Como Ser Um Fantasma (Sem Querer)
12 Capítulo 12
Os dias seguintes passaram sem grandes revelações. Nenhuma memória nova. Nenhuma fotografia misteriosa. Nenhuma pista sobre Riley Thompson. Nenhum clarão repentino e triunfal de lembranças legítimas.
Nada. Absolutamente nada.
O que, para o andamento do meu orgulho, era profundamente frustrante. Porque, depois daquela grande descoberta sobre o Riley nos arquivos municipais, uma parte ingênua da minha essência tinha de fato começado a esperar que as respostas simplesmente aparecessem de forma mágica. Como dominós caindo em um ritmo confiável. Uma lembrança puxando a outra. Uma peça se encaixando perfeitamente na seguinte.
Mas, aparentemente, o universo tinha decidido continuar sendo escandalosamente inconveniente e boicotar o meu livro. Então, minha rotina pós-vida voltou ao normal. Ou ao equivalente mais próximo de normal que uma fantasma teimosa vivendo sob o mesmo teto que uma corte de vampiros podia experimentar.
Infelizmente... havia outro problema. Um problema muito pior. Muito mais persistente na minha integridade sutil. Muito mais irritante.
Edward Cullen.
Não ele especificamente. Quer dizer... sim, ele especificamente, com aquela fisionomia de estátua sofisticada. Mas também não. Era um dado complicado de catalogar.
O nó da questão era que meu estômago inexistente continuava fazendo aquela exata coisa térmica. Toda vez. Sem falhar uma única coordenada temporal. Toda. Única. Vez.
Edward esboçava um sorriso de canto? Borboletas. Edward soltava uma risada abafada e aveludada? Borboletas. Edward me chamava pelo nome de batismo com aquela voz perfeita? Borboletas. Edward simplesmente existia dentro de um raio de cinco metros de distância da minha camisola de algodão? Borboletas.
Era ridículo. Completamente ridículo. Um vexame conceitual. E eu me recusava categoricamente a realizar uma análise psicológica sobre o motivo real. Porque o meu processamento de dados já sabia perfeitamente qual era o diagnóstico. E o motivo envolvia uma palavra proibida nos meus arquivos seculares. Uma palavra extremamente perigosa. Uma palavra que começava com a letra "a". E terminava com "mor".
Uma palavra que eu imediatamente descartava e jogava no lixo mental sempre que ela ousava aparecer no sistema.
— Não.
Lixo.
— Nem pensar.
Lixo.
— De jeito nenhum.
Lixo.
— Absolutamente não.
Lixo.
Minha estratégia executiva era simples e madura: se eu ignorasse o problema com força suficiente, usando de toda a minha teimosia de dezenove anos... talvez ele sofresse um apagão e desaparecesse de órbita.
Infelizmente para o andamento da minha farsa, o epicentro do problema continuava confortavelmente sentado no sofá da sala de estar, lendo livros.
— Bella?
— Hm? — Desviei a mira das órbitas em um sobressalto, fingindo desinteresse técnico.
— Você está me encarando de novo.
— Não estava encarando absolutamente nada.
— Estava.
— Não, Edward.
— Estava.
Cruzei os braços no ar, bufando com desdém.
— Você está inventando dados e alucinações no seu radar telepático.
— Claro. Com certeza.
— Claramente.
Edward sorriu de canto. Borboletas. Malditas e insuportáveis borboletas térmicas.
Voei em velocidade supersônica para o outro lado da sala imediatamente, afastando-me de suas coordenadas.
— O que foi agora? — perguntou ele, arqueando uma das sobrancelhas acobreadas.
— Nada.
— Bella.
— Nada, eu insisto.
— Bella.
— Estou excessivamente ocupada neste milissegundo.
— Fazendo o quê, especificamente?
Olhei ao redor tridimensional do cômodo de forma desesperada, buscando uma justificativa científica.
— Assombrando essa planta decorativa.
Edward mudou o foco visual e olhou para o vaso de folhagens ao meu lado.
— A planta?
— Sim.
— Parece um trabalho de alta importância para a propriedade.
— Muito importante. O mofo dela me exige atenção cirúrgica.
— Entendi.
Ele estava rindo de peito aberto. Eu conseguia ouvir perfeitamente a frequência daquela diversão real. O que, logicamente, só servia para piorar o curto-circuito no meu cérebro.
Meu problema de derretimento mental atingiu níveis críticos de alerta três dias depois.
Alice estava ativamente reorganizando a disposição dos móveis da sala. Pela décima vez naquele bendito mês, guiada por seus surtos de vidente. Rosalie reclamava do design escolhido. Pela décima vez naquela hora, com sua acidez loira de grife. Emmett estava gastando sua saliva imortal para explicar uma teoria mecânica absurda sobre por que ele conseguiria derrotar um rinoceronte adulto usando apenas uma cadeira de balanço de madeira. E Edward estava sentado ao piano. Tocando uma melodia suave.
Eu estava esparramada de forma desleixada no sofá, observando. Sem querer de facto observar, operando sob protesto do meu próprio orgulho, mas observando cada linha expressiva dele.
— Bella.
Pisquei as pálpebras espectrais, despertando do transe.
— O quê?
Alice parou com uma poltrona suspensa nas mãos e estava me encarando. Ou melhor, fixando as órbitas escuras exatamente na coordenada vazia do espaço onde eu flutuava.
— Edward.
— Sim? — ele interrompeu os acordes do piano, mantendo a calmaria.
— Ela está aqui neste perímetro agora?
Meu cérebro congelou a mecânica no ato.
— Ela está — Edward confirmou em tom casual.
— Está olhando diretamente para você?
Houve uma pausa de estática densa e mastigável no carpete. O meu cérebro começou a pegar fogo por motivos teológicos. Edward girou o pescoço de mármore e olhou diretamente para mim. Depois mirou as feições de Alice. Depois voltou a travar as órbitas douradas na minha camisola de algodão.
Um sorriso apareceu em seus lábios perfeitos. Pequeno. Divertido. Terrivelmente perigoso para o meu ego.
— Talvez.
— EDWARD. — Alice repreendeu, batendo o pé com dinamismo.
— O quê, Alice?
— Não faça essa cara específica.
— Que cara?
— Essa cara.
— Eu não estou fazendo nenhuma cara fora do meu normal.
Alice estreitou os olhos de fada de forma cirúrgica.
— Suspeito.
— Concordo plenamente com a análise — disse Emmett, interrompendo o seu monólogo sobre o rinoceronte.
— Muito suspeito — acrescentou Rosalie, refinada e cruzando os braços.
— Extremamente suspeito — disse Jasper, avaliando o gráfico emocional que flutuava ali.
— Eu não gosto nem um pouco disso — concluiu Alice, semicerrando as pálpebras.
Edward apenas continuou mantendo aquela linha de divertimento desenhada nas feições. E eu? Bem, eu considerei seriamente a probabilidade estatística de atravessar o assoalho de madeira e passar a residir estritamente no breu do porão pelo resto da eternidade, dividindo o espaço com o fantasma do Gregory.
Naquela noite cinzenta, fiquei sentada de pernas cruzadas no topo do telhado da varanda da frente, observando a imensidão da floresta temperada. A chuva de Forks tinha finalmente dado uma trégua. As nuvens densas se moviam lentamente sobre as copas escuras dos pinheiros, e tudo estava imerso em uma calmaria linear. Pela primeira vez em todo o curso do dia.
Cruzei os braços sobre a camisola, adotando uma postura de pura indignação civil. Pensativa. Muito pensativa sobre o andamento do meu roteiro. Infelizmente para o meu orgulho. Porque o ato de pensar ativamente levava os neurônios a alcançar conclusões reais. E eu não queria de jeito nenhum alcançar conclusões. Principalmente aquela conclusão de alta relevância emocional. A conclusão proibida. A conclusão que começava com a maldita letra "a".
Imediatamente ativei o protocolo de defesa e joguei o pensamento no lixo. Lixo.
Dois segundos depois, a engrenagem falhou e ele voltou para o sistema. Lixo. Voltou novamente, com mais nitidez. Lixo.
Outra vez. Lixo.
Mais uma. Lixo.
— Você sabe que isso não está funcionando.
A voz aveludada e perfeitamente nítida de Edward surgiu do nada, bem atrás das minhas costas espectrais. O susto quase me fez atravessar a estrutura das telhas do telhado.
— Desde quando está posicionado aí, seu esnobe? — disparei, limpando o verniz de susto.
— Uns cinco minutos inteiros, Bella.
— O teor desse hábito de rastejar atrás dos outros é assustador e invasivo.
— Você estava discutindo e esbravejando consigo mesma em sussurros.
— Era uma convenção e uma conversa estritamente privada dos meus arquivos, fique ciente.
Edward caminhou com sua elegância aristocrática e sentou-se na madeira ao meu lado, dobrando as longas pernas de mármore. Eu continuei mantendo a mira fixada na linha do horizonte da floresta. Não para ele. Definitivamente não na direção do perfil dele. Porque olhar para a fisionomia dele naquele silêncio configurava um cenário perigoso. Muito perigoso para o andamento da minha farsa.
— Bella.
— Hm?
— Você está fazendo aquela exata coisa de novo.
— Que coisa, especificamente?
— Pensando demais.
Soltei um longo suspiro teatral, fingindo uma perda de oxigênio. Porque, contra todas as minhas estatísticas de defesa, ele estava coberto de razão nas entrelinhas. O que era profundamente irritante para o meu ego.
— Talvez um pouco.
— Sobre o quê? — ele indagou, a voz modulando para uma frequência mais suave e perfeitamente cuidadosa.
Olhei fixamente para a névoa que dançava sobre as árvores. Para qualquer objeto ou folha comum daquela propriedade. Menos para ele. E, por um breve fragmento de segundo... a palavra proibida materializou-se novamente no centro da minha cabeça de dezenove anos. Muito maior do que em todas as outras ocasiões anteriores. Muito mais densa e difícil de ser ignorada de forma racional. Muito mais complexa de ser simplesmente jogada no lixo.
Então, agindo com a minha habitual maturidade psicológica, fiz exatamente o que sempre executava: empurrei o dado para longe do sistema com toda a força da minha teimosia milenar. Porque admitir a validade daquele diagnóstico para o mundo seria assustador. Assustador demais para a minha estabilidade de alma penada.
Afinal de contas, pensando com total realismo... eu era a droga de um fantasma residente. Uma fantasma sem memórias funcionais sobre o próprio passado. Sem respostas legítimas para as perguntas mais básicas do livro. Sem saber sequer qual era o prazo de validade da minha permanência ou quanto tempo eu ainda permaneceria orbitando aquele gesso velho antes de sumir no ar de Forks.
E a última coisa que o meu bom senso lógico queria era cometer o erro estratégico de me apaixonar. Especialmente por um vampiro imortal, irritantemente bonito e esnobe que ostentava a audácia de sorrir demais na minha presença.
Infelizmente, o meu coração morto era um traidor. Um traidor completo. Um traidor profissional. Um traidor de altíssima periculosidade que claramente não tinha se dado ao trabalho de ler o memorando oficial do sistema onde eu proibia terminantemente qualquer tipo de sentimento inconveniente ou de alta relevância emocional.
Porque, nos dias seguintes, a situação só piorou. Muito. Muito mesmo, operando em uma escala de vexame estatisticamente alarmante para o meu orgulho.
Eu passei a desenvolver o hábito profundamente humilhante de aparecer em qualquer coordenada geográfica exata onde Edward estivesse posicionado. Sem perceber. Ou pelo menos encenando uma farsa mental para fingir não perceber. Era uma diferença técnica e conceitual muito importante para a manutenção da minha dignidade.
Eu surgia na biblioteca. Edward estava lá, recostado entre as estantes. Eu aparecia na sala de estar. Edward estava lá, ocupando a poltrona. Eu ia para o jardim de Esme. Edward estava lá, deitado na grama.
Eu começava a nutrir uma suspeita seríssima e muito desconfiada de que ele também estava executando aquela mesma coreografia de propósito, alterando suas coordenadas para cruzar com as minhas. O que, sob qualquer análise lógica, era ainda pior. Porque significava, por dedução matemática, que talvez ele tivesse notado o meu derretimento mental nas entrelinhas. E o meu bom senso não queria de jeito nenhum que ele notasse. Nem um pouco.
Talvez um pouco.
Não.
Definitivamente não.
Lixo.
— Você está me seguindo.
Edward sequer desviou as órbitas douradas da página do livro, mas a linha de deboche já estava desenhada em suas feições de mármore.
— Não estou seguindo absolutamente ninguém, Cullen.
— Está sim, Bella.
— Não.
— Bella.
— Edward.
— Você apareceu em quatro cômodos diferentes da propriedade nos últimos quinze minutos inteiros.
— Mera coincidência estatística.
— Claro. Com certeza.
— O casarão tem cômodos geometricamente limitados, aceite.
— Bella.
— Edward.
— Você acabou de atravessar uma parede de alvenaria inteira apenas para continuar essa conversa.
Paralisei no ar. Refleti com rapidez mecânica sobre a física do meu trajeto.
— O teor desse detalhe técnico é totalmente irrelevante para o andamento do debate.
Edward abandonou o tom aristocrático e começou a rir de peito aberto. Traidor. Um traidor de grife.
O problema de curto-circuito no meu cérebro atingiu novos e perigosos patamares numa tarde particularmente tranquila e cinzenta. Eu estava confortavelmente sentada no topo da tampa de madeira do piano. Meu lugar favorito de toda a arquitetura. Ou, sendo perfeitamente honesta com os meus arquivos civis, era o lugar exato onde eu fingia que gostava de ficar simplesmente porque acontecia de estar perto do instrumento que Edward costumava dedilhar com frequência.
Detalhes sem a menor importância para a ciência, claro.
— Você está estranha.
— Não estou.
— Está sim.
— Não.
— Está.
Cruzei os braços sobre a minha camisola de algodão antiga, adotando uma fisionomia de pura indignação civil.
— Você percebe que essa conversa não está indo a lugar nenhum?
Edward fechou o volume do livro devagar, o clique abafado do papel ecoando na calmaria do cômodo. Aquilo nunca era um bom sinal para o andamento do meu orgulho. Porque significava, por dedução matemática, que ele estava prestando atenção total e absoluta em mim, sintonizando cada oscilação da minha integridade espiritual. E eu? Bem, eu preferia muito mais quando ele estava profundamente distraído lendo alguma obra vitoriana chata. Era um cenário infinitamente mais seguro. Para mim. Para a manutenção da minha dignidade. Para a estabilidade do universo.
— Bella.
— Edward.
— O que está acontecendo?
— Nada está acontecendo.
— Você anda evitando responder perguntas.
— Eu sempre evitei responder perguntas, Cullen. Faz parte do meu currículo de assombração residente.
— Verdade. Os dados confirmam.
— Viu? Dados aceitos.
— Mas agora você faz isso mais rápido — ele rebateu, o deboche rastejando no tom aveludado.
— O teor dessa análise não faz o menor sentido nas leis da lógica.
— Faz.
— Não faz.
— Faz.
— Você é uma criatura extraordinariamente irritante.
— Já ouvi essa exata frase antes no seu inventário, Bella.
— Provavelmente porque é uma grande verdade científica e o mundo concorda comigo.
Edward apoiou o queixo de mármore na mão perfeita, recostando-se na poltrona. Observando-me com uma atenção. Eu odiei profundamente o impacto daquele foco óptico. Porque ele tinha aquele exato olhar. O olhar cortante que dizia em letras garrafais: "Eu já descobri alguma anomalia oculta e agora estou apenas esperando de braços cruzados você admitir a farsa." Era o mesmíssimo olhar clínico que Carlisle fazia quando alcançava um diagnóstico incrível no hospital. O mesmíssimo olhar misterioso que Alice adotava quando estava ativamente escondendo uma visão bombástica sobre o fluxo do futuro. E o exato olhar que me dava uma vontade avassaladora de flutuar em velocidade supersônica e atravessar a parede de alvenaria mais próxima.
— Pare imediatamente de me olhar assim.
— Assim como, especificamente?
— Como se soubesse algum segredo sobre mim.
— Talvez eu saiba.
Meu estômago inexistente executou aquela exata reviravolta térmica. Traidor. Um traidor profissional.
— Não sabe de modo algum.
— Tenho minhas suspeitas, Bella.
— São suspeitas conceitualmente erradas e sem validade científica.
— Eu sequer formulei quais são as hipóteses em voz alta ainda.
— Ainda assim. O seu histórico de dedução é falho.
Edward sorriu de canto, aquela linha perfeita desenhando-se em suas feições. Piorou o meu curto-circuito mental. Muito. Níveis críticos de alerta no meu cérebro de dezenove anos.
— Bella...
— Não.
— Você nem sabe o que eu vou dizer.
— Sei perfeitamente.
— Sabe de facto?
— Sei.
— Então faça o favor de dizer para a sala.
— Não.
— Porque você sabe que estou coberto de razão.
— Porque você é irritante.
— Porque eu estou certo.
— Porque você é irritante.
— Porque eu estou certo.
— Porque você é irritante.
— Bella.
— Edward.
Ficamos nos encarando em um duelo de teimosia tridimensional. Ou melhor, sendo milimetricamente precisa na física da cena: ele mantinha a mira das órbitas douradas fixada nas minhas feições pálidas, enquanto eu focava o meu olhar espectral estritamente em um pinheiro comum da floresta temperada, visível além do vidro limpo da janela atrás dele. Porque olhar diretamente para as feições dele naquele silêncio configurava uma péssima ideia estratégica.
— Olhe para mim.
— Estou olhando.
— Você está olhando para um pinheiro, Bella.
— É uma árvore com um arranjo de folhas muito interessante e inovador para a botânica, Cullen.
— Bella.
— O quê?
— Olhe para mim.
— Não quero, opero sob protesto.
— Por qual motivo exatamente?
— Porque...
Paralisei o fluxo dos fonemas no meio do caminho. Porque o meu processamento de dados alertou a tempo de que a resposta verdadeira funcionaria como uma armadilha fatal para o meu orgulho. E eu não era burra. Na maior parte do tempo vago, pelo menos.
Edward inclinou a cabeça acobreada de forma condensada, o sorriso crescendo.
— Porque...?
— Porque você está sendo escandalosamente irritante — bufei, cruzando os braços com mais firmeza.
— Essa justificativa perdeu totalmente a eficácia há três dias inteiros.
— Ainda funciona perfeitamente para os meus protocolos de segurança.
— Bella.
Soltei um longo e audível suspiro teatral, fingindo uma perda total de oxigênio que o meu peito sequer carecia de gerenciar por motivos anatômicos.
— O quê?
— Você sabe que pode me contar o problema.
Meu coração fantasmagórico e sem pulsação tropeçou na engrenagem, executando um espasmo coreográfico estranho. Por um breve segundo. Só um milissegundo de oscilação térmica. Porque a frequência da voz dele tinha ficado infinitamente mais suave, mais perfeitamente cuidadosa. E aquilo era uma tremenda injustiça. Muito injusto com uma alma penada.
— Não há absolutamente nada de relevante para contar para a sua ciência, Edward.
— Há sim.
— Não.
— Há.
— Não.
— Há.
— Você se transformou em um disco quebrado riscado da pior espécie.
— E você é uma criatura absurdamente teimosa.
— Eu prefiro catalogar o termo como persistente de alta intensidade nos meus arquivos.
— Claro. Com certeza.
Houve uma pausa de silêncio compartilhado no cômodo. O vento de Forks atravessou a densidade das árvores do quintal, e as flores coloridas de Esme balançaram suavemente sob a tempestade cinzenta. Edward continuava me observando de forma obstinada. Paciente. Calmo, relaxado contra o estofado da poltrona. Como um analista esperando que uma porta antiga e emperrada finalmente cedesse e se abrisse diante de suas ferramentas.
— Bella.
— Hm?
— Você gosta de mim.
Congelei as minhas coordenadas no ar no mesmo décimo de segundo. Completamente. Absolutamente. Totalmente.
Meu cérebro de dezenove anos simplesmente abandonou o prédio da racionalidade. Meu coração simulou um desaparecimento de órbita. Minha alma penada saiu para caminhar sem rumo nas entrelinhas.
— O quê? — a voz saiu em uma frequência trêmula e aguda.
— Você ouviu perfeitamente, Bella.
— Não ouvi absolutamente nenhum som inteligível na sua frase.
— Ouviu sim.
— Não, Edward.
— Ouviu.
— Não ouvi.
— Ouviu.
— Edward Cullen.
— Bella Swan.
— Não.
— Não o quê, especificamente?
— Isso.
— Isso o quê?
— Isso que você acabou de vocalizar para o ambiente.
— Gostar de mim?
— Exatamente esse dado.
— Então a minha hipótese estava coberta de razão.
— NÃO!
O silêncio absoluto que se instalou na sala de estar logo em seguida foi algo magnífico em sua carga dramática. Porque eu tinha ativado o protocolo de defesa e respondido com uma rapidez recorde. Rápido demais. Uma velocidade estatisticamente comprometedora para o meu anonimato emocional.
Edward arqueou uma de suas sobrancelhas espessas de forma lenta. Perigosamente devagar, saboreando o triunfo.
— Certo.
— Não faça essa fisionomia, Cullen.
— Que fisionomia, Bella?
— Essa cara.
— A cara de quem acabou de receber uma confirmação legítima nos gráficos?
— Você não recebeu confirmação de nenhuma, fique ciente.
— Recebi sim.
— Não recebeu.
— Recebi.
— Não.
— Recebi.
Levantei-me imediatamente da coordenada do sofá, executando um salto flutuante e abrupto.
— Vou embora.
— Bella.
— Não.
— Bella.
— Não.
— Bella.
— NÃO.
— Você percebe que essa sua fuga geográfica está apenas provando o meu ponto científico?
— NÃO ESTOU PROVANDO ABSOLUTAMENTE NADA! — esbravejei para o teto, gesticulando com os braços invisíveis.
— Está sim.
— NÃO.
— Está.
— EDWARD CULLEN!
Ele abandonou qualquer pose de estátua sofisticada e começou a rir de peito aberto. Aquela gargalhada limpa e audível foi o golpe definitivo de misericórdia contra o meu orgulho de dezenove anos. Cruzei os braços no ar, sentindo-me profundamente ofendida. Hororizada. Traída por cada engrenagem da mecânica do próprio universo. Porque o pior de toda aquela situação desastrosa? O pior de tudo era notar que ele estava coberto de razão. E nós dois sabíamos perfeitamente do diagnóstico real.
Eu só não pretendia admitir de jeito nenhum que ele estava certo. Nem naquele dia em que meu estômago deu um nó, nem no resto da semana, e talvez nem no próximo século.
O Edward continuava com aquela cara de pura satisfação e deboche, bem estampada no seu rosto de gesso.
— Você terminou o seu show dramático?
— Não.
— Vai demorar muito para aceitar os fatos?
— Sim, vai demorar uma eternidade.
— Ótimo.
— Você é um vampiro absolutamente insuportável, Cullen.
— E você gosta de mim.
— Eu odeio cada segundo da sua existência.
— Não odeia não, Bella.
— Odeio sim.
— Não.
— Odeio.
— Não.
— Odeio!
— Bella.
— Edward.
— Você está sorrindo.
Parei de balançar as pernas no ar na mesma hora. Levei a mão ao rosto num reflexo bobo e percebi, com uma raiva imensa, que o infeliz tinha total razão. Droga. Minha própria cara estava sabotando o meu disfarce.
— Esse sorriso foi só um espasmo muscular, não vale para o teste.
— Vale sim, Bella. É uma prova real.
— Não vale.
— Vale.
— Não vale de jeito nenhum!
— Vale.
Fechei os olhos, caçando uma paciência que eu já não tinha. Respirei fundo, puxando o ar por puro hábito humano difícil de largar, e tomei a única decisão possível para salvar o resto do meu orgulho: atravessei a parede de madeira mais próxima e sumi da frente dele.
Porque tem algumas brigas no pós-vida que a gente sabe que não tem a menor chance de ganhar. E aquela, contra o sorrisinho de mármore do Edward, com certeza entrava para a lista das maiores derrotas da minha carreira de assombração.
Enquanto eu flutuava pelo corredor vazio, consegui ouvir direitinho o som da risada limpa e gostosa do Edward ecoando por toda a sala de estar. O traidor sem coração não teve nem a decência de fingir um pingo de culpa por ter bagunçado totalmente o meu juízo.
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