Notas iniciais
Yoo, aqui está.

[…] And you're gonna hear me roar

Louder, louder than a lion

Cause I am a champion

and you're gonna hear me roar.

You're gonna hear me roar.

(Roar

— Katy Perry)

I am so fab, check it out.

I’m blonde, I’m skinny,

I’m rich and I’m a little bit of a bitch.

(Donatella

— Lady Gaga)

OoO

Tudo, absolutamente tudo dera errado.

Por onde começara? Provavelmente quando Nicholas nascera. Se não tivesse nascido, Lafferty nunca o teria estuprado, Ethan nunca o teria assassinado e agora toda a família Hentz e mais um punhado de gente não estaria à beira de um abismo. Mas o que poderia se esperar de uma pessoa que não nascera para ser feliz?

Talvez o efeito borboleta que se seguiria após seu não nascimento pudesse fazer Mary Alice Hentz mudar de ideia sobre a destruição da Kruger-Vorheel e a dinastia Hentz ainda teria todo o vigor que conquistara no século XX, ao invés de ter de conquistar tudo de novo sob as mãos competentes de Ethan Lemnsack, aquele que a revista americana The New York Times elegera como o jovem empresário mais promissor de 2014, aquele que detinha 98% das ações de uma empresa que valorizara quase 1000% em menos de um ano. Quem investira um dólar na Anhert, Inc. em agosto do ano passado possuía mil dólares agora.

Mas é claro que ele nascera, e para quê? Para quase se desmanchar em suor de nervosismo ao fugir da Escola St. Nicholas numa grande limusine como se estivesse fugindo de uma ditadura militar, como um grande covarde. Ethan iria querer seu coração servido numa bandeja por aquilo. Quando a imprensa procurasse sua supercelebridade adolescente favorita e descobrisse que ele fora embora da escola antes de a merda vir à tona, ficaria tudo óbvio demais.

É claro que ninguém diria aquilo em voz alta, mas Deus, o que pensariam! O que Spring diria? E Summer, que tinha todos os motivos do mundo para odiar Nick? E Autumn, que era silenciosamente inteligente? A única diferença entre ele e Melchior era que ele não costumava revelar absolutamente nada que pensava.

E nada sobraria a Nick a não ser usar todo o cinismo que seus infelizes quinze anos de vida lhe proporcionaram na próxima coletiva de imprensa.

Estou profundamente chocado pelo assassinato do Padre Lafferty Winter, que arda eternamente no inferno.

Não era à toa que era um ator tão absurdamente bom — sem nenhuma modéstia. Se não conseguisse convencer o país de sua inocência, provavelmente poderia dizer adeus ao resto de sua vida. Mesmo que ele não tivesse cometido o assassinato e sim Ethan, omitira o fato de que sabia dele. E se Ethan fosse preso? Nick ainda era menor de idade. Deus, todo o inferno que tivera que passar há dois anos de novo, não! Não suportaria a humilhação pela qual a família Hentz passaria.

O grito que ouvira de um dos trabalhadores da obra ainda ecoava por seus ouvidos, quase ressonando na safira de sua orelha esquerda como um sussurro sinistro.

A notícia de que Ethan comprara aquela pequena construtora que deveria fazer as mudanças no vestiário, a Bridget & Construções, e ordenara a paralisação de suas atividades fora aliviante. Resolvera tudo, como ele prometera que faria. Nick nunca dissera a ninguém, mas provavelmente a ocasião em que mais desejava Ethan sexualmente era quando ele dava indícios desse poder desumano que detinha nas mãos jovens e ambiciosas.

Que poderia fazer? Eles gostavam disso, os irmãos Hentz. Poder, dinheiro, ostentação. Devia ser genético. Se eu mandei-lhes parar, parem imediatamente.

Naquela fatídica manhã, Nick ouvira em pessoa o representante da Anhert erguer a voz enquanto lia uma declaração em papel como se aquilo fosse um decreto real para uma execução em praça pública. Havia um bom tempo que Nicholas pusera na cabeça a ideia de unir a família Hentz com a Casa de Walker, a Casa Real reinante na Califórnia. A ideia toda não era tão absurda assim, era? A irmã mais nova de Senn tinha a idade de Lorenzo.

Mas toda a burocracia envolvida na antiga administração da Bridget & Construções fez a paralisação demorar mais que o esperado, pois eles se recusaram a parar enquanto Bridget Warhen não desse sinais de vida. Serviam apenas a ela, como se fosse a Senhora de um feudo.

Nick sabia que Ethan estava tendo algumas reuniões importantes com a família Goldenschild ou qualquer outra cujo capital fosse superior aos bilhões e aparentemente não tinha tempo para aquilo, como se o botão que apertara e o contrato que assinara tivessem resolvido todo o problema, como tivessem removido o corpo de Lafferty dali, mas não tinham! O maldito arrogante nem pensara nisso?

Tentara falar com ele por telefone quando viu o grupo de operários perigosamente perto da massa cinzenta que encobria Lafferty, mas quando percebeu que o irmão simplesmente ignorara seus apelos, sentira algo quebrando dentro de si. Ele era a única pessoa do planeta que usava as mensagens prontas do celular.

Não posso atender. Estou em reunião.

Nick recebera essa mensagem mais ou menos no mesmo momento em que a pá de um dos trabalhadores quebrou aquela crosta de cimento curiosamente oca.

E então o grito. Um grito curto, masculino e abismado que rasgou o ar como um chicote que se estatelava bem na cabeça de Nicholas Hentz, um som crescente de pânico mais contagioso que um germe que varou a quietude solene da Escola St. Nicholas como uma foice desembestada, como a campainha de alarme de uma ambulância, como Deus descendo do céu para anunciar o arrebatamento e o Juízo Final. Não foi muito diferente de A corte declara o réu culpado.

Quando aquele grito ergueu-se como um cogumelo nuclear, Nick sentiu todo o ar sendo expulso de seus pulmões, como se fosse ele quem estivesse gritando até ficar vermelho. Porque o mundo estava desmoronando.

E agora a limusine corria como uma cobra através das entranhas de Middleland. Nick nunca havia percebido como aquela cidade era bonita, até mesmo a área mais periférica. Como uma Nova Iorque empobrecida dos anos 80, as paredes de tijolos vermelhos dos edifícios de apartamentos minúsculos sob os viadutos eram estranhamente adoráveis, assim como as praças malcuidadas com as árvores desfolhando, o que era estranho porque estavam no verão.

Sentia vontade de comprar um daqueles prédios vagabundos perto do metrô, mandar demolir tudo por dentro e fazer uma grande casa. Arquitetonicamente, aquilo era impossível. Mas que custava sonhar?

O Palácio Real Hentz parecia sinistro àquele dia, e mesmo que ainda fosse de manhã cedo as nuvens estavam cinzentas e carregadas, transformando aquele titã de ferro e aço incrustado numa selva de pedra numa coisa selvagem e animalesca. Há muito que Nick aprendera a transformar a tristeza em raiva para não se machucar por dentro. Subiu os noventa e cinco andares dentro de um cubículo de aço indestrutível com os punhos cerrados.

Ethan estava, como não podia deixar de ser, no escritório. Ficava tão bonito naquele fraque que Nick sentiu vontade de comê-lo ali mesmo, mas deixou isso de lado quando se lembrou dos grandes olhos verdes e incompreendidos de Spring perguntando-lhe aonde ia, e distanciando-se cada vez mais sem nenhuma explicação.

— Não deu certo — disse-lhe. Pensou que sua simples, mas fabulosa, visão ali, com o uniforme da St. Nicholas, seria suficiente para fazê-lo notar sobre o que estava falando, mas o olhar que Ethan deu quase partiu o coração de Nick ao meio. Era um olhar estranho e levemente impaciente, como se eles fossem dois estranhos e Nick estivesse interrompendo o irmão desnecessariamente.

— O que não deu certo?

Rapidamente, arrancou-lhe da escrivaninha e fê-lo sentar-se numa das poltronas de couro; aquela perto da grande janela que rugia um brilho prateado e chuvoso. Uma fina garoa começava a derramar-se lá fora.

— Acharam ele, Ethan Lemnsack. Acharam o corpo do Padre Lafferty Winter.

Nick estava olhando para seus olhos quando dissera isso, e viu algo mudar neles. Uma luz, talvez. Já vira alguma luz ser refletida ali, naquela negritude? Talvez fosse apenas uma ilusão de ótica causada pelo vidro da janela, mas que sentido tinha aquilo?

Ou talvez fossem suas próprias lágrimas que escorriam pelas bochechas. Qual a última vez que chorara com a voz também? Ultimamente toda a sua tristeza resumia-se naquelas gotas gordas e salgadas que engravidavam em seus olhos negros e faleciam no queixo.

— Que droga, Ethan! Por que está fazendo isso comigo? Por que está me esquecendo? Por que está me dando tudo o que eu peço e me jogando para lá com a certeza de que estou bem? É assim que os pais ausentes agem, e você sempre se orgulhou de ser diferente deles. Você sempre foi o Ethan por dedicar tanto tempo à sua família, e olhe para você agora! No topo de um arranha-céu, de terno e Rolex ganhando alguns milhões de dólares enquanto eu fico manhã e tarde na escola, longe de você. Qual a última vez que eu, você ou Lorenzo fizemos algo juntos? Ele também está se distanciando, mas você não vê isso! Nós três somos ligados pelo sangue e agimos como estranhos na nossa própria casa. A família Hentz está desmoronando e você não está vendo isso!

Ethan o olhava com as sobrancelhas franzidas e a boca levemente aberta, como se nunca alguém tivesse se dirigido a ele daquela maneira. Mas não foi isso. Foi o que Nick dissera que o pusera naquele estado. Inconscientemente, um leve estado de orgulho apoderou-se do menor por causa daquilo.

— Video et taceo — Ethan sussurrou, mais a si mesmo que a Nick.

— Mas o que significa isso?

— Significa que eu preciso dar alguns telefonemas.

O primeiro telefonema que Ethan deu foi para a Academia Alphonse Enoi, pedindo para liberarem Lorenzo àquela manhã. Nick pensou que Ethan diria que surgiu um problema urgente para ser resolvido, mas aquilo seria burrice. Se alguém investigasse a família em busca de provas sobre o assassinato, aquilo poderia servir como prova circunstancial.

Ao invés disso, dissera que seu irmão Nicholas tivera um problema de saúde e necessitava da família ao lado. Ethan mandaria um carro buscar Lorenzo, então se a escola tivesse a bondade de enviar alguém para esperar com ele no portão, seria bom. É claro que aquela explicação condizia perfeitamente com a saída súbita de Nick da escola há menos de uma hora.

— Quando foi à escola, você subitamente lembrou que esqueceu de tomar seus antidepressivos — disse Ethan enquanto discava outro número. — Como sabe que precisa tomá-los ou pode ficar agressivo e por demasiado antissocial, você largou tudo para voltar para casa o mais rápido possível e tomá-los, mas eles haviam acabado. Você ficou tão desesperado que se enclausurou em seu quarto o resto da manhã enquanto eu pedia a um assistente que fosse à farmácia mais próxima. Decidi então chamar Lorenzo para ele ficasse com você, pois eu estava… ocupado demais.

Ethan voltou-se então ao telefone:

— Laurent? Sim, poderia ir à farmácia mais próxima? Preciso de alguns medicamentos. Sim, sim, isso. Robb Thanathos lhe enviará a receita em quinze minutos. Use o carro. Quando voltar, peça que ele me entregue. Obrigado.

Então desligou. Olhou para Nick sem realmente vê-lo. Após alguns segundos pensando, discou outro número no telefone.

— Amy. Sim, sou eu. Preciso que venha ao Palácio imediatamente. Largue qualquer coisa que estiver fazendo para isso, mas aja como se fosse algo sem importância. De forma alguma demonstre alarde. Chegue discretamente e pegue o elevador privativo da família Hentz. Vá a nonagésimo quinto andar e eu autorizarei sua subida. O mínimo de pessoas possível deve vê-la.

Ele desligou e então falou de novo, mas foi bem mais sucinto:

— Melchior. Descoberto. Vestiário. Palácio. Elevador privativo. Discrição. Agora.

E por último mais uma vez, firme e autoritário:

— Robb, venha aqui agora.

Ethan levantou-se e aproximou-se de Nick. Puxou-o pela cintura e deu-lhe um beijo nos lábios, empurrando-os com leveza com a língua. Enquanto os dois órgãos entrelaçavam-se na boca um do outro, Ethan apertou sua cintura e Nick, seu pescoço.

— Vá ao quarto — disse separando-se. — Preciso falar com Robb e no futuro ele deve pensar que você está enclausurado. Quando os outros chegarem, chamo você. Prometo.

Nick deixou o grande escritório pelo corredor e atravessou uma infinidade de quartos até chegar ao do elevador privativo. Desceu até o andar noventa e quatro e foi ao próprio quarto. Era grande, moderno, arejado e cheio de luz, com móveis clássicos e contemporâneos, com uma televisão gigantesca na parede, um aquário do tamanho de uma pista de boliche e um armário cheio de roupas caras, como todo quarto de adolescente deve ser. Talvez devesse pedir para armarem uma grande estante iluminada para guardar todos os prêmios Emmy que ganharia no futuro.

Mas já havia uma espécie de consolação. Num canto de uma larga estante de livros que Ethan esperava que Nick ainda lesse, havia uma estatueta antiga e dourada de um homem com pouco mais de trinta centímetros prostrado em cima de um pedestal preto. Não havia inscrição alguma, mas Ethan já lhe contara o que era.

Em 1938, sua bisavó paterna, Doreah Lemnsack, que havia sido amante de Olannis Olrwen e com ele gerado três filhos bastardos ainda estando solteira, ganhou um prêmio Oscar de Melhor Atriz pelo papel que desempenhara num filme preto e branco chamado Às Sombras de Edgar. Como Nick não teria paciência de assisti-lo, obrigou Ethan a contar que o filme acompanhava o drama de um homem que traia a esposa boazinha com sua secretária agressivamente sexy e feminista.

A secretária fora interpretada por ninguém menos que Doreah. Ainda eram polêmicas as indagações sobre de onde surgira a inspiração para o filme, mas era mais que óbvio para Nick. Olda Ovanosi, que era a esposa oficial de Olannis e mãe de seus sete filhos, era conhecida por ser uma criatura frágil e meiga, que sempre vivera sob a sombra da irmã Letricia, esposa de John Daniel. Irmãs que desposaram meios-irmãos. O resultado daquilo tudo era que Charles Lemnsack e Mary Alice Hentz foram primos de terceiro grau — e provavelmente nem souberam disso.

Havia uma mistura tão grande de sangue naquilo tudo que era incrível que ninguém na família Hentz ou Lemnsack tivesse nascido retardado mentalmente. O mais engraçado era que seu avô Orchild nascera naquele mesmo ano, 1938. E pensar que ele havia sido senador pela Califórnia, mas morrera um ano antes de Ethan nascer.

Doreah, que morrera no início dos anos 80, estava sepultada num cemitério em Hollywood destinado apenas às estrelas do cinema. Assim como a Dama Prateada, fora então considerada uma das mais belas atrizes de cinema do século XX. Nick ainda tinha que visitá-la um dia. Talvez ficasse em Hollywood. Mas esses eram pensamentos para depois, para uma segunda fase de sua vida.

Durante meia hora, Nicholas sentou-se num dos descansos da varanda de tijolos vermelhos e pôs-se a observar a chuvinha que lavava as ruas sujas de Middleland. Spring estava na escola, perguntando-se onde ele estava? Ou será que eles mandaram todo mundo para casa ao descobrirem o corpo? E falando nisso, será que estava mesmo só o esqueleto ou ainda havia carne putrefata?

E os mexericos, os murmúrios dos alunos, deuses, eram mais venenosos que um inquérito policial. Será que eles sabiam? Nicholas não fora ao futebol na noite em que ele sumiu. Será que o mataram? Eles podiam ter feito isso. Por que fariam? Mas quem se importa? Nick não gostava de admitir, mas não suportava que as pessoas falassem dele pelas costas. Por isso sentia tanta necessidade de ser amado, de ser carismático, de ser perfeito numa terra selvagem de jovens que necessitavam adorar a algo.

Uma batida na porta. Nick abriu-a para se deparar com uma criança de cabelos muito negros, pele muito branca e olhos muito cinzentos. Apesar disso, ele era muito baixo e muito adorável, e sua voz era muito fina e muito rouca, e seu sotaque era muito forte. Por que tudo em Lorenzo tinha que ser demais?

— A quem agradeço por ter saído da escola mais cedo? — ele indagou com curiosidade. — Acho que Ethan formou o plano, mas ainda sinto um toque seu nele. Vamos à sala de reuniões. Já está todo mundo aqui.

Enquanto caminhavam pelos salões de tijolo e cimento do Palácio para um andar acima, na ala oeste do andar, onde a sala de reuniões estava, Lore passou o braço pela cintura de Nick e encostou o corpo nele, mais para confortá-lo do que para qualquer outra coisa.

Quando o conhecera, Lorenzo Barcarolli era um pequeno lorde italiano de corte de cabelo impecável, que não falava inglês e que quase nunca sorria. Agora ele era um príncipe californiano com os cabelos bagunçados, que falava com um sotaque terrivelmente forte e que só sorria para zombar. Sinceramente, não sabia qual era o pior.

Pararam então em frente a uma larga porta de mogno ao final de um corredor marrom e dourado longo com várias pinturas antigas numa das paredes e janelas meio abertas na outra.

— Aconteça o que acontecer — sussurrou o menor para Nick, puxando-o delicadamente para mais perto de si. — Saiba que eu te amo.

Nick pensou que ele fosse lhe dar um beijo na bochecha, mas logo sentiu a maciez dos lábios de Lorenzo nos seus próprios, molhados e quentes. Por um segundo, não soube o que ele fazia; pensou até que ele tivesse errado o alvo, mas quantas vezes isso já acontecera? Nunca. O beijo perdurou por tempo suficiente para que Lorenzo corrigisse o erro, mas ele não corrigiu.

Beijou-o por cinco segundos nos lábios e pelo visto adorou aquilo, pois quando se separaram havia um sorriso sinistro tanto em seus lábios quanto em seus olhos.

Foi ele quem abriu as portas, parando a discussão que se iniciara.

A sala era ampla, retangular, moderna, quase que completamente cinza, com algumas poltronas e sofás de descanso numa das extremidades e várias janelas na outra. Havia uma longa mesa de vidro temperado de dezoito lugares — oito de cada lado e dois nas cabeceiras. Ethan estava numa ponta e Melchior estava na outra, e ambos pareciam ter vontade de arrancar a língua do outro com um ferro quente.

O ambiente estava elétrico e instável como um circuito. Amy Bellafonte estava no meio da mesa, na quarta cadeira da esquerda, parecendo terrivelmente entediada. De novo, sua expressão estava diferente da normalmente meiga com a qual Nick estava acostumado. Os cabelos loiros emolduravam os olhos azuis como o anjo de uma pintura realista e deprimente de Bouguereau.

Nick sentou-se bem em frente a ela. Lorenzo sentou-se a seu lado e pousou uma das mãos sobre seu joelho. Aquele toque fez Nick se sentir absurdamente culpado.

— Muito bem — Ethan declarou numa voz sutilmente furiosa. Era claro que a estava usando muito antes de Nick chegar. Perguntou-se o que Amy teria ouvido. — Estamos todos aqui. Vamos decidir o que fazer.

Gabriel não está, Nick pensou, mas seria algo cruel a se dizer.

— Por que não decidimos o que você deveria ter feito? — indagou Melchior venenosamente. Empinou-se como uma víbora na cadeira e sibilou: — Era tão fácil comprar a Bridget & Construções e ordenar que parassem as obras, não era, Ethan? Bastava emitir a ordem e esperar que os plebeus fizessem o resto, mas infelizmente não foi suficiente. Você pensava que depois de forçar Bridget Warhen a vender a empresa dela a você, ela facilitaria as coisas? Não creio que você possa ter sido tão ingênuo.

— Você também não ajudou muito — ele respondeu no mesmo tom. — Não quando começou a interrogar os parentes de Lafferty tão deliberadamente, como se isso nunca pudesse ser usado depois como prova circunstancial. Mas afinal, não é a sua liberdade e reputação que estão diretamente em jogo, não é? Que importa as consequências dos seus atos se elas não se voltarão contra você?

Melchior sorriu e meneou a cabeça para os lados, como quem presunçosamente diz É verdade, é verdade… Mas aquilo só serviu para inflamar a ira de Ethan.

— Seu psicopata nojento.

— Eu prefiro ser um psicopata a um assassino.

— Não duvido nada que não demorará a você se tornar os dois.

— Você quer comprovar isso?

— Calem a boca, vocês dois!

Quem gritou isso foi Amy, que se levantara da cadeira em que se sentava e agora olhava rispidamente para os dois nos extremos da mesa, como se fossem crianças brigando por um brinquedo barato em público. Sua súbita explosão surpreendera a todos ali, até a Nick. Era como se voltassem à noite do assassinato.

— Eu não me importo que um dia um mate o outro, mas não agora. — Olhou para Ethan. — Você não agiu como uma criança quando matou Lafferty Winter, então não aja agora. Sua família precisa de você.

Então ela se sentou, suspirou cansadamente e continuou:

— Sim, eles encontraram o corpo. Vai demorar um pouco até que estabeleçam a causa da morte, e quando isso acontecer e descobrirem que foi por um objeto cilíndrico de madeira com pouco menos de um quilo e sete centímetros de diâmetro que foi usado por alguém com mais ou menos um metro e sessenta e cinco centímetros de altura, sabem o que acontecerá? Nada, pois esse artefato não existe mais. Ethan o queimou. Não foi?

Ele assentiu.

— E apesar de existirem outras centenas de tacos de baseball na St. Nicholas, nenhum deles servirá como prova. Então a arma do crime está descartada. Eles provavelmente encontrarão o rastro de sangue no vestiário I e perceberão que ele foi assassinado ali antes de ser jogado na construção, mas isso também de pouco servirá, já que centenas de banhos já foram tomados ali desde então. Qualquer evidência física já foi através do ralo. Em outras palavras, tudo o que a polícia terá para achar um criminoso serão testemunhas.

— Oh, os lindos garotos da St. Nicholas que amam Nicholas Hentz — sussurrou Melchior com uma sugestão cínica de sorriso. — Voltaremos há meses atrás, quando na mesma noite em que você saiu da igreja correndo ao ver Lafferty, ele simplesmente desapareceu. A mesma noite em que você foi ao vestiário em que ele foi assassinado. Essas coisas serão difíceis de se explicar, mas você deve usar da sua oratória e carisma para convencer quem quer que pergunte. Pelo amor de Deus, não conte sempre a mesma história com as mesmas palavras, nem pareça desesperado para que acreditem.

Havia um tom quase condescendente em sua voz.

— Eu direi o que aconteceu — anunciou Ethan para todos àquela mesa com sua tradicional voz autoritária. — Na noite do dia 4 de fevereiro desse ano, Nicholas deveria ter jogado a partida de futebol contra a Casa Verde. Na igreja, enquanto ouvia o sermão do Padre Lafferty Winter, começou a sentir um ataque de ansiedade e saiu correndo, quase desesperado, mesmo que não tivesse motivo, pois isso é característica de ataque de ansiedade. Foi à arquibancada do ginásio I, pois era onde nós estávamos, e chorou nos meus braços por alguns segundos antes de se levantar, ir pegar sua mochila no vestiário, dar a volta no ginásio e nos encontrar na saída dele. Demoramos para sair da escola porque Lorenzo passou mal, apenas um mal-estar. Nada demais. Se alguém perguntar, é isso que devem dizer, embora eu creia que todos são inteligentes o suficiente para adaptar o texto às suas respectivas visões. Lorenzo pode explicar como passou mal, mas nenhum de nós pode fazer isso. Nick pode explicar como foi o ataque de ansiedade, enquanto nós só podemos dizer o que nós vimos. Estão todos entendendo? Estamos numa ponte de cordas em cima de um abismo sem fim, então que por favor ninguém vá balançá-la.

— O problema é que não depende apenas de nós — Lorenzo sussurrou. — Há o vento também. Pode ser que um dragão surja do abismo e nos engula.

— Mas isso não vai acontecer — disse Ethan, furtivamente olhando para Melchior.

Nick estava com medo com o que aquela imensa briga de egos podia aferir. Ethan tornara-se tão arrogante quanto Melchior, e algo em seu interior lhe dizia que ele não aceitaria ser posto para baixo daquela forma presunçosa. Queria avisar a Ethan para não contrariar alguém que não sabia bem se era inimigo ou amigo, mas sabia que ele o ignoraria. Era como se fosse novamente uma criança e ninguém lhe escutasse.

— Então está tudo decidido? — indagou Amy levantando-se. Ela olhou para Ethan. — E quanto a Gabriel Melnick?

Ethan se remexeu desconfortavelmente na cadeira.

— Ele está a milhares de quilômetros daqui. Não causará problemas.

— Ótimo — ela disse. Despediu-se dos outros e saiu da sala a passos largos, quase como se quisesse fugir de lá. Melchior foi o próximo a se levantar.

— Vou embora também — declarou. — Tenho que proteger minha família. Há muitos perigos por aí, às vezes ele está bem debaixo do nosso nariz.

Nick pensou que Ethan gostaria de ter quebrado o de Melchior enquanto ele deslizava viscosamente como uma víbora para fora do Palácio. Ele também estava atado àquela situação, quisesse ou não. Melchior não era louco de entregar os outros quando seu rosto era tão conhecido quanto o de Nick. Seria impossível dizer que não havia ido ver o jogo àquela noite.

Ethan suspirou cansadamente.

— Mas que dia maldito. Pela milésima vez Robb faltou a escola para ficar aqui. Eu pedi para ele nunca fazer isso, mas ele continua fazendo. Não creio que é a mando de Melchior. Quer dizer, eu sei que ele veio para cá por causa disso, mas agora… acho que Melchior perdeu um pouco do controle que tem sobre ele.

— Ele se apaixonou por você — disse Lorenzo. — Por isso vocês estão namorando. É assim que as coisas funcionam nesse país?

Nick sentiu o coração apertar, como se uma faca o estivesse atravessando agora mesmo, cortando os músculos e os tecidos até transformá-lo num monte de carne inútil. Aquela perspectiva era absurdamente revoltante, a de Ethan estar namorando Robb. E Nick não sentira ciúmes de Gabriel — mas fora ele quem juntara os dois, e isso simplesmente porque Ethan precisava transar com alguém diferente.

Mas também fora Nick quem juntara Ethan e a Anhert. Criara um monstro. Não, não, dois — o irmão e a empresa.

Se Ethan é o pai da Anhert, eu sou a mãe? Se a Anhert é meu filho, seria aquele valentão que incomoda os pequenos? Santo Deus, eu sou um pequeno.

De repente, sentiu-se desprotegido dentro daquele prédio, daquela fortaleza de aço e cimento que o envolvia como uma criatura viva e o guardava em seu interior, matando todos que se aproximavam. Sentiu saudades do velho apartamento grande e iluminado de classe média alta, da simplicidade com a qual vivia ano passado.

Então lembrou-se dos carrões e das mansões que visitava agora com naturalidade, das luzes da fama e do amor incondicional que recebia de estranhos na rua e esqueceu toda a melancolia.

— Você não disse que planeja construir uma casa nos arredores de Middleland? — indagou a Ethan, tirando-o de seus devaneios.

— Oh, sim… — ele murmurou baixinho, como se não quisesse falar sobre aquilo. — Eu queria que tivesse oitenta mil metros quadrados, pois isso a faria nada menos que a maior propriedade residencial do planeta. O maior castelo do mundo. Que tal isso? Obviamente o castelo em si não teria esse tamanho, ocuparia menos de um quinto disso. Mas acontece que não há uma área tão grande assim disponível em Middleland, e provavelmente em nenhum outro lugar da Califórnia.

— Você não comprou as fazendas e as usinas de Grace Pree e Stefani Price-Pree? Por que não extermina todas? Isso é, você demoliria toda a infraestrutura dos terrenos e os liberaria. Você também pode fazer um acordo com a Prefeitura para abocanhar parte da floresta de Middleland, prometendo transformar o que você tomar como propriedade numa reserva florestal.

— Não há motivos para eles quererem transformá-la numa reserva.

— Há queimadas excessivas, não há?

— Não, não há.

— Então faça haver.

Uma luz surgiu no rosto de Ethan, como se tivesse acabado de ter uma ideia brilhante, ou de ouvir uma. Um entusiasmo cego, um sorriso tímido, uma extravagância de adolescente bilionário que apenas Nick poderia proporcionar, já que Ethan infelizmente parecia ter pleno controle de sua ambição quando deveria ter.

— Acho isso interessante, mas é terrivelmente ilegal. Causar queimadas, matar milhares de árvores e animais para tomá-los para mim? Isso é cruel demais até para você, Nicholas Hentz. — Não era de forma alguma uma reprimenda, no entanto. Nick tomou aquilo como um sinal de que devesse continuar, amaciar os ouvidos do irmão até que o fizesse mudar de ideia, pois tal coisa não estava longe de acontecer.

— Mas… hipoteticamente — murmurou Lorenzo —, se acontecesse e você tivesse o terreno… o que faria nele? Como construiria um castelo no meio do século XXI?

— Com pedreiros, é lógico. Eu pensei em me inspirar principalmente no Palácio de Windsor e na Casa do Parlamento britânico, além de alguns outros castelos escoceses, franceses e tchecos. Uma mistura de tudo, entende? Sua composição iria desde a arquitetura egípcia e persa até a bizantina, romana, gótica e o estilo Tudor, e também o estilo renascentista, o barroco e o neoclássico. E encheria o lugar de móveis elisabetanos e vitorianos de um lado e ultramodernos de outro. Eu quero transportar um feudo direto para o século XXI, quero criar um castelo que englobe um pouquinho de todo o mundo, mais magnífico que o Palácio de Versalhes, de Buckingham, de Luxemburgo, de Fontainebleau e de Praga, que faça as pessoas quererem arrancar os olhos após verem-no, pois sabem que nunca mais verão coisa tão bela na vida.

— Não se esqueça de matar todos os arquitetos no final para que eles nunca mais façam coisa mais bela nem revelem as passagens secretas — Nick resmungou.

— Quero um único castelo que compense todas as incontáveis propriedades dos Rothschild e dos Goldenschild, que transmita toda a magnificência que os Hentz perderam no século XXI. Quero fazer os chefes de estado das superpotências mundiais, sejam elas quais forem, os malditos donos do mundo tremerem ao verem um portão do qual Henrique VIII se orgulharia. É isso que eu quero, Nick, Lore, e nada menos que isso. Por isso estou hesitante em fazer. Porque se não estiver do jeito que eu quero, vou pôr fogo em tudo.

— Isso é um empreendimento de bilhões de dólares — Nick murmurou. — Não abrangeria apenas a maior área do mundo, a casa em si seria a maior do mundo, e provavelmente a mais cara também. Se levariam anos para terminar.

— Não é para agora — ele murmurou olhando para seus próprios dedos entrelaçados sobre a mesa. — Mas se algum dia fosse, eu chamaria Hentzland.

Hentzland, Nick pensou fascinado. Terra dos Hentz. Milhares de quartos e salas que provavelmente jamais seriam usadas com milhares de janelinhas fitando Middleland como milhares de olhinhos, uma fera silenciosa e magnânima. Mas ora, para o Diabo com isso. Dentro de algumas gerações poderiam sim usar.

— Faça — sussurrou com ardência, um fogo de excitação e adrenalina crescendo dentro de si, como se bastasse apertar um grande botão vermelho para iniciar a construção do que poderia ser o maior e mais caro castelo da Terra. — Faça, construa! Quero morar em Hentzland um dia. Pegue seus milhares de arquitetos da Anhert e projete quarto por quarto, sala por sala, cada escadaria e coluna coríntia que precisar haver. Quero morar na França e na Itália, na Romênia, na Tchecoslováquia, na Alemanha e na Inglaterra e Escócia também, por que não? Tudo isso aqui na Califórnia. Quero um salão de baile com sessenta metros de largura e comprimento com retratos da rainha pendurados nas paredes de pedra amarelada e antiga. Deus salve Sua Majestade. Quero uma mesa de jantar que comporte duzentas pessoas de uma vez, quero que você a importe do outro lado do mundo, se for preciso. Que tal uma sala do trono?

— Que tal uma câmara de torturas?

— Ótima ideia! E mesmo que demore dez anos, imagine uma área aberta do tamanho de dez campos de futebol com árvores antigas e talvez um pedaço do Rio Alto Cruzeiro. Imagine labirintos naturais de cerca viva, e fontes e mais fontes jorrando água para todos os lados, e piscinas do tamanho de mares jorrando água transparente! Deus, seria maravilhoso. Seríamos a verdadeira família nobre governante de Middleland, como na Europa medieval. Moraríamos num castelo de verdade como os antigos lordes ingleses de verdade.

— Não lordes — murmurou Lorenzo num tom divertido. — Reis.

— Sim, reis! — Nicholas subiu na mesa de vidro e antes que Ethan pudesse gritar com ele para que descesse dali, ele abriu os braços como uma cruz e gritou de forma imponente, numa voz propositalmente grave e formal: — Sua Sereníssima Majestade, Nicholas Antonella Lemnsack Hentz, das Casas Lemnsack e Hentz, o Segundo, pela Graça de Deus, Rei da Califórnia e Chefe do Estado Californiano, Conde de Hentzland, Defensor e Guardião do Oeste. Lorenzo, que acha de se casar com a Princesa Toni e se tornar consorte da futura rainha?

— Acho uma ótima ideia. Mas o rei é Senn e os filhos dele serão reis depois dele.

Nick deu uma gargalhada tão exagerada que foi quase histérica.

Ethan arrancou-o de cima da mesa puxando-o pela cintura e o beijou demoradamente nos lábios, o que foi terrivelmente estranho porque Lorenzo estava a um metro e meio dos dois.

Um pouco mais tarde naquele dia, Nick estava com os grandes olhos negros vidrados na grande tela de TV de seu quarto que noticiava o descobrimento do corpo do Padre Lafferty Winter. Grupos de remoção de cadáver eram mostrados recolhendo os ossos putrefatos do padre, com uma enorme multidão de alunos em volta e um batalhão de policiais a impedir sua aproximação.

Não viu nenhum dos amigos, nem Summer ou Jules — Deus, Jules era filho de Lafferty. Que será que ele iria pensar? —, mas a jornalista dissera que as aulas haviam sido canceladas pelo resto da semana por causa daquilo, inclusive as extracurriculares. Aquilo era ruim, horrível. Nick não aguentaria a ansiedade até a segunda-feira.

Foi por isso que, de noite, resolveu marcar um encontro com Spring, Winter e Autumn. E por mais incrível que fosse, chamou Summer também.

Middleland não tinha uma praia, mas tinha uma lagoa a oeste da cidade com pouco menos de dois quilômetros de área batizada de Lagoa Henrietta Walker. A maior parte dos habitantes de Middleland referia-se sempre a ela como Lagoa Henri por causa disso. O agora Hentz Stadium localizava-se como um domo gigante e cinzento numa das encostas da lagoa.

Durante o Natal, havia a tradição de se armar uma enorme árvore de Natal numa das encostas do estádio, entre ele e a lagoa, para aproveitar seu espelho natural. No entanto, fora da época natalina, as luzes douradas dos prédios residenciais e faróis de carros tratavam de iluminar o negrume daquela noite de sábado.

E pensar que o homem mais poderoso do mundo perdeu tudo isso para uma mulher em plenos anos 40.

A lua estava escondida pelas nuvens que tinham um tom claro de violeta. Uma brisa fresca soprava do oeste apenas para bagunçar os cabelos dourados de Nick, jogando-os na testa e no nariz.

Ethan ainda não havia comprado um iate, mas no momento o Senhora Angelique VI, de cento e vinte pés, parecia bastante cômodo. Nick havia obrigado o irmão a alugá-lo por aquela noite, e foi incrível a rapidez com a qual ele fizera aquilo após o menor ter prometido agradecê-lo em particular mais tarde.

Em cima do convés do iate, aproveitava o leve oscilar do piso de madeira cara bem em baixo de seus pés. O piloto do iate levaria-os aonde eles quisessem, mas era tão bonitinho que Nick tinha medo que Winter transasse com ele numa daquelas camas enormes dos quartos luxuosos do interior. Aquelas garrafas de champanhe pareciam valer mais que o próprio iate.

Os amigos chegaram praticamente ao mesmo tempo, e foi aí, e somente aí, que Nicholas se deu conta do enorme abismo social que os separava.

Winter foi o primeiro. Sua entrada triunfal consistiu num pesado Rolls-Royce preto cortando a noite como uma bala. O motorista abriu a porta para ele, um rapaz de cabelos louro-acinzentados e olhos azul-escuros caminhando elegante através do deque do cais.

Depois veio Autumn, que surgiu por ali num enorme Land Rover branco, um leviatã em meio a carros pequenos e escuros. Curiosamente, ele vestia um sobretudo verde-escuro de tecido leve para aplacar a ventania, mas estava com todos os botões fechados, diferente de Melchior. Os óculos eram retangulares e discretos, cobrindo os olhos dourados emoldurados pelos cabelos castanho-claros.

Spring apareceu num Bentley cinza dirigido por um homem de cabelos curtos e loiros que Nick julgou ser seu pai. A massa de cabelos louro-amarronzados do menor estava adoravelmente amarrotada por cima do suéter claro e os olhos verdes estavam confusos e levemente amedrontados. Como não podia deixar de ser, uma gracinha.

E Summer chegou a pé. A representação antropomórfica do verão vinha com suas próprias pernas Deus sabe de onde, andando lenta e suavemente com pés leves e silenciosos, envolto num casaco preto apertado. Como foi o último, Nick teve de distrair os outros três até que o ruivo emergisse no iate.

Provavelmente foi Autumn quem o viu primeiro, pois seu primeiro reflexo foi apertar forte, mas sutilmente, o antebraço de Winter. Nick daria Hentzland para saber por que o louro odiava o ruivo com tanta veemência.

— Que é que você está fazendo aqui? — Winter indagou furiosamente, sem tirar os olhos do rosto cansado e exausto de Summer, que apenas franziu as sobrancelhas, olhou rapidamente para o rosto de cada um dali e declarou:

— Acho que vir aqui foi uma péssima ideia. Vou embora.

— Não, você não vai. Eu o convidei e você vai ficar.

Nick gentilmente segurou-o pelo ombros e o empurrou delicadamente para o interior do iate, assim como os outros três. Por uma questão de respeito, não deu nenhum tratamento especial a Spring, apenas acariciou sua nuca quando teve a chance.

— E você estão no iate que meu irmão alugou — falou novamente com a voz dura e autoritária. — Então espero que se comportem como a situação pede.

Winter estava com o olhar carrancudo, fitando a negra lagoa em que se encontravam. Apesar de ser mais baixo que todos eles, Nick sentia-se extraordinariamente grande. O iate logo partiu de onde estava ancorado, deslizando como uma cobra pelas águas.

— É verdade, o que aconteceu? — perguntou ingenuamente. — Sobre Lafferty?

Summer lançou-lhe um olhar estranho, depois fitou os outros por um segundo.

— Sim. Ele estava no vestiário.

— Isso é horrível.

— Como ele poderia ter sido enterrado com cimento e ninguém ter visto? Lembro que a construtora que fez isso foi a Grandes Esperanças.

Nick deu de ombros, sem se importar. Tinha plena consciência de estar sendo testado por Summer, sendo que Spring, Autumn e Winter estavam indo de carona. Mas também sabia que durante todo aquele ano a imagem que os amigos criaram dele foi a de um garoto distraído e insensível à maioria das coisas, embora demonstrasse ser outra coisa. A preocupação que demonstrara fora apenas cortesia.

— Se ele foi assassinado, quem quer que fosse deve ter jogado o cimento ele mesmo. Eu lembro que uma das máquinas de misturar concreto teve um curto-circuito no dia do jogo e derramou ela mesma. Acho que não houve curto algum. Quando os trabalhadores chegaram no dia seguinte, não desconfiaram de nada.

— Você realmente acha que ele foi assassinado? — perguntou Autumn.

Nick olhou para ele confusamente, depois para os outros. Claro, o estúpido Nick Hentz não poderia ter pensado em nada mais lógico.

— Que outra coisa poderia ser? Aliás, estão com fome? Espero que ninguém aqui seja alérgico a frutos do mar.

O camarão foi servido sem casca com caviar e champanhe. Não deveria beber, mas a situação estava tão tensa que foi obrigado a dar alguns goles para relaxar. Winter bebeu quase uma garrafa inteira; Autumn e Summer beberam uma taça cada; Spring, como de praxe, nem encostou. Tudo estava como devia ser.

— Como está Jules? — indagou a Winter em dado momento. Algumas lanchas deslizavam sobre a água ruidosamente, abafando a conversa.

— Ele ficou abalado, mas creio que foi mais por ter um corpo no vestiário do que por ser o pai dele. Eu lhe disse, eles nunca se deram bem. E Seraphine está exatamente igual a ele, parecem gêmeos. E eles já se parecem bastante. É irritante.

— Ele realmente não se importa com a morte do pai dele?

— O pai dele já está morto para ele há meses. Por que você foi embora da escola correndo no dia em que ele foi descoberto?

Os quatro se aproximaram sutilmente para ouvi-lo. Nick levantou uma sobrancelha, como se não fosse lá grande coisa, fez uma mesura de hesitação, como se estivesse tentando de lembrar, então sua expressão se iluminou e ele entoou:

— Eu havia esquecido de tomar meus antidepressivos, e vocês não gostariam de ter que lidar com a criatura que eu me torno quando estou em abstinência. Minha psiquiatra me ensinou a largar tudo para tomá-los quando fosse preciso. São muito fortes, sabe. A ausência poderia afetar meu organismo e minha mente. Eu ficaria agressivo e antissocial. Então fui pra casa. Mas aí lembrei que eu não os havia tomado porque eles haviam acabado e esqueci de lembrar meu irmão disso antes de sair de casa mais cedo. Fiquei na cama o resto da manhã enquanto ele comprava-os de novo.

Nick baixou a cabeça e fitou o líquido de coloração amarelo-esverdeada do champanhe, com pequenas bolhinhas jazendo na superfície límpida.

— Não gosto muito de falar sobre isso. De ser dependente de remédios. Algumas pessoas têm preconceito contra. Acho que só alguém igual a mim poderia entender.

Ficou surpreso quando notou que aquela frase era inteiramente verdadeira. Nunca parara para pensar naquele assunto, mas quando engolia aqueles comprimidos todas as manhãs e se lembrava do que poderia lhe acontecer se não tomasse, e pensar que teria que repetir aquele processo por anos e anos a fio ou quem sabe o resto de sua vida… a amargura agarrava-se a seu peito e ele se pegava chorando.

Aliás, pegou-se chorando naquele momento, ali no iate, na frente das estações. Com raiva e com vergonha de si mesmo, limpou aquela lágrima dos olhos antes que começasse a cair e traçasse seu longo caminho até o queixo. Sentiu-se uma criança malcriada fazendo isso, mas sempre fora conhecido por isso, não? A imaturidade e o egoísmo que apenas uma criança malcriada poderia oferecer.

Olhou para eles. Winter parecia estar profundamente arrependido de ter perguntado aquilo, com um nó na garganta que não queria deixar escapar. Os lábios estavam crispados e os olhos azul-escuros estavam apertados enquanto procuravam desviar-se para a lagoa negra que os engolia como uma fera. O iate agora estava parado, pairando sobre um espelho de negritude eterna.

Autumn estava um pouco mais sério — Nick arriscaria dizer quase calculista como Melchior —, mas também demonstrava um ar de pesarosa humanidade, como se estivesse triste por ele e triste consigo mesmo por não poder fazer nada para ajudá-lo. Os lábios também estavam crispados e os olhos desviaram-se para baixo quando chocaram-se contra os negros de Nick. Ele estava com um braço em volta dos ombros de Winter, mas agora o tirava para recolhê-lo para si mesmo.

Minha solidão é tão forte que eu infecto os outros com ela, pensou melancólico.

Summer estava com os braços cruzados sobre o peito, analisando-o com uma frieza quase robótica, aqueles olhos vermelhos e demoníacos observando cada centímetro de sua face para detectar qualquer sinal de mentira. Um músculo movendo-se indevidamente sobre a pele, um crispar incômodo de lábios, uma olhada imprópria para o lugar errado, uma mexida no cabelo, nas orelhas, nos olhos. Qualquer um daqueles sinais que inconscientemente usamos quando mentimos.

Mas acontece que o que Nick dissera, infelizmente, não era mentira. Nem mesmo Lorenzo poderia detectar qualquer coisa nele. Quanto mais Edric Summer.

Ele finalmente pareceu desistir. Desfez o cruzar de braços e pousou-os sobre as coxas cuidadosamente, com as mãos espalmadas, e fechou os olhos. Imaginou que ele rezasse, ou algo assim. Pelo que rezaria? Pelo bem-estar de Nicholas? Haha, até parece. Provavelmente rezava para que alguém lhe desse carona até em casa.

Nick amaldiçoou-se por esse pensamento horrível. Estava zombando do pobre garoto, não estava? Cruel demais até para ele. Quem foi mesmo que lhe dera as chaves do apartamento antigo, confiando bens preciosos a um garoto que possuía todos os motivos do mundo para odiá-lo? Talvez por isso sentisse aquela raiva interna, porque mesmo depois disso Summer ainda encontrava frieza para vasculhar seu coração entristecido com tamanha cara-de-pau.

Algumas coisas nunca mudam.

E Spring. Ele estava diferente de tudo que já vira. Os olhos prostravam-se verdes como a luz incidindo contra uma esmeralda polida, como uma folha de grama durante um dia claro de verão, como uma criança que abre o primeiro presente de Natal. Mas estavam mais brilhantes que o normal, porque uma finíssima camada de água os cobriam como uma membrana sobre uma célula. Prelúdio de lágrima? Mas por quê?

Os lábios estavam levemente entreabertos, as sobrancelhas arqueadas para cima. Ele estava surpreso, surpreso e chocado, e triste também. Todo mundo ali estava triste? E fora Nick quem os colocara naquele estado? Que adorável. Que bela lembrança para se ter enquanto come-se camarão ou caviar e bebe-se champanhe ou água num iate de luxo sobre uma lagoa. A noite que estava tão bonita agora parecia azeda.

E todos eles acreditaram na mentira inicial. Maravilhoso! Agora tudo estava saindo como planejado. Graças a Deus, Nick conseguiu reprimir totalmente o sorriso que queria dar. Sorria, você está sendo enganado! Meu irmão é um assassino, minha mãe era uma louca calculista, meu avô era um megalomaníaco, meu bisavô era um sociopata e meu trisavô era um assassino também.

A escória da família Hentz é também é sua maior glória. Eu provenho mesmo de tudo isso? Faço parte dessa novela? O que foi que nós nos tornamos?

Sentiu uma vontade repentina de beijar Spring, mas ainda não faria aquilo. Talvez conseguisse levá-lo para a cama àquela noite. Por quanto tempo um garoto de dezesseis anos podia reprimir os próprios desejos? Gostaria de ter estudado mais biologia. Summer não poderia ficar na mente dele para sempre, poderia?

— Vocês querem ouvir uma história? — perguntou a eles alegremente. Ninguém respondeu. — Vamos, eu quero tirar esse clima morto do ar. Não é bom quando se está num barco no meio de uma lagoa de dez metros de profundidade. Vocês sabiam que há cem anos o principal sustento de Middleland provinha de uma mina de diamantes? Um dos túneis dela ainda existe, eu sei onde fica. Depois que saiu da África do Sul, nos anos 10 e 20, meu trisavô John Francis estabeleceu-se nessa região da Califórnia e rapidamente tornou-se o maior barão dos diamantes. Os Hentz construíram essa cidade, é verdade. Se ele tivesse sido um pouco mais ambicioso, poderia tê-la chamado Hentzland, ou apenas Hentz. Mas ela chama-se Middleland porque ele acreditava que os diamantes eram o meio de tudo, ou o centro. Sua fortuna nascera de um diamante do tamanho da minha cabeça num lugar onde a terra era vermelha e fértil, e o povo era hostil e inóspito. A Kruger-Vorheel sempre investiu pesadamente na escavação de diamantes e só parou quando ela própria acabou.

— Por que está nos contando isso? — indagou Autumn curiosamente.

Nick sorriu. Estendeu a mão direita, onde prostrava-se majestoso o Anel da Matriarca que surrupiara da mesa de Ethan sem que ele percebesse. Ele carregava o do Patriarca como se fosse uma pedra filosofal, ora, então por que não?

— Para lembrar-lhes que eu sou um Hentz — respondeu. — Que esses diamantes são meus e que essa cidade pertence a mim. Que meu irmão está trucidando todas as famílias que tomaram conta do mundo depois do declínio da Kruger-Vorheel. Vocês poderiam estar morando em Hentzland, afinal. É por isso que meu irmão comprou a Bridget & Construções, porque ele jamais aceitaria ser passado para trás por pessoas como a Irmã Superiora Mary Sandy ou Bridget Warhen. Foi uma forma de dizer: ei, Irmã, eu estou bem aqui, na sua frente, atrás de você, dos seus lados, em todo lugar, em toda parte, e para todo o sempre, para toda a eternidade. Nunca se esqueçam disso.

A seriedade em sua voz foi tão suave que tornou-a quase um sussurro, mas não importava. Pensou que conseguira passar a mensagem que desejava. Talvez o símbolo da Anhert devesse ter sido um diamante, não um leão. Ou um leão segurando um diamante, qualquer coisa que o valha. Não importava. Realmente não importava.

A proposta da construção de Hentzland era magnificamente interessante, mas aquela ideia de alguma forma assustava a Nicholas. Por algum motivo desconhecido e incompreensível, acreditava que as portas de toda a juventude normal e quase tranquila que passara seriam seladas com chave de ouro quando aquele castelo estivesse erguido, pronto e indestrutível como o tempo. Hentzland consagraria a apoteose da família Hentz decerto, seria seu supra-sumo, seu maior símbolo. O problema é que quando algo atinge o apogeu só lhe resta cair.

A ideia da humanidade lhe escapando era aterrorizante, mas não conseguia fazê-la parar de envolver os dedos gélidos em seu pescoço enquanto sussurrava sinistramente: estou aqui, Nicholas Hentz, separando sua família de você. E quando ele pensava em mandá-la embora, percebia que jamais conseguiria, pois não era uma coisa física que pudesse demitir de sua vida quando quisesse. Era um pensamento perverso que germinava com as graças de Deus, pois nada podia fazê-lo parar.

Mas talvez não fosse isso o que lhe metesse mais medo, e sim um sonho pálido vindo diretamente do reino do lusco-fusco, um sonho dourado e negro que envolvia um grande salão de pedra rósea, um trono, uma coroa, um cetro, um diamante gigantesco, e muitos, muitos leões humanoides…

— Que acham da onda de assassinatos que está havendo? — indagou Spring sem motivação nenhuma. Estavam naquele barco há meia hora quem sabe e até agora ninguém havia rido ou ficado feliz. Uma ode à tristeza, seria um belo nome para esta reunião, pensou com um sorriso maquiavélico.

— Começou há alguns meses — murmurou Autumn numa voz sóbria e pausada. — Em fevereiro. Todos discutem quantas vítimas foram, mas todos concordam que foram mais que as vítimas do Massacre da Coruja. Pelo menos oito, até agora, mas isso é se você contar os irmãos di Fleurs, pois estes tinham apenas quinze e catorze anos, embora um deles estivesse claramente dirigindo, já que ambos foram encontrado no carro dos pais, em Wintorland. A idade conta porque todas as vítimas foram vistas com prostitutas pouco antes da morte. Eu não acho nem um pouco improvável que eles também tenham sido vítimas, apesar de a maioria descartá-los por causa da idade.

“A primeira vítima de que todos têm notícia é um estudante chamado George Newman, que foi encontrado no dia quinze de fevereiro, na área de construção da Avenida Rotary com a Carlton. Estava parcialmente enterrado sobre um punhado de terra e pedrinhas calcárias. Tinha apenas vinte e um anos, foi encontrado com diversos golpes de faca na garganta. Isso não foi muito noticiado porque muito provavelmente Ethan Lemnsack pedira para que não fosse, já que a área de construção estava sob responsabilidade da Anhert.

“Uma semana depois, a segunda vítima veio a ser um executivo de quarenta e poucos anos chamado Andrew Nelson, encontrado dentro de uma caçamba de lixo detrás de uma pensão vagabunda da zona norte de Donarchen. A garganta também estava retalhada e ele possuía diversos arranhões pelas costas e pelo peito. Os dois mamilos foram cortados com precisão cirúrgica. Nelson foi encontrado ainda de terno e Rolex, com o celular e a carteira do lado.

“A terceira e a quarta vítima apareceram doze dias depois de Andrew Nelson, no mesmo dia. A terceira era novamente um estudante com cerca de vinte e cinco anos. Michael Phillips era o nome, um jogador de futebol muito bem sucedido na Universidade de Middleland. Tinha porte atlético e quase dois metros de altura, o que deve explicar porque a garganta dele teve de ser praticamente dilacerada para que ele morresse. Foi encontrado jogado na piscina da casa onde morava em Higociety ao lado de um amigo de mesma idade chamado Ian Kubrick. Ian era bem menor que Michael, quase o clichê nerd dos filmes americanos, e não teve a garganta cortada. Ao invés disso, ele foi afogado na mesma piscina onde Michael boiava.

“A quinta vítima era um funcionário de uma loja de softwares chamado Cristin Martin. Este foi encontrado num quarto de um motel barato na Rua Walker com o peito praticamente aberto e a garganta cortada. Estava sobre a cama, com os braços abertos como um anjo sanguinolento. Foi descrito como sendo muito bonito e cliente fiel daquele motel, sempre levando acompanhantes, profissionais ou não.

“A sexta vítima foi um rapaz de dezessete anos, terceiranista da Academia Alphonse Enoi, chamado Raegan Montgomery. O carro dos pais foi achado num beco entre dois prédios que se achavam no final de uma ladeira na Rua Miller. Ao que tudo indica, o carro se chocou contra os latões de lixo do beco, o que quer dizer que ele desceu a ladeira livremente até parar ali, bem na sarjeta. Os vizinhos acordaram com o barulho e chamaram a polícia. Raegan já estava morto bem antes de o carro bater, com a cabeça espatifada na direção e a garganta cortada.

“E a sétima e mais recente vítima foi outro executivo, mas esse era mais velho, quase sessenta anos, e chamava-se Edward Ignatius. Estava com as calças arriadas até o joelho e a garganta cortada quando foi encontrado sentado calmamente em sua mesa da cozinha, onde o café-da-manhã estava diligentemente posto. Morava sozinho em Wintorland, não tinha família e recebia pouca visita, de modo que as tradicionais vizinhas bisbilhoteiras nunca se preocuparam em ver quem entrava e saía de sua mansão.”

— Deus, eu conhecia Ignatius — disse Winter. — A polícia não faz ideia de quem seja? — Nick quase esquecera que ele morava em Wintorland, onde um dos assassinatos aconteceu. Três, se contasse os irmãos di Fleurs. Começou a se perguntar em quais circunstâncias ele conhecera Edward Ignatius. — Não há evidências?

— Há sim. Todas as vítimas haviam feito sexo antes de morrerem, e quer saber mais? Foram todas com a mesma pessoa. No entanto, não é possível checar o DNA de todos os habitantes de Middleland, de modo que isso e nada é a mesma coisa. Ah, e eu esqueci de dizer. — Autumn sorriu. — Todas as vítimas foram castradas. Os membros delas foram cortados com a mesma lâmina das gargantas e aparentemente atirados bem longe dos corpos pela mesma pessoa que fez sexo com eles.

Ninguém ali conseguiu esconder a expressão de repugnância da coisa. Nick tentou imaginar um indivíduo saindo de carro a noite provavelmente para se encontrar com uma prostituta e acabar morto e sem o pênis. Que maneira maravilhosa de se conseguir prazer. Na verdade, estava surpreso que Ethan ainda não falara com ele sobre aquilo, embora soubesse que Nick não visitava prostitutas há mais de um ano.

— Os irmãos di Fleurs foram castrados? — perguntou.

— Não, mas a questão é que eles foram encontrados ainda vivos, o que quer dizer que seja quem for não teve tempo de castrá-los porque estavam numa área pública demais. Um morreu ainda no hospital sem soltar nenhuma palavra. O outro está em coma.

Um pouco mais tarde, quando os garotos já estavam meio altos e Winter começava a ficar enjoado dada a mistura de uma quantidade exagerada de álcool, frutos do mar e do balanceio lacunar, Nick conseguiu puxar Autumn para um canto. Spring e Summer estavam em lados opostos do convés, encostados nas grades metálicas. O menor segurava o cabelo de Winter para que não se sujasse enquanto ele vomitava na água e o outro estava com o olhar distante e perdido.

— Por que Winter odeia Summer tanto assim? — indagou baixinho a Autumn. — Eles brigaram quando Summer terminou com Spring, algo assim? Por favor, diga. Não suporto a ideia de que vocês escondem algo de mim, mesmo se for desimportante.

Seus olhos castanho-claros estavam cheios de uma estranha piedade.

— Sim, eles brigaram — ele sussurrou confirmando. — Digamos que Summer não tenha aceitado muito bem o término que Spring propôs. Não fazia sentido para ele, entende? É como se a vida não permitisse isso, quando ela permitira o tempo todo. Winter ficou por demasiado irritado quando um começou a gritar com o outro, mas foi só com Summer. Ele prefere ver as coisas de modo que lhe sejam convenientes, eu sempre soube disso. Creio que esses sejam os maiores defeitos dele, o egoísmo e a hipocrisia. Espero algum dia poder reverter isso.

— Summer não ficou… fisicamente agressivo com Spring, ficou?

— Oh, não. Summer jamais bateria em Spring, por Deus. Apesar de tudo, não se engane, meu querido leão. Ele o ama da mesma forma ferrenha que sempre amou, e por isso ele deixa você em paz, porque sabe que você faz Spring feliz, isso é tudo que sempre importou para Summer. Ver a primavera sorrir tanto com a boca quanto com os olhos. Na verdade, ele ficou mais agressivo com Winter que com qualquer um.

Nick assentiu compreensivelmente.

— Eu o entendo. Entendo mesmo, quero dizer. Não falo isso da boca para fora. Consigo entrar na pele dele e sentir o que ele sente, todas as tristezas e amarguras que a vida reservou para ele. Mas eu queria muito que ele e Spring voltassem a se falar como bons amigos, por isso o convidei aqui hoje. Acha que foi uma boa ideia?

— Lamento, mas foi péssima. Você deve entender que Summer nunca vai e nem pretende deixar de amar Spring enquanto estiver perto dele. Isso nunca vai acontecer. A única coisa que resta a ele é se afastar gradativamente do seu namorado e esperar que o amor passe. É por isso que penso que esse semestre será o último em que veremos Edric Summer de novo.

O coração de Nick se apertou ao ouvir aquilo. Sentia-se um demolidor.

— Ele vai embora? — indagou aflito.

— Eu acredito que ele voltará à família dele. — Aquilo o surpreendeu.

— Ele tem uma família?

Uma risada baixa; secreta, cúmplice, misteriosa; quase inocente, mas maliciosa…

— Oh, se tem. Uma grande família.

E o resto da noite passou-se assim. Morno.

O domingo amanheceu e entardeceu chuvoso e triste. Nick estava sentado com Ethan e Melchior na mesa de reuniões do escritório dele, aquela pequena para oito pessoas, de madeira escura e pesada elisabetana com candelabros minimalista iluminando-a. Um mapa-múndi esculpido em bronze prostrava-se na parede, elegante.

— Eles começarão a interrogar os alunos amanhã — disse Melchior cansadamente, cujas olheiras pareciam grandes equimoses roxas em seus olhos já roxos. — Farão perguntas genéricas, nada muito importante, e seguirão pelo caminho que parecer mais promissor. Não dê respostas muito detalhadas, nem invente detalhes. Lembre-se que você tem déficit de atenção, então ter uma memória ruim é compreensível e esperado. Não aparente nervosismo, mas também não fique calmo demais.

— Então é como colar numa prova.

— Sim, a diferença é que se você for pego, ao invés de levar apenas um zero, destruirá as vidas de cinco pessoas.

Nick já começava a ficar irritado com a quantidade de carga que colocavam em seus ombros, como se fosse ele obrigado a lidar com todo aquele problema, como se ele tivesse assassinado Lafferty e posto tantas pessoas inocentes em perigo, e não Ethan, o grande Ethan de quem ninguém falava ou se preocupava em incomodar.

— Eu já entendi — rosnou entre dentes. — Mentir até o último segundo sem remorso ou arrependimento. Sou bom nisso, é o que venho fazendo há dois anos. E estou cansado. Vou para a cama mais cedo hoje. Vejam se me deixam em paz pelo resto do dia, pelo amor de Deus.

Saiu do escritório pela esquerda, como sempre. Quando enfiou-se no elevador para ir ao andar debaixo, deu um longo e cansado suspiro.

Tem tanta tristeza na minha vida que acho que ser um fantasma seria mais agradável. Será que esse elevador não estaria pensando em cair agora mesmo?

O elevado, contudo, não caiu. Nick irrompeu apressadamente no andar noventa e quatro, atravessando longos corredores para enfiar-se debaixo dos cobertores e não sair até o dia seguinte, quando a tortura finalmente começaria.

Teve um sonho agitado, com um par de olhos azuis e brilhantes como estrelas tentando dizer-lhe algo sem conseguir. Tudo se passava num plano muito escuro e envolvia qualquer coisa como uma estátua feminina de ouro e um turbulento rio de sangue vermelho-escuro. Havia um barquinho no rio apinhado de passageiros, e quando se aproximou Nick percebeu horrorizado que o sangue do rio provinha deles.

Acordou nervoso e suando. O coração palpitava na caixa torácica como um tambor ininterrupto; os lábios estavam secos e quebradiços; o cabelo grudava-se à testa suada. O dia estava chuvoso e deprimente, um daqueles dias em que ninguém quer estudar, trabalhar, conversar ou sair da cama de jeito nenhum. Uma película cinzenta perpassava todo o céu de Middleland como uma atmosfera indestrutível.

Foi para a escola de limusine, como de praxe, mas não acenou de volta ou sorriu a qualquer um dos garotos ou mesmo garotas que lhe cumprimentaram no portão. Ao invés disso, apertou mais o casaco que usava sobre o paletó contra o corpo, enfiou a cabeça no cachecol vermelho e puxou a touca preta para baixo, escondendo a maior parte do rosto. Mas que grande arrogante, eles certamente pensariam daquela estrela cadente. Caminhava através do pátio frontal sob um guarda-chuva preto, e contando com o sobretudo, as luvas e a touca também pretas, com o esvoaçante cachecol por trás de si, parecia uma figura antropomórfica quase perfeita da morte.

O vento açoitava a carne quente do rosto de Nick; o nariz estava entorpecido, os olhos semiabertos ardiam e latejavam e ele até sentia o sangue interrompido dentro de si. Soprando na direção da saída, o vento empurrava-o na direção contrária em que queria ir. Desejou que aquilo não fosse um aviso das forças ocultas, mas achou que nem elas podiam controlar o vento.

A Casa Vermelha ergueu-se de repente em sua frente como o Paraíso. Arrancou as luvas, o sobretudo e a touca, mas fechou o guarda-chuva apenas depois de entrar no prédio, o que era péssimo — se os alunos dali eram tolos o suficiente para obrigar alguém a ir à igreja antes de jogar futebol, então eram tolos o suficiente para acreditar que um guarda-chuva preto aberto dentro de um ambiente fechado dava azar.

E não é que estava certo? Tão logo teve ânimo para abrir os olhos e fitar a plenitude da moderna sala de estar do prédio, ouviu uma voz fina e irritante por trás de si.

O garoto que lhe falara tinha um paletó e um cachecol azul-escuros, mas seus olhos eram verdes como folhas, cheios de uma misteriosa zombaria. Porém, o que mais chamava atenção a qualquer um era o fato de que usava um par de orelhas cor-de-rosa de coelho na cabeça, provavelmente provenientes de parte de uma fantasia mal feita.

— Feche isso. Todo mundo surtará se descobrir que você entrou com isso aberto.

O garoto-coelho se aproximou. Nick o tinha visto antes no primeiro dia de aula e ele lhe falara sobre as estações — superficialmente. Agora quando analisava o que ouvira naquela ocasião e o que sabia agora, percebia que havia uma lógica quase maquiavélica naquilo tudo. Ele lhe contara apenas o que queria que ele soubesse, como que para ver como ele reagiria quando soubesse dos segredos que os garotos guardavam.

— Sou sua cobaia? — indagou ao menino com curiosidade. Sua voz estava cheia de zanga, mas não era dele. Era de tudo, menos dele.

Coelhinho deu uma risada. As orelhas vibraram jogadas por trás da cabeça como num topete. Ele não parecia ter mais de doze anos, por isso era um nortenho da Casa Azul. Aliás, o que fazia na Casa Vermelha mesmo? E por que usava aquelas orelhas horripilantes de coelho? E por que ninguém comentava nada a respeito, pelo amor de Deus? O que havia de errado com os alunos daquela escola?

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

— É possível uma escola inteira ser assombrada? — ele indagou com aquela voz pré-adolescente propositalmente agravada para tentar ser sinistra, mas que acabou ficando quase cômica. — Não apenas um sala de aula com suas carteiras cheias de rabiscos, ou uma quadra de basquete com sua cesta quebrada e afiada como dentes monstruosos, ou um laboratório de química com suas substâncias químicas ácidas, ou uma biblioteca com seus senhores livros de capa de couro, mas toda ela? — De repente, ele parou de parecer estar falando com Nick. No entanto, eram os únicos ali. Seus olhos verdes pareciam estar vendo através dele, quase em transe. — Toda a sua estrutura terrestre, todos os seus milhares de metros quadrados como eles realmente são, cada tijolo que compõe suas grandes Casas, cada molécula de tinta que delimita suas quadras de acordo com seus respectivos esportes, cada bocado de argamassa que sustenta as arquibancadas de seus ginásios, cada lajota azul-clara que reveste internamente seus vestiários, cada cruz ou crucifixo que santificam suas igrejas, cada tábua de madeira ou linha de tecido que montam os palcos e as cortinas de seus teatros, cada grão de sal e açúcar que enchem as saleiras e açucareiras de seus restaurantes? É possível?

Seria aquilo uma pergunta retórica ou o menino havia ficado louco de vez? Seus olhos agora ardiam num brilho quase alucinado, como se ele visualizasse outro plano terrestre que não aquele. Ele passou a caminhar pela recepção, deslizando os dedos pelas paredes e quinas, pelos móveis de descanso e pela tela negra na grande TV.

— É possível uma escola inteira ser assombrada? Assombrada como se supõe que sejam assombradas algumas casas? Tudo quanto houver nessa escola? Tudo que entra e tudo que sai? Inclusive os próprios alunos?

Sentou-se elegantemente no sofá, onde jazia algo que Nick não havia notado: a caixa madeiral de um violino. Não era um Stradivarius, mas era belo como o de Lorenzo. Coelhinho posicionou-o corretamente entre o queixo e o ombro, ergueu o arco como se fosse feito de ouro e começou a tocar lentamente. A melodia era baixa e sinistra, quase uma trilha sonora, pois ele voltou a falar:

— Assombrado é o que é frequentemente visitado por fantasmas ou espíritos. Assombrar é nunca ir embora, assombrar é sempre voltar. É nunca esquecer, nem perdoar. Assombrado é um lugar onde as feras vão para se alimentar. Sensacional. Ou será que assombrados seriam os próprios alunos, vindos de suas mansões e coberturas em seus carrões que nada valem? É possível uma pessoa ser assombrada? Alguém que vê espíritos é assombrado? É uma bruxa, daquelas que fazem poções com as partes das crianças? Um terremoto atingiu a Califórnia no Halloween de 2013. Casas foram ao chão, pessoas foram estraçalhadas, famílias destruídas, bilhões de dinheiros imaginários perderam-se porque os poderosos dizem que sim. A Califórnia é assombrada? O terremoto? O Halloween? O ano de 2013?

A melodia ficou mais forte então, quase agressiva, penetrando no ar.

— Uma pessoa é assombrada quando a tristeza lhe pega e começa a se alimentar das emoções boas como se elas fossem cereais numa tigela num café de manhã tomado numa manhã quente e aconchegante no conforto de casa. O assombro se perpetua quando a pessoa passa a aceitá-lo, e então ele se espalha como um germe. E então toda a população fica assombrada, e toda a escola também. Sendo assim, não é mais lógico dizer que esta cidade inteira é assombrada? Não uma única pessoa triste, mas todas as pessoas tristes juntando suas tristezas e sobrepondo-as às alegrias dos outros? Então o mundo inteiro seria assombrado, não seria certo dizer isso, partindo dessa… lógica? Se assombrado é onde as feras vão para se alimentar, quais feras estão se alimentando do mundo?

Ele parou, quase eufórico, mas silencioso. O violino ainda vibrava como uma máquina em suas mãos. Coelhinho guardou-o na caixa junto com o arco e levantou-se do sofá carregando-a pela alça como se fosse uma mala. Dirigiu-se à saída letargicamente, mas antes olhou para trás mais uma vez e finalmente fitou Nicholas Hentz.

— Ou eu devia perguntar… por que o mundo continua a alimentar as feras?

Coelhinho desapareceu na névoa daquela manhã triste como um fantasmagórico personagem de um livro de fantasia barato que vem sanar as dúvidas do personagem principal com mais dúvidas.

Quando as outras estações chegaram — Nick cumprimentou até Summer —, não levou muito tempo para que o surto de proclamações de solidariedade fosse declamado sobre o Padre Lafferty Winter. As pobres freiras acreditavam realmente que o homem era uma espécie de santo na Terra, talvez porque ele fosse um dos poucos padres já mandados ali pela ordem que nunca, nem em sonho, pensara em fazer algo indevido com as freiras mais novas.

Ora, por que será? Talvez porque ele preferisse os alunos da quinta série… nesse momento, um pensamento rápido como um beija-flor irrompeu em sua mente, mas foi aí que Nick finalmente foi chamado à sala da coordenação do primeiro ano, no térreo da Casa Vermelha, e o pensamento perdeu-se para sempre.

A coordenadora — que também era uma freira — lhe explicou que aqueles dois policiais bonzinhos estavam fazendo algumas perguntas para averiguar como o Padre Lafferty fora parar naquele buraco no vestiário. Ela não usou essas palavras, mas certamente fora isso o que quis dizer.

As perguntas vieram em sequência, quase sem pausa entre elas, mas Nick não se atreveu a parar muito para pensar, nem a responder com muita rapidez. Estava nervoso como se estivesse sendo julgado num tribunal, mas sua sobriedade como ator não o permitiu demonstrar. Ficara da mesma forma no teste da peça Homesence e mesmo assim Eli Royce o escolheu para Gwarren, não foi?

— Onde estava às seis horas e trinta minutos do dia 4 de fevereiro?

— Aqui. Eu iria jogar um jogo de futebol.

— Você jogou?

— Não.

— Por quê?

— Eu tive uma crise de ansiedade.

— Isso realmente te impediria de jogar?

— Sim, muito. Eu mal consigo ficar em pé quando estou assim.

— Algumas testemunhas afirmam que você saiu correndo da igreja.

Nick tinha quase certeza que algumas testemunhas eram ou Winter ou Summer.

— Comecei a ter a crise lá. Sempre vamos à igreja antes dos jogos.

— E foi a primeira vez que você viu o Padre Lafferty?

— Acredito que foi a primeira vez que o vi e notei que o estava vendo. Eu posso tê-lo visto no dia anterior e não ter percebido. Era apenas o segundo dia de aula.

— Você já o tinha visto antes do dia 3 de fevereiro?

— O Padre Lafferty foi padre na Escola St. Emanuelle de Castellobranco, onde eu estudei até os onze anos. Mas ele já havia saído quando eu me mudei.

— Como era sua relação com ele ?

Nick deu de ombros.

— Eu tinha uns nove ou dez anos quando ele foi embora, eu acho. Eu não tinha como ter nenhuma relação com ele. Eu não me lembro de muito sobre ele…

— Uma testemunha afirma que você deu informações detalhadas sobre ele antes de sair correndo da igreja, como saber que ele tivera um filho antes de virar padre, de seu sobrenome e de que ele realmente saiu de Castellobranco há exatamente seis anos. Você afirma não ter certeza disso agora.

— Afinal, qual sua pergunta?

Percebendo que estava começando a ficar encurralado, Nick decidiu apelar para o papel do aborrescente irritado e impaciente. Depois teria que encarnar algum assassino em série para cuidar de Winter. Talvez Owl servisse.

— Falamos com a Irmã Superiora Mary Bernadette, a diretora da St. Emanuelle, e ela segredou que Mary Alice Hentz em pessoa pedira para o Padre Lafferty ser transferido. Mas não disse o porquê, porque a Sra. Hentz não lhe dissera. Apenas ofertou uma grande doação em dinheiro em troca do favor.

— Eu sinto falta da minha mãe… está chamando ela de corrupta?

— Estou reproduzindo fatos. Você sabe por que sua mãe fez esse pedido?

— Ora, pergunte a ela.

Ele não pareceu gostar nem um pouco de sua insolência. Nicholas mantinha-se sentado na cadeira como se fosse uma cama e o olhar que lançava distraidamente a todos ali seria o mesmo que lançaria a um empregado insubordinado.

— Por que demonstrou tanta surpresa ao ver Lafferty na igreja?

— Eu não tenho recordações muito boas da Escola St. Emanuelle, e provavelmente algumas delas estão relacionadas a Lafferty. A verdade é que eu nunca gostei muito de padres ou de qualquer coisa relacionada a religião. Tive que ser arrastado para dentro daquela igreja e já estava irritado o suficiente quando eu o vi. De repente, me senti de novo na St. Emanuelle, e a sensação que tive misturada à crise de ansiedade que estava começando a ter foi extremamente… desagradável. Ele me lembrou um passado que quero esquecer e do qual não gosto de falar sobre.

— Para onde você foi depois que saiu da igreja?

Nick deu uma pausa desinteressada, como se estivesse sendo forçado a tentar se lembrar. Tinha uma certeza estranha de que o policial assistira a sua entrevista no The Paradis Show, onde explicara detalhadamente que não se lembrava da maioria dos detalhes das situações que vivenciava se eles não tivessem relação com ele mesmo.

— Fui ao ginásio. Meus irmãos estavam lá com alguns amigos.

— Que amigos?

— Melon Chioren, o autor Melchior, escritor de Lympharia; Amy Bellafonte, a filha do governador Redford; e um garoto chamado Gabriel Melnick. Ele está em outro continente agora, então é inútil eu citá-lo. Enfim, pedi a Ethan para irmos para casa. Acho que a essa altura eu estava chorando. Sim, eu estava me lembrando de quando alguns meninos da quinta série me trancaram dentro de um armário por duas horas na St. Emanuelle. Eu fiquei sem falar nada durante uma semana depois disso. Minha mãe fez os garotos serem expulsos. Sim, eu lembro que fiquei feliz quando soube disso na época. Felicidade de criança é algo realmente adorável.

— Atenha-se aos fatos.

— Sim, sim. Eu estava chorando, pedi a ele para irmos para casa. Ele concordou. Depois disso fui ao vestiário pegar minha mochila, voltei para eles e fomos embora de limusine. Ou de Mercedes? Ethan usa a limusine, mas Lore usa a Mercedes…

— Você os encontrou no ginásio?

— Ah, não sei. Acho que não. Oh, não! Saí do vestiário pela porta dos fundos e dei a volta até a entrada do ginásio. Foi do lado de fora. Lembro-me disso porque Lorenzo quase vomitou nas minhas chuteiras. Ele estava passando mal, acho que foram os frutos do mar. Ficamos esperando ele melhorar e então fomos pra casa. Mas não lembro se foi na limusine ou na Mercedes.

— Você se lembra de ter visto algum vestígio de sangue ou luta?

— Acho que não. Quer dizer, não lembro, mas se eu tivesse visto teria contado a alguém. Ou ignorado. Eu estava muito mal. Acho que não tinha nada, os garotos da igreja foram ao vestiário pouco tempo depois de eu ter ido. Eles teriam visto.

— Está tudo bem. Acho que acabamos por aqui.

— Vão interrogar meu irmão Lorenzo? Lembre-se de que ele é cego, então não poderá intimidá-lo com essa cara de durão. Na verdade, acho mais fácil ele fazer isso com você. No escuro e sob a luz de uma lanterna, ele parece um espírito.

Saiu rindo arrogantemente da coordenação, andando como se estivesse num tapete vermelho com milhares de fotógrafos de cada lado. Era essa a visão que as pessoas tinham dele, embora se aproximasse tão pouco da verdade. O verdadeiro Nicholas estava aterrorizado com os fios soltos que deixara. Então os malditos sabiam sobre o encontro secreto de Mary Alice e Mary Bernadette — que ardesse no inferno, aquela velha imortal — e sobre a incoerência das informações que Nick soltara sobre Lafferty.

Queria confrontar Winter ou Summer sobre aquele último fato, mas isso significaria que tinha algo a esconder e um motivo a temê-lo, então seria uma estupidez absurda. Não que Winter tivesse algum motivo para entregá-lo, mas ele era sobrinho-neto de Lafferty e provavelmente não sabia nada sobre o tio-avô, nem teria motivo para acreditar em Nick se contasse a verdade. Às vezes pegava-se percebendo que Lafferty só não abusara do garoto maravilhosamente bonito e promíscuo que era Winter porque moraram em cidades diferentes durante sua infância. Winter foi salvo porque Nick ocupara a vaga. Que gratificante.

Quando percebeu, já era intervalo. Sem encontrar nenhuma das estações, Nick pôs-se a vagar indefinidamente pela escola de cabeça baixa e com as mãos nos bolsos. Havia um ar pesado e triste pairando sob todos aqueles alunos, e a verdade é que muitos ainda faltaram. Provavelmente acabariam mudando de escola.

O vestiário II estava limitado por uma faixa policial amarela. As obras estavam paralisadas e ninguém se atrevia a chegar muito perto. Nick começava a acreditar que a compra da Bridget & Construções acabara por ser um tiro no pé. Agora eles teriam mais um motivo para desconfiar de Ethan, não é? Quando será que os irmãos, Melchior e Amy seriam interrogados? Tomara que o que dissessem não contradissesse o que Nick contara. Tentara ao máximo excluir detalhes fúteis, mas aquele dos frutos do mar que enjoaram Lorenzo fora potencialmente perigoso. Precisaria se reunir com ele e Ethan para discutirem novamente.

Quando percebeu, estava em frente à capela, um monstro de tijolos vermelhos e pesadas portas de bronze. Perguntou-se por quanto tempo aquele prédio resistiria se a humanidade simplesmente desaparecesse junto com todas as suas crenças estúpidas e dúvidas tolas. Sem saber bem por que, subiu os degraus e entrou na igreja.

Tinha mais gente do que esperava, apesar do vasto silêncio. É claro, estavam todos rezando pelo pobre Padre Lafferty. O corpo já havia sido velado pela família Winter após serem realizadas as autópsias necessárias para averiguar que ele havia sido assassinado por um bastão. Winter contara que ele e Seraphine du Pont tiveram que forçar Jules a ir ao enterro.

Como a frente estava mais vazia, sentou-se logo na primeira fileira de bancos. Jogou a cabeça e forçou-se a relaxar, a esquecer tudo o que se passava a sua volta, a se enfiar em seu próprio mundinho. Mas era difícil. Mais do que parecia. A grandiosidade da igreja na qual se encontrava o engolia como um leviatã, tornando-o minúsculo num mundo de gigantes invisíveis e adormecidos.

Ao seu lado, um movimento chamou sua atenção. Uma freira quase de sua altura se aconchegava o máximo possível no desconfortável banco de madeira, envolta em várias camadas do tecido azul-escuro e cinzento do hábito que usava, fazendo-a parecer apenas um amontoado de lençóis. O que chamou a atenção de Nick era o modo que rezava: não juntava as mãos, apenas pousava-as nas próprias coxas, fechava os olhos e respirava bem fundo, como uma máquina a vapor.

Ela os abriu de repente, olhou para o grande crucifixo e fez o sinal da cruz, murmurando palavras baixas demais para Nick poder ouvir.

— Não reza? — ela lhe indagou quase distraída, e foi aí que Nick percebeu que tinha olhos escuros como uma noite sem estrelas, mas estranhamente brilhantes. A cor das sobrancelhas já ralas indicava que havia sido loura na juventude. Loura dos olhos pretos, assim como ele. Qual era seu nome, afinal?

— Não — disse com suavidade, sem conseguir encará-la por muito tempo, mas querendo. O rosto era completamente enrugado e murcho, os olhos pareciam quase deslocados ali. Sentia que mereciam emoldurar uma escultura de um clássico renascentista. Não se surpreenderia se descobrisse que ela tinha cem anos de idade. — Não acho que isso funcione.

Ela sorriu com seus lábios finíssimos e enrugados, dizendo com uma voz lenta e rasgada como um cacarejo:

— Não funcionará jamais se você não acreditar. Você acredita?

— Não.

— Então não funciona.

Nick franziu as sobrancelhas fitando-a sutilmente. Esperava uma resposta longa, complexa e que não dissesse nada no final, como é de praxe no ramo eclesiástico, mas a dela fora curta e direta. Realmente nunca ouvira uma resposta assim vinda de uma freira. Em parte seu preconceito atuava nisso, tudo bem, é verdade. Perguntou-se se ela assistira a sua entrevista no The Paradis Show. Perguntou-se se as freiras assistiam à TV. A gente pensa que elas nunca fazem nada fora da igreja.

— Qual seu nome? — indagou a ela.

— Sou a Irmã Mary Nicholas. E você é Nicholas.

Oh, pelo menos ela sabia seu nome. Nos últimos tempos encontrar alguém que não o soubesse vinha sendo quase uma ofensa. Fama elevada à cabeça? Arrogantismo exacerbado? Quem se importava com os neologismos, afinal?

— Sim, sou Nicholas. Não sei por que estou aqui, na verdade. Acho que fugindo.

— Estão todos rezando pelo Padre Lafferty, e você está fugindo? Ninguém tem tempo de perseguir ninguém nesses tempos tenebrosos.

— Todos têm tempo de perseguir o pobre Nicholas Hentz.

— Não precisa rezar por ele, se não quiser. Não precisa rezar para Ele se não quiser. Não precisa juntar as mãos, se não quiser. Pouse-as nas coxas, feche os olhos e pense no que você gostaria que acontecesse com você. Então pergunte-se se você realmente merece isso. E se perceber que não merece, então é nisso que você deve focar em mudar. E as coisas virão com o tempo. Nada cai do céu, Nicholas…

A Irmã Mary Nicholas fechou os olhos por um momento e deixou a cabeça pender do lado, fazendo-o pensar estupidamente se a velha tinha morrido ou não, mas logo depois voltou a se endireitar.

— Vamos, faça isso.

Ele não queria fazer, na verdade. Tinha medo que funcionasse. Mesmo assim, pousou delicadamente as mãos sobre a calça social que era parte do uniforme, fechou os olhos, respirou fundo e pensou, observando o negrume presente na própria mente conturbada como se fosse lhe dizer algo.

O que havia de errado em sua vida? Oh, Deus, não, o que não havia? A relação com os irmãos estava horrível. Ethan tornara-se outro ser humano, simplesmente, e por intermédio de Nick, que afinal fora quem fizera germinar em sua cabeça a ideia da criação da Anhert Corporation. A coisa crescera e se tornara uma planta carnívora que mordera seu dedo. E agora sangrava. E não parava de sangrar. Como estancar, então?

E Lorenzo era uma história completamente diferente e mil vezes mais complicada. Para todos os efeitos, ele ainda era uma criança, jovem demais para entender os problemas de Nick porque estes já não se resumiam apenas aos problemas clássicos da adolescência. Quando foi que sua vida se tornara um drama?

Spring também não fazia sexo com ele, era fato. Nick estava começando a se desesperar com isso. Todas as vezes em que se senta prestes a explodir tinha que descarregar em Ethan, e era traição, uma traição horrível — por algum motivo ele facilmente esquecera as vezes em que traíra Mia com ele. Felizmente, pertencera às gêmeas Goldenschild durante todo o tempo que permaneceram juntos sem nunca traí-las. Ethan podia não estar nem aí para isso, mas ironicamente o promíscuo Nick Hentz era diferente.

E o Padre Lafferty Winter, o assassinato, as mentiras que contara e as lacunas que deixara. Quanto tempo aquilo levaria, meu Deus? Já ouvira falar de investigações que levavam meses ou até anos. Não aguentaria aquilo por mais tempo. Talvez, quando seu contrato com a HBC acabasse e já fosse maior de idade, pudesse pedir a Ethan para ir a Los Angeles. A Hollywood. Para começar uma nova vida de estrelismo ou fracasso, dependendo de sua sorte.

Na verdade, não tinha nem que pedir, tinha?

Então começou a desejar que Ethan voltasse a ser a pessoa gentil e atenciosa que era antes de a vida dos dois mudar tão drasticamente quando aquele maldito avião caiu no Atlântico com seus pais dentro. Desejou que a investigação do caso Lafferty fosse arquivada sem provas ou suspeitos, e que todos o deixassem em paz depois disso. Desejou que Lorenzo ganhasse a competição no final do semestre, mesmo que não assumisse a posição na Orquestra Sinfônica Californiana. E que Spring fizesse sexo com ele.

— Por que a senhora está me ajudando se certamente sabe que eu… — começou a perguntar, mas achou-se sem coragem de terminar a frase. Que eu gosto de garotos, é isso, pensou quase desesperadamente, tentando transmitir com os olhos o que pensava. O mais absurdo é que não olhava para a irmã.

Ela pousou uma das enrugadas mãos cheias de nódoas em cima da sua e apertou-a. Era surpreendentemente dura e firme, apesar das veias violáceas saltando através da pele e das unhas amareladas. A Irmã Mary Nicholas sussurrou-lhe quase em segredo:

— Somos todos pecadores, Nicholas. Eu, você, o Padre Lafferty, todos os alunos desta igreja que rezam sincera e silenciosamente. Mas para sermos salvos, devemos reconhecer quem somos, nossos bons feitos e nossos pecados. Devemos confiar na misericórdia de Deus, mas Sua graça nos transforma e nos renova. E quando não… nós mesmo acabamos fazendo isso com nós mesmo, pois somos donos do nosso próprio universo. Eu já fui diferente do que sou hoje, Nicholas. Já cometi erros terríveis. Já fui mãe, avó e bisavó. Meu filho Maynard morreu no início do milênio, meu neto Charles morreu muito jovem ano passado e deixou-me apenas com um único bisneto chamado Lucas. Sou uma freira, mas nunca me desapeguei totalmente ao que um dia eu fui. Esse é meu maior pecado.

Nick ajudou-a a se levantar e observou-a se afastar com um aperto estranho no peito. Tinha uma sensação incômoda de que a irmã poderia cair a qualquer momento, mas ela se moveu lenta e constantemente em direção à saída e então desapareceu.

Naquela noite, uma noite particularmente escura e fria onde tivera uma reunião escura e fria com os dois irmãos explicando os detalhes do interrogatório, Nick acabou encarregado de levar Lorenzo de volta ao quarto, muito embora ele pudesse muito bem voltar sozinho. Teve a horrível sensação de que Ethan só queria se livrar dele.

Lorenzo caminhava em passos rápidos puxando sua mão. Em pouco tempo foi Nick quem notou que na verdade era ele quem o levava.

— Preciso da sua ajuda — disse ao maior ao entrar no espaçoso recinto. Lorenzo imediatamente sentou-se no banquinho do caríssimo piano de cauda do canto do quarto, que ficava em frente a uma profusão de janelas de corpo inteiro, e tirou de cima dele um caderno e uma caneta. — Quero escrever uma música.

— Uma música? Para quê?

— Para a competição. Não conseguirei ganhar apenas tocando piano, nem mesmo violino. Conversei com alguns outros competidores ao bancar a criança inocente e descobri que muitos deles têm cartas nas mangas. Eles não demonstraram tudo o que são capazes na audição, pois querem surpreender o júri na competição verdadeira. Eu fiz exatamente o contrário. Se eu tivesse tocado piano, teria entrado do mesmo jeito, mas dei tudo de mim no violino, surpreendi toda a plateia, mas quem se importa com a plateia? Não tenho como fazer algo novo porque já fiz tudo o que podia. Se eu não fizer algo extravagante, não vou ganhar. E eu quero ganhar.

— Por quê? Você nem pode assumir a vaga.

— Ora, e daí? — indagou com irritação. — A questão não é essa. A questão é ganhar, isso é tudo o que importa, Nicholas. Ganhar de todos aqueles filhos da puta que riram de mim quando eu disse que queria fica em primeiro lugar.

Santo Deus, ele é uma cópia em miniatura de Ethan Lemnsack.

— Como você espera que eu te ajude?

— Pegue esse caderno e essa caneta. Uma música é uma expressão das emoções do autor. Escreva o que você sente e como você se sente. O que você quer e o que não quer. Eu quero que você vomite o seu coração nessa folha de papel, deixe que tudo transcenda em seu corpo e se traduza na forma da música mais bonita do mundo e que me fará ganhar a competição. Terei que decorar, mas isso não é problema.

Por vários minutos Nick ficou encarando a folha de papel em branco e a caneta preta transparente encaixada entre o indicador e o polegar e apoiada pelo dedo maior. Parecia estar quase zombando dele. Lore tocava notas aleatórias no piano enquanto olhava cegamente para a bela paisagem negra lá fora. Gostaria que ele pudesse ver as milhares de luzinhas que formavam o Império Hentz.

Fechou os olhos novamente e tentou visualizar sua vida numa planície vazia, cada elemento ali perfeitamente arrumado no lugar correspondente da linha do tempo. Não conhecia nenhum daquelas formas clássicas de escrever um poema; não fazia ideia se um haicai deveria ter dez, quinze ou vinte sílabas de comprimento, um número específico de versos ou se eram livres. Naquele momento, a falta de atenção às aulas de literatura o torturaram por tempo suficiente para escrever a primeira estrofe de quatro versos completamente assimétricos.

Com a alma entregue a este destino

De anjos que te amam sem escolher

Sem pensar nas consequências

Desfruta do céu.

Que estúpido, pensou amargamente. Os poetas do século passado deveriam estar se revirando no túmulo agora. Provavelmente era o que Lore pensaria e diria também sem nenhuma misericórdia. No entanto, quando entoou as palavras a ele, ouviu:

— Está bom. Continue.

E por mais algumas estrofes ele continuou:

Mas o mundo está em mudanças

E sempre que a tempestade vem

É mais forte

Impiedosa

Anos se passam e

Oh, meu anjo, onde fomos parar?

Tão longe, apesar de tão perto

Com mil pecados a nos marcar.

A tentativa de rima foi falha, mas valeu a pena, pois Lorenzo gostou. Ele nunca gostava de nada e nunca se acanhava em dizê-lo. No mais, deixou Nick mais confiante.

Eu oro ao fantasma de nossos passados

Que me dê respostas para estes impasses

Pois de amável que eras

Nunca o vi tão vazio de si.

Se entregou a este inferno

E me abandonou com toda a sujeira

Mesmo sabendo, lá no fundo

Que não nos podia deixar sós.

Imediatamente percebeu que era sobre Ethan que falava, seu irmão, seu leão negro, o ser mais poderoso e benevolente que já conhecera, aquele que idolatrara como um deus quando era apenas uma criança boba…

Anos se passam e

As marcas estão onde sempre estiveram

Costuramos as novas feridas, mas

Há sempre o espectro a nos rondar.

As Sombras de uma pergunta

Jamais feita, mas sempre pensada

“Se até você, ser celestial, se perdeu

O que será de mim, de nós?”

A última parte lhe deu calafrios. Não queria falar sobre ele, não sobre ele, não sobre as Sombras, mas achou que era válido. Suas vidas nunca teriam sido do jeito que eram se a morte de Oliver não tivesse empurrado a primeira peça da pilha de dominós que era a vida da infortunada família Hentz.

— Gostei — disse Lore sem expressar nenhuma reação. Ele não sabia muito sobre Oliver, não sabia nada sobre a importância do pobre garoto de cabelos prateados e olhos de cor anil, brilhantes e límpidos como estrelas. — Está bom por hoje. Tenho que transformar isso em música. Recite novamente para mim que eu não me esqueço. E obrigado.

E se inclinou para dar-lhe um beijo na bochecha. E realmente deu na bochecha, graças a Deus. Nick recitou em voz alta novamente todos os versos e então saiu do quarto, finalmente. O seu não era muito longe, mas ele demorou na caminhada. Os rostos das pinturas originais dos grandões da arte medieval fitavam-no acusadoramente. Por que mesmo eles estavam destinados a ficarem empoeirando na escuridão?

Decidiu ir à biblioteca. O recinto era alto — Nick suspeitava que pegava também o nonagésimo quarto andar —, com prateleiras de madeira mais altas ainda e milhares de exemplares à disposição. O piso era de madeira escura e encerada, elisabetano, assim como as mesas e cadeiras de leitura. As poltronas eram enormes acolchoados de couro marrom-escuro e as paredes, onde não estavam cobertas por prateleiras, eram verde-escuras. Havia uma magnífica lareira com um Holbein original pendurado por cima, além um pequeno primeiro andar que não passava de um segundo piso formado por tábuas anexadas à parede para dar acessibilidade às prateleiras mais altas. O piso era acessível por uma estreita escada em espiral. Todo o ambiente era bem iluminado, embora fosse possível modificar o nível de luz, mas era aconchegantemente abafado, pequeno e grande ao mesmo tempo.

Lorenzo frequentemente zombava dele ao perguntar por que gostava de lá se nunca lia nenhum livro. Na verdade, Nick gostava de olhar para a biblioteca sentado naquela poltrona pouco atrás da porta de entrada, onde enxergava cada centímetro do lugar. Gostava de olhar por várias horas como se fosse uma pintura que mudava quase imperceptivelmente ao longo do dia — a posição dos raios de sol que atravessavam as janelinhas no teto e explodiam em poças no chão e subiam pelas paredes com o passar das horas; o estalar dos móveis com a mudança de umidade; o esvoaçar da cópia de Security Analysis de Ethan aberta sobre a grande escrivaninha de acordo com a velocidade do vento, juntamente com exemplares da Forbes, The Economist e The New York Times; o cintilar das luzes acesas das lamparinas e do grande lustre.

Aquilo ajudava-o também a se lembrar de detalhes pequenos e tratá-los como se fossem grande coisa, a guardá-los na mente e a combater seu déficit de atenção. Era uma técnica que um dos roteiristas da HBC lhe ensinara para ajudá-lo a decorar as falas. Ainda bem que ninguém sabia que ele andava fazendo aquilo, ou a polícia poderia usar para refutar o que ele dissera no interrogatório. Ou talvez estivesse apenas ficando paranoico.

Se bem que naqueles tempos tenebrosos toda a segurança era necessária.

Chamara Spring para ficar ali àquela noite. Nick não fazia ideia da espécie de bruxaria que ele praticava para escapar da Escola St. Nicholas e ir ao Palácio e nunca ser notado; talvez Autumn o ajudasse, ou Winter. Talvez a segurança da escola fosse mesmo ruim, mas com a morte de Lafferty tenderia a melhorar. Será que ele não pensara nisso? Não importava. A questão é que estava ali, conforme indicava a mensagem recebida em seu celular.

Pegou-o no elevador e o levou ao quarto em passos estranhamente despreocupados. Os cabelos de Spring estavam jogados para trás da cabeça, deixando o rosto livre, sem aquela franja enorme e louro-amarronzada. Os olhos estavam tristes e levemente confusos, brilhantes como esmeraldas. Carregava uma mochila nas costas, talvez fossem provisões, como se Nick não tivesse um Chef particular disponível vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.

— Está triste? — indagou a ele quando o viu se sentar na beirada da cama com a mochila ao lado, como uma criança mandada ao quarto mais cedo sem jantar. Spring assentiu, tirando uma mecha de cabelo rebelde da testa.

— Sinto que está tudo errado. Tudo está diferente. E para ruim.

Nick esperou pacientemente durante três segundos para que ele percebesse a falta de tato que aquele frase continha, e quando Spring e o fez e arregalou os olhos, abrindo a boca para se desculpar e dizer que ele não tinha parte nas mudanças ruins, Nick fez um sinal sutil e gentil para que não falasse nada.

— Sim, está. — Ajudou-o a descer o zíper do casaco que usava e o tirou, atirando-o num dos sofás de descanso do quarto. Perguntou-se se parte de sua tristeza tinha algo a ver com Summer, mas não era cruel ao ponto de perguntá-lo sobre isso. — Para mim e para você. Minha vida mudou tanto nos últimos dois anos que você não acreditaria. Eu sei como é viver uma segunda vida de repente; ser arrancado da sua e forçado a aturar outra. Mas faz parte da vida como um todo, não faz…?

— Winter e Autumn vão deixar a escola no final desse semestre — ele falou. — Eles vão se casar na Inglaterra. Farão o ACEM para terminarem o ensino médio e então irão embora. Creio que passarão a viver sozinhos com o dinheiro da herança da bisavó de Winter e depois… nem eles sabem. Loucuras de adolescentes.

Aquele era um plano confuso e tão cheio de falhas que Nick sentiu vontade de dizer que era mais fácil eles pularem da Ponte de Westminster direto para o Rio Tâmisa que viverem felizes por muito tempo.

— Está triste porque eles vão embora, não é?

Spring assentiu. Nick não aguentou mais.

— Spring, é mesmo tão impossível assim você voltar a falar com Summer?

Ele o fitou com olhos cheios de mágoa e confusão.

— Você quer que eu seja bem sincero? Eu não creio ter força suficiente para conversar com Summer durante cinco minutos sem… sem ter vontade de…

— De beijá-lo? — indagou com um cinismo sutil. — De transar com ele? Não minta para mim. Eu sei que você ainda o ama, o ama mesmo. Eu ainda amo minhas ex-namoradas, as três, inclusive as duas que morreram. O que eu quero dizer é que… eu compreendo você, cada situação da sua vida, eu as compreendo e as aceito. O que eu não aceito é que você seja desonesto comigo. Então, por favor, não seja.

Spring já não olhava mais para Nicholas, e sim para um canto qualquer do tapete do quarto. Quando se virou para dizer-lhe algo, algo com ar de tem algo que eu preciso de contar, acidentalmente bateu com o cotovelo na mochila e a atirou no chão. O barulho do grito fino que proveio de sua garganta branca ficou suspenso no quarto por um bom tempo. Ele agarrou a mochila e abriu discretamente, longe da vista de Nick, provavelmente para ver se nada se quebrara. Então soltou um suspiro de alívio.

Nick não deu indício algum de que iria arrancar a mochila de suas mãos, mas foi o que ele fez. Spring só percebeu quando ele já abrira a mochila e vira o reflexo inconfundível dos incontáveis frascos de remédios, alguns de vidro, todos com nomes estranhos e assustadores, todos tarja preta.

— Não! — Spring gritou, atirando-se para puxar a mochila de volta. Nick não fez menção de segurá-la, apenas ficou olhando para ele enquanto fechava-a, com um misto de mágoa e tristeza crescendo no peito.

— Você está doente? — perguntou com um singelo e deslocado tom acusatório. — E você não me contou sobre isso?

— Pare, por favor.

Ele agora prostrava-se de joelhos no chão, segurando firmemente a mochila com uma das mãos e pressionando a outra no rosto, como que numa tentativa de esconder o rosto ao suprimir a vontade de chorar. Mas ele não conseguiu. Ele realmente chorou de joelhos no quarto de Nicholas enquanto este estava de pé, de braços cruzados, encarando-o sem conseguir sentir ou cultivar um pingo de piedade no peito.

Estava realmente cansado de mentiras. E agora a última pessoa que esperava mentira também. Aquilo nunca teria fim?

— Me desculpe. Deveria ter te contado. Porque eu…

— Porque você o quê?

Havia uma espécie de surpresa no olhar que Spring lhe deu.

— Porque eu nunca fiz sexo com você. Não tem nada a ver com Summer.

Demorou pouco tempo para Nick ligar os pontos. Os remédios…

— Eu fui estuprado quanto tinha doze anos — ele continuou. — Foi Summer quem me salvou, mas ele não conseguiu fazê-lo a tempo. Quando eu chegou, eu já estava… já estava doente. Por isso os remédios. Por isso não quero fazer sexo com você. Eu não aguentaria correr o risco.

Nick agora havia se ajoelhado em frente a ele. Segurou seu rosto delicado com as mãos e fitou seus olhos profundamente, procurando a confirmação do que indagava.

— Você tem HIV.

Em seguida uma lembrança envolveu seus olhos, uma lembrança envolvendo um consultório branco, um dossiê sobre a condição de seu sangue e uma infecção por cândida chamada candidíase. Uma lembrança datada de um tempo onde as coisas eram mais sombrias do que agora e as Sombras encarnadas imperavam no mundo.

— Você já ouviu falar de uma proteína dos glóbulos brancos chamada CD4?

Ele assentiu, sem saber onde Nick queria chegar.

Nicholas sorriu.

— Então. Eu não.

Notas finais
Sim, usei uma música da Katy Perry e uma da Lady Gaga como citações. :3 Btw, eu acho que combina mais que perfeitamente com o Nick. xD Funny fact: Irmã Mary Nicholas é a bisavó biológica de Nick. O neto dela, Charles, seria Charles Fontanelle, pai postiço de Lucas que morreu no ano assado e que teve Nick, mas ele foi trocado com Lucas e daí todos já sabem da novela. O triste é que nenhum dos dois sabe disso. Tem outro fato sobre isso, mas eu só vou dizer quando postar o epílogo dessa temporada, que será quando eu postar também a árvore genealógica das famílias.