Como Ser Um Fantasma (Sem Querer)
10 Capítulo 10
Os dias seguintes foram interessantes. Muito interessantes. E profundamente irritantes. Uma coisa não anulava a outra no meu dia a dia de fantasma.
A parte legal era que os Cullen finalmente sabiam quem eu era e meu disfarce tinha caído. A parte chata era que agora todo mundo queria puxar assunto comigo. O tempo todo. Sem direito a um intervalo para eu descansar em paz.
Principalmente o Emmett. Descobri bem rápido que dar atenção para o Emmett Cullen sendo uma assombração era o mesmo que dar café com energético para uma criança hiperativa. Uma péssima ideia para a paz da casa.
— Pergunta para ela se fantasma atravessa parede.
Edward respirou fundo, quase fechando os olhos de mármore.
— Emmett, ela está literalmente na sua frente.
— Eu sei. Mas é uma dúvida real.
— A Bella disse que sim.
— Incrível! Pergunta se ela atravessa árvore.
— Sim.
— Pergunta se ela atravessa um urso.
— Emmett...
— É uma dúvida científica!
— A Bella disse que sim, ela consegue atravessar a droga de um urso.
— SENSACIONAL!
— Ela disse sim.
— Fantástico.
— Não tem nada de fantástico nisso.
— Tem tudo de fantástico!
Esse tipo de conversa cansativa rolava direto. Todo santo dia, por semanas. O Edward virou meu tradutor oficial para o mundo dos vivos, o que claramente estava derretendo os miolos do coitado, já que ele lê mentes e precisava aguentar o falatório duplo.
— A Bella disse que você é um pé no saco.
— A Bella disse isso ou foi você?
— Os dois.
— Justo.
No fundo... eu curtia. Curtia bastante, sendo bem sincera. Porque, pela primeira vez em décadas mofando no meio da poeira, eu sentia que fazia parte de alguma coisa de verdade. Mesmo que metade do papo dependesse de um tradutor vampiro bem ranzinza e metido a besta.
A Alice também virou minha fã número um, num nível meio assustador.
— Pergunta o que as pessoas vestiam quando ela era viva.
— Alice...
— Pergunta!
— Eu não lembro.
— Ela não lembra.
— Pergunta se ela lembra dos vestidos.
— Não lembro.
— Ela não lembra.
— Dos sapatos?
— Não.
— Das joias?
— Não.
— Pelo menos dos penteados?
— Não.
A Alice soltava um suspiro super dramático, jogando as mãos para o alto como se meus brancos de memória fossem uma ofensa pessoal ao mundo da moda.
A Rosalie fazia perguntas mais espertas sobre como funcionava o meu sumiço e reaparição. O Carlisle queria entender a parte biológica e a energia. O Jasper vinha com uns papos profundos sobre o que eu sentia. A Esme só queria saber se eu estava confortável na casa. E o Emmett continuava querendo saber sobre atravessar ursos na floresta. No fim, até que era uma família bem equilibrada na sua própria loucura.
O problema é que o sótão não ajudou em mais nada. Os Cullen reviraram tudo o que o Carlisle tinha achado antes. Olharam cada canto com poeira, caixas, papéis, livros, fotos antigas e documentos.
E nada. Nem sinal do meu nome, nem sinal do tal Riley, nenhuma pista perdida.
E o pior de tudo: nenhuma memória nova na minha cabeça.
Eu tentei de verdade. Forcei o cérebro, fiquei encarando aquelas fotos velhas em tom de sépia, olhei cada papel antigo, mas nada mudava. Nenhuma cena nova vinha na mente.
Dava uma raiva imensa. Mas eu fingia que não estava nem aí na frente deles, porque toda vez que tocavam no assunto, todo mundo me olhava com aquela cara de "coitadinha". Eu odiava aquela cara de pena. Então eu jogava meu deboche de sempre na conversa e fingia costume. Funcionava bem para manter minha pose.
Até que chegou uma tarde super nublada.
Eu estava sentada no teto da varanda da frente, olhando a chuva cair. O Edward sentou do meu lado, com as pernas balançando no telhado molhado, bem quieto. Pelas minhas investigações, quando ele ficava assim, era porque estava pensando até demais.
— Você está fazendo de novo.
Ele nem olhou para mim, continuou encarando a neblina entre as árvores.
— Fazendo o quê?
— Pensando demais.
— Não estou.
— Está sim.
— Não.
— Está.
Edward deu um sorriso de canto, relaxando os ombros.
— Você perdeu totalmente a mania de admitir quando está errada.
— Eu nunca tive essa mania.
— Disso eu não duvido.
Ficamos ali olhando o mato por um tempo, naquele silêncio calmo. A chuva caía de leve, lavando a sujeira do lugar. Parecia que o mundo tinha dado uma pausa.
— Quer saber uma coisa engraçada? — perguntei, com a voz um pouco mais baixa do que o normal.
— O quê? — ele falou, prestando atenção de verdade.
— Eu não lembro nem da cara da minha mãe.
O Edward ficou mudo na hora, engolindo qualquer piada. Eu continuei olhando para o horizonte.
— Nem do meu pai.
Silêncio.
— Nem de ninguém, para falar a verdade.
Mais um silêncio pesado tomou conta do telhado.
— Mas eu lembro do Gregory.
O Edward soltou uma risada curtinha, o clima pesado sumindo do rosto dele.
— Claro que lembra.
— É ridículo.
— Um pouco.
— Eu esqueci pessoas inteiras.
— Bella...
— Mas lembro de uma goteira no teto.
— Mas era uma goteira bem insistente, vai.
— Pior que era.
Apareceu um sorriso bem de leve no meu rosto de dezenove anos. Mas sumiu rápido. Porque aquela verdade ainda machucava de verdade na minha alma, mesmo depois de tantos anos. Eu não lembrava quem eu era, quem eu tinha amado ou quem tinha chorado por mim quando eu sumi. Só tinham sobrado pedaços estragados de uma história que rasgaram, tipo o rosto daquele Riley, o flash de uma festa chique e o som de uma voz de homem. Nada mais.
O Edward pensou um pouco, virou o rosto e olhou bem no fundo dos meus olhos.
— Você vai lembrar.
— Como você sabe?
— Não sei.
— Uma resposta bem pouco científica para quem mora com o Carlisle, hein.
— Estou passando tempo demais com ele.
— Trágico.
— Mas eu levo fé de que você vai.
Olhei para ele, desconfiada.
— Por quê?
Edward deu aquele sorriso dele, bem calmo, sem tirar os olhos dourados dos meus.
— Porque você já começou a lembrar.
E, pela primeira vez desde que aquela foto velha caiu das mãos da Esme lá no sótão... aquilo pareceu fazer sentido. Talvez eu lembrasse do resto. Podia demorar semanas, meses ou anos convivendo com eles. Mas, pela primeira vez em muito tempo presa nesse limbo, meu passado não parecia totalmente apagado. Parecia só escondido nas paredes daquela casa, esperando o momento certo para aparecer.
— Sabe, o fato de eu não conseguir segurar as rosas direito ainda não significa que eu nunca vou conseguir.
— Bella...
— Eu consigo mexer em algumas coisas pela casa, tá? Já empurrei objetos e derrubei mochilas, esqueceu?
— Às vezes — ele respondeu, todo analítico. — Quando você tem um ataque de adrenalina de fantasma.
— Mesmo assim, é um argumento válido.
Edward ficou olhando para as flores por uns segundos. Depois, virou aqueles olhos dourados para mim e ficou me encarando sério. De repente, a cara dele mudou. Veio uma ideia ali. E vindo do leitor de mentes da casa, ideias geralmente significavam perigo para o patrimônio público.
— Certo.
— Certo o quê? — perguntei logo, desconfiada. — Essa sua cara quase nunca termina bem para a estrutura da casa.
— Vai dar certo.
— Essas palavras nunca deram certo na história do mundo.
Edward nem ligou para o meu drama. Fechou o livro que estava lendo, jogou na grama e estendeu aquela mão de mármore na minha direção, com a palma para cima.
— Tenta comigo.
Pisquei, parando de flutuar por um segundo.
— O quê?
— Você não acabou de falar que consegue tocar nas coisas às vezes?
— Sim.
— Então tenta.
Fiquei olhando para a mão dele, depois para a cara dele, depois para a mão de novo. Meu coração que nem existia deu uma balançada esquisita no peito — um detalhe que eu decidi ignorar e apagar do meu histórico no mesmo segundo.
— Você está me usando de cobaia para um experimento científico.
— Sim. Com certeza.
— Que falta de educação. Cadê os bons modos?
— Vai tentar ou vai amarelar?
Dei um sorriso abusado.
— Claro que vou tentar.
Cheguei mais perto flutuando até encostar meus pés invisíveis no chão, bem colada nele. O Edward ficou parado igual a uma estátua, com a mão estendida no ar. Só esperando.
Respirei fundo. Um hábito humano bem idiota e inútil para quem não tem pulmão, mas difícil de largar. Fechei os olhos. Foquei. Juntei minha energia do mesmo jeito que fazia quando queria mexer em alguma coisa física. Da mesma forma de quando eu derrubava revistas no chão ou escrevia no espelho do banheiro para assustar o Emmett. Coloquei toda a minha teimosia de dezenove anos ali.
Quando abri os olhos, estiquei minha mão invisível na direção da dele.
No começo, como sempre acontecia nesse tédio de pós-vida, deu em nada. Meus dedos começaram a passar por dentro da mão dele igual fumaça ou neblina. Como acontecia com o resto do mundo vivo.
Franzi a testa, com o orgulho ferido. Foquei mais. Muito mais, fechando a mente para tudo ao redor. Ignorei o barulho das árvores, a cara da casa, o sol lá fora. Só continuei empurrando minha vontade contra aquela barreira invisível. Força. Força.
E aí... o ar pareceu mudar de temperatura. Aconteceu alguma coisa. Uma resistência. Bem pequena, de nada... mas real.
Meu coração fantasma deu um baita solavanco.
— Edward...
— Eu sei — a voz dele saiu bem baixa, quase um sussurro tenso no meio do jardim.
Não parei o teste. Continuei ali, colocando toda a minha força, empurrando o ar para cravar minha mão na dele. Até que, bem devagar... meus dedos encostaram nos dele.
De verdade.
Eu paralisei. O Edward ficou durinho do mesmo jeito. Porque, pela primeira vez... pela primeira vez desde que eu me entendia por gente nesse limbo... eu estava tocando em alguém. Sem atravessar a pessoa feito gás. Dando um toque real. Sem fingimento.
Tocando.
A sensação era fraca, meio anestesiada, distante — parecia que eu estava tentando sentir alguma coisa usando três luvas grossas de inverno. Mas estava ali. Dava para sentir.
Olhei para baixo, encarando nossas mãos juntas no meio do quintal. O Edward fez o mesmo. Ninguém falou nada por um bom tempo, porque aquilo quebrava qualquer lei da física e estava acontecendo bem na nossa frente.
— Bella... — a voz dele parecia tão chocada quanto eu estava por dentro.
Eu não conseguia parar de olhar para aquele ponto onde a gente se tocava. Não conseguia parar de sentir aquela textura nova. Calor. Um calor bem fraquinho, quase um delírio da minha cabeça, mas era calor de verdade.
Depois de décadas passando por tudo e por todos sem deixar nem um rastro... eu finalmente tinha achado algo que não sumia feito fumaça quando eu chegava perto.
Meu sorriso abusado e vitorioso foi aparecendo aos poucos. Um sorriso gigante, de orelha a orelha.
— Ganhei.
O Edward relaxou a pose de estátua e soltou uma risada limpa.
— Claro que essa seria a sua única conclusão, Bella.
— Eu sempre disse que quem insiste consegue, seu metido. Quero ver você inventar argumentos contra isso agora.
— Você vai ficar insuportável por causa disso por semanas, já estou até vendo o drama.
— Meses — corrigi, empinando o nariz.
— Bella, por favor...
— Anos, Edward. Vou colocar isso no topo do meu currículo de fantasma.
Ele balançou a cabeça, meio conformado, mas o sorriso dele era bem real e brilhava no sol de Forks. O meu também. Porque, pela primeira vez em muito tempo sozinha, o mundo parecia ter ficado um pouquinho mais sólido perto de mim.
O sorriso ainda estava na minha cara. Enorme. Insuportável para quem gosta de gente modesta.
O Edward já estava com aquela cara de quem se arrependeu amargamente de ter me dado razão e quebrado as leis da física só para inflar meu ego.
— Eu disse — comemorei, flutuando um pouquinho mais alto de tanta felicidade.
— Sim.
— Eu avisei.
— Sim, Bella, você avisou.
— Quem insiste ganha, seu metido.
— Bella...
— A maior vitória da história do além.
— Bella, por favor.
— Eu ganhei. Não tem contra-argumento científico que mude isso.
Edward balançou a cabeça de novo, mas os olhos dourados dele continuavam colados no lugar onde nossas mãos se tocavam. Ele parecia meio travado, como se estivesse com medo de se mexer e fazer aquela mágica sumir no ar.
Eu também estava com esse cagaço. Porque a sensação e o toque ainda estavam ali. Fracos, bem leves... mas reais.
Meus dedos cutucavam os dele. De verdade. Sem passar direto pela pele fria dele, sem sumir na frequência do limbo. Só... tocando.
Ficamos mudos de novo por uns segundos. O jardim da Esme estava num silêncio gostoso, cortando o calorão do sol de Forks. As flores balançavam com o vento e a luz passava pelas árvores, fazendo desenhos no chão.
E, pela primeira vez na minha vida de morta, eu não me senti totalmente jogada para fora do mundo dos vivos.
Edward se mexeu primeiro. Fez isso bem devagar, no maior cuidado, como se estivesse mexendo em uma taça de cristal cara que podia quebrar no chão. A outra mão dele subiu devagar no espaço entre nós.
Meu sorriso de deboche deu uma sumida. Porque meu cérebro percebeu bem rápido o que ele ia fazer. E de um jeito esquisito e totalmente novo para mim... eu senti uma coisa que parecia muito com nervosismo.
O que, pensando bem, era uma idiotice sem tamanho. Eu era a porcaria de um fantasma. Fantasma não tem coração ou nervos para ficar nervoso. Mas eu fiquei.
Fiquei olhando a mão de mármore dele chegando perto. Mais perto, diminuindo o espaço até chegar no meu rosto. Por um milésimo de segundo, achei que os dedos dele fossem passar direto pela minha bochecha sem deixar rastro, do mesmo jeito que acontecia com as colheres de pau, os espelhos e o resto das coisas.
Mas não passaram.
A ponta dos dedos frios dele encostou na minha bochecha. Bem de leve. Quase sem fazer força contra a minha pele de vento. Mesmo assim... eu senti o toque.
Meu mundo simplesmente parou.
O toque era tão leve que nem devia existir pelas regras normais da física. Mas existia. Aquela sensação pequenininha subiu pelo meu rosto como um choque, dando uma balançada geral no meu espírito.
O Edward congelou na grama, totalmente travado. Os olhos dele — que tinham aquele tom dourado de predador — estavam colados nos meus. Chocado. Tão chocado quanto eu estava por dentro.
Nenhum dos dois se mexia ou falava nada para não estragar o momento. Porque aquilo ia contra qualquer manual sobre assombrações. Eu era só uma lembrança perdida. Uma sombra cinza presa numa casa velha. Uma garota morta há décadas. E mesmo assim... ali estava ele. Com os dedos encostados na minha bochecha. Me tocando de verdade.
Engoli em seco. Um reflexo idiota e inútil para um fantasma que nem precisa de ar para viver.
Os dedos dele continuavam ali no meu rosto, mantendo a gente ligado no meio do quintal. E, pela primeira vez em tantas décadas de poeira... pela primeira vez desde que eu acordei sozinha naquela casa vazia, sem lembrar do meu passado, sem saber de onde eu tinha vindo ou por que diabos eu tinha morrido... eu quase senti meu coração bater de verdade no peito.
Quase.
Pareceu o eco de uma lembrança muito antiga. Uma sensação esquecida. Algo forte que existiu na minha vida de viva e que tentou voltar por um segundo de lucidez.
Isso foi tão do nada e tão forte que me deu um susto, me fazendo perder o foco. O Edward percebeu a minha mudança de cara na hora.
— Bella?
A voz dele saiu bem baixinha, super calma no ar úmido.
Pisquei os olhos e o encanto quebrou na hora. A sensação de toque sumiu da minha bochecha e os dedos dele voltaram a passar direto pelo vazio, como se eu fosse só fumaça. Mas a lembrança daquele toque ficou gravada na minha mente.
— Eu...
Não consegui terminar a frase. Meu cérebro não tinha nem palavras para explicar o que tinha rolado. Como eu ia explicar para um vampiro que, por um milésimo de segundo, eu tinha me sentido humana e viva de novo?
O Edward continuou me encarando, com uma cara de preocupação bem real.
Foi aí que meu modo debochado e irônico ligou de novo e eu dei um sorriso meio travesso.
— Não conta para o Carlisle.
Ele piscou, meio perdido com a mudança rápida de assunto.
— O quê?
— Se o doutor dos vampiros descobrir isso, ele vai me trancar num tubo de ensaio e me virar cobaia de laboratório para o resto da eternidade — brinquei, cruzando os braços no ar.
A cara de preocupação do Edward sumiu na mesma hora, trocada por uma risada abafada.
— Pior que você tem toda razão nessa sua teoria, Bella.
— Eu sempre tenho razão, Edward. É pura matemática.
— Claro. Com certeza.
— É um dom meu, aceita que dói menos.
— Está mais para uma teimosia da sua cabeça de fantasma, eu diria.
— O nome disso é inveja, Edward, e a inveja não combina com o seu visual de mármore.
Ele balançou a cabeça, rindo, mas não fez menção de afastar a mão dali. E eu, contra todas as minhas regras de ficar isolada, também não voei para longe dele.
Ficamos ali parados por mais um tempo. Sentados no meio do gramado do jardim. Debaixo do sol de Forks. Curtindo um silêncio juntos que não tinha mais aquele gelo de antes.
Enquanto eu, com toda a minha teimosia de dezenove anos, tentava ignorar o fato de que, pela primeira vez em muito tempo nesse limbo... a eternidade parecia pequena demais para a nossa história.
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