Era uma vez um rapazinho de onze anos num campo industrial no dia 12 de abril de 2009, numa cidadezinha pequena de oito mil e quatrocentos habitantes ao nordeste de Carlisle chamada Furness, no Condado de Cúmbria, na Inglaterra.

Aquilo era, naturalmente, a Companhia Tudor, um conjunto de fábricas que vinha a ser o maior sustento de Furness, empregando quase um quinto dos trabalhadores homens e um meio das mulheres.

A pequena cidade parecia ter parado no tempo, num ano esquecido da década de 50 em algum ponto remoto e longínquo da Inglaterra que fazia divisa com a Escócia, onde tudo era produzido pela Kruger-Vorheel e Elvis tocava nas rádios dia e noite. Onde tanto os objetos quanto as pessoas eram antiquados ou simplesmente velhos.

Havia outras crianças também, é claro, a maioria da Escola Municipal de Furness. Quase trezentas, como foi contabilizado — embora se supusesse a existência de alguns penetras mais velhos —, e havia também pelo menos um ovo de Páscoa escondido ali para cada uma. A tradicional família Tudor organizara aquela mais tradicional ainda caçada na Páscoa e a cidade aderira a ela, como não podia deixar de ser.

E um jovem com ouro nos olhos e o outono nos cabelos fora junto. Naquela época, ele anda se chamava Edric. Adentrara com o coração na boca no titânico complexo que se estendia como um deserto de pedra bem a sua frente. Aos poucos, as crianças se dispersavam, assim como seus gritos de felicidade e excitação, quase como se levados pelas lufadas de ar que jorravam na direção contrária.

Se havia um lugar em Furness que Edric considerava assombrado, era aquele. Todo o cimento liso e perfeito como uma lagoa parada era banhado pela dourada luz do crepúsculo, onde as sombras se agigantavam e viajavam sem pressa pelas enormes construções cinzentas como espectros negros. Um silêncio sinistro se estendia por tudo, cortado apenas pelas cada vez mais baixas vozes infantis e pelo rugir do vento. Era um dia atipicamente frio para uma primavera.

Como todos ali sabiam, aquelas fábricas pertenceram um dia ao que a maioria dos habitantes de Furness chamava de a falecida empresa Hentz, ou Kruger-Vorheel, quase sempre abreviada como K-V, a maior empresa industrial do planeta por quase cinquenta anos que ruíra sobre suas esplêndidas colunas nove anos atrás.

Os adultos frequentemente contavam que o mundo começara o novo milênio como o cemitério da família Hentz, cheios de seus dejetos rejeitados pelos grandes compradores. A queda da K-V deixara quase dois terços de Furness desempregada até que os Tudor foram ali e compraram o complexo.

Talvez desde então, ou ainda antes, pois Edric não se lembrava realmente, ele era o que podia se chamar, pelo menos entre garotos de onze anos, de o melhor amigo de Jesse Tudor.

Era engraçado que um menino de sua idade tivesse o mesmo nome de sua mãe. O completo nome de Edric, Edric Tudor Autumn, tornava óbvio que, de alguma forma, ele era aparentado a Jesse. Naquela época, seus pais ainda moravam juntos ali em Furness, e sua mãe lhe dissera que Jesse era algo como seu primo de quarto ou quinto grau. Era incrível porque Jesse Tudor — a mãe de Edric, e não seu primo de quarto ou quinto grau — era californiana. Ela nunca revelara suas raízes inglesas.

Jesse, seu primo de quarto ou quinto grau, e não sua mãe, estava com ele naquele momento, naquele momento que jamais sairia de sua memória e futuramente lhe daria pesadelos noite após noite. Naquele momento em que corriam por cima do mar petrificado de água cinza como se estivessem numa grande aventura. Ele gritava, correndo à frente de Edric: Sou o Senhor das Águas! Sou o Senhor dos Ventos! Sou o Senhor dos Ovos de Páscoa! E sua longa relva de cabelos muito negros chacoalhava violentamente por trás da cabeça, emoldurada nos bonitos e enormes olhos azuis.

Havia pelo menos três gerações de Tudor guardando as entradas de funcionários e lugares perigosos do complexo, mas Jesse dissera que não havia problema em irem a qualquer lugar — estava tudo trancado e as caldeiras estavam desligadas. Ele inclusive lhe dissera que havia alguns ovos de Páscoa escondidos naquele campo lá ao longe.

Edric parou quando se aproximaram da longa cerca de metal eletrificada. Era alta e assustadora, com uma daquelas horripilantes teias de arame farpado por cima. Um barulho suave indicava a tensão da eletricidade atravessando cada nó de metal da cerca, quase como o ronronado de um leão adormecido.

Olhou para trás. Se afastaram muito das outras crianças e adultos, quase nada podia ser ouvido deles agora, a não ser um excitado e repentino Achei! vez ou outra.

Olhou para Jesse. Os olhos da cor do céu estavam abertos e alegres para ele, apenas para ele, junto com um curto sorriso nos lábios rosados e finos. O rosto estava molhado de suor, aderindo à pele pálida como cola e às roupas também. A imagem de vê-lo ali, com as roupas grudadas no corpo, causou em Edric uma sensação estranha a qual um imaturo garoto de onze anos não teria capacidade de discernir, mas que dividia-se entre a vontade de beijá-lo e de pressionar seu quadril nu contra o dele.

— Vamos entrar — Jesse disse se empoleirando na cabine da portaria. Meteu metade do corpo dentro do lugar e depois o braço. Edric sabia que ele estava mexendo na aparelhagem eletrônica, pois logo o portão pequeno se abriu num estalo elétrico, mas ficou ocupado demais encarando a parte de baixo de sua calça para pensar em impedi-lo. — Tem ovos lá, eu sei que tem. Ouvi eles dizendo que colocariam em lugares onde ninguém tivesse coragem de ir pegar. Que outro lugar senão aqui?

Teve vontade de dizer-lhe que era mais provável que eles colocassem os ovos debaixo de uma escada — sete anos de azar — que ali dentro, mas não quis discutir, pois Jesse puxou-o pela mão para entrar, e esse toque foi incrivelmente bom. E seu sorriso também era o maior dos motivadores.

Naquele campo o chão não era cimentado, e sim de terra batida. A grama ocasionalmente explodia em forma de capim nos cantos dos prédios, gigantes de cimento que lançavam sombras negras por cima do crepúsculo cada vez mais evidente. Jesse pediu que imaginasse que eram dois gigantes arrasando vilarejos de fadas construídos nas pequenas Florestas Sagradas — o capim — que nasciam na Terra da Desolação como milagres mágicos.

Ele propositalmente pisava nos matos, fazendo barulhos estrondosos quando seu pé batia contra a terra. O sons industriais que a Companhia Tudor sempre produzia agora estavam adormecidos, deixando o ar monótono e maçante, como se uma parte da cidade de Furness tivesse adormecido também.

Repousando no meio de um grande campo vazio, havia um gigantesco cilindro ladrilhado por dentro e completamente liso e cinzento por fora, como o fóssil da tromba do maior elefante do mundo. Era grande o suficiente para dois garotos entrarem dentro e ficarem por alguns minutos antes de sentirem claustrofobia.

— Você acha que há ovos lá dentro?

— Não.

Já estavam ali há meia hora e Edric não havia visto nada que não fosse cinza, bucólico ou estivesse meio-morto. Algo lhe dizia que ir ali fora a pior ideia do mundo, a mais estúpida e a mais absurda também. As outras crianças estavam com os braços cheios de ovos de chocolate maciços e açucarados e eles dois…

— Vamos entrar mesmo assim.

Jesse puxou-o pela mão e se pôs de gatinhas para entrar no cilindro abandonado. Edric pensou que seria parte de alguma estrutura não mais usada e que seria jogado fora ou destruído logo. Imaginou a terrível cena do cilindro sendo vaporizado por uma bola de demolição com os dois meninos ainda lá dentro, seus corpos sendo esmagados sem que eles nem soubessem o que os atingiu. Nunca seriam encontrados, seriam misturados aos escombros para sempre.

Edric seguiu Jesse para dentro do cilindro e encostou-se numa das paredes côncavas, abraçando os próprios joelhos para manter-se confortável. Jesse recostava-se na parede oposta e suspirava rapidamente, cansado da correria que empreendera minutos atrás. Seus lábios estavam entreabertos, assim como os olhos. Pedaços de ladrilho espalhavam-se dentro do lugar, desprendidos das paredes.

— Isso é uma chaminé — percebeu então. O interior ainda conservava resquícios pegajosos de fuligem.

— É o nosso esconderijo. — Jesse se encostou ao lado de Edric e passou o braço por seus ombros, puxando-o para que se aproximasse mais. Seus olhos eram duas poças de água com o céu a ser refletido num dia quente de verão. — Só nosso. Não conta a ninguém.

— Não conto. — Então se inclinou para frente e por uma dose de momento pensou que fosse sussurrar algo em seu ouvido, um segredo só dos dois para combinar com o esconderijo, mas descobriu-se sem nada para falar, por isso disse: — É nosso segredo. — Jesse ainda mantinha os lábios entreabertos quando Edric os beijou.

Ele inspirou seu cheiro fortemente durante o beijo e então se afastou. Jesse permanecia o mesmo, impassível como uma estátua de cera, mas um leve rubor tomou conta de seu rosto branco, junto a um suave sorriso incrustado nos lábios. Dizem que os sorrisos espontâneos são sempre os mais bonitos. Se Edric soubesse que Jesse não tinha consciência de estar sorrindo naquele momento, teria concordado.

— É nosso segredo — Jesse repetiu. Edric esperou que ele engatinhasse para fora do cilindro para sair também. A visão de suas pernas se afastando do buraco luminoso por onde saíra foi a última vez que Edric o viu.

Porque foi mais ou menos nesse momento que o mundo começou a desabar. Edric só se lembrava de ser violentamente sacudido dentro da chaminé quando um barulho monstruoso abriu um rombo gigantesco na quietude da Companhia Tudor. Naquele momento, ele só se perguntou se o céu estaria caindo ou se o chão estaria se levantando antes de perder a consciência.

Nas semanas que se decorreram, contabilizou-se que o saldo de mortes chegou a setecentas e sessenta e uma pessoas: duzentas e setenta e duas crianças e cento e vinte e cinco adultos, mais trezentos e sessenta e quatro funcionários da Companhia Tudor. As caldeiras simplesmente explodiram, é o que disseram, mas a companhia de forma alguma admitia ter participação naquilo, pois as caldeiras foram desativadas. Não paralisadas, mas desligadas.

Edric foi encontrado cerca de quatro horas depois da explosão ainda dentro da chaminé, desacordado e com uma concussão leve. Parte da estrutura havia desmoronado em cima dele, quebrando-lhe um braço e causando-lhe vários arranhões no corpo, mas de resto estava bem. O corpo de Jesse Tudor estava tão despedaçado quando fora encontrado debaixo de vários escombros que a família Tudor achara melhor enterrá-lo de uma vez sem permitir que ninguém o visse. Disseram a Edric que o jovem simplesmente se evaporara no ar com a explosão.

O súbito acidente, que foi o maior da história de Furness e um dos maiores da história da Inglaterra, causou uma onda de desemprego vertiginosa na cidade com a falência da Companhia Tudor. Era a maldição da K-V, diziam as velhas e agora viúvas senhoras, às vezes de marido, filho e neto. De alguma forma, todas acharam um modo de culpar Edric Autumn e Jesse Tudor pela explosão.

Hoje em dia, a cidade de Furness tornou-se praticamente uma cidade fantasma. Com o desemprego, muitas famílias viram-se obrigadas a se mudarem para as cidades por perto, a maioria foi para Carlisle, a outra cruzou a fronteira e foi viver na Escócia.

Também hoje em dia, Edric abandonou por completo esse nome e passou a conviver com a rancorosa realidade de ser confundido com uma mulher pelo resto da vida ao adotar o nome de Autumn.

Vittorio Autumn contou ao filho que ele e Jessica Tudor planejavam se divorciar e que ele viveria em Londres enquanto ela iria para Los Angeles, na Califórnia. Autumn decidiu viver com a mãe, muito embora a menção do sobrenome de solteira dela lhe desse asco. Jamais contara a ninguém que beijara Jesse poucos segundos antes de ele morrer.

E quanto a causa da explosão? Jamais foi descoberta. A família Tudor faliu junto com a cidade de Furness. De alguma forma, todos souberam que aquilo aconteceria. Se a companhia se fosse, a cidade iria também.

Autumn chegou à Califórnia no Natal de 2009. Em fevereiro de 2010, ele ingressou no internato da Escola St. Nicholas, na cidade de Middleland.

A primeira pessoa que conheceu foi Edric Spring. O fato de haver outro Edric ali, no lugar mas longínquo do planeta Terra, foi arrasador. Era como um fantasma do passado arrastando seus grilhões.

— Olá — disse ele, uma criatura da altura de um duende de cabelos louro-amarronzados e olhos muito verdes, com várias camadas de roupas cobrindo o corpo e duas enormes malas atrás de si. — Sou Edric. Edric Spring.

Autumn fitou-o de cima a baixo, levantou uma sobrancelha e forçou-se a sorrir.

— Autumn — falou, e isso foi tudo. Teve uma sensação divertida de que Spring se assustara com a frieza daquela frase. Esperava que ele notasse seu sotaque britânico.

Ele, de fato, notou, e com o passar das semanas aquela criança-adolescente acabou fazendo-o se render aos seus sorrisos. A petulância de Spring em fazer Autumn gostar dele foi quase admirável de se ver. Depois veio Summer e por fim… Winter.

Aliás, era bem nisso que se lembrava no presente momento, de volta ao fim do primeiro semestre de 2014, deitado em sua cama confortável no quarto 11-E do Alojamento Vermelho da Escola St. Nicholas, os poucos metros quadrados onde passara a maior parte de sua vida.

O anel de ouro com uma minúscula pedrinha diamantina adornando-o brilhava sob a luz da manhã que banhava o recinto através da janela aberta. Ele já estava acordado há alguns bons minutos quando Spring finalmente começou a se mexer na cama ao lado. O menino parecia ainda mais diminuto entre tantos lençóis. Sentou-se na beirada da cama, deu um bocejo e esfregou os olhos com os punhos. Autumn já notara que ele fazia aquilo todos os dias e literalmente não se lembrava depois.

Spring lentamente abriu os olhos, piscando-os como se a claridade o incomodasse, mas o verde dos olhos estava levemente fosco. Depois de quatro anos, ainda conservavam o mesmo ritual matinal.

— Spring — disse fazendo levantar a cabeça distraidamente. — Vá lavar o rosto.

Ele se levantou letárgico como um zumbi, arrastando metade do lençol consigo até jogá-lo no chão na metade do caminho. Quando se trancou no banheiro, Autumn pegou o lençol e forrou sua cama diligentemente. Se não o fizesse, Spring jamais o faria. Ele logo saiu do banheiro, aparentemente de mau-humor.

— O que pretende fazer hoje? — indagou ao menor. Internistas podiam deixar os limites da escola nos fins-de-semana, embora houvesse um toque de recolher.

— Não sei, não quero ir para casa. Com alguma sorte eu posso morrer.

Um arrepio atravessou seu corpo nesse momento. Ficou observando Spring expulsar os últimos resquícios de sono do rosto com um fascínio incomum. Uma situação como aquela, os dois acordando às oito horas de um sábado numa manhã quente de maio já acontecera tantas vezes que passaram a ignorar todo o esplendor da coisa. E provavelmente só voltariam a se lembrar quando já estivessem separados pela distância e pelo esquecimento, trilhado caminhos diferentes e formado vidas distintas. Um absurdo total.

— O que é? — Spring indagou.

Autumn percebeu que suas mãos tremiam levemente, apesar de não estar nervoso. Ele sabia o que era, ah, sabia sim. O arrepio indicava isso, o terrível arrepio que começava na nuca e descia até os tornozelos, eriçando cada pelo que encontrava no caminho.

Ele se sentou na cama e ajeitou os rebeldes cabelos castanhos. Puxou os óculos e passou a limpar as lentes com a barra da camisa. Desejava um cigarro, mas só fumava quando estava com Winter, e ambos estavam tentando parar.

— Você pode tomar café? — indagou a ele. Não sabia bem se ele podia com todos os medicamentos que tomava escondido à meia-noite.

— Posso — respondeu. — Acha que é uma boa ideia? Você está tremendo.

— É necessário. Vamos, as paredes desse quarto estão ficando menores.

Vestiram-se e deixaram o quarto em direção ao refeitório do Alojamento Vermelho. O ambiente era todo repleto de cores pasteis, com alunos sonolentos e escassos jogados nos corredores, conversando baixinho ou tirando uma soneca com os respectivos amantes. Afinal de contas, eram todos meninos.

O refeitório era amplo e arejado, metade alojado dentro do prédio e metade numa parte aberta fora dele, que servia como uma imensa varanda. Daquele ângulo, a escola parecia um grande hotel.

Autumn forçou Spring a comer algo de café-da-manhã — ele próprio quase nunca comia nada de manhã, a não ser, lembrou com um sorriso, Winter —, depois sentaram-se numa das redondas mesas envidraçadas do lado de fora. Um guarda-sol bege jorrava uma sombra irregular em cima deles enquanto uma brisa fresca soprava do horizonte. Os arbustos floridos estavam desabrochados, coloridos e perfumados, como uma boa primavera que segue o inverno deveria ser.

Suas mãos ainda tremiam um pouco, mas ele as guardou no colo, em baixo da mesa, para que o pequeno não as visse.

— Spring, o que você sabe sobre mim?

Ele o fitou com perplexidade, e Autumn notou satisfeito que o que motivava isso era que a resposta dele seria miseravelmente curta.

— Não muito — murmurou enfiando um pão cheio de geleia roxa na boca. — Sei que você é da Inglaterra. De uma cidadezinha pequena chamada Furness. Sei que veio para cá em 2009 após a grande tragédia da fábrica Tudor.

— Companhia Tudor.

— Isso. Seus pais trabalhavam para essa companhia e ambos ficaram desempregados depois que ela faliu. Seu pai foi para Londres e sua mãe decidiu voltar para a Califórnia, que foi onde ela nasceu, apesar de a família ter ascendentes ingleses também. Sei que você veio com ela. Sei também que perdeu um amigo nessa explosão.

Autumn sorveu um gole do café quente e revigorante. Observou Spring beber do seu segurando a xícara com as duas mãos, como se fosse uma criança que tivesse medo de derrubá-la no colo por ser muito pesada. Ele usava um enorme casaco branco e roxo grande demais para ele. Era o casaco de Summer. Ainda conservava seu cheiro.

— Sei agora que sua mãe é executiva de uma empresa alimentícia que há pouco tempo foi comprada pela Anhert. Não sei o que seu pai faz. Também sei que você é parente distante de Summer. Algo lá pelas dezenas de graus de distância.

Agora seus olhos estavam firmes, cravados nele.

— Sei que você nunca demonstra tudo o que sabe. Que sempre parece esconder alguma coisa, o que o torna, a meu ver, a pessoa mais misteriosa da Terra. Você sempre guarda um pouco para si, mas não sei bem por quê. Você nunca tem pressa para nada, acredita que tudo sempre estará lá esperando. Fala devagar e cuidadosamente. Sempre se esforça para falar do jeito certo com a pessoa certa. Também não sei por quê. Você frequentemente tem pesadelos.

Autumn se sobressaltou. Ficou quase amedrontado. Mas não demonstrou isso.

— Eu nunca sonho — falou.

Spring sorriu.

— Você nunca lembra dos sonhos, mas sim, você sonha. Ah, pro diabo com isso. Winter frequentemente fica com você a noite inteira porque sabe que você está tendo pesadelos e não quer deixá-lo, pois ele sabe que você jamais o deixaria. Às vezes fala durante o sono, mas nunca é algo compreensível. Winter acaba tendo que tomar algumas doses de vodka. Eu acho que ele é incapaz de ficar perto de pessoas que estão sofrendo porque nunca sabe como apaziguar a dor delas.

Como aguenta ficar perto de você, eu, Summer ou Nicholas, então? Todos sofremos com coisas que não podemos consertar.

— Talvez você devesse cuidar para que ele não tenha um problema com bebidas. Ele gosta demais delas e eu me preocupo.

— Compreendo. Continue.

— Você já chorou algumas vezes, no sono.

Santo Deus, era tão ruim assim? Autumn se mexeu desconfortavelmente, mas Spring não percebeu. Desde o início da conversa, mantinha a mesma postura: sentado com as pernas quase cruzadas, os óculos propositalmente desajeitados no rosto, a cabeça levemente inclinada para a direita, as mãos pousadas na perna de cima com elegância. Vez ou outra puxava a xícara de café e bebia um gole, mas fora isso ele era um poço de calma.

Mas só do lado de fora. Por dentro, estava perturbado como uma criança que acaba de acordar de um pesadelo, mas pensa que ainda está sonhando. Havia lembranças tentando amontoar-se em sua mente, inchadas como uma quimera, ameaçando explodir em forma de lágrimas e imagens desconcertantes. Por que não o deixaram ver o corpo de Jesse Tudor?

Ah, mas agora ele sabia qual era o sonho. Um sonho pequeno e quase inofensivo se não fosse o apocalipse do final. Será que se murmurasse compreensivelmente o nome de Jesse durante o sono e Winter ouvisse, ele ficaria irritado? Provavelmente.

— Sei que você prefere café a chá, e eu ainda não me conformei com isso, já que você é a pessoa mais britânica que já conheci na vida. E sei que você é sadomasoquista e que namora Winter e que o ama muito, embora eu não saiba como, nem por quê. Também sei de mais uma coisa — murmurou baixinho. — Sei que ontem você recebeu uma ligação internacional e foi dormir perturbado por causa disso.

Tentou reprimir a voz de seu pai em sua cabeça, uma voz muito antiga e longínqua, pertencente aos tempos de outrora em que ele não sabia que queria transar com Jesse, embora os dois quisessem. Poderiam ter tido uma história maravilhosa e piegas se não fosse a explosão — Winter também não poderia ouvir isso. Quase conseguiu expulsar a lembrança, mas a voz explodiu em sua cabeça, entrecortada como o lamento de um sepultado vivo clamando por misericórdia.

… vou à Furness nessas suas férias de junho… Anhert reabriu a Companhia Tudor… chamando todos os antigos executivos de volta… você quer ir…?

Se ele queria ir! O que Autumn queria era envolver o pescoço branco e absurdamente rico de Ethan Lemnsack com as mãos e apertá-lo até que seu rosto ficasse preto por desenterrar aquele gigante morto, apodrecido e coberto de vermes. Companhia Hentz, se chamaria agora? Outra explosão e mais processos milionários, era o que ele queria agora? A família Tudor pagava até hoje os familiares das vítimas, e estavam quase falidos. Sua maior e irônica sorte era que, em maioria, famílias inteiras foram aniquiladas, muitas vezes não sobrando ninguém para reclamar indenizações.

E não, jamais voltaria a morar em Furness. Sim, voltaria à Inglaterra com Winter quando aquele semestre finalmente terminasse, mas ficaria o mais longe possível da fronteira com a Escócia. Aliás, Winter não suportaria viver numa cidade tão pequena.

Percebeu que seu café havia acabado. Levantou-se sem dizer nada e foi encher a xícara com o mais forte que encontrou.

— Você sabe que um amigo meu morreu na explosão — disse quando voltou. — Mas acho que não sabe que ele morreu na minha frente.

Spring inalou uma dose brusca de ar.

— Na sua frente?! Você estava na companhia? Oh, por que nunca…

— Te disse? — Deu uma risada seca. — Sei lá. Eu não o vi ser despedaçado, na verdade, estávamos brincando dentro de uma chaminé caída de cimento durante uma caçada de ovos de Páscoa. Não deveríamos estar ali, era área proibida, mas ninguém nunca conseguiu obrigar Jesse Tudor a fazer, bem, qualquer coisa que ele não quisesse. A família dele era dona da fábrica, ele sabia entrar em todos os lugares. Eu tinha apenas onze anos e o amava, então não ofereci muita resistência.

— O amava? Oh…

— Sim, o primeiro amor da infância. Havíamos nos beijado dentro daquela chaminé, apenas um selinho, mas quando penso nele hoje acho que não houve nem um pingo de inocência. E o beijei e ele me beijou de volta, o que foi ótimo porque, como eu disse, eu o amava, e acho que ele me amava também. Depois disso, ele saiu do cilindro e foi quando a explosão aconteceu.

— Que horror. Eu sinto muito.

— Perdi a consciência lá dentro. Nunca me deixaram ver o corpo. Disseram-me que ele havia simplesmente evaporado com a explosão, e eu não lembro quem foi que disse isso, mas eu lembro que o mandei se foder. Eu sabia que isso era impossível a não ser que os Estados Unidos tivessem jogado mais vinte quilotons de Little Boy ou Fat Man ali em Furness, e nesse caso eu teria sido evaporado também. Jesse foi enterrado no Cemitério Memorial de Furness. Como éramos os únicos na área proibida, as pessoas logo começaram a nos culpar.

— Céus, Autumn.

— Creio que se surpreenda por que eu nunca o tenha contado, afinal, somos colegas de quarto há quatro anos e eu sei tudo o que há para saber sobre a sua família, como o porquê de você e Summer odiarem Lincoln e sobre como seu irmão tem uma espécie de autismo que o torna o que é. Nem Winter sabe disso, mas é porque eu creio que chega um tempo em que colegas de quarto passam a saber tudo sobre o outro quase que instantaneamente, mesmo que não parem para ouvir. Por osmose, sabe?

— Sei. Você está certo.

— E nós dois sempre conversamos inconscientemente com o outro, não é? É por isso que sabemos tanto sobre o outro sendo que nós dizemos poucas coisas. É instantâneo. Ora, você sabe tudo o que houve comigo nesses últimos quatro anos, e vice-e-versa. Cada tristeza, cada felicidade, cada ideia ou loucura que fizemos. Você sabe que eu perdi a virgindade com Winter e que você perdeu com Summer, assim como ele com você, mas também sabe que Winter perdeu a dele com dez anos.

— Sim, sim. Ainda não compreendo como.

— Eu também não, e a verdade é que ele nunca me contou com quem, e fica irritado quando eu o pergunto. Mas acho que foi com Jules du Pont. Nós dois sabemos também que Jules está apaixonado por Nicholas. E que Nicholas não sabe disso.

— Sim, sabemos. Mas eu não sabia que você sabia. Está vendo? Você nunca revela tudo o que sabe.

— Eu seria um idiota arrogante e narcisista se fizesse isso.

— O que tudo isso tem a ver com Furness ou o telefonema?

— Já chego lá. Estou dizendo que estamos a par do que é mais importante para o outro, mas eu acho que nunca te expliquei o quanto Jesse era importante pra mim. Quase tanto quanto Winter, e por favor, jamais diga isso a ele. Não pense que é porque eu queria guardá-lo só para mim com uma espécie de possessividade tumular, mas é que nunca me ocorreu falar sobre Jesse.

— Não entendo.

— Spring, até hoje de manhã eu nunca nem havia pensado em Jesse.

— Você me disse que tinha um amigo que morreu num acidente…

— Estava repetindo um fato. Não é como se estivesse pensando nele. Um amigo, eu disse, nem sequer falei o nome dele porque não me dizia nada. No entanto, ele nunca saiu da minha mente, e sempre encontrou uma maneira de se expressar.

— Está falando dos pesadelos? Dos choros?

— Sim. Os pesadelos deveriam ser a última cena em que eu o vi, as cenas que sumiam de meus olhos quando eu acordava. Mas hoje de manhã eu acordei e me lembrei dele. Na verdade, eu não me lembro nem de ter acordado, só de estar deitado na cama olhando para o teto, semiconsciente e pensando em Jesse Tudor e no quanto os lábios dele eram macios.

— Está dizendo que, em absoluto, nunca pensou em Jesse? Mesmo quando se lembrava da tragédia de Furness?

— Furness me era tão relevante quanto uma pilha de caroços de uva. Depois que saí dali, passei a odiar aquele lugar com todas as minhas forças, mas nunca me ocorreu parar para pensar por quê. Talvez se eu tivesse feito isso, me lembraria de um jovem de olhos azuis e cabelos compridos e negros que eu beijei dentro de um cilindro de cimento na Páscoa de 2009, que eu amava e estimava muito, mas não.

— Mas você não tinha motivo algum para odiar Furness, já que não ligava a cidade a Jesse.

— Sim, é aí que estou querendo chegar. Por que eu odiava Furness se simplesmente não fazia ligação daquela maldita cidade com Jesse Tudor? Eu creio que nunca saberia essa resposta, ou nunca me importaria em saber, se não tivesse recebido a ligação de ontem. Meu pai, Vittorio Autumn, ligou-me e disse que a Companhia Tudor vai reabrir. Quando ouvi a voz dele falando esse nome, tudo o que passei naquela cidade voltou à minha mente de uma vez. Foi terrível. Ele voltará para Furness e perguntou se eu quero ir com ele.

— Meu Deus, quem irá reabri-la?

— Adivinhe.

Spring olhou para seu prato já vazio, para a xícara de café pela metade e já frio.

— A Anhert? Os Hentz?

— A Companhia Tudor se chamava Fundição Kruger-Vorheel antes do novo milênio. Sei que Nicholas já te contou que Ethan está recuperando todas as companhias que pertenceram aos antepassados deles e que foram fatiadas como linguiça no ano 2000. Sim, a Anhert comprou aquela velharia e chamou todos os antigos executivos para trabalhar lá novamente. Agora que eu penso, minha mãe também provavelmente foi chamada.

— Mas eles nunca iriam voltar àquela cidade depois do que aconteceu.

— A alta cúpula foi praticamente amaldiçoada com a explosão, entende? Ninguém mais os quer. Nenhum dos antigos executivos conseguiu emplacar grandes carreiras depois disso. Minha mãe foi provavelmente a mais bem sucedida, e mesmo assim eu tenho certeza que ela ganhava mais lá. E entenda, Spring, que em Furness, o patriarca da família Tudor era como um senhor feudal. Minha mãe é Tudor por nascimento. As raízes dela estão naquela cidade amaldiçoada. Ela é uma nobre de nascença, assim como Nicholas ou Ethan.

— Está dizendo que ela vai aceitar?

— Eu tenho certeza disso. Mas eu não voltarei a Furness. Pelo menos não para morar. Talvez você não saiba, mas ninguém sabe por que a explosão aconteceu. As caldeiras estavam desligadas. No entanto, elas decidiram simplesmente explodir na cara de Jesse. É algo tão grande e tão terrível, tão absolutamente terrível o que eu penso a respeito disso que eu nem tenho coragem de te falar.

— Você sabe que pode falar comigo sempre que quiser, sobre o que quiser. — Spring pegou em sua mão, que estava em cima da mesa, e a envolveu entra as suas, pequenas e quentes. Quem olhasse de longe podia imaginar que os dois estavam tendo um caso. Que bobagem.

— Eu realmente acho que algo fez as caldeiras explodirem. Não alguém, mas algo. Algo que não podemos compreender, que talvez a ciência jamais chegue a entender, algo além da nossa compreensão. Não pense que eu tenho certeza do que estou falando, porque é só uma suposição. Não compreendo bem o que é esse algo, mas sei que ele existe. Eu sei porque meu consciente não consegue aceitar que Jesse morreu por causa de alguma reação química que não deveria ter acontecido.

Spring pareceu entender aonde ele queria chegar.

— Você quer voltar a Furness. Quer andar pelos escombros da Companhia Tudor.

— É, acho que sim. E agora é Companhia Hentz. Está em todo lugar, o nome deles. Sabe, diz-se que as empresas da falecida K-V são todas amaldiçoadas. De todas as que se desmembraram da corporação bruta quando ela foi vendida, há duas opções: ou de alguma forma faliram, ou então não conseguiram o mesmo sucesso. Ninguém conseguia compreender o sistema de governo que os Hentz empunhavam na antiga empresa. As coisas eram tão confusas e bagunçadas que acabaram por ir à falência por causa da má administração. Ninguém, além deles, podia comandar a K-V. Ninguém, além deles, podia de forma alguma compreender o hentizmo e fazê-lo funcionar.

— Nick me disse que Ethan nunca teve ninguém para lhe ensinar e mesmo assim aprendeu. Não me venha com essa de que ele é um Hentz e está no sangue dele.

— Mas é a verdade. Ele é um Hentz e está no sangue dele. São como deuses na Terra, minha querida primavera. Você dorme com o descendente dos maiores bilionários de todos os tempos e nem tem ideia da magnitude disso.

— Você disse que Winter já dormiu com Jules, que é afinal descendente do maior bilionário de todos os tempos.

— É… mas não é o que quero dizer. Creio que qualquer empresário do mundo saberia que é um risco absurdo recompor a Companhia Tudor. Não apenas isso, eles terão que praticamente reconstruir Furness. A cidade está praticamente despovoada. Tem menos de mil habitantes. Eles vão ter que achar a fonte da juventude lá para atrair habitantes e trabalhadores, e por quê? Por que você acha que Ethan fez isso?

— Você mesmo afirmou que ele está comprando as antigas empresas da Kruger-Vorheel.

— Sim, mas Spring, pense bem. O mundo é um cemitério. Há empresas da K-V em todas as partes do mundo que ele poderia ter comprado, muito mais lucrativas, empresas que não mataram mais de setecentas pessoas. E no entanto Ethan pôs o olho numa cidade minúscula no meio do nada, na fronteira da Inglaterra com a Escócia. Por quê?

— Ora, não sei… há algo lá que ele quer.

— Eu acho que o raciocínio não é por aí. Não é a cidade que contém o que pode interessar a ele, e sim o que ela pode fazer por ele.

Spring franziu as sobrancelhas louras, fitando Autumn profundamente nos olhos.

— Você acha que… você acha que ele quer se livrar de você?

Autumn sorriu.

— É apenas uma suposição. Por qual motivo, eu não sei. Mas ele não teria motivos para chamar alguns poucos executivos de volta, e não todos, e entre esses poucos meu pai e minha mãe. É coincidência demais para ser verdade. Não pense que ele não sabe que Jessica e Vittorio são meus pais. Ele sabe. Ethan Lemnsack sabe de tudo.

Imaginava com convicção que Spring não fazia a mínima ideia do poder que Ethan ou Nicholas dispunham nas mãos. Pobre criança. Acreditava mesmo que seu louro namorado era como qualquer outro garoto de quinze anos. Não, não era… a família Hentz os estava atando lentamente com fios invisíveis para controlá-los como marionetes.

— Isso tudo que está acontecendo é tão horrível — ele murmurou triste. — Parece que uma sombra enorme paira sobre nós, e tudo começou com o desaparecimento do Padre Lafferty. Quem você acha que o matou? E por que você acha que alguém o mataria? Nada faz sentido, nada mesmo. Winter se preocupa mais com isso que Jules.

— Jules tem algum álibi?

— Autumn!

— Me desculpe. Deve ser o café. Deve ser a crise política no país. Acho que será bom ir embora. Estou começando a sentir saudades de ver o céu sempre nublado e cinzento. Embora eu vá sentir a sua falta. Ah, eu vou.

— Também vou.

Sim, colegas de quarto por quatro anos, e agora grandes amigos por quatro anos. O mais irônico era que Winter ou Summer nunca desconfiaram que Spring e Autumn tivessem uma ligação tão forte. Não pareciam combinar. Mas Winter também não parecia combinar com Autumn e Spring não combinava com Nicholas. Entretanto, as coisas nunca são o que parecem. Sempre há algo debaixo dos lençóis.

— Acho que Nicholas matou Lafferty — disse de repente. Spring olhou-o horrorizado, quase largando a xícara com o resto do café que se obrigara a tomar.

— Nick…? Lafferty…? De onde você tirou essa ideia? Não, Autumn, não. Nick tem um álibi. Quer dizer, não tem, mas a história dele faz sentido. Ele tem crises de ansiedade. O fato de ter tido uma quando Lafferty sumiu e outra quando ele apareceu foi apenas coincidência, está bem? Só coincidência.

Podia ver com clareza que nem ele acreditava nisso.

— Aliás, se isso fosse verdade, ele já estaria preso, não é? Nick pode ser muitas coisas e ter muitos defeitos, mas ele não é um assassino. Nick não é um assassino. Ele não teria capacidade de cometer um homicídio. Ele já tentou se matar, por Deus.

— Eu sei que Nicholas é incapaz disso. Mas Ethan não.

Ele ia dizer algo, mas mudou de ideia, pois sua boca fechou de repente. Parecia estar considerando aquela possibilidade horripilante.

— Se olhar fundo nos olhos de Ethan Lemnsack, não verá nada além de um buraco-negro. Ele nunca expressa nada que sente e faz o que deve fazer sem hesitar. Se sentisse necessidade de matar Lafferty, ele faria isso, Spring. Ele faria e não se arrependeria. Não se remoeria. Não se sentisse que foi necessário.

— Mas por que seria?

Aquela pergunta era realmente a única falha da teoria de Autumn, mas tinha plena e absoluta certeza de que ela existia… sabia que, de algum modo, a morte do Padre Lafferty e a família Hentz estavam plenamente interligadas. Mas não contaria aquilo a Spring. Já falara demais.

— Não fale com ele sobre o que conversamos aqui — sussurrou. — Ele não vai entender se o namorado dele chegar e perguntar se o irmão dele é um assassino. E se fosse ele certamente diria não. Nicholas é um ator. Ele sabe mentir.

— Pare com isso — ele pediu desconfortável. Autumn sorriu enigmaticamente. — Autumn, por que você fica se torturando com isso? Por que não deixa a investigação para outra pessoa?

Porque eu preciso saber, pensou. Sim, ele sempre precisava saber desde quando o corpo de Jesse Tudor fora retalhado em milhares de pedacinhos há poucos metros dele. Nunca soubera o que causara aquela explosão, afinal. Spring não entendia que não podia viver com outra dúvida? Não quando a resposta estava tão perto, apesar de tão escondida? Havia algo podre no Reino dos Hentz, e um dia todos os grandes impérios caem, não importa quais.

— Meu caro Spring, em sua mente há todo um universo infinito que é impossível compartilhar completamente com qualquer outra pessoa. Lá dentro, você é um deus tão belo e cruel quanto você deseja ser, onipotente, onipresente e onisciente. Deixe-me com meus pensamentos e desejos. Não posso explicá-los para você.

Ele não ficou satisfeito com essa resposta, mas Autumn não tinha nenhuma outra para lhe dar. E também não tinha tempo. Aquele seria um dia terrivelmente cheio. Um sentimento cáustico em seu coração indicava que terminaria tão pior quanto a perspectiva.

Winter convidara-o para almoçar em sua casa àquele dia. Autumn preferiria pendurar-se pelo pescoço com uma corda no teto a ter que encarar os semblantes enlutados dos que amavam Lafferty, mas quando se sentou na bela mesa de almoço tudo o que contemplou nas expressões foi uma irritação mais relacionável com o clima ruim do que com qualquer morte.

Seraphine e Jules du Pont pareciam gêmeos em gerações diferentes. Ambos com os cabelos compridos e louros como o sol, embora o de Seraphine fosse levemente ondulado. Tinham os mesmos olhos cinzentos enevoados e levemente puxados para os lados, as mesmas covinhas e os mesmos lábios compridos. Não obstante, ele era quase tão feminino quanto a mãe.

— Tem certeza que ele é filho de Lafferty? — sussurrou baixinho a Winter, que se sentava ao seu lado. Seus avós e seus pais estavam na mesa também, é claro. De repente, Autumn teve vontade de jogar um chicote de couro em cima da salada de atum.

— Quem vai saber — Winter resmungou. Estava de mau-humor, como indicava o leve bico que fazia. Não era para menos, seu cabelo louro estava a ponto de pingar gel e aquele casaco de tweed era ridículo. — Quem sabe ela seja hermafrodita. Quando esse almoço terminar, vamos transar no meu quarto.

— Com toda a sua família no andar de baixo ouvindo? Eu acho que não.

— Eles podem ouvir agora. Arranque essa roupa e me coma aqui nessa mesa.

— Está bem.

Autumn colocou a mão em sua coxa, mas Winter o repeliu com um tapa. O maior quase não conseguiu reprimir o riso ao ver a vermelhidão em seu rosto furioso.

Como era esperado, o almoço ocorreu tranquilamente e sem problemas, com Autumn se portando como um verdadeiro cavalheiro inglês. A mistura de sotaques europeus era realmente adorável.

Quando tudo terminou, subiram as escadas e se trancaram no quarto de Winter. Era um recinto amplo e arejado, obsessivamente arrumado e impecavelmente limpo, como um bom samaritano como Edric Winter deveria ser aos olhos da família. Seria realmente uma beleza quando ele levantasse o dedo anelar e dissesse aos pais e avós: vou me casar com meu namorado e vamos fugir do país.

E Jules também estava naquele quarto, o que explicava as duas camas de solteiro em lados opostos. Uma cômoda com as gavetas entreabertas prostrava-se ao lado da cama dele, sendo que uma delas estava atulhada de documentos. Provavelmente tinham a ver com imigração.

Winter obrigou-o a enfiar a língua em sua boca e então caiu na cama com ele, e apesar de que os dois não fizessem sexo naquele dia, fizeram todo o resto que tinham direito, embora nada que chegasse a sujar os imaculados lençóis de Winter de forma permanente.

Ao final daquele dia, Winter encontrava-se semi adormecido na própria cama, vestindo apenas uma cueca. Parecia um anjo com a luz alaranjada do pôr do sol banhando seu belo corpo.

Autumn se levantou da cama e espreguiçou o corpo. Também usava apenas uma cueca, assim como Winter. Caminhou através do quarto e se sentou na perfeitamente forrada cama de Jules, perguntando-se onde ele estaria naquele momento.

Mas o que realmente lhe chamava a atenção era aquela gaveta atulhada de papeis. Absolutamente tudo naquele quarto estava agoniadamente arrumado, exceto a gaveta. Autumn a abriu completamente, revelando não apenas montes de papeis empilhados, mas também várias bolinhas amassadas, livros desorganizados, documentos jogados de qualquer jeito e até material de escritório danificado. Aquilo parecia um depósito. Por que Jules manteria aquilo bagunçado se parecia tão igualmente neurótico com arrumação?

Autumn deu um sorrisinho. Pegou uma das réguas quebradas e enfiou-a na pequena abertura que aquele fundo falso fazia com a parede da gaveta. Levantou a tábua de madeira com cuidado, tanto porque estava pesada com o acúmulo de lixo em cima quanto para não acordar Winter.

No fundo falso, havia um diário de capa revestida com couro marrom. Intrigado, Autumn pegou-o entre as mãos e o manuseou com lentidão. Foi mais ou menos aí que a maçaneta da porta começou a mexer.

O quarto estava trancado, e só havia mais uma pessoa no mundo todo que tinha aquela chave.

Com o coração quase na boca, Autumn abriu o diário numa página qualquer e a rasgou violentamente, enfiou-o novamente no buraco onde o achara e encaixou o fundo falso como antes, fechando a gaveta. Pulou para a cama no momento em que a porta se abriu e Jules entrou.

Pela posição que estava, Autumn dava a impressão de que acabava de se levantar. Só para garantir, espreguiçou-se de novo. Um bocejo também, por que não?

Só se sentiu seguro o suficiente para desdobrar o papel quando finalmente voltou ao internato, naquela noite. Estava amarelado e a tinta preta da caneta estava desbotada, quase translúcida. No entanto, uma estrofe desenhava-se com uma elegância infantil desajeitada, quase cortada pelo rasgo.

Cela faire mal.

J'ai mal partout.

C'est la faute à Lafferty.

Et ce odeur de citron ne sort pas de ma tête.

Oh, mas que infernos, pensou enquanto caminhava entre os Alojamentos Azul e Vermelho. Como se eu não soubesse que ele escreveria em francês.

Jules claramente escrevera aquilo quando era uma criança, mas no entanto Autumn sabia pouco ou nada de francês, e mesmo que Winter fizesse francês como aula extracurricular na escola há um bom tempo, não poderia pedir a ele que traduzisse aquilo por motivos óbvios. Não que realmente estivesse interessado… era no nome de Lafferty que estava.

Havia uma data também, 1 de fevereiro de 2010. Se não se enganava, o mesmo dia em que Lafferty adentrara na Escola St. Nicholas.

Talvez Jules du Pont não mencionasse mais que esse fato no diário, como um acontecimento sem importância de seus onze ou doze anos, ou talvez não. Quem haveria de saber?

Autumn haveria. Mais cedo ou mais tarde.

Foi por isso que, no domingo seguinte, obrigou Winter a segui-lo até o prédio da administração.

— Por que diabos estamos aqui? — o louro indagou num mau-humor notável. O prédio erguia-se branco e cinzento com dezenas de janelinhas translúcidas e quadradas fitando a sagrada escola. — São cinco horas da manhã. O prédio está fechado. Vou voltar para a cama.

Ele se virou e fez menção em voltar, mas Autumn o segurou firmemente. Os alojamentos agigantavam-se para o céu a quase quinhentos metros de distância, e entre isso havia o restaurante, quatro quadras desportivas e um vestiário, um campo gramado, uma enfermaria e do lado uma capela, menos alta e majestosa que a do lado direito da escola, onde todos se aglutinavam. O resto era terreno puro e cimentado, às vezes com alguns canteiros floridos e fontes d’água.

O prédio da administração fazia divisa com um muro que limitava a área da piscina, onde os dois lados da escola se interligavam.

— O que você quer fazer lá dentro? — Winter perguntou num tom de voz que indicava que não toleraria qualquer resposta cínica.

— Caminhe ao lado do outono que em breve você verá as folhas secarem. Se ficar parado no lugar, as verá secar do mesmo jeito. Então cale a boca e me siga.

O molho de chaves que Autumn tirou do bolso havia sido roubado do zelador há muito tempo, tanto tempo que eles simplesmente esqueceram. Adentraram no moderno prédio como duas sombras pérfidas movendo-se silenciosamente.

A sala que Autumn procurava ficava no quarto andar, justamente o último. Era quadrada e cinzenta e tinha uma portinha vermelha que a ligava com a sala da diretora Mary Sandy, mas não tinha maçaneta. Ou seja, só a própria velha poderia abri-la. Arquivos cobriam todos os cantos visíveis, grandes caixotes de metal com gavetonas que ocupavam metade de seu espaço. Todas tinham trancas e nenhuma tinha indicação de seu conteúdo.

— Como vai saber qual contém a que você procura? — Winter indagou com um quê de sarcasmo na voz. Autumn não tinha tempo de pensar numa resposta igualmente sarcástica. Estava deliberando consigo mesmo. — E depois disso, como vai abri-la?

Aquilo era um problema. O molho de chaves certamente não continha as chaves de todas aqueles arquivos; provavelmente não continha o de nenhum.

Começou a dar uma volta pela sala, calma e lentamente. Às vezes forçava uma das gavetas a abrir, o que as revelava obviamente trancadas. Houve um momento em que arrastou um dos arquivos do lugar e fitou penetrantemente sua parte de trás. Então deitou-o e olhou sua marca. Por fim, o pôs no lugar e o chacoalhou. Fez a mesma coisa com mais cinco arquivos antes de parar.

— Por que Mary Sandy manteria tantos arquivos? Quer dizer, o que uma escola poderia esconder? E todos sem nome? Ela não teria como lembrar todos essas localizações. Ela não é Melchior. Então por quê? — Perguntava para ninguém em especial. Certamente não esperava que Winter respondesse. Mas ele respondeu.

— Não sei. Ela deveria guardar tudo no computador. É mais fácil.

— Sim, é, mas não creio que uma freira de setenta anos seja adepta às modernidades desse século. No entanto, essa sala toda é de uma absurdidade sem comparação.

Sacudiu mais alguns arquivos, produzindo um irritante barulho metálico, como se esperasse que ele se abrisse por mágica. Depois olhou novamente no molho, procurando uma única chave que fosse pequena e preta ou cinzenta. Até achou, mas não funcionou.

— Preciso entrar na sala dela — declarou ao louro.

— Só ela tem a chave. Não está nesse molho.

— Tem que estar em algum lugar — teimou. Sentia-se frustrado. Aquela dificuldade não devia existir.

Como frequentemente fazia quando se irritava, Autumn enfiou as mãos nos bolsos do sobretudo, onde o molho estava. Quando as tirou, no entanto, veio algo a mais. Uma dourada estava enganchada nas outras. Quando a movimentou, ela caiu no chão com um tilintar fino e sinistro. Autumn nunca vira aquela chave antes na vida.

Sem saber se estava louco, ergueu-a lentamente do chão e a enfiou na porta da sala da diretora Mary Sandy.

— Você tinha a chave dela? — Winter indagou surpreso quando a porta se abriu.

Autumn virou-se subitamente para ele, com os olhos ligeiramente arregalados. Teve uma sensação desconfortável de estar sendo controlado por um manipulador de marionetes. Uma de suas mãos já estava presa nas cordas invisíveis, que há pouco a movimentara em direção àquela fechadura e girara a chave.

Meu Deus, pensou com a boca seca. Essa situação inteira é muito pior do que eu pensava. Há alguém lá fora nos observando… me observando.

Um desejo de se ver livre daquele fardo apoderou-se dele, mas a voz rouca e sedosa de Winter tirou-o se seus devaneios.

— Autumn!

Fitou então seus lindos olhos azuis, emoldurados pelos cabelos louros como o fogo. Sem pensar muito e sem hesitar, Autumn agarrou o garoto pela cintura com as duas mãos e puxou-o para beijá-lo violentamente. O movimento pegou Winter de surpresa, mas este logo jogou as incertezas para o lado e retribuiu o beijo com igual violência.

Autumn beijou seu pescoço com carinho e então mordeu-o, tremendo de prazer ao senti-lo tremer de dor. Winter agarrou seu cabelo com força, tentando não gemer.

E então se afastaram, arfantes e excitados.

— Depois continuamos — prometeu a ele.

Com o ânimo renovado, entrou na sala. Como esperava, parecia um quartel-general. Havia pelo menos doze pequenas televisões empilhadas uma por cima da outra num canto do recinto, e mostravam diferentes locais da escola. Metade mostrava o lado de fora do internato e a outra metade mostrava o interior das salas de aula da escola. Como nenhuma mostrava a parte de fora desta última, foram inúteis para saber como se sucedera o assassinato de Lafferty.

Havia pelo menos seis linhas telefônicas fixadas na outra parede. Uma estante abrigava mapas de diferentes partes da escola, incluindo as plantas originais, e estava cheia. Autumn daria tudo para poder ler cada mapa um por um e ver como a escola mudou em cento e trinta anos de existência, mas infelizmente não tinha tempo.

O outro lado da sala estava atulhado de livros grossos como tijolos em estantes de mogno. Perpendiculares a estas, quatro arquivos fixados à parede, mas eram diferentes dos da sala ao lado, pretos e bem menores, com apenas uma gaveta. A porta para a sala lateral estava ali entre as estantes, metálica e reluzente. Não tinha fechadura, apenas uma maçaneta.

Autumn tentou abri-la. Estava trancada.

— Muito bem — disse alegremente. Aproximou-se dos arquivos e abriu-o com a chave pequena e preta que não servira nos outros, puxou uma cadeira e pôs-se a procurar entre as fichas suavemente, com um sorriso no rosto. Achou o que queria na terceira gaveta, por trás de todos. — Encontrei.

— Pode me explicar o que houve aqui?

— Mary Sandy é muito desconfiada de Deus e do mundo para deixar as fichas dos padres e irmãs soltas por aí. Os arquivos da sala ao lado estão completamente vazios, disso eu tenho certeza. Eles são todos da mesma marca, o que indicava que, sendo feitos sob medida para essa escola, teriam a mesma chave. No entanto, nenhuma do molho as abria. Não vi motivo para o zelador não ter a chave. Quando entramos aqui, vi a porta que liga essa sala àquela trancada. Está trancada porque não serve para nada. A irmã não iria colocar uma porta que desse para nada. Ela guarda os documentos importantes aqui e o resto deve espalhar pelo prédio. Como eu disse anteriormente, não faz sentido ela guardar tudo num mesmo lugar, sem identificá-los. Se houvesse um incêndio, ela perderia tudo de uma vez.

Winter apenas concordava com a cabeça, sem se dar conta alguma da genialidade do namorado. Autumn não esperara coisa diferente.

— Mas aqui está — sussurrou tomando a liberdade de sentar-se na cadeira e esparramar o dossiê do Padre Lafferty Winter no gabinete da diretora. — Agora seja um bom menino e guarde o corredor lá fora. Fique olhando pela janela. Se vir qualquer um se aproximando do prédio, avise.

Ele deixou a sala e Autumn voltou sua atenção a ficha. Havia uma fotinha de Lafferty fixada nela. Parecia uma ficha policial.

No entanto, o motivo pelo qual ele deixara a antiga Escola St. Emanuelle de Castellobranco estava lá.

Requerido pela Sra. Mary Alice Hentz. Aparentemente, houve divergências entre o Sr. Lafferty e o filho da Sra. Mary Alice.

Autumn estava começando a achar graça em como o documento tratava literalmente todo mundo de senhor e senhora quando seus olhos se estreitaram ao ler aquela frase assinada pela diretora do St. Emanuelle. Como assim, requerido? Ela podia requerer que o padre saísse e — puft! — ele saia? Como será que era viver com aquela quantidade aberrante de poder?

E no entanto… divergências. Quais? E de qual filho ela falava? Ethan ou Nicholas? Toda a infindável explicação de Mary Bernadette estava escrita tremidamente e com um tom de alerta quase insuportável até chegar àquela frase final. Mas não dizia nada além daquilo. O que amedrontara a diretora tanto assim para acatar o pedido da Sra. Hentz? Só havia um maldito modo de descobrir.

Deixou a sala exatamente como estava antes de finalmente partir com Winter em seu encalço. Como prometera a ele, terminaram aquilo que começaram com um beijo, e durou o resto da manhã inteira.

Naquela tarde de domingo, almoçou com Winter no Restaurante Cahood e então despediu-se dele nas portas do internato. Observou o táxi se afastar, deu meia-volta e começou a caminhada de volta ao Alojamento Vermelho. Voltou quinze minutos depois, durante a troca de porteiros, e fugiu da escola tranquilamente.

Quando deu por si, estava sendo deixado por um taxista às portas de uma escola decrépita no bairro mais pobre de Middleland, Donarchen, chamada Escola Antoniette. A tinta estava descascando, os muros estavam pichados com palavrões e a calçada estava caindo aos pedaços. Não chegava nem perto do esplendor que era a Escola St. Nicholas. Autumn se dava ao direto de comparar porque havia uma capela atrelada à escola.

Entrou no pátio, onde alguns meninos brincavam numa gangorra que pelo menos estava em bom estado. Havia mais alguns espalhados pelas imediações da escola, sempre dentro dos muros. Eles deviam estudar de tarde e aquela devia ser a hora do intervalo. Era um absurdo que deixassem os portões abertos.

— Olá — disse aos meninos, aproximando-se o mais casualmente que pode. Eram três, não usavam uniformes e Autumn os escolheu porque fisicamente eram os que mais se pareciam com Nicholas, todos louros e com olhos escuros, apesar de terem por volta de dez e onze anos. — Bom dia. Meu nome é Autumn.

Eles o olharam com um misto de surpresa e desconfiança no rosto.

— Edric Autumn — completou esperando que a desconfiança sumisse. Mas ela continuou lá. Decidiu ignorá-la. — Tudo bem com vocês? — Nenhuma resposta. — Por que eles deixam os portões abertos?

— Por que não deixariam? — perguntou um deles.

— Porque os alunos poderiam fugir.

— Fugir para onde?

Autumn se deu conta então de que a maioria daqueles garotos não tinha lugar melhor para ir depois da escola. A escola oferecia-lhes abrigo, segurança e comida. Casa não parecia ser realmente uma boa opção. Tinha certeza de que muitos deles tinham pais violentos ou mães ausentes, ou o contrário.

— Será que eu poderia perguntar algumas coisas sobre o Padre Lafferty Winter? Eu sei que ele pregava aqui.

Um outro abriu a boca para falar algo, mas o mais alto deles fez um sinal para que se calasse. Parecia ser o líder dos três. Seu tom de voz ríspido indicava isso.

— Pergunte logo.

Autumn se empertigou. Não ia perder aquela chance.

— Vocês conheceram Lafferty intimamente?

O maior respondeu após alguma pausa.

— Sim.

— Como ele era?

O garoto menor se encolheu no lugar como um pequeno rato, desviando os olhos de Autumn, que não conseguiu deixar de perceber aquele ato tão pouco sutil. O maior olhou para ele por um momento e depois de volta para Autumn, e respondeu então com a voz firme e os pés no chão:

— Ele não faz falta.

Levantou uma sobrancelha. Mas quanta sensibilidade.

— Por quê?

— Porque não, está bem? Talvez faça para as meninas.

— Isso é tudo que você tem a dizer?

O garoto não disse mais nada. Virou a cara e pareceu esquecer que Autumn estava ali, voltando a atenção ao menino menor que se sentara na gangorra. Parecia existir um afeto grande entre os dois. Talvez fossem irmãos, talvez se amassem. Talvez fossem irmãos e se amassem. Então o terceiro menino se aproximou, o que não havia falado ou feito nada até agora.

— Se você for perguntar a outras pessoas sobre ele, eles podem falar outras coisas. Sobre como o Padre Lafferty era maravilhosamente bom e altruísta, e provavelmente o melhor eclesiástico que já viera pregar na Capela de São João. É… todos diriam isso. Exceto… pessoas como nós.

— Como assim, como nós? — indagou a ele, mas era tarde demais. O sinal tocara. Os meninos se dispersaram e voltaram para dentro da escola numa multidão desengonçada, deixando um rastro de poeira e embalagens de lanches para trás.

Autumn suspirou com sua falta de sorte. Não conseguira cativá-los. Pensara que usar uma voz suave e delicada adiantaria, mas os meninos não pareciam acostumados o suficiente com gentileza para desfrutar dela sem desconfiar.

No entanto, algo lhe dizia que aquela frase não explicada pretendia passar uma espécie de mensagem subliminar. Era possivelmente verdade que qualquer outra pessoa, quando perguntada sobre Lafferty, desataria a soltar um tedioso e apoteótico monólogo sobre como o homem era maravilhoso com todos. Se deixasse a barba e o cabelo crescer, por que não elevá-lo à condição do próprio Cristo?

O problema é que ninguém era Cristo. Quando começou a pensar bem nesse assunto, Autumn constatou assombrado que era verdade o que o menino disse. Ninguém parecia conhecer um único defeito sobre o padre. Ter um filho fora do casamento? Nenhuma das partes era casada no momento, nem Lafferty Winter, nem Seraphine du Pont, e dezesseis anos atrás ele sequer era padre. Graças a Deus em tempos modernos como estes tal coisa não era mais vista como uma blasfêmia.

Mas os poucos anos de vida de Autumn o ensinaram que nenhuma criatura popularmente conhecida como perfeita vinha a ser a mesma coisa em seu íntimo e pessoal. Nicholas Hentz havia provado aquilo da forma mais empírica possível. Os cortes em seus pulsos ainda eram visíveis, afinal, mesmo com as tatuagens por cima, e se se prestasse bem atenção, era possível ver os efeitos colaterais dos antidepressivos que tomava. O bom é que eles também resolviam a hiperatividade.

Mas fora o eufemismo, a questão era exatamente essa: quais eram os antidepressivos do Padre Lafferty Winter?

Autumn sentia uma necessidade tão desesperada de ligar para a Escola St. Emanuelle o quanto antes que até esqueceu de dar um jeito de traduzir a anotação no caderno de Jules. Mais tarde, viria a se arrepender dessa falta de atenção.

Mas naquele presente momento, parado em frente aos portões da Escola Antoniette, que de nada tinha relacionada com a ordem da St. Nicholas ou St. Emanuelle, Autumn deliberava consigo mesmo as desordens que seus pensamentos lhe traziam. Sozinho na rua esburacada do bairro mais perigoso de Middleland, deixou o tempo passar como um gigante invisível e incontrolável.

Quando recobrou a atenção no ambiente a sua volta, imediatamente chamou um táxi e foi para o sul da cidade. Só quando chegou à Rua Primeira sentiu-se seguro.

Viera de uma cidade minúscula onde todo mundo se conhecia, depois saíra dela e se enfiara na menor ainda comunidade da Escola St. Nicholas, que com seus setecentos e poucos alunos internistas tornava-se uma colônia para meninos ricos. Autumn não compreendia verdadeiramente a dinâmica das grandes cidades, atulhada de carros e prédios que só tinham espaço para se expandir para cima, com seus executivos apressados e suas madames cheias de joias zanzando como formigas. Talvez controlar uma empresa fosse igual. Talvez fosse por isso que Ethan Lemnsack era tão bom no que fazia: no topo de seu arranha-céu, por trás de sua escrivaninha, ele era um deus.

Podia ver a miragem do Palácio Real Hentz, a sede da Anhert Corporation, lá ao longe, um dos maiores prédios da Califórnia que abrigava a empresa de maior ascensão do ano de 2013.

Por que foi que você comprou a Bridget & Construções?, pensou irritado. Aquilo tudo fora absurdamente estranho, provavelmente uma das manhãs mais estranhas da vida de Autumn. Nicholas fugindo, um corpo aparecendo. Não podia ser só coincidência, embora ele houvesse sido convincente naquele dia na lagoa Henri, no iate.

Mas ele era um maldito ator. Era o maldito trabalho dele ser convincente.

O dia seguinte era uma segunda-feira e amanheceu terrivelmente ensolarado, mas Autumn gostava de dias ensolarados. Enquanto caminhava para a escola do internato com Spring ao seu lado, olhou para o céu e disse:

— Você sabe qual é o único motivo pelo qual eu nunca voltaria à Inglaterra?

— Por quê? — ele indagou com seus belos olhos verdes sorrindo para ele.

— Esse céu — sussurrou de volta, observando novamente o maravilhoso espelho anil estender-se infinito sem uma única nuvem sequer.

A manhã transcorreu sem problemas, com todos fingindo que estava tudo bem. As investigações sobre o caso Lafferty andavam paradas por causa de provas, e a polícia já tinha interrogado tantos alunos quanto podia. Não havia prova forense por causa do longo período de tempo que se passou desde o dia do desaparecimento e assassinato ao dia do descobrimento. Qualquer fio de cabelo ou digital havia sido apagada pelos incontáveis meninos que haviam usado o vestiário durante esse tempo. E é claro que havia vestígios de sangue no vestiário… em todo ele, na verdade, e nos outros também. Qualquer ambiente onde rapazes cheios de adrenalina se unem tem uma grande chance de experimentar uma briga ou outra de vez em quando.

Não havia mais nada a se fazer. Faltava pouco para a polícia fechar o caso.

Autumn não se sentia tão frustrado assim desde que descobrira que haviam escondido o cadáver de Jesse Tudor e enterrado-o rapidamente, como se estivessem jogando um pedaço de bife apodrecido no lixo. Não porque queria descobrir quem era o assassino de Lafferty… mas por que tentara descobrir. Precisava ter sucesso.

Mas então uma série de desastres aconteceu. Na verdade, apenas dois, mas esplendorosamente horríveis:

Primeiro, o papel rasgado do diário de Jules simplesmente sumiu do casaco de Autumn. Provavelmente foi quando o tirara e o deixara no vestiário para jogar basquete — o único esporte que Autumn tolerava como atividade extracurricular —, e o maldito evaporou no ar. Não estava em lugar nenhum do vestiário e nenhum dos meninos havia visto. Era pouco provável que alguém o tivesse roubado, e menos ainda que Jules houvesse dado pela falta dele. O diário em si estava cheio de poeira quando Autumn o descobriu. Provavelmente não era tocado há anos.

Esse acontecimento tornou a trazer-lhe aquela desagradável sensação de estar sendo observado, de ter seus membros amarrados em fios de náilon e movimentados de acordo com os desejos de seu manipulador. Ele era uma marionete? Era isso?

A segunda coisa, a mais terrível de todas, foi quando Autumn decidiu ligar para a diretoria da Escola St. Emanuelle e implorar à Irmã Superiora Mary Bernadette que falasse sobre Lafferty e quem sabe sobre o memorável encontro dele com a honorável Sra. Mary Alice Hentz.

Quem deseja falar? — uma voz feminina perguntou do outro lado da linha. Autumn estava no celular, nervosamente voltando ao quarto.

— Meu nome é Edric Autumn — disse com voz trêmula, a respiração descompassada, os batimentos cardíacos acelerados. — Sou um ex-aluno que saiu há cerca de um mês. Gostaria de falar com a diretora. É em relação a transferência. Minha nova escola quer alguns papeis que eu não tenho.

Sim, só um momento… você falou com a diretora Mary Bernadette ou com a intendente Mary Elise?

— Como? — indagou sem entender.

A diretora andava mal de saúde há alguns meses. Sua intendente assumiu quase todos os papeis dela desde então.

Autumn teve que se segurar na parede para não cair. Seu quarto não estava muito longe.

— Eu… falei com Mary Bernadette. Posso falar com ela?

Oh, eu lamento muito, mas… a diretora faleceu. Ela caiu de uma escadaria ontem de tarde. Foi um acidente muito tris…

— Oh, meu Deus!

Autumn desligou o telefone, quase derrubando-o no chão. Tremia dos pés à cabeça, mal se aguentando em pé. Eles a mataram, pensou horrorizado. Eles a mataram porque ela sabia demais e podia falar demais.

Chegara finalmente em seu quarto. Ou o que restara dele. Absolutamente tudo estava revirado. A cama estava de cabeça para baixo, o frigobar estava estatelado no chão, as cadeiras também, os lençóis e travesseiros rasgados. As roupas haviam sido cuspidas para fora do armário e os casacos foram todos rasgados. Curiosamente, os remédios de Spring estavam todos dispostos em cima da mesa — que era fixa ao chão —, cuidadosamente tirados da caixa de medicamentos, na ordem em que ele devia tomar. O telefone fixo do quarto estava ao lado, intacto.

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E como se não bastasse algo tão pavoroso, havia outra coisa em frente, também em cima da mesa. Um aparelho de celular bastante moderno ligado numa espécie de apresentação de slides. As fotos eram escuras e tremidas, mas irrevogáveis: o Padre Lafferty Winter, atirado num buraco escuro, com a cabeça cheia de sangue. Primeiro, ele apareceu sob terra batida. Depois, sobre uma valorosa camada de cimento e então sobre uma camada mais grossa. A última foto era a de um rastro de sangue que seguia desde o vestiário onde ele fora assassinado.

A mente de Autumn esvaiu-se quando viu o bilhete escrito numa belíssima e apertada caligrafia cursiva:

O celular caiu da mochila de Nicholas.

Você o guardou até que pudesse devolver.

E então achou isto.

Que azar!

O celular é de Nicholas?, indagou-se. Mas quando pegou o celular nas mãos tremidas e viu quem estampava o papel de parede, Autumn encheu o peito de ar e deixou que todo o ódio que dispunha crescesse dentro de si. Sabia o que tinha que fazer. Sou uma marionete? Uma marionete de quem? Ora, mas se foda tudo isso.

Pegou o telefone e discou o número da polícia.

Notas finais
"Você nunca revela tudo o que sabe. Eu seria um idiota arrogante e narcisista se fizesse isso." Indireta inconsciente para Melchior, haha. :3 Furness é uma cidade fictícia, mas sua localização é baseada em geografia verdadeira. Não acabem com a brincadeira, não traduzam o texto do diário ainda. Perde a graça. qq O próximo capítulo ocorrerá em paralelo a esse. Será bem interessante. q Esse capítulo também é o antepenúltimo. Depois terão mais dois e o epílogo. Bjss. :33