Como Vivem Os Anjos
54 Aquele Que Está E Sempre Estará No Topo
Notas iniciais
I'm a wild and an untamed thing.
I'm a bee with a deadly sting.
Get a hit, and your mind goes ping.
Your heart'll thump and your blood will sing.
So let the party and the sounds rock on.
Gonna shake it till the life has gone.
Rose tint my world
Keep me safe from my trouble and pain.
(Wild And An Untamed Thing
— The Rocky Horror Picture Show)
OoO
Ele estava numa limusine, vestido formalmente sem necessidade, indo para o Palácio Real Hentz quando Jules du Pont ligou e deu-lhe a notícia. A primeira palavra que surgiu em sua cabeça foi Melchior.
— Ele estava acompanhado quando caiu? — indagou tentando manter a voz controlada. Por dentro, estava sentindo ódio. Um ódio tão puro e irrefreável que lhe dava até medo. Rezavam as lendas que Samuel Hentz estivera discutindo com seus investidores majoritários quando teve aquele infarto fulminante que o mandou para o túmulo com apenas setenta anos.
— Estava com o primo dele, sabe, Melchior. Eu vi essa notícia hoje de manhã na TV. Nunca vi um rosto tão culpado, choroso e deprimente quanto o de Melchior. Ele disse que Robb estava tentando desafiá-lo para ver se conseguia se pendurar para fora do andaime e Melchior disse para ele ir lá e tentar. Ele foi e tentou. Mas ele caiu. Eu sinto muito. Talvez queira ligar para ele. Podem se consolar.
Ethan sabia que Jules não fazia a mínima ideia de como ultimamente andava sua relação com Melchior — se é que ainda existia alguma relação —, mas não conseguiu achar uma resposta educada para dar a ele quando ouviu aquilo. Podem se consolar. Não conseguia raciocinar direito; tinha apenas uma coisa berrando em sua cabeça, uma frase, uma certeza, urrando, batendo como um martelo numa bigorna.
Melchior o matou.
Melchior o matou.
Melchior o matou.
Melchior o matou porque não suportou vê-lo saindo de suas garras violeta para os braços de Ethan. O matou porque era um psicopata arrogante, um narcisista megalomaníaco que deixaria o próprio Narciso parecendo humilde. Melchior era mesmo capaz de se afogar ao tentar abraçar seu próprio reflexo na água. O problema era que se ele estivesse ali diria que Ethan era a mesma coisa. E não estaria muito longe da verdade.
O fato de não poder fazer absolutamente nada o irritou a ponto de lhe dar dores no peito, o que o forçou a jogar o cigarro fora. Tinha apenas dezoito anos — estava a uma semana de fazer dezenove —, e já tinha dores no peito! Aquilo era inaceitável. Para seguir a tradição, ainda teria que viver mais cinquenta e um anos. Não sabia se suportaria. Ninguém tinha lhe dito que ser um Hentz era tão difícil. Mas que diabos. A essa idade John Francis Hentz estava entranhado nos desertos da África do Sul, passando sede e tentando não ser assassinado, com picadas de mosquitos do tamanho de beija-flores, segurando nas mãos o maior diamante da face da Terra. Ethan estava numa limusine, cheio de joias, indo confortavelmente para o trabalho. Não tinha direito de reclamar.
O carro parou em frente a uma construção imponente do centro da cidade. Era uma casa. Lorenzo tinha dormido lá na noite anterior. Era estranho. A primeira vez que ele dormia fora, com um amigo. Ele entrou calma e elegantemente no carro após o chofer abrir a porta, como era de seu feitio. Sendo quase hora do almoço, devia estar faminto.
Ethan acenou gentilmente para a mãe do garoto amigo de Lore.
— Tchau, Lorenzo! — ele disse animadamente.
— Tchau, Reid — ele respondeu educadamente, num tom de voz moderado. Ethan achou que fora um pouco formal demais. Quase um pequeno nobre falando com um plebeu. Era mais ou menos isso.
— Como foi lá? — perguntou quando o carro voltou a andar.
— Legal — ele disse. Ethan imaginou que ele não fosse dizer mais nada. — Metade do quinto ano da Academia me odeia.
— Oh, Deus. Devo perguntar por quê?
— Porque eu sou cego. Bem, não é exatamente por isso. No começo do ano passado, logo nos primeiros dias de aulas, dois garotos, Henry e Thomas, meio que estavam forçando para serem meus amigos, mas eles não eram amigos entre si. É óbvio que provavelmente alguma professora havia pedido isso a eles. Ela devia achar que eu não conseguiria fazer amigos por causa da minha deficiência visual.
Ethan sabia que ele estava zombando de si mesmo. Lorenzo odiava que chamassem sua cegueira de deficiência visual, ou ele de deficiente visual.
— Mas, bem, enquanto Henry foi sempre bem legal comigo, Thomas meio que deixava claro que só era meu amigo porque foi obrigado a isso. Ele nunca falou. Mas eu, naturalmente, sempre percebi. No período que eu passei deprimido, Henry sempre vinha me consolar. Eu inclusive contei a ele que gostava de Marco. E ele foi a primeira pessoa a saber sobre Goldie. E nunca se importou. Ele também nunca tinha visto dois garotos se beijando, por isso pediu que eu e Goldie nos beijássemos na frente dele e nós fizemos isso.
“Quando Goldie morreu, Thomas meio que zombou de mim. Pelas costas. Ele é daquele tipo de criança que age de um modo na frente dos adultos e de outro na frente das crianças. E é absurdamente falso. Percebi que, esse ano, ele só continuou a andar comigo porque descobriu que a honorável família Hentz tem um patrimônio de bilhões de dólares e que eu tenho uma herança de quarenta milhões. Ou seja, porque eu sou rico. Mas eu notei isso e comecei a ignorá-lo. Há algumas semanas, ele deu uma tremenda festa na casa dele e convidou praticamente o quinto ano inteiro, exceto eu e Henry. Ele começou a espalhar um boato que dizia que quem tocasse em mim ficaria cego.”
Ethan começou a se sentir enjoado.
— Quando Henry descobriu isso, deu um soco nele. Eu não pude ver, mas foi na minha frente, e eu sabia que tinha acontecido. Comecei a rir desesperadamente. Não, estou falando sério, eu me dobrei para frente de tanto rir. E… você consegue me imaginar fazendo isso?
Tentou imaginar o pequeno Lorenzo rindo infantilmente de pura felicidade ao invés de sua habitual risada sarcástica. Não conseguia imaginá-lo sendo uma criança, na verdade. Tudo nele o envelhecia, exceto a aparência. Mas, bem no fundo, nas profundezas de seu coração europeu, ele ainda era um garoto de dez anos que gostava de jogar bola com os amigos e praticar piano e violino incessantemente.
— Não consigo.
— É, e nem os outros alunos do quinto ano. Acho que foi isso que os fez perceberem que eu não sou um vampiro, e sim uma pessoa completamente normal. Ah, esse é outro boato que Thomas espalhou.
— Lorenzo, você é um italiano cego superdotado que entende sarcasmo até bem demais e é descendente de bruxos. Você não é normal.
— Eu sei. Mas eles não precisam saber. Bem, depois do soco Henry foi suspenso e tudo voltou ao normal. Os garotos que antes participavam da brincadeira de não poder tocar em mim cansaram-se de Thomas e passaram a não tocar nele, pois se não perderiam os dentes da frente, como ele perdeu. Mas não se preocupe. São dentes de leite. E eu menti para você. O quinto ano inteiro me adora.
— Robb morreu.
Não entendeu por que disse isso de repente. Ele mal tinha acabado de falar e Ethan já estava lá, cuspindo o fato que se entalara em sua garganta. Não conseguia entender aquilo, na verdade. A ficha ainda não tinha caído. Em sua cabeça, Robb ainda estava por trás de sua confortável escrivaninha, no andar noventa e dois do Palácio Real Hentz.
— Eu sinto muito — Lorenzo disse controladamente. — Como?
— Ele caiu de um andaime do penhasco Alta Vista.
— Acho que você não vai querer ir ao funeral dele. O corpo não estará em bom estado. Dizem que são trezentos e quarenta metros do topo ao chão.
Ethan se perguntou como ele podia estar sendo tão insensível… mas então lembrou-se de si mesmo. E de Goldie. E de Nick e de Mia e de Carmen. Mortes demais. Mortes demais de pessoas jovens demais. As Sombras haviam deixado aquela cidade há meses, e no entanto desgraças continuavam acontecendo.
— A propósito… — murmurou Ethan — feliz aniversário.
Colocou nas mãos dele um embrulho. Tinha estampa de presente, o que não fazia muito sentido, pois Lorenzo não poderia apreciar. Mas não importava. Ele rasgou-o avidamente mesmo assim até chegar à superfície suave do estojo do violino.
— É um Stradivarius — disse-lhe. — O melhor violino que existe no mundo. E o mais caro também. Entendo se quiser ficar com o Luthier.
— Por que eu iria querer ter dois violinos? É como ter duas camas. Você só pode usar uma ao mesmo tempo. E obrigado.
Podia ver que ele estava se controlando para não gritar de excitação, o que era um bom sinal. Ethan ficara metade do ano influenciando sua mente em formação para querer aquele violino, mesmo que o dele ainda estivesse em ótimas condições. Funcionara. Doaria o Luthier à caridade usando a imagem de Nick para atiçar a mídia. Era uma ótima ideia.
— O que você comprou para Nick?
— Vamos ver em breve.
Pararam em frente ao velho apartamento na Rua Symphonia. Nick parecia emburrado, mas ele devia ter acabado de acordar, apesar de já ser meio-dia, e trazia Charlie na coleira. Dormira ali na noite anterior com Spring e o animal e ele fora para a escola de manhã, enquanto Ethan dera ao irmão permissão para faltar. Era aniversário dele também, afinal de contas. 3 de junho.
Nick entrou na limusine após o chofer ter aberto a porta e Charlie pulou atrás dele. Murmurou um agradecimento e se espreguiçou no banco lateral, deitando-se preguiçosamente então. O cachorro aninhou-se a seu lado. Nick abraçou-o e usou-o como travesseiro.
— Você vai voltar a dormir?
— Você vai precisar ligar para um exterminador. Não, não é para mim. Não conte piadas. Eu encontrei uma colmeia do tamanho de… de, sei lá, do Diamante Hentz por trás da parede da sala. Uma colmeia! Quer dizer, não era do tamanho do Diamante Hentz, era pelo menos cinco vezes maior. Você sabe que sou péssimo em matemática, mas eu meio que deixei ela cair. Não sei o que aconteceu porque eu corri para fora de casa. Como estava muito tarde, não queria me dar ao trabalho de voltar ao Palácio e tive que dormir no corredor. Por isso estou mal-humorado. Minhas costas doem. O que importa é que deve ter um bilhão de abelhas zunindo pelo apartamento agora.
— Eu gostaria de saber como você consegue se meter nesses problemas quando eu estou longe — Ethan resmungou. — Feliz aniversário.
— Obrigado. Feliz aniversário, Lore. Está fazendo onze anos, não é? Sabia que foi com onze anos que eu perdi a vir…
— Nicholas.
— Que foi? Eu só ia dizer que foi há exatamente cinco anos que eu perdi a vir…
— Nicholas.
— Que foi? E também foi há exatamente um ano que a Revolução M aconteceu. Dá para acreditar como o tempo passa rápido? A propósito, o que você comprou para mim?
— Você logo vai ver. Mas se lhe agrada, gostaria de informar-lhes que o patrimônio da família Hentz acabou de atingir os três bilhões de dólares. Eu sou a quadringentésima quinquagésima oitava pessoa mais rica do mundo. Estou entre os 500 mais.
Ethan adorava ver o velho charme de Nicholas estampado em seu lindo rosto. Sim, aquele sorriso fácil e branco, emoldurado pelos cabelos muito dourados e lisos, agora tão compridos que passavam dos ombros. E as maçãs do rosto levemente arrebitadas, o nariz fino e perfeito, os lábios numa tonalidade entre o róseo e o vermelho. Tudo trabalhando e coagindo perfeitamente para fornecer o clássico sorriso de Nicholas Hentz.
Nem parecia que há exatamente um ano ele espetara o cabelo, pintara-o de vermelho e pusera piercings. O último resquício disso era o brinco em sua orelha, feito de ouro e adornado com uma safira de um tom violáceo de azul. Muito lindo.
Finalmente, chegaram ao Palácio Real Hentz. A limusine seguiu pela entrada subterrânea para atingir o estacionamento.
— Por que viemos para cá? — Nick indagou. — Quer me obrigar a seguir todo o caminho para a recepção a pé? Quer que eu fique anoréxico de novo? — Ele parecia ter se esquecido que os elevadores atingiam o subterrâneo, mas tudo bem. Porque quando ele viu a Bugatti Veyron estacionada praticamente ao lado da limusine, deu um grito. — Oh, meu Deus!
Ele se jogou em cima do capô. Provavelmente queria abraçá-lo, mas parecia um duende perto do monstruoso carro. Ethan sorriu. Fizera aquela encomenda há menos de um mês. Dois milhões e seiscentos mil dólares depois, ela estava lá. A Bugatti era completamente negra e lustrosa por fora, e por dentro era cor de creme. Deus abençoe o toyotismo.
— O que você está esperando? — Nick indagou, ou melhor, gritou. — Abra o maldito carro. Eu quero entrar nele. Quero morar nele. Quero andar com ele agora.
— Você vai andar com ele — Ethan disse suavemente. — Assim que tirar a carteira de motorista.
— Mas eu sei dirigir! Vickie me ensinou no ano passado, e eu dirigi uma maldita Ferrari!
— Robb morreu — disse Lorenzo.
Ethan quase se engasgou com a própria saliva. Tanto a frustração quanto a felicidade de Nick se dissolveram em seu rosto e ele ficou liso, completamente indecifrável, até que se encheu de pavor. Um pavor tão intenso que até Lorenzo sentiu. A criança achou a mão de Ethan e se agarrou a ela. Nick parecia ter se esquecido do carro.
Algum tempo depois, estavam apenas ele e seu louro irmão no escritório principal. Nick estava meio histérico. Todas as vezes em que ele estava prestes a chorar, Ethan o beijava, que, afinal, era exatamente o que estava fazendo agora. Apoiado na escrivaninha, mantinha o menor preso abraçando sua cintura, mordiscando seu pescoço e chupando seus lábios.
— Você sabe que foi ele — Nick sussurrou ofegante. — Melchior o matou. Você acabou de dizer que eles estavam juntos, que tinham… que tinham invadido o lugar e descido o maldito andaime ilegalmente. Oh, meu Deus, ele fez isso. Você acha que foi ele?
— Não.
Ethan fitou seus olhos penetrantemente. Adorava-os. Podia passar o resto da vida olhando para eles, mas decidiu voltar a beijá-lo.
— Pare de me beijar. — Nick separou-se dele e apertou as mãos contra o rosto. — E é só isso? Só um não? Nenhuma dissertação filosófica interminável sobre como Melchior é uma pessoa horrível por causa da natureza perturbada dele? Uma daquelas que você sempre me obrigou a ouvir? E depois de eu ter finalmente me convencido, você agora volta atrás?
— Nicholas, algo simplesmente não se encaixa nessa história. Por que Melchior mataria Robb? Por que ele quereria fazer isso?
— Porque Robb saiu do controle dele!
— A questão não é essa. Robb não estava fazendo nada que lhe prejudicasse. Melchior não se arriscaria tanto assim para acabar com ele por esse motivo. Pense bem. A morte de Robb causaria uma ruptura entre as famílias Chioren e Thanathos. Melanie Thanathos e Anyce Chioren nunca mais falariam uma com a outra porque Mel culparia a irmã pela morte do filho. Robb ainda tem um irmão mais novo e mais primos que posso contar.
— Onde quer chegar?
— Há poucas coisas que Melchior preza, e a família é uma delas. Ele não causaria tanta dor a tanta gente apenas pela arrogância. Quer dizer, a não ser que ele estivesse realmente alterado. Estou falando de algo que o tenha feito se sentir de um modo que nunca se sentiu antes. Eu creio que isso teria sido demais para Melchior. Ele pode ter tido um colapso nervoso e nem ter chegado a perceber.
— Está dizendo que aquela criatura miserável pode ter desenvolvido uma terceira personalidade muito mais cruel que Melchior e nem de longe doce como Melon?
— Na verdade, eu creio que aquele garoto tem apenas duas personalidades. A primeira delas é a junção do psicopata que Melchior é com o garoto doce e bondoso que Melon é. A segunda é Melchior nu e cru, sua forma mais primitiva, totalmente descontrolado e irresponsável. Eu já disse a você que nunca queira conhecer Melchior sem Melon, porque se tal criatura existisse, mesmo que por alguns momentos, as consequências seriam desastrosas. No entanto… é tudo suposição. Não estou dizendo que isso aconteceu. Estou dizendo que poderia ter acontecido se alguma coisa o tivesse afetado drasticamente.
— Ethan, estou com uma péssima sensação — Nick desabafou. — Uma sensação sinistra, de verdade. A última vez que me senti assim foi no Halloween do ano passado, e todos nós sabemos os horrores lovecraftianos que aconteceram.
— Quem te ensinou essa palavra?
— Li alguns de seus malditos livros, agora cale a boca porque estou no meio de um monólogo dramático. E antes disso, do Halloween, foi quando fiz aquela peça aos doze anos, e eu chorei no meio do palco. Lembra? É um frio na barriga horrível. Alguma coisa está acontecendo, e não tem nada a ver com Sombras. Isso é absolutamente terreno.
— Melchior não nos delatou — Ethan suavizou com os velhos argumentos. — Ele não tem provas. E está envolvido nisso também.
— E se não foi Melchior? E se a polícia descobriu algo? E… e se ele fez alguém nos denunciar?
— Ele não poderia ter dito a alguém para ir lá e nos denunciar porque, como eu já disse, não há provas. Pelo amor de Deus, deixe de paranoia. Eu estou e sempre estarei no topo.
O telefone de Ethan tocou. Ele olhou para ele, depois para Nick, e então atendeu. Pôs no viva-voz. Era Jules du Pont. Nick quase se contorceu para frente de agonia. Talvez ele estivesse com febre. E a apenas uma semana da peça Homesence…
— Ethan?
— Fale.
— Eu… escute. — Havia um burburinho insuportável do outro lado. Jules parecia querer dar-lhe a notícia da morte de sua mãe. — Tem dois policiais aqui. Eles querem falar com você. E têm um mandato. Acho que você sabe disso, mas está sendo legalmente forçado a deixá-los subir.
Lorenzo surgiu no escritório nesse momento. Estava, se fosse possível, mais pálido que o normal, e seus olhos mantinham um sobrenatural brilho prateado.
— Existem bilhões de Sombras nesse prédio, se é que elas podem ser contadas. Elas estão… se envolvendo em você, Ethan. No seu… pescoço.
Ethan tapou a boca de Nicholas antes que ele pudesse gritar de pavor. Já havia apertado o maravilhoso botão que permitia ao elevador principal subir até o nonagésimo quinto andar.
— Quanto mais você chorar, mais provas eles terão — sussurrou a seu louro irmão. Podia sentir o coração de Nicholas batendo desesperadamente como um tambor em seu peito. As pernas fraquejaram. Quando se impôs na frente dele, percebeu que as suas tremiam também, assim como as mãos. Ethan respirou profundamente e procurou afastar o latejar em sua nuca. Vestiu o paletó do fraque. Queria estar apresentável enquanto estivesse sendo preso.
Porque isso, de fato, aconteceu. Na verdade, a situação inteira era tão absolutamente irreal para Ethan que passou-se num borrão, assim como foi quando recebeu a notícia de morte de seus pais. Parecia um filme. Ethan não estava nem sentindo medo de ir à cadeia, e sim do que aconteceria aos Hentz e à Anhert se isso acontecesse. Era surreal.
Eles vieram e apresentaram sua fabulosa ordem de prisão para Ethan Barcarolli Lemnsack Hentz. Nick novamente perdeu as estribeiras e começou a chorar. Lorenzo quase deu um tapa nele para que calasse a boca.
Ethan observou aquilo com um fascínio absurdo. Seu irmão de dezesseis anos chorando como uma criança de onze, e seu irmão de onze mandando-o calar a boca como um mal-humorado adolescente de dezesseis. O que alguns hormônios não faziam?
— Nicholas — Ethan disse calmamente enquanto eles punham as algemas em seus pulsos brancos. A última vez que usara algemas fora quando Gabriel quase o estuprou, no antigo apartamento. Era uma lembrança feliz de tempos mais felizes que quase fê-lo rir. Repetiu: — Nicholas, ligue para John Fauntleroy. Ele pagará a fiança. Não me importa quanto seja. Apenas mande-o pagar. — No entanto, Nick ainda chorava. — Nicholas! — Ele levantou o rosto molhado. — Faça isso.
Seus ancestrais o fitaram com desaprovação.
John Francis Hentz, com um sorriso sarcástico, mantinha seus olhos pretos fixos nele enquanto atravessava a sala, dizendo-lhe que deveria ter sido mais cuidadoso, assim como ele foi quando matou Orcus Ozaczaki para se casar com a Dama Prateada. Ondromeda Olrwen, que tinha a poeira das estrelas no cabelo e a luz da lua nos olhos, dizia-lhe que ficaria bem. Ethan se lembrou do fato de que aquela mulher estava literalmente dentro de seu cofre.
John Daniel Hentz, a cara e ao mesmo tempo a antítese do pai, com seus olhos cabisbaixos e mortos que a tantos conseguiu convencer, que expandiu o Império Hentz para todo o planeta em plena Segunda Guerra Mundial. Sentada na cadeira, Letricia Ovanosi, descendente de italianos, com seus longos e encaracolados cabelos louros e os olhos azuis muito escuros, quase negros. Talvez seu maior segredo fosse esse. Ter olhos azuis escuros o suficiente para ninguém saber. O maior segredo de Ethan era que tinha tanto medo de cair, mas conseguia disfarçar tão bem, que ninguém percebia que o tinha.
Samuel Hentz, com os cabelos louros como ouro e espessos como palha sorrindo quase arrogantemente, sensação provocada pelo excesso de confiança pelo qual era conhecido. Gerara bastardos o suficiente no mundo todo para causar um grande problema à família Hentz no futuro. Ao seu lado, Joselia Jasperin não sorria. Talvez fosse típico de todos os franceses. Ethan ainda tinha que aprender francês algum dia. E italiano.
Mary Alice Hentz, talvez o membro mais enigmático e poderoso daquela lendária dinastia. A primeira e única mulher Hentz, com o peso do mundo nos ombros e segredos que poderiam destruir tanto sua família como um todo quanto cada membro em particular. O Livro Hentz explicitava muito bem isso. Uma coisa que Ethan achou extremamente interessante era que Mary Alice surgiu da quarta gravidez de Joselia. As três primeiras deram em abortos naturais. Ela ainda teria duas gravidezes posteriores a Mary Alice, também terminando em abortos. Não havia relatos de Ondromeda ou Letricia engravidando mais de uma vez, algo realmente estranho, considerando que viveram nos séculos XIX e primeira metade do XX.
Deixou aqueles imortais dentro de seu suntuoso túmulo, junto com seus dois irmãos.
Dentro do elevador, conseguiu, afinal, fazer os policiais tirarem as algemas. Não seria apropriado aparecer no local de trabalho, com dezenas de funcionários vendo, algemado como um criminoso qualquer. A injustiça da situação repugnava e deliciava Ethan. Finalmente estava vendo como colarinhos brancos eram tratados.
Duas horas depois, estava de volta em casa. Mas também as consequências foram seriamente desastrosas.
Os grandões da mídia com certeza tinham infiltrados na polícia, era a única explicação para o fato de haver tantos fotógrafos e jornalistas nas portas da delegacia. Enfiaram microfones na cara de Ethan e o metralharam com perguntas. Ethan não ousou demonstrar medo, mas tampouco que estava muito seguro de si. As duas coisas poderiam ser terríveis. Deu apenas uma declaração curta e objetiva.
— A única coisa que tenho a declarar é minha total e inalienável inocência.
No entanto, os abutres não se importaram em espalhar sua mensagem para o mundo. Em pouco tempo, a notícia de que Ethan Lemnsack estava sendo processado pela cidade de Middleland pelo assassinato do Padre Lafferty Winter estava na TV, nos jornais e na internet. Seu telefone fixo tocava constantemente. O de Nick, o queridinho da Califórnia, o adolescente mais bonito e mais amado por aquele país, só perdendo para o Rei Senn, também. De repente, era como se os dois irmãos tivessem sido redescobertos pela mídia, mas por uma coisa muito pior do que simplesmente serem filhos de seus pais.
Ethan mal chegou em casa e se dirigiu à sala de reuniões onde anteriormente se encontrara com Melchior e Amy. Eles não estavam ali, mas logo saberiam da notícia bombástica.
Quem estava era Nicholas e Lorenzo; John Fauntleroy, de longa barba branca, cabelos calvos e suspensórios, o advogado oficial da família Hentz; Lauren Mayfair, loura e esbelta, a advogada corporativa da Anhert, Inc.; e Liam Stonem, o terceiro sócio daquele escritório. Liam era alto e de meia-idade, com enormes entradas nos cabelos castanhos finos e ralos. Era um advogado criminalista. Ethan se perguntou como Charles Lemnsack pode ter um dia sido sócio daqueles dinossauros.
— Bom dia, meus queridos senhores. E Nick e Lore — disse com um cinismo notável. Sentou-se na cabeceira da mesa e olhou discretamente para seus pulsos. Não havia marca notável, mas Ethan ainda sentia as algemas ali. — O que meus antepassados pensariam disso? Eles nunca foram presos.
— Claro que não — Nick grunhiu. Agora que parara de chorar estava de mau-humor. — Porque eles não eram grandes imbecis.
— Não — disse Ethan —, eram senhores tão velhos e experientes que já estavam vivos quando Deus disse Que haja luz e viu que era bom. Nicholas, Lorenzo, por favor, esperem lá fora. Essa conversa não é bem para vocês.
— Eu sou apenas três anos mais novo que você — Nick resmungou enquanto era empurrado porta afora por Lorenzo.
— Obrigado por pagar a fiança, John — agradeceu calmamente a ele. Então virou-se para Liam Stonem. — Sr. Stonem, receio que teremos que ir a julgamento, não é?
— Bem, sim. — Ele tinha claros e pálidos olhos azuis, mas era claro que sabia usá-los para cativar. Não era para menos. Stonem era considerado um dos melhores advogados criminalistas da Califórnia. A verdade é que se havia alguém com meios para inocentar um criminoso, era ele. — Mas a juíza é uma velha e benevolente senhora. Você a conhece. Therese Williams.
Ethan sentiu uma pontada no estômago. A Juíza Therese Williams fora a juíza que lhe concedera a guarda legal de Nicholas quando tinha apenas dezesseis anos e Nick, treze. E quando Lorenzo ainda nem existia em suas vidas, muito menos uma fortuna de um bilhão e cento e vinte milhões de dólares. Curiosamente, também não havia tantas tristezas.
— O problema, Ethan — continuou Stonem —, é que a promotoria tem provas absurdamente reais. A maioria é composta por relatos de várias testemunhas sobre os estranhos comportamentos de seus irmãos após o desaparecimento de Lafferty Winter. É tudo baboseira sensacionalista, mas os jurados não vão pensar assim. No entanto, o promotor é Lionel Spencer, e ele construiu esse caso baseado numa prova que a polícia adquiriu há não muito tempo. Eu não sei como eles conseguiram isso, mas os jurados não vão se importar.
— O que é? — Ethan perguntou.
— Um celular. Seu celular.
— Meu celular sumiu há dias.
— Você não deu queixa?
— Pelo roubo de um celular? Não sei nem se foi roubo. Ele simplesmente sumiu da minha escrivaninha. Imaginei que Nick o tivesse pego, ou que ele tivesse caído, eu não me importei. Tenho outros aparelhos. E daí que ele apareceu na delegacia?
— Ele tinha fotos da noite em que Winter supostamente foi assassinado.
— Refira-se a ele como Lafferty, por favor. Winter é teoricamente um amigo de Nick.
— Você está me ouvindo bem?
Stonem estava claramente chocado pela impassibilidade de Ethan. Na verdade, Ethan estava chocado, mas estava guardando todas as emoções nos cantos mais escuros de sua mente. Era hora de ser frio e calculista, não sentimental.
— Ethan — disse Lauren Mayfair —, somos seus advogados. Você pode e deve contar-nos tudo o que houve para que possamos acionar os meios legais da forma mais apropriada. Por que essas fotos estavam no seu celular?
— Nós precisamos que você seja absoluta e irresolutamente sincero — disse John Fauntleroy.
Ethan passou um bom tempo olhando para cada um dos três, encarando-os sem piedade. Três mentes obscurecidas por livros grossos como bíblias, galardoados com diplomas de Harvard e da Universidade da Califórnia e incapazes de ver a verdade que se estendia bem diante de seus narizes.
— Eu matei Lafferty Winter.
Ouviu o burburinho de resignação de Fauntleroy e imediatamente percebeu que durante aqueles dois anos que o conheceu ele esperou duramente que Ethan não se tornasse o megalomaníaco que Samuel foi. Lauren parecia sinceramente chocada, mas sabendo se controlar bem, apesar de ter coberto o rosto com as mãos por alguns segundos. Stonem apenas levantou as sobrancelhas e meneou a cabeça para os lados.
— Isso será difícil. Eles têm um caso forte contra você.
Então percebeu que aquele homem poderia ler o Livro Hentz e mesmo assim manter segredo de cada vírgula pelo resto da vida.
— E eu tenho uma história muito simples que eles não terão como negar. Chame-me ao banco de testemunhas.
— Se eu fizer isso, Spencer vai trucidar você. Ele escavará cada brecha de sua história, o interromperá nos momentos mais inoportunos e manipulará o júri para que pense contra você. O transformará num monstro em rede nacional.
— E por que ele faria isso?
— Porque ele é um promotor e é isso que os promotores fazem.
— Pelo amor de Deus — grunhiu Lauren. Ela se inclinou sobre a mesa. — Por que você o matou, em primeiro lugar?
Foi só aí que Ethan notou que Stonem havia ignorado o motivo. Talvez fosse assim que os advogados criminais agissem.
— Porque ele estava estuprando Nicholas. — Não esperou para ver as reações deles. Ficou olhando o vidro da moderna mesa com os dedos cruzados enquanto deixava aquele velho ódio crescer dentro de si novamente. — Naquele dia, eu estava com Lorenzo, Amy, Melchior e Gabriel no ginásio da St. Nicholas para assistir ao jogo de Nick. Ele estava na igreja porque é aonde os jogadores vão antes dos jogos. É como uma tradição. Mas então Nick surgiu no ginásio sozinho, quase correndo e quando chegou em mim, começou a chorar descontroladamente como um bebezinho. Foi então que ele nos contou que Lafferty o tinha violentado quando ele tinha nove anos de idade, que ele tinha contado à nossa mãe e que a única coisa que a filantropa Mary Alice Hentz fez foi mandar o homem embora da Escola St. Emanuelle. E aquele mesmo homem que o tinha estuprado e se safado quando ele era apenas uma criança estava na igreja a algumas poucas centenas de metros de nós, pregando para jovens inocentes.
“Nick disse que queria ir embora. Mandou-me esquecer aquilo. Obrigou-me a isso, na verdade. Eu não conseguia tirar a imagem da cabeça, mesmo que naquela hora eu mal me lembrasse do rosto de Lafferty. Ele disse que buscaria sua mochila no vestiário e nos encontraria na saída do ginásio. Esperei ele desaparecer e decidi segui-lo porque Nick já tinha cometido uma tentativa de suicídio antes por um motivo bem mais fútil. Eu pensei que movido sob a forte emoção, ele poderia tentar fazer uma besteira igual.
“Mas quando entrei no vestiário, ele estava em cima de um dos bancos, deitado, e Lafferty estava em cima dele. Ele gemia. Nick chorava como uma criança. Ele não se movia, apesar de provavelmente conseguir se tentasse. Mas ele estava se lembrando de como era ser uma criança de nove anos. Estava paralisado. Estava apavorado. Eu não lembro o que pensei na hora. Eu apenas agarrei um taco de beisebol jogado no chão e acertei na cabeça de Lafferty com toda a força que eu tinha. Nunca imaginei ter força suficiente para rachar o crânio de alguém, mas eu consegui. E só percebi isso depois que Lorenzo o tocou e viu que ele estava realmente morto, e a essa altura me pareceu algo sem importância. Não me importei de ser preso naquele momento. Eu só queria que Nick parasse de chorar e que ele entendesse que o perigo havia passado e que estava tudo bem. E que eu jamais deixaria ninguém tocá-lo se ele não o quisesse.
“Quer dizer, eu pensava assim até Amy dizer que não.”
— Está falando de Amy Bellafonte? — Stonem perguntou. — Filha de Redford Bellafonte? Está falando que a filha do Governador de Southeria ajudou-o a jogar um cadáver num buraco e a cobri-lo com cimento?
— Foi ela quem teve essa ideia. Amy não é tão meiga assim. Isso me surpreendeu.
Houve um silêncio.
— Homicídio privilegiado — disse Fauntleroy que limpava seus óculos de meia-lua com um paninho branco pela milésima vez.
— Dois a três anos de cadeia — disse Lauren.
— Se confessar — disse Stonem —, podemos modificar um pouco a história para que oculte o fato de que outras pessoas sabiam do assassinato e inocentá-los. Spencer vai ficar tão feliz que não se importará. Se for preso, ficará na cadeia por no máximo seis meses e poderá cobrir o resto do tempo com doações ao Estado e seguir com sua vida. A cadeia é de um modo para ladrões de galinhas e de outro para bilionários.
— Eu diria que é sua melhor chance de ter uma pena quase insignificante — disse Fauntleroy. — Seis meses passam rápido.
— Será como se nem existissem. — disse Lauren. — Seis meses que sumirão de sua vida. Sairá no início de 2015. É melhor do que alegar inocência, ser considerado culpado e condenado a uma década.
— Fiquem quietos, por favor.
Eles estavam se alternando para metralhá-lo com os benefícios de se considerar culpado. Era quase hilário. Aqueles advogados poderiam seduzir a Virgem Maria, mas não convencer Ethan Lemnsack a ir para a prisão.
— Agora deixem-me lhes falar que acontecerá se eu for para a prisão. Nicholas já é maior de idade, mas Lorenzo não é. Nós somos a única família próxima que lhe resta, mas a verdade é que ele ainda tem alguns primos distantes da mãe dele vivendo na Itália, mais especificamente na Córsega. Se eu fosse preso, perderia a guarda dele e como ficaria provado que Nick sabia do assassinato e mentiu, ele não poderia fazer com Lorenzo o que eu fiz com Nicholas em 2012. Lorenzo seria deportado. Seria entregue como um boneco para parentes que nunca viu na vida, num lugar estranho que não conhece. De novo. Não vou fazer aquela criança passar por isso por causa de um erro que eu cometi. Não vou perder contato com meu meio-irmão ilegítimo para passar as férias numa prisão. E Deus sabe o que Nicholas poderia fazer consigo mesmo aos perder os dois irmãos ao mesmo tempo. Não quero nem pensar, mas é provável que ele se jogasse do topo desse prédio. Não estou exagerando. É só ele beber um pouco. Ele quase fez isso uma vez.
“E quando eu finalmente saísse, sabem o que seria da minha empresa? Da Anhert Corporation, que não tem nem um ano de idade? Ela sumiria. Meus investidores me abandonariam. Meus clientes estrangeiros também. A empresa que eu fundei iria à falência. Dois terços da fortuna da família Hentz evaporariam. Eu perderia tudo pelo que eu lutei e tenho lutado. A Anhert, Lorenzo e Nicholas, que certamente não se recuperaria da perda de Lorenzo. Nossas vidas mudariam para sempre. Tudo acabaria. É isso que vocês querem, meus senhores, minha senhora? Eu não confessarei. Alegarei inocência até o fim.” Ethan se levantou. “Vocês são os advogados da família Hentz. Protejam a família Hentz.”
Saiu da sala de reuniões meio furioso, meio ansioso, meio aliviado por finalmente ter tido aquela conversa. É claro que os três eram eticamente proibidos de contar a verdade a qualquer um, e mesmo que não fossem Ethan achava que não iriam. Não sabia por que, mas algo dentro de si dizia que John Fauntleroy, Lauren Mayfair e Liam Stonem tinham medo dele.
Foi achar os irmãos no escritório principal. Nick estava tentando descobrir a combinação de seu armário de bebidas enquanto Lorenzo manuseava o Anel da Matriarca que o louro havia roubado com curiosidade.
— E então? — Nick perguntou quando ele voltou, subitamente apreensivo. Ele estava fazendo dezesseis anos, meu Deus. A idade que tinha Ethan quando se emancipou e toda aquela novela começou. — O que decidiram? O que vamos fazer?
Ethan abriu os braços condolentemente e o envolveu num abraço lento. Beijou sua testa, tirou o anel suavemente das mãos de Lorenzo e o pôs de volta no dedo de Nick.
— Hoje é o aniversário de vocês dois. Vamos dar uma festa.
Eles deram. E foi a primeira vez que usaram aquele salão de baile.
Ethan realmente se admirava com a rapidez com a qual o dinheiro providenciava as coisas. Ele conseguiu às três horas da tarde montar uma festa para quase quinhentas pessoas que foi dada às sete horas. Muito improviso e convites de última hora não impediram as pessoas de aparecer. Como eram garotos adolescentes e crianças — alunos da St. Nicholas e da Alphonse Enoi —, ninguém havia se matado para encontrar uma roupa perfeita ou montar maquiagem. E apesar de estarem todos num salão gigantesco de pedra rosa-clara extremamente formal, tantos os adolescentes quanto as crianças pareciam estar se divertindo.
Nicholas e Lorenzo foram transformados em dois príncipes e treinados como cachorrinhos para afastarem o tema da prisão de Ethan. Todo mundo queria saber sobre aquilo, ninguém tinha coragem de perguntar, e quem perguntava só recebia um sorriso leve e uma confirmação de que as coisas estariam esclarecidas logo.
E não era por que Ethan já havia gasto uma fortuna naquele dia com o carro de Nick e a fiança que não podia gastar um pouco mais num bufê caro e em atrações. Estava elegante num Armani preto e cinza-claro; Lore e Nick vestiam grifes europeias um pouco mais despojadas, mas só um pouco. Achava que podia estar sendo um pouco megalomaníaco. Mas não se importava. Passara tanto tempo sendo um ninguém exatamente para desfrutar quando tivesse tudo.
A coisa toda se prolongou até as onze horas da noite. As crianças já tinham-se ido e Lorenzo se recolhera para dormir; alguns adolescentes ainda estavam se agarrando pelos cantos, felizes por dividirem um momento de libertinagem com a certeza de que seus pais nunca iriam descobrir, mas Nick logo os enxotou.
Foi só então que Ethan percebeu que nem Spring, nem Winter, nem Autumn, nem Summer haviam aparecido.
— É claro que os convidei — disse Nick quando lhe indagou sobre eles. — Mandei mensagens aos quatro. Ninguém me respondeu. Liguei para cada um deles. Nenhum atendeu. É claro que viram a notícia de sua prisão e acham que você realmente matou Lafferty. Winter é sobrinho-neto dele e não tem motivo algum para desprezá-lo, lembra? Ele deve ter obrigado Autumn a não vir e convencido Spring. Não sei por que Summer não veio.
Ethan sabia que Nick estava magoado por Spring não ter sequer lhe desejado feliz aniversário. Mas não podia consolá-lo. Quanto mais magoado ele parecesse, mais real sua revolta com Spring pareceria. E os dois sabiam disso.
De manhã, descobriu que o julgamento estava marcado exatamente para o dia seguinte, uma quinta-feira. Amy e Melchior ainda não tinham dado sinal de vida e Ethan não ligaria para eles. Tinha quase certeza de que a mídia descobriria aquilo e faria a opinião pública suspeitar, mas certamente não seria suspeito se eles o contatassem. Com certeza estariam apenas lhe desejando forças naquele momento de dificuldades.
Mas o que estava acontecendo com aquela gente?
Ethan estava sentado sobre sua escrivaninha, com duas cartas na mão. Se não podia falar com eles por telefone, poderia fazer pelo método mais primitivo. Podia ser que demorassem a chegar, mas era uma tentativa. Não suportava ficar parado sem fazer nada.
Jules entrou em seu escritório. Nunca havia notado como aquele garoto era bonito? Quase anormalmente. Seus cabelos eram compridos e louro-claros, mais claros que os de Nick, e a pele era mais branca também. Consequentemente, os lábios eram mais rosados, ou pareciam ser, e os olhos tinham um profundo tom de cinza, exatamente como o céu nublado, e eram levemente puxados para os lados.
— Coloque-as no correio para mim, sim? — pediu entregando-lhe dois envelopes de papel-pardo. As cartas diziam sempre a mesma coisa. Contate-me urgente e discretamente. — Se estiver muito ocupado, peça para Robb fazer…
Não terminou aquela frase. Estivera olhando para a tela do tablet enquanto falava e quase o deixou cair ao pronunciar aquele nome. Só não caiu porque Jules correu para segurar o aparelho. Suas sobrancelhas louro-escuras estavam contraídas. Ele sentia pena, sentia muito por Ethan, sentia muito que tudo aquilo estivesse acontecendo e que ele tivesse perdido seu amante estúpido, mas bondoso e amoroso demais. Ethan fitou profundamente seus olhos enevoados durante segundos o suficiente para não aguentar mais nada daquilo.
Então, pela primeira vez em muito, muito tempo, Ethan Lemnsack chorou. Nos braços de Jules du Pont.
Sentia as lágrimas descendo pelo pescoço tão perfeito que parecia mármore levemente dourado dele. Não se poupou. Não tentou chorar em silêncio. Simplesmente fez como Nick sempre fazia. Soltou-se. Deixou as mágoas materializarem-se na forma daquelas gotas gordas e salgadas. Abraçavam-se com força. Jules sussurrava que tudo ficaria bem.
— Desculpe-me — Ethan forçou-se a separar-se dele, embora odiasse isso. Gostou de abraçá-lo. Então perguntou-se por que ele estava de gravata. — Por que está usando isso? E essa camisa de botão? Ficam horríveis em você. Emita um comunicado aos funcionários. O vestuário será livre até eu ser preso.
— Você não será preso. Eu sei que não foi você.
Lágrimas enxugadas, Ethan levantou o rosto, recuperando a dignidade. Meu Deus, aquele garoto era filho de Lafferty! E ele simplesmente se esquecera disso!
— Você acredita nisso?
— É claro que sim. A polícia de Middleland é imprestável. Não conseguiram resolver o Massacre da Coruja por si próprios e agora também não conseguiram com o Caso Lafferty. Eles só querem um bode expiatório. Com todo o respeito.
Aquele sotaque francês era tão delicioso.
— Sinto falta dele — sussurrou. Jules teve de pensar por um momento para perceber que ele falava de Robb.
— Eu também. Ele era uma boa pessoa. Não mereceu isso.
— Se eu disser que ele foi assassinado, você acreditaria?
— Eu acredito em qualquer coisa que você me diga.
— Eu também acreditarei se você for sincero comigo. O que Winter pensa de tudo isso?
— Winter sempre esteve meio desesperado para descobrir quem matou Lafferty, de modo que quando surgiu que foi você, ele se agarrou a essa ideia. Ele sempre foi uma pessoa que age muito por impulso e sem pensar, e além disso é teimoso como o diabo. É, ele realmente parou de falar com Nicholas e meio que obrigou Spring a fazer algo aparecido, embora Spring tenha dito a Nicholas que é apenas temporário. Só até tudo se resolver.
— Continue. Essas fofocas sobre adolescentes me interessam tanto.
— Vou ignorar seu sarcasmo já que foi você quem perguntou, para começar. — Jules suspirou profundamente. — Tenho que te contar um segredo. Talvez não seja boa ideia, mas eu preciso. Foi Autumn quem deu à polícia a prova concreta que eles usaram para emitir seu mandado de prisão.
Ethan ficou chocado. Estarrecido.
— Deixe-me dizer o que aconteceu. Na segunda-feira, Autumn voltou ao dormitório de tarde e encontrou o quarto revirado, de cima até em baixo. Ele achou o celular lá e um bilhete com algumas coisas escritas. Havia alguém o incitando a denunciar você, isso é bastante óbvio, mas as fotos no celular provam outra coisa. Ethan, aquelas fotos têm de ter sido tiradas por alguém. Veja, tirei uma foto do bilhete.
Ele mostrou o celular com a foto do bilhete aparecendo na tela. Uma escrita muito elegante, realmente.
— Autumn decidiu dizer que o celular realmente caíra da bolsa de Nicholas e que ele o guardara para devolvê-lo no dia seguinte e acabou achando as fotos. Sua foto está lá, assim como suas digitais. O celular é seu. Mas isso é absurdamente estranho. Tudo isso apareceu lá de repente, o que é mais suspeito ainda. Eu sei que Autumn não é do tipo que faria algo sem pensar, mas ele está possesso de raiva. Ele andou investigando e me disse que estivera sendo observado o tempo todo. Pessoas morreram. Ele acha que você as matou. E o maldito Winter não ajuda. Talvez aqueles dois se mereçam, realmente.
Não, não fui eu. Como as pessoas têm coragem de me chamar de monstro quando há uma criatura muito mais perversa e perigosa andando a solta por aí, soltando olhos violeta e sorrisos branquíssimos para quem quiser ver?
— É realmente estranho. — Foi tudo o que disse. Sentia vontade de beijar Jules, mas só porque algo nele o lembrava uma mistura de Oliver e Nick. Só por isso. — Você não devia estar ensaiando? A estreia da peça é em menos de uma semana. Dia 10 de junho. Meu aniversário de dezenove anos. Eu mal me sinto com dezoito e já farei dezenove.
Jules suspirou. Era claro que Ethan estava embromando.
— Eu só faço três cenas. Há algo que você queira me dizer?
— Sim. Eu quero que você ponha essas cartas no correio. Apresse-se.
Mais tarde, já de noite, quando Nick chegou em casa, serviu-se sem permissão de uma boa taça da champanhe mais cara que Ethan tinha.
— Champanhe é para comemorações — disse irritado. — O que está comemorando?
— Nada, mas eu não consigo mais beber vinho sem me lembrar daquele de cento e oitenta mil dólares que Cornelius Goldenschild nos mandou no dia do nascimento da Anhert.
— Como foi na escola?
— Winter e Autumn me evitaram o dia todo. Quando os encurralei e dei um oi, eles me cumprimentaram de volta e sumiram. Os dois idiotas. E Spring disse-me que como não quer que Winter o atormente pelo resto do semestre, finge que não fala comigo também. Eles realmente acreditam no que a mídia diz à respeito do Caso Lafferty. Pode ser tudo verdade, mas eles não deviam.
— Você deve estar irritado com Spring.
— Nem tanto. Nós conseguimos transar no vestiário, na hora do almoço.
No fundo, Ethan nutria alguma esperança de que os dois fossem terminar por causa daquilo. Não tinha nenhum desejo hipócrita de que os dois continuassem juntos. Seria o maior mentiroso do mundo se dissesse isso. O próprio Nick preferia que Ethan dissesse a verdade.
— Como se sente em relação a amanhã? — o louro perguntou. Ethan o beijou com vontade, deliciado com seu cheiro natural misturado à champanhe. Queria beber aquele garrafa diretamente do corpo nu e dourado dele.
— Ansioso. Qualquer coisa pode acontecer. Liam Stonem está montando uma defesa de ferro, mas Lionel Spencer também é um leão velho. Será como um duelo de titãs.
— Que roupa você acha que eu devo usar?
Ethan não sabia, mas preferia que naquele momento ele estivesse sem nenhuma.
O dia seguinte nascera em grande tensão.
Não havia marcado absolutamente nada relacionado ao trabalho por estar nervoso demais para pensar em modos de ganhar dinheiro. Nicholas implorou para irem ao tribunal na Bugatti, mas o carro só tinha dois lugares e Lorenzo estava com eles. Aliás, não parecia uma boa ideia ostentar tanto. Acabaram indo numa Rolls-Royce preta e elegante. Além de seu apreço por joias, Ethan havia recentemente descoberto um fascínio enorme por carros.
John Fauntleroy, Lauren Mayfair e Liam Stonem esperavam às portas do tribunal, juntos a uma trupe de jornalistas e paparazzi. Ethan foi aconselhado a não responder pergunta alguma, assim como seus dois irmãos. Os três subiram as escadas sob o flash ininterrupto das câmeras com os três advogados por trás.
Ethan sentou-se ao lado de Liam Stonem na área mais a frente do tribunal, entre a plateia e a cadeira da juíza e o banco do réu. Do outro lado, Lionel Spencer conversava furiosamente com seus dois assistentes. Ele sempre falava daquela forma, era o que Stonem lhe havia dito. Tinha uma longe relva de cabelos negros meio grisalhos.
Nick e Lore estavam sentados na plateia, juntos com Fauntleroy e Lauren, na fileira exatamente por trás de Ethan.
— Meu Deus — Nick falou, olhando para o outro lado da sala. — Shane está aqui.
— Quem? — Ethan indagou.
— Shane Spencer, o garoto que faz o Guerreiro Amaldiçoado na peça. Ele deve ser filho de Lionel Spencer. Ótimo, o pai deve ter enchido a cabeça do garoto sobre nós. É por isso que ontem no ensaio ele estava me atacando com tanta ferocidade. Eu quase tive que quebrar o pescoço dele para que deitasse no chão e morresse, como deveria ter feito.
O júri também estava cheio. Stonem disse que havia escolhido os candidatos com as maiores famílias, que tivessem filhos ou trabalhassem com crianças. Se tudo desse errado, ele garantiria que Lafferty Winter deixaria de ser o mártir em que Spencer tentaria transformá-lo para ser o maior estuprador de crianças que aquela cidade já viu.
O restante da plateia era formado por jornalistas com câmeras enormes.
— Ethan, se as coisas apertarem e eu for forçado a seguir o plano B, terei que chamar Nicholas ao banco — Stonem sussurrou. Era aquilo que Ethan não queria. Nick poderia muito bem expor Lafferty, mas isso também implicaria em admitir para todo o planeta que fora estuprado quando criança. Nicholas tinha uma profunda vergonha disso. Aliás, era provável que Spencer o fizesse chorar com perguntas agressivas, o que o desacreditaria. Ele não conseguia ser forte quando se tratava de algo que o afetava profundamente.
Todos ficaram de pé quando a Juíza Therese Williams entrou.
Ethan a vira pela última vez há dois anos, quando ouvira que a guarda de Nicholas seria dele e de ninguém mais. Naquele momento, ficara-lhe grato e desejara nunca mais precisar vê-la de novo. Mas lá estava ela, pronta para lhe jogar na cadeia.
A juíza tinha cerca de cinquenta e sete anos, era negra e esbelta, com uma expressão competente e sábia no rosto marcado. Formara-se em Direito com dezoito anos na Universidade da Califórnia e já fora convidada a concorrer ao Parlamento, mas recusara. A mulher era uma lenda. Algo nela lembrava Ethan de Hellen Page.
Todas as apresentações foram feitas. Cidade de Middleland versus Ethan Lemnsack.
Spencer começou com seu discurso. Era agressivo, objetivo e rápido, sempre se referindo aos jurados, tratando-os como anjos da lei concedidos pelo povo. Não usava esse termo, mas deixava isso implícito. Todas as vezes que citava o nome de Ethan, apontava para ele. Por algum motivo, citou a arrogância das famílias tradicionais e dos grandes empresários. Não era à toa que escolhera os jurados mais humildes que encontrara.
Depois foi a vez de Liam. Este foi mais brando e tratou os jurados quase que com carinho, mas suas palavras eram inteligentes, suaves, objetivas e bastante claras. Inclusive seguiu o conselho de Ethan e reafirmara a ineficiência da polícia de Middleland. Nada melhor para exemplificar isso que o Massacre da Coruja. E que coincidência, que tanto ele quando o Caso Lafferty tenham aparentemente sido resolvidos por denúncias anônimas!
Ethan olhou para trás para fitar Nick. Melchior estava bem atrás dele, mas os dois fingiram que não se viram.
— Eu chamo Amy Bellafonte ao banco.
Era a voz de Liam Stonem. Ethan olhou para ele sem acreditar e quando viu, Amy, que estava lá no fundo do tribunal, levantou-se e caminhou através da sala. E por incrível que parecesse, Jules, Summer, Autumn, Spring e Winter estavam lá também. Nessa ordem.
Quando Amy sentou-se no banco do réu e levantou a mão para fazer o juramento, seu olhar passou pelo de Ethan. Sentiu uma pontada morna na nuca. Algo estava errado.
Liam olhou para ele.
— Ela me pegou fora da sala e implorou que eu a chamasse.
Logo pensou no que Spencer poderia fazer com aquela meiga jovem, mas então mudou de ideia. Amy provinha de uma antiga linhagem de condes alemães que se perdeu após a Primeira Guerra Mundial com o fim do Império Germânico. Seus trisavós, tios-trisavós, tetravós, tios-tetravós e afins foram generais de guerra próximos ao Kaiser Guilherme II. Seus descendentes tiveram primos distantes que nasceram na Inglaterra e ocuparam cadeiras na Câmara dos Lordes, outros que foram aos Estados Unidos e tornaram-se senadores, secretários de estado, funcionários próximos ao presidente e etc. Seu pai era governador e seu avô fora ministro. Em suma, Amy vinha de uma longa linhagem de políticos e nobres. Não podia de forma alguma ter deixado aquela agressividade e autoridade natural toda se perder por baixo daquela linda imagem loura de olhos azuis. Ela não tinha medo de Lionel Spencer.
— Você conhece Ethan Lemnsack há muito tempo? — Stonem perguntou.
— Conheço-o há apenas quatro anos. Mas se você pensar bem, é quase um quinto da minha vida. Não o conheço há muito tempo, mas diria que o conheço bem.
— Diria que ele é capaz de matar?
— Eu acho que cada ser humano da Terra, dependendo da situação, é capaz de cometer um assassinato.
Ethan se remexeu desconfortavelmente na cadeira.
Stonem parecia que ia dizer alguma coisa, mas ela o interrompeu.
— Deixe-me falar uma coisa sobre isso. Quando se comete um assassinato, quando se tira a vida de alguém, um pedaço da sua vai embora também. Pode parecer tolo e sentimental, mas essa é a verdade. É por isso que se considera tanto assim se uma pessoa se arrependeu ou não quando é provado que ela matou. Se se arrependeu, a pena diminui. Se não, aumenta. Ela pode até ser obrigada a passar por tratamento psiquiátrico.
— Certo, agora voltando…
— Então o que dizer de quando você vê a necessidade de matar alguém? Deixe-me falar uma coisa sobre minha relação com Ethan. Eu o amo, assim como amo seus irmãos, assim como amo sua família. Eu faria qualquer coisa cabível para protegê-los. Ano passado, quando Nicholas Hentz estava prestes a se jogar de um prédio, forneci o helicóptero do governador para Ethan para que ele chegasse rapidamente em Middleland. Na época estávamos em Sacramento, na festa de condecoração do Primeiro Ministro.
— Meritíssima — disse Lionel Spencer —, sinceramente não sei o que vamos conseguir com isso.
— Se me lembro bem, Sr. Spencer — continuou Amy —, você criticou isso publicamente. Disse que o helicóptero do Estado devia ser usado somente em ocasiões oficiais. Eu concordo, mas num caso como esse, você concorda também? Quando se tenta salvar um adolescente da morte, você também veta esse uso? Se você veta e o adolescente morre, isso não te faria um repulsivo assassino?
Foi naquele momento que Ethan percebeu que de alguma forma absurda, aquela moça sentada no banco do réu simplesmente não podia ser Amy.
— Eu conheci o Padre Lafferty Winter pelas terríveis lembranças de Nicholas.
— Quais lembranças? — indagou Stonem.
— Ora. — Amy deu um sorriso inocente. — Era de conhecimento de todos que Lafferty estuprou Nicholas quando ele era criança.
A explosão que ocorreu após essa frase foi monumental. Os jornalistas praticamente se jogaram para frente, gritando perguntas e tirando fotos. Nicholas estava sendo repuxado por todos os lados, habilidosamente repelido por Lorenzo e Lauren, sendo perguntado e exigido, mas mantinha uma expressão de choque fixa em Amy.
A Juíza Therese Williams ladrava por ordem, batendo o martelo repetidamente. Lionel Spencer se levantou, berrando que protestava.
— Negado! — disse a juíza. Virou-se para Amy. — Continue.
Amy levantou-se do banco, inclinando-se como uma víbora:
— Foi por isso que naquela noite do dia 4 de fevereiro, eu segui o Padre Lafferty Winter até o vestiário e com um taco de beisebol matei o filho da puta.
Os urros foram absurdamente maiores que da última vez. Os jornalistas estavam em êxtase. Os gritos eram tão altos que machucavam os ouvidos de Ethan. Até Melchior estava sinceramente chocado.
— Ordem, ordem! — a juíza berrou. — Fiquem quietos ou mandarei esvaziar este tribunal! Advogados, aproximem-se.
Stonem e Spencer se aproximaram.
— Meritíssima, isso é um absurdo — disse Spencer. — Não há como essa moça ter matado um homem do tamanho do Sr. Winter.
— Seu conhecimento sobre a anatomia feminina me surpreende — disse Stonem, ácido como sempre. — Amy Bellafonte acabou de confessar. É jovem e saudável. E tinha um taco de beisebol. Não há absolutamente nada que a tivesse impedido de cometer o ato.
— O que diabos foi aquilo? — a juíza indagou olhando para Stonem.
— Meritíssima, não faço ideia. Ela implorou para depor. Certamente não poderia jamais deixar que seu grande amigo Ethan fosse preso por algo que ela fez.
— Isso é ridículo — disse Spencer. — É armação. Uma tentativa desesperada de salvar o cliente. Quanto deve ter oferecido à moça para que ela confessasse?
— Como se atreve a insultar meu cliente?
— Ora, calem a boca. — Williams parecia ter perdido a paciência e a compostura. Olhou para o promotor. — Como pretende lidar com isso?
Stonem olhou para Ethan. Ethan olhou para Nicholas. Nicholas assentiu. Ethan assentiu.
— Já que o estupro veio à tona — respondeu em lugar de Spencer —, vou chamar Nicholas Hentz ao banco.
— Não pode permitir isso — disse um desesperado Lionel Spencer.
— Depois desse depoimento, serei obrigada a permitir — disse a juíza.
— O assassinato de Lafferty obviamente foi promulgado numa situação de extrema emoção — disse Stonem. — A Srta. Bellafonte foi movida por nada mais que o desejo de vingar o irmão de seu amigo e, talvez, de todas as pobre crianças vítimas do padre ao longo dos anos.
Spencer estava claramente confuso. Não sabia se queria mesmo mandar a filha do governador para a prisão.
— Pretende passar suas acusações a Amy Bellafonte? — Williams perguntou.
Amy olhou para Ethan. Não era ela. Não podia ser. E havia um desespero latente ali. Ele imediatamente percebeu que, por algum motivo, Spencer precisava querer passar as malditas acusações para ela.
— Eu não me arrependo de ter feito isso — Amy falou. Foi o fim da hesitação de Spencer. Ao ver sua chance, a agarrou.
O promotor usou-a para transformar Amy de uma improvável justiceira em sua psicopata insensível, que foi exatamente o que ela demonstrou ser. Respondeu todas as perguntas de forma mecânica, sem demonstrar emoção alguma.
No entanto, Nicholas foi a perdição dele. Stonem o entrevistou bem, focando principalmente nas emoções da criança abusada. Nick foi forçado a destruir a imagem de sua mãe ao revelar como ela lidara com aquela situação, mas não importava. O que importava é que ele tinha nove anos e ninguém para se apoiar. Pais ausentes. Família pequena. O que fazer? E por que não relacionar aquilo com sua depressão e tentativa de suicídio, mesmo que uma coisa não tivesse nada a ver com a outra?
Quando foi perguntado se Spencer queria fazer perguntas, ele apenas meneou a cabeça. Para destruir o argumento de Nick, ele precisaria jogar a culpa nele, por nunca ter ele mesmo denunciado Lafferty. E como a marca da lágrima que chorara ainda estava em seu rosto, era claro que fazer isso seria dar um tiro no próprio pé. O júri era de Nicholas Hentz.
Ethan descobriu que Melchior havia rastreado meninos abusados por Lafferty. Três garotos, chamados Philip, Luke e Andrew, alunos da Escola Antoniette, que deram relatos emocionantes sobre como Lafferty os obrigava a ficarem completamente nus sobre as batinas, porque ele gostava que as usassem enquanto os molestava.
Spencer não tinha o que fazer. Fazer uma criança molestada chorar seria o fim de sua carreira. Sua argumentação em cima de Amy estava saindo cada vez mais do foco.
O tribunal entrou em recesso para o almoço. Do lado de fora, Ethan não encontrava Amy em lugar algum. Nick fora interceptado por uma trupe de paparazzi e agora falava com mais clareza. Suas palavras estariam nas próximas horas em todos os meios de comunicação que existiam.
Houve um momento em que alguém perguntou-lhe como ele poderia ter se traumatizado pelo abuso se era tão promíscuo. Nick olhou para seu rosto durante longos seis ou sete segundos antes de responder como se ele fosse o maior imbecil do mundo.
— O fato de eu ser promíscuo é exatamente porque eu fui abusado. A maioria dos meninos ou meninas que sofrem isso acabam se tornando traumatizados com o próprio corpo, passam a odiá-lo, passam a odiarem-se porque pensam que a culpa é deles. É por causa de pessoas como você que eles e elas pensam assim. Quando crescem e atingem a puberdade, simplesmente se recusam a ficarem traumatizadas, e acham no sexo uma forma de escape. É no sexo desenfreado que elas encontram aquilo que não encontraram na primeira vez que o tiveram: prazer, carinho, compreensão. É por causa de porcos como você que nós precisamos agir assim. Porque vocês nos fazem crer que a porra da culpa foi nossa.
E se naquele dia ainda houve alguém que dissesse que foi, foi Edric Winter. Nick ouviu-o pacientemente.
— Se Lafferty era um estuprador, por que ele nunca me abusou?
Ele parecia quase com inveja. É claro, se Nicholas foi, por que não ele?
Melchior apareceu ali nesse momento e respondeu:
— Ele não conviveu com você quando era uma criança.
Winter quase deu um pulo ao vê-lo ali e passou a se esconder atrás de Autumn. Discretamente, mas era óbvio que estava se escondendo.
— Não me importa. Eu não acredito em você.
— Então acredite em mim.
Eles todos olharam. Era Jules. Tinha olhos marejados e uma expressão furiosa.
— Cela faire mal — sussurrou Melchior olhando para ele, sem nenhum sotaque. Era francês, mas Ethan não sabia o que significava. — J'ai mal partout. C'est la faute à Lafferty. Et ce odeur de citron ne sort pas de ma tête. Dia 1 de fevereiro de 2010. Ele o estuprou como fez a tantos outros garotos. Você escreveu no seu diário. Não me pergunte como sei. Eu sei tudo.
— Você… — Winter olhou fixamente para o rosto do primo. Bem, primo em segundo grau. — Meu Deus. Você… você foi? Por que… por que nunca me disse? É por isso que você o odiava tanto.
— Eu nunca te disse porque imaginei que você fosse dizer que eu tenho sorte.
Winter ficou vermelho. Ethan percebeu que era a primeira vez que ele notava a própria estupidez. Não devia ser uma boa sensação.
— E foi você quem me denunciou, não foi? — indagou a Autumn. Todos olharam para ele. Nick estava incrédulo, mas todos os outros já sabiam.
— Eu… desculpe. Quer dizer… eu achei que… as malditas fotos estavam no seu celular.
— Que foi magicamente parar no seu quarto. Então pela primeira vez você age impulsivamente como seu namorado e pela primeira vez você erra miseravelmente.
Achou que os dois provavelmente discutiriam aquela noite. Era engraçado. Puxou Jules para um lado e colocou a mão em seu rosto. Sentiu como era quente.
— Você quer ir ao banco do réu? — perguntou a ele. Jules assentiu.
— Acho que se eu não arrumei coragem o suficiente para destruir aquele desgraçado enquanto ele estava vivo, posso arrumar coragem depois de morto.
Quando o julgamento voltou, Jules destruiu cada pedaço de dignidade que ainda sobrava em Lafferty. Diferente de Nick, foi agressivo e incisivo, não poupou descrições e até mesmo enojou alguns jurados. Mas era isso que Stonem queria. Ninguém mais lembrava-se de Amy. Spencer estava acabado. Poderia conseguir que Amy prestasse trabalho voluntário e se consultasse com um psiquiatra, mas era tudo. Aquela moça simplesmente fez o que qualquer outro naquela sala gostaria de ter feito.
Melchior, Summer e Spring haviam sumido. Winter e Autumn haviam ido embora. Lorenzo foi para casa, pois não precisava ouvir nada daquilo. Nicholas ainda estava lá, inabalável. Seu leãozinho de Hentz. Tão grande, e ao mesmo tempo tão pequeno.
Quando a noite finalmente chegou, estava tudo acabado. O júri deliberaria a sentença de Amy. A corte estava suspensa. Ethan implorou uma audiência com ela. Precisava falar com ele, precisava de respostas. Por que ela assumira a culpa sem consultá-lo? Por que estava tão absurdamente mudada?
Stonem conseguiu que se encontrassem numa sala vazia, afinal. E não estava só. Melchior estava lá também. Nicholas foi com eles.
Havia um homem de barba e cabelos brancos na sala, sentado numa poltrona a frente de Amy, que estava sentada numa outra. Ela tinha os olhos fechados.
— O que está acontecen… — começou a dizer, mas foi interrompido.
— Eu quero que você acorde — disse o homem. Era um médico. — Você, que está aí dentro. Você, que testemunhou no tribunal. Eu quero que você acorde.
Ela se remexeu e emitiu um grunhido. Começou a respirar com dificuldade, seus lábios apertaram, as sobrancelhas franziram, os olhos se remexeram por baixo das pálpebras e finalmente se abriram. Estavam novamente mudados. Na verdade, tudo nela aprecia mudado. Era como se os ossos por baixo da pele tivessem se movido de lugar. Como se outra pessoa tivesse se apossado daquele corpo e agora o estivesse controlando.
— Você está aqui? — perguntou o homem.
Ela assentiu.
Ethan não aguentou mais.
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?
— Eu posso — disse Melchior com sua voz suave e sussurrante. — Depois que a segunda parte do julgamento acabou, Amy foi trazida para cá e simplesmente desmaiou. Acordou três minutos depois, começou a tremer e a chorar. Disse não fazer ideia de onde estava. Pensei que ela pudesse estar tendo um colapso nervoso e recomendei que o Dr. Prescott viesse. É um psiquiatra. Foi ele quem me convenceu a fazer Psicologia na faculdade.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Lindo — disse secamente. — E daí?
— Ele sugeriu uma sessão de hipnose para que ela recobrasse as memórias. E isto aqui surgiu. Isso foi na primeira tentativa, mas ela desmaiou de novo. Vocês chegaram no meio da segunda tentativa.
— Amy — disse o Dr. Prescott.
— Não — ela disse. Até sua voz parecia mudada. — Meu nome não é Amy.
— Qual seu nome, então? — ele indagou tranquilamente.
A porta se abriu. Era Summer. A última pessoa do mundo.
Amy olhou para ele. Sorriu adoravelmente.
— Summer — ela disse. — Que bom revê-lo.
— Igualmente. — Ele se aproximou e tocou-lhe os dedos da mão. — Arianne.
— Seu nome é Arianne? — indagou Prescott.
— Sim. Arianne Bailey.
Ethan não acreditava na conversa que estava presenciando. No entanto, Summer e Melchior pareciam a estar entendendo bem, assim como o Dr. Prescott.
— Quantos anos você tem, Arianne?
— Dezesseis.
— Você sabe da existência de Amy Bellafonte?
— A moça mais certinha, meiga e obediente do mundo? É claro que sim.
— Então você nasceu quando ela tinha quatro anos, certo?
— Sim. — Ela virou-se para Summer. — Por que veio aqui?
— Na última vez que nos encontramos, você me disse que eu a encontraria de novo, que você precisaria de mim e que você tinha me contado um segredo nas entrelinhas. Acho que o descobri. Vim porque eu prometi que viria.
— Arianne — disse Prescott —, foi você quem testemunhou naquele banco do réu?
— Foi.
— Foi você quem assumiu a culpa pela morte de Lafferty?
— Foi. Eu fui Amy durante o dia inteiro. Acho que ela nem sabe que saiu da cama hoje de manhã.
— Existem outras de você?
— Não. Sou só eu. — Ela virou-se novamente para Summer. — Raphaello di Fleurs acordou do coma, não foi?
— Sim — ele disse. — E está abrindo a boca para todo mundo.
— Eu devia tê-lo matado quando tive a chance.
— Arianne — disse Prescott —, quem é Raphaello di Fleurs?
— Uma das minhas… vítimas, como a mídia gosta de chamar.
— Você o matou?
— Sim.
— Em que ocasião o conheceu?
— Ele chamou uma prostituta e eu fui. Estava com o irmão. Consegui fazer o outro morrer no hospital, mas tive pena desse. Tinha apenas catorze anos. Foi incitado pelo irmão.
— Você é uma prostituta?
— Você é idiota ou o quê?
— Está bem. Eu quero que feche os olhos agora. Eles estão pesados, muito pesados. Sua mente está em paz. Seu corpo está relaxado. Você dormirá agora e quando acordar, voltará a ser apenas Amy Bellafonte.
Ela fechou os olhos até sua expressão se suavizar e finalmente dormiu. O Dr. Prescott foi com todos eles para um canto.
— É um álter — disse com simplicidade. — Já ouviram falar de distúrbio de personalidade múltipla? Também chamado de distúrbio de identidade dissociativa, é quando o indivíduo convive com várias personalidades dentro do próprio corpo. Uma pessoa pode ter um ou cem álteres; eles têm idades diferentes, nomes diferentes, personalidades diferentes. Podem ser estúpidos ou brilhantes, falar línguas diferentes ou a mesma com sotaque, ter sexos diferentes. Uma pessoa com esse distúrbio pode aparentar ser completamente normal até ser tomada por um álter, e esse álter pode controlá-la por uma hora, um dia ou uma semana. Isso normalmente causa uma obliteração total das memórias quando a pessoa volta a seu estado original, fazendo-o a esquecer todos os momentos que passou sob outra personalidade.
— Meu Deus — murmurou Nicholas. Ele estava tremendo. — Está dizendo que Amy é a responsável por toda essa onda de assassinatos? E que ela é uma prostituta?
— Não, estou dizendo que Arianne é. Alguns padrões nunca mudam. Os álteres normalmente escolhem nomes com as mesmas iniciais. Amy Bellafonte. Arianne Bailey. Arianne tem dezesseis anos, é uma prostituta e sofre de um caso sério de psicopatia. Se confessou o assassinato dos irmãos di Fleurs, também é responsável pelos outros.
— Mas se foi Arianne quem os matou, Amy não estaria ciente disso! — bradou Nick. — Arianne é a culpada. Amy é inocente.
— Infelizmente, elas dividem o mesmo corpo. E se Arianne demonstrou que é tão independente e capaz dessa forma, eu receio que ela tem que ser impedida antes que mate mais alguém. Amy terá que ir junto. Será algo bastante simples, na verdade. Será preciso provar no tribunal e terá de ter o testemunho de pelo menos três profissionais na área de que Arianne Bailey realmente existe. Se isso for provado, Amy seria enviada a uma instituição de reestruturação mental…
— Um hospício — sussurrou Ethan.
— Uma instituição de reestruturação mental — frisou o Dr. Prescott. — Onde poderá suprimir sua personalidade distinta. E Arianne sabe disso. É por isso que ela agiu com tamanha frieza ao falar sobre Lafferty. Foi para preparar o mundo para ela e provar que era ela, e não Amy, quem havia cometido todos os assassinatos.
— Ethan, Raphaello está falando — disse Summer. — Ele com certeza conhece o rosto da filha do governador. É a instituição… ou a prisão. Essa é a parte mais horrível.
— Não — murmurou. Amy estava se remexendo na cadeira, prestes a acordar. — A parte mais horrível vai ser contar tudo isso a Amy.
— Esperem aí — disse Nick. — Você disse que o aparecimento de um álter ocorre após um trauma. Que espécie de trauma poderia criar um monstro como Arianne?
— Eu posso responder isso — disse Summer.
— Depois você responde — disse Ethan. — Ela está acordando. Deixem-me falar com ela a sós.
Eles todos deixaram a sala, inclusive Nick. Ethan se sentou na poltrona onde o Dr. Prescott estivera sentado e esperou que ela finalmente acordasse. Olhos meigos, lábios suaves. Era Amy. A garota que havia acordado há poucos minutos parecia nunca ter existido. A situação inteira era absurda, como que retirada de um sonho.
— Amy — falou-lhe com suavidade. Colocou uma mexa de cabelo loiro por trás de sua orelha enquanto ela focava a visão em seu rosto.
Antes de começar a falar, precisava realmente saber exatamente o que ela sabia. Com algumas perguntas, descobriu que Amy se lembrava da noite do assassinato e de terem enterrado Lafferty, mas que ela não fazia ideia de que fora ela quem dera essa ideia. Também não se lembrava de ter limpado o sangue. E por incrível que parecesse ela não se lembrava da reunião com Ethan, Melchior, Nick e Lorenzo, logo após o descobrimento do corpo de Lafferty. Era Arianne o tempo todo.
— Por que está perguntando isso? — ela indagou cansada. — Essas coisas nunca aconteceram.
Ethan suspirou.
Quando começou lentamente a perguntar a ela se sabia o que era distúrbio de personalidade múltipla, teve uma estranha sensação de déjà vu. Então percebeu que a situação era praticamente idêntica a de dois anos atrás, quando procurou seu irmão de treze anos para explicar que devido à morte de seus pais, ambos teriam de procurar um guardião legal, ou seja, que talvez houvessem de ser adotados. Na época, essa ideia simplesmente não entrara na cabeça de Nick, que gritara um grande e sonoro…
— NÃO!
Amy curiosamente estava fazendo a mesma coisa.
— Você sabe que isso é verdade. Uma vez você me disse que desde que era criança se lembra de ter grandes períodos de tempo simplesmente desaparecidos da sua memória, como se nunca houvessem existido. Você não sofre de amnésia. Esses períodos são os períodos em que o seu álter toma controle do seu corpo. Você não se lembra de nada quando volta ao normal.
Ela ficou um tempo sem falar, sem olhar para ele, apertando os braços da poltrona, olhando em volta da sala sem mexer a cabeça, apenas os olhos azuis.
— Você sequer se lembra de ter levantado da cama hoje cedo?
— Você… você falou… com… ela?
— Bem, sim. Ela nasceu quando você tinha quatro anos, então tem dezesseis. O que aconteceu com você em 1998? A morte da sua mãe?
— Ora, eu não sei. Minha mãe morreu em 2001. Ethan, eu quero morrer. Ajude-me a morrer…
Ele ainda não havia falado que ela era uma prostituta e uma assassina.
No entanto, quando disse que seu nome era Arianne, tudo isso pareceu sumir da mente de Amy ou perder importância, pois a única coisa que ela disse foi:
— Arianne? Arianne o quê?
— Bailey.
— Arianne Bailey? — Ela sorriu tremidamente. Por um segundo, Ethan pensou que estivesse ficando louca. — A maldita puta escolheu o nome da minha avó?
— Sua avó? Oh. — Sabia que Amy fora criada por sua avó materna, que morrera em 2011, dez anos após a morte de sua mãe, mas não conhecia seu nome. Também não sabia que as duas foram tão ligadas. Sentiu-se um péssimo amigo. — Amy, nem eu nem você sabemos o que causou o nascimento de Arianne, mas ela é uma reação a um trauma muito grande. Arianne existe para proteger você.
— Eu sei.
— Que bom que sabe… — Parou de falar. Ela começou a rir, rir gostosamente e com vontade. — Por que você voltou? — indagou irritado. — Traga-a de volta!
— A maldita puta escolheu o nome da minha avó — Arianne repetiu numa voz zombeteira. Ethan teve uma sensação horrorosa. A cena era absurda. Duas pessoas dividindo o mesmo corpo. — Eu traria se soubesse como. Eu ficaria dormindo por mais tempo se não tivesse que suportá-la. Você conseguiria imaginar como é ter Nicholas vivendo em você? Tendo que suportar cada pensamento e ato seus? Ele enlouqueceria. É a mesma coisa.
— Nicholas e eu somos pessoas reais. Você não é. É só um pensamento.
— Eu gostaria que você fizesse um pós-doutorado em psicologia antes de ousar tecer qualquer comentário sobre Amy e eu.
— Por que você existe? Me diga.
— Você sabe por quê.
— Sim, um maldito trauma. Mas qual? O que aconteceu?
Arianne sorriu. Era um sorriso bonito, mas também horrível, pois Ethan não estava acostumado a ver Amy sorrir daquele jeito tão sarcástico. Era como se outra pessoa a estivesse vestindo, e o sentimento era horrendo.
— Você devia parar de ser tão individualista e começar a tirar proveito de quem não tem nada a lhe oferecer.
— O que quer dizer? — Mas ela já havia sumido. Amy voltara e voltara a chorar também. Ela não fazia ideia de que todos aqueles minutos haviam se passado.
Ethan consolou-a por mais alguns minutos e gentilmente pediu licença. Saiu da sala para encontrar todos os outros do lado de fora, conversando em sussurros. Olhou diretamente para Summer. Tirar proveito de quem não tinha nada a lhe oferecer, ela dissera?
— Como você a conheceu?
Ele olhou para Nick, depois de volta para Ethan.
— Nicholas havia me dado a chave do antigo apartamento de vocês para que eu passasse a noite se estivesse em dificuldades. Eu só fui uma vez, mas na vez que eu fui, encontrei aquela garota na rua. Uma prostituta. E não, antes que você pergunte, eu não sabia que ela era filha do governador. Nunca tinha visto seu rosto antes.
— Na verdade eu ia perguntar como você pode ter levado uma completa estranha para aquele apartamento.
— Eu não me importei com isso na hora. Estava emocional e moralmente quebrado e meio desesperado também. Precisava de companhia. Conversar com alguém. Não pretendo entrar em mais detalhes, mas é isso aí. Eu a encontrei, tive uma conversa com ela e fomos ao apartamento. Tivemos mais uma conversa e então ela foi embora. Ela disse que um dia precisaria de mim e que eu saberia como ajudá-la nesse dia. Hoje de manhã, quando seu advogado disse que chamava Amy ao banco e ela se levantou, mal pude acreditar que era ela. Na verdade, achei que tinha me dado um nome falso. Então durante o recesso do julgamento, eu a procurei e falei com ela. Com Arianne, não com Amy. Ela me contou que sim, que era Arianne, mas que também era Amy. Pensei que estivesse interpretando um papel, que tivesse uma vida dupla, algo assim. Depois o julgamento voltou e durante ele eu finalmente me dei conta de que era outra personalidade. Foi pura intuição.
— Bem — suspirou Ethan —, acho que você pode nos contar por que Arianne existe.
Summer sorriu.
— Sim, posso. Contarei a todos vocês, inclusive a Amy, e precisarei da colaboração de Arianne. Mas antes quero que sejam chamados mais dois psiquiatras. Quando eles ouvirem o testemunho e virem que Arianne realmente existe, darão seu laudo e seu advogado poderá alegar o distúrbio quando Raphaello di Fleurs finalmente acusá-la. Amy será mandada a uma instituição de reestruturação mental, e não a uma prisão comum.
— E ela ficará lá até que Arianne morra dentro da mente dela — disse Melchior suavemente. — Não se sente mal em mandar sua grande amiga à morte?
Summer não se deixou perturbar. Ethan decidiu que gostava dele.
Como Amy estava sob custódia policial, Ethan pagou sua fiança e ela saiu em liberdade. Pelo menos no sentido figurativo, pois todos continuaram lá dentro, inclusive Melchior e Nicholas. O Dr. Patterson havia contatado dois amigos um pouco mais céticos que chegaram com caras arrogantes e blocos de anotações.
Estava tudo silencioso quando Summer sentou-se em frente a Amy, e não a Arianne, e começou a falar.
— Amy, nesse mundo existem muitos Laffertys Winter. E você, infelizmente, conheceu um deles.
Fale com o autor