Os dias continuaram passando. E eu comecei a desenvolver um problema. Um problema sério, gravíssimo. Um baita problema que me recusei totalmente a aceitar por pelo menos uma semana inteira. Talvez duas.

Tudo começou depois daquele rolo da mão e do rosto lá na clareira, com os dedos frios dele encostados na minha bochecha. Desde então, parecia que alguma peça dentro de mim tinha quebrado.

Eu não conseguia mais olhar para o Edward direto por muito tempo. O que era uma idiotice sem tamanho. Eu já tinha assombrado famílias inteiras, tocado o terror em moradores e perseguido pessoas em pesadelos. Já estava espionando esse clã de vampiros há semanas, escondida no teto e nas rachaduras das paredes. Mas agora? Bastava o Edward virar aqueles olhos dourados para mim que meu cérebro dava tela azul e esquecia como funcionar.

Era uma humilhação total para o meu currículo de assombração.

— Bella?

— Oi? — Pisquei, saindo do transe.

— Você está encarando esse mesmo pedaço de parede faz uns cinco minutos.

— Estou estudando a arquitetura da casa — menti, ajeitando a camisola com aquela minha velha arrogância.

Edward olhou para a parede cinza, depois para a minha cara e depois para a parede de novo.

— É só uma parede normal, Bella.

— Exatamente por isso. O minimalismo me encanta.

— Bella.

— O quê?

— Você está agindo de um jeito bem estranho.

— Não tem nada de errado com o meu sistema operacional.

— Tem sim.

— Não.

— Tem.

— Não.

— Tem.

Cruzei os braços no ar, bufando para tentar disfarçar o nervosismo.

— Você está passando tempo demais perto da Alice e do drama dela, Cullen. Pegou a mania.

Edward deu aquele sorriso de canto. Na mesma hora, uma coisa esquisita e quente mexeu com o meu espírito. De novo aquela sensação. Meu estômago que nem existia deu uma cambalhota completa — ou o equivalente fantasmagórico disso. Eu odiei o efeito que aquilo teve em mim.

— Você está fazendo aquela cara.

— Que cara?

— Aquela cara de quem está tendo um curto-circuito.

— Eu não tenho cara de curto-circuito, seu metido.

— Tem sim.

— Não tenho de jeito nenhum.

— Tem.

Saí do sofá num pulo só, flutuando para o alto.

— Vou embora.

— Você mora aqui, Bella. Não tem para onde ir.

— Vou para outro cômodo que esteja vazio.

— Mudar de quarto não vale como fuga.

— Para mim vale perfeitamente.

O Edward continuou largado na poltrona, me secando com os olhos enquanto eu atravessava a parede de madeira. O pior de tudo? Eu consegui ouvir direitinho o som da risada dele vindo da sala. O que, claro, não ajudou em nada a me acalmar. Nem um pouco.

A situação desandou de vez nos dias seguintes. A coisa começou a virar rotina, o que era um perigo para o meu orgulho.

Uma tarde, o Edward apareceu na sala com uma camisa azul-escura. Uma camisa de algodão normal, sem nada de mais. Uma roupa super comum. Então, por qual motivo eu travei olhando para o desenho daquele tecido por quase três minutos sem piscar? Excelente pergunta. Eu também queria que o universo me mandasse essa resposta.

— Bella.

— Que foi? — Desviei o olhar no susto.

— Por que você está encarando a minha camisa desse jeito?

Meu cérebro de dezenove anos entrou em pane total na hora.

— Não estou encarando nada.

— Está sim.

— Não, Edward.

— Está.

— Só estou analisando os fios do tecido. O talento da Esme com a máquina de lavar me intriga.

— Claro. Com certeza.

— É um tecido bem...

Parei de falar no meio. Meu estoque de desculpas simplesmente acabou e eu não sabia como terminar a frase sem passar vergonha.

Edward ergueu uma sobrancelha, tirando sarro da minha cara.

— Bem...?

— Tecido.

Rolou um silêncio maravilhoso no quarto. Então, o Edward largou a pose de príncipe e começou a rir de verdade. Eu atravessei a parede na hora, sem nem olhar para trás.

Depois veio o problema dos olhos. Aqueles malditos olhos dourados. O Edward tinha olhos que eram fáceis demais de ficar olhando por tempo infinito. O que era péssimo para uma assombração como eu. Toda vez que eu me pegava encarando o olhar dele, desviava a cara na hora. Igual a um criminoso pego em flagrante. Na prática, isso só deixava o meu comportamento mais suspeito na cara do leitor de mentes.

— Bella.

— Hum?

— Você está estranha hoje.

— Todo mundo nesta casa resolveu repetir essa mesma frase para mim.

— Porque você realmente está agindo diferente.

— Não estou.

— Está.

— Não.

— Está.

— Não.

— Está.

— Vocês, os Cullen, são um pessoal bem repetitivo — bufei, cruzando os braços.

Edward continuou me encarando fixamente.

— Você sabe que eu percebo quando você tenta esconder alguma coisa.

Aquilo me deixou bem nervosa por dentro.

— Não estou escondendo nada de você.

— Está sim.

— Não, Edward.

— Está.

— Edward, chega.

— Bella.

— Para com esse interrogatório.

— Então me fala qual é o problema.

— Não tem problema nenhum.

— Certo.

— Certo.

— Até porque você não sai correndo toda vez que eu olho para você, né?

— Eu não fujo. Eu tenho dignidade profissional.

— Fugiu ontem à tarde, Bella.

— Eu tinha compromissos.

— Você atravessou três paredes seguidas voando.

— Tinha uma urgência com as plantas do porão.

— Claro. Com certeza.

— Muito urgente, garanto.

Edward sorriu de novo, com aquele desenho lindo nos lábios de mármore. E aquilo fez meu estômago de mentira revirar do mesmo jeito. Eu odiava aquela sensação. Odiava muito.

A pior parte dessa bagunça aconteceu numa tarde super chuvosa. Eu estava bem acomodada em cima da tampa do piano da sala. O Edward lia na poltrona ali perto. Tudo normal, dentro do esperado.

Até que, do nada, ele deu um sorriso calmo olhando para alguma frase do livro. Só isso. Um sorrisinho bobo e inofensivo. E o meu sistema simplesmente travou. Parou geral, sumindo até com o barulho da chuva lá fora.

— Bella?

Silêncio total no quarto.

— Bella?

Mais silêncio.

— Bella?

— O que foi?! — soltei, com a voz bem mais alta e trêmula do que queria, no susto.

Edward piscou os olhos dourados, focando em mim.

— Você está bem?

Fiquei encarando o rosto dele por um segundo, chocada. Depois desviei a cara para o teto. Depois olhei para o vidro da janela molhada. Olhei para qualquer canto daquela sala que não tivesse o Edward Cullen no meio.

— Fantasma pode ter azia por motivos misteriosos?

O quarto ficou num silêncio pesado.

— O quê?

— É uma dúvida séria, Edward. Responde.

— Por que você inventou essa pergunta agora?

— Porque tem alguma coisa muito errada com o meu espírito.

Edward fechou o livro com força, deixando a leitura de lado.

— Bella...

— Não, escuta aqui — cortei logo, apontando meu dedo invisível para o meu próprio peito. — Bem aqui.

— Aqui onde?

— Aqui no meio.

— Bella, apontar assim não ajuda a entender.

— Na região do estômago, Edward.

— Por acaso você tem um estômago funcionando aí dentro?

— Ótima pergunta. Eu gostaria de saber.

— Eu estava falando sério na pergunta, Bella.

— E eu estou falando super sério na minha reclamação.

Ficamos em silêncio por um tempo. Olhei para as rachaduras do teto, fingindo estar super pensativa sobre a vida.

— Talvez... talvez eu esteja sendo assombrada por um espírito ruim.

— Você é o espírito da casa, Bella — ele lembrou, tirando uma com a minha cara com aquela voz mansa.

— Exatamente. O que deixa tudo mais assustador.

— Isso não faz o menor sentido.

— Nada na minha vida de morta faz sentido, aceita.

Edward soltou uma risada gostosa. E aquilo, na mesma hora, trouxe aquela sensação quente de volta para o meu peito. Mais forte, mais pesada e mais irritante do que nunca.

Fechei os olhos de leve, com aquela minha desconfiança de sempre. Começou a brotar uma teoria na minha cabeça. Uma teoria horrível, terrível, absurda, que eu me recusava a aceitar de jeito nenhum.

Então, agindo com toda a maturidade de uma garota de dezenove anos, resolvi fingir que a hipótese não existia. Apaguei o pensamento por uns três segundos inteiros.

Até que o Edward sorriu de canto de novo na poltrona. E o meu coração morto quase lembrou como fazia para bater. Outra vez. Aquilo era um problemão. Um problema gigantesco. E eu começava a desconfiar muito bem qual era a real causa desse rolo todo.

Mas eu não ia admitir isso para ninguém. Nem sob tortura.

Claro que fingir que o problema não existia não adiantou nada.

Eu tentei. Juro que tentei de tudo. Usei todas as táticas que eu conhecia: negação, distração, mudar de assunto, fugir através das paredes. Mais negação.

Nada funcionou. Porque a causa do problema continuava ali, bem na minha sala de estar. Lendo livros velhos, dando sorrisinhos ocasionais e sendo a criatura mais inconveniente da minha pós-vida.

Na terça-feira, decidi que precisava de provas reais. Qualquer cientista de verdade ia querer provas antes de fechar um diagnóstico. Eu não era cientista, mas o Carlisle devia estar me influenciando. Eu queria certezas.

Então criei uma teoria: talvez aquela sensação esquisita acontecesse com qualquer pessoa. Vai ver eu só tinha esquecido como era conversar com gente normal depois de passar décadas batendo papo com uma infiltração no teto. Era uma boa teoria.

Achei um jeito interessante de me comunicar com os outros da casa, aparentemente além de escrever em espelhos, eu podia digitar no teclado de um celular, claro que isso exigia um esforço sobrenatural, mas valia a pena.

Aí comecei os testes. Primeiro, tentei com o Emmett.

Resultado: nada. Deu em nada. O Emmett passou vinte minutos explicando certinho por que ele achava que ganhava de um urso, de um gorila e de um tubarão numa briga juntos no meio do mato. Ouvindo aquilo, meu cérebro só sentiu uma baita confusão mental.

Depois, tentei o teste com a Alice. Nada. Com a Rosalie. Nada. Com o Carlisle. Nada. Com a Esme. Nada. Com o Jasper, só senti um friozinho na espinha e um pânico doido, mas aquilo era culpa do poder dele de sentir e mudar emoções, então desconsiderei.

Conclusão científica: o negócio não acontecia com todo mundo. Era específico. Muito específico, infelizmente para o meu orgulho.

Dois dias depois, eu estava largada de qualquer jeito no corrimão da escada principal, olhando o Edward tocar piano. A casa estava vazia de novo, o que antes era ótimo para eu fazer minhas pegadinhas. Agora? Era perigoso. Significava mais tempo livre para pensar no que não devia. E minhas conclusões estavam chegando num lugar que eu não queria de jeito nenhum.

A música enchia a sala inteira. Fiquei olhando os dedos dele mexendo com toda a precisão do mundo pelas teclas. Por algum motivo, aquela cena parecia a coisa mais importante do planeta. O que era um absurdo. Era só a porcaria de um piano. Eu já tinha visto pianos antes. Acho. Não lembrava direito, mas devia ter visto.

— Você está encarando de novo.

Perdi o equilíbrio e quase caí do corrimão no susto.

— O quê?

Edward nem parou as mãos, continuou com a música fluindo.

— Você está encarando.

— Não estou encarando nada.

— Está sim.

— Como você tem a audácia de saber disso com tanta certeza?

— Consigo sentir o seu foco daqui.

— Isso é invasivo e assustador.

— Você é o fantasma da casa, Bella.

— Justo. Aceito o argumento.

Ele continuou tocando com toda a elegância dele. E eu continuei olhando para ele. Infelizmente para a minha paz.

— Bella.

— Hum?

— Quer me contar o que está rolando na sua cabeça?

Meu cérebro de dezenove anos ligou o modo de defesa e respondeu na hora: Não.

— Não tem nada rolando.

— Certo.

— Certo.

— Então por que você está agindo de um jeito super esquisito há quase duas semanas?

— Não estou agindo diferente.

— Está sim.

— Não, Edward.

— Está.

— Eu odeio quando você usa a lógica contra mim.

Edward finalmente tirou os olhos do piano, olhou para mim e sorriu de canto.

Erro. Um erro terrível.

Meu estômago de mentira deu aquela reviravolta. Meu coração morto deu aquele troço esquisito de novo. E eu quase atravessei a parede mais próxima por puro instinto de sobrevivência.

Edward parou de tocar. Bem devagar, a música foi sumindo do quarto.

— Bella.

— Não.

— Eu nem falei nada ainda.

— Não importa o que você vai falar.

— Importa sim para o caso.

— Não, Edward.

— Bella.

— Edward, chega.

— Você está vermelha.

Um silêncio absurdo tomou conta da escada. Eu travei no ar. Totalmente.

— O quê? — a voz saiu quase sumindo.

— Você está visivelmente vermelha.

— Fantasma não tem sangue para ficar vermelho por motivos óbvios, seu metido.

— Mas você ficou. Meus olhos não mentem.

— Não fiquei de jeito nenhum.

— Ficou.

— Não.

— Ficou.

Levei as duas mãos ao rosto no susto, num reflexo bem humano. O que não ajudou em nada a me defender. Aquele gesto só confirmou que ele estava certo.

Edward estava me olhando com uma cara bem diferente agora. Um olhar pensativo, compenetrado. Igual a alguém montando um quebra-cabeça difícil. Peça por peça. E o meu orgulho odiou aquela análise.

— Para de pensar agora, Cullen.

— Não estou pensando em nada.

— Está sim, estou sentindo seus miolos mexendo.

— Talvez um pouco.

— Edward.

— Bella.

— Não ouse terminar esse pensamento.

— Que pensamento?

— Esse mesmo que você acabou de ter.

Ele ficou quieto, pensando. E o silêncio dele conseguiu ser muito pior para o meu ego. Bem pior. Porque aquela quietude significava que ele realmente tinha chegado na mesma conclusão apavorante que eu vinha tentando apagar da mente. Minha reputação estava oficialmente arruinada.

Olhei para o teto, para a parede, para a janela. Para qualquer canto da sala que não tivesse a cara dele no meio.

Aí eu ouvi o barulho. Aquela risada. Baixa, mansa, quase sumindo no meio do som das árvores lá fora. Mas estava ali.

— Você está realmente rindo do meu desespero?

— Talvez seja uma possibilidade, Bella.

— Edward Cullen.

— Sim?

— Eu vou assombrar a sua vida inteira até o fim dos tempos.

— Você já faz isso todo dia, lembra?

— Pois vou passar a assombrar num nível muito pior e mais intenso, fica esperante.

— Uma ameaça bem impressionante.

Cruzei os braços em cima da camisola, com a maior cara de brava do mundo. Humilhada e totalmente derrotada no meu próprio jogo de provocações.

Porque, pela primeira vez em tantas décadas mofando nesse limbo, eu tinha descoberto uma verdade assustadora sobre o que eu sentia.

E quer saber?

Eu preferia ter enfrentado mais dez goteiras falantes no teto.

Era muito mais simples.

Eu ainda estava pensando se dava para morrer uma segunda vez de tanta vergonha quando o barulho da porta da frente abrindo quebrou o silêncio da sala.

A Alice entrou primeiro. O que já era sinal de problema na certa. A Alice quase nunca entrava num lugar de um jeito normal ou quieto; ela sempre invadia os cômodos feito um furacão de moda, super arrumada e cheia de energia. E, naquele momento, ela parecia elétrica. Animada até demais para o meu gosto.

Jasper vinha logo atrás, bem mais calmo e com postura firme, segurando uma pasta escura cheia de papéis velhos e amarelados. Meu cérebro esqueceu a vergonha na hora e focou no que importava.

— O que foi?

Edward tirou os olhos do piano, parando a melodia.

— Vocês acharam alguma coisa?

Alice abriu um sorriso enorme.

— Achamos.

Pronto. Agora eu estava super interessada. Desci do corrimão num segundo, flutuando rápido até o tapete.

— O quê?

— A Bella perguntou o quê — traduziu o Edward, olhando para a Alice.

Alice apontou para o Jasper.

— A honra é sua.

Jasper soltou um suspiro longo, bem típico de quem já sabe que aquela conversa vai ser cheia de drama. Ele caminhou e largou a pasta em cima da mesa de centro.

— Eu fui até os arquivos da cidade.

Meu coração de mentira deu um pulinho dentro da camisola.

— E aí?

— E procurei papéis antigos sobre a casa.

— E aí?

— E achei algumas coisas.

— Jasper.

— Estou criando um clima.

— Eu sou um fantasma — bufei, cruzando os braços no ar. — Sim. Tenho décadas de experiência em esperar. Justamente. Jasper! Tá bom.

Ele abriu a pasta devagar. Tirou um documento oficial e uma foto bem velha, espalhando na mesa. O Edward chegou perto rápido. Eu fui junto, espiando por cima do ombro dele.

E reconheci o rosto na foto na hora.

Riley. Ele parecia um pouco mais velho do que na minha lembrança daquela festa, com traços mais maduros, mas era ele. Sem dúvida nenhuma. Meu estômago invisível deu um nó.

— É ele — sussurrei, perdendo toda a vontade de fazer piada.

Edward repetiu para o pessoal:

— A Bella disse que é ele.

Jasper balançou a cabeça, sério, olhando as anotações.

— O nome dele era Riley Thompson.

O mundo ao redor pareceu ficar bem quieto. Porque, pela primeira vez, o Riley deixava de ser só um rosto estático numa foto velha nos meus arquivos. Agora ele tinha um sobrenome de verdade, uma identidade e uma história registrada no mundo real.

— O que mais? — perguntou o Carlisle, entrando na sala bem nessa hora, com seu casaco comprido de médico.

Rosalie e Emmett vinham logo atrás, trazendo o resto da família. A Esme apareceu na porta vindo da cozinha. Em segundos, o clã inteiro de vampiros estava reunido em volta da mesa.

Jasper olhou para as páginas digitadas.

— Riley Thompson nasceu em 1942.

— Então ele era bem jovem na outra foto — comentou Carlisle, fazendo as contas de cabeça.

— Sim.

Jasper continuou lendo:

— Pelo que achei nos registros da igreja e da prefeitura, ele morou nesta casa por vários anos com a família.

— E os pais?

— Dois irmãos mais novos.

— Que interessante... — murmurou Esme, sentindo aquela simpatia de sempre pelo passado do lugar.

Jasper concordou, passando o dedo pelas linhas de um recorte de jornal velho.

— E todos os registros que achei falam do Riley do mesmo jeito.

— Como? — perguntou Edward, franzindo a testa.

Jasper tirou os olhos dos papéis e olhou direto para o irmão.

— Gentil.

Rolou um silêncio bem respeitoso na sala.

— Gentil? — repetiu Emmett, com uma cara meio confusa.

— Gentil.

— Um elogio bem específico para estar em documento público — o grandão comentou.

— Aparece várias vezes em papéis diferentes — Jasper explicou, provando que o dado era real. Ele folheou mais umas folhas. — Um professor antigo escreveu numa carta que o Riley era educado e ajudava todo mundo.

— Que bonitinho — comentou Esme, com um sorriso calmo.

— Um vizinho disse num depoimento que ele ajudava os idosos da região com lenha e comida.

— Muito fofo — disse Alice, balançando a cabeça.

— E um aviso local da época conta que ele vivia ajudando as famílias nos invernos mais rigorosos.

Carlisle concordou com a cabeça, relaxando os ombros.

— Parece que ele era mesmo uma boa pessoa.

Eu continuava com os olhos colados na foto em cima da mesa. Totalmente parada no ar. Porque alguma engrenagem dentro de mim reagia com um solavanco a cada detalhe que o Jasper contava. Era como se meu cérebro de fantasma estivesse tentando de tudo para juntar aquelas peças soltas da minha história. Não estava dando muito certo na hora por falta de informação, mas eu continuava tentando.

— A Bella está bem? — perguntou a Esme baixinho, olhando preocupada para o vazio do lado do Edward.

Edward mudou o olhar e focou em mim.

— Ela está ouvindo.

— Estou ouvindo tudinho — murmurei para as paredes.

— Ela disse que está ouvindo.

Alice cruzou os braços com força, batendo o pé no chão, cheia de pressa.

— O que significa que ela está pensando demais.

— Provavelmente.

— Com certeza.

Ignorei totalmente os dois narradores da minha vida de morta. Meu olhar continuava preso na textura daquela foto. No desenho do sorriso do Riley. No formato daquele rosto conhecido. No homem que tinha segurado a minha mão no meio daquela música da festa que eu esqueci.

Aí o Jasper virou mais uma página da pasta. A cara dele mudou totalmente num segundo. Foi só uma linha tensa na testa, mas mudou o suficiente para me deixar esperta.

— Tem mais uma coisa.

A família inteira ficou em posição de alerta na hora. Meu coração morto deu um aperto contra a camisola.

— O quê? — perguntou Carlisle, sério.

Jasper olhou bem para as últimas linhas do papel oficial.

— O Riley desapareceu.

Um silêncio total desabou na sala de estar, sumindo com qualquer barulho. Meu sorriso debochado sumiu de vez.

— O quê? — minha voz saiu bem baixa e meio trêmula.

Edward pescou o sussurro e repetiu logo para os outros:

— A Bella perguntou o quê.

Jasper confirmou com a cabeça, falando devagar e sério.

— Os registros da polícia da época dizem claramente que ele desapareceu.

Ninguém falou um "A". Do lado de fora da casa, o barulho da chuva de Forks começou a bater nas janelas com mais força. Um som constante contra o vidro limpo.

— Desapareceu como? Tem detalhes? — perguntou Rosalie, com aquele olhar afiado dela.

— Ninguém na região soube — Jasper respondeu, fechando a pasta com um estalo. — Ele simplesmente sumiu do mapa sem deixar nenhuma pista.

O silêncio pesado voltou com tudo para a sala, bem mais incômodo dessa vez. Porque alguma coisa bem específica nessa história do sumiço dele estava incomodando a minha mente. Muito. Eu não sabia explicar o porquê daquilo; não fazia sentido nenhum na lógica. Mas me incomodava. Bastante.

Olhei de novo para a foto. Para o sorriso confiável do Riley Thompson.

E, pela primeira vez desde que ouvi esse nome na varanda... uma sensação esquisita e fria passou pelo meio do meu peito. Ainda não era uma memória real ou uma página inteira recuperada. Mas parecia o comecinho de uma engrenagem mexendo.

Parecia o desenho de uma porta velha, pesada, de ferro e trancada há anos... começando bem devagar a soltar os parafusos antigos.

E, do nada, de um jeito totalmente inesperado... eu tive a certeza gelada e assustadora de que o Riley não era só alguém que eu tinha conhecido quando era viva.

Ele era alguém muito importante para o final da minha história. Muito importante mesmo.