Notas iniciais
Penúltimo capítulo. Postei mais rápido que o esperado.

“And crawling on the planet’s face, some insects called the human race. Lost in time, lost in space… and meaning.”

(The Rocky Horror Picture Show)

“Don’t dream it. Be it.”

(The Rocky Horror Picture Show)

OoO

O Príncipe Seraphin Alassë observou o véu se dissolver no ar, e toda parte sua luz tomou, e toda parte se transformou. O céu antes negro, vermelho e cheio de fumaça era agora límpido como água do mar e de um suave tom de violeta, e tudo brilhava, e de novo tudo crescia, como era há mil anos e como seria mil anos em diante. Triste, o príncipe que agora era rei se levantou de seu trono, e todos souberam que uma nova era havia começado em Lympharia.

Há seis anos Melchior havia começado a escrever aquela heptalogia, quando era apenas uma criança estúpida de dez anos, e agora, seis anos e quinze milhões de livros vendidos depois, ele terminava, quando era um adolescente medíocre de dezesseis. As palavras brilhavam na tela do computador, branco no preto, as quinhentas e sessenta mil palavras que seus dois milhões de leitores ansiavam tão desesperadamente. Ao menos seu editor finalmente o deixaria em paz. Os terríveis acontecimentos desse ano e do ano passado atrasaram-no consideravelmente no andamento da série.

E pensar que houvera quem ousasse dizer que a série de TV ultrapassaria os livros de Melchior. Ele se espreguiçou na cadeira e se serviu de mais uma xícara de café, tremendo de frio. O quarto estava gelado como uma tumba subterrânea, e do lado de fora tímidos raios de sol nasciam no horizonte. Eram quase cinco horas da manhã ali em Jardim de Ouro e o livro Suave Violeta estava finalmente pronto.

Como não se importava muito com a integridade alheia, ligou para seu editor. Ele ficou furioso com um telefonema tão matutino, mas depois de ouvir o que Melchior tinha a dizer — que ele obviamente disse apenas depois de enrolar por cinco minutos —, ficou exultante. Disse a Melchior que mandaria alguém para buscar o manuscrito logo, então ele seria revisado e re-revisado, depois mandado às editoras estrangeiras para ser traduzido para os respectivos idiomas e, se tudo desse certo, poderiam publicá-lo no segundo ou terceiro mês do ano de 2015.

Após desligar o telefone, Melchior se perguntou por que não largava a escola e arrumava algum trabalho de tradutor. Ele aprendera sozinho as cinco grandes línguas ocidentais — inglês, espanhol, francês, alemão e italiano —, e tinha grandes noções de russo, japonês, sueco e português. Nada mal para quem tinha um QI maior que o de Einstein. Era o que gostava de pensar quando necessitava de uma boa dose de presunção. Além disso, mais de oito universidades na Califórnia, nos Estados Unidos e na Inglaterra já o convidaram a ingressar. Recusara todas as propostas.

Aquele dia era uma sexta-feira, um dia útil, um dia de escola, mas ele realmente não se importava com isso. Havia um consenso silencioso entre Melchior e a direção da Escola Minerva de que se ele quisesse poderia faltar todos os dias do ano desde que fizesse as provas, tirasse nota máxima em todas e continuasse mantendo a Escola Minerva como a melhor instituição pública de Middleland. Talvez por isso eles exigissem uso de uniforme.

Foi ele quem iniciou aquela manhã quando desceu à cozinha e começou a fazer o café-da-manhã. Ovos, bacon, linguiça, todas aquelas porcarias que os americanos gostavam de se empanturrar de manhã, mas também havia aveia, pois Robbet e Tarly não podiam comer aquelas coisas tão cedo ou teriam problemas estomacais.

Daemon foi o primeiro a chegar, como sempre, mas diferentemente dos outros dias, ele não estava semiadormecido e com os cabelos embaraçados. Parecia que estava prestes a ir a uma festa de gala, na verdade.

Melchior soube imediatamente o que estava acontecendo.

Meu irmãozinho está apaixonado. Oh, o que não se faz pelo garoto que ama?

Serviu o café-da-manhã dele antes dos outros chegarem. Quando Daemon começou a comer — com todo o cuidado para não sujar o uniforme —, sentou-se a sua frente e espreguiçou-se na cadeira, então pôs-se a observá-lo. Adorava observar os irmãos fazendo qualquer coisa. Dava uma sensação maravilhosa saber que eles eram daquele jeito por causa de Melchior — e por causa dos sensacionais genes dos Chioren. Samwell e Marco eram extremamente inteligentes, quase autodidatas, podiam ler livros grossos em pouco tempo e tinham memória fotográfica. Certa vez Melchior perguntara aos dois uma série de multiplicações com números de dois dígitos e ambos responderam de cabeça em menos de seis segundos. Tarly e Robbet tinham casos leves de hiperatividade, mas eram absurdamente criativos e tinham rápida capacidade de analisar e resolver problemas — exceto aqueles que eles mesmo causavam. Ambos começaram a falar com menos de um ano de idade e algo dizia a Melchior que teriam um grande futuro se investissem em esportes. Daemon nunca apresentara nenhuma dessas características, era mediano em todas, mas houve certa vez em que Melchior estava preso numa situação de seu livro em que simplesmente não sabia como sair, e após explicá-la desinteressadamente a Daemon, ele lhe disse exatamente o que fazer para se esquivar dela. Também desenhava habilidosamente bem — embora por algum motivo ele se recusasse a admitir —, e apesar de ser tímido sentia-se confortavelmente bem na frente de um palco. E Teo ainda era um bebê. Ele logo desenvolveria sua superdotação.

Apesar de Hugh e Howl serem Chioren também, eles eram filhos de Lance. Provavelmente o pai deles era mais podre por dentro que por fora. Ambos eram irmãos gêmeos normais, sem nenhuma especialidade. Talvez, no futuro, Melchior os incitasse a ter um caso de incesto. Aí assim poderiam se destacar.

Os outros meninos chegaram logo, cada qual sentando-se em seu lugar na mesa, com Melchior servindo seus respectivos cafés-da-manhã do jeito que eles gostavam. Desembaraçou os cabelos de todos depois que terminou, tomando cuidado para deixar os cachos de Marco mais cacheados e para não cachear o cabelo liso de Sam, e também para acabar com aquelas insuportáveis pontas duplas do cabelo de Tarly e Robbet. Robb desceu com Grey em seu encalço e Teo nos braços. Entregou o bebê nos braços de Melchior e sentou-se à mesa também junto ao irmão.

O café já estava pronto quando sua mãe desceu. A essa altura, Melchior já havia dado instruções a seus irmãos e primos sobre como se vestir e não se atrasar, menos a Daemon, que ficou na sala de estar esperando pelos outros. Perguntou-se o que seria daquela casa se ele decidisse simplesmente sumir por uma manhã.

Como sua primeira impressão previra, Anyce Chioren estivera realmente grávida de um mês naquela manhã de fevereiro. Agora estavam no final de maio e sua barriga já estava generosamente saliente por baixo do tecido fino da blusa. A verdade é que Melchior tivera que convencê-la a tê-lo. Any já tinha quarenta e três anos e tivera medo de perder o bebê — que, como todos já sabiam, seria uma menina. Depois do assassinato de Julie, ter outra garota em casa sob uma gravidez de risco parecia um empreendimento absurdo e perigoso. Mas a voz suave de Melchior a convencera do contrário. Sua voz suave e as estridentes de seus irmãos quando eles pediram também.

Não sabia por que, mas tinha uma impressão ótima de que aquele bebê seria um dia tão grande quanto ele. Não, não tanto quanto ele… seria muito perigoso.

Deixou sua casa cedo com o intuito de ir à escola, mas depois mudou de ideia e seguiu ao Palácio Real Hentz. Os irmãos o dariam cobertura, é claro, não que Melchior estivesse realmente preocupado com isso.

Quando chegou, adentrou o território do prédio e dirigiu-se à recepção. Antes podia entrar na casa da família Hentz sempre que quisesse, mas Ethan confiscara sua prótese que fizera com as digitais dele e agora Melchior tinha que pedir permissão. Odiava aquilo de coração. Pedir permissão.

A secretária estava entretida no computador quando ele chegou. Provavelmente jogando paciência.

— Eu gostaria de falar com Ethan Lemnsack — disse.

Tudo o que ela fez foi fitá-lo por cima dos óculos com desinteresse.

— Eu também.

— Como assim?

— A maioria dos empregados nunca o viu ao vivo. Só os dos andares noventa e um e noventa e dois, e só às vezes. Ele nunca sai dos últimos três andares. E quando sai, é pelo elevador particular. Ele é um fantasma. Às vezes me pergunto se é real.

Que interessante, pensou fascinado. Há hierarquia até na criadagem.

— Tenho certeza que você pode falar com o assistente pessoal dele, o nome dele é Jules du Pont. Diga o nome Melchior.

— Não posso fazer isso.

Melchior estava esperando que ela o reconhecesse como o autor, mas não.

— Se eu for obrigado a ligar para ele, ele vai ficar bem irritado.

Não precisava dizer que seria irritado com ele.

— O Sr. Lemnsack tem uma lista bem específica sobre quais pessoas estamos autorizados a perguntar a Jules du Pont se podem ou não podem subir, e eu tenho certeza que o seu nome não está nela.

— Nem Melon Chioren? Você tem absoluta certeza?

— O nome do Presidente dos Estados Unidos não está na lista.

Melchior se afastou xingando. Não estava bem certo se deveria ou não ligar para Ethan, não estava certo nem se ele mudara de telefone ou não desde a última vez que ambos tiveram uma discussão acalorada. Verdade seja dita, se houvesse uma arma de fogo naquela sala, naquele momento, um teria atirado no outro. No mais, era irritante ver como Ethan ficara autoritário, exigente e cabeça-dura desde que a Anhert começara a crescer. E Robb também não estava ajudando, que era exatamente o principal motivo para Melchior tê-lo colocado ali, no topo do Palácio Real Hentz.

Não precisou pensar mais, no entanto. Logo viu Nicholas Hentz entrando triunfantemente pelas portas da frente, com o nariz empinado e os passos perfeitos. Melchior logo notou o que havia de tão hipnótico em vê-lo andar: Nicholas caminhava literalmente como um supermodelo na passarela. Os cabelos de ouro caíam maravilhosamente alinhados por suas costas. Ele usava a camisa de manga comprida branca do uniforme da St. Nicholas e trazia o paletó azul-escuro jogado no ombro. A gravata vermelha estava amarrotada, os primeiros botões da camisa estavam desabotoados, o cachecol arrastava-se pelo chão enquanto ele o carregava com uma das mãos. De sobra, trazia uma carranca no rosto e dois seguranças do tamanho de armários por trás.

Nicholas passou por Melchior como se não o houvesse visto. Atirou as roupas sobressalentes amarrotadas em cima da bancada da recepção e se inclinou para a secretária com a qual Melchior falara a pouco.

— Janet, minha querida, você não faria mal em mandar essas roupas lá para cima. Acha que eu deveria tirar todo o resto também? Quer dizer, odeio esta camisa.

Ele se aproximou do louro, tomando cuidado em manter pelo menos um metro e meio de distância dele. Aqueles seguranças de supercelebridades adolescentes eram meio paranoicos e achavam que todo mundo era paparazzo ou um fã desesperado.

— Nicholas. — Deu o seu melhor sorriso. — Por que não está na escola?

Ele se virou para Melchior, franziu as sobrancelhas e o mediu de cima a baixo como se ele fosse um cabide velho de roupas.

— Por que você não cuida da sua vida?

— Eu farei isso se você me deixar subir com você.

Nicholas o mediu de novo, dessa vez com um riso nos olhos pretos.

— Se eu fizer isso, Ethan vai ficar extremamente irritado, vai gritar comigo e com você e atormentará a vida de todo mundo desse prédio pelo resto do dia. Sim, é uma boa ideia, vamos nessa.

Subiram pelo elevador particular sem os seguranças. As portas da grande caixa de aço se fecharam quando Nicholas encostou o polegar no scanner de digitais e escolheu o nonagésimo quinto andar.

— O que você quer? — o menor indagou. Melchior percebeu, com um ar consternado, que seu irmão Marco, que tinha dez anos, era quase da altura do louro.

— Perguntar a seu irmão como andam as investigações. E dar a ele algumas informações que consegui a respeito das suas estações. Eles estão começando a me deixar seriamente preocupado. Sua história e atuação foram absolutamente perfeitas, mas nem todos acreditaram.

— Como você sabe disso?

— Eu tenho contatos. Meu irmão Marco é um deles, ele estuda na St. Nicholas também, lembra-se disso? Tenho amigos que são amigos deles e eles me dão detalhes minuciosos de como as estações agem, do que dizem ou do que fazem e eu traço um perfil mental de cada uma, prevejo seus movimentos e deduzo seus pensamentos.

— Que interessante.

Ele ignorou o sarcasmo.

— Deixe-me esquecer que você é amigo de dois deles e namora um. Winter é estúpido como uma porta, quase tanto quanto você. — Como Melchior esperava, Nicholas também fez pouco caso do xingamento. — Verdade seja dita, poucas vezes conheci alguém tão egoísta e mesquinho quanto ele, e ainda sendo tão narcisista quanto uma ninfa. Se as coisas estão bem ao redor dele e com quem ele se importa, o mundo inteiro é cor-de-rosa. Edric Winter não é realmente um problema. E Spring não fica muito para trás. Se você diz a ele que não sabe nada sobre a morte de Lafferty, ele acredita. Ou então… prefere acreditar. Acho que não gosta que mexam no mundo dele. É uma versão menos individualista de Winter, porém mais conservadora.

As portas se abriram. Estavam dentro de um quarto de descanso minúsculo. Era aquela a saída e a entrada do elevador particular da família Hentz. Nicholas foi guiando Melchior pelo corredor até chegarem ao hall antecedente ao escritório de Ethan.

— Mas Summer e Autumn me preocupam muitíssimo. Summer é movido puramente pela curiosidade, ele não tem recursos ou provas, mas certamente desconfia de alguma coisa. Talvez isso seja por causa do seu relacionamento com Spring, mas não faz diferença. A questão é que ele existe, que ele faz perguntas, que ele pensa e que tem uma capacidade especulativa surpreendentemente boa. Acho que ele pode até ser inteligente. Tenho que pesquisar mais sobre o passado dele, aliás.

— E Autumn?

— Autumn me dá medo.

Nicholas levantou uma sobrancelha.

— Por quê?

— Porque ele é extremamente isolado e reservado. Ele fala pouco com todo mundo, é muito inexpressivo e se fosse mais branco seria transparente. Não parece ter nenhuma relação profunda com ninguém além das estações. Admito que não é surpreendente saber que ele tem uma relação sadomasoquista com Winter. Tenho medo dele porque eu literalmente não sei o que ele pensa. Eu não sei como ele pensa. Não sei que planos ele trama. Não sei do que ele desconfia. Se de alguma forma estiver investigando o assassinato, eu não vou saber como. Não saberei como pará-lo. Não o conheço a fundo. As únicas coisas que eu tenho certeza sobre a pessoa de Autumn é que ele tem uma curiosidade incansável, que é muito determinado a descobrir sobre o que não sabe e que ama muito seus amigos. Isso é muito perigoso dadas as atuais circunstâncias. Ele não tem muitos motivos para simpatizar com seu irmão e nunca dá pra saber o que aquele maldito inglês vai fazer.

— Bem, e quanto a Jules? Ele é filho de Lafferty.

Melchior se perguntou como Nicholas podia ser tão ingênuo.

— Jules também não é problema — garantiu. — Por que não está na escola?

— Eu disse aos meninos que esqueci meus remédios de novo. Se isso acontecer com mais frequência, eles vão acreditar mais, assim como o resto do mundo. Além disso, não estava a fim de ir à escola hoje.

Ele deu de ombros e foi embora. Melchior bateu polidamente na porta do escritório de Ethan e então abriu, sabendo que ele não esperaria alguém bater na porta e não faria ideia de quem seria. Ele estava sentado à escrivaninha, por trás de uma pilha de livros grossos e antigos. Ergueu os olhos negros por cima dos óculos retangulares e fitou-o penetrantemente. Talvez Melchior achasse Autumn tão misterioso porque ele também usava óculos.

— Vossa Majestade — disse elegantemente. Fez uma reverência extremamente exagerada, aproximou-se de Ethan e beijou-lhe a mão longamente, exatamente como faria a um rei. O mais velho não esboçou nenhuma reação diante da zombaria.

— O que você quer? Não vou nem perguntar como entrou aqui.

— Nicholas deixou. Vim saber como anda o Caso Lafferty.

Ethan deu de ombros.

— Não houve grandes andamentos. A polícia está meio desesperada. Acho que estão esperando um grande salvador da pátria aparecer com uma prova incontestável, como aconteceu no Massacre da Coruja.

Melchior aquiesceu. Se não fosse por ele e sua mente brilhante, Owl provavelmente nunca teria sido pego. Continuaria a ser uma corujinha branca e autista perambulando pelas ruas de Jardim de Ouro, murmurando seus incontáveis Owls. Infelizmente, a polícia não teria novamente aquela ajuda inesperada. Não se dependesse dele, mas de Summer ou Autumn…

— Soube alguma coisa das estações. Sabe, Edric Summer e Edric Autumn. Os amigos do seu irmão. Tenho certeza que você os conhece.

— O que é?

Passou os minutos seguintes repetindo a Ethan o que dissera a Nicholas, mas com mais detalhes e numa linguagem menos sentimental e simples.

— Você não sabe nada mesmo sobre Autumn? — perguntou-lhe. Melchior balançou a cabeça. — Nicholas uma vez me disse que ele veio de uma cidade pequena da fronteira da Inglaterra com a Escócia chamada Furness.

— Furness? — Aquilo acendeu uma luz na cabeça de Melchior. Demorou um pouco, mas acabou fazendo relação da palavra com o significado. — Em 2009, essa cidade sofreu uma terrível explosão numa fábrica que matou mais de setecentas pessoas. A fábrica se chamava Companhia Tudor… oh, eu me lembrei. Ela anteriormente pertencera à Kruger-Vorheel.

Em seu interior, um sorriso levemente cruel apoderara-se de si.

— O que levaria um garoto como ele a sair de uma cidade minúscula e vir a uma cidade cara e a uma escola cara? — Melchior sorriu. — O segundo nome de Autumn é Tudor. O que me parece é que seu pai, ou sua mãe, ou ambos, trabalhavam no alto núcleo da Companhia Tudor. Autumn é Tudor de nascença, então faz sentido. Depois que a companhia faliu, os pais dele foram demitidos. Talvez tenha sido aí que se separaram. Creio que você não precisa que eu diga que eles devem ter sido amaldiçoados no mundo dos negócios.

— Precisamente — disse Ethan enquanto acendia um cigarro. Ele deu uma tragada e soprou a fumaça para cima. — As antigas empresas da Kruger-Vorheel parecem ter levado consigo a maldição dos homens Hentz. Ninguém conseguia fazê-las funcionar por causa da administração burocrática, hierarquizada e autoritária. Você sabia que uma das ideias de Samuel era mudar o nome de Presidente da Kruger-Vorheel para Imperador? — Ethan deu uma risada. — Só uma ideia. Ela nunca foi proposta.

— Como você sabe, então? — indagou com uma curiosidade genuína.

Ele lentamente soprou a fumaça do cigarro em seu rosto.

— Sou um Hentz. Não me pergunte como sei das coisas. Eu apenas sei. O que é uma coisa que, me parece, você está começando a deixar de ter.

— Do que está falando?

— Você tem medo de Autumn?

Melchior dissera aquilo a Nicholas, mas não a Ethan, pois nunca se devia demonstrar fraqueza de espírito na frente dele. Seu poder provinha do conhecimento que bebia de suas fontes como néctar, de sua onisciência e onipresença. Toda a influência que detinha em Ethan provia da conveniência que oferecia a ele. Quando deixasse de ser útil, tornar-se-ia descartável. Era assim que os grandes corporativistas pensavam. Era assim desde sempre.

— Não tenho medo dele — disse com firmeza. — Mesmo que ele seja sutil, é só uma questão de tempo até a máscara cair.

— A sua já caiu há tempos, Melchior.

Agora estava começando a ficar irritado.

— Você tem medo de Autumn porque não sabe nada sobre ele ou porque há uma mínima, uma minimíssima chance de ele ser mais inteligente que você? Digo, quantas pessoas mais inteligentes que você, você já encontrou? Não muitas, imagino. Talvez nenhuma. Então há que surge aquele inglês que fala pouco e não faz nada demais, mas mesmo assim consegue investigar um caso que poderá derrubar todos nós. Como se sente em relação a isso?

Como eu me sinto? — vociferou baixinho, apertando as mãos em punhos. — Como eu deveria me sentir?

— Eu acho que você se sente humilhado porque Autumn possui características que lhe seriam extremamente convenientes, mas que você nunca conseguiu reproduzir. Ele é sutil. Ele não tem necessidade de ter holofotes apontados para ele todo o tempo. Ele consegue guardar as informações que consegue, ao invés de ser obrigado pelo ego e narcisismo a compartilhá-las com alguém apenas para ouvir o quanto é inteligente e perceptivo. Quando você era uma criança superdotada que aos cinco anos de idade conseguiu aprender violino sozinho, tornou-se bilíngue por conta própria e escrevia as primeiras nuances de Lympharia, como as pessoas te tratavam? Como um pequeno deus? Elas diziam muito bem, Melchior? Elas certamente faziam isso. Você cresceu rodeado de tantos elogios a sua inteligência, beleza e lábia que um garoto como Autumn, que tem o mesmo potencial, mas não vê necessidade em colocar-se num pedestal, te assusta.

— Se eu quisesse um psicólogo, eu iria a um.

— Você tem tantos irmãos e primos menores de quem cuidou a vida toda e age como se não fosse dar conta de um menininho crescido como Edric Autumn.

Foi então que Melchior se deu conta da situação em que estava. A cadeira em que se sentava era levemente mais baixa que a de Ethan, que estava encostado confortavelmente com as mãos entrelaçadas e uma expressão puramente suave no rosto, um tom de voz condescendente e olhos irritantemente bondosos. Ele estava dando-lhe uma bronca, como se estivesse falando com um empregado.

— Se quiser mesmo entrar nesse prédio novamente sem ser levado para fora pelos seguranças, é melhor ter alguma informação substancial sobre Autumn — Ethan disse com dureza na voz.

Melchior se levantou. Sem dizer uma única palavra ou lançar nenhum olhar para ele, deixou o escritório através do hall e pegou o elevador principal, ciente de que Ethan o estaria observando pela câmera.

Quando finalmente deixou o Palácio Real Hentz, Melchior tirou o celular de Ethan do bolso. Estivera em cima da escrivaninha e ele o pegara quando teve a oportunidade. Não compreendia bem o motivo, mas o fato de tirar alguma coisa de valor dele lhe pareceu apropriado.

Já chega disso, pensou fervendo de ódio. Ser humilhado por Nicholas Hentz para poder subir o prédio, ser humilhado por Ethan Lemnsack para conseguir algo que eu não consigo… ser humilhado até pela secretária dele! Como se eu tivesse a mínima obrigação de me meter nisso. Como se eu fosse o assassino da história. Já me cansei dessa família.

Sim, ele se cansara. Melchior sorriu e guardou o celular no bolso cuidadosamente enquanto chamava um táxi. Sentia todo o poder da torre atrás de si. Olhou para trás, bem para seu topo, para a parede envidraçada do último andar, a que dava bem no escritório de Ethan. Sentiu-o observando-o.

— Olhe bem do topo do seu palácio — sussurrou para si mesmo e para ele também. — Será a última vez. Para todos os efeitos, a família Hentz está morta.

O táxi chegou. Melchior acomodou-se confortavelmente em seu banco traseiro, quase como se estivesse numa carruagem real. Era hora de agir.

A vítima que haveria de escolher era bastante óbvia. Não poderia ser Winter, pois ele estava pouco se importando com as investigações; e aliás, Melchior já havia cuidado dele. Spring estava demasiado perto de Nicholas e era inocente demais para aquilo; ele também não investigava. Só lhe sobrava Summer e Autumn. Pensou por um longo tempo antes de se decidir por Autumn. Summer parecia ser perspicaz o suficiente para notar alguém olhando-o pelas costas, já Autumn não prestava atenção em nada a não ser que tivesse a intenção. Sim, seria ele. Edric Autumn seria a marionete de Melchior.

É claro que não poderia ir à polícia e contar sobre o assassinato. Isso mancharia seu nome para sempre com a família Hentz, e mesmo que estivesse fervilhando de raiva naquele momento, seu lado racional falava mais alto. Não, não podia ser tão óbvio assim. Tinha que ser sutil. Se Ethan sabia que Autumn investigava, não seria surpresa uma pessoa inteligente como ele descobrir tudo. Era só questão de tempo. Mas teria que ser rápido. Não fazia ideia do quanto demoraria para que seus pais fossem novamente chamados à Companhia Tudor — agora Hentz — e ele fosse embora da Califórnia. O semestre estava quase acabando. Sua chance estava indo com ele.

Teve de usar de suas fontes. Não apenas das oficiais, mas também cobrar cada favor devido e promessa não cumprida de centenas de pessoas, algumas das quais mal lembrava o nome, apenas a função. Todas tinham a mesma missão, simples e sem dificuldades.

— Mantenha o olho nele, seja discreto, me mantenha informado sobre tudo — sussurrava com sua voz deliciosamente tenra a seus passarinhos espalhados pela cidade. Muitos estavam na própria Escola St. Nicholas. — Não quero que ele saiba que está sendo observado. No entanto… talvez um clima de tensão ajude.

Alguns de seus passarinhos tiveram que ser convencidos a colaborar com ele. Alguns pela simpatia, outros pela luxúria, outros pela força, outros pelo verde dos dólares que Melchior pôs em suas mãos. Desde que fizera dezesseis anos, teve o direito de mexer na fortuna que acumulara vendendo livros. Não gostava de pensar no fato de que mexia apenas na poupança que guardara para Julie — assassinada ano passado —, pois o resto era de seus outros irmãos e primos.

Quando Owl fora encontrado morto e seu rostinho branco de coruja fora exibido como num show de horrores por todos os noticiários do país e o caso foi dado como encerrado, Melchior pensou que a tragédia da família Chioren estivesse superada. Mas é claro que os adultos tiveram que dificultar tudo. Apesar de haver outros onze meninos morando naquela casa, sua mãe Any clamava que tudo ficara diferente desde que ela partira. Os jantares que eram sempre confusos e barulhentos tomaram um clima enlutado de agouro. Conversas que eram antes ditas e repetidas na sala de estar por causa do barulho das crianças agora não eram nem faladas mais. Aquele silêncio insuportável naquela casa abarrotada de gente fora demais para Melchior. E aí fora realmente a primeira e muito provavelmente última vez que ele sumiu por um dia inteiro sem dar aviso algum. Como eram precisas pelo menos 24h para dar alguém como desaparecido, voltou antes do prazo final com um sorriso manso e cínico. E então, sentiram minha falta? Deus, muito, nunca mais suma de novo. Foi o resumo do que sua mãe dissera. Melchior disse então que nunca mais sumiria fisicamente se ela não sumisse mais espiritualmente.

A parte mais legal foi ver a preocupação no rosto dos irmãos e primos se desanuviando naquele alívio infantil gostoso de ver. Até Teo dera por sua falta. Sua primeira palavra foi dita com nove meses de idade, e foi Mel. Duas semanas depois, ele falou o Chior e o On.

No entanto, quando voltou para casa no final daquela manhã de sexta-feira, viu de novo apreensão no rosto dos meninos. De Marco, Sam, Hugh e Howl, pelo menos.

— O que aconteceu? — indagou, mas ao dar pela falta de Daemon julgou saber a resposta. Eles também perceberam isso.

— Ele chegou a um garoto da sala dele chamado Roman e disse que gostava dele — disse Marco, o que era incrível porque ele não estudava mais na Escola Minerva.

— Não foi alto — disse Sam —, não foi na frente de todo mundo. Ele o chamou para um canto e disse isso. Mas Roman decidiu gritar para o resto da sala. E depois para a o resto da escola. Daemon passou quase que a manhã inteira trancado no banheiro. Às vezes um garoto chegava na cabine e dizia a ele que ele devia ir ao banheiro das meninas.

Melchior torceu o nariz. Pré-adolescentes sabiam ser realmente cruéis.

— Que espécie de garoto se chama Roman? — Hugh indagou. Tanto ele quanto o irmão tinham olhos completamente azuis e cabelos espessos e castanho-escuros.

— Duvido que ele seja italiano — Sam resmungou. — Duvido até que tenha descendência italiana.

Melchior se aproximou do irmão, taciturno como um fantasma, e olhou profundamente em seus olhos azul-violeta e cabelos castanho-acinzentados. Um garoto de doze anos realmente bonito. Seis, sete segundos depois, então, segurou seu queixo com delicadeza e segredou numa voz extremamente sussurrante e macia, mas que não deixava de ser autoritária:

Descendência é o que vem depois de você. São seus filhos, netos, bisnetos e etecétera. Ascendência é o que vem antes. São seus pais, seus avós, bisavós e etecétera. Não cometa esse erro de novo.

Deixou-os ali e subiu as escadas. O quarto que Daemon dividia com Sam estava trancado, como bem esperava. Bateu quatro vezes com suavidade, imaginando-o com o rosto enterrado no travesseiro, chorando copiosa e silenciosamente por um garoto estúpido chamado Roman. Perguntou-se se ele era bonitinho o suficiente para valer a pena.

— Vá embora — ele disse lá de dentro.

— Sou eu — disse com suavidade. Esperou um minuto inteiro antes de tirar uma chave mestra do bolso e abrir a porta assim mesmo. — Oh, olhe só para você.

Ele realmente estava com o rosto enterrado no travesseiro, que estava suspeitosamente molhado, mas também estava apenas de cueca. Seus joelhos mostravam alguns arranhões já sarados. Perguntou-se de onde eram oriundos, mas achou melhor não perguntar. Os cotovelos e as costas também tinham alguns arranhões. Quando Daemon tentou cobrir-se com o lençol, Melchior percebeu que eram propositais.

— Não seja tão patético, você é um Chioren — sussurrou. Suas palavras duras contrastavam com a voz suave e o rosto de anjo. Parecia que alguém estava falando através de si. — Você sofreu uma decepção amorosa. Isso acontece bastante. Sabe o que você vai fazer amanhã, assim que Roman vier perturbá-lo? Assim que qualquer um vier fazer isso? Você vai esfregar o dedo do meio na cara dele e o mandar se foder, é isso que você vai fazer.

Daemon era incrivelmente pequeno para a idade dele. Melchior suspeitava que não demoraria muito para que parasse de crescer. Ele fungou e limpou uma das lágrimas dos olhos com o pulso.

— E, por favor, pare de se cortar.

— Eu não estou me cortando! São… machucados de esporte.

— O esporte mais pesado que você pratica é descer e subir escadas. Não tente me enganar. Não vou contar sobre isso a ninguém, mas estou mandando que você pare. Não te faz bem e a dor não resolverá as coisas. Não torne isso um vício. Vícios são fraquezas.

— Eu não quero voltar para a Minerva — ele sussurrou, encostando a cabeça no peito de Melchior.

— Então não volte. Você pode trocar de escola. Falarei com nossos pais.

— Mas… isso te obrigaria a… a dizer a eles… por qual motivo.

Ele era só um garoto, lembrou-se de repente. Tinha apenas onze anos. Não iria querer contar a verdade aos pais. Melchior jamais contara porque não via necessidade, de modo que sinceramente não sabia como eles iriam reagir.

— Daemon, uma coisa que você já deveria ter aprendido é que em hipótese alguma alguém me obrigará a fazer algo que eu não queira. Mas esses boatos estão rolando e admito que logo, logo chegarão aos ouvidos da mãe, e nem eu posso pará-los. — Anyce Chioren era amiga de metade das mães tradicionais da Escola Minerva, embora odiasse todas.

Melchior se sentiu culpado por dizer aquilo a ele. O menino começou a tremer e a choramingar, e logo estava chorando novamente. Não tentou impedi-lo. Era melhor que descarregasse o que tinha dentro de si ao invés de fazê-lo com uma lâmina afiada na própria pele. Não queria que ele se tornasse um novo Nicholas Hentz. Queria que ele fosse feliz.

— Você já notou como a raça humana tornou tão difícil viver nesse mundo? — Daemon indagou fitando-o profundamente. Seus olhos meigos, de um azul claro como o céu, deleitados no suave violeta de Melchior. — É um círculo vicioso. Você vai à escola, você se esforça, entra numa boa faculdade, se esforça ainda mais, consegue um emprego, se esforça novamente para fazer dinheiro. Então você morre. E seus filhos fazem a mesma coisa. E todo mundo continua fazendo isso e ninguém para para se perguntar por que eles fazem isso. Todo mundo continua fazendo a mesma coisa o tempo todo simplesmente porque eles devem fazer, mas quem os obriga? Não há nenhuma força superiora que nos obrigue a fazer isso. E antigamente, quando a raça humana havia nascido, o objetivo de todo mundo era simplesmente sobreviver. As pessoas apenas viviam. Quer dizer, é o que importa. Sobreviver. Porque, quando você morre, não importa quão bem fez o ensino médio, para qual faculdade foi, qual emprego ganhou e quanto dinheiro fazia por ano. Também não importa se você gostava de garotos ou garotas ou com quantos transou. Você vira pó. Eu queria fazer algo diferente. Eu sonho com isso.

— Não sonhe. Seja. Eu sinto que você está destinado a ser grande, Daemon Chioren.

Melchior sorriu e beijou sua bochecha com paixão. Não havia errado de maneira alguma quando o escolhera como seu favorito em detrimento de Marco. Diziam que os pais não deviam ter filhos favoritos, mas Melchior não era pai de seus irmãos.

— É por isso que a humanidade é tão bonita — sussurrou de volta, agora perigosamente perto dele. Lembrou-se de quando Marco o seduzira ano passado. Nunca tinham voltado a fazer algo parecido, mas aquela vez, só aquela vez, fora por si só tão excitante…

Foi Daemon quem decidiu beijá-lo nos lábios, afinal. Melchior segurou o selinho por alguns segundos antes de enfiar a língua na boca dele, apertar sua cintura e deslizar as mãos para cima, até seu pescoço e sua nuca. Ele se arrepiou.

— Meu Deus — sussurrou para o mais velho. Sua expressão era oblíqua e dissimulada, embora temerosa e excitada. — Faz de novo. E não pare mais.

Melchior ficou tentado a fazê-lo, principalmente ao sentir o próprio membro doendo dentro da calça, mas era estupidez. Havia gente demais acordada naquela casa e Sam, Marco, Hugh e Howl sabiam que ele estava ali naquele quarto com Daemon.

— Eu vou fazer — disse-lhe. — Mas não agora. Estou muita coisa na cabeça. Me dê um tempo, e quando todos estiverem dormindo eu me livro de Robb e Grey e você dorme no meu quarto. Mas… nós não dormiremos. — Daemon puxou-lhe pelo cabelo novamente e mais uma vez os irmãos se beijaram apaixonadamente. — Eu tenho que dizer que Roman é muito estúpido por rejeitar você.

Será que é assim que Ethan se sentira quando começou a ter um caso com Nicholas?, pensou voltando ao próprio quarto. Às vezes se esquecia do segredo sujo que guardava sobre os dois. Sabia Deus o quanto as fãs de Nicholas adorariam que aquela relação fosse real, mas os contatos empresariais de Ethan, não.

Assim como esperava, durante o resto da tarde e início da noite ele foi bombardeado com uma profusão de informações inúteis sobre Autumn. Ele não havia deixado a escola naquela sexta-feira. De manhã, portou-se exemplarmente. De tarde, não voltou a ver Edric Winter. Ao invés disso, ficou dentro do quarto estudando. Às vezes saía para tomar um ar. Quando alguém lhe cumprimentava, ele respondia, e era só. Spring também não fora diferente.

Quando a noite chegou, no entanto, um de seus contatos veio falar que o vira sair correndo do quarto por alguns minutos, tremendo nos próprios pés e segurando um celular. Autumn tomou ar durante alguns minutos, recobrou a compostura e voltou ao quarto. Spring chegou momentos depois.

Pelo visto, Ethan fizera os primeiros movimentos. Anunciara a reconstrução da Companhia Tudor de Furness e provavelmente chamara os pais de Autumn.

Deitado na escuridão de seu quarto, pouco antes de dormir, foi tomado por uma excitação deliciosa. Precisava estar com alguém. Olhou para a beliche de cima. Robb ainda não havia chegado em casa. A ideia de que ele poderia estar com Ethan o irritava. Grey estava dormindo em outro quarto.

Como se tivesse previsto, a porta do quarto abriu-se sorrateiramente. Melchior viu a sombra de Robb mover-se na escuridão. Ele começou a tirar os sapatos e o casaco que usava, então a camisa. Quando estava apenas de calça, Melchior levantou-se e ligou a luz.

Robb abafou um grito de susto. Com a luz acesa, Melchior pode contemplar as marcas de chupão e arranhão de seu pescoço e abdômen. Aquilo o irritou ainda mais, mas com muita habilidade cobriu a frustração com o sorriso condescendente que usava com ele.

— Por que demorou tanto? — perguntou.

— Estava com Ethan — ele respondeu.

— Você tem estado com Ethan bem frequentemente nas últimas semanas.

— Estamos namorando.

— Presumo que você não vá querer se deitar comigo, então.

— Claro que não — ele disse sinceramente chocado. — Seria traição.

Melchior perguntou-se se Robb sabia metade das coisas que Ethan Lemnsack já fizera.

— Faça-me o favor. — Revirou os olhos da forma menos sutil que encontrou. Robb franziu as sobrancelhas. — Se você pretende ser a namorada dele, durma em outro quarto por esta noite. — Se ele fosse, Melchior poderia organizar melhor seus pensamentos, poderia começar a escrever outro livro e a passar a madrugada trabalhando nele, como gostava de fazer… poderia até chamar Daemon.

— Eu não quero — ele teimou. Tirou a calça e colocou uma bermuda normal.

— Por favor — disse com sua voz mais macia, a mais suave, a mais hipnotizadora. Robb olhou para ele, mas tudo o que Melchior viu em seus olhos foi um desinteresse cínico, bem diferente da confusão ingênua que esperava. Era pior que pensava. Ethan estava contaminando seu primo. — Sabe, às vezes a gente tem que fazer coisas pela família que…

Parou de falar quando ele começou a subir as escadas da beliche, ignorando-o totalmente. Irritado e sem raciocinar muito, puxou-o pelo ombro para baixo. Por pouco Robb não bateu o queixo no degrau de metal gelado.

Mas foi quando Melchior foi atirado contra a parede do outro lado do quarto num só empurrão que lembrou que apesar de ter a mente de um garoto de onze anos, Robb tinha quase o dobro de seu tamanho. O baque paralisou seu corpo por um segundo; a dor que sentiu na nuca quando se chocou quase fê-lo gritar e ele caiu de joelhos com os olhos arregalados.

— Eu não vou mais te obedecer — ele disse voltando a subir a escada. — Nunca mais.

Ficou alguns segundos no chão, estatelado como um boneco, sem se mexer. O volume do corpo de Robb sob os lençóis brancos quase zombavam dele.

E humilhado por Robb Thanathos. Novamente aquele ódio ferveu dentro de si como numa panela de pressão, quase engolindo seu coração, mas Melchior forçou-se a suprimi-lo. Não era naquilo em que estava interessado agora. Podia esperar. Para um futuro próximo.

No dia seguinte, decidiu faltar à escola. Apesar disso, armou o café-da-manhã como sempre, mesmo o de Robb. Afinal de contas, era ele quem trazia Teo para baixo e trocava suas roupas. Sua mãe começara a repousar cada vez mais por causa da gravidez. Ainda assim, deixou de colocar um prato na mesa, sabendo que Daemon não iria. Podia dizer à mãe que ele não se sentia bem àquela manhã, mas aquilo não podia continuar para sempre.

Então recebeu uma mensagem de um de seus passarinhos da Escola St. Nicholas. Autumn e Spring conversavam na cafeteria do internato intimamente, pegavam na mão do outro e sussurravam-se segredos. Um desavisado poderia achar que estivessem tendo um caso, mas não era nisso que Melchior pensava. Autumn havia recebido um telefonema aterrorizante no dia anterior e agora desabafava com seu colega de quarto de quem ninguém desconfiava que tivesse uma amizade tão profunda.

Aliás, havia achado na internet algo que confirmava suas suspeitas. Um recorte de jornal antigo datado de 13 de abril de 2009, um dia após a terrível tragédia de Furness. Uma foto em preto e branco de dois garotos. Um deles tinha olhos claros e longos cabelos negros. O outro era claramente Autumn. O primeiro garoto, Jesse Tudor, como dizia a manchete, havia sido diretamente morto pela explosão, enquanto o outro se encontrava em estado grave, mas estável, no hospital. Era possível que Autumn o tivesse amado? Provavelmente. Jesse havia sido um rapaz bonito. Queria Melchior saber o que causara a explosão.

Na hora do almoço, descobriu que ele escapulira da escola para ir a Wintorland. Não precisava de muito para saber que iria almoçar com Winter e depois talvez foder com ele. Pensou um pouco no que fazer. Não havia como saber o que se passava dentro da casa de Winter, visto que transformar Jules num passarinho estava fora de questão. Ele estava num terreno impenetrável.

No entanto… era só questão de tempo até que Autumn descobrisse sobre o épico encontro entre Mary Alice Hentz e a diretora da St. Emanuelle Mary Bernadette. Quer dizer, a verdade é que não era, a não ser que ele fizesse acontecer. É por isso que ligou para um de seus passarinhos mais preciosos e pediu-lhe um desejo de ouro.

Você ficou louco? — a voz perguntou-lhe do outro lado da linha. Melchior já havia ouvido aquilo uma dúzias de vezes naquele dia e no dia anterior, então esperou pacientemente até que a voz parasse de praguejar. De certo modo, agir como se fosse apenas uma voz sem rosto, um robô sem vontade, facilitava as coisas.

— Faça isso — sussurrou. — Faça isso e ponha no sobretudo dele quando ele não estiver olhando. Dê-lhe um abraço e enfie-a lá, eu não me importo. Edric Autumn deve ter essa chave até amanhã!

A fortaleza que era o escritório da diretora Mary Sandy logo viria abaixo. Melchior conhecia o prédio da administração de cabeça para baixo e sabia que havia fichas lá de todos os funcionários da escola, inclusive dos padres e das freiras. Só esperava que Autumn encontrasse o que procurava. Quando ele abrisse a ficha de Lafferty e descobrisse que ele havia sido padre numa escola que Nicholas e Ethan já estudaram, ficaria mais desconfiado ainda. E então Melchior daria sua tacada final.

Mas no momento estava em paz e sem muita coisa para fazer. Ligou para um serviço de táxi e perguntou quanto haveria de custar uma viagem de Middleland para Castellobranco. Pouco mais de duzentos dólares com duas horas de viagem, em média. Oh, está tudo bem, mande um táxi para Jardim de Ouro. Pagamento em dinheiro.

Após avisar devidamente sua mãe que passaria a tarde fora e só voltaria à noite, Melchior deixou Middleland. A viagem durou uma hora e cinquenta e dois minutos, na verdade, e custou cento e noventa e oito dólares.

Ele estava então parado em frente ao fabuloso prédio da Escola St. Emanuelle. Por fora, o lugar parecia uma catedral gótica. Por dentro, um castelo medieval. As paredes eram largas, mas escuras, feitas de uma pedra grosseira e ironicamente charmosa. Havia armaduras completas em quase todos os corredores, enfiadas em fendas nas paredes, numerosas como veias sob a pele. Todos os alunos pelos quais Melchior passou falavam muito baixo, praticamente sussurravam, e seus sapatos quase não faziam barulho. As roupas eram antigas e fora de moda. Eles pareciam mais pequenos senhores de um feudo.

No entanto, a vitrine de troféus estava cheia. A St. Emanuelle se destacava tanto em esportes quanto na parte acadêmica. Cada taça de ouro era ostentada de forma tão exagerada que era quase ridícula, todas encimadas por um pedestal dourado com uma luz forte como um holofote por cima, como numa pintura de Rembrandt.

Ao lado do palanque, havia várias fotografias emolduradas de alunos ou ex-alunos penduradas na parede. Melchior pensou que poderia ser uma espécie de mural de honra para aqueles que foram excepcionais durante o ano escolar ou não. Mas a maioria das fotos tinha uma frase deprimente demais logo abaixo, como se o fato de aqueles alunos terem atingido o terceiro ano significasse que eles sumiriam da face da Terra. Então as idades foram diminuindo… e quando Melchior viu um pré-adolescente ali, percebeu, horrorizado, que aquilo não era de forma alguma um mural de honra. Eram anúncios de óbito.

Um aluno pareceu notar seu assombro. Aproximou-se dele sem aparentar reconhecê-lo como o autor Melchior.

— Sim, isso é um muro das lamentações — ele disse. — A maioria das pessoas que o vê pensa que é para homenagear os alunos, mas não.

— São tantos mortos — disse. Os quadros davam a volta no corredor.

— Você sabe que há alguns anos houve um tiroteio dentro de uma escola daqui?

— Não foi na St. Emanuelle.

— Não, mas havia alunos da St. Emanuelle lá. Eles compõem quase metade desses quadros. Mas todos os ex-alunos que morrem são colocados aqui, seja morte natural ou não.

Era verdade. Havia vários adultos lá.

De repente, Melchior lembrou uma coisa. Uma lembrança ínfima, mas desesperada. Foi ao outro corredor para checar o restante dos quadros. O garoto o seguiu.

— Meu Deus — sussurrou quando o viu.

Sim, ele estava lá, quase tão vivo quanto quando o vira pela última vez. Mas estava seis anos mais velho, embora conservasse o rosto de criança e os olhos sonhadores e absolutamente perfeitos. O cabelo ainda era igual, louro-prateado como a poeira das estrelas, como ouro-claro banhado pela luz da lua, como um amanhecer nublado por causa de uma tempestade que se aproxima. A pior parte era que havia uma leve sugestão de sorriso em seus lábios rosados, singela e suave como a de um bebê.

— Ele foi assassinado — disse o garoto ao seu lado. — Há uns cinco anos. Por um grupo. Um dos membros era aluno dessa escola, não foi preso e há uns dois anos ele também morreu numa explosão de carro. No entanto… não aparece aqui. Mais que justo, não é?

Justo seria se ele ainda estivesse vivo, pensou macabramente. Pela primeira vez em muito tempo, Melchior sentiu-se grato por Ethan saber analisar friamente as situações em que se encontrava. Ele mandara matar cada um dos oito assassinos das formas mais cruéis possíveis. Esperava sinceramente que ele jamais fosse ligado a essas mortes.

Não havia frase alguma abaixo do quadro. Era melhor assim. Qualquer tentativa de descrição tornar-se-ia enfadonha e redundante.

Afastou-se dali. O olhar gentil da criatura no quadro da parede estava lhe dando náuseas e vontade de chorar ao mesmo tempo. Ainda tinha a voz dele com as últimas palavras que lhe dissera gravada na cabeça.

Ao invés de deixar que ele ocupasse sua mente uma vez mais, rumou ao escritório da diretora Mary Bernadette. Este ficava, por mais incrível que parecesse, no ponto mais alto da torre mais alta da escola, o que não era grande coisa, apenas uma estrutura circular de pedra bruta com uma escada em espiral atarracada à parede como uma grande cobra de mármore. Sua sala era o único aposento e ficava bem por trás de uma grande porta de madeira.

Melchior não havia marcado hora, mas imaginou que uma freira não tinha muito o que fazer num sábado. Se ela estivesse na igreja, aguardaria dentro do escritório até que ela voltasse. Se ela fosse paranoica como Mary Sandy e o mantivesse trancado, Melchior carinhosamente poria fogo naquela escola. Já estava cheio de frustrações.

Por motivos diversos, esperou que o corredor antecedente à torre se esvaziasse. Os alunos iam à escola aos sábados por causa da igreja, para resolverem problemas com matrícula, para formarem grupos de estudos e para atividades extracurriculares. Eram quase quatro horas da tarde e cada vez mais os meninos foram desaparecendo.

Quando por fim o corredor esvaziou-se, Melchior subiu a torre. A situação toda era absurdamente ridícula, mas felizmente a porta do escritório estava aberta. Mary Bernadette não estava na sala, de modo que se deu a liberdade de bisbilhotar seus arquivos até achar a ficha dos padres que um dia já pisaram na Capela St. Emanuelle. Não demorou muito para achar o Padre Lafferty Winter. Entre tantos padres de rostos severos e cara fechada, ele parecia um jogador de futebol com suas cores da família Winter.

O motivo de sua transferência era cômico.

Requerido pela Sra. Mary Alice Hentz. Aparentemente, houve divergências entre o Sr. Lafferty e o filho da Sra. Mary Alice.

E quantas divergências.

Todo o documento era escrito nesse clima de desespero. Melchior imaginou que não fora muito fácil para a pobre Irmã Mary Bernadette escrever aquilo no estado em que provavelmente se encontrara após sua conversa com Mary Alice Hentz. Antes de afundar a Kruger-Vorheel, ela era conhecida por se assemelhar a John Daniel Hentz na frieza em relação aos negócios. E que negócio maior que exilar o estuprador do filho?

Melchior estendeu todo o dossiê do Padre Lafferty sobre a escrivaninha e sentou-se na poltrona. O escritório era simples, mas funcional. Não havia nada mais moderno que um computador de mesa, e praticamente nenhuma ostentação. A coisa mais chamativa era um enorme brasão com as cores verde e azul atracado à parede. O brasão da Escola St. Emanuelle. Teve a impressão de que em outra situação poderia ter gostado daquela diretora.

A porta se abriu. Ela estava, felizmente, sozinha.

A Irmã Superiora Mary Bernadette era uma mulher alta, de rosto comprido e olhos escuros e caídos, assim como a pele logo abaixo das maçãs do rosto. Tinha uma boca comprida e enrugada, um nariz fino e comprido como o bico de um corvo, curvado para baixo. Usava um hábito completo e uma bengala de madeira. Melchior surpreendeu-se ao ver como aquela mulher cambaleava ao andar. Era claro que estava nos últimos anos de vida. Perguntou-se como ela podia subir aquelas escadarias todos os dias.

Ela se surpreendeu quando o viu ali. Sua falta de uniforme denunciava que ele não era um aluno.

— Irmã Mary Bernadette — declarou alegremente quando a viu. Levantou-se e aproximou-se dela mecanicamente, quase cínico. Deu-lhe o braço e ajudou-lhe a andar até a escrivaninha, sentando-a na própria poltrona como se fosse uma boneca. E pensar que quando fizera a mesma coisa no ano anterior, Hellen Page só lhe faltara arrancar a cabeça. — Temos vários negócios a tratar. Meu nome é Melon Chioren. Pode me chamar de Melchior.

— O que quer aqui? — ela indagou numa voz quase cacarejante. Melchior teve a súbita impressão de que ela sabia por que ele estava ali, e então ela viu a ficha de Lafferty.

— Acho que sabe por que estou aqui — sussurrou com sua voz macia e amedrontadora. Levemente inclinado à irmã, elevava-se o suficiente para ostentar superioridade sem precisar demonstrá-la. — A senhora tem uma ficha na sua frente com informações falsas e incompletas. A senhora tem uma ficha cheia de mentiras as quais nunca confessou. Não sabia que mentir é pecado, irmã? Pecado. A senhora tem uma ficha cheia de pecados.

Ela levantou o rosto, demonstrando com os olhos obstinados por que, afinal, era diretora daquela instituição há quase vinte e cinco anos.

— Eu sei por que está aqui. Eles os mandaram, não mandaram? Os Hentz.

Ela os odeia quase tanto quanto eu, pensou fascinado, mas sem obviamente confirmar.

— Eu disse à Sra. Hentz que as informações verdadeiras jamais seriam escritas ou ditas novamente por mim a ninguém. Jamais confessei a verdade. E pretendo levar esse segredo ao túmulo comigo.

Mary Bernadette mal sabia que Melchior queria que ela fizesse exatamente o contrário.

— O Padre Lafferty está morto — falou mesmo sabendo que ela sabia disso. — Ele foi assassinado. A surpreende?

— Não.

— Não acha que isso é errado?

— Não.

— Não acha que todos os pecadores merecem perdão?

— Não.

Melchior imediatamente percebeu que ela estava mentindo. A verdade é que a Irmã Mary Bernadette havia decorado aquelas palavras e agora as repetia como um papagaio treinado. Era o que precisara dizer para agradar a Mary Alice Hentz e o que dizia para agradá-lo.

— Irmã, deixe-me ser bem sincero. Não estou aqui a mando dos Hentz. Eles não sabem que estou aqui. Eles pensam que estou do lado deles, mas, como a senhora, eu não estou. Pelo menos não em meu íntimo. Em meu íntimo, eu sei que isso foi terrivelmente errado, sei que ameaçar a senhora e forçá-la a transferir Lafferty foi imperdoável. Acredito que todos os pecadores merecem perdão. Assim como a senhora. Não seria uma freira convicta se não acreditasse nisso, não é? Vamos ser francos. Ela está morta.

A cada palavra acolhedora que dizia, a máscara de Mary Bernadette se dissolvia mais. Ela não mais possuía aquele olhar obediente e passivo. Melchior se inclinou para a frente e segurou sua mão nas duas próprias.

— Eu e você somos vítimas aqui, a verdade é essa. Os Hentz são perversos e arrogantes. Eles se acham maiores que Deus. Isso não é verdade. Eles não são. E a justiça divina ainda haverá de cair sobre eles.

Apesar de não acreditar numa palavra de toda aquela conversa fiada de justiça divina, a irmã acreditava. E a confortava. Parecia ter esperado anos e anos para ouvir aquilo.

— A senhora sabe o que deve fazer — falou. — Sabe que esse segredo não deve continuar um segredo. Se a polícia souber o que Lafferty fez, eles saberão que os Hentz tiveram um motivo forte para fazer o que fizeram e a investigação cairá diretamente sobre eles.

Quase conseguia sentir a força das próprias palavras, pois cada uma era dita num tom de absoluta sinceridade. Ele a estava manipulando de forma tão sutil que era quase imperceptível. Talvez a alguém mais atento… mas não à mulher que se segurava para não chorar.

No entanto, tudo que Mary Bernadette disse foi um grande e sonoro não.

— Não? — repetiu perplexo.

— Mesmo presos, eles ainda serão tão influentes quanto antes.

— Ora, e daí? — indagou perdendo a compostura. O que ela tinha, medo de ser morta? Melchior teve que se segurar para não dizer que não sabia em que mundo ela vivia, mas no real Ethan Lemnsack não mataria ninguém apenas para esconder uma informação.

— Eu fiz uma promessa à Sra. Hentz — ela falou irredutível.

Ela ainda a chama de Sra. Hentz, notou irritado. Estava saindo tudo errado.

— Ela está morta! — gritou levantando-se da cadeira. — Morta, carbonizada!

— E Lafferty também. Se ela não pode mais fazer nada, por que isso, então?

Novamente, Melchior teve que se segurar para não urrar de frustração.

Mary Bernadette se levantou e agarrou a ficha de Lafferty. Voltara a ser arrogante.

— Vou queimar esta ficha. Esse segredo morrerá comigo. Se alguém for destruir os Hentz, eu não serei responsável por isso. Não quero morrer em pecado.

Observou impotente ela se arrastar até o outro lado da sala, mas quando a velha saiu pela porta, o ódio voltou a ferver dentro de Melchior. Ele a seguiu.

— A senhora não pode fazer isso!

Virou-a violentamente e tentou puxar a ficha de sua mão, mas a freira estava bem no pé do primeiro degrau da escada. Quando tentou puxar a ficha de volta, se desequilibrou e soltou a bengala. A mão tateou o ar inutilmente enquanto a outra segurava um pedaço rasgado da ficha do Padre Lafferty. Com a boca semiaberta, Melchior observou-a cair pela escada, degrau por degrau, rolando por cima de si mesma como um monte de trapos, como uma boneca de teste de colisão de carros. Ela caiu por todo o trajeto da escada e só parou quando chegou ao chão.

Melchior esperou ouvir gritos de alunos vararem o ar, espantados com a diretora de sua escola morta. Mas não ouviu nada. Suas atividades ainda não haviam acabado, o corredor estava vazio.

Desceu mecanicamente as escadarias, pé após pé, segurando-se firmemente no batente da escada. Olhou para o corpo coberto de panos da freira. Ela não se mexia. Estava morta.

Pegou o pedaço de papel da ficha de Lafferty da mão dela sem tocar em mais nada e saiu dali com passos silenciosos. Sempre checava para ver se havia alguém no corredor, e se havia, ia por outro. Porém, antes de deixar o prédio, roubou a foto de Oliver do mural das lamentações. Ela serviria mais tarde. Enfiou a ficha no sobretudo e foi embora.

Andou por quase um hora antes de se sentar no banco de uma praça com o retrato no colo. Oliver o fitava com reprovação. Ele havia sido assassinado, e Melchior acabara de assassinar alguém.

Minha primeira morte, pensou. No entanto, não se sentia muito mais que ligeiramente enojado por pensar em como estava o corpo da freira. E aliás, apesar de não se lembrar muito bem daquela briga pela ficha, pois agora tudo estava confuso e borrado, lembrava-se do arquejo quase delirante que ela deu quando percebeu que estava prestes a cair escada abaixo e não tinha nada para segurar. De certo modo, Melchior soube que aquele fora seu último suspiro. Mary Bernadette havia morrido antes mesmo de começar a despencar.

Deu graças a Deus que não viu seus olhos vazios. Eles teriam lhe dado pesadelos para sempre. Mas sabia que seu último suspiro ficaria para sempre gravado em sua mente.

Melchior tirou um isqueiro do bolso — um Zippo prateado com a figura de um jogo de xadrez gravado — e queimou a ficha de Lafferty. Não era estúpido de voltar àquela escola com aquilo no bolso.

As cinzas logo se formaram sobre o papel até que tudo era elas. As cinzas que mataram a Irmã Superiora Mary Bernadette.

Mais tarde naquele mesmo dia, Melchior voltou à Escola St. Emanuelle com a postura de um garoto estúpido e inocente que havia roubado aquele retrato por descobrir que o amigo que um dia tivera estava morto. Amigo esse que, apenas por acaso, fora o motivo de ele ir àquela cidade. Disse que estava arrependido e queria devolver o quadro. Aproveitou e perguntou à Intendente Mary Elise o porquê daquele clima morto na escola. Ela respondeu que a diretora havia escorregado na escada e caído, morrendo instantaneamente. Melchior chorou com ela e a abraçou, dizendo que não era culpa dela por ter deixado Mary Bernadette voltar ao escritório sozinha.

Voltou à Middleland já quando escurecia. Havia alguém esperando em frente a sua casa casualmente, como se não houvesse chance alguma de estar sendo observado. Não havia, mas isso não impediu Melchior de ir lá ralhar com ele. Era o mesmo garoto para quem ligara pedindo que colocasse a chave da sala de Mary Sandy no sobretudo de Autumn.

— Por que está aqui? — indagou aproximando-se dele. Tinha sua idade e era internista na St. Nicholas. Os internistas não podiam sair sempre que quisessem, no entanto todo mundo fazia isso. — Não podemos ser vistos juntos.

Ele deu de ombros e lhe estendeu um pedaço rasgado de papel antigo.

— Não estamos planejando um assassinato. Achei isso no bolso do sobretudo dele. Está em francês. Achei que pudesse lhe interessar.

Melchior pegou o pedaço de papel e leu quatro versos estrangeiros desenhados infantilmente. As frases traduziram-se instantaneamente em sua cabeça.

Dói.

Tudo dói.

É culpa de Lafferty.

E esse cheiro de limão não sai da minha cabeça.

A primeira coisa que lhe veio à cabeça foi Nicholas. Mas Nicholas não sabia francês. Depois veio Winter. Mas Winter era burro demais para ter escrito algo tão poético e, aliás, ele só começou a ter algum progresso na língua francesa há pouco tempo. Aquele papel já tinha pelo menos meia década. Só havia uma pessoa sobrando.

Sorrindo amigavelmente, agradeceu ao garoto e entrou em casa.

O dia seguinte foi agradavelmente cheio.

Seu contato mais precioso, um estagiário na administração da Escola St. Nicholas, narrara-lhe a fantástica saga de Autumn e Winter naquele prédio àquela manhã. Autumn estava seguindo o caminho que Melchior trilhara para ele e mal percebia isso. Ele de fato desvendara o mistérios dos arquivos, entrara no escritório de Mary Sandy e procurara a ficha do Padre Lafferty. A chave em seu sobretudo foi o maior empecilho — por um segundo ele pareceu que ia desistir e ir embora, mas então foi em frente.

Autumn é cuidadoso demais, pensou na tranquilidade de sua escrivaninha em seu quarto. Seu computador estava aberto numa página em branco num editor de texto, mostrando as primeiras cinquenta páginas de seu primeiro romance policial. Seu editor regozijaria ao ver aquilo. Romances policiais andavam em alta no mercado e o nome de Melchior era forte e famoso. Alguns autores iniciantes pagavam a ele para que lesse suas obras e fizesse uma crítica, de modo que fosse mais fácil conseguir publicá-las.

Mas só pretendia publicá-lo quando o Caso Lafferty viesse à tona e todos os detalhes também, exatamente como fez com a Sociedade das Pequenas Caixas e o Massacre da Coruja. Será que era baseado em caso real? Ficava à imaginação dos leitores…

Autumn não era assim tão misterioso quanto Melchior achava que era. Seus atos em bem previsíveis, na verdade. Como lera a ficha de Lafferty de Mary Bernadette antes de queimá-la e descobrira que ele também pregava na Escola Antoniette e na Capela de São João, decidira aparecer por lá.

Dessa vez, fez o possível para chamar a menor quantidade de atenção possível. Desfazendo-se de seu amado sobretudo, foi com uma roupa normal e os cabelos cobertos por uma touca, já que não era normal encontrar um rapaz de cabelos cinzentos zanzando pelas ruas de Donarchen. Não podia fazer nada com os olhos, mas não lhe interessava. O gorro azul-escuro faria-os aparentarem a mesma cor.

Chegou bem no começo do toque do recreio. Algumas crianças vieram para fora. Do lado de fora da grade da Escola Antoniette, Melchior avistou três garotos por volta de dez e onze anos brincando numa gangorra desinteressadamente. Aproximou-se deles através da grade, pois não iria entrar na escola. Não depois de St. Emanuelle.

Quando percebeu que eram os três loiros de olhos escuros, sorriu.

— Olá — disse alegremente. Eles lhe dirigiram olhares interessados. Crianças pobres eram mais alheias ao perigo, talvez por simplesmente conviverem com ele em demasiado. — Bom dia, meu nome é Melchior. — Quais seus nomes?

O maior respondeu por todos:

— Luke, Phil, Andrew.

Não se deu ao trabalho de especificar quem era quem, mas Melchior não se importou.

— Gostaria de fazer uma pergunta. Poderiam me responder? — Logo percebeu que todos os três simpatizaram com ele. Era muito mais fácil com crianças do que com velhas freiras raquíticas. — Vocês conheceram o Padre Lafferty Winter?

A sombra que passou no rosto dos três o alegrou macabramente.

— Conheceram? — voltou a repetir, fitando-os penetrantemente através das grades. — Rezavam com ele? Confessavam-se com ele? Treinavam futebol com ele? E depois eles os levava para trás das igrejas e dos vestiários e os estuprava repetidamente?

O garoto menor soltou um arquejo de espanto e medo. Ele começou a chorar. O do meio foi confortá-lo. O maior lançou-lhe um olhar frio, embora também cheio de pavor.

— Agora eu quero que prestem mais atenção ainda — sussurrou com uma voz macia como um travesseiro de penas de pavão. — Daqui a alguns minutos, um rapaz de cabelos e olhos dourados chamado Edric Autumn virá aqui. Vocês estarão aqui, nessa gangorra, esperando por ele. Ele virá falar com vocês, mas pensará que vocês não o conhecem. Fará perguntas sobre Lafferty. Perguntará se vocês o conheceram. Digam que sim. Perguntará o que acham dele. Dirão que não faz falta. Você, maiorzinho, pode fazer isso. É mais frio que esses outros dois. O que eu quero é que vocês deem indícios das coisas terríveis que o Padre Lafferty fazia, mas sem falar que ele as fazia. Sejam bem sutis.

— Por quê? — ele perguntou.

Melchior na verdade queria testar Autumn para saber se ele era realmente bom resolvendo enigmas. Fazer os garotos dizerem a verdade de repente estragaria tudo. Autumn teria a resposta, mas nenhuma prova. Afastar-se-ia de Nicholas após perceber que a família Hentz matara Lafferty e eles logo culpariam Melchior — apesar de não terem provas —, de terem-no incitado a descobrir a verdade. Melchior seria exilado e eles continuariam no topo. Não, as coisas teriam que ser feitas com paciência.

— Porque estou mandando.

— Por que te obedeceríamos?

— Além de eu espalhar como o Padre Lafferty fez de vocês as namoradas deles?

O garoto menor chorou um pouco mais alto. Melchior aproximou seu rosto das barras de metal enferrujado e puxou aquele garoto maior pela camisa com força, fazendo-o chocar-se na grade. Tirou um canivete pequeno do bolso e encostou na garganta dele.

Façam o que eu digo ou não haverá deus na Terra que me impedirá de voltar aqui e cortas as gargantas brancas de vocês.

Afastou-se deles pensando no quanto aquele encontro fora agradável. Tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu um. O gosto estava bom até ele ver que era da marca Hentz.

Autumn chegou pouco depois que ele saiu. Escondido na esquina do final da rua, Melchior observou os garotos conversarem hostilmente com ele e então irem embora. Ele ficou lá, parado e frustrado, observando a frente da Escola Antoniette por tanto tempo que quase viu Melchior quando se virou para ir embora. Provavelmente seguiu até onde ele estava, mas a esta altura o manipulador de marionetes já havia escapulido de sua marionete num táxi.

Estava quase tudo acabado. Só faltavam duas coisas.

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A primeira era esperar o telefonema de Autumn para a Escola St. Emanuelle. Isso era uma questão de paciência, mas a verdade é que Melchior só precisou esperar até a ensolarada segunda-feira. Ou Autumn era mais impaciente do que parecia ou havia desvendado o mistério com mais facilidade do que Melchior esperava.

A coisa mais emocionante foi invadir a Escola St. Nicholas num dia de semana, durante a tarde. Teve a ajuda de um de seus passarinhos para isso e de outro para conseguir a chave do quarto 11-E. Ele ficou do lado de fora, suando nervosamente, enquanto Melchior movia sua peça pela última vez no tabuleiro daquela luta por poder.

Autumn e Spring estavam fazendo as atividades extracurriculares no momento.

A primeira coisa que fez foi revirar as camas. Não poupou lençóis ou travesseiros, rasgando-os ao meio várias vezes, aquele som gostoso de rasgo varando o ar monótono do quarto. Virou o frigobar cuidadosamente no chão; abriu o armário, atirou as roupas para fora e rasgou os sobretudos; fez o que pode no banheiro também.

Quando terminou, estava molhado de suor, tanto que despiu o próprio sobretudo. Quando olhou para o frigobar, viu uma caixa de primeiros-socorros cheia de remédios com tarjas pretas e assustadoras. Os nomes lhe foram familiares. Ele mal podia acreditar. Um deles realmente tinha aquela doença? Perguntou-se qual. Talvez o jeito quieto de Autumn escondesse algo mais. Talvez a amabilidade de Spring tivesse uma nódoa negra.

Rearrumou os remédios cuidadosamente em cima da mesa na ordem em que deviam ser tomados e pôs o telefone fixo do quarto ao lado. Autumn precisaria dele.

Tirou o celular roubado de Ethan do bolso e checou novamente as fotos que implantara nele, as fotos que tirara com o próprio celular no dia do assassinato de Lafferty. É claro que não se enojara tanto com aquele ato que se esquecera de tomar proveito dele. As fotos não mostravam ninguém, apenas o vestiário e o corpo de Lafferty lá no fundo. Mas o celular era de Ethan e uma foto dele estampava o papel de parede.

Pegou uma caneta e um pedaço de papel e escreveu:

O celular caiu da mochila de Nicholas.

Você o guardou até que pudesse devolver.

E então achou isto.

Que azar!

Não importava o motivo de o celular de Ethan estar na mochila de Nicholas. Autumn ainda precisaria de uma ajudinha. Só esperava que ele fosse inteligente o suficiente para se livrar daquele bilhete quando o lesse.

Quando saiu do quarto, seu passarinho que vigiava a saída soltou um suspiro de alívio.

— Você nunca me viu aqui — sussurrou a ele. — Eu nunca vim a este internato. Nunca entrei nesse quarto.

— Eu já entendi. Quando é que você vai me pagar?

— Quando tudo estiver acabado. Falta pouco. Agora me tire deste manicômio.

Não mentira quando disse que faltava pouco. Tudo o que restava era esperar a cabeça de Autumn funcionar. Naquela noite, Melchior foi dormir feliz, principalmente após saber que Robb dormiria fora, provavelmente com Ethan. Estava sozinho pela primeira vez em muitos dias. Precisava organizar seus pensamentos e decidir seus próximos passos.

Tudo estava calmo e escuro até que a porta se abriu sorrateiramente. Melchior conhecia todos os modos de abrir a porta de seus irmãos e primos, de modo que percebeu que Daemon estava em seu quarto. Foi levado a vários meses atrás, no ano passado, quando era Marco quem estava ali, ameaçando-o.

— Entre — disse de olhos fechados, virado de costas para a porta. — Feche a porta.

Daemon obedeceu, subiu na cama e se enrolou no lençol. O quarto estava frio como uma tumba.

— Que faz aqui? — indagou virando-se para ele. Seus cabelos castanhos tinham um brilho espectral quando banhados pela luz da lua, quase… cinzentos. E seus olhos azul-cobalto estavam levemente arregalados, as pupilas dilatadas como duas poças de petróleo.

— Precisava de motivo? — ele indagou.

— Você sempre precisa de motivo para fazer qualquer coisa. Você é um Chioren, aja como tal. — Apesar de gostar de Daemon com um carinho especial, não podia de forma alguma deixá-lo descobrir que era o favorito, ou o resultado seria desastroso. Aprendera isso com Marco. E a verdade é que Daemon era fraco. Se Melchior quisesse que ele sobrevivesse na selva que era a sociedade humana, precisaria obrigá-lo a levantar a cabeça e a encarar os próprios problemas, ou nunca teria capacidade de fazer por si próprio.

Ele não respondeu. Também parou de fitá-lo. Melchior imaginou que estivesse magoado, por isso o abraçou. Daemon soltou um suspiro, agarrou as costas de sua camiseta e pressionou o corpo contra o do irmão, soltando um gemido.

— Tire a roupa — o mais velho sussurrou. Mal tinha terminado de falar, Daemon já estava arrancando a cueca, meio desesperado para Melchior fazer o mesmo. Deixou-se ser despido com uma letargia quase cruel.

— Melchior — ele sussurrou. — Você pode parar de se fingir de morto e me ajudar aqui?

— Tenho absoluta certeza de que você pode me despir por si só, querido Daemon.

Sua voz rouca e sussurrante arrepiou o menor de cima a baixo. Ele mordeu o lábio inferior e gemeu apenas com a visão do irmão nu, deitado preguiçosamente na cama como um felino completamente despelado. Os olhos de Melchior estavam cor-de-rosa e meigos, chamando-o silenciosamente.

Daemon agarrou seu membro com força entre os dedos, fazendo o maior quase pular da cama, tanto de susto quanto de prazer. Ele não esperou Melchior se acalmar e seu coração parar de palpitar, simplesmente colocou-o na boca e começou a chupar. Melchior teve a impressão de que aquilo era para puni-lo. Era tenebrosamente excitante.

— Onde você aprendeu a fazer isso? — indagou a Daemon. Ele apenas o fitou.

— Na internet, como qualquer pré-adolescente.

Daemon se separou dele e sentou-se em seu colo, puxando-o para beijá-lo. Melchior deixou-se levar, mas agarrou o corpo nu do garoto e o apertou contra si, sentindo a carne macia das nádegas entre seus dedos, seus abdomens se encostando.

— O que você quer fazer comigo? — perguntou ao menor quando ambos se separaram. Daemon estava num frenesi de excitação, sem acreditar que aquilo estava acontecendo. Queria lamber cada centímetro da pele de Melchior, assim como queria ficar apenas deitado ao lado dele, os dois abraçados. Acabou decidindo pela primeira opção, como todo bom garoto de onze anos com os hormônios à flor da pele o faria.

No seguinte momento, Daemon estava sobre Melchior, que voltara a se deitar, beijando sua boca, chupando sua língua faminta com seus lábios também famintos, mordiscando o pescoço branco e já cheio de marcas. Adorava passar a língua pelos lábios compridos dele e sentir sua doçura.

— Quantas vezes você já fez isso? — indagou ao irmão, ao passo que Melchior apenas sorriu misteriosamente e respondeu em voz sussurrante:

— Mais do que você pode imaginar, meu querido. Continue.

De quatro sobre ele, Daemon começou a engatinhar da boca ao pescoço, depois passou para os mamilos e os braços, onde chupou, mordeu e lambeu a carne branca de seus músculos com uma curiosidade excitante. Era engraçado ver como se tornara subitamente ousado e atrevido, diferente do garoto tímido de antes.

Daemon levantou suas pernas e mordeu a parte interior de suas coxas com vontade, enlouquecendo-o lentamente com aquela língua pequena e esguia. Foi afundando cada vez mais o rosto ali, beijando-o e lambendo-o por trás. Melchior se contorcia de prazer com aquela umidade entre as pernas; as unhas curtas deslizando pela pele branca, famintas.

Daemon deitou-se em cima de Melchior, que abraçou-o com as duas pernas, e empurrou o quadril contra sua abertura, tentando penetrá-lo. Os dois sabiam que ele não conseguiria, mas o movimento pélvico era excitante o suficiente para que ambos sentissem prazer. Melchior começou a se masturbar e forçou Daemon a beijar seus mamilos e a mordiscá-los.

Ele gozou logo, assim como o irmão mais velho. O gemido dos dois foi sincronizado, assim como o orgasmo. Melchior se levantou e caminhou até o banheiro, entrou no Box e fez um sinal para o menor acompanhá-lo. Os dois tomaram um banho juntos, abraçados e se beijando com vontade.

— Não conte a ninguém — sussurrou a ele.

— Está bem — ele respondeu. — Amanhã eu contarei à mãe… sobre mim. Sobre por que eu não quero voltar à Minerva. Você vai esta comigo?

— É claro que sim. — Beijou suas pálpebras. As duas. — Sempre.

Finalmente dormiu com ele. Seu plano estava quase completo. Só faltava uma coisa.

Naquela manhã, Melchior foi acordado pelo som de Robb entrando no quarto. Deu graças a Deus de ele e Daemon estarem vestidos, apesar de dormindo na mesma cama. Ele não suspeitaria de nada, felizmente. Era estúpido demais para isso.

— Olá — disse-lhe, sentando-se sonolento na cama. Não deviam ser nem cinco horas da manhã. — Você chegou cedo. Ou muito tarde. Divertiu-se?

Esperava que ele não encarasse seu tom como cínico. Robb sentou-se na cama de baixo da beliche e pôs-se a observá-lo com suspeita. Ethan provavelmente dissera-lhe que tudo o que Melchior dizia continha alguma zombaria escondida. O imbecil nem sabia que aquele outro imbecil não tinha capacidade de discerni-la.

— Sim — ele respondeu.

Melchior ia dizer algo, mas hesitou propositalmente, mordendo o lábio. Olhou para Robb e depois para baixo. Forçou os olhos a encherem-se de lágrimas. Funcionou.

— Me desculpe — sussurrou, a voz tremendo. — Por te tratar tão mal. Você é uma boa pessoa, não merece isso. Desculpe-me por te obrigar a ficar aqui e a ir à Academia Alphonse Enoi ano passado. E a entrar na Anhert esse ano. Desculpe-me. Eu não sei por que eu sou assim, por que eu faço essas coisas. Eu… só preciso fazê-las. Mas prometo que eu não farei mais nada que envolva você, está bem? Só me perdoe.

Robb estava tão chocado que nem percebeu que todas as coisas que Melchior mandou-lhe fazer só lhe trouxeram coisas boas. Ficando em Middleland, ele perdeu a virgindade, tanto com garotas, quanto com garotos. Entrando na Anhert, ele conheceu Ethan Lemnsack. Tudo graças ao maravilhoso Melchior.

— T-Tudo bem. — Ele se aproximou do primo e colocou o braço em seus ombros, puxando-o para junto de si. Melchior percebeu que ele ainda adorava o cheiro de seu cabelo. — Não precisa se desculpar. Eu perdoo você.

Sorriu da forma mais sincera que conseguiu. Foi o suficiente.

— Quero te dar uma coisa. — Levantou-se e olhou pela janela. Ainda estava escuro lá fora. — Você sabia que o nascer do sol de Middleland visto de cima do penhasco Alta Vista foi considerado um dos dez cenários naturais mais bonitos da Califórnia? — Aquilo era mentira, mas ele não teria como saber. — Só que ninguém nunca vê porque o penhasco não é aberto a essa hora da manhã. No entanto, não existe fiscalização lá em cima. O que você acha de irmos agora mesmo e assistirmos ao nascer do sol juntos? Só você e eu?

Precisou de um pouco mais para convencê-lo disso, mas acabou conseguindo.

Os dois pegaram emprestado o carro do pai de Melchior para fazer seu trajeto secreto. Apesar de não dirigir, Melchior tinha carteira de motorista, embora parecesse uma criança que cresceu demais, ao invés de um adolescente que cresceu de menos. Felizmente, não havia quase ninguém nas ruas, muito menos alguém que pudesse pará-los.

Melchior seguiu na direção nordeste sem parar até finalmente deixar a metrópole e entrar nos campos de Middleland por uma estradinha empoeirada. Passou por quilômetros e mais quilômetros de fazendas, todas ironicamente pertencentes a Ethan. Ele provavelmente destruiria tudo aquilo. Em alguns anos, aquela paisagem monótona seria substituída por um muro colossalmente comprido e, lá no fundo, haveria uma casa tão absurdamente grande quanto o Palácio Real Hentz.

Chegaram ao topo do Alta Vista poucos minutos antes de amanhecer. Toda a borda era cercada, exceto a parte que os carros usavam para subir e descer. Em uma extremidade, havia uma espécie de casinha, mas não era realmente uma casa. Se se atravessasse as roletas, dar-se-ia com andaimes parecidos com aqueles que se usam para lavar o exterior das janelas dos prédios altos demais. Pagava-se para descer por um deles com um instrutor.

Melchior estacionou e seguiu até o lugar com Robb em seu encalço. O céu estava azul-purpúreo e com poucas nuvens, e ventava como se Deus estivesse assoprando para expulsar os dois dali de cima.

Os andaimes estavam estacionados, como de praxe. Melchior achou a caixa de força e puxou uma das alavancas para cima. Os controles do segundo andaime começaram a piscar.

— Tem certeza que é seguro? — Robb indagou. Melchior sorriu. Pulou pela grade e parou bem em cima do andaime. O primo o seguiu. O menor já tinha visto aquelas coisas funcionando, de forma que os fez descerem cinco, seis, dez metros sem dificuldade.

No horizonte, o céu ainda estava escuro.

— Onde está o sol? — Robb indagou curioso.

— Do outro lado — respondeu Melchior. — Estamos no oeste, e ele nasce no leste.

Sem que ele visse, Melchior havia aberto a portinha e a deixara encostada. Quando Robb se virou para encará-lo, Melchior o empurrou. Robb deu alguns passos para trás e encostou-se na portinha… mas ela se abriu e ele ia despencar para trás, mas o menor segurou-o pela gola da camisa. Gritando, Robb agarrou seu braço. Melchior era a única coisa que o impedia de despencar mais de trezentos metros até o chão.

— Você me decepcionou muito — disse-lhe. Robb gritou novamente e tentou puxar-se para cima, mas Melchior ameaçou soltá-lo e ele se aquietou. Apoiava-se no andaime com os pés, mas todo o resto do corpo estava inclinado para fora. — Deveria ter sido mais inteligente. Você realmente chegou a pensar por um só momento que Ethan é mais forte que eu? Que ele poderia protegê-lo da minha ira?

— N-Não! — ele gritou. Parecia querer chorar. Os cabelos castanhos embaraçavam-se na frente do cabelo, mas ele não tinha braços para arrumá-lo. — E-Eu só fiz o que você mandou! — Então realmente começou a chorar. — Eu… sempre fiz o que você mandou! Por favor… por favor, não me solte. Eu só fiz o que você mandou…!

— Eu sei — Melchior sussurrou. Os olhos do primo estavam marejados de lágrimas. Aquilo era tão engraçado. Ele queria desesperadamente viver. Então puxou o braço violentamente para trás, e quando Robb veio com ele, tornou a empurrá-lo da mesma forma com a perna. — Mas não fez direito.

Melchior observou seu belo primo despencar rumo ao nada. Trinta e três segundos demoraram para ele atingir o chão, e quando ele o fez, soltou um grande suspiro de alívio. Só então percebeu que ele estivera tão chocado que esqueceu-se de gritar enquanto caía.

Seu plano estava completo.

Barulho lá em cima. Funcionários chegando. Ótimo.

Melchior juntou todo o ar que tinha nos pulmões e soltou o grito mais desesperado que um ser humano poderia jamais soltar.

ME… ME AJUDEM! MEU PRIMO CAIU DO ANDAIME!

Notas finais
RIP Robb Thanathos 1999-2014 Foi uma dor no coração matar esse personagem. >: Quem precisa de Walter White quando se tem Melchior? :3 Sério, está todo mundo proibido de achar Ethan um monstro depois de ler esse capítulo. Ele não é nada comparado a o que o Melchior sem Melon pode fazer. O próximo capítulo é o último e então só sobra o epílogo. Beijoss. :3