sobre fundos amarelos, o que era um tremendo absurdo.

Aquele senhor de óculos escuros e bengala que sempre vinha, lia um livro e ia embora estava ali novamente. Rowan não sabia que tipo de pessoa lia de óculos escuros, mas sabia que, na mesa dele, havia um exemplar que ainda não olhara, mas precisava de uma desculpa para ir lá pegar. A verdade é que, por algum motivo, estava com vergonha.

A solução surgiu quando notou o copo de café vazio em cima da mesa. Rowan preparou outra xícara e a levou até ele com um pires.

— Com licença, senhor — Rowan disse, sorrindo abertamente. Ele olhou para ele. — Gostaria de outro café? É por conta da casa.

— É muita gentileza — ele disse, abrindo uma fileira de dentes muito brancos. Deu palmadinhas na mão de Rowan como agradecimento quando ele pousou o pires na mesa e pegou o já usado.

— O senhor se importa se eu pegar esse livro de simbologia? — indagou, apontando o exemplar grosso de capa amarela.

— Não, fique a vontade. — E no momento em que Rowan o pegou, o senhor disse: — Mas não vai encontrar nada aí.

Ele parou onde estava, estático.

— Desculpe?

— Esse livro foi lançado esse ano, e as pessoas de hoje em dia não acreditam em mais nada. — Rowan sentiu um arrepio. — Se procura o que quer achar, deve expandir a mente, achar uma brecha no círculo. Contos de fadas.

— O-O quê?

— Um exemplar de Contos de Insônia deve servir. Tem um na estante do gênero fantasia. Página noventa e quatro, se não me engano.

— Como sabe disso? — Rowan indagou, sem saber o que pensar. Teve a impressão de que ele olhava sua alma. — O senhor é cego.

— Sou — ele concordou sorrindo e tirando os óculos escuros, revelando o par de olhos cinza mais vivos que Rowan Pyatt já vira na vida. — Mas isso nunca me impediu de enxergar.

Notas finais
A música que Rowan canta se chama Lullaby For A Stormy Night, e essa é apenas sua tradução. :3

Alguns lugares citados aqui existem de verdade, como Sacramento, Mono Lake e Huntington Beach. :3