Como Vivem Os Anjos
34 O Mundo Não É Feito Apenas Com O Que Se Vê
Notas iniciais
O velho senhor de óculos escuros e bengala estava certo. Na estante de fantasia, Rowan Pyatt encontrou o que procurava na página noventa e quatro de um exemplar de Contos de Insônia. Antes de ir embora, o senhor deixara com Rowan um papel-cartão que parecia ser um cartão de apresentação, mas que apenas continha o mesmo símbolo do punhal grafado em dourado junto a duas únicas frases.
O mundo não é feito apenas com o que se vê
Chaulwen
E do outro lado, outra frase solitária.
A resposta está a uma chuva sem nuvens de distância
Rowan não sabia o que aquilo significava. O senhor sequer dissera seu nome, apenas fora embora sem dizer nem mais uma palavra. Aquilo tudo era estranho demais para ser real, ele estava fazendo uma pesquisa num livro de contos de fadas. De terror, ainda por cima.
— Nada pode ser mais assustador do que o que eu vi no Porão da Bathory — sussurrou a Gillian, sentando-se com ela na mesa de leitura.
O design da página noventa e quatro era feito para imitar um livro antigo, aquelas cujas páginas são de pergaminho e amarelam com o tempo. No entanto, a folha era firme e tinha um inconfundível cheiro de livro novo. No topo dessa, um desenho que imitava tanto o símbolo do punhal, quanto o símbolo do cartão do senhor cego.
Rowan começou a ler.
— Há muito, muito tempo, havia apenas Sombras. E elas dominavam o mundo, cobriam tudo o que nele havia. O sol não brilhava, a colheita não vingava, a água apodrecia antes de ser bebida e a terra morria. As flores não cresciam mais quando as trevas se lançavam sobre elas e sugavam sua vitalidade. E tudo isso era causado por um grande Mal.
“Alarmados com o Mal que aos poucos tomava o mundo, as poucas pessoas que conseguiram resistir, de alguma forma, em meio às Sombras, uniram-se em busca de conhecimento. Eles pediram ajuda aos deuses em que acreditavam e aprenderam a se proteger contra a energia negativa das Sombras, afastando-as gradativamente e buscando harmonia e paz interior.
“Um grande conselho se reuniu em terras florestais, onde seus deuses tinham mais poder, e fizeram um grande ritual para prender o Mal. Mas o Mal também tinha seus adoradores e dele tirava seu poder. As Sombras ficavam mais densas em volta do conselho, quando o ritual começou.
“O ritual foi difícil e muitos membros do conselho perderam suas vidas no processo. No entanto, seus sacrifícios deram mais força à magia dos deuses que lutavam contra o Mal, e o grande Mal foi enviado às profundezas da terra, fadado a eterno exílio. Seus seguidores tentaram trazê-lo de volta, no entanto os progressos eram lentos, não importava quantos sacrifícios oferecessem às Sombras.
“O Mal entrou em estado de hibernação, acordando a cada cinquenta anos para se alimentar. Seus seguidores mantiveram-no vivo através de orações, sacrifícios e do sangue dos inocentes. Em troca, o Mal lhes imortalizava através dos tempos, e assim ele permanece até hoje, trocando de nome de acordo com as eras.”
Rowan fechou o livro e fitou os olhos azuis-acinzentados de Gillian. Tocou sua têmpora esquerda com a mão nua.
E assim ele permanece até hoje.
— Isso é um conto de fadas, Gillian. — Do modo que ela o olhou, não acreditava que era apenas um conto de fadas. E pelo medo que Rowan sentia, nem ele.
OoO
Na noite de segunda-feira do dia quinze de julho, Nick Hentz estava pesando quarenta quilos e duzentas gramas. Saiu de cima da balança apenas de cueca, observando-se no espelho. Apertou a carne de sua cintura e a soltou, irritado. Chutou a balança.
— Lorenzo, sinta a minha barriga. Você acha que eu estou gordo? Aqui, sinta. — Levou as mãos do menor até a própria barriga, esperando-o avidamente. — E então?
— Pare de encolher a barriga.
— Não estou encolhendo.
Lorenzo franziu as sobrancelhas, olhando-o com aqueles olhos amedrontadores.
— Nick, você tem o meu peso. E é só ossos, você quer sumir, por acaso?
— Seria bom. Não consigo emagrecer depressa e meu fôlego quando jogo futebol está muito abaixo do que o normal.
— Talvez porque você esteja magro demais.
— Não, estou gordo demais.
Lorenzo jogou os braços para cima, desistindo. Parecia mal-humorado com alguma coisa quando enfiou a cabeça no travesseiro e começou a tentar se asfixiar.
— O que há?
— Hoje, nossa professora fez uma espécie de dinâmica com a sala. Ela colocou todos os alunos num círculo e deu folhas para cada um de nós, pedindo para que escrevêssemos nossos nomes. Goldie escreveu o meu por mim. Então começamos a passar as folhas para a esquerda, e era para escrevermos na que recebíamos o que achávamos do dono da folha. — Ele abriu a cômoda ao lado da cama e tirou um papel dobrado. — Essa é a minha. Leia em voz alta.
Nick desdobrou o papel e viu uma caligrafia desajeitada lá em cima, continuada por outras ainda piores.
— Lorenzo Lemnsack Barcarolli… Horripilante, estranho, assustador, depressivo, violento. — Tomou ar. — Amedrontador, bizarro, arrepiante… onde crianças de dez anos aprendem essas palavras? Intimidante. Olhos mortos. Olhos vazios. Olhos assustadores. Parece um fantasma. Muito baixo, parece um gremlin, não o alimente após a meia-noite. — Nick reprimiu uma risada. — Isso foi desnecessário. Ah, olha, tem um bonito e talentoso aqui.
— É do Goldie — Lorenzo disse, arrancando a folha das mãos do irmão e rasgando-a em pedaços.
— Eles são idiotas, você é uma gracinha. Eu pegaria você se fosse mais velho, e se não fosse meu irmão. Ah, espera. Você não é. — Nick riu.
— Legal, daqui a uns anos você pode me beijar. — Ele enfiou de novo a cara no travesseiro. — Odeio a minha vida, ninguém me ama.
— Bem-vindo à autêntica adolescência californiana.
— Mas eu sou italiano.
— E é por isso que as pessoas deviam te amar. Bem, se elas têm medo de você… use isso ao seu favor. Imagine que, quando Ethan sair da escola, absolutamente ninguém vai implicar com você por estar namorando o Goldie, nem com ele.
— Eu não estou namorando ele — gritou, ficando vermelho. — O pai dele não o deixou. — Nick beijou suas duas bochechas.
— Lamento dizer, mas com ou sem o pai dele, sim, você está.
OoO
Lorenzo Barcarolli não tinha aula de música naquela terça-feira, por isso decidiu assistir a Nick jogar futebol. Na verdade, apenas estava sentado na arquibancada do campo da Academia calmamente enquanto ele jogava lá em baixo. Ethan devia estar almoçando naquele momento, pois pouco antes trouxera algo para Lore comer.
Nick não havia almoçado, é claro. Ele era um idiota, e isso ficou provado quando Lorenzo sentiu as Sombras começaram a encher aquele campo, seguido de uma movimentação nas arquibancadas.
— O que aconteceu? — indagou aos garotos suados que estavam ali.
— Ele desmaiou — um deles disse. Nem precisava dizer quem. — Será que morreu?
Lorenzo encostou o dedo na testa de Nicholas, afastando a franja molhada de suor. Soube imediatamente que ele estava vivo.
— Não, deem água a ele e algo para comer, esse imbecil não comeu nada desde que acordou.
Ficou ao lado dele acariciando seus cabelos desidratados até que se mexesse novamente, e quando percebeu que Nick estava suficientemente forte, deu um tapa em seu rosto.
— Que é que há com você? — o ruivo indagou irritado, sentando-se.
— Que é que há com você? Como pode ir jogar debaixo desse calor sem ter comido nada? Puta merda, Nick. Ei, esse foi meu primeiro palavrão em inglês.
— Vou lavar a sua boca com sabão.
— Cala a boca. E vá comer alguma coisa, Cristo.
— Não quero.
Ignorando-o, Lorenzo abriu a própria mochila e tateou uma barra de chocolate derretida.
— Tire isso de perto de mim, pelo amor de Deus — ele gemeu. E Lorenzo percebeu que sentia enjoo, até sentiu um pouco também, mas bloqueou aquilo. Andara descobrindo que, além de poder receber impressões do que as outras pessoas sentiam ou pensavam, às vezes acabava sentindo as impressões nele mesmo. Não era muito bom quando estava perto de alguém furioso e triste ao mesmo tempo por ter tirado nota baixa numa prova ou por ter terminado um namoro. — Eu não aguento nem o cheiro do chocolate.
— Você está estranho. Você gostava de chocolate.
— Não há nada de errado comigo, só enjoei de doces.
— Você está mentindo.
— Tudo bem, eu como se você me responder se ainda é virgem. Ai! Não precisa me dar um murro. Você era doce como um cubinho de açúcar, depois ficou azedo como um limão verde. Tudo o que eu toco morre. — Ele riu estupidamente. — Acho que vou pra casa, vem comigo?
— Sim — respondeu enfezado, enfiando o chocolate de volta na mochila.
OoO
Foi cerca de duas semanas depois, no dia vinte e sete de julho, que Lorenzo Barcarolli e Ethan Lemnsack viajaram para Sacramento, capital da Califórnia. Era uma sexta-feira, a cerimônia de posse do Primeiro Ministro seria no dia seguinte e Nick estava convidado também, mas decidira não ir.
— Tem certeza que vai ficar bem? — Ethan indagou antes de sair de casa. Nick estava no quarto, um pouco pálido até, mas parecia bem feliz jogando num videogame portátil.
Ele não respondeu, mantinha uma eterna expressão austera. Não queria ir, e isso não surpreendera a Ethan. Contudo, o fato de ele sequer ter levantado o rosto para contemplar sua expressão magoada o irritou.
— Tudo bem, que seja. Voltaremos no domingo. Tem comida suficiente na cozinha, mas você tem o cartão de crédito. E lembre-se sempre de trancar a porta quando sair. E de alimentar Charlie.
Ethan deu as costas, mas parou no primeiro degrau da escada; deu meia volta e entrou de novo no quarto do irmão, que havia se virado de costas para a porta. Deitou-se na cama por trás dele, o abraçou e beijou sua bochecha. Nick tremeu levemente, mas nenhuma outra reação.
— Eu amo você — sussurrou. Depois levantou-se e, aí sim, deixou seu quarto.
OoO
Os paparazzi já estavam lá quando saíram pelo terminal do aeroporto em meio a uma multidão. Ethan usava óculos escuros e aconselhou Lorenzo a não olhar para as câmeras.
— Ei, Ethan! — um deles gritou. — Dê um sorriso pra câmera!
— Eu não sou o Ethan — respondeu —, nem sei quem ele é.
Pensara em ficar num hotel qualquer de Sacramento, mas descobriu que a maioria deles estava lotado. Pelo visto, haveria um momento da cerimônia aberto ao público, e pessoas do mundo todo vinham para ver, o que era uma grande estupidez. A questão é que Ethan eventualmente descobrira que seus pais tinham uma casa ali quando vivos, numa área chamada Granite Bay. Depois que morreram, John Fauntleroy vendeu a casa a uma corretora e a mesma estava a venda desde então.
Pelo visto, ninguém queria comprar os tesouros dos Lemnsack Hentz, nem se custasse apenas um milhão e meio de dólares. Quando Ethan se ofereceu para alugar a casa durante o fim-de-semana, a corretora logo aceitou, feliz por tirar aquela bomba de suas mãos por pelo menos alguns dias.
Até os móveis estavam da mesma maneira. Charles e Mary Alice tinham realmente bom gosto. A casa ficava em Prior Ridge, rua a qual Ethan chegou logo após atravessar Wexford Cir. Tinha cinco quartos e sete banheiros, duas varandas com vista para um pequeno florestado, hall, sala de estar, sala de jantar, sala de TV, salão de jogos e bar, academia, sauna e piscina, tudo isso em pouco mais de seiscentos metros quadrados.
Ethan não saberia dizer de onde veio metade daqueles móveis ou das artes nas paredes, mas não importava. Sentado à beira da piscina, vendo Lorenzo pular para lá e para cá na água, teve uma sensação de paz que há muito não sentia. Aquele ar puro que apenas os condomínios onde vivia apenas gente branca e esnobe podiam proporcionar estava lhe fazendo bem. Talvez devesse comprar aquela casa. Depois se lembrou de que não tinha nenhum outro motivo para voltar à Sacramento. Talvez para comer Senn, mas tirou essa ideia da cabeça.
OoO
Senn havia dormido até o meio-dia daquele sábado, mas, impressionantemente, o Primeiro Ministro Clark Heath o estava deixando sonolento como nunca com aquela conversa fiada que ele fora obrigado a aturar há cinco anos. E ele só tinha onze anos. Crianças não deveriam ser obrigadas a aturar a conversa dos adultos. Mesmo se fossem príncipes.
Num dado momento, ele finalmente pareceu se tocar. Com seus brilhantes e carismáticos olhos castanhos, finalmente pareceu se tocar.
— Sua Alteza… o estou entediando?
— Na verdade, está. — Olhou por trás dele deliberadamente. — Olha, o sheik árabe está ali. Vai prometer alguns favores a ele para que ele venda o petróleo dele a nós, e não aos americanos.
Deixou o Primeiro Ministro ali, de boca meio aberta.
— Esses adolescentes — Senn sussurrou para si mesmo, rindo internamente. Reuniões como aquelas eram importantes para a maioria dos chefes de estado do mundo. Era aonde acordos silenciosos eram fechados e desfeitos, onde todo mundo trabalhava em todo mundo. — Não entendo por que todo mundo vem me paparicar — comentou com Aileen. Ela vestia um deslumbrante vestido vermelho-sangue até os pés e brincos de diamantes nas orelhas delicadas, onde uma escuta descansava elegantemente na direita, além de um colar de pérolas. — Herdeiro ou não, tenho ou vou ter tanto poder quanto… sei lá. Henrietta.
— Fale baixo — ela sussurrou. — Há fotógrafos por todos os lados, e eles não registram apenas imagens. Você é um dos anfitriões, pare de ser tão irritante.
— Mas estou apenas sendo eu mesmo.
— Exatamente.
Senn atravessou o monumental salão de festas do palácio real graciosamente, sorrindo para onde deveria e cumprimentando presidentes e primeiros-ministros, reis e rainhas, príncipes e princesas, atores e atrizes de cinema e estrelas da música. No geral, todos tinham o mesmo papo, as mesmas intenções, os mesmos sorrisos e expressões forçadas.
Havia um lago artificial ao lado do palácio chamado de Lago Aquortus, palavra que provinha de uma estranha mistura de palavras do latim, ou algo assim.
Quando percebeu que o gramado inclinado em volta do lago estava vazio de gente e fotógrafos, Senn arrancou os sapatos e pôs-se a respirar um pouco. Não fora fácil sair dali sem que ninguém o visse. Também não fora fácil trazer aquela garrafa de vinho consigo, mas ele conseguiu.
Mas me esqueci do saca-rolhas. Imbecil.
OoO
Ethan Lemnsack nunca estivera tão nervoso. Não, estivera sim, quando tivera que ouvir Nick discursar perto do príncipe Senn, da rainha e do Primeiro Ministro. Mas agora, a sua volta, eles pareciam se multiplicar.
Muita gente foi falar com ele deliberadamente. Reconheceu algumas pessoas, atores e cantoras, e todos lhe perguntavam como estava seu ombro e como ele fora corajoso em colocar-se na frente da bala de Senn e blablabá. Ethan sorriu enquanto beijava o anel de diamante da rainha Henrietta, sorria enquanto respondia que seu ombro estava bom, apenas ainda um pouco dolorido.
É claro que Ethan não conseguiu deixar de notar que praticamente todas as pessoas que falavam com ele, não vinham sem interesse. Era verdade que ele era apenas um adolescente, mas a possibilidade de ele fazer tanto quanto John Francis Hentz fez era avassaladora, e todos queriam um pedaço. Alguns perguntavam de Nicholas, a maioria só por cortesia.
Era incrível o quanto as pessoas conseguiam ser falsas por absolutamente nenhum motivo. Até Cornelius Goldenschild veio falar com ele, o membro mais rico da família mais rica de todos os tempos, uma dinastia de banqueiros cuja ascendência provinha desde os confins da Europa e partes da Ásia, de famílias reais e casas nobres do século XIV. Contava-se que fizeram grande parte de sua fortuna no fim das guerras napoleônicas, mas era só um boato. Ao terem conhecimento de que a Inglaterra vencera, lançaram um rumor de que Napoleão havia ganhado a guerra. Com isto, a bolsa praticamente zerou e, assim, os Goldenschild compraram quase que a economia inteira da Inglaterra. Quando foi sabido que os ingleses haviam vencido os franceses, os Goldenschild emergiram como a família mais rica da Europa. E depois do mundo. Dizia-se que eram donos de metade dele.
Tudo bem. Eu serei dono da outra metade. Quase teve vontade de dizer isso a Cornelius, mas acabou se controlando. O homem emanava poder com aqueles profundos olhos dourados logo abaixo de sobrancelhas cinzentas.
Ethan tinha sempre a impressão de que Lorenzo se comportava melhor que Senn. Não conseguira falar com o príncipe a noite toda, pois um estava sempre ocupado quando o outro estava livre. Num momento em que pensara ter perdido Lorenzo de vista, o encontrou nas graças de uma jovem princesa escandinava.
Melchior o ensinara bem a arte da manipulação, foi isso que Ethan constatou pouco antes de ver duas fogueiras púrpuras fitarem-no ardentemente.
Quase deu um pulo para trás de susto.
— Melchior? — indagou sem acreditar. — Melon Chioren? Você?
— Em pessoa — ele sussurrou sorrindo aquele sorriso travesso e venenoso. — Ninguém mais teria esse rostinho. Não é ótimo estar aqui? Achei um brinco de diamante no chão, você acha que seria indelicado eu enfiá-lo no meu bolso e não devolver?
— Que diabos está fazendo aqui? — indagou ainda meio embasbacado. — Tentando dominar o mundo?
— Ainda não, mais tarde — ele balançou os cabelos cinzentos. — Bem, depois do Massacre da Coruja e da Revolução M, acho que o país quis ter um pedacinho do Melchior, então estou aqui.
— Só por isso?
— Não. Sabe a série Lympharia? Então, eu a escrevo desde que tinha uns… dez anos. Só que eu publiquei com doze. Só que as pessoas não leriam um livro escrito por um garoto de doze anos, então encobri minha imagem.
— Sim, sim, e daí?
— Calma, meu bom rapaz. — Ethan não conseguia ter calma. Melchior parecia ter algum tipo de magia negra que inflamava o lado hiperativo que existia dentro dele com aquele modo irritantemente calmo e lento de falar. — Acontece que o misterioso autor acabou atraindo uma legião de fãs por todo o mundo. Depois que eu apareci na mídia, não sei como diabos as pessoas fizeram uma ligação entre o adorável garoto Melon Chioren e o autor Melchior, mas, bem, fizeram. — Ele deu de ombros. — Agora mais de dois milhões de fãs meus sabem quem eu sou e não param de mandar cartas para a minha casa. Queimo a maioria, mas às vezes acho dinheiro em algumas.
— Então agora você é um escritor famoso.
— Parece que sim, por isso recebi o convite. Já falei com uns cinco diretores de Hollywood que quiseram transformar meus livros em filmes. Eu gostaria de ganhar um caminhão de dinheiro para isso, mas então teria que vender os direitos de Lympharia e… oh. — Ele suspirou dramaticamente. — Não há quem consiga transformar mais de mil páginas em um filme decente. Eu escrevo muito rápido, você não acha?
— Acho. A Sociedade das Pequenas Caixas me mostrou isso.
Melchior riu largamente, tocando o ombro de Ethan. Curiosamente, o que estava machucado.
— Todos nós temos segredos. Alguns são piores, outros não… mas todos nós temos. Então peguei todos os de Jardim de Ouro e enfiei num livro. Não se preocupe, há certas coisas que não me interessam que sejam de conhecimento público que eu simplesmente não coloquei.
— Imagino.
— Você está estressado, triste, amargo e azedo. Você não costumava ser azedo.
— Como você é doce.
— Obrigado. Eu trouxe Daemon comigo, sabia? Acho que gosto mais dele que de Marco agora.
— Que horror.
— Não se preocupe, eu não contei isso a eles. Embora ache que Marco saiba. — Havia algo de deprimente na imagem dele. Ethan se admirava que aquele garoto abominavelmente complexo conseguisse combinar um terno e um sobretudo. — Eu recebi dois convites para vir à Sacramento, então decidi levar um dos meus irmãos ou primos, dizendo a eles que quem me agradasse mais até o dia da festa, seria quem eu levaria. — Melchior deu uma risadinha. — Devo dizer que foram as melhores duas semanas da minha vida. Eu nunca precisava me levantar da cama.
— E por que escolheu justo Daemon?
— Uma coisa interessante são os Chioren, sabe? Eles são imprevisíveis, todos eles. Uma certa noite, quando todos eles estavam dormindo, eu saí do meu quarto para ir beber água e encontrei Daemon chorando no sofá. Eu perguntei a ele por que chorava ali, no escuro. Então ele me perguntou se chorar no claro era menos doloroso.
Ethan ergueu as sobrancelhas.
— Eu disse que não, mas que, assim, as Sombras iam embora. As Sombras, sabe? Aquela palavra que o Oliver usava o tempo todo para expressar tudo de ruim, mas, oh, bem. Depois eu pretendia voltar para cama, mas antes de desligar a luz, ele chamou meu nome, eu virei sonolentamente e então ele me disse, ainda chorando, que era gay. Dei de ombros, disse que já sabia e que eu também era. Então apaguei as luzes e voltei ao meu quarto. Momentos depois, ele veio e perguntou se poderia dormir comigo. Eu disse que sim, ele disse que as luzes tinham que ficar desligadas. Eu perguntei por quê. Então ele disse: porque assim você terá algo do qual me proteger. — Ele suspirou. — Mas Marco ainda é obcecado por mim.
— Você errou.
O sorriso de Melchior sumiu.
— Pensava que Marco era o mais parecido com você, mas não, Marco é um Melchior extremado. Ou seja, tudo de ruim que você tem está concentrado nele. Daemon é um Melon extremado, é uma concentração de todas as suas qualidades.
— De um modo ou de outro, ambas as características são ruins. Mas digamos que Daemon… seja menos pior. Mas me fale de você. O que há com a sua vida?
— Pensei que você soubesse de tudo, que estivesse em todos os lugares.
Ele deu um riso debochado, balançando os cabelos graciosamente.
— Você pergunta por que Deus deixa guerras acontecerem?
— Que bela resposta.
— Obrigado, mas não respondeu a minha pergunta.
— Por que eu responderia?
— Gosto de saber das coisas.
— Então devia saber que Oliver não era esquizofrênico.
Ethan viu seus olhos faiscarem para então permanecerem cor-de-rosa sob a luz forte que dourava aquele recinto barulhento.
— Eu nunca disse isso a ninguém… mas você já se perguntou por que diabos um garoto de oito anos denunciaria um abusador sexual, sem ter um pingo de maturidade no assunto para isso? Eu tive um sonho, uma vez. — Ele lambeu os lábios secos. — Eu estava num campo completamente negro, caindo e caindo sem parar. De repente, uma luz azulada surgiu no céu e se revelou na forma de uma mulher que parecia um anjo e, ao mesmo tempo, uma mulher normal. Ela falou comigo, Ethan. Ela me disse o que eu devia fazer. Quando eu contei isso a Oliver, ele disse que as Sombras me tocaram, depois os azuis as afugentaram. Não sei se ele era louco ou se não era, não importa, ele está morto. Gostaria que não estivesse, mas está. — A força que Melchior pôr na última palavra assustou até a Ethan. — Por que fica levantando esse assunto o tempo todo? Você gosta de se torturar?
— Gosto de me lembrar de Oliver porque penso que essa é a única maneira de ele ainda existir.
— Mas por que ele ainda precisa existir, Ethan? — indagou irritado. — Existe algo que eu deveria falar, algo sobre Owl e Piazzavuota, algo que eu tive que extrair da mãe do Oliver, mas não.
— Você falou com a mãe dele?
— Tentei, ela está louca, internada num manicômio em Castellobranco. O pai cometeu suicídio uns anos atrás. Não importa. Que droga, Ethan. Você continuará enlouquecendo todo mundo se levantar toda essa história de novo.
— Ela já está levantada, Melchior. Você é um sociopata psicopata, e não sei como isso é possível, mas tente se aproveitar da sua falta de empatia e cale a sua boca e me escute. Oliver não se foi. Ele morreu, mas não quer dizer que tenha-se ido. Acho que ele continua ao lado de todo mundo que ele já amou na vida, do seu e do meu também. Jogar isso para baixo do tapete não vai funcionar, é o que a Prefeitura de Middleland está tentando fazer com o Massacre da Coruja.
— Que é que você está dizendo?
— Não sei bem. Não compreendo as Sombras tão bem quanto Gillian. Ou Rowan. Sinto muito por ter falado com você sobre isso, mas Nick não fala mais comigo e Lorenzo é muito novo, e tenho medo de que se me aproximar do Rowan de novo vou acabar tirando a virgindade dele. Você sabe onde o príncipe Senn está?
Ele parecia mais confuso do que jamais estivera, além de irritado e triste ao mesmo tempo. Mas então tudo aquilo caiu, e sua máscara de ferro de olhos púrpuras e sussurros surgiu de novo, expressando absolutamente nada além de cinismo e uma absoluta falta de empatia.
— Está no gramado de fora do palácio, aquele perto do Lago Aquortus. Talvez queira levar um saca-rolhas.
— Certo, obrigado. Aproveite sua vida, Melchior. Ninguém sabe quando ela pode repentinamente acabar. E já que Lympharia é muito grande para virar um filme, por que não uma série de TV?
OoO
Já era meia-noite quando os fogos subiram e Senn Walker-Fellow ergueu a garrafa meio vazia de vinho, gritando em comemoração. Ele estava completamente bêbado, Ethan percebia isso, sentado a seu lado.
— Sabe, Ethan. Quando eu tinha uns oito anos, eu acho — ele disse engroladamente, dando outro gole no vinho —, eu dizia aos meus pais que eu queria ser um policial. Meu pai disse que eu não podia, porque um dia seria rei. Eu me tranquei no quarto e comecei a chorar, só saí quando Henrietta ameaçou queimar todo o palácio se eu não saísse. — Outro gole. — Você acha que ela teria mesmo feito isso? Acho que não, já que ela mora aqui. É onde estão os diamantes dela.
— Diamantes resistem ao fogo.
— É claro que sim, você é tão inteligente e bonito. — Ele riu. — Desculpe, nunca tinha bebido antes, sempre abominei isso, na verdade. Você não quer?
— Percebo que sim. Não, obrigado.
— Bem, depois que eu saí do quarto, Henrietta me pegou pelo cabelo e me forçou a olhar pela janela, colocando metade do meu corpo para fora. Ela disse: vê tudo isso? Tudo isso será seu um dia, agora pare de chorar, seu merdinha, ou te jogo para fora dessa janela. Você acha que ela teria feito mesmo isso?
— Acho difícil.
— Que pena, eu acabei me submetendo a ela, assim como Jaime e minha mãe fizeram. Meu pai também, olha só, e toda a família de George Fellow também. Louise-Marie não fez e acabou morta.
— Mas ela morreu de AVC.
— E você acha que as pessoas morrem assim de AVC, de repente? Não sei como, mas tenho quase certeza que minha bisavó fez aquelas artérias da cabeça da minha avó explodirem de repente. Não sei como, mas vou fazer ela me dizer antes de morrer. Ethan… — Senn se aproximou perigosamente — sabe por que é tão importante que eu assuma a Coroa?
— Não faço ideia.
O príncipe começou a rir.
— É tanta idiotice que você não imaginaria. Olha só, você sabe que o primeiro presidente americano que teve de lidar com as revoltas que Henrietta incitou foi Roosevelt, não é? Pois bem, ele saiu em 1945, então não teve de aguentar muito. Quem teve de segurar a barra foi Harry Truman, que não era assim tão idiota. Bem, olha só que idiotice. — Ele riu mais. — O acordo que Henrietta fez com ele para acabar as revoltas e acertar a emancipação da Califórnia dizia claramente que se a linhagem sanguínea de Henrietta Mary Alexandra Walker acabar, a Califórnia será devolvida aos Estados Unidos como estado!
Então Senn voltou a rir histericamente, bebendo mais vinho. Ethan estava boquiaberto, horrorizado.
— Mas… isso é horrível.
— Eu sei, por isso ninguém sabe. Quer saber outro segredo, Ethan?
— Eu não acho que devo.
— Mas vou contar mesmo assim. Henrietta não tem linhagem sanguínea. — Ele não esperou Ethan dizer algo. — Quando ela teve Jaime Walker-Fellow, o bebê acabou morrendo de insuficiência cardíaca, ou algo assim, não sei bem. Mas acontece que Henrietta teve hemorragia durante o parto, tendo de ser realizada uma histerectomia de emergência nela. Imagina como o médico se sentiu em esterilizar a rainha? Bom, a questão é que ela arrumou outro bebê no mesmo hospital de alguma outra família obscura que tinha olhos parecidos com os dela, pagou subornos suficientes a todo mundo e esse bebê cresceu para se tornar meu avô Jaime.
Ethan estava sem palavras.
— Há uma teoria da conspiração circulando por aí sobre isso, mas é só uma teoria. Oh, espera, não é não. — Mais risos de Senn, que terminava a garrafa de vinho. — Acho que os americanos descobriram isso. Por que acha que me querem morto, Ethan? Acha mesmo que o cara que tentou me matar estava louco? Estava louco pela grana que ia ganhar, isso sim.
— Como você descobriu isso?
— Jaime me contou. Por isso ele começou a surtar no meio daquele pronunciamento, ele tinha acabado de descobrir aquilo. Por isso Henrietta não o deixa sair do hospício, para que ele não saia espalhando essa história por aí. Eu fui falar com ele há pouco mais de um ano e, olha só, ele está são como uma criança, completamente lúcido. Mas vai morrer naquele lugar.
— Não se você for rei antes de ele morrer.
— Ethan… pensa bem. Você gostaria de ser americano? Não, eles nos odeiam e nós odiamos eles, o mundo todo sabe. Por que eu o deixaria sair se o sonho da vida dele é confirmar essa história? Tenha santa paciência. Sabe, se a rainha morrer antes que eu complete dezoito anos, a maioridade penal da Califórnia será abaixada para dezesseis anos. Isso significa que, ano que vem, seu irmão poderá dirigir e se casar. E olha, acho que isso não é muito improvável. Duvido que ela passe desse ano. Nah, acho que é por isso que Henrietta me odeia, porque eu sei da verdade. E porque eu sou uma bicha, vou morrer sem filhos e a Coroa vai passar para Toni, tomara que ela tenha filhos. Ela é da idade de Lorenzo, por que não fazemos um casamento arranjado? Gostaria de ser cunhado da futura rainha, Ethan?
— Acho que você está bêbado demais.
— Também acho, mas não posso voltar lá pra dentro assim. Seria um escândalo. Você tem que me levar para o meu quarto, fica lá… — Senn apontou para um canto qualquer de um dos prédios que compunham o palácio real. — Não, lá é a biblioteca. Não lembro onde é meu quarto, é melhor perguntar à Aileen.
— Quem é Aileen?
— Minha tutora, é fácil achá-la, ela é loira de olhos azuis.
— Senn, metade da Europa está aqui, é todo mundo loiro de olho azul.
— Que azar. Mas Aileen está usando um vestido vermelho e uma escuta no ouvido para falar com os seguranças, parece uma espiã internacional.
Ethan ajudou Senn a subir a colina de volta para o gramado antecedente ao salão de festas do palácio quando viu um par de furiosos olhos azuis e cabelos loiros agarrarem o príncipe pela gola da camisa.
— Graças a Deus você está vivo e… meu Deus, quanto vinho você tomou? Eu virei esse palácio de cabeça para baixo à sua procura, seu inconsequente, enquanto você se embebedava. — Então virou os olhos para Ethan e falou da forma mais amável que ele já ouvira: — Obrigada por trazê-lo de volta, senhor Lem…
— Ethan.
— Ethan. — Depois Aileen voltou a fitar furiosamente Senn, que, apoiado no ombro dela, estava meio adormecido.
— Você fica linda furiosa, mas acho que agora preciso vomitar. — Senn fitou Ethan com aqueles olhos verdes acinzentados e sorriu. — Nós nos veremos de novo.
— Acredito que sim.
Quando Senn e Aileen sumiram por alguma espécie de porta secreta bem ao lado das largas janelas do salão principal, Ethan voltou para lá com uma espécie de leveza na cabeça. Melchior estava falando com dois homens de terno carismáticos que sorriam e balançavam a cabeça o tempo todo, Daemon estava se empanturrando de comida e Lorenzo estava falando com a princesa Antoniette. A nova, Toni, irmã de Senn.
Na verdade, ele a estava fazendo rir.
Ora, quem sabe eu me torne cunhado da futura rainha.
Foi com esse pensamento que Ethan Lemnsack se deparou com outro par de olhos azuis, mas dessa vez mais escuros e profundos, emoldurados por cabelos cor mel.
— Meu Deus, há quanto tempo eu não te vejo?
— Faz uns sete meses — Amy Bellafonte respondeu. Ethan aproximou-se dela e a abraçou pela cintura, rindo baixinho.
— O que está fazendo aqui?
— Meu pai é governador de Southeria, esqueceu?
— Um pouco, não votei nele.
— Nem eu.
Ambos riram como há muito não faziam. Amy terminara a escola ano passado e desde então ingressara na faculdade de Jornalismo. Mas a faculdade dela era tão longe que devia estar duas quadras depois de onde Judas perdeu as botas.
— Como está a sua vida? — ela indagou. Ethan não sabia bem se devia dividir suas aflições com ela, eram tantas e tão pesadas que preferia guardá-las dentro de seu coração, como sempre fazia.
— Está… — Nesse momento, seu telefone tocou. Pensou em desliga-lo, mas então viu que era Nick. — Tenho que atender.
— Tudo bem.
— Alô?
— A culpa é minha, não é?
— O quê? Nick…?
— De eu ter sido trocado, a culpa é minha não é?
— É claro que não, como poderia?
— Podendo. Não sei se é efeito colateral de Rowan ter me tocado, mas estou começando a ter lembranças de quando eu tinha três, dois anos de idade em formato de sonhos.
— Nick, são só sonhos.
— Não, são lembranças. Eu estava no berçário, bem ao lado de Lucas. Eles tinham um pequeno cartão metálico que usavam para identificar os bebês, e o meu estava pendurado no meu berço. Mas eu bati a mão no berço e derrubei o cartão.
Havia uma cacofonia horrível na ligação que Ethan tinha uma sombria certeza de não estar sendo causada pela longa distância.
— Só que eu derrubei o cartão de Lucas também, então quando a enfermeira veio, ela colocou os cartões de volta, mas em ordem trocada. Eu estava chorando muito, então ela, pensando que eu era Nicholas Hentz, me levou de volta para a mãe. Lucas era Nicholas, mas então se tornou Lucas por minha causa.
— Não é sua culpa, pelo amor de… Você tinha um dia de vida.
— É sim, sempre foi, as coisas ruins sempre foram minha culpa, Ethan.
Ethan percebeu então que Nick estava chorando e que sua voz estava meio engrolada.
— Nick, você está bêbado.
— Você só diz coisas que eu sei, por que então não me chama de culpado? Eu matei Oliver, matei, matei, matei, matei, matei…
— Nicholas!
— … matei, matei, matei. Ele morreu gritando e chorando por minha culpa. Eu o matei, eu o estuprei, eu o fiz chorar. Por que você me ama? Eu sou a maior calamidade da sua vida.
— Ethan… — Lorenzo sussurrou. O maior nem percebeu que ele se aproximara. — O seu celular está… exalando Sombras.
Então Ethan percebeu o que era aquela interferência toda vinda do outro lado da linha. Era o vento.
— Ligue para a polícia e a mande para a minha casa — disse à Amy. Ela o fez, subitamente alarmada. Voltou a falar com Nick: — Nicholas, se você estiver no telhado do prédio, escute…
— Eu deveria fazer isso, Ethan. Eu deveria pular. Dá tanta vontade, e a cidade é tão bonita à noite… o vento é tão frio… eu…
Um chiado, então a ligação caiu. Ethan apertou o celular entre os dedos. Sem sinal, ele dizia cruelmente. Seu coração pipocava no peito.
— Eu tenho que voltar para casa ou Nick vai se matar. Merda, eu preciso voltar agora.
— Não se preocupe — Amy sussurrou. Seus olhos ardiam e sua voz perdeu aquela docilidade característica, ficando forte e ousada. — O governador tem um helicóptero.
Notas finais
Btw, que acharam da aparição do Melchior e da Amy? :D
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