Como Ser Um Fantasma (Sem Querer)
9 Capítulo 9
Alguns dias se passaram sem grandes acontecimentos. O que, para qualquer família biologicamente normal, seria classificado como algo extremamente positivo.
Para mim, era uma tragédia de proporções cósmicas.
Minhas estatísticas de entretenimento estavam despencando. Emmett não tinha soltado um único grito agudo de pânico doméstico. Alice não tinha acusado Edward de estar perdendo o juízo no meio do corredor. Rosalie não tinha ameaçado quebrar a integridade física de ninguém. E eu, para o meu completo desespero metodológico, não tinha conseguido arquitetar nenhum caos minimamente significativo nas estruturas daquele gesso. Tempos difíceis para a comunidade assombrada.
Naquela tarde chuvosa, eu estava esparramada de forma completamente antinatural, de cabeça para baixo, sobre o encosto alto do sofá de couro, enquanto Edward lia. Novamente. Porque, aparentemente, vampiros não portavam a necessidade biológica de dormir, mas precisavam reler a mesma quantidade absurdamente ofensiva de livros seculares para manter a sobrevivência mental.
— Você já pensou em fazer tricô?
Edward nem sequer se deu ao trabalho de erguer os olhos dourados das páginas.
— Não.
— Jardinagem?
— Não.
— Colecionar pedras?
— Bella.
— Estou apenas tentando expandir seus horizontes intelectuais, Cullen.
— Estou lendo.
— Exatamente o nó da questão. Esse é o problema fundamental.
Antes que eu pudesse continuar a minha campanha humanitária contra a literatura excessiva e o sedentarismo imortal, o eco de passos lentos vindo da escada cortou a calmaria. Esme materializou-se no vão da sala carregando uma caixa de papelão antiga. Muito antiga. O objeto estava visivelmente coberto por uma camada densa de poeira e exibia manchas amareladas pela ação implacável do tempo.
Meu radar investigativo foi ativado no mesmo milissegundo. Qualquer pedaço de entulho misterioso desenterrado nas coordenadas daquela propriedade era, por direito teológico, assunto de minha total jurisdição.
— O que é isso? — perguntou Alice, brotando do sofá com a rapidez de um radar de fada.
Esme caminhou com sua serenidade habitual e colocou a caixa sobre a mesa de centro de madeira.
— Encontrei no sótão.
A simples menção ao compartimento secreto chamou a atenção de todo o clã em um estalo mecânico. Até Rosalie abandonou o total desinteresse pelo ambiente e desviou os olhos da revista de grife que estava folheando.
— Tinha mais coisas escondidas lá em cima, Esme? — perguntou Carlisle, erguendo a cabeça dos seus prontuários médicos.
— Estava escondida atrás de algumas tábuas soltas do assoalho — ela explicou, removendo os resquícios de pó.
Eu me sentei de imediato no encosto do sofá, o foco travado na tampa de papelão. Edward fechou o livro com um clique abafado de papel. Emmett, demonstrando o seu habitual tato de locomotiva, praticamente apareceu do outro lado do cômodo em velocidade supersônica, fazendo o tapete vibrar.
— Tesouro? — os olhos do gigante brilharam.
— Provavelmente não, Emmett — respondeu Esme, com um sorriso brando.
— Fantasma?
— Também não.
Emmett cruzou os braços de troncos, fazendo um bico emburrado.
— Então perdeu metade da graça.
Eu esbocei um sorriso largo no vácuo. Eu realmente gostava daquele brutamontes.
Esme removeu a tampa protetora. O cheiro característico de papel velho, mofo e naftalina imediatamente se expandiu pela atmosfera da sala de estar. Dentro da caixa, o inventário era denso: pilhas de documentos legais, alguns livros de capa dura desgastados, maços de cartas amarradas por barbantes podres e dezenas de fotografias antigas em tons de sépia.
— Interessante... — murmurou Carlisle, aproximando-se com curiosidade histórica.
Todos os membros do clã começaram a dedilhar e examinar o conteúdo arqueológico. Eu deslizei suavemente pelo ar, aproximando-me da mesa por pura falta de opção de lazer. Fotografias normalmente não significavam grande coisa para os meus arquivos pessoais; a maioria daquelas imagens estáticas mostrava rostos congelados que eu nunca tinha visto na eternidade. Famílias inteiras. Casamentos vitorianos. Aniversários infantis. Desconhecidos completos vivendo vidas humanas perfeitamente mundanas que não guardavam absolutamente nenhuma relação comigo.
Flutuei um centímetro mais perto e foquei meus olhos em uma fotografia qualquer que Esme segurava entre os dedos perfeitos. Mostrava uma família posando com rigidez diante da fachada daquela mesmíssima casa. Talvez um registro dos anos 1930. Ou 1940. Eu nunca fui boa com cronologia exata.
Olhei para a imagem sem muito interesse técnico. Até que o meu foco óptico encontrou um rosto específico no centro da imagem.
E a engrenagem do universo simplesmente... parou.
O meu sorriso de deboche desapareceu das minhas feições no mesmo milissegundo. A sala de estar desapareceu. Os Cullen desapareceram de órbita. O barulho da tempestade foi deletado.
Eu conhecia aquele homem.
A certeza absoluta e violenta me atingiu no centro da alma antes mesmo que qualquer fragmento de dado biográfico pudesse se organizar na minha mente. Eu conhecia aquele homem. Eu conhecia. Eu conhecia. Eu conhecia.
Uma pressão térmica e esmagadora atravessou a integridade do meu corpo espectral. A mesmíssima sensação elétrica que eu tinha experimentado dias atrás no quarto de Edward, mas operando em uma escala infinitamente mais forte, mais densa, mais assustadoramente real.
Então, como uma represa que se rompe de repente, a lembrança de verdade veio.
Luzes brilhantes de um salão. Uma música suave tocando. Risadas ecoando pelo espaço. Eu estava viva. O pensamento veio na hora na minha mente. Viva. O ar que entrava no meu peito tinha um cheiro claro de perfume caro e flores frescas. Pessoas caminhavam ao meu redor o tempo todo, vestidos longos roçando nas minhas pernas e homens de terno alinhado. Era uma festa. Uma grande festa de família. Eu conseguia ouvir o barulho das vozes, conversas cruzadas e o barulho de talheres batendo nos pratos.
Senti uma mão segurando o meu braço com delicadeza. Era uma mulher elegante. Talvez... talvez a minha própria mãe. A imagem dela ainda estava meio embaçada, como se estivesse no meio da névoa. Foi aí que uma voz de homem, bem clara e perto do meu ouvido, falou:
— Bella, você já conheceu o Riley?
Olhei para o lado e vi o mesmo homem daquela foto antiga em preto e branco. Só que bem mais jovem. Ele sorria de um jeito caloroso e estendeu a mão para me cumprimentar.
— Prazer em conhecer você.
Os olhos dele eram profundos e gentis. Eu lembrava perfeitamente daquela expressão e daqueles olhos. Eu lembrava. Eu... A lembrança sumiu de um jeito violento, como uma porta de ferro batendo com força na minha cara.
Voltei para a realidade da sala tão rápido que cambaleei no ar, perdendo o equilíbrio. O mundo girou por um segundo. As vozes dos Cullen voltaram todas de uma vez para os meus ouvidos. A casa, a chuva batendo nas janelas, tudo voltou ao normal. Mas eu continuava com os olhos fixos na foto antiga sobre a mesa, sem conseguir desviar o olhar nem por um segundo.
— Bella?
A voz de Edward chegou até mim, distante e abafada, cheia de preocupação.
— Bella?
Eu não consegui responder. Minhas mãos invisíveis estavam tremendo sem parar. Ou, pelo menos, o meu corpo de fantasma parecia imitar perfeitamente a sensação de um tremor de nervoso. Edward levantou da poltrona num salto. Os outros membros da família perceberam a reação dele e pararam o que estavam fazendo na hora.
— O que foi, Edward? — perguntou Carlisle, olhando atento.
— Nada — Edward respondeu rápido, mas era uma mentira óbvia. Ele continuava olhando fixamente para mim, vendo o meu desespero. — Bella.
Finalmente consegui juntar forças para falar. Minha voz de fantasma saiu bem baixa, quase como um sussurro gelado que cortou o silêncio do lugar:
— Eu conheço ele.
Um silêncio total tomou conta da sala. Estiquei o braço trêmulo e apontei o dedo para a foto, bem para o homem parado no meio da família. O homem com aquele sorriso amigável. O homem chamado Riley.
— Eu conheço ele.
Edward ficou completamente imóvel, com o rosto pálido travado de choque.
— Como?
Balancei a cabeça devagar, tentando puxar o ar que eu nem precisava mais respirar.
— Eu...
Olhei de novo para a foto. O formato do rosto, os olhos gentis, o sorriso. A imagem do salão de festas, a música, o som daquela voz.
— Eu me lembrei.
Edward arregalou os olhos, totalmente assustado. E, no mesmo instante em que eu confirmei que lembrava dele, todas as lâmpadas da sala piscaram com força. Uma, duas, três vezes seguidas, deixando o ambiente gelado de repente. Então, a foto voou dos dedos de Esme como se tivesse levado um empurrão de um vento do nada e caiu direto no tapete.
A sala inteira congelou. Carlisle olhou para cima assustado. Alice franziu a testa, totalmente confusa sem conseguir entender o futuro. Emmett arregalou os olhos e quebrou o silêncio bem devagar:
— Certo... — a voz dele saiu baixa. — Isso foi assustadoramente fantasmagórico.
Pela primeira vez em décadas de esquecimento e poeira, eu tinha recuperado uma lembrança de verdade do meu passado. E algo no fundo do meu peito me dizia, com toda a certeza do mundo, que aquele nome mudaria a vida de todo mundo ali naquela casa em Forks.
Ninguém respondeu.
As luzes do teto tinham finalmente parado de piscar com aquela violência dramática. A sala voltara ao normal, recuperando aquela iluminação estável e aconchegante. Mas alguma coisa tinha mudado de forma drástica e definitiva na atmosfera do casarão.
Eu continuava encarando a fotografia caída sobre o tapete, com o meu olhar espectral totalmente preso ao rosto de Riley. A memória ainda girava na minha cabeça, uma avalanche descontrolada de dados. Era fragmentada, sim, e envolta em uma névoa densa. Confusa. Mas perfeitamente real. Pela primeira vez em longas, frias e arrastadas décadas de amnésia crônica... real.
— Edward?
A voz nítida de Alice atravessou o silêncio como uma lâmina cirúrgica. Olhei de relance para ela. Ela estava observando o irmão com uma fixação perigosa. Não olhava para a fotografia no chão. Não olhava para as luzes que quase sofreram um curto-circuito. Olhava estritamente para Edward.
— O que foi aquilo?
Edward permaneceu imóvel, portando aquela rigidez clássica de estátua de mármore.
— Nada.
— Não foi nada.
— Foi uma queda de energia.
— A energia não caiu.
— Talvez tenha oscilado.
— Edward.
Carlisle também estava olhando para ele agora, abandonando os prontuários e adotando uma fisionomia concentrada. E Jasper, o radar empático do clã, tencionou os ombros. E Esme congelou o movimento das mãos. Até Rosalie. Principalmente Rosalie. O que, nos meus arquivos de observação recreativa, nunca era um bom sinal.
— Você está escondendo alguma coisa — disse Alice. Não foi uma pergunta curiosa ou ingênua; foi uma acusação formal de ocultação de segredos familiares.
Edward soltou um longo suspiro imortal. O exato tipo de suspiro que uma pessoa dá quando percebe que uma situação inteira está oficialmente perdida e sem nenhuma saída jurídica plausível.
Meu estômago inexistente afundou no vácuo com uma reviravolta térmica.
— Edward... — comecei, pairando perto do ombro dele em um sobressalto de puro nervosismo espiritual.
Ele me lançou um breve olhar de soslaio. Um olhar cansado. Resignado.
— Não.
— Não?
— Não.
— Edward.
— Bella.
— Edward.
— Acabou.
Meu coração fantasmagórico fez uma coisa estranha dentro do peito, simulando uma pulsação que eu nem possuía por motivos anatômicos. Porque eu sabia exatamente o que ele queria dizer com aquela palavra definitiva. Meu anonimato profissional estava prestes a ser revogado.
Alice cruzou os braços com firmeza, semicerrando os olhos de fada.
— Acabou o quê?
Silêncio absoluto. Edward passou a mão de mármore pelas feições perfeitas do rosto, tentando desesperadamente reorganizar o fluxo dos pensamentos. Carlisle arqueou uma sobrancelha, analisando o comportamento errático do filho. Esme parecia preocupada, o instinto materno em alerta, enquanto Emmett parecia animado. Muito animado. O que era preocupante por si só, considerando o histórico de destruição de móveis dele.
— Edward — disse Carlisle calmamente. — O que está acontecendo?
Outro silêncio denso e mastigável se arrastou pelo carpete. Então Edward respirou fundo, coletando o vácuo, e falou:
— Sabe a garota fantasma?
A sala inteira congelou. Completamente. Emmett foi o primeiro a romper o estado de estática biológica, dando um passo à frente com o tato de uma locomotiva de carga desgovernada:
— A GAROTA FANTASMA?
— Sim.
— A GAROTA FANTASMA?
— Sim, Emmett.
— A GAROTA FANTASMA?!
Edward fechou as pálpebras por um milissegundo, o verniz de paciência aristocrática sofrendo rachaduras severas diante daquela repetição geométrica.
— Quantas vezes você pretende repetir isso?
— ATÉ TODO MUNDO ME RESPEITAR! — o gigante esbravejou, jogando os braços imensos para o teto.
— Emmett.
— EU ESTAVA CERTO!
— Emmett.
— EU DISSE!
— Emmett.
— EU DISSE!
— EMMETT.
— DESCULPA.
Operando com total clareza interpretativa: ele não estava nem um pouco arrependido de ter instaurado o caos vocal e quebrado a etiqueta da sala.
Edward fechou os olhos por um segundo para recuperar a compostura imortal. Depois continuou.
— Bem... ela existe.
Silêncio. Absoluto. Total. Magnífico.
Alice piscou. Uma vez. Duas. Três vezes seguidas, como se o seu radar de visões estivesse tentando reprocessar todos os dados do futuro em tempo real. Rosalie ficou olhando para ele, a fisionomia estática de puro assombro estético. Jasper também manteve os olhos cravados nele, avaliando a energia do ambiente. Carlisle parecia estar recalculando toda a realidade física e biológica. Esme simplesmente parecia surpresa, portando uma aura doce de espanto. Emmett parecia prestes a explodir de felicidade ególatra.
— O quê? — perguntou Alice, a voz saindo em um fio tenso de incompreensão.
— Ela existe.
— O fantasma existe?
— Sim.
— O fantasma que Emmett viu?
— Sim.
— O fantasma da casa?
— Sim.
— O fantasma que assombra os espelhos?
— Sim.
— O fantasma que escreveu mensagens para Emmett?
— Sim.
— O fantasma que derruba coisas?
— Sim.
— O fantasma...
— Sim.
Alice ficou em silêncio por alguns longos segundos, processando o peso daquela humilhação intelectual. Olhou para Emmett, que exibia um sorriso de orelha a orelha. Olhou para Edward, portando o seu perfil exausto. Olhou para Carlisle, compenetrado. Voltou a olhar para Edward.
— Eu odeio isso.
— Eu sei.
— Eu realmente odeio isso.
— Eu sei.
— Porque isso significa que Emmett estava certo.
— Eu sei.
— Isso é horrível.
— Concordo.
Emmett levantou os braços imensos na direção do forro de gesso, comemorando a sua consagração científica como um campeão mundial.
— VITÓRIA!
— Senta — disse Rosalie, a voz pingando acidez loira e total falta de paciência com o orgulho do marido.
— NUNCA!
— Emmett.
— EU SOU UM VISIONÁRIO!
Carlisle ignorou completamente o surto do filho, mantendo a seriedade cirúrgica que usava no hospital. Apoiou os cotovelos nos joelhos, concentrando o foco das órbitas douradas.
— Edward.
— Sim?
— Há quanto tempo você sabe?
Silêncio Master no tapete. Edward desviou os olhos de mármore e olhou diretamente para mim, buscando o meu suporte invisível. Eu olhei para ele de volta, tensa na minha camisola de algodão.
— Algumas semanas.
Toda a sala ficou em silêncio novamente, uma mudez sepulcral e chocada.
— Algumas semanas? — repetiu Esme, erguendo as sobrancelhas com uma surpresa genuína.
— Sim.
— Você está conversando com um fantasma há semanas? — perguntou ela, tentando compreender a mecânica daquela rotina oculta.
— Sim.
— E não contou para ninguém?
— Sim.
Alice esticou o braço com velocidade recorde e apontou o indicador contra o peito dele de forma totalmente dramática.
— EU SABIA!
— Alice.
— EU SABIA QUE TINHA ALGUMA COISA ERRADA!
— Não estava errado.
— Você estava escondendo uma adolescente morta dentro da casa!
— Tecnicamente ela já estava aqui quando nos mudamos. — Edward argumentou, utilizando com perfeição o meu próprio arsenal de defesa jurídica.
— ISSO NÃO AJUDA!
Eu comecei a rir no ar, gesticulando com os braços e chutando o vácuo de tanta satisfação psicológica. Porque aquela era, sem dúvida, a conversa mais absurda, bizarra e sem sentido que já tinha acontecido naquela sala de estar. E considerando que a sala pertencia a uma corte inteira de vampiros centenários e aristocratas, conquistar o topo do pódio do absurdo era uma vitória histórica para o meu currículo de assombração.
Carlisle apoiou os cotovelos nos joelhos, mantendo a fisionomia imersa em profundas e calculadas reflexões.
— Onde ela está agora?
Todos os fonemas cessaram no ato. O burburinho ruidoso sumiu das paredes. Meu sorriso desapareceu de forma instantânea, dando lugar a uma linha de total seriedade contida. Porque essa era a pergunta. A pergunta importante. A pergunta cirúrgica que ninguém tinha feito antes de tudo desabar.
Edward olhou diretamente para mim, travando a mira das suas órbitas douradas contra a minha coordenada exata no vácuo. E respondeu:
— Bem aqui.
O silêncio que veio depois foi tão profundo, gelado e esmagador que eu tive a certeza absoluta de que até a floresta lá fora tinha parado para ouvir o andamento do roteiro, estancando o farfalhar dos pinheiros.
Lentamente. Muito lentamente. Executando um movimento mecânico e coordenado que parecia desafiar a física, todos os olhos da sala se voltaram para o espaço vazio onde eu estava parada.
Alice. Carlisle. Esme. Jasper. Rosalie. Emmett.
Todos olhando para mim. Sem me ver com nitidez óptica, sem capturar a camisola antiga ou as feições pálidas, mas direcionando toda a densidade das suas atenções imortais contra a minha frequência sutil.
E pela primeira vez desde que os Cullen chegaram de mudança... eu senti algo próximo de nervosismo. Um frio térmico e desconfortável que flertava perigosamente com o nervosismo humano. Porque agora eles sabiam que eu existia de verdade. E eu, com toda a minha bagagem de amnésia crônica e teimosia de dezenove anos, não fazia a menor e mais remota ideia do que aconteceria em seguida na mecânica daquela convivência sobrenatural.
Ninguém falou por vários segundos.
Todos continuavam encarando o espaço vazio onde eu estava. O que era uma experiência surpreendentemente desconfortável para o meu sistema operacional de assombração. Durante longas, frias e entediantes décadas de isolamento completo nas estruturas de gesso daquela colina de Forks, eu praticamente sonhei em ser notada de alguma forma legítima. Agora, seis vampiros imortais estavam literalmente olhando para mim ao mesmo tempo, concentrando toda a densidade de suas atenções seculares na minha exata coordenada tridimensional. E eu? Bem, de repente senti uma vontade avassaladora de encolher a minha integridade espectral e me esconder atrás do sofá.
— Isso é estranho — murmurou Alice, unindo as sobrancelhas de fada em um vinco profundo de desconfiança cósmica.
— Você está olhando para ela? — perguntou Esme, a voz doce e maternal quebrando a estática densa que preenchia o ambiente.
— Estou.
— Mas não consegue vê-la?
— Não.
— Nem eu — disse Jasper, adotando uma postura rígida enquanto tentava gerenciar a súbita oscilação de energia emocional e térmica da sala.
— Nem eu — acrescentou Rosalie, refinada e com os braços firmemente cruzados sobre a jaqueta de grife, embora sua expressão traísse um assombro óbvio.
Emmett estreitou os olhos dourados com uma precisão cirúrgica e quase cômica. Depois deu um passo para frente, fazendo o assoalho de madeira vibrar com o seu habitual tato de locomotiva. Outro. Mais um. Ele continuou marchando até parar exatamente na minha frente. Muito perto. Perto demais, invadindo completamente o meu perímetro com toda a sua densidade massiva de dois metros de altura.
Cruzei os braços sobre a minha camisola antiga de algodão, bufando com desdém no vácuo.
— Se você atravessar meu nariz, eu vou ficar de fato muito ofendida.
— Ela falou alguma coisa? — perguntou Emmett, girando ligeiramente a cabeça na direção de Edward com as órbitas arregaladas e cheias de expectativa científica.
— Sim — respondeu Edward, esforçando-se ao máximo para forçar a voz mais casual do seu banco de dados e fingir que aquela interação bizarra com o além era perfeitamente normal.
— O quê?
— Ela disse que você está perto demais.
Emmett imediatamente deu um salto escandaloso e espalhafatoso para trás, quase demolindo uma mesinha de centro no reflexo do susto doméstico.
— ELA SABE QUE EU ESTOU AQUI!
— Claro que sabe, seu brutamontes — respondi para o teto, balançando os pés flutuantes no ar.
— Ela disse alguma coisa de novo?! — Emmett insistiu, apontando o indicador dramaticamente na direção do meu espaço vazio.
— Sim.
— O QUÊ?
— Ela acha você dramático.
— Isso é uma calúnia de uma injustiça sem tamanho!
— Eu concordo com ela — disse Rosalie, revirando as órbitas perfeitas e aproveitando a oportunidade de ouro para rebaixar o ego do marido.
— Traição.
Alice ignorou completamente a discussão barulhenta e infantil que ameaçava tomar conta do tapete da sala. Ela permanecia estática, os olhos escuras fixos em Edward, imersa em profundas e calculadas reflexões de vidente. Pensativa. Muito pensativa. O que, nos meus arquivos de observação recreativa, raramente operava como uma boa notícia para a paz familiar.
— Qual é o nome dela?
A pergunta cirúrgica fez a sala inteira mergulhar em uma mudez instantânea e sepulcral. Edward desviou os olhos de mármore do foco das outras criaturas e olhou diretamente para a minha silhueta invisível.
— Você quer responder?
— Eles não conseguem captar a minha frequência acústica, Edward. O que é um problema bastante inconveniente para o andamento do meu orgulho.
— Verdade.
Edward soltou um longo e audível suspiro imortal, capitulando diante do inventário de revelações burocráticas da casa.
— O nome dela é Bella.
Esme esboçou um sorriso de imediato. Um sorriso pequeno, doce, perfeitamente gentil e acolhedor, como se estivesse recebendo uma visita viva para o chá da tarde.
— Bella.
Aquilo foi um fenômeno térmico imensamente esquisito para mim. Porque fazia longas, frias e empoeiradas décadas que o meu cérebro de dezenove anos não registrava uma alma viva pronunciando o meu nome de batismo civil daquele jeito. Sem a histeria do pânico. Sem o sobressalto do horror. Sem a confusão mental crônica dos humanos. Apenas como um nome comum e legítimo.
Alice repetiu o som baixinho, testando as sílabas contra o vácuo:
— Bella...
Então, as órbitas escuras de fada se arregalaram em um espasmo de puro choque dedutivo. Ela esticou o braço com rapidez de raio e apontou o indicador contra o papel fotográfico em tons de sépia que continuava estirado sobre a mesa de centro de madeira.
— Espera.
Eu paralisei as minhas coordenadas no ar, a ironia sumindo por um instante. Carlisle também abandonou qualquer verniz de neutralidade cirúrgica e cravou o foco de seus olhos dourados na imagem arqueológica da caixa do sótão.
— Edward.
— Sim?
— Foi por isso que as luzes piscaram?
Edward hesitou por uma fração infinitesimal de segundo, a rigidez atingindo o ápice em suas feições perfeitas.
— Talvez.
— Talvez?
— Ela se lembrou de alguma coisa.
O clã inteiro dos Cullen ficou em estado de alerta e prontidão militar de forma instantânea. Até Rosalie abandonou o total desinteresse pelo ambiente e inclinou a postura para a frente. Até Emmett estancou os braços imensos, compenetrado no mistério.
— Ela recuperou uma memória? — perguntou Carlisle, adotando aquela fisionomia de líder comunitário e profissional da saúde altamente focado em resolver problemas teológicos.
— Sim.
— De quê?
Olhei por um instante para o chão e encarei o pedaço da foto antiga. Olhando de novo para o rosto de Riley, registrado por aquela câmera antiga, tudo parecia diferente na minha mente. Mais familiar. Mais perto. Era como se uma porta trancada tivesse sido aberta à força na minha cabeça.
— Um homem chamado Riley. — sussurrei, sentindo o peso daquela lembrança que voltava do nada.
Edward repetiu para os outros vampiros na sala:
— Um homem chamado Riley.
Carlisle franziu a testa devagar, tentando entender como o além e o mundo dos fantasmas funcionavam:
— Riley de quê?
— Ela não sabe. — Edward respondeu.
— Eu realmente não lembro do sobrenome. — completei.
— Ela realmente não sabe. — ele repetiu.
Alice sentou devagar no sofá, cruzando as pernas e bem focada em juntar os pedaços:
— Então ela está recuperando as memórias.
— Parece que a barreira que bloqueava a mente dela quebrou um pouco, sim.
— E as luzes piscaram bem na hora em que isso aconteceu.
Carlisle ficou pensativo. Muito pensativo. Era aquela cara típica de cientista dele, o que significava que ele estava criando teorias na mente sobre o que estava acontecendo:
— Interessante.
— Essa palavra nunca traz boa coisa. — comentou Emmett, desconfiado.
— Concordo totalmente com ele. — falei, flutuando de pernas cruzadas perto do lustre.
— Ela concorda. — disse Edward, com um leve sorriso no canto dos lábios pela nossa conversa secreta.
— Claro que concorda. Ninguém entende a minha inteligência nessa família. — brincou Emmett.
Carlisle levantou da poltrona devagar e com precisão. Abaixou-se e pegou a foto antiga do chão com a ponta dos dedos. Olhou bem de perto para o papel envelhecido:
— Talvez a casa tenha mais respostas.
Meu coração, que nem existia mais, parecia ter dado um salto no peito. Respostas. Essa palavra ficou gravada na minha mente. Eu queria respostas de verdade. Precisava delas para sair desse esquecimento. Eu não sabia como tinha morrido, não lembrava do rosto da minha família, dos meus amigos de infância ou de como era a minha vida. Não lembrava de nada sobre quem eu fui.
Apenas daqueles flashes de um salão de festas iluminado, de um sorriso caloroso e de um homem chamado Riley.
Esme se aproximou do marido, olhando para os papéis velhos e cheios de poeira:
— Talvez existam mais caixas no sótão.
— Existem. — respondeu Carlisle com total calma.
— Como você sabe?
— Porque eu vi na semana passada, quando subi para dar uma olhada nas vigas do telhado.
— Então por que não desceu com elas logo para a gente dar uma olhada?
— Eu estava ocupado organizando os relatórios do hospital de Forks, Esme.
— Carlisle. — disse Esme, mudando o tom de voz para uma bronca de esposa.
— Sim?
— Você mora em uma casa mal-assombrada.
— Sim, minha querida, eu sei disso.
— E encontrou caixas escondidas no sótão.
— Sim.
— E não foi investigar?
Carlisle pensou na bronca da esposa e no desconfiômetro da família por um instante, com aquela clássica cara de quem foi pego no pulo:
— Quando você fala desse jeito...
— Cheguei à conclusão definitiva de que estou cercada por pessoas inacreditáveis e sem nenhuma pressa na vida. Parabéns aos envolvidos. — reclamei no ar, batendo o meu pé de fantasma no vazio.
— Ela falou alguma coisa? — perguntou Emmett, com os olhos brilhando de pura animação.
— Não. — Edward respondeu na hora.
— Mas parece muito algo que ela diria.
— Porque é exatamente o que eu diria, seu brutamontes de dois metros.
Alice levantou de repente num salto rápido, quebrando toda aquela pose de comercial de perfume da família:
— Vamos procurar.
— Agora? — perguntou Rosalie, erguendo a sobrancelha com o seu tédio chique e loiro de sempre.
— Agora. Sem enrolação burocrática.
— Alice, vai com calma...
— Rosalie, temos um fantasma sem memória morrendo de medo e fazendo a fiação elétrica da casa implodir. Precisamos descobrir a história desse lugar pra ontem.
— Pensando por esse lado, até que faz sentido.
— Obrigada por validar a minha ideia.
Emmett já estava correndo em direção às escadas parecendo um trator sem freio:
— CAÇA AO TESOURO SOBRENATURAL COM CHANCE DE ATAQUE DE FANTASMA!
— Emmett, espera o mínimo de bom senso!
— NUNCA! A CURIOSIDADE NÃO ESPERA!
Ele subiu as escadas correndo tão rápido que fez a madeira velha da casa inteira estalar. Logo em seguida, veio o brinde de sempre: o barulho alto de algum enfeite caro de cerâmica quebrando no chão do segundo andar.
Rosalie fechou os olhos, respirando fundo com aquela paciência de quem aguenta o mesmo idiota há um século:
— Tinha que ser.
— Até que ele demorou para quebrar alguma coisa hoje. — ironizou Edward, ainda olhando para o vazio onde eu estava flutuando.
Eu continuei perto do lustre da sala, olhando para toda aquela confusão barulhenta sem conseguir acreditar. Pela primeira vez em décadas mofando sozinha nessa colina de Forks, a bagunça e a destruição de patrimônio não eram culpa das minhas travessuras com as lâmpadas. Pelo menos não 100%.
E enquanto o clã inteiro dos Cullen subia junto para o sótão escuro e cheio de poeira atrás de respostas sobre o meu passado, um sentimento novo e morno tomou conta de mim. Uma sensação que eu não sentia desde o dia em que meu coração resolveu parar de bater:
Esperança.
Porque talvez — só talvez — aquela foto antiga fosse o primeiro pedaço de um quebra-cabeça que eu, na minha falta de memória, nem sabia que estava tentando desesperadamente montar.
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