Um para a tristeza, dois para a alegria,

Três para nascimento, quatro para matrimônio,

Cinco para o paraíso, seis para o Inferno,

Sete para o próprio demônio.

(Elizabeth I, O Anoitecer de um Reinado

Margaret George)

Ó, vós, na possessão de tão robustos intelectos,

Observai os ensinamentos que se escondem…

Sob o véu destes estranhos versos.

(A Divina Comédia

Dante Alighieri)

Ninguém sabe os poderes que estão trancados dentro de outro; ninguém sabe, talvez, quais poderes estão trancados dentro de si mesmo.

(A Rainha dos Condenados

Anne Rice)

Algumas coisas iluminam o cair da noite

e pintam de um sofrimento um Rembrandt.

Mas em geral a rapidez do tempo

é uma piada; à nossa custa. A mariposa

é incapaz de rir. Que sorte.

Os mitos estão mortos.

(Poem on crawling into bed: bitterness

Stan Rice)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

[…]

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? […]

(Poema em linha reta

Álvaro de Campos)

Ninguém sabe como é ser o homem mau

Ser o homem triste, por trás dos olhos azuis.

E ninguém sabe como é, ser odiado,

Ser destinado, a contar só mentiras…

Mas meus sonhos não são tão vazios

Quanto minha consciência parece ser.

Passo horas de pura solidão

Meu amor é a vingança que nunca é livre. […]

(Behind Blue Eyes

The Who)

OoO

­­­­­­­­­­

O sorriso cativante e branquíssimo de Nicholas Hentz era o ponto mais chamativo de seu rosto. Pro inferno com o cabelo louro hidratado como uma criança europeia, as covinhas nos cantos da bochecha, o queixo delicado e os olhos muito negros, grandes e redondos. Pouco importava a delicadeza, felicidade e sinceridade impregnadas em seu olhar, no modo como frequentemente lambia os lábios de forma quase sensual para umedecê-los e nos olhares irônicos que lançava o tempo todo.

O sorriso era a coisa mais bonita, pois resumia todo o resto. O sorriso de uma lascívia sem igual de um garoto absurdamente rico, feliz e famoso, daquele tipo que não poderia ser pirateado, imitado ou mesmo falsificado por ele próprio. Era genuíno aquele sorriso, mas o brilho perfeito dos trinta e dois dentes era certamente obra de um dentista muitíssimo talentoso.

As risadas. Como ele ria adoravelmente, tão meigo quanto sedutor. E sua voz era levemente feminina ainda que um pouco rouca, do tipo que dá vontade de se aproximar para ouvir melhor ao invés de pedir que falasse mais alto. Dava vontade de apertar-lhe a bochechas e então beijar os lábios, lamber a pele dourada e macia do pescoço enquanto o ouvia gemer seu nome como uma criança, como uma menina, o que quer que Nicholas Hentz parecesse, o que quer que o fetiche ditasse.

Quem no mundo não daria para estar em seu lugar? Para ser membro da lendária dinastia Hentz? Pelo menos um dos ramos adjacentes, não precisava nem ser o principal, não. Apenas para ter contato com aquele luxo quase feudal em que viviam. Como será que era viver sem a preocupação de ter um pão para comer no dia seguinte? Ou sem a preocupação de ser roubado enquanto dormia debaixo de uma ponte?

Aliás, aquela beldade loura era irmão do bilionário mais promissor do mundo. O bom Ethan Lemnsack, que nasceu em berço de ouro e que seria enterrado num caixão de diamantes. Será que se ele fosse cremado, os ossos, órgãos e pele formariam ao invés de cinzas pó de ouro? Ou então dos fabulosos diamantes que construíram o nome e riqueza de sua família?

O próprio Nicholas era um diamante. Trajado divinamente dentro de um fraque escuro, usava um colete cinza-claro por baixo e uma gravata da mesma cor mais clara. As calças eram um pouco mais escuras que o colete, um pouco mais claras que o fraque, como ditava a moda, os sapatos eram sociais e pretos de graxa… Lindo, absolutamente maravilhoso.

Parecia impossível não se deliciar com aquele carisma louro, um espetáculo da nobreza informal irremediavelmente atado à elite da sociedade, destinado a viajar em carrões e jatinhos, morar em mansões e se hospedar em castelos ao lado das cabeças coroadas da Europa. Sempre feliz.

Edric Summer odiava absolutamente cada detalhe nele. Odiava o nariz naturalmente perfeito e fino, odiava a cor e textura indescritivelmente bem trabalhadas de seu cabelo, como se aqueles fios de ouro houvessem sido tecidos pelo próprio Criador. Odiava até os pelinhos minúsculos e claros de seu rosto angelical. Quão diabólico ele precisaria ser para parecer-se tanto com um anjo?

Como Spring pudera se apaixonar por aquele poço de arrogância, cinismo e prepotência? Por aquela mente absurdamente infantil, egoísta e sem um pingo de noção de moralidade, que simplesmente não conseguia compreender que o mundo não estava a seus pés? Ele sorria tanto. Sorria demais, quase forçado, mas a pior parte era que não era forçado. Era simplesmente natural. Naturalmente perfeito.

Perfeito, e alguém é perfeito hoje em dia?, pensou enquanto abraçava a si mesmo em frente a uma loja de eletrônicos que fazia fronteira com o Parque Hentz. Sim, os Hentz compraram aquele parque público. Como poderiam, Summer não sabia. Mas não eram eles mais que deuses?

Sentia-se num livro de drama barato ambientado na San Francisco dos anos 80, olhando para aquele amontoado de televisores através de uma vitrine que passavam a mesma coisa no mesmo canal. Coisas como aquela só não aconteciam nos filmes?

Era um dia anormalmente frio para uma primavera. Quando seria o solstício de verão? Ainda não estava na hora, ainda não. Apenas em junho… não faltava muito, não era mesmo? Se aquela era a hora da primavera, Summer nada poderia fazer a não ser deixar sua primaverinha aproveitá-la.

As telas das TVs mostravam Nicholas Hentz confortavelmente sentado numa poltrona cor de creme com um homem de curtos cabelos louros ao seu lado numa poltrona igual. Seu nome era David Paradis. Estavam no The Paradis Show. Sim, era um programa de entrevistas. Nicholas era realmente uma celebridade.

Passaram quase meia hora conversando sobre adolescência, sexualidade, depressão, órfãos de pai e mãe, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, tentativas de suicídio, anorexia, relacionamento com irmãos e sobre a série em que Nicholas atuava, o autor Melchior produzia e seu irmão patrocinava. Quanta sorte.

O mundo estava sedento pela vida da família Hentz. Aquela era a primeira entrevista que um deles concedia, o magnum opus de David Paradis. A última vez que isso aconteceu foi quando Mary Alice Hentz convocara uma coletiva de imprensa para dizer que abriria as ações da Kruger-Vorheel Company ao público, catorze anos atrás.

O modo com o qual Nicholas falava era incrivelmente maduro para alguém da idade dele. E o pior era que não escolhia as palavras a dedo, elas simplesmente vinham naturalmente. Conseguira até falar de política num programa cuja audiência era composta primariamente por adolescentes e jovens adultos.

Se Spring não fosse louro, Summer de bom grado se permitiria pensar que todos os louros eram burros.

Quando Nicholas se permitira um momento de humildade e dissera que nunca se importara verdadeiramente com a riqueza, Summer não soube se ria, chorava ou quebrava a vitrine daquela loja. As fraquezas autoimpostas nunca são autênticas.

O maldito hipócrita realmente pensava aquilo? Será que tal teoria não seria mais condizente ou plausível se ele tirasse o brinco de ouro e safira da orelha real ou o Rolex do pulso? Talvez se aquela magnífica pedra preciosa sumisse de vista, Summer poderia ter acreditado. Talvez se Nicholas não certamente tivesse ido ao programa de limusine, como fazia com a escola, ele acreditasse. Se ele despisse o traje feito sob medida por estilistas italianos e o anel cravejado de joias que carregava no dedo, ou ainda mesmo o broche leonino de prata e diamante preso à camisa, ele acreditasse!

Bem, não acreditaria, mas mesmo assim…

A verdade é que não aguentava mais ouvir falar sobre Nicholas Hentz. Todos os dias, absolutamente todos eles, havia uma multidão de fãs seus nas portas da escola. E todos os dias ele tirava fotografias com eles, assinava seus braços ou caderninhos de autógrafos, beijava a bochecha das meninas e abraçava os meninos. Aquelas criaturas ensandecidas com a beleza de Nicholas pareciam querer sugar o sangue de Spring, que acabava sendo sempre arrastado com ele para dentro da limusine.

O pior era que agora ele realmente admitia, num programa de transmissão internacional, que Ethan era gay, que ele mesmo se considerava bissexual e que tinha um namorado chamado… ah, não direi seu nome, mas ele é tão bonito quanto a primavera. Isso mesmo, David, bom garoto. Lamba as costas da minha mão. Faça-os me amar. Eu preciso ser amado.

E quanto a Lorenzo? Apenas uma criança. Pergunte a ele daqui a uns cinco anos.

O idiota nem entendia o perigo de falar sobre Spring! Os pais dele não sabiam.

Summer foi embora dali quando Nicholas declarou que haveria de doar cem mil dólares a um centro cultural de crianças carentes. Ele esqueceu de mencionar que o centro pertencia à família dele, mas tudo bem, pois arrancou lágrimas quando mostrou as tatuagens nos pulsos cortados com os nomes dos irmãos. A salva de palmas da plateia e os closes estratégicos nos rostos juvenis chorosos fora satisfatória. O programa bateria recordes de audiência.

Anoitecia. O céu tinha um profundo tom de púrpura escuro e sem estrelas. Alguém uma vez lhe dissera que a distância que separa as estrelas da Terra é tão grande que quando seus brilhos finalmente chegam, elas já estão mortas. Summer achou aquilo estranhamente filosófico. As estrelas estavam mortas para ele havia tempo suficiente para ter se esquecido de seu brilho.

Uma vez, quando lera A Divina Comédia, de Dante Alighieri, percebera que as três partes do poema — Inferno, Purgatório e Paraíso — acabavam com a mesma palavra: estrelas. Summer imaginava se Dante soubera aquele fato inusitado e nada romântico sobre seu brilho. Nada mais era que reminiscências dos mortos.

Seguiu andando sem pressa pela Rua Primeira — muito bem reconstruída, por sinal —, às vezes esbarrando nas pessoas de propósito, apenas para ter algum contato humano. Nunca ficara tanto tempo assim sem tocar Spring do jeito que gostava. Perguntava-se se ele sofria também até que se lembrou que ele tinha os braços macios e dourados de Nicholas.

Finalmente chegou a um prédio de luxo chamado Epillare. Tirou do bolso a chave roubada e seguiu tranquilamente pelo extenso jardim. Cumprimentou o jardineiro e o porteiro do prédio, entrando num daqueles cubículos de aço que era o elevador. Subiu pacientemente os trinta andares antes de parar na cobertura, que cobria o andar inteiro.

No ala antecedente ao apartamento — pertencente a uma família rica do ramo industrial —, Summer discretamente retirou as escadas do armário de vassouras e a armou num ponto estratégico do corredor. Havia uma pequena abertura quadrada no teto, que na verdade era o caminho para o terraço do prédio.

Subiu as escadas e deu um empurrão forte na parte móvel do teto. A tela se moveu para o lado e então Summer pulou lá dentro com a mochila. Propositalmente derrubou a escada abaixo de si, fechando a abertura.

O lugar em que se encontrava era uma espécie de sótão. Mais ou menos do tamanho de uma sala de aula, havia outra abertura no teto com uma escada fixa na parede servindo de apoio, que dava acesso ao telhado do prédio. Metade do piso do lugar era forro revestido de madeira, ou seja, imprestável para pisar. Seria como pisar na parte de trás da tela de um clássico renascentista.

A outra metade era madeira corroída, consideravelmente frágil e cheia de poeira. Havia uma colchonete finíssima num canto junto a uma lamparina e sacos de lixo com restos de comida. Summer precisaria se livrar daquilo.

Retirou o uniforme da escola e dobrou-o cuidadosamente para evitar que amassasse. Depois jogou a cueca para o lado e deitou-se nu na colchonete, apreciando o calor abafado daquele sótão. Lembrava-o casa. Claro que ali não era sua casa, na verdade precisaria se mudar logo, logo. Os empregados do prédio rapidamente suspeitariam dele por não ser filho de nenhuma das tradicionais famílias moradoras.

Com a luminária acesa fez o dever de casa calmamente, terminando cedo. Conseguira comprar um jantar barato numa lanchonete vagabunda do centro da cidade, jantar esse que comeu silenciosamente enquanto terminava a lição.

Quando tudo acabou, fechou os olhos por um segundo, sonolento como sempre. Pensou em Spring, naquele sorriso branco e naqueles olhos de esmeralda. Seu Spring. Não importava o que fizera, eles continuavam sendo um do outro. O contrário não fazia sentido, simplesmente.

Quando se encontrou suficientemente excitado, segurou o próprio sexo com força e começou a estimulá-lo. O corpo de Spring surgiu de repente em sua mente, perfeito e bronzeado, como ele sempre gostava. Em sua imaginação, beijava, lambia e mordia a carne macia, chupava onde devia até que ele pedisse que se enterrasse dentro de si. Summer o fez, abraçando-o por trás.

Gemeu alto demais quando chegou ao orgasmo. Ondas de calor irradiavam em seu corpo, dos pés à cabeça. Queria fazer aquilo com ele, precisava dele. Perguntou-se se ele fazia aquilo com Nicholas. O exporia ao perigo? Teria contado a verdade? Spring nunca havia contado frente a frente a ninguém. Não conseguiria.

Como de costume, chorou por alguns minutos. Era um lamento silencioso, agonizante e sofrido. Não fazia barulho, apenas deixava as lágrimas escorrerem pelo rosto. Se era tão bonito como diziam, por que não tinha o mesmo sucesso de Nicholas? A inveja que sentia dele era insuportável. Preferia substituí-la por ódio.

Summer queria Spring de volta. Seria um desejo mais aceitável se não fosse ele o arquiteto de seu próprio inferno.

— Talvez eu deva escrever um drama romântico baseado na minha vida — sussurrou à escuridão. — O problema é que os leitores me odiariam pelo que fiz com Spring sem saber nada sobre mim.

Poucos minutos antes das dez horas da noite, desceu do sótão. A ala anterior ao esplêndido apartamento estava vazia, mas todas as luzes estavam acesas. Quanto o prédio pagava por mês por aquela extravagância? Para manter os esdrúxulos móveis de couro legítimo bem iluminados para ninguém? Aquela família certamente não suspeitava de um garoto ruivo vivendo no sótão do prédio.

Vestindo uma de suas poucas roupas normais, pegou o elevador e desceu ao térreo. Havia algumas crianças brincando no parquinho do jardim, com suas respectivas babás tricotando nos bancos a espera. Pensava que cenas como aquela só se viam nos filmes.

Sabia que a portaria estaria vazia àquele momento por causa da troca de porteiros. Pulou o balcão e atravessou a porta dos fundos, entrando no quarto anterior. Aquele recinto servia como quarto de descanso aos empregados do prédio. Estava cheio de bolsas e mochilas, e tinha um banheiro anexado. Summer trancou a porta do quarto e entrou no banheiro.

Após ter feito tudo o que tinha de fazer e tomado banho, vasculhou discretamente as bolsas femininas e mochilas masculinas. Odiava de todo o coração fazer aquilo, mas realmente não havia outra maneira. De forma alguma poderia trabalhar de noite e estudar de tarde e de manhã ao mesmo tempo. E não largaria a escola. Se se afastasse ainda mais de Spring, definharia.

A pior parte talvez não era tê-lo perdido, mas sim seus dois outros amigos também. Winter simplesmente não podia cruzar com ele e Autumn tinha que ficar ao seu lado para impedi-lo de irromper um acesso de raiva. O hematoma de Spring estava bem escondido com maquiagem, e Autumn contara que Nicholas nunca soubera dele. Aquilo era óbvio. Se soubesse, não haveria mais Summer para Autumn contar nada, haveria?

A solidão corroia uma alma mais rapidamente que a pobreza.

Também havia outros motivos para esbarrar propositalmente em tantas pessoas no caminho de casa, além do contato humano. Quando se vive nas ruas tem-se que aprender a bater carteiras.

Aquele dia havia lhe rendido cento e cinquenta dólares. Não era tão mal. A mensalidade da St. Nicholas era de mil dólares, mas também havia o fato de que Summer era um ser humano e precisava se alimentar. Aliás, também teria que achar outro lugar para ficar…

Nunca havia contado aquilo a seus amigos, assim como Spring nunca havia contado seu segredo em voz alta a ninguém, mas todos sabiam. Era uma verdade silenciosa, a de que aquele estranho e subversivo casal mantinha seus pequenos mistérios trancados no fundo de um baú em nome das aparências.

Spring já pedira, não, implorara, que Summer dormisse pelo menos os fins de semana em sua casa, já que se recusava veementemente a fazê-lo nos outros dias. Ele aceitou durante alguns meses, mas então Lincoln Spring os pegou num momento de intimidade. A voz fria daquela aberração sociopata estava impregnada em sua mente desde então.

— Já basta de vocês dois fazerem tanto barulho enquanto eu durmo na beliche de cima, eu sou uma criança, sabiam? — Nesse momento ele dera um sorriso cínico que o assemelhou horrivelmente a seu irmão mais velho. Como podiam ser tão parecidos por fora? Virara-se para Summer então: — Não quero mais que você venha aqui. E, se vier, vou ter que espalhar o segredo sujo de vocês dois. — Depois para Spring: — Como se sente sendo o cachorrinho de Summer?

Summer nunca mais voltou lá depois disso. Spring também nunca mais falou com o irmão.

Depois a coisa mais estranha do mundo aconteceu: Winter ofereceu a mesma coisa. Foi de má vontade, e ele não fazia questão alguma de esconder isso. Naquela época, o garoto mais bonito da St. Nicholas era uma criatura muito mais cínica do que era nos dias de hoje, quando a boa influência de Autumn finalmente o impregnou.

Mas se havia algo que Summer não suportava era que sentissem misericórdia por ele. Recusara o convite friamente e depois jamais voltaram a falar sobre isso, a não ser quando Winter pediu desculpas sinceras. Ele não ofereceu de novo porque ambos sabiam que Summer não aceitaria.

E por que ele não morava no campus da St. Nicholas? Porque eles triplicariam o valor da mensalidade da escola. Era incomensurável.

Felizmente nenhum deles jamais perguntou sobre seus pais.

Preferiam se preocupar com os prédios abandonados em que ele dormia, com os sótãos dos habitados, com as pontes nas quais ele dormia debaixo algumas vezes e com os becos fétidos que por vezes eram sua casa. Quando se vive num lugar sujo com pessoas sujas, você nunca esquece a raiva que sente deles.

Está tudo bem, tudo ficará melhor no dia seguinte… você pode até mesmo achar um pedaço de frango no lixo que não tenha larvas.

Voltou ao sótão, subiu silenciosamente e dormiu do mesmo modo. O despertador tocou às cinco da manhã. Não poderia acordar mais tarde, pois os funcionários chegavam às cinco e quinze, então tinha apenas esse tempo de usar o banheiro para escovar os dentes e ajeitar os espessos fios ruivos. Talvez precisasse cortá-los. As madeixas já chegavam aos ombros.

Sim, ele os cortaria quando aprendesse a cortar o cabelo sozinho.

Logo após vestir o uniforme, ainda sonolento, retirou a tela que cobria o buraco no chão do sótão e pulou para o chão do andar debaixo. Aquele processo era destrutivo se não aterrissasse da forma certa, pois era uma queda de quase dois metros e ele não tinha escada para isso.

E só quando aterrissou foi que percebeu que havia esquecido de checar se de fato havia alguém naquela sala. Certamente não haveria, eram pouco mais de cinco horas da manhã e os ricos nunca acordavam àquela hora porque não precisavam.

Mas, naquela fatídica manhã, havia. Na única manhã em que Summer esquecera de checar se havia alguém ali, sim, havia, e estava olhando para ele! E como não olhar, se aquele garoto ruivo acabara de se materializar ali diretamente do teto?

A pessoa em questão era um garoto. Parecia alto para a idade, pois o rosto infantil denunciava que era mais novo que Summer. Talvez treze, catorze anos. Tinha cabelos muito negros e olhos miseravelmente verdes e brilhantes, bem como Spring os tinha. Mas não era Spring aquele ali, não, infelizmente não era.

Os olhos castanhos de Summer cruzaram-se com os deles por tempo suficiente para que o maior percebesse que ele ia gritar e se jogasse contra o garoto. Cobriu-lhe a boca com a mão, pressionando seu corpo contra o sofá.

— Não grite — sussurrou quase desesperado. — Por favor, pelo amor de Deus, não grite. Eu imploro.

O terror lentamente foi deixando seus olhos verdes até sumirem por completo. Summer retirou a mão da boca dele, afastando-se lentamente. O garoto empertigou-se no sofá com a coluna ereta, quase arrogantemente. Mas não havia arrogância ali, apenas uma sincera curiosidade.

— Por que estava lá em cima? — Ele apontou para o teto, onde o buraco ainda estava aberto. Sem falar nada, Summer pegou a escada no armário de vassouras, subiu e fechou-o com a tela.

— Lá em cima onde? — indagou a ele suavemente. Sem dizer mais nada, dirigiu-se ao elevador. A última coisa que viu antes das portas fecharem foi seus olhos.

Como não pretendia gastar dinheiro com o ônibus — a verdade é que Summer nunca aprendera a andar de ônibus —, pôs-se a andar. A Rua Primeira tinha quase quinze quilômetros de comprimento, e Summer estava provavelmente no décimo. Depois disso, ainda tinha um emaranhado de ruas e avenidas até que chegasse à escola, então não fazia lá muita diferença estar no décimo quilômetro ou em Wintorland.

Pelo menos os bons quinze quilômetros de caminhada que fazia todos os dias dispensava-o de qualquer outro tipo de exercício. Só os fazia para que pudesse ficar na escola o máximo de tempo possível. Não importava que Spring não quisesse vê-lo agora, nada poderia impedir Summer de deitar o olhar sobre sua primaverinha por quanto tempo pudesse.

Já estava tão acostumado com aquilo que praticamente já não suava tanto assim ao chegar à escola. Quanto atravessou o pátio frontal, o Pátio e terminou o caminho pela Estrada Principal no Sul, viu, ao longe, no vestiário do ginásio II, uma movimentação de trabalhadores. Não pertenciam à Anhert. Summer mal podia acreditar que realmente achara que o padre Lafferty Winter estaria lá dentro. Se ele estivesse, Ethan Lemnsack não teria deixado que outra construtora assumisse o comando daquelas obras.

Perdera Spring por nada, então? Tivera que aguentar ele chegando no internato com aquelas marcas repulsivas de chupão que Nicholas deixava em seu delicado pescoço por nada? Será que ele já gostava naquela época? Será que já sentia nojo de Summer quando se deitavam após isso? Ou apenas raiva?

A pior parte das minhas perguntas é que o único ser humano que pode respondê-las é exatamente o que mais não quer falar comigo.

Achava que encontraria Winter se prostituindo para alguém em algum lugar — que, afinal, era o único motivo pelo qual ele era praticamente o primeiro a chegar todos os dias —, mas não achou-o em lugar algum. Ah, sim, ele se casaria com Autumn. Summer, seu grande idiota, ele é rico e feliz. Como poderia se dar ao luxo de perder tudo isso ao saturar o outono com suas mentiras e traições?

— Se Autumn aguentou isso, por que Spring não? — indagou em voz alta demais, já parado em frente a Casa Vermelha.

Um vulto loiro saiu de dentro dos portões com ar distraído. O traje da St. Nicholas dele o tornava parecido com um príncipe de ouro, como não podia deixar de ser. Possuía as sobrancelhas cinzentas franzidas, mas era por causa do sol reincidindo contra seu rosto, e não por causa de Summer.

— O quê? — Nicholas indagou, sem o mínimo interesse. Spring ainda não havia chegado, então.

Summer ignorou-o. Entrou no prédio e subiu as escadas até sua sala, onde sentou-se na última cadeira, como sempre. Sentia vontade de se jogar pela janela. Mas que adolescente de dezesseis anos não sentia?

Nicholas entrou na sala pouco tempo depois. O resfolegar dele após subir tantos lances de escada obviamente o denunciava como um fumante. Deus, então Spring estaria sofrendo aquilo também?

— Escuta, não precisamos agir como Deus e o Diabo — ele disse de repente. Summer estava com a cabeça abaixada e, quando a levantou, rezou para que houvesse mais alguém na sala. Bom Cristo Senhor, não havia. Apenas um leão dourado com um brinco de ouro e safira e um Rolex.

Levantou uma das sobrancelhas. Deixaria que ele falasse.

— Quer dizer, eu sei que ele deixou você. Mas vocês brigaram. Coisas como essa acontecem. Ele apenas se recusou a chorar como uma menininha e seguiu em frente.

Como ele era ingênuo. Então Spring não contara a verdade a ele? Que só se aproximara por ordens de Summer? Por que Spring ainda sentia tanta raiva, então? Ele não entendia que Summer poderia ter delatado aquilo a Nicholas na hora que bem entendesse, destruindo seu relacionamento com Spring? Ele não o fez!

— E daí? — indagou com suavidade.

Nicholas suspirou. Criancinha ruiva petulante.

— Eu não quero que você aja estranhamente dessa forma. Não é apenas com Spring que você não fala mais, é com Autumn e Winter também. E eu não entendo o porquê. Quer dizer, entendo o Winter. Ele gostava de Spring, então acabou ficando do lado dele — Aquilo foi um choque para Summer. Ele não sabia daquilo —, mas eu não vejo motivo para Autumn ter feito a mesma coisa, nem que fosse para ficar do lado de Winter. Ele não faria isso. Então por que o fez? Vocês brigaram, algo assim?

Summer continuou sem dizer nada. Não havia realmente nada a dizer.

— Eu não aguento mais ver você sem falar com ninguém o dia todo. Sem falar com os amigos que você tinha antes que eu entrasse nas vidas de vocês. Foi você quem me apresentou a eles, afinal, lembra? No primeiro dia de aula?

Como esquecer? O dia em que a Terra parou.

— Winter me contou sobre seu… problema.

O rosto de Summer endureceu como se todos os ossos e tecidos musculares tivessem se tornado mármore. Os punhos se fecharam, as unhas machucando as palmas das mãos. Ele tencionou morder o lábio inferior, mas isso o machucaria, e sabia como Spring adorava ele mesmo fazer aquilo.

Sem se aguentar de ódio, bateu com o punho na mesa, causando um estrondo. Claro, tinha que ser Winter, o maldito Winter que só não era uma versão de olhos azuis de Nicholas porque não era uma celebridade. Mas eram iguais, não eram? Ambos podres por dentro.

— Não fique com raiva — Nicholas disse suavemente, mas sua voz tinha todo o autoritarismo que um Hentz deveria ter. Ele nem devia perceber aquilo. — Escute, desde que meu irmão comprou o Palácio Real Hentz, eu, ele e Lorenzo praticamente não vamos mais lá na nossa antiga casa, na Rua Symphonia. É um apartamento bem agradável.

Antes que Summer pudesse recusar o que sabia que ele iria oferecer, Nicholas ergueu a mão para que ele se calasse, completando com uma cortesia fria:

— Não é caridade. Não, absolutamente não é caridade, não é pena, não é coisa alguma. Não faço isso por você, faço isso por mim. Me sinto mal em ter bilhões de dólares quando há garotos de bom coração que sofreram desgraças na vida e agora têm que se submeter a bater carteiras, roubar comida e dormir em sótãos de prédios. O mais irônico é que meu irmão colocou na cabeça que quer construir um castelo aqui em Middleland. Ele está vendo como vai disponibilizar uma área de oitenta mil metros quadrados para isso, mas não importa. Não estou pedindo que você vá, que você fique lá, mas se algum dia sentir fome ou sono e não tiver outra alternativa, nenhuma outra, absolutamente nenhuma… — Ele estendeu sobre a mesa duas chaves, uma dourada e comprida e outra preta e curta — a casa dos Hentz sempre estará aberta para você, com uma cama quente e uma geladeira cheia. Depois você vai embora. Minha consciência se limpa rápido.

Ele sorriu um de seus famosos sorrisos e deixou a sala.

Summer ficou olhando para as chaves como se fossem bombas prestes a explodir. O que ele havia feito? Articulara tudo com perfeição, destrinchara e escangalhara a mente e os pensamentos de Summer e criara todo aquele discurso baseado em evitar o que ele não queria e acertar exatamente os pontos em que ele era mais sensível. Era uma forma extremamente crua de manipulação. Como não podia deixar de ser.

Não era caridade, certo? Nicholas queria apenas limpar a consciência, como deixara bem claro. Muito útil fazer aquilo com o ex-namorado do garoto que ele agora amava. E se ele não sentia pena de Summer… ora, por que não?

Pegou as chaves e as enfiou no bolso. Durante todo o dia, aquilo pesou como um parasita grudado a sua pele, alimentando-se da carne até chegar ao coração e devorá-lo numa única mordida.

No intervalo, voltou a encontrar o garoto que encontrara pela manhã no edifício.

Summer estava no coreto quando isso aconteceu, sentado num dos bancos, sobre o enorme crucifixo que mostrava o sofrimento de Jesus ao ser crucificado. Às vezes rezava para Ele. Sentia que não adiantava muita coisa, mas então parou e tudo o que conquistara em sua vida lhe fora retirado de repente.

E sequer juntava as mãos. Normalmente pousava-as nas coxas e fechava os olhos, então pedia. E quando terminava, abria os olhos e o mundo parecia um pouco mais limpo e bonito. Ele até conseguia apreciar as folhas balançantes das árvores, a maciez exótica do mármore do coreto, o ar quente daquela primavera tão triste. O mais irônico era que a freira que o ensinara a rezar daquela forma se chamava Mary Nicholas.

Mas naquele dia, quando abriu os olhos, o garoto estava lá. Seus olhos verdes fitavam Summer profundamente, quase assustados, mas irremediavelmente curiosos. O que Summer deveria fazer? Fingir que não o conhecia? Não, não, isso era idiotice.

A gravata e o cachecol vermelhos denunciavam-no como um nortenho vermelho, o que era horrível. O garoto era da St. Nicholas também. Que maior azar Summer poderia querer?

— Por que você mora lá em cima? — ele indagou. — Eu subi, eu vi as suas coisas. Não toquei em nada, mas eu vi. Você mora lá em cima. É você quem anda roubando o dinheiro dos faxineiros do prédio, não é?

Summer deu de ombros. Ele estava sendo direto demais.

— Não sei do que está falando.

— Eu sei que é você.

— Então por que pergunta?

Ele sentou-se ao seu lado no banquinho de pedra, mas Summer se afastou sutilmente. Naqueles tempos de abstinência sexual, qualquer contato humano era suficiente para acendê-lo. E o garoto ainda lhe lançava um olhar fascinado, como se ele fosse um alienígena.

— Meu nome é Stephan Brennan. Pode me chama de Seph.

— Não vou lhe chamar de coisa alguma.

Summer levantou-se e zarpou dali quase que com pressa, correndo sem correr, as pernas duras como pedra no automático, levando-o a qualquer lugar longe. Acabou parando na Capela St. Nicholas, em frente a suas grossas portas de bronze. Alguns alunos saíam e entravam, sentando-se nos bancos de madeira em frente ao altar. Um crucifixo monstruosamente grande observava a tudo e a todos.

Sentou-se num dos bancos, juntou as pernas e baixou a cabeça. Aquilo não teria fim? Provavelmente não, pois não se demorou nem um minuto para que Stephan reaparecesse ali.

— Você é como Deus — comentou infeliz a ele. — Está em todo lugar e nunca me deixará em paz.

— É verdade — ele confirmou. — Por que você mora lá?

— O que quer que eu diga? Você acha que eu tenho família no Epillare com um apartamento grande e luxuoso, mas prefiro ficar entre teias de aranha e dejetos de cupins? Não é óbvio que moro lá porque não tenho nenhum outro lugar para ir?

— Por quê?

— É difícil explicar. Eu teria que bater na sua cara e gritar com você.

— Foi o que fizeram com você?

O que deveriam ter feito, Summer pensou, mas não respondeu. Ficou olhando para o crucifixo. Pelo menos os pintores tiveram a decência de retratar Cristo com os cabelos e os olhos escuros. Quase ninguém parecia se dar conta de que ele viera do Oriente Médio.

— Você não pode ficar morando lá — Seph disse. — Eles já notaram que você não é filho de nenhuma das famílias tradicionais, pois andam perguntando. Ninguém do Epillare é ruivo. Só podem achar que você está roubando os faxineiros. Isso é muito desonesto. Eles trabalham duro para conseguir aquele dinheiro.

— Por isso eu estou nessa escola — disse com uma suavidade venenosa. — Porque, no futuro, não quero ter que dar duro para ter o que comer.

— Ainda assim não pode continuar morando lá — ele repetiu com a mesma suavidade. — Pelo menos… não no sótão.

Havia um brilho inconfundível em seus olhos verdes. Summer já o havia visto um milhão de vezes nos olhos dos fãs de Nicholas e dos amantes de Winter.

— Eu não vou me prostituir para você para que você me deixe dormir na sua casa.

— Não vou obrigá-lo a isso. Eu só quero mesmo que você durma na minha casa. Isso não muda o fato de que eu quero fazer sexo com você, mas eu sou um adolescente de catorze anos. Eu quero fazer sexo com tudo. E uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Summer parou para observá-lo por um tempo, dando mais atenção a seu sorriso claro e maliciosamente inocente. Ele não estava com pena. Estava apenas com tesão. Mas quem não teria tesão em Summer? O pensamento fê-lo rir. Naqueles tempos sombrios, precisava daquela cota de autoestima.

— O que vai dizer a seus pais? — indagou.

— Vou simplesmente dizer que você é um amigo da escola e perguntar se pode passar o fim de semana lá. Eles não vão estranhar. Os Brennan trabalham quase o tempo todo.

A maldição das famílias ricas. Pais e filhos tornam-se estranhos uns pros outros.

Quando o intervalo acabou, Summer seguiu de volta pela Estrada Principal até a Casa Vermelha, onde não havia ninguém a lhe esperar. Viu, de longe, Spring e Nicholas andando lado a lado tranquilamente, como se nada no mundo pudesse atingi-los. Alguns alunos hostilizavam-nos, mas, engraçadamente, absolutamente ninguém levantava a voz contra nenhum dos dois. Talvez porque se isso acontecesse Nicholas mandaria arrancar suas línguas.

Talvez ele seja melhor para Spring. Eu nunca poderia protegê-lo das pessoas que quereriam machucá-lo da forma que Nicholas pode.

Mais ao longe, Winter e Autumn também conversavam alegremente sob uma árvore frutífera, mas ela não estava na época dos frutos. Winter possuía um sorriso enorme no rosto. Parecia feliz em mostrar a beleza de seus dentes branquíssimos ao mundo. E Autumn, a única criatura na Terra que parecia ser capaz de entender Summer e Winter ao mesmo tempo, falava com ele, frequentemente acariciando seu cabelo ou apertando-lhe a bochecha carinhosamente.

Ninguém em volta se importava. Eram eles, sempre foram, as estações, alheios aos problemas do mundo, preocupados apenas com a felicidade de seus respectivos companheiros e a data de lançamento do próximo livro de Lympharia. O que restava agora?

Winter e Autumn possuíam um discreto anel no dedo anelar, cada um. Ouro e diamante, um idêntico ao outro. Eles se casariam logo, talvez no final do semestre. Winter acabaria por sair de casa de qualquer jeito, receberia a herança que sua doce bisavó Marcella Greenwood deixara para seus futuros bisnetos — já que ela falecera antes de conhecê-los — e zarparia mundo afora com Autumn. A sorte era que Jules du Pont era apenas seu neto, então não receberia nada. Talvez ignorassem o resto do ensino médio e fizessem algum exame, na Califórnia ou na Inglaterra, que servisse como suplemento. Summer acreditava que a mãe de Autumn aprovava aquilo.

As vantagens e desvantagens de ser maior de idade aos dezesseis anos.

E Nicholas e Spring? Ethan Lemnsack era inteligente demais para deixar seu querido irmão fazer um absurdo tão grande quanto os dois primeiros Edrics. Alguma coisa dentro de Summer dizia-lhe com clareza que a dourada herança Hentz jamais passaria às mãos de Nicholas enquanto estas estivessem impregnadas com a essência de Spring. Só não queria que ele o levasse embora numa dessas loucuras que os adolescentes ricos às vezes fazem.

No mais, Spring parecia feliz. E isso era o importante.

Esperou pacientemente que eles entrassem na Casa Vermelha antes de repetir o gesto. Gostava de ser o último a entrar na sala para que pudesse vislumbrar o rostinho feminino de Spring enquanto se dirigia à última cadeira. Summer percebera, e há muito tempo já, que ele sempre limpava o rosto quando os dois inevitavelmente se aproximavam. Isto é, a expressão. Seu sorriso sumia, os olhos ficavam duros e entreabertos, os detalhados músculos das bochechas endureciam. Pegá-lo desprevenido tornava-se então a coisa mais maravilhosa, quando tanto os lábios quanto os olhos conservavam o riso espontâneo de criança, uma felicidade tão genuína que quase doía-lhe o coração.

Numa coisa Winter tinha razão: Summer relaxara no relacionamento dos dois.

Mas ele jamais vira Spring como uma coisa para ser usada apenas quando se queria prazer. Disso tinha plena certeza. No fim, a espera sempre valia a pena.

Quando ultrapassou os portões do prédio, Autumn estava lá, sozinho. Pela posição de descanso, tornou-se óbvio que já estava lhe esperando.

— Como você está? — perguntou com suavidade, os olhos castanhos meio dourados por trás dos óculos retangulares fitando-o com profundidade. Parecia querer-lhe rasgar a alma por ter certeza que Summer daria uma resposta mentirosa.

— Como pareço estar? — devolveu.

Autumn deu de ombros, passando o braço pelos de Summer.

— Bem, como todos. — Começaram a subir a escada. — Mas Spring também parece estar maravilhosamente bem.

Se ele não estivesse gentilmente forçando-o a andar, Summer teria parado.

— Ele não está? — perguntou com uma esperança absurda.

— Ele está ótimo. Ele e Nicholas foram jantar nesse fim de semana. Em Roma. — Ele deu uma risada. — Foram no recém-comprado jatinho da família Hentz. Batizaram-no Leãozinho, você acredita nisso? Spring contou que parece um palacete por dentro, também disse que a pizza romana é ótima. Mas ele sente sua falta.

Summer sentiu o coração aquecer…

— Ele sente?

— Ele sente. Ele passou a adolescência ao seu lado, não passou, Summie? Juntos, vocês jogavam conversa fora, vocês bolavam jeitos de atravessar o terreno baldio e chegar à Escola St. Marie, de melhorar a rota sua e de Winter que usavam para chegar aos quartos do internato, de tirar Winter do quarto pela noite sem que eu notasse.

… e esfriar. Sentia que ele fazia aquilo de propósito.

— Spring sente falta dessa simplicidade adolescente, dessa coisa rotineira e ordinária que você lhe oferecia. Tão simples e tão singular ao mesmo tempo.

— Você está narrando isso para um romance dramático?

— Eu diria que é mais um drama romântico.

— Ele sente falta de mim ou não?

— Ele sente falta do que você trazia para ele. Com Nicholas, é tudo muito exagerado, quase incomensurável, como um gigante. Eu não posso culpá-lo, as últimas namoradas dele eram filhas do maior bilionário do mundo e a anterior carregava seu filho. Ele nunca teve um relacionamento verdadeiramente adolescente. Ele se esforça, mas é muito principesco, cheio de ouro brilhante que cega os olhos de sua jovem primaverinha. Sabia que Spring é mais velho que ele?

Summer começou a pensar que Autumn estava zombando dele ao falar daquele jeito. Sentiu vontade de matá-lo.

— Sim, ele sente sim sua falta. Mas não se anime. Ele não faz ideia disso. E o ouro de Nicholas vai fazer com que ele nunca faça. Eu creio que, no fundo, os dois sabem que Spring pertence a você. Summer, pelo amor de Deus, não se exalte. Não vá atrás de Spring. É só o que lhe peço. Não faça isso. Eu ainda tenho que segurar Winter todas as vezes que você se aproxima. A propósito, é melhor que eu entre na sala primeiro. Se eu for visto com você, Winter vai me encher o saco pelo resto do dia.

Autumn no entanto lhe deu um abraço antes de partir.

Quando Summer entrou na sala meio minuto após ele, por algum motivo não olhou para Spring. Não sentiu vontade. Mas foi impossível não sentir seu perfume, ou deixar de notar que o casaco que ele usava pertencia a Summer. Aquilo aqueceu seu coração.

As aulas da manhã finalmente acabaram, então.

Como de praxe, não almoçou. Não porque não tinha dinheiro — porque ele realmente não tinha o que pudesse gastar —, mas porque abominava a ideia de almoçar sozinho. Na verdade, Summer não sabia o que era almoço há alguns bons meses, que se o Diabo quisesse seriam prolongados.

Após aproveitar a aula de natação bem longe do vestiário, onde Winter se apropriara dos membros sexuais de mais ou menos dez adolescentes ao mesmo tempo — afinal, ele tinha que aproveitar antes que estivesse enlaçado pelos laços do matrimônio —, e então o campo de futebol, também bem longe do vestiário, matou a aula de basquete para ver Nicholas atuar e constatar se ele era lá essas coisas.

Estavam repetindo uma cena de batalha, onde ele, de armadura até os cabelos, lutava com uma espada de madeira com um garoto magro de cabelos negros chamado Shane Spencer que vestia apenas trapos.

No momento em que Shane estraçalhou a espada no tronco de madeira e caiu de joelhos, derrotado, Nicholas se aproximou, ofegante e molhado de suor.

— Anda… — Shane sussurrou. — Dê o golpe de misericórdia e acabe com esta vida miserável para mim.

Nicholas hesitou propositalmente.

— Você não parece tão malévolo.

O golpe foi dado…

— Eu nunca fui.

… e Shane estremeceu, tossiu e morreu ali no palco. As luzes violeta diminuíam de intensidade lentamente enquanto o rosto de Nicholas era coberto por seus longos cabelos loiros agora que ele tirara o elmo.

Summer estivera tão absorto que nem percebeu que o teatro estava tão cheio. Ouvira dizer que a direção da St. Nicholas estava pensando em mudar o horário da aula de teatro para um posterior ao término das aulas, já que metade da escola estava matando as aulas para assistir aos ensaios.

Uma estrondosa salva de palmas ecoou pelo gigantesco recinto. Pelo menos duzentos adolescentes urravam vivas para a cena. As cortinas se abriram, revelando um Nicholas já fora da armadura e claramente surpreso com a plateia. Ele sorriu, acenou, fez uma reverência e voltou para os bastidores, para o lugar das estrelas.

Jules du Pont e Shane Spencer foram abordados por meia centena de garotos sedentos por seus sangues na saída. A repentina celebridade que Nicholas se tornara criou uma onda de histeria tão grande que contaminou os recatados meninos da maior escola católica de Middleland. E ninguém parecia se importar com o fato de que ele era assumidamente bissexual, pois pelo visto a maioria ali também era.

O que se podia esperar de uma escola só de meninos? Só Deus sabe o que acontece no internato.

O mais irritante era que praticamente todo mundo já tinha um autógrafo de Nicholas, e no entanto continuavam a pedir-lhe todas as vezes que ele saía dos bastidores do teatro. E ele dava. Sempre sorrisos.

Spring foi encontrar-lhe nos portões. Summer estava ao longe, observando-o mexer o cabelo distraidamente, como sempre fazia quando esperava algo ou alguém. Nicholas chegou no mesmo momento que sua limusine o fez, então os dois embarcaram juntos em direção ao Palácio Real Hentz, quem sabe. Aquilo parecia a Arca de Noé.

E assim começou sua longa caminhada de quinze quilômetros até o velho edifício Epillare. Não ousou olhar para nenhum dos funcionários quando chegou lá. Não seria tão estúpido.

Ao finalmente chegar à cobertura, Stephan Brennan estava sentado na área anterior, lendo avidamente uma revista de fofocas.

Ele não percebeu a presença de Summer, que pegou a escada e a montou no lugar de sempre como se não houvesse ninguém ali. O barulho finalmente chamou sua atenção.

— Como você é imprestável — resmungou a ele. Summer já havia entrado no sótão, mas não fechou a abertura com a tela, então ainda podia ouvi a voz dele lá em baixo: — Nem consegue pegar um ônibus sozinho. Sabe quantos ônibus passam em frente a esse prédio? Tem um ponto do outro lado da rua. Pegue suas coisas. Meus pais não estão em casa.

Levando até a colchonete, Summer fez o que ele pediu. Provavelmente a última vez que vira um luxo como aquele fora no Palácio, mas a casa dos Brennan tinha todo um teor mais modernista, com paredes inteiras feitas de vidro e inexistência de curvas. Enquanto os Hentz eram obcecados por antiguidades e arquitetura barroca, renascentista, vitoriana e elisabetana, não havia um único aspecto ali fora do século XXI.

— Pode ficar à vontade… — Seph falou distraído. — Se quiser tomar banho, há uma banheira no meu quarto.

Summer olhou para o teto, onde dezenas de luzinhas douradas cintilavam como fadinhas. Deu um suspiro.

— Venha comigo — disse-lhe. Ele o olhou como se não tivesse ouvido direito. — À banheira. Venha comigo.

Sua expressão fora deliciosamente surpresa.

Alguns minutos apressados depois, Summer finalmente sentiu-se relaxar. A base de suas costas doía terrivelmente e os pés estavam um caco. Na verdade, o corpo inteiro doía como um mesmo osso quebrado até o tutano.

O fato de que o macio e imaculado corpo de Stephan estava encostado ao seu, no entanto, apaziguava a dor. Entre todo o sabão e água, Summer achara um canto em sua excitação onde Spring não estava e conseguira colocá-lo ali. Aliás, o cheiro de seus cabelos o estava deixando louco.

Estava encostado na borda da banheira com Seph sentado em frente a ele, quase em seu colo, suas costas coladas a seu peito. Tudo deslizava gostosamente, suas pernas com as coxas dele, seus braços nos dele, seus lábios em seu pescoço, seu membro apertado entre as nádegas.

Seph soltou um gemido. Summer deslizou os dedos para seu membro ereto debaixo da água e começou a estimulá-lo.

— Eu nunca entendi porque Winter gosta tanto de tirar a virgindade de garotinhos inexperientes — sussurrou em seu ouvido. Cada poro de sua pele se arrepiou com aquilo, os lábios inchados de tanto serem beijados estavam entreabertos, deixando passar um gemido constante e delicioso. No mais, ele pressionava mais que nunca o quadril contra o membro de Summer. — Acho que agora eu sei.

O sexo que fizeram então foi a primeira vez dele, certamente, e foi na própria banheira. Momentos depois, dividiam a cama.

Não era estranho, afinal, era uma cama de casal. Que servia a apenas uma pessoa, um terrível desperdício, então Summer não hesitou em se jogar lá e puxar Stephan para deitar-se com a cabeça em seu ombro.

Havia os mais diversos troféus de olimpíadas de matemática, física e história a mostra em pequenas bancadas. Além disso, também vários prêmios e medalhas de música. Aparentemente, Stephan tocava oboé.

Então o filho perfeito do Sr. e da Sra. Brennan gosta de outros filhos perfeitos. Quem diria.

— Obrigado por me deixar ficar aqui — disse a Seph, que se aconchegou em seu abraço. — Por que fez isso?

Ele deu de ombros.

— Acho que gosto de você. Eu sempre via você com aquele Edric Spring e, acho, ficava com ciúmes, ou qualquer coisa que o valha. Mas então ele passou a andar com Nicholas Hentz e… não sei se você ainda gosta dele, mas eu queria me aproximar de você. O fato de você estar vivendo no sótão do meu prédio foi pura coincidência. Mas por que você faz isso? Você não tem pais?

— Tenho sim. Um pai, uma mãe, uma irmã e mais tias e primos do que posso contar. Viver nas ruas é um desejo meu. Roubar dinheiro também. Mas não vamos falar disso agora, Stephan. Está tarde e amanhã temos aula.

— Está bem. Fale quando se achar pronto para isso.

Eu jamais vou me achar, pensou macabramente. Resolvera momentaneamente o problema da moradia, mas agora certamente não poderia mais roubar dali. O que fazer para angariar dinheiro? Deus, como isso poderia ser tão difícil? Estava na Califórnia, era ruivo e bonito. Não deveria ser tão difícil conseguir dinheiro sem ter de se prostituir.

O dia seguinte correu normalmente. As aulas da manhã, chatas e monótonas, o período de fome do almoço e as aulas da tarde, estranhamente longas. Flagrou Nicholas formalizando a inscrição de seu irmão Lorenzo na competição que a Orquestra Sinfônica Californiana faria na St. Nicholas no final do semestre. Ah, sim, havia Lorenzo. Ele não era um Hentz, mas ainda assim era um deus.

Ele se apresentou como voluntário naquele dia, assim como uma centena de pirralhos que mal sabiam segurar o violão, o violino, o violoncelo, a flauta, o oboé, a bateria ou qualquer que fosse o instrumento. Summer sentia pena deles. As mães provavelmente achavam que seriam os próximos Mozarts ou Beethovens, pobres coitadas.

Lorenzo tocou violino. E tocou tão lindamente quando parecia ser possível.

Havia uma agressividade natural nele ao segurar aquele instrumento complicado e deslizar o arco pelas cordas, arrancando dali milhares de notas e derramando-as na plateia de quase quinhentas pessoas.

A melodia era violenta, trágica, deliciosamente exagerada e rápida, mexendo com os neurônios de quem ouvia, acelerando respirações e batimentos cardíacos. O leve oscilar de seu corpo de criança e o balanceio dos cabelos muito negros eram hipnotizantes, quase transformando-o numa estátua de perfeição, como um crisântemo negro.

Ele exigia tanto do violino quanto o violino dava a ele, extraindo todas as possíveis notas e sons que os acordes poderiam promover. Isso, conte-me sua história enquanto eu dedilho suas cordas até quase estourá-las. Quero sons, dê-me seus sons. Você quer o arco? Eu lhe darei o arco, dê-me os sons, então. Inferno, faça-os chorar!

Summer sentiu-se comendo uma salada de frutas, então percebeu que uma lágrima realmente descia por seu rosto. Com raiva, limpou-a dali.

Tudo terminou tão abruptamente quanto começou. Quando Lorenzo ergueu os olhos e a luz dos refletores ardeu neles transformando-os em duas estrelas, a música parou de inundar as gigantescas paredes do teatro, tornando-o uma catacumba. Um silêncio sepulcral o dominava, pesado como uma manta. Mas os aplausos absurdamente altos logo o quebraram.

As pessoas aplaudiam de pé, isso era o mais irritante. Lorenzo sorriu, jogou os cabelos para trás num movimento de cabeça e fez uma reverência, tão carismático quanto seus diabólicos irmãos. Então sumiu elegantemente por trás das cortinas, como toda boa estrela deve saber fazer. Ele tinha o porte de um príncipe.

Summer levou um longo tempo para lembrar que ele era cego.

Eles devem ter feito algum pacto com Satã. Não é possível.

Deixou a St. Nicholas com o coração pesado e a mente irritada. O menino ganharia a competição com certeza, mas como isso implicaria na mudança dele para Los Angeles, ele obviamente não aceitaria a vaga na orquestra! E a pior parte era que quando ele recusasse, não ocorreria de o segundo colocado ser escolhido. Simplesmente a orquestra iria embora sem nenhum novo membro. Aquilo era absurdo. Tantos jovens músicos talentosos desdenhados por aquela criança horripilante apenas por causa do bom e velho orgulho dos Hentz.

Deixou a inveja de lado e começou caminhar para o Epillare. Seph o convidara para mais uma noite. Sem a possibilidade de roubar dinheiro no prédio, Summer teve que fazê-lo fora dele. Não foi difícil. A quantidade de executivos que o afagavam quando passava por eles era absurda. Felizmente, a quantidade de carteiras que conseguiu roubar também era.

Quando chegou ao prédio e subiu até a cobertura, bateu delicadamente na porta.

Seph atendeu. Estava terrivelmente abatido.

— Que houve? — indagou. De algum modo, sabia que aquela noite seria uma daqueles frias e amedrontadoras. Quis dar meia volta e ir embora, quem sabe até para seu precioso sótão, mas Stephan puxou-o pela mão para entrar no apartamento.

Uma mulher alta e loura prostrava-se elegantemente numa das cadeiras da enorme mesa redonda de vidro da sala de estar. Vestia um vestido preto e justo e uma tiara que puxava seus cabelos dourados para cima, além de diamantes nas orelhas. Não tinha mais que trinta e cinco anos, mas parecia ser mais jovem. Summer poderia tê-la confundido com a irmã de Seph, pois ambos dividiam os olhos verdes e brilhantes.

Os dela, porém, estavam frios como pedras de gelo. Seph já dissera que seu nome era Temperance, mas nada na Terra faria Summer chamá-la assim. Ela era Sra. Brennan e acabou.

— Ah, você é Edric? — ela indagou sem tanto interesse assim.

— Summer — disse timidamente. — Edric Summer. Por favor.

— Ah, sim. Tem algum conhecimento disso?

Um de seus delicados dedos apontou para o centro da mesa, onde um objeto que escapara da vista de Summer antes agora agigantava-se como uma quimera e gritava a plenos pulmões. Ei, estou aqui, minha criança de verão! Como não me vira antes? Sou sua passagem para o inferno.

— Tenho — disse com suavidade, pegando o objeto e enfiando-o no bolso. — É meu. Eu trouxe para cá. Não mostrei a Seph, mas esqueci-o aqui. Desculpe-me por desrespeitar seu lar assim. Vou embora imediatamente.

Se tinha algum patético resquício de esperança que ela mudasse de ideia sobre a expulsão, ele foi miseravelmente destruído após sua expressão de indiferença.

Summer desceu os andares do Epillare em silêncio absoluto. Os ricos, malditos ricos. Talvez fosse inveja, mas para o inferno com aquilo. Sentia fome, sua cabeça doía e as pernas também, só que mais. Não aguentaria andar outro quilômetro sequer e o dinheiro que guardava era destinado às exorbitantes mensalidades da St. Nicholas.

Parado em frente à esplêndida fachada daquele edifício de luxo, tirou a chave do portão da frente do bolso e atirou-a na rua com violência.

Seph apareceu ali pouco tempo depois. Não se demoraria.

— Obrigado — ele disse acanhadamente. — Por assumir a culpa. E me desculpa.

Summer instintivamente enfiou a mão no bolso, tirou o cigarro de maconha e manuseou-o entre os dedos. Era muito mal feito. Conseguiria fazer um melhor na garupa de uma moto em movimento.

— De nada — disse indiferente.

— Será que você pode… me devolvê-lo? — ele indagou com esperança.

Summer sorriu e estendeu o braço, mas quando Seph estendeu para pegá-lo, deixou o baseado cair e pisou nele com a ponta do tênis, esmagando-o no chão.

— Não entre nessa vida — disse duramente. Deu meia volta e seguiu seu caminho para lugar nenhum.

Andou por horas, talvez, ou quem sabe apenas minutos. Quando jogou a mente para longe, para um universo feliz, o tempo misturou-se, os minutos alongaram-se e as horas encurtaram-se. Estava levemente cônscio de um mar de pessoas andando para todos os lugares e direções, saudáveis e fortes; sentia cheiro de cigarro, de cachorro-quente e de fumaça de escapamento misturando-se no ar numa nuvem invisível, pesada e densa; ouvia as vozes, algumas em outros idiomas, outras com sotaques, algumas felizes e outras tristes, como se suas vidas e problemas fossem os mais importantes do mundo.

Houve um momento em que pensou estar ouvindo cada uma das vozes do mundo, todas conectadas numa única teia invisível de influências. Berravam em seus ouvidos, zunindo como se ele tivesse enfiado a cabeça num vespeiro. Sua vista girava, e tonto de fome e cansaço ele sentiu uma vontade absurda de vomitar.

Finalmente caiu de exaustão num bairro de Donarchen, numa pracinha malcuidada. As velhas árvores pareciam falar com ele, seu farfalhar sussurrando segredos inumanos. A madeira do banco estava desgastada e cheia de farpas, pinicando seus dedos. Poderia ser assaltado a qualquer momento. Donarchen era o bairro mais perigoso de Middleland.

Mas que importava? O que restava dele, agora, do velho Edric Summer? Seu orgulho se fora quando as lágrimas voltaram descontroladamente, a humildade desaparecera quando amaldiçoou Stephan Brennan por algo que não havia sido realmente culpa do pobre garoto rico. Ele era uma casca vazia despida de tudo o que um dia tornara-o o que ele era conhecido por ser, e tudo começara a desmoronar quando conhecera Nicholas. No entanto, não punha a culpa no leão dourado, e sim na própria estupidez, arrogância, ímpeto e egoísmo.

Nada havia ali do Summer que sabia sorrir diante das dificuldades da vida que escolhera ter. Suportara por quatro anos seguidos, por que Deus não lhe dava um repouso? Estava cansado de ter que ser forte o tempo todo, simplesmente cansado. Queria ser apenas um adolescente, queria jogar futebol e basquete e fazer natação como todo adolescente, fazer sexo com seu namorado e poder beijar seu rostinho de primavera sempre que quisesse como todo adolescente, ter uma casa como todos os seus amigos, uma família com quem ele pudesse contar, queria… alguém que se importasse com seu bem-estar. Eram necessidades tão básicas, quem poderia culpá-lo por senti-las com aquele desespero?

Queria alguém para limpar suas lágrimas e dizer que tudo ficaria bem. Que o dia seguinte seria radiante e sorridente para Summer, que os dias claros e frescos do verão haveriam de jogar uma luz nos momentos sombrios. Que ele encontraria o que comer sem precisar despir-se totalmente de dignidade e se esgueirar em latas de lixo. Que ninguém o criticaria por não usar o dinheiro da mensalidade para se sustentar sem antes saber por quê. Eles não entendiam que Summer não poderia ficar sem seu Spring? Qual era a merda da dificuldade de entender isso?

Mesmo que ele o detestasse, que não suportasse sua aproximação, continuava sendo seu Spring. Quando entrava na sala e tinha de atravessá-la para chegar ao seu lugar, e então o rosto dele surgia sorrindo espontaneamente, no mais belo e puro dos sorrisos, sabia que ele ainda era seu, e não dele…

Então veio-lhe à mente: as chaves de Nicholas! Como esquecera? O bairro Dion não estava tão distante, podia chegar lá, não podia? O que eram mais seis quilômetros de caminhada para quem já caminhara quase vinte e cinco? Podia tomar um banho demorado e comer alguma coisa. Podia até faltar a escola no dia seguinte para se recuperar e achar outro lugar para viver. Será que aquele prédio teria sótão…?

Se alguém visse um estudante da Escola St. Nicholas rindo quase histérico sozinho numa pracinha de Donarchen às dez horas da noite, pensaria que ele enlouquecera. Ou havia sofrido um sequestro relâmpago.

Um movimento humano fê-lo sair de seus devaneios. Pensou ser um assaltante, mas não. Mais a frente, quase na beirada da rua, parada numa das esquinas da praça, uma mulher. Era jovem, por volta dos vinte anos, com maravilhosos olhos azuis e longuíssimos e bem cuidados cabelos louros, lábios generosos e uma expressão quase infantil, mas ambiciosamente determinada e despreocupada. A minissaia de couro rosa e o top laranja que usava denunciavam-na como uma prostituta.

Summer gostava de prostitutas. Assim que elas se convenciam de que ele não queria nem seus serviços nem roubá-las, tornavam-se boas amigas. Ao contrário do que muita gente pensava, a maioria das prostitutas não fazia aquilo como última opção de modo de vida, e sinceramente Summer não se importava. Curiosamente, esse padrão era diretamente proporcional ao grau de beleza da moça.

Algumas que conhecera nos dias que tivera que passar nas ruas tinham até faculdade e provinham de famílias ricas. Sem exceção, todas faziam aquilo porque gostavam. Outras realmente não tinham sequer onde cair mortas. E a quantidade de prostitutas que foram abusadas pelos pais, tios ou avôs na infância era revoltante.

Eram viciadas em heroína, letradas, aidéticas ou ignorantes, aquelas mulheres tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais, tão lindas e tão feias, tão mágicas.

Um carro aproximou-se da esquina. Summer observou-a aproximar-se dele e se debruçar sobre a janela, falando com o motorista por alguns segundos. Logo depois, ela realmente debruçou-se, mas para dentro da janela, deixando-se da cintura para baixo para fora do carro.

Era óbvio que ela o estava chupando porque acabou em cerca de três minutos. O carro logo foi embora com um ronco discreto. A prostituta parou para descansar e fumar um cigarro. Coincidentemente ou não, ela sentou-se no mesmo banco que Summer. Ofereceu-lhe um cigarro.

— Você quer? — Olhando de perto, era realmente mais bonita. E também parecia ser mais velha, talvez uns vinte e dois anos, mas também mais nova, por causa de sua expressão. Se fosse por aquilo, ela facilmente teria catorze anos. Summer recusou amavelmente. — Meu nome é Arianne Bailey.

— Summer — disse. Ficou surpreso por ela ter lhe dado seu sobrenome, não eram muitas as prostitutas que faziam isso. A maioria inclusive dava-lhe um primeiro nome falso, pois não era possível que tantas prostitutas assim se chamassem Krystal, Kelly, Mercedes ou Alexis. Sem nenhuma discrição, ela o analisou de cima a baixo. Provavelmente pensava que ele seria um bom cliente. Ruivo, bonito e com uniforme de uma das escolas mais caras de Middleland. — Você tem um nome lindo.

— Você também, meu querido. — Não havia, no entanto, absolutamente nada de sensual ou malicioso em sua voz, como era de se esperar. Na verdade, ela soava como uma psicóloga de meia idade e muito conhecimento. Quase como se soubesse de seus problemas e estivesse tentando consolá-lo.

Summer sentiu vontade de chorar por aquilo. Amor ao próximo: a linguagem universal humana.

— Dias difíceis? — Arianne perguntou tragando novamente o cigarro. Seus olhos azuis estavam cheios de uma infinita compreensão, quase como se houvessem duas pessoas ali, pois uma só não poderia ser tão gentil.

— Sim — falou debilmente. — Todos eles.

— Já vi você antes nas ruas, eu creio. Dormiu alguns dias naquela construção da Avenida Carlton até que as obras recomeçassem e a família Hentz expulsasse todos os mendigos de lá de dentro. Você não parece ser do tipo de garoto que mora nas ruas.

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— Eu tento não parecer — falou. — Mas eu sou. A escória da humanidade.

— E eu sou uma prostituta — ela acrescentou com amabilidade. — Também sou a escória. Vamos todos para o ardente inferno, dançar música clássica ao lado de Satanás. — Por algum motivo, aquilo fez Summer rir. Mais de felicidade por finalmente ter com quem conversar do que pela graça em si.

— Por que música clássica?

— Porque música clássica é insuportável.

Os dois riram baixinho por um momento. Sim, sim, música clássica era insuportável. E por que ela era uma prostituta, se parecia ter todos os motivos do mundo para não ser? Por favor, comente sobre isso, minha beldade loura.

— Não é para pagar as contas — Arianne disse como se adivinhasse seus pensamentos, mas havia algo em sua voz que pedia educadamente para que ele não perguntasse mais sobre aquilo. Ora, tudo bem. Ora, por que não?

— No meu caso, é. Eu tenho que roubar para sobreviver. O que será que os velhos conservadores californianos achariam pior? Roubar para sobreviver ou se prostituir por diversão? No fim, somos todos iguais a eles. Carne e sangue.

— Carne, sangue, ossos, tecidos e trilhões de células minúsculas que virarão comida para os vermes algum dia. — Arianne se levantou. — Tenho que ter meu último cliente hoje. Espere um minuto.

Ela foi de volta para sua esquina. Em pouco tempo, outro carro. Dessa vez demorou mais, mas Arianne também lucrou mais.

— Para onde você vai? — indagou a ela. Não tinha esperanças de voltarem a se falar, embora fosse o que mais quisesse no mundo. Aquela garota loura e bonita parecia ter muito a esconder por baixo do rosto pouco expressivo.

— Para lugar nenhum — Arianne respondeu. — Não tenho nenhum lugar para ir.

— Não pode ficar na rua, você soube que está havendo uma onda de assassinatos por aqui?

— Sim, é claro. A gente fica sabendo dessas coisas uma hora ou outra. Chega um momento em que viver alheia ao perigo por muito tempo te faz esquecer-se dele.

— Mas não quer dizer que ele suma. Quer que a matem? Escute, Nicholas Hentz me deu as chaves do apartamento dele para que eu passasse a noite. Nunca estive lá, mas tudo indica que tem comida e camas quentes. É seguro. Eu sei que a situação é estranha, mas por favor, venha comigo. Não quero que nada de mal aconteça a você.

— Você mal me conhece.

— Eu desconheci todas as pessoas que conhecia, Arianne. Não conheço mais ninguém, por isso me apego rápido às pessoas. Por isso eu quero protegê-las. A verdade é que eu amo as pessoas, e quanto menos eu sei delas mais eu as amo. Mas não quer dizer que eu deixe de amá-las quando as conheço.

— Mas isso leva tempo e antes que esse patamar seja atingido, você necessita de cuidado. Ele ainda não foi. Demorar-se-iam meses para atingi-lo. Posso ser uma ladra e roubar todo o apartamento enquanto você dorme. Nicholas Hentz nunca mais o deixará ir para lá. Posso matá-lo enquanto dorme. Posso ser a responsável pela onda de assassinatos e matar você. Sem pai nem mãe, será enterrado como indigente, você virará apenas uma estatística no noticiário das onze horas. É esse seu legado?

O sorriso dela era estranhamente cativante.

— Eu quero correr o risco — declarou com confiança.

Arianne deu de ombros delicadamente. Era tão bela, agressivamente bonita, na verdade. Os cabelos rebeldes e bagunçados ajudavam nesse perfil, mas sua expressão determinada de menino era o principal. Era o que fazia Arianne ser Arianne.

Acabei de conhecê-la. Como me dou ao direito de julgar seu caráter?

— Está bem — ela disse. — Vamos conhecer a casa dos donos de Middleland.

Ela acabou chamando um táxi, afinal. A chave preta para o portão e a dourada para o apartamento. Chegar ao apartamento foi fácil, atravessar o pátio do prédio com uma prostituta que tinha mais da metade do corpo nu não fora tanto assim. Provavelmente não haveria roupas femininas lá, então Summer teria que se virar com o que tivesse para vestir aquela garota decentemente.

O apartamento, como não podia deixar de ser, era luxuoso e arejado, tão espaçoso quanto haveria necessidade para uma família tão pequena, e havia até um primeiro andar. As pequenas esculturas antigas e douradas eram adoráveis, assim como os livros velhos e preciosos da estante que contrastavam com a mobília absolutamente nova. Summer gostou em particular da poltrona massageadora. Aquilo era uma bênção para seus ossos cansados de caminhar.

Após ambos tomarem banho, Summer começou a refletir que tinha que aprender a andar de ônibus.

— Você quer que eu faça algo para comer? — Arianne perguntou da porta da cozinha. Havia tirado o top e o substituíra por uma camisa extremamente grande cuja origem era um mistério, talvez de uma das namoradas de Nicholas. No entanto, ia apenas até o início de suas coxas. Summer se deu conta de que ela tirara o short também e que agora andava apenas de calcinha. Aquilo era absurdamente excitante, mas não no sentido sexual. Em outro sentido que Summer não conseguia descobrir.

Com os seios cobertos pela camisa larga e os cabelos louros presos numa longa trança, ela parecia de longe um rapaz jovem. Talvez por isso o excitasse.

— Sim, por favor — pediu.

Meia hora depois, sentia como se nunca tivesse comido algo decente antes. Não que estivesse maravilhosamente bom, mas acontece que era a primeira vez em quatro anos que alguém cozinhava especialmente para Summer.

As frutas estavam tão doces que quando as mordeu, quase veio às lágrimas.

— Obrigado — disse. — Os Hentz tem uma bela casa, não?

— Eles certamente têm. Algo te entristece, e não é o fato de morar na rua. O que é, uma pessoa? Pode me falar. Eu já percebi que você não se interessa por mim da mesma forma que garotos da sua idade se interessariam. E está tudo bem.

Summer se remexeu na cadeira desconfortavelmente. Estavam sentados à mesa, com as sobras de seu jantar improvisado à mostra, cada partícula de sujeira gritando bem na sua cara. Levantou-se.

— Eu preciso limpar a mesa — disse a ela.

— Se você não quiser falar…

— Não, Arianne. Pode não acreditar, mas eu tenho mania de limpeza. Não consigo viver sabendo que essa mesa está assim.

Ela o ajudou a lavar a louça. De manhã, jogaria ele mesmo o lixo fora. Achava que era o mínimo que podia fazer por Nicholas tê-lo deixado passar a noite. Por um segundo terrível, Summer perguntou-se se Ethan Lemnsack sabia que ele poderia estar ali. Depois perguntou-se se ele ainda se importava com aquele velho apartamento.

Na verdade, gostava do lugar. Não por causa do luxo, mas por causa do ar caseiro que oferecia. O apartamento obviamente fora construído para abrigar mais que três pessoas, pois vários cômodos que deveriam ser quartos tinham finalidades diferentes. Aqueles prédios antigos eram todos daquele jeito, espaçosos e acolhedores. Lares.

Quando finalmente tudo estava limpo, sentaram-se no carpete felpudo da sala de estar. Arianne estava há vários segundos olhando para uma foto da mesinha de centro com as sobrancelhas franzidas e os lábios crispados. Por fim, largou-a no chão, meio amassada entre seus dedos.

— E então — ela começou, sentada sobre o carpete e cruzando as pernas com aquele desajeito de menino. — Falávamos sobre o que te entristece.

— É um segredo. Para que eu o conte, você precisa me contar um segredo seu.

— Está bem, prometo que contarei. Mas primeiro você.

Summer espreguiçou-se no sofá e olhou para o teto, cruzando os dedos sobre o peito enquanto a maciça cabeleira ruiva espalhava-se por trás da cabeça. Era como ir a um psicólogo. Será que contaria mesmo a verdade? Qual seria a reação dela? Só havia um jeito de descobrir, não?

O que o entristecia. Aquela era uma história absurdamente grande. Não bastava dizer que era porque terminara com Spring, porque aquela explicação não seria suficiente para Arianne. Não era nem para o próprio Summer.

Foi por isso que, sem se limitar a começar em Spring, Edric Summer começou a contar sua história para Arianne Bailey.

— Eu nasci numa família grande. Não grande como você deve estar pensando, mas incomensuravelmente grande. Eu conheço um antepassado meu que viveu no Sacro Império Romano-Germânico durante os séculos XIII e XIV chamado Turcati e gerou milhares de descendentes conhecidos até hoje. A diferença é que, através das gerações, minha família não cresceu. Somos grandes em números, mas não em importância. Durantes centenas de anos, minha família permaneceu anônima entre tantas outras. Não houve riquezas e heranças acumuladas, feitos dos quais o mundo pudesse realmente se orgulhar ou sobrenomes de respeito, pois o original de Turcati se perdeu em quatro gerações. Não somos uma dinastia como os Hentz, os Goldenschild ou os du Pont, mas simplesmente uma família. Uma Grande Família.

“Temos vários sobrenomes. Há os Summer da Califórnia; os Summer, os Gardener e os Mayer da Nova Inglaterra; os Petronia e os Constantino da Grécia; os Reeves, os Tudor, os Windsor e os Sheffield da Inglaterra; os Riviera e os La Fount da Itália; os Mercedes e os Velazquez da Espanha; os Chevalier e os Deveraux da França; os Wessden e os Kitten da Alemanha; os Krauss de Israel e por aí vai. Vários sobrenomes, como você pode ver, mas apenas uma Grande Família, todos aparentados de alguma forma, a maioria distantemente. Na verdade, alguns deles até são ricos, e os Summer da Califórnia são o ramo mais… humilde, por assim dizer. O centro comercial da cidade em que vivíamos faria a Rua Primeira parecer Wall Street; a cidade tinha trinta e cinco mil habitantes e nossa família devia ser responsável por pelo menos um terço deles. Está bem é exagero, mas minha casa era sempre superlotada, porém feliz.

“Como você deve imaginar, apesar de não ter se sobressaído muito, minha família teve alguns nomes notáveis com feitos também notáveis, como por exemplo alguns dos Reeves da Inglaterra têm ascendentes que foram conselheiros diretos da Rainha Elizabeth I e do Rei Jaime I, e acabaram influenciando na destruição da Invencível Armada em 1588 e na vitória da Inglaterra na Guerra Anglo-Espanhola, e coisas assim. Em contrapartida, os antepassados dos Mercedes da Espanha perderam esta mesma guerra. Houve uma famosa atriz espanhola chamada Barbra Velazquez que pertenceu à Grande Família. Nomes e feitos como esses são guardados num grande arquivo chamado de o legado ou os registros, e geração ou outra esse arquivo muda de mãos. Faz cerca de cinquenta e cinco anos que os Summer da Califórnia são os guardiões do arquivo da família, por assim dizer. Guardávamos tudo no espaçoso sótão, uma profusão de pergaminhos e cartas velhíssimas, algumas com quase quinhentos anos de idade, todas com nomes peculiares; o legado de nossos antepassados há muito mortos que ninguém iria notar se desaparecesse, a não ser nós, a Grande Família.”

Summer deu uma pausa.

— Acredite, tudo isso tem a ver. É como uma grande teia de influências.

— Eu compreendo — disse Arianne, profundamente absorta em tudo aquilo, os olhos azuis quase violeta sob a luz da lamparina. — Por favor, continue.

E ele continuou:

— Os guardiões do legado normalmente detém uma grande influência na família. Muitas vezes arranjam casamentos com primos distantes, criando complicadíssimas relações de parentesco que são então escritas e adicionadas ao legado, ou então provém ajuda financeira ou espiritual em caso de falência ou morte de algum membro dos ramos mais próximos a nós. Às vezes localizávamos algum ramo longínquo e o apresentávamos aos ramos mais próximos a eles. Falando de uma forma mais crua, estávamos sempre procurando mais gente para adicionar ao rebanho. Em suma, os guardiões do legado são a espinha dorsal da família em qual todas as outras se ramificam e se apoiam. Já fizemos reuniões familiares com mais de três mil membros. Os Summer da Califórnia podiam não ser o ramo mais pródigo ou rico, mas é inalienável o fato de que nossa influência beirava à aberração.

— Você fala tudo no passado, Summer.

— Já chegarei lá… eu tinha acabado de fazer onze anos. Isso foi após a última reunião familiar, esta que reunira cerca de quatrocentos membros, um número bastante pequeno, na verdade. Nossas reuniões sempre movimentavam a economia dos pequenos hotéis e restaurantes da cidade de Minnle por pelo menos uma semana, o suficiente para fazer uma grande diferença. Como eu disse, éramos influentes o suficiente para gerir uma pequena cidade à beira da falência. No entanto, a riqueza jamais interessou à minha mãe, que por ser guardiã do legado era a Matriarca da Grande Família. Oh, eu não falei? A descendência é sempre matrilinear, ou seja, privilegia as mulheres em detrimento dos homens.

“Nessa última reunião, eu havia conversado com o nosso ramo asiático, os Li, e ouvido algumas histórias sobre um ancestral nosso que vivera há cerca de quatrocentos anos na França e que se envolvera com a primogênita de uma outra antiga família conhecida naquela época pelo pseudônimo de Athina. Era assim que eles chamavam essa família, Athina, mas esse não era seu nome verdadeiro. Ao que parecia, eles estavam envolvidos em negócios obscuros que os forçavam a decidir um sobrenome diferente. E esse ancestral que eu citei por acaso teve um filho e uma filha, e o filho continuou a família Athina, enquanto a filha foi chamada para fazer parte da Grande Família, mais especificamente do ramo ancestral dos Chevalier da França, que na época tinha outro sobrenome, Matingly.

“Ouvi dizer que essa filha que era metade Athina e metade Matingly era essencialmente excêntrica. Nunca compreendi direito que espécie de excentricidades ela praticava, mas ao que tudo indica era o mesmo tipo de coisa que os Athina faziam e que os forçavam a mudar de sobrenome para não serem perseguidos. Bem, Arianne, mesmo sem ler o legado, creio que você pode adivinhar o que faria uma família antiga ser perseguida pelo próprio Rei da França em plena Era das Trevas.”

Arianne assentiu.

— Bruxaria.

— Exato. Praticavam bruxaria, os Athina, e disso eu tenho plena certeza. Afirmavam que sua ascendência provinha desde o início da Era Cristã, e alguns membros que se envolveram com os Matingly afirmaram que os Athina eram descendentes do próprio Cristo. Mas talvez fosse apenas fanatismo religioso, pois se encaravam Cristo e Deus como a mesma pessoa, então todos nós éramos literalmente filhos de Deus, pois Ele nos criou e a todas as coisas, mas aí já estou saindo do assunto. Numa época em que a maioria dos países da Europa fazia parte do rebanho papal, um pensamento assim não era tão improvável, mesmo que fosse tão contraditório por vir de alguém que afirmava ser um bruxo.

“Os que os Li me contaram foi que essa nossa ancestral metade Athina e metade Matingly, cansada de todas as divergências entre as duas famílias, convenceu os Matingly a se juntarem aos Athina numa reunião feita numa pequena vila da França. Isso foi em 1656, se não me engano. Mas nessa época o disfarce dos Athina caiu e tudo veio à tona. O próprio Rei da França sancionou a execução de mais de cem membros da família Athina, o que reduziu seus descendes diretos a apenas um, mas esse foi levado por sua babá para o Novo Mundo, mas essa é uma outra história que desconheço.

“Talvez a maior infelicidade dessa ancestral tenha sido exatamente o fato de que ela conseguira o que queria: unir fraternalmente Athina e Matingly. Na luta pela prisão dos Athina com os soldados do rei, os Matingly se juntaram aos Athina e foram quase todos exterminados. Apenas um punhado sobreviveu, e esses são os ancestrais dos Chevalier de hoje. Quanto a essa ancestral, ela largou o lado oculto da família Athina e foi expulsa da família Matingly por aqueles que sobraram e perderam seus parentes no massacre. Naquela época, eles eram os guardiões do legado, e muitos dos relatos antigos, alguns referentes ao início do segundo milênio, foram queimados no massacre. Alguns foram até ridiculamente usados como provas de bruxaria pelo juiz de bruxas.

“Não se sabe muito depois daí. Sabe-se sobre como os Matingly depois mudaram de sobrenome, passando por diversos como Russeau, Tisseau, Martin, Bertrand, até chegar aos atuais Chevalier. Também sabe-se sobre o cruzamento com o ramo holandês dos van Alten e o nome de alguns descendentes van Alten, mas aí para num homem chamado Marcel, pois sua descendência se perdeu. Também posso dizer que há uma possibilidade grande de Joselia Jasperin ser descendente dos Matingly. Mas não importa. A ancestral de todos eles sumiu dos registros. Sabe-se que ela ficou na França, se casou com um nobre, pois era excepcionalmente bonita, e passou o resto da vida como apenas a esposa de um marquês. Seus descendentes migraram para o Novo Mundo, e então… acabou.

“Quando ouvi esses relatos, fiquei faminto por mais. Muitos dos detalhes que eu lhe contei não me foram contados, e sim eu li nos registros, no legado, e uni ao que eu sabia. Algumas coisas podem estar equivocadas, pois isso foi em tempos imemoriais e agora esquecidos, a não ser pelo nosso legado, que acabou sendo vítima do preconceito dos Matingly e não foi bem cuidado. Há duas únicas regras que toda Matriarca é obrigada a seguir, e a primeira é: registrar tudo de relevante sem preconceito, sem discriminação, imparcial e detalhadamente para gerações futuras. A segunda é: jamais, sob nenhuma circunstância, alterar os registros para algo além da verdade. Só isso. Não importam as rixas e desavenças. Um guardião jamais pode cultivá-las porque, como eu já disse, ele é a espinha dorsal da Grande Família. E sem ele, não se sustentam as outras.

“Quando eu terminei de ler os antigos pergaminhos do legado e percebi que não havia nada mais sobre a história dessa ancestral, não havia sequer seu nome, fiquei furioso. Perguntei à minha mãe sobre essa história, mas ela ficou furiosa comigo. Disse que eu sabia que os Chevalier até hoje se ressentiam com essa história de bruxaria que matou tantos de seus ancestrais e pediu que eu esquecesse isso. Mas eu tinha onze anos, um QI de 142 e era teimoso como uma porta. É óbvio que eu não esqueceria aquilo por nada nesse mundo até que conseguisse as respostas que queria.

“Qual era o nome de minha ancestral? Qual era o verdadeiro nome da família Athina? Eram eles realmente descendentes de Cristo, como diziam, e praticavam bruxaria? E o que teria acontecido ao patriarca da família Athina, Petyr, que era holandês e desaparecera na vila francesa onde seus parentes foram massacrados, tanto que nem o exército real conseguiu achá-lo? Onde estavam os Athina agora? E os descendentes de minha ancestral? Qual era seus sobrenomes? Será que ainda mantinham as antigas tradições ocultitas dos Athina ou eram totalmente ignorantes em relação aos seus ascendentes? E se eu os descobrisse e os chamasse para fazerem parte da Grande Família, eles viriam? Será que poderiam, de alguma forma simbólica, fazer as pazes com os Chevalier? Seria mais um grande feito da família guardiã. Um feito digno do legado.

“Aquela ideia tomou minha cabeça por semanas, eu fiquei alucinado com aquela possibilidade. Ter meu nome no famoso legado da Grande Família! Quantos homens tiveram essa honra numa linhagem sanguínea que era predominantemente feminina? Eu imaginava meu nome escrito em tinta preta num daqueles antigos pergaminhos do legado, talvez até profanando outros registros mais antigos e desimportantes. Edric, filho de Katherine, filha de Lucy, filha de Mary Janet, filha de Grace, filha de Emily, filha de Elizabeth, filha de Angelina, filha de Marie Angelique, filha de Meredith, filha de Rebecca, filha de Mary Susan, filha de Joan Bridget, filha de Carolyn Anne, e assim por diante. Minha irmã mais nova tinha o mesmo nome de nossa pentavó, Elizabeth, e teria seu nome gravado para a eternidade sem nunca ter feito nada de importante. Aquela perspectiva era revoltante em minha cabeça, mas eu sabia que não poderia ir contra as tradições da família. Se eu quisesse meu nome lá, teria que conquistar meu espaço. Eu decidi que faria isso: eu encontraria os descendentes vivos da ancestral Athina e Matingly e os traria para a Grande Família.

“Comecei a procurar na Biblioteca Municipal de Minnle. Naturalmente, procurei em antigos registros das colônias francesas no Novo Mundo os nomes dos imigrantes, ciente de que eles haviam ido para lá. Algo me dizia que eu não encontraria nada na Europa. Comecei com o Haiti, depois fui para a Louisiana e então o Canadá. No começo, fiquei saturado com a quantidade absurda de nomes que lia, pois de forma alguma havia um único conhecido. Não encontrei absolutamente nada de início, embora as histórias dos ancestrais de famílias antigas como a minha me fascinassem. Era como ler os corações daqueles mortos. Eu ficava horas imaginando aqueles povos europeus chegando na costa das Américas, escravizando e matando os índios, importando escravos, incentivando o casamento dos colonos com os povos que já habitavam lá como se estivessem fertilizando o próprio seio da terra. E então sendo mortos e expulsos em rebeliões. Acho que é por causa disso que história me fascina tanto.

“Foi nos primeiros meses dos meus onze anos que eu encontrei um imigrante francês que havia ido à colônia francesa do Quebec chamado Jacques Charles Athina. O sobrenome dele foi o que me chamou a atenção. Então ele era da família Athina! Aquilo era maravilhoso. Pensei se estavam todos no Canadá e nos Estados Unidos, se eu podia contatar algum descendente vivo dele, rastreá-lo de alguma forma. O sobrenome Athina certamente não morrera com Jacques Charles, era demasiado antigo. A melhor coisa é que lá havia escrito que ele era um nobre francês. E minha ancestral casara-se com um marquês. Seus descendentes herdariam a nobreza também.

“Mas foi aí que me veio o problema. Naquela época, a perseguição às bruxas já havia desaparecido. Por que então Jacques Charles necessitava usar o pseudônimo da família Athina? Por que não usara o sobrenome original, que me era desconhecido? Então eu percebi. Athina não era nem jamais fora um sobrenome. Athina, Arianne, Athina era sim o nome verdadeiro da ancestral, e a verdade era que os Matingly haviam infringido duas das regras sagradas de manutenção do legado. Além de serem parciais ao falarem dela, haviam alterado os registros, transformando seu nome num sobrenome fictício para que sua descendência se perdesse com o passar das eras. Athina era seu nome verdadeiro, nome que Jacques Charles transformara em sobrenome ao abdicar da nobreza em troca de homenagear sua antepassada bruxa. Para infelicidade geral e minha alegria, seus descendentes não fizeram o mesmo, pois usaram um sobrenome diferente, sobrenome esse que até hoje sobrevive, o sobrenome verdadeiro de Athina, o sobrenome da família bruxa de sua mãe que seu irmão continuou. E esse sobrenome era Atheneus, que tornou-se Athina por causa dos Matingly, que tornou-se Lioncourt por causa do casamento de Athina com o marquês de Auvergne, que tornou-se de novo Athina por causa de Jacques Charles, que voltou a ser Atheneus por causa dos descendentes dele e então mudou através dos séculos, perdendo-se naquele ramo, até ser transformado na singularidade que é nos dias de hoje.”

Summer parou de falar. Ficou olhando para Arianne, que prostrava-se como uma estátua de pedra ao olhar para ele, profundamente intrigada.

— Você descobriu os descendentes de Athina Atheneus. Quem eram?

— Seu sobrenome era Castanelli — Summer sussurrou. — No começo, viviam ainda no Canadá, assim como seus ascendentes, numa colônia francesa chamada Vale das Sombras na Colúmbia Britânica. O ancestral mais antigo com esse sobrenome que eu achei foi Olivier Castanelli, que nasceu em 1899, e que com a esposa Carmelita Lee teve dois filhos: Percival e Adrien. Percival teve com a esposa Isabel Lestant um filho chamado Antoine, que teve um filho chamado Oliver. Desses, apenas três restavam. Adrien, o mais velho, seu sobrinho Antoine e o filho Oliver.

“Eu os contatei. Sem que ninguém soubesse, eu os localizei. Não foi difícil. Antoine era diretor da filial californiana da ONG Lemnsack Hentz World Donations e seu nome era bem conhecido. E o melhor era isso: eles estavam na Califórnia, não muito distantes de Minnle, numa cidade chamada San Louis. Em nome de minha mãe, enviei uma carta a Antoine e expliquei-lhe tudo o que já sabia de forma sucinta, resumindo nossos antigos laços de parentescos, em como os Summer da Califórnia eram aparentados com os antigos Matingly e agora com os atuais Chevalier, e em como os laços entre Matingly e Atheneus, os antepassados dos Castanelli, foram quebrados séculos atrás por desavenças de família. Foi essa a palavra que eu usei, pois jamais revelaria aos Castanelli suas raízes ocultistas numa carta. Eu não acreditava nem que os Chevalier soubessem ainda daquilo. Algo me dizia que eles também não tinham interesse algum em descobrir lendo o legado.

“Para minha surpresa, Antoine Castanelli respondeu dizendo que a família deixaria San Louis e se mudaria para Minnle, tanto por agradabilidade, pois estavam curiosos com a Grande Família, quanto por comodidade, pois o trabalho de Antoine exigia que ele se mudasse constantemente. Sua esposa, como ele me disse, se chamava Annice, e também estava curiosa com os registros dos Summer sobre os Castanelli.

“Eu contei o que havia feito à minha mãe e apesar de sua raiva inicial, ela ficou feliz em poder adicionar mais uma história ao legado da Grande Família. Eu lembro da tarde inteira que ela passou comigo na ensolarada biblioteca de casa, escrevendo avidamente à mão enquanto eu ditava tudo o que eu havia ouvido, pensado, lido e feito. Ela transcreveu a carta-resposta de Antoine e então tirou uma cópia, guardando-a com o legado. Meu nome apareceu catorze vezes, eu contei. Edric Summer, Edric Summer, Edric Summer… aquilo era maravilhoso, e mais ainda foi quando ela pôs meu nome ao lado de Elizabeth na árvore genealógica. Edric, filho de Katherine, Matriarca da Grande Família, 3ª Summer Guardiã do Legado e 36ª Guardiã Geral do Legado, e irmão de Elizabeth, a Herdeira da Matriarca. Por notáveis contribuições ao legado da Grande Família, à família Castanelli do Canadá e à memória da Marquesa Athina Matingly Atheneus de Lioncourt; por desmascarar as mentiras e traições dos Matingly da França. Nossas condolências são eternas aos Atheneus e bons Matingly mortos na perversa era da caça às bruxas, a Era das Trevas.

Arianne deu uma risadinha.

— Pensei que o legado devesse ser imparcial.

Summer riu também.

— Essas regras valem apenas à Matriarca, e fui em quem ditou isso. Então ela não cometeu nenhuma infração, apenas foi vítima do meu ego e narcisismo enormes. Eu espero que os Chevalier nunca tenham lido isso, pois são orgulhosos o suficiente para romper com a Grande Família se lesse tamanha afronta à memória de seus antepassados, embora seja tudo verdade.

“Eu ainda pretendia pesquisar sobre os Atheneus e o que restou deles, mas eu realmente nunca mais tive meios para isso após a chegada dos Castanelli. Minha mãe fez uma grande reunião familiar e endeusou aquela família à níveis quase ridículos, mas tudo era extravagante em nossa família, tudo era muito principesco e exagerado, pois Katherine Summer nunca foi uma mulher de poupar gastos com a Grande Família. Ela reuniu os ingleses, os irlandeses, os escoceses, os galeses, os islandeses, os noruegueses, os finlandeses, os suecos, os suíços, os belgas, os holandeses, os italianos, os espanhóis, os gregos, os portugueses, os indianos, os russos, os japoneses, os chineses, os coreanos, os australianos, os sul-africanos, os alemães, os árabes, os israelitas, os americanos, os mexicanos e todos os ramos da América do Sul, Argentina, Uruguai, Chile, Peru e Brasil. Essa foi a maior reunião que os Summer já deram, com três mil e quinhentas pessoas, a que mais mexeu na economia de Minnle e que mais juntou um pouco do mundo inteiro aqui na Califórnia. Viam-se peles brancas, pretas, pardas, vermelhas e amarelas; olhos azuis, verdes, castanhos, negros, dourados, cinza e violeta; cabelos escuros, castanhos, loiros e vermelhos; lisos, cacheados, encaracolados e crespos; cristãos, mulçumanos, judeus e ateus; sotaques europeus, mediterrâneos, asiáticos, orientais, sul-americanos e oceânicos. Não há uma única família na Terra que etnicamente se compare à Grande Família, pois ela é mais que uma família de gente longinquamente aparentada. Ela é a aglutinação de todas as etnias, línguas, religiões, cores, costumes e tradições do mundo. A Grande Família é a família humana.

“Por toda parte ouviam-se conversas explicando complicados laços de parentescos, demonstrando como aquele indivíduo podia ter de alguma forma se tornado avô de si mesmo, por que aquele recém-nascido era primo de quarto grau daquele idoso senil, dos feitos centenários de um primo qualquer de nono grau de todo mundo e de como Katherine sempre foi uma excelente guardiã do legado, e de como fora também sua mãe Lucy e sua avó Mary Janet, e de como antes delas o legado pertencera à Giovanette Riviera da Itália, que o havia armazenado numa pequena parte da Sicília, dentro de um antigo castelo renascentista. Lembrando que a guardiã não era apenas aquela que guardava o legado, e sim aquela que controlava a família e juntava todos os clãs do mundo de vez em quando. Aquela que fazia a Grande Família ser a Grande Família, que jamais perdia um descendente.

“Antigas desavenças e rixas eram esquecidas, israelitas e palestinos riam e conversavam à vontade, homens bêbados abraçavam-se em lágrimas de felicidade ou tristeza por amizades refeitas ou esposas perdidas, viúvas eram consoladas por minha mãe e empurradas discretamente aos primos distantes mais atraentes e solteiros. E, claro, as matriarcas das famílias pequenas, mais importantes que os patriarcas, juntavam-se em fofocas e mexericos como semideusas, pois a deusa sempre foi a Matriarca. Negócios entre as grandes empresas dos ricos eram feitos e desfeitos, acordos multimilionários silenciosos ou oficiais eram selados. Uma reunião assim não é apenas para socializar, e sim também para se enriquecer ou empobrecer. Minha mãe fazia os ricos ajudarem os pobres com dificuldades financeiras, ela fazia emanar altruísmo das famílias endinheiradas como se fosse o próprio Cristo. Eu sempre a admirei por causa disso. É claro que os Summer da Califórnia só faziam empobrecer, mas jamais nos importamos com isso. Éramos conhecidos por sermos humildes, e isso sempre fomos.”

— E esse é o único motivo pelo qual você conseguiu sobreviver quatro anos nas ruas — Arianne declarou. — Você sempre soube se virar sozinho. Nunca precisou de ninguém. Aprendeu desde cedo que não se pode ter escrúpulos quando se quer sobreviver, e foi isso que fez a Grande Família resistir tanto tempo. Não é?

— Nem sempre — Summer respondeu baixinho. Os cabelos ruivos que durante tanto tempo foram característica dos Summer balançavam na sua frente, os cabelos que ele havia herdado de sua mãe, que herdara da mãe dela e assim por diante. — É agora que a história se torna mais sombria.

“Na reunião, os Castanelli eram uma superpresença. Eu cansei de explicar à famílias que mal falavam inglês por que eles eram nossos parentes, inclusive obriguei os Chevalier a ouvirem a verdade sobre o passado ocultista de Athina e sobre a traição dos Matingly, embora eu obviamente tenha amenizado um pouco as coisas para eles. Ajudou o fato de eu nunca ter descoberto que espécie de bruxaria Athina praticava ou se ela realmente tinha os poderes que afirmara ter, mas o que importa é que eu estava curioso em olhar para o rosto dos últimos descendentes vivos de Athina Atheneus.

“Por algum motivo que nunca compreendi, Adrien Castanelli não estava ali. Não cheguei a perguntar o porquê disso a Antoine porque achei indelicado. Bom, minha mãe me disse que seria. Além dele, sua esposa Annice, uma criatura magra de olhos úmidos e nervosos, estava com ele. Ambos tinham pele clara, eram louros como o sol, cabelos curtos e lisos, e tinham olhos azuis muitíssimo claros, assim como metade dos nossos primos europeus. Nada muito relevante, mas que certamente seria citado no legado. Eu esperava que minha mãe me deixasse participar mais daquilo, ao invés de só mostrá-lo a Elizabeth. Mas não importa. Eu não sinto mais rancor de minha irmã.”

— E o filho? Oliver.

Summer sentiu um arrepio na espinha.

— Oliver Castanelli era uma sombra do pai. Eu jamais vou me esquecer de quando o vi pela primeira vez. Tinha acabado de explicar a história de Athina aos argentinos e brasileiros, me virei e ele estava lá, do outro lado do salão, observando-me. Tinha imensos olhos azuis tão brilhantes quanto estrelas, absurdamente profundos e penetrantes, como se ele estivesse lendo sua alma. Também tinha a mesma pele clara dos pais e os cabelos lisos, mas estes eram compridos, até o pescoço, e não eram louros, e sim prateados. Aquilo foi o que mais me surpreendeu, eles eram da cor exata da prata, quase brancos, brilhantes como os olhos. E seu rosto era quase redondo, como o de um bebê. Oliver era a criatura mais bela que eu já havia visto, um ser puramente branco e quase celestial que possuía uma inocência e curiosidade tão grandes na expressão infantil que eu te digo com certeza que me apaixonei por ele ali.

“É claro que eu queria me aproximar dele, e embora tivesse todos os motivos do mundo para fazer isso, algo me impediu. Eu tinha apenas onze anos, não era? Não sabia lidar com um amor tão grande e impiedoso quanto aquele que eu sentia. A criança dentro de mim não me deixava chegar perto daquele ser etéreo que se assemelhava tanto com um anjo, embora tudo o que ela quisesse fazer fosse beijar aqueles lábios lindos.

“Então é claro que, durante toda aquela festa, eu roubei os sapatos dele. Estúpido como apenas uma criança poderia ser, mas quando tudo terminou, eu achei um motivo para falar com ele. Ei, achei seus sapatos. Oh, e aliás, gostaria de se casar comigo? Eu disse apenas a primeira parte da frase, mas ele agradeceu, e quando ele o fez foi o momento mais maravilhoso da minha vida. Não importava que seu leve sotaque francês estivesse impregnado naquele Obrigado, foi o suficiente para derreter meu coração. Ele me observou de cima a baixo e deu o que eu posso chamar de sorriso. Não tenho palavras para descrever a aparência angelical que ele tinha naquele momento, mas eu tinha certeza que o amava. Se não tivesse desobedecido minha mãe e procurado pelos descendentes de Athina, nunca o teria conhecido, aquela criatura de olhos azuis e cabelos prateados que carregava o sangue de uma bruxa francesa de trezentos e cinquenta anos de idade.

“Durante as semanas que se seguiram, eu fiquei com Oliver praticamente todos os dias. Os Castanelli se estabeleceram numa pequena, mas aconchegante, casa ao pé da colina onde era a casa dos Summer, então eu podia visitá-lo todos os dias. Havia pouco a se fazer em Minnle, então normalmente nós apenas conversávamos. Ele tinha treze anos na época, mas se divertia em brincar de brincadeiras infantis com nossos primos distantes ao lembrar que agora eles eram primos dele também. É claro que chegou um momento em que eles foram todos embora, então ficamos apenas eu e ele, o fogo e a prata. O amor que eu sentia por ele não diminuíra nem um pouco, apenas crescera com o passar dos tempos. Eu tinha que me controlar para não beijá-lo todas as vezes em que ele se aproximava para me sussurrar algo. Claro que de noite, quando eu estava sozinho na minha cama, eu o deixava invadir meus pensamentos e fazer em mim tudo o que eu queria que ele fizesse, tudo o que um pré-adolescente pode querer que outro faça nele. Mas ele nunca soube disso.

“Porém, apesar de eu ter me tornado seu amigo, eu sentia que ele não se tornara amigo meu. Eu sentia que não era nada para ele. Não que ele me ignorasse ou tratasse mal, pelo contrário, mas durante todo o tempo que passamos juntos eu sentia como se ele estivesse a quilômetros dali, como se tudo o que visse fosse irreal e imaginário, ou apenas muito desinteressante e ele tivesse outro lugar melhor para ir. Era como se ele estivesse atrás de uma parede impenetrável de vidro e ninguém pudesse quebrá-la. Oliver Castanelli criou uma barreira tão grossa em volta da própria mente que ninguém podia penetrá-la, foi isso. Algo que aconteceu com ele durante a infância culminara naquela insensibilidade insuportável com a qual eu era obrigado a lidar porque o amava demais para não me importar. Eu sentia que todos que o amavam demais sofriam simplesmente porque o amavam. Os pais já desistiram há muito tempo.

“Depois eu descobri que ele tinha esquizofrenia, que era essa doença a causadora de seus devaneios, que às vezes ele parava e ficava olhando para um mesmo ponto vazio durante horas sem perceber nada que lhe acontecia em volta. Eu descobri que ele via pessoas que não existiam e que elas bagunçavam sua mente e seus sentimentos, que ele se afastava das pessoas reais para que elas não o amassem e sofressem com isso. Mas era tarde demais para mim. Eu o amava mesmo que ele tivesse que tomar dezenas de comprimidos por dia para poder viver sem enlouquecer.

“Então eu fiz a coisa da qual eu mais me arrependo. Quando eu fiz doze anos, contei a Oliver Castanelli que o amava mais que qualquer coisa, que eu o queria para mim, que eu suportaria o que ele passava e o ajudaria a passar por aquilo também. E quando eu menos esperava… ele chorou. Mas não de felicidade. Oliver chorou na minha frente e disse a última coisa que eu ouvi dele, ou melhor, a última frase que ele endereçou a mim, uma frase que eu jamais vou esquecer, pois me lembro de cada entonação de sílaba que ele usou, do modo como a deixou deslizar viscosamente por aqueles lábios que eu tanto amava: Você não pode me amar porque eu não posso amá-lo. As Sombras insistem em envolvê-lo e eu não posso amá-lo porque elas insistem em envolvê-lo.

“Bem infantil, não é? A estrutura dessa frase. Eu não sei o que são as Sombras, nem nunca saberei. Talvez mais uma das coisas que ele via que não existiam, que não queria me contar porque não queria me preocupar. Que grande lógica, essa.”

Summer parou de falar, com raiva. Lembrar de Oliver sempre o deixava com raiva. Seu descaso o deixava com raiva, sua insensibilidade causada pela maldita doença. Ora, pro inferno que ele fosse louco! Summer o amara com todas as forças, mas Oliver segurara seu coração de menino com as mãos e o estraçalhara sem piedade.

Arianne parecia entendê-lo e se apiedar dele, mas Summer odiava que sentissem piedade dele, por isso voltou à história:

— Fiquei algum tempo sem falar com ele depois disso, e quando eu tentei finalmente contatá-lo sua mãe me dissera que ele estava doente. Fiquei aterrorizado, pensando que a doença psiquiátrica podia estar agindo em seu corpo, dilacerando-o por dentro, ou talvez fosse meu descaso em relação a ele. Talvez ele fosse carente demais e precisasse daquela atenção, mesmo que não conseguisse retribuir. Senti-me culpado. Desejei nunca ter parado de falar com ele. Aliás, desejei nunca ter me declarado para ele. Foi um erro imenso. Eu queria reparar.

“Finalmente, sua mãe me deixou entrar em seu quarto e falar com ele. Eu o fiz. Ele estava deitado na cama, pálido e suado como um anjo no inferno. Os olhos estavam foscos e opacos, olhando através da matéria para algo que não estava naquele plano terrestre, algo irreal produzido pela mente dele. Então ele começou a falar.”

— Você não disse que aquela frase foi a última que ele lhe disse?

— Mas foi. O que ele falou a seguir não foi dirigido a mim, e sim ao que ele via. Parem, por favor. Fiquem quietos. Por que não entendem que vocês não existem? Por que não me deixam em paz? Que as Sombras os comam, eu não aguento mais. Odeio-me por vê-los, odeio Athina Atheneus por ter amaldiçoado seus descendentes, a maldita bruxa, a maldita bruxa cujo sangue maldito ainda corre em mim e me amaldiçoa assim. Senhor, por favor. Santo anjo do Senhor…

“Ele começou a rezar aí e não parou mais até que sua voz se desanuviasse, seus olhos se fechassem e ele entrasse num sono profundo pelos remédios que tomava. Fora a cena mais horripilante que eu já vira na vida. As cortinas começaram a esvoaçar apesar de a janela estar fechada, os lençóis começaram a mudar de lugar, apesar de Oliver estar parado, como se houvessem minúsculas cobrinhas invisíveis rastejando por cima. Pequenas coisas assim me aterrorizaram o suficiente para sair correndo da casa dos Castanelli e nunca mais voltar. Essa foi realmente a última vez que eu o vi.”

Summer suspirou. Depois continuou:

— Um tempo depois, Antoine Castanelli foi chamado para Castellobranco. Eu só descobri isso no dia em que os Castanelli se mudaram e Oliver se foi para sempre. Eu chorei, chorei tanto quanto minha alma permitia. Fiquei doente, de cama, com febres altas, não tinha apetite nem vontade de levantar, ficava apenas chorando o tempo todo. Acho que minha mãe sempre soube que a minha tristeza denunciava que eu sentia algo a mais por Oliver, mas ela nunca me disse nada. Aquele ser era inalienavelmente etéreo e puro para mim, nada no mundo poderia maculá-lo. Eu queria guardá-lo para sempre no meu coração e nas minhas memórias, por isso pedi a minha mãe para escrever sobre isso no legado. Ele era um Castanelli, portanto tinha direito de ter seu nome ali. O que eu escreveria? Que ele era uma criatura muito doente e muito especial, era isso. Minha mãe me permitiu e eu fui.

“Creio que eu ainda não falei sobre meu pai, não é? Os homens não tinham muita relevância na Grande Família, mas meu pai se chamava Allan Cambridge. Como tradição, os filhos das guardiãs do legado permaneciam com o sobrenome da mãe, pois assim foi com minha avó e assim com minha bisavó antes dela, embora ela não fosse guardiã, mas isso não vem ao caso. Sim, eu subi ao sótão de casa, onde incontáveis caixas e pergaminhos se amontoavam, escritos centenários sobre nossos antepassados, inclusive a grande árvore genealógica, imortalizada num pergaminho gigantesco do tamanho de uma cartolina atual, mas incomensuravelmente mais longo.

“Porém, eu conhecia aquele porão de cor. Havia uma caixa a mais ali, não havia? Uma pequena, de sapatos, escondida entre outras caixas de lembranças da Grande Família. E com a curiosidade que qualquer garoto de doze anos tem, eu a abri. Segurei-a por um minuto inteiro, olhando seu conteúdo, e então a larguei, horrorizado.

“Na caixa, dezenas e dezenas de fotos. A cara de prazer que Oliver fazia ao ser tocado daquela forma era repulsiva. Eu conhecia aquela pessoa, era um dos meus primos franceses, mas havia mais: italianos, ingleses e espanhóis também apareciam ali, e todos estavam com Oliver, às vezes nus e às vezes não, e eram de todas as idades, velhos e novos. Todos tinham suas repulsivas mãos no corpo branco e perfeito de Oliver, seus orgasmos imortalizados ali, naquela caixa. Inclusive meu pai, Arianne. Oliver fez aquilo com metade da minha Grande Família e fotografou todas as malditas vezes. Eu nunca me esquecerei do rosto dele naquela foto dele com meu pai. A ideia toda da coisa era absurdamente nojenta.”

— Espere — disse Arianne. — Está dizendo que apesar de Oliver ser essencialmente inacessível, ele era completamente promíscuo? Eu sei que isso parece contraditório, mas não é. Essas pessoas tinham acesso apenas à parte física e material dele, mas o espiritual, aquilo que realmente fazia dele o que ele era, aquilo que ele era por dentro, de etéreo e puro, aquilo não era de ninguém. Nenhum dos homens com quem ele transou teve acesso a essa parte, à mente dele. Summer, você disse que algo o traumatizou quando criança. Eu creio que pode ter sido extremamente perto de ser considerado um abuso sexual. Quando ele cresceu e finalmente atingiu a maturidade sexual, ficou com medo de estar tão traumatizado que nunca chegasse a ver sexo como uma coisa boa, por isso que ele era tão promíscuo com treze anos, pois se recusava a odiar sexo. Por isso que ele nunca quis fazer nada com você. Ele sempre soube que você o amava, então tentava protegê-lo da parte fria e insensível dele. Ele nunca amou-o fisicamente porque ele não queria que fosse algo seco e sem sentido, como era com todos os outros. O Oliver material e o Oliver espiritual eram criaturas diferentes, Summer. Acredite, meu querido, de abuso sexual, sexo sem sentido e sem amor, eu compreendo bem.

Summer sabia que ela estava certa, mas estava relutante em admitir. Demorara muito tempo para cicatrizar as feridas que sentia de Oliver e não queria reabri-las. O ódio que sentia do que ele fez o ajudara nisso, mas agora estava derretendo como cera quente. Quem era ele para julgar uma pessoa tão complexa quanto Oliver? Era esta a verdade nua e crua.

Summer continuou a história:

— Depois de ter largado aquela caixa, eu saí correndo do sótão. Eu era a única pessoa em casa, pois todos tinham saído, mas estava com uma vontade alucinada de destruir aquelas coisas que destruíam a memória de Oliver. Eu anda escreveria no legado? Omitir não era mentir, portanto eu não tinha obrigação de citá-lo. Na verdade, eu não tinha obrigação de seguir as regras, pois estas eram apenas da Matriarca, mas minha mãe confiara em mim para fazê-lo, então eu o faria.

“Eu peguei fósforos na cozinha e subi correndo ao sótão, risquei um e joguei dentro da caixa, então desci novamente e saí de casa, para o ar puro da noite. Mas eu pareço ter me esquecido que o sótão era completamente de madeira e estava cheio de papiros e pergaminhos frágeis como folhas secas. Eu só percebi meu erro quando era tarde demais. Ao longe de minha casa, eu a observei irromper em chamas. O fogo rugia da janela. Eu via pessoas subindo a colina para ver melhor. Todo o legado da Grande Família estava ali, todos os nosso feitos, atributos, nomes e sobrenomes, nosso amor e ódio e nossas rixas e desavenças estavam ali ardendo em chamas por minha causa. O que eu podia fazer? Negar a culpa? Era o único em casa e minha mãe sabia que eu mexeria no legado. Não era apenas a casa que estava sendo destruída. Era toda a família. Eu destruí a Grande Família.

“Então corri. Sem pensar em nada, corri. Sem fazer nada a não ser chorar, corri. Atravessei a noite como um vampiro, correndo sem me cansar, sem me importar com a cidade de Minnle que eu deixava para trás, com os Summer da Califórnia que eu abandonava. Queria reencontrar Oliver e pedir explicações, queria gritar com ele e então beijá-lo. Corri com isso na cabeça, de me encontrar com Oliver. Castellobranco, eles disseram? Quase duzentos e oitenta quilômetros de distância. Eu corri tanto que minhas pernas simplesmente pararam de funcionar numa lanchonete medíocre numa cidade minúscula no meio do nada. Ninguém me conhecia, e eu me lavei no imundo banheiro do posto de gasolina ali perto antes de entrar na lanchonete e perceber que não tinha um centavo sequer.

“Foi aí que eu comecei a roubar para sobreviver. Fiz isso sem remorso algum. Eu roubei e me alimentei, e até consegui um quarto para passar o que restava da noite num hotel vagabundo lá perto. Eles não se importaram com o fato de eu ter doze anos, e sim com eu ter dinheiro. No dia seguinte, saí daquela cidade e cheguei a San Louis, onde Oliver morava antes de ir a Minnle. Fiz as mesmas coisas até que tivesse dinheiro suficiente para pegar um ônibus à grande cidade mais próxima: Middleland.”

Ficou calado por alguns momentos, com uma grande tristeza no peito.

— Você jamais deixou Middleland — Arianne sussurrou.

Ele assentiu.

— Nunca. No primeiro dia que eu vim para cá, fui dormir debaixo da ponte. Não tinha dinheiro e precisava dormir de qualquer jeito, então fui me juntar àqueles drogados e viciados. Não usei nada, é claro, também porque eu não tinha como comprar nada, mas não importa. Naquela noite, eu vi um pequeno grupo de viciados se infiltrar na floresta de Middleland. Ouvi-os dizerem que havia um furo na cerca do condomínio Vittart. Pensei que podia entrar lá para achar um lugar melhor para passar a noite, então eu os segui. Porém, apenas um deles ultrapassou a cerca, que dava num canteiro de obras, e quando eu vi, estava atacando um garoto.

“Era incrivelmente pequeno, embora tivesse a minha idade, mas seus gritos de horror eram insuportáveis para mim. Lembravam-me Oliver. O viciado tentava tirar à força o que ele tinha dos bolsos. Eu fiquei observando através da cerca consternado, pois nunca forçava ninguém a me dar o que tinha. Eu também não tinha como, mas não era esse o caso.

“Porém, eu percebi que o viciado havia puxado a calça do garoto para baixo e agora fazia o mesmo com a própria. Ele chiava e choramingava, e o grito que deu quando foi penetrado foi inumano. Eu não consegui mais ficar parado. Peguei um dos pedaços de madeira que estavam jogados no chão e acertei na cabeça do viciado sem piedade alguma. Ele caiu para trás, mas o garoto estava desacordado. Eu fiquei então sem saber o que fazer. Podia ter matado o viciado, que afinal teria sido assassinato de qualquer maneira, mas estava escuro ali. E se eu levasse o garoto a alguém e quando ele acordasse, pensasse que eu fizera aquilo? Tive medo, admito. Pensei em deixá-lo lá. Mas fiz o que era certo.

“Vesti novamente as roupas nele, o pus nos braços e caminhei com dificuldade através da estrada do canteiro de obras até chegar a algum lugar conhecido daquele condomínio, onde havia gente. Chamei algumas pessoas e pedi por ajuda. Disse que estava passando por aquela estrada alguns metros atrás do garoto e vi o viciado entrando pela falha na cerca e o atacando. Então eu o acertei com o pedaço de pau.

“No dia seguinte, fui visitá-lo no hospital. Já haviam me dito o que aquele terrível estupro lhe transmitira e que ele poderia morrer por causa daquilo, que o acompanharia a vida toda e que não tinha cura. Falaram como se eu não entendesse nada daquilo, os estúpidos. Ainda me lembro de meu primeiro diálogo com ele. ‘Foi você quem me salvou?’ ‘Sim, mas não consegui impedir aquele viciado de… você sabe.’ ‘Qual seu nome?’ ‘Edric. Mas pode me chamar de Summer.’ ‘Também sou Edric. Me chame de Spring.’”

— Por que não gosta de ser chamado pelo primeiro nome?

— Porque de alguma forma eu sabia que estava ligado a Spring para sempre por causa daquilo, que nunca mais procuraria Oliver porque ele já não fazia mais parte da minha felicidade, e sim da minha tristeza. Eu sou uma pessoa extremamente pragmática em relação a isso, categorizo as coisas no que me faz feliz e no que me faz triste. Mas eu quero ser chamado de Summer porque isso me lembra quem eu sou, me lembra que eu sou parte da Grande Família e sempre farei, apesar da destruição do legado. Eu nunca iria querer esquecer minhas raízes, embora tivesse uma certeza estranha de que não iria mais voltar a Minnle. Por isso sou o Summer. Não porque odeio o Edric, mas o Edric ficou em Minnle, o Edric foi queimado junto com o legado da Grande Família. O Edric se foi, por isso agora sou Summer, por isso sou a criança de verão. Spring apenas quis me imitar, acho. Depois conheci Winter e Autumn, que também se chamam Edric. Autumn realmente odeia esse nome e Winter quis imitá-lo também, pois acabou se apaixonando por ele, o que é engraçado porque eles tinham uma relação de amor e ódio bastante clichê, mas isso é para outra hora. A mãe de Autumn, Jesse Tudor, pertence ao ramo inglês da Grande Família, apesar de ela morar na Califórnia. Passei quatro longos anos sendo feliz ao lado deles e de Spring até que Nicholas Hentz veio e o tirou de mim. Ah, e o viciado não morreu. Pelo menos, não da minha pancada.

— É por isso que você tem tanto ressentimento dele? De Nicholas.

— Por isso e porque a família dele indiretamente tirou Oliver de mim. Os Castanelli só se mudaram porque a família Hentz ordenou que o fizessem, por causa da Lemnsack Hentz World Donations de Mary Alice Hentz e Charles Lemnsack, que os forçaram a isso. Sei que não é culpa de Nicholas, mas manter minha primavera longe de mim é. A mágoa ainda existe. Eu nunca mais procurei Oliver também porque não tive… tempo. Entrei na Escola St. Nicholas falsificando documentos e criando pais fantasiosos para ficar perto de Spring sempre, e as mensalidades caras me prenderam aqui e eu nunca consegui uma bolsa de estudos porque nunca pude me esforçar muito na escola, já que eu já estava me esforçando para sobreviver. Quando eu subitamente me tornei maior de idade aos dezesseis anos, foi também um alívio para mim. As falsificações sumiram. Deus salve o Rei Senn. — Ele deu um suspiro. — É essa a minha história, Arianne, minhas pequenas crônicas untadas para formar um grande e estúpido drama. São esses os meus segredos infantis e minhas tristezas melosas.

Summer podia omitir o fato de ter agredido Spring num momento de raiva que só pode se equiparar a quanto tentou queimar as fotos de Oliver. Não podia explicar aquilo, apenas pedir desculpas às vítimas.

No entanto, ele nunca se desculpara com a Grande Família.

Arianne o abraçou.

— Agora conte-me você o seu segredo — pediu a ela, mas ela apenas se levantou, tirou a camisa enorme e vestiu as roupas anteriores, inclusive os saltos.

— Eu já te contei. Está nas entrelinhas, e algum dia você precisará saber. Lembre-se sempre dessa conversa que nós tivemos, do que eu lhe disse sobre Oliver, pois você haverá de precisar. Nunca se esqueça de mim, Edric Summer, pois você ainda ouvirá falar de mim, e quando isso acontecer eu vou precisar de você. Agora está na minha hora de ir. Mas antes, eu realmente não creio que uma mulher inteligente como Katherine Summer deixaria documentos preciosos e antigos num sótão de madeira sem fazer uma espécie de backup deles. Pense nisso. Talvez você devesse voltar à Grande Família. E cuidado com o medo. Ele adora roubar sonhos.

Para finalizar, ela deu-lhe um selinho nos lábios, então atravessou a sala e deixou o apartamento.

Summer percebeu que ela deixara aquela foto que observara tão atentamente horas atrás no chão. Lentamente, desdobrou-a e olhou para ela.

Na foto, havia um Ethan Lemnsack certamente mais jovem, talvez uns catorze anos, com o braço em volta de um garoto extraordinariamente bonito, com um rosto infantil e adorável, cabelos louro-prateados que chegavam aos ombros e os mais brilhantes olhos azuis que Summer já vira na vida. Os olhos que ele vira na vida.

Largou-a tremendo; os joelhos falharam e ele caiu no chão, começando a chorar e a soluçar violentamente. Ele estava vivo, pelo menos há quatro anos ele estava. Aquela foto fora tirada no mesmo ano que ele fora embora para Castellobranco, onde sabia que a família Hentz morara antes de ir para Middleland.

E Ethan… Ethan o conhecera. Ethan conhecera seu Oliver, Ethan abraçara seu Oliver, será que o amara também? E o sorriso de Oliver… será que fora recíproco? Será que os dois dividiram a cama, e que fora com o amor e o sentido que não teria sido se fosse com Summer?

Oliver. Seu pequeno grande Oliver ali, imortalizado naquela foto.

Summer segurou-a contra o peito, sem conseguir parar de chorar.

No dia seguinte, na Escola St. Nicholas, uma multidão enchia o Pátio.

Estavam todos tentando passar para o Sul, mas a Estrada Principal estava bloqueada por uma dezena de policiais. Alunos tentavam ver através de seus ombros uniformizados, mas era tudo distante demais. Porém, era possível ver que estava ocorrendo uma megaoperação no vestiário II.

Encontrou Autumn com o rosto pálido, quase tremendo de nervosismo.

— O que houve? — indagou a ele.

— A Anhert Corporation comprou hoje de manhã a nova construtora que estava responsabilizada de fazer o reparo no encanamento do vestiário II, então ordenou que as obras parassem imediatamente. Mas essa ordem chegou tarde demais. Nicholas fugiu antes que a coisa estourasse.

— Fugiu? — indagou aflito. Levara Spring? — Tarde demais? O que houve?

Sua voz era quase um sussurro.

— Encontraram ele, Summer. Encontraram o corpo do padre Lafferty Winter.

Notas finais
Agora sabemos quem roubou os sapatos de Oliver. E eu me superei, hein, 6 citações no início do capítulo. Duvido que alguém ainda não goste do Summer depois dessa. É tudo questão de ponto de vista. E acho que ele é um dos meus personagens preferidos. Minhas melhores ideias surgem de repente. q A história da Grande Família literalmente surgiu na hora em que eu comecei a falácia de Summer. Comecei com "Eu nasci numa família grande", e o resto veio como mágica. Se sentirem necessidade de reler a história para compreender melhor como Athina é ancestral de Oliver e Summer ao mesmo tempo, eu aconselho fazerem isso. Isso significa que Ethan, Oliver e Summer são todos primos distantes. A avó de Ethan, Joselia Jasperin, também é descendente de Athina, que era parte Atheneus, o que significa que sim, ele é um descendente de Atheneus. O porquê de nunca ter demonstrado habilidades sobre-humanas eu só explicarei depois... daqui a umas 3 temporadas. Curiosidade: Amy também pertence à Grande Família. E eu espero realmente que ninguém faça relação com a sitcom da Globo. :3