Como Sobreviver Num Acampamento De Nerds
14 Dica 14 - Desconfie quando tudo parecer bom demais
Notas iniciais
Décima Quarta Dica: Desconfie quando tudo parecer bom demais
Nem tudo é tão bom quanto parece, então é necessário SEMPRE desconfiar. Eu, que sempre fui uma pessoa sensata e confiável, fui facilmente enganada e agora quero degolar pescoços. Na verdade, degolarei pescoços! Esse acampamento está aumentando consideravelmente meu nível de raiva diário... E olha que eu nunca fui muito estressada! Devo por a culpa de tudo em uma pessoa, e em apenas uma pessoa: Matthew Peter Simons... Mais conhecido como delinquente, aspirante a drogado, roqueiro de meia tigela, comedor de cocô de passarinho, pseudovalentão, ridículo... Matt.
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A tarde acabou conosco sendo derrotados pelos Brancos e os Vermelhos sendo derrotados pelos Laranjas. A liderança ainda era dos Brancos, que estavam com 120 pontos, seguidos dos Laranjas com 100 pontos. O resto da pontuação quase se igualou! Os Azuis, os Vermelhos e os Verdes estavam com 70 pontos, enquanto os Amarelos, que foram derrotados, ficaram com apenas 60, em último lugar... E aquela era a noite em que eles seriam anfitriões.
O Sr. Turner apareceu no palco da Grande Casa durante nosso jantar (que devo ressaltar que não era guisado de Jack) para anunciar os pontos. Não houve desconto dos nossos, como Quentin havia prometido, mas eu achei estranho ninguém ter feito nada a respeito de Anna, Louise, Jeon e Jonathan não estarem presentes nas suas atividades e terem saído impunes... Algo havia acontecido e eu não estava sabendo.
– Então tenham um bom jantar e reúnam-se o mais rápido possível do lado de fora para a noite da fogueira! – ele falou entusiasmado.
– Ei, toco de gente, quando você vai falar com o Lucky? – Jonathan me chamou a atenção, fazendo com que todos sentados conosco me olhassem curiosos.
Estávamos sentados juntos: Eu, Jeon, Jonathan, Jeffrey (ou triplo J vermelho, como comecei a chamá-los naquela tarde) e Eric. E todos eles me encararam intrigados.
– Como assim falar com o Lucky? – Jeffrey disse, ele ainda não sabia que eu iria dar um jeito de Jack não dormir no mesmo teto de Matt.
– É que eu achei melhor deixar o Jack na sua barraca, ao invés da barraca dos meninos por motivo de possível uso de drogas ilícitas. – respondi, tentando resumir. – Então os meninos me sugeriram falar com o líder dos Brancos, o Lucky.
Jeon deu uma risadinha e cutucou Jeff, falando:
– O Lucky misteriosamente se apaixonou por ela desde a caça aos sutiãs.
– É, eu soube disso pela Bette, mas não levei muito a sério. – Jeffrey disse com um olhar confuso. E eu fiquei mais confusa.
Fiz uma careta.
– Como assim? Bette Larsen está espalhando isso de mim?! Então, não me leve a mal, Jeffrey, mas não pode ser verdade.
– Não, Lucy! – Eric falou, também com um sorriso – O Lucky realmente falou que estava interessado em você na noite da caça. Alguém deve ter falado para a Bette, mas não sabemos o motivo de ela estar espalhando isso.
Aí eu não segurei minha língua e quase me entreguei:
– Ah, é que ela acha que eu estou afim do Jeffrey e quer me tirar de perto dele.
Quando percebi o que tinha acabado de dizer, quis me enfiar debaixo da mesa. Por meio segundo fiquei vermelha como a máscara do Dead Pool.
– Do Jeffrey?! – Jeon indagou, franzindo o cenho – Eu achava que você tava afim do Eric.
– Não era do monitor, o Quentin?! – Eric resmungou.
– Eu achei que estivesse gostando do Matt, por isso implicam tanto um com o outro. – Jeffrey riu.
– Mas por que não de mim? – Jonathan completou.
Meu queixo caiu. Eu me vi tão rodada na mente deles que fiquei tonta!
– Eu realmente tenho que parar de andar com vocês, homens. – bufei e comi uma enorme colher da sopa de galinha que era meu jantar. Eles ficaram achando graça das hipóteses, e eu não evitei dar um sorrisinho – Tentem arrumar namorado para as meninas, não para mim. Parecemos a sexta série!
Jeon coçou o olho antes de falar mais sério:
– Mas vai dizer que você não ia querer beijar qualquer um de nós? Só uma vez, não precisava ninguém saber...
– Não. – respondi curta e grossa, encarando o olhar de cada um presente ali na mesa. Eram rapazes até bem apresentáveis, mas o “ninguém saber” era algo que eu não me confiava. Então resolvi entrar na brincadeira – Mas que o Quentin é um pedaço de mal caminho, isso ele é.
– Ela se decidiu! – ele berrou e nós rimos juntos. Não pude deixar de perceber que o riso de Jeffrey foi mais acanhado que o normal. Talvez aquilo fosse coisa da minha cabeça, mas eu estava cada vez mais expert em perceber reações das pessoas. Mais uma pista! Jeffrey realmente estava afim de mim! Não pude me concentrar muito nesse pensamento, Jeon berrou novamente e eu fiquei nervosa – Ei, Lucky! Vem aqui, cara!
Lucky, o líder dos Brancos, estava passando atrás de mim, lentamente. Assim que Jeon falou seu nome, fiquei absurdamente nervosa e larguei a colher da sopa com susto – Jonathan riu com minha reação. Virei e o encarei, percebendo seus cabelos loiros de surfista e sua pele mais morena.
Fiquei pensando nos estereótipos de nerd sendo quebrados: Matt era um valentão, Jonathan era um pegador e agora Lucky um surfista. Onde estavam os nerds tímidos com óculos de fundo de garrafa?! Olhei para Eric e encontrei o meu clássico e amado nerd haha. Aquele ali provavelmente nunca deixaria o classic way.
– Diz, Jeon. – Lucky falou, aproximando-se de nós. Percebi que me olhou de relance, mas logo voltou a encarar o asiático bobão.
– Cara, senta aí. Vamos conversar. Vocês brancos estão dando uma lavada nos outros times!
Ele sorriu, e ficou até bonito sorrindo...
– E nem trapaceamos dessa vez nas provas. – ele brincou... Ou não... – Matt também ajudou não participando da prova de arco e flecha de hoje. Além da moça aqui, claro, que tentou atirar nele hahaha.
Jonathan se levantou com um sorriso, mas não olhou para Lucky. Seu olhar foi para trás dele e para os lados, parecia procurar alguma coisa, o que me deixou confusa.
– Essa daqui é a Lucy. – ele disse sem nos encarar – Seja educada e diga “oi”, Lucy.
Fiquei desconsertada até ver que Lucky me olhava com simpatia um extraterrestre. Não pude evitar ser gentil também!
– A estraga caça e a quase assassina do Matt. – ele falou, sorrindo – É um prazer conhecê-la, azul.
– É quase um prazer meu, branco. Vocês estão realmente nos dando uma lavada. – brinquei e ele achou graça, sentando-se ao meu lado e empurrando Eric. – Eu e os meninos temos uma coisa pra te perg-
– EI, MATT! – Jonathan berrou, me interrompendo.
Eu me retorci na cadeira de imediato com aquele grito. Busquei onde Matt estava e o motivo de Jonathan estar gritando daquela maneira, mas aparentemente não havia razão alguma.
– Para que esse grito, Jonny? – Lucky disse. Estava com as mãos tampando os ouvidos.
Matt apareceu subitamente ao meu lado com um olhar de cansaço tedioso.
– Que foi, Jonathan? – ele resmungou e olhou para todos sentados na mesa. – Deixa eu adivinhar, a Lucy vai tentar soltar o charme, é? Essa eu quero ver.
Então todos me fitaram com olhos imensos e atenção redobrada. No fundo, tenho certeza que estavam engasgando em risadas para saber como eu pediria aquele favor para Lucky, que aparentemente não sabia o que todos pensavam.
– O que foi, Lucy? Pode falar – Lucky falou bem manso. Manso demais, rouco demais, sedutor demais... Tive um leve arrepio na espinha.
– Eu não saberia como começar...
– MATT!
A última voz veio de fora da mesa, de alguém que eu não esperava nem queria ouvir.
Esther Devosso apareceu, cercada por Louise Morgan e por Anna Pierce. As minhas duas companheiras de barraca não tinham uma feição muito animada, estavam cabisbaixas como se tivessem feito algo de errado. E fizeram.
– Oi, linda. – Matt falou sem graça, assustado por ela ter chegado daquela maneira. Na verdade, todos ficamos assustados.
– Eu não a-cre-di-to que você não me levou o bicho! – ela berrou.
Levantei de imediato, batendo a mão na mesa.
– Agora lascou de vez. – Jeon murmurou.
– De que bicho ela está falando?! – falei, furiosa. Ela estava falando de Jack! Se Matt tivesse falado para ela sobre Jack, eu nunca o perdoaria! Matt me encarou, esbugalhando os olhos.
– Não é o que você ta pensando, anã. – ele disse, pondo as mãos para se defender de um possível e provável ataque meu – Eu não falei para ela, juro.
– Do que eles estão falando? – Lucky perguntou para alguém, mas ninguém o respondeu.
Eric pôs as mãos na boca e ficou sem palavras. Já Jeon e Jonathan ficaram boquiaberto com a situação. Eu daria um escândalo e estragaria tudo na cabeça deles.
Foi quando Charlotte chegou para tentar acalmar a situação, falando mansamente e se esforçando para não fuzilar a própria irmã com o olhar.
– O que está acontecendo? Calma, pessoal. – ela disse, se metendo entre mim, Esther e Matt.
Ainda que eu fosse bem menor que Charlotte, pus minha mão no seu ombro e a afastei, segurando a manga da blusa de Matt e o crucificando com os olhos.
– Então explica, bicho papão, como a Esther sabe da existência do Jack. – falei feroz como se fosse o Fanático num corpo trinta vezes menor.
– Não foi ele quem me contou, criatura pequena. – ela respondeu, revirando os olhos – Mas deveria. Você vai ver se eu não encontrar esse bicho já já.
Cerrei os punhos e os rapazes que estavam sentados (com exceção de Lucky) se levantaram.
– Eu vou bater nela, se escutar mais uma vez a palavra “bicho”.
– Caaalma, Thumbelina. – Matt sorriu, passando a mão no meu cabelo como se fizesse isso de costume.
Naquele instante, vi o olhar de Esther se inflamar. Todos que assistiam ficaram estáticos com os raios invisíveis que saiam de nossos corpos... Menos Lucky, que parecia olhar divertido para a situação toda.
– Acalmem-se, meninas. – ele falou, levantando também.
Esther bufou e jogou uma de suas mãos no peito de Matt, enquanto me olhava e falava:
– Gatinho, é melhor sairmos daqui para conversarmos melhor, não acha?
Matt sorriu naquele instante e retirou lentamente a mão dela do próprio peito, o que deixou quase todos nós de queixo caído.
– É agora. – Jeon falou, rindo.
Jonathan também riu, antes de ouvirmos Matt fazer uma última declaração enquanto olhava para Esther e depois para Lucky.
– Eu e você não vamos sair.
“Ele realmente disse isso?!” pensei e me animei nos pensamentos. Poxa, Esther era um pé no saco maior que o próprio Matt! Eu estava orgulhosa que ele havia se livrado das garras dela, principalmente porque achava que Jack e a mimação dela eram os motivos principais. Mas eu me enganei...
Matt aproximou-se de mim, ficando frente a frente com minha cara e completamente de costas para sua ex-amada.
– O que foi? – perguntei com a mente completamente vazia.
– Estou cobrando a dívida. – ele respondeu com o mesmo sorriso pretensioso que fez quando me disse que pediria algo em troca de achar Jack. – Não grite nem morda, ok?
As reações foram as seguintes:
Charlotte pressionou os lábios e arregalou os olhos com a surpresa. Eric deixou o queixo chegar no chão e as sobrancelhas alcançarem o teto. Jeffrey franziu as sobrancelhas. Jeon berrou um “YES! TOMA, ESTHER!”. Jonathan soltou uma gargalhada. Alguma pessoa que passava deixou o a bandeja com o prato cair. Bette veio correndo e berrando “EU SABIA”. Lucky saltou os olhos, mas tentou não alterar a feição. Louise retorceu a boca aberta. Anna levou a palma da mão de encontro a própria testa. Mas a reação de Esther foi um “QUE PORRA É ESSA?!” alto e em bom tom.
Tudo isso eu soube depois porque o próprio Eric me contou. No momento que aconteceu, eu não consegui entender direito, por isso congelei.
Após ter dito aquele “ok?”, Matt colocou uma mão no meu rosto e me puxou de uma vez, sem um pingo de cavalheirismo ou romantismo, e chocou sua boca na minha! Minha primeira reação foi fazer barulho e arregalar meus olhos! A segunda foi me separar dele, usando minhas mãos contra os seus ombros, entretanto ele apertou meu corpo com o outro braço, deixando os meus impotentes e presos de maneira desconfortável!
O delinquente me arrancou o pior beijo que já recebi na vida, e eu só fui capaz de grunhir e sacudir meu próprio corpo. Aí veio a idéia brilhantes que ele mesmo tinha dado a dica: meti o dente no lábio inferior dele.
– AI, SUA MALUCA! – ele berrou, me largando de vez e pondo o dedo na boca. – TA SANGRANDO, PORRA!
– É BOM QUE ESTEJA, SEU PEVERTIDO DE MEIA TIGELA! SEU BRUTO! SEU NOJENTO! HUTT DA BUNDA MOLE! ESTERÓIDE AMBULANTE! GROXO! SAPO!
– Não xinga que eu te beijo de novo!
– Vou morder a tua boca se tentar! Fazer você engolir seu próprio p---
Não terminei a frase e ele avançou outra vez em cima de mim! O que eu realmente achei que ele não fosse fazer, então não tive segundo nenhum para fechar a guarda e me defender! Ele tentou dar um beijo intenso e chegou até a fechar os olhos, mas eu MORDI outra vez! Fiz com que ele gemesse de dor com o gosto de sangue na boca.
– A LOUCA MORDEU OUTRA VEZ!
Ele então se virou para Esther a viu enfurecida demais, a ponto de levar uma mãozada dela! Além das minhas mordidas, Matt também levou um tapa de Esther.
Ninguém estava acreditando no que estava acontecendo.
– Você vai se arrepender do que fez, desgraçado. – rosnei.
– Cara, eu não imaginei que ia ser tão bom! – Jeon continuou rindo como um idiota. Aquilo tinha sido premeditado por eles, isso eu entendi bem.
– Diz que tu filmou pra gente mostrar pro Quentin. – Jonathan também gargalhou.
– To apaixonado... – Lucky murmurou.
Então Quentin apareceu DO NADA atrás de Matt e bem na minha frente, falando com as mãos na cabeça:
– Eu não acredito que vocês realmente fizeram isso!
Minha cabeça latejava e meus lábios formigavam com aquele beijo maldito e amargo. Eu tinha que extravasar minha raiva de alguma maneira! Eu tinha! Não consegui evitar me voltar para o prato de sopa e jogar todo o seu conteúdo na cabeleira feia de Matt... Ele mereceu.
Foi aí que todos do refeitório se voltaram para nós. TODOS estavam nos olhando, com expressões curiosas e repletos de risadas tímidas.
Matt suspirou e disse:
– É louca por mim. Espero não ter arruinado seus planos de romance.
– Espero não ter contraído sífilis com esse monte de baba que você pensa ter sido um beijo. – briguei, batendo o pé no chão. – Prepare-se, minha vingança será maligna.
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