Os dias passaram. Depois, semanas. E, para a minha completa surpresa (e leve alívio da minha autoestima), Edward continuou conseguindo me ver com total nitidez.

Nenhum de nós dois realmente entendia o porquê daquilo. Tentamos desvendar o mistério algumas vezes, montando o que eu considerava um laboratório de testes altamente científico. Tentamos horários alternativos. Lugares diferentes da casa. Distâncias milimetricamente calculadas. Até cogitamos que a minha renderização visual dependesse do humor dele. Ou do meu. Ou da fase da lua, do clima úmido de Forks, ou de alguma conspiração sobrenatural extremamente específica que o manual de instrução pós-morte esqueceu de me enviar.

Nada fez o menor sentido.

No fim das contas, simplesmente desistimos. O que foi uma decisão executiva bastante madura da nossa parte, principalmente porque eu já estava cansada de formular teorias estrambólicas e, sinceramente? Eu não me importava tanto assim. Edward conseguia me ver, e isso era o suficiente para virar a minha eternidade de cabeça para baixo. Pela primeira vez em arrastadas décadas de tédio, eu tinha alguém com quem conversar. E eu pretendia extrair até a última gota de entretenimento daquela situação.

Descobri rapidamente que o Edward era muito menos chato quando não estava fingindo ser uma estátua ornamental e sofisticada na frente dos irmãos. Quer dizer, ele continuava sendo chato — o verniz de esnobe vitoriano não sai fácil —, mas era um chato tolerável.

Passávamos horas conversando. Nosso horário nobre acontecia estritamente durante a noite, quando o restante do clã estava ocupado caçando, jogando videogame ou planejando reformas arquitetônicas drásticas na sala. Ou então, acontecia quando Edward fingia estar compenetrado na leitura de algum manuscrito antigo enquanto, na verdade, estava apenas me ouvindo reclamar sobre alguma bobagem completamente irrelevante para a geopolítica dos mortos-vivos.

— Você está lendo a mesma página e encarando o mesmo parágrafo há quinze minutos — apontei, flutuando de cabeça para baixo perto do lustre.

— Estou ouvindo você — ele admitiu, sem desviar os olhos do livro.

— Eu sabia. O meu magnetismo social é irresistível.

— É mais como o fato de que você nunca para de falar, Bella.

— Por favor, não me julgue. Estou apenas compensando décadas de um isolamento social severo.

— Justo.

— Eu tenho muito conteúdo acumulado na minha gaveta mental, Edward.

— Percebi.

E eu realmente tinha. Conteúdo demais. Um inventário inteiro de fofocas acumuladas que ninguém nunca tinha ouvido.

Acabei descobrindo coisas fascinantes sobre o Edward, e ele descobriu coisas sobre mim — ou pelo menos sobre a versão caótica e irônica de mim que existia agora. Numa noite em que a tempestade castigava as vidraças limpas da sala com uma violência digna de cinema, Edward fechou o seu livro e me contou a sua história de transição. Como tinha adoecido na epidemia de gripe espanhola. Como Carlisle o encontrara no hospital. Como acordara transformado com aquela sede ardente. Como tinha passado mais de um século existindo como um predador imortal.

Eu ouvi o relato inteiro sentada de pernas cruzadas em cima do piano da sala. Fiquei em um silêncio absoluto pela primeira vez em semanas. O que, segundo as estatísticas de Edward, operou como um fenômeno aterrorizante.

— Você ficou completamente quieta por quase vinte minutos — ele comentou, quebrando a estática.

— Eu sei. Milagres acontecem.

— Achei genuinamente que você tivesse desaparecido no ar ou retornado para o além.

— Não comemore antes da hora. Eu estava apenas processando as informações do seu arquivo biográfico.

— É uma história tão estranha assim para os seus padrões?

— Edward.

— O quê?

— Você tem mais de cem anos de idade cronológica.

— Sim.

— Isso é conceitualmente ridículo.

— Concordo com a sua análise.

— Você já deveria estar aposentado pelo INSS dos monstros, recebendo uma pensão vitalícia.

— Receio que o sistema não funcione exatamente assim, Bella.

— Pois deveria funcionar. Vou abrir uma reclamação no Procon do pós-vida.

Em outra noite fria, foi a minha vez de abrir os meus arquivos. Ou o mais próximo que eu conseguia chegar disso, já que eu carecia de histórias completas sobre o meu passado humano. Minhas narrativas eram estritamente sobre o casarão. Sobre as décadas que passei flutuando por aquele gesso descascado.

Contei a ele sobre os Smiths e as minhas sementes de paranoia no porão. Sobre os Johnsons. Sobre os Petersons. Sobre as dezenas de famílias humanas perfeitamente comuns que vieram, alugaram o lugar por causa do preço barato e partiram em pânico sob a desculpa de "energias pesadas". Contei sobre as minhas pegadinhas clássicas, os sustos mal executados e as minhas tentativas desesperadas e patéticas de entretenimento doméstico.

E, claro, contei sobre o ecossistema do quintal. Sobre os esquilos com quem eu conversava, sobre os guaxinins obstinados e sobre um cervo particularmente agressivo que certa vez cruzou o meu caminho na clareira e me declarou uma guerra psicológica sem tréguas.

Edward soltou uma risada tão limpa e ruidosa daquela história que quase perdeu a postura aristocrática e caiu da cadeira.

— Um cervo declarou guerra de forma legítima a você, Bella?

— Sim. Ele mantinha um olhar extremamente calculista.

— Bella...

— Ele começou, eu juro pela minha integridade espiritual.

— Não, não começou.

— Ele começou sim! Você não estava lá para testemunhar as provocações dele.

— Era apenas um cervo comum da floresta, Bella.

— Era um cervo hostil e com claros traços de psicopatia. Você não tem provas para defender o réu.

Com o passar do tempo, aquelas longas sessões de debates teológicos e provocações mútuas tornaram-se parte fixa da nossa rotina. Uma rotina que eu, contra todas as minhas estatísticas anteriores, realmente estava gostando de vivenciar. O que configurava uma novidade absurda, porque normalmente eu nutria um ódio profundo por qualquer tipo de mesmice.

Mas aquela rotina com o Edward operava em uma frequência diferente. Agora existia uma expectativa real para o fim de tarde. Agora existia companhia genuína. Agora existia alguém para dividir e quebrar o gelo do silêncio. E isso mudava absolutamente tudo na estrutura da casa.

O mais esquisito de tudo era notar o quão rápido eu já havia me acostumado com a presença dele ali. Tão acostumada que, às vezes, meu sistema operacional de fantasma sofria um apagão e eu esquecia como era a minha realidade antes de tudo aquilo acontecer. Antes do clã dos Cullen cruzar a estrada. Antes de Edward sentar naquela poltrona. Antes de alguém finalmente sintonizar a minha frequência e conseguir me enxergar de verdade.

Numa tarde particularmente cinzenta e chuvosa, estávamos os dois sentados na varanda da frente. Eu estava equilibrando a minha essência de forma desleixada no topo do corrimão de madeira; Edward ocupava um dos degraus logo abaixo. Ambos observando a névoa dançar entre os pinheiros.

— Sabe qual é a melhor parte de toda essa sua invasão de propriedade, Edward? — perguntei, balançando as pernas no ar.

— O quê? — ele indagou, sem desviar as órbitas douradas da floresta.

— O fato de que eu não preciso mais gastar o meu precioso tempo conversando com o Gregory.

Edward virou a cabeça de forma lenta na minha direção, o cenho franzido em uma fisionomia confusa.

— Gregory? Quem exatamente é Gregory?

— A goteira do teto da cozinha — respondi com total naturalidade.

Houve um silêncio denso e maravilhoso na varanda.

— A goteira? — ele repetiu, como se estivesse testando a sanidade da minha frase.

— Sim. A própria.

— Você... deu um nome de batismo civil para uma infiltração no teto?

— Claro que dei. Eu precisava de laços sociais.

— Bella, por favor...

— Nós convivemos em harmonia por anos seguidos, Edward. Não insulte o histórico do meu relacionamento.

— Era apenas água batendo em um balde velho, Bella.

— Era o Gregory. Ele tinha toda uma personalidade consistente.

— Não, não tinha.

— Tinha sim!

Edward esfregou as têmporas com os dedos perfeitos, soltando um suspiro resignado.

— Você estava em um estado de isolamento há tempo demais. Isso explica o derretimento do seu juízo.

— Exatamente — apontei o indicador na direção dele de forma enfática. — Eu estava desesperada por interatividade. Todo santo dia ele se manifestava fazendo "ploc" no mesmo ritmo confiável.

— Bella...

— Então, por pura educação doméstica, eu respondia ao estímulo dele.

— Bella, pare.

— Nós chegamos a estruturar diálogos filosóficos complexos sobre o sentido da existência naquele cômodo, eu insisto.

— Vocês decididamente não tinham diálogos complexos.

— Tínhamos sim! Você é um preconceituoso com a comunicação fluida.

— Era apenas o efeito da gravidade sobre a água da chuva, Bella.

— Você diz isso porque não teve o privilégio de conhecer o Gregory como eu conheci. Você não entende a profundidade dele.

Edward abandonou qualquer verniz de seriedade e começou a rir. Daquele jeito contido e silencioso que ele sempre adotava quando tentava — de forma hercúlea e fracassada — não incentivar o meu comportamento lunático.

— Não faça o favor de rir da minha perda. É falta de empatia com o luto alheio.

— Estou me esforçando ao máximo para manter a neutralidade, Bella.

— O Gregory foi o meu único amigo fiel por décadas de poeira.

— Era uma infiltração, Bella. Uma goteira mecânica.

— Agora ele opera na categoria de ex-amigo — dei de ombros, dramática.

— Continua na categoria de uma goteira.

Eu soltei um daqueles meus suspiros teatrais e totalmente sem oxigênio, jogando a cabeça para trás de forma melodramática. Direcionei os olhos espectrais para o forro do teto da varanda, que Carlisle havia reformado de forma impecável dias atrás. Sem nenhuma infiltração aparente. Sem nenhuma gota de água caindo no piso. Sem nenhum barulho de ritmo confiável. Sem nenhum Gregory para me ouvir.

— Bem... — Cruzei os braços sobre a camisola antiga, esboçando um sorriso de puro deboche vitorioso. — De qualquer forma, ele morreu na reforma.

Edward finalmente capitulou diante do absurdo da piada. Perdeu a batalha contra o riso de forma definitiva. A gargalhada limpa e ruidosa escapou de seu peito, alta, livre e totalmente incontrolável, ecoando pelo jardim úmido de Forks.

E eu, observando a fisionomia dele se iluminar com aquela diversão real, deixei que um sorriso genuíno e aquecido desenhasse em meus lábios pálidos.

Porque talvez o Gregory tivesse de fato partido para o além das infiltrações botânicas e deixado um vazio acústico na cozinha... mas tudo bem. No fim das contas, a troca tinha sido justa.

Agora eu tinha um amigo de verdade, que tem a capacidade de responder às minhas provocações e que não sumiria com uma simples demolição de alvenaria.



Na manhã seguinte, eu estava deitada de cabeça para baixo no sofá da sala.

Não porque fosse confortável. Fantasmas não tinham exatamente problemas de circulação ou refluxo. Eu estava naquela posição porque, depois de décadas existindo nas mesmas coordenadas geográficas, eventualmente você esgota as opções convencionais e começa a experimentar formas excessivamente criativas de combater o tédio.

Edward estava sentado na poltrona próxima. Lendo. Obviamente. Se algum arqueólogo do futuro encontrasse aquela casa abandonada daqui a mil anos, provavelmente concluiria que Edward Cullen era uma espécie rara de vampiro cuja dieta consistia exclusivamente em celulose e livros.

— Você já leu esse?

— Sim.

— E esse?

— Sim.

— E esse?

— Sim.

— Você já considerou desenvolver um hobby?

— Ler é um hobby.

— Não quando você faz isso há cem anos.

Edward virou uma página com um ruído seco.

— Você está criticando meu estilo de vida novamente.

— Estou tentando salvar você.

— De quê?

— Da monotonia.

— A fantasma que passou décadas conversando com uma goteira está me dando conselhos sobre monotonia.

— Gregory era interessante.

— Não.

— Você não o conheceu.

— Nem queria.

Abri a boca para defender com unhas e dentes a honra pós-póstuma de Gregory, mas fui interrompida. A porta da sala se abriu em um estalo suave.

Alice entrou. E, no mesmo décimo de segundo, eu soube que alguma coisa estava estruturalmente errada. Porque Alice portava aquela fisionomia. A expressão milimetricamente calculada de quem tinha acabado de descobrir algo bombástico. Ou estava prestes a descobrir. Ou simplesmente tinha tomado café expresso demais na escola. Era sempre difícil diferenciar as oscilações neurológicas dela.

Ela parou exatamente no meio da sala de estar, o corpo rígido. Olhou fixamente para Edward e franziu a testa. Edward percebeu a anomalia instantaneamente.

— Não.

Alice piscou as órbitas escuras, fingindo inocência.

— Eu nem falei nada.

— Mas vai falar.

— Talvez.

— Alice.

— Edward.

Eu me sentei no estofado, endireitando a postura e ficando instantaneamente interessada no desenrolar dos fatos. Porque aquele alinhamento de astros prometia entretenimento de alta qualidade para a minha manhã. E entretenimento era o recurso mais valioso da minha eternidade.

Alice aproximou-se lentamente, passo a passo.

— Tem alguma coisa acontecendo.

— Não.

— Tem sim.

— Não tem.

— Tem.

— Não.

— Tem.

Eu comecei a esboçar um sorriso largo, dando cambalhotas mentais. Aquilo era simplesmente maravilhoso.

— Alice.

— Você está estranho.

— Eu não estou estranho.

— Está.

— Não.

— Está.

Edward fechou o livro com um clique abafado de papel. Um sinal biológico claro de que o seu verniz de paciência imortal estava sofrendo rachaduras severas. Eu estava adorando cada milímetro daquele colapso.

Alice cruzou os braços com firmeza.

— Tive uma visão.

Edward congelou a postura no mesmo instante. Só por um breve segundo, um espasmo imperceptível para olhos humanos normais. Mas eu vi com precisão cirúrgica. E, infelizmente para o orgulho dele, Alice também viu.

— Aha!

— Alice...

— Eu sabia.

— Você não sabe de nada.

— Sei sim.

— Não sabe.

— Vi você conversando sozinho.

O meu queixo virtual quase despencou no tapete de tanta surpresa. Então, a minha essência capitulou e eu comecei a rir. Não apenas rir. Gargalhar. Daquele jeito totalmente descontrolado, histérico e sem oxigênio, dobrando o corpo no ar. Porque aquilo era a perfeição em formato de roteiro doméstico. Absolutamente perfeito.

Edward lançou um olhar mortal e cortante exatamente na minha direção. O que, logicamente, só serviu para piorar a minha crise de riso.

— Conversando sozinho? — repeti entre as gargalhadas, apontando para a cara dele.

Alice obviamente não portava a capacidade de sintonizar a minha frequência acústica, mas Edward ouviu perfeitamente o deboche. E sua fisionomia indicava que ele alimentava um desejo genuíno de me arremessar através da vidraça da janela.

— Eu não estava conversando sozinho — respondeu ele, forçando a voz mais casual do seu banco de dados.

— Estava sim.

— Não estava.

— Edward, eu literalmente vi.

— Visões podem estar erradas.

— Não quando são tão específicas.

Eu já estava quase escorregando do sofá de tanto rir no vácuo. Alice continuou o interrogatório sem piedade:

— Você estava falando.

— Sim.

— Com alguém.

— Não.

— Então estava falando sozinho.

— Eu estava pensando em voz alta.

— De novo?

— Sim.

— Você nunca faz isso.

— Comecei recentemente.

— Por quê?

— Não sei.

— Edward.

— Alice.

— Você está bem?

Um silêncio denso e desconfortável se instalou no cômodo. Edward manteve os olhos cravados na irmã.

— Estou perfeitamente bem.

— Tem certeza?

— Sim.

— Absoluta?

— Sim.

— Porque normalmente pessoas que conversam sozinhas...

— Alice.

— Estou só perguntando.

— Estou bem.

— Certo.

— Certo.

— Porque parece preocupante.

— Não é preocupante.

— Parece.

Eu já estava chorando de rir no plano espiritual. Literalmente. Ou pelo menos produzindo o equivalente térmico e vibracional disso nas almofadas.

Alice sustentou o foco de suas órbitas escuras no irmão por mais alguns segundos de pura estática. Claramente desconfiada. Muito desconfiada das capacidades mentais do telepata do clã. Então, soltou um longo suspiro condescendente.

— Tudo bem.

— Obrigado.

— Mas vou continuar observando você.

Edward fechou os olhos de forma resignada, os ombros de mármore caindo de leve.

— Claro que vai.

— Porque alguma coisa está acontecendo.

— Não está.

— Está sim.

— Não.

— Está.

— Alice.

Por fim, a fada girou sobre os calcanhares e saiu da sala de estar com passos leves. Mas não antes de lançar mais um olhar semicerrado e repleto de suspeitas biológicas para o irmão.

Assim que a silhueta dela desapareceu completamente pela curva do corredor, o silêncio preencheu os cômodos. Edward permaneceu totalmente imóvel na poltrona. Eu mantive a rigidez por aproximadamente dois segundos inteiros. Então, a minha barreira de contenção ruiu e eu explodi:

— ELA ACHA QUE VOCÊ ESTÁ FICANDO MALUCO!

Edward deixou a cabeça de mármore cair para trás contra o encosto, derrotado.

— Eu sei.

— "Tive uma visão de você conversando com ninguém." — repeti em tom teatral, imitando os trejeitos de Alice.

— Bella.

— Isso foi, com uma margem de vantagem assustadora, a melhor coisa que aconteceu nesta propriedade esta semana!

— Bella, chega.

— Ela está genuinamente convicta de que você perdeu a sanidade mental, Edward!

— Bella.

— O vampiro telepata de elite está sendo ativamente investigado pela irmã vidente por insanidade doméstica! — dei uma cambalhota flutuante no ar, batendo palmas virtuais. — Isso não é um problema, isso é pura poesia clássica!

Edward apertou as pálpebras, concentrando cada fibra do seu ser para parecer profundamente irritado com as minhas provocações. Mas havia um detalhe técnico na biologia dele que o traiu de forma humilhante. O canto de seus lábios perfeitos estava sofrendo um leve tremor involuntário.

— Você está sorrindo, seu esnobe — apontei, pairando bem na frente do rosto dele.

— Não estou.

— Está sim.

— Não.

— Está.

— Não.

— Está!

— Bella.

— Edward.

— Eu odeio você — ele murmurou, a voz aveludada carregada de uma ironia resignada.

— Não, você não odeia. — Estiquei o braço e cutuquei o ar a milímetros do peito dele, exibindo o meu sorriso mais largo e vitorioso de orelha a orelha. — Você simplesmente odeia o fato matemático de que eu estou coberta de razão.

E o argumento final o fez rir de peito aberto. O que, obviamente, dentro de qualquer critério de avaliação da nossa convivência, significava que eu tinha conquistado a vitória mais absoluta daquela manhã.

Na manhã seguinte, o universo resolveu pregar uma peça em todo mundo: estava fazendo sol em Forks.

O que, na minha opinião, deveria ser considerado um evento apocalíptico. O céu estava limpo, a floresta brilhava de um jeito quase agressivo e os Cullen, obviamente, foram forçados a ficar em casa para não saírem por aí reluzindo como diamantes e assustando os humanos.

Para mim, aquilo era perfeito. Mais vampiros confinados significava mais potencial para o caos. No entanto, o meu parceiro oficial de conversas tinha se refugiado no segundo andar.

Flutuei através da parede e apareci no quarto de Edward. Ele estava deitado na cama, com os braços cruzados atrás da cabeça, e a televisão estava ligada. Mas quem estava realmente assistindo — e ocupando o espaço flutuante logo acima dele — era eu.

— Eu ainda não consigo entender a física desse programa — anunciei, apontando para a tela onde passava um drama médico adolescente. — O coração do paciente parou. Por que eles estão debatendo sobre quem vai herdar o apartamento dele em vez de usar o desfibrilador?

Edward não tirou os olhos do teto, mas o canto de sua boca se moveu.

— É uma técnica dramática, Bella. Para construir tensão.

— É uma técnica para cometer homicídio culposo, isso sim. Se o Carlisle fizesse isso no hospital, ele perderia a licença em cinco minutos.

— Provavelmente.

— E outra coisa — continuei, mudando de posição no ar para ficar de bruços, pairando bem em cima dele. — A médica principal acabou de fazer uma cirurgia cerebral usando um rabo de cavalo frouxo e nenhuma touca. Se um fio de cabelo cair ali dentro, o homem acorda falando francês. É anti-higiênico.

Edward soltou uma risada curta, aquela risada abafada que ele usava quando tentava manter a pose de estátua sofisticada.

— Você é muito crítica para alguém que passa as tardes assistindo a poeira acumular na janela.

— Eu sou uma espectadora consciente, Edward. Exijo realismo da minha ficção.

Ficamos em silêncio por alguns minutos enquanto a cena mudava para um triângulo amoroso terrivelmente clichê entre os estagiários do hospital. Eu estreitei os olhos, analisando a tela com profunda desconfiança espiritual.

— Ele vai trair ela.

— Como você sabe? — perguntou Edward, finalmente desviando o olhar do teto para focar em mim.

— Olhe para o cabelo dele. É liso demais. Homens com esse corte de cabelo sempre tomam decisões questionáveis em séries de TV. É uma lei universal. Quase tão confiável quanto o Gregory.

— Por favor, não traga a goteira de volta para a conversa.

— Só estou dizendo que o Gregory tinha mais consistência moral do que esse personagem.

Edward balançou a cabeça, mas o sorriso dele era real.

Era estranho e fascinante. Lá fora, a casa estava vazia. A família havia saído para caçar. Eles estavam todos longe daqui, a metros de distância, completamente alheios ao fato de que o telepata da família estava dividindo o quarto com uma adolescente morta e debatendo a qualidade de um roteiro de televisão.

Inclinei-me um pouco mais para a frente, apontando para a TV de novo.

— Viu? O que eu disse! Ele acabou de dar um olhar suspeito para a outra enfermeira. Eu sou um gênio da dedução.

— Você é impossível, Bella.

— Eu sou o seu único entretenimento legítimo em um dia de sol, Cullen. Aceite que dói menos.

Edward riu de verdade dessa vez, soltando os braços e relaxando contra o travesseiro. E, enquanto a chuva de raios de sol batia contra o vidro do quarto, eu percebi que a eternidade, com a programação certa e o vampiro certo para me ouvir reclamar, não era tão insuportável assim.

Infelizmente, a paz durou aproximadamente quinze minutos. O que, considerando que Emmett Cullen existia nas mesmas coordenadas geográficas, já configurava um recorde histórico absolutamente impressionante.

Eu estava ocupada explicando detalhadamente para Edward por que o médico protagonista da série claramente escondia um passado psicopata sombrio, baseando toda a minha tese exclusivamente no formato arqueado das sobrancelhas dele, quando um borrão pequeno e hiperativo invadiu o quarto sem a menor decência de bater.

Alice. Naturalmente.

— Edward!

O impacto da porta batendo contra a parede de alvenaria ecoou pelo cômodo. Edward sequer alterou a postura relaxada sobre o travesseiro.

— Sim?

— Você está estranho.

Eu me joguei para trás no ar, cruzando os braços e apontando para as feições dela.

— Ela voltou para o segundo round. Maravilhoso.

Edward fechou os olhos de forma resignada, os ombros caindo de leve.

— Alice.

— Estou falando sério.

Ela deu mais alguns passos elegantes para dentro do quarto e estancou bem no centro geométrico do tapete. Observei com atenção investigativa e fascinada enquanto as órbitas escuras dela percorriam minuciosamente o ambiente tridimensional. Por um breve fragmento de segundo, experimentei a nítida e desconfortável sensação térmica de que ela estava ativamente procurando por alguma anomalia física. Ou por alguém.

Aquilo acendeu um alerta de sobrevivência na minha mente espectral, deixando-me em estado de prontidão.

— Você anda excessivamente distraído ultimamente — continuou ela, semicerrando os olhos.

— Não ando.

— Anda sim.

— Não.

— Anda.

Deslizei suavemente pelo ar, encurtando a distância até ficar posicionada bem ao lado de seus ombros de grife. Estiquei a mão invisível e executei um aceno vigoroso e espalhafatoso bem na frente do rosto dela. Nenhuma reação biológica.

Soltei um longo suspiro, simulando uma perda de oxigênio. Ainda totalmente invisível para a vidente. Ótimo dado para os meus arquivos.

— Você está apenas imaginando coisas, Alice — Edward rebateu, mantendo o tom o mais casual possível.

— Não estou.

— Está.

Eu alternava o foco do meu olhar de um para o outro com pura rapidez mecânica, sentindo-me como se estivesse na primeira fileira assistindo a uma partida de tênis de alta intensidade.

— Vocês executam essa coreografia de debate com frequência?

— Fazemos o quê? — perguntou Edward, a resposta escapando no automático antes que ele pudesse conter a própria língua fantasmagórica.

— Isso.

Alice estreitou as órbitas com uma precisão cirúrgica, travando o foco na rigidez que atingiu as feições dele.

— Com quem exatamente você está falando agora, Edward?

O meu sorriso travesso e vitorioso aumentou no mesmo milissegundo. Edward também congelou a postura contra o estofado da cama. Foi apenas por uma fração infinitesimal de segundo, um espasmo invisível para humanos comuns, mas ele congelou.

Alice esticou o braço de forma triunfal, apontando o indicador contra o peito dele.

— AHA!

— O quê? — ele tentou fingir neutralidade, falhando miseravelmente.

— Você acabou de fazer aquela expressão.

— Que expressão, Alice?

— A cara.

— Não existe nenhuma cara no meu repertório.

— Existe sim.

Eu já estava quase sufocando de tanto rir em silêncio no vácuo, dobrando o corpo no ar para gerenciar a piada.

— Eu insisto: essa garota portadora de radar é assustadora — falei.

Alice piscou as pálpebras, o tempo sofrendo uma dilatação linear no quarto. Silêncio absoluto e sepulcral.

Então, a vidente relaxou a postura e franziu as sobrancelhas em um vinco de incompreensão.

— Estranho...

— O quê? — perguntou Edward, a voz saindo um pouco mais tensa do que o seu padrão aristocrático.

— Achei que tivesse escutado algum sussurro ou ruído no ambiente.

Soltei o ar que o meu peito nem sequer carecia de respirar por motivos biológicos. Edward claramente executou o exato equivalente mecânico desse alívio, de forma estritamente mental.

Alice continuou encarando o vácuo do quarto por mais alguns segundos de pura análise comportamental. Depois, soltou um suspiro condescendente, dando de ombros.

— Enfim.

Ela deu mais alguns passos em direção ao aparelho de televisão, fixando os olhos na tela reluzente. Suas feições sofreram uma careta de profundo desgosto estético.

— Como você consegue gastar o tempo imortal de você assistindo a essa produção barata?

— Muito obrigada pela validação! — exclamei de imediato, flutuando perto do lustre de braços abertos.

Alice esticou o indicador na direção da TV, lançando um spoiler devastador sem qualquer aviso prévio:

— Esse médico de caráter duvidoso vai trair a namorada dele exatamente no curso do episódio sete.

Eu arregalei os olhos espectrais de boca aberta, totalmente em choque.

— EU SABIA!

Edward abandonou a pose de esnobe e começou a rir de verdade. Alice ficou olhando para ele, estática e confusa. Muito confusa.

— O que foi?

— Nada.

— Você riu.

— Sim.

— Do quê?

— De nada.

— Edward.

— Alice.

Ela cruzou os braços, batendo o pé no chão.

— Tem alguma coisa acontecendo.

— Não tem.

— Tem sim.

— Não.

— Tem.

Eu estava me divertindo tanto assistindo ao desespero silencioso do Edward que nem percebi o perigo real e de grande porte se aproximando pelo corredor. O perigo atendia pelo nome de Emmett Cullen.

A porta se abriu novamente. Desta vez, com uma violência física que quase arrancou o batente do lugar.

— EDWARD!

Emmett entrou no quarto com o tato e a sutileza de uma locomotiva de carga desgovernada.

— Eu descobri uma coisa.

— Isso me preocupa — resmungou Edward, já prevendo o colapso estrutural.

— Eu acho que o fantasma voltou.

O quarto ficou completamente silencioso em um milissegundo. Eu parei de rir no ar. Edward congelou na cama. Alice piscou, o radar de fada ativado.

— O quê? — perguntou ela, virando-se para o gigante.

— O fantasma.

— Emmett... — Edward tentou intervir com sua melhor voz de desdém.

— Eu estou falando sério.

— Você sempre está falando sério.

— Dessa vez mais sério.

Alice soltou um longo suspiro de conformismo familiar. Rosalie apareceu na porta logo atrás dele, cruzando os braços e exibindo a expressão perfeitamente cansada de alguém que já ouvira aquela exata conversa um milhão de vezes ao longo da semana.

— Emmett encontrou uma colher caída na cozinha — informou Rosalie, com a voz pingando tédio.

— Ela estava no chão!

— Porque colheres caem.

— Não daquele jeito.

— Qual jeito?

— De um jeito fantasmagórico.

Eu simplesmente me dobrei de tanto rir, flutuando em círculos perto do teto e chutando o ar de tanta satisfação. Edward estava visivelmente travando uma batalha perdida e humilhante contra os próprios músculos faciais para manter a expressão neutra. Alice, claro, percebeu a oscilação biológica imediatamente.

— Você está rindo.

— Não estou.

— Está sim.

— Não.

— Está.

Emmett deu um passo à frente e apontou para o irmão de forma triunfal.

— Viu?!

— O quê?

— Ele também acredita.

— Eu não acredito.

— Você está rindo.

— Porque você é ridículo.

— O fantasma é real.

— Claro.

— Eu vi ela.

— Claro.

— Ela tinha um pijama antigo.

— Claro.

— E parecia muito irritada.

O meu sorriso de pura travessura desapareceu do meu rosto de dezenove anos de forma instantânea. Cruzei os braços no ar, bufando com desdém.

— Ei! Eu sou uma assombração extremamente charmosa, seu brutamontes.

Emmett ignorou minha reclamação invisível e apontou dramaticamente para o teto de gesso, bem na minha direção.

— Eu sinto quando ela está por perto.

— Você não sente nada — disse Rosalie, revirando as órbitas perfeitas.

— Sinto sim.

— Não sente.

— Sinto.

Edward abaixou a cabeça, usando os cabelos acobreados para tentar esconder o sorriso largo que insistia em quebrar sua pose de mármore. Eu deslizei suavemente pelo vácuo do quarto, aproximei-me dele e cruzei os braços, pairando bem ao lado do seu ombro rígido.

— Sabe de uma coisa? — comentei, observando a cena.

— O quê? — murmurou ele, a voz saindo em um sopro nítido, quase sem mexer os lábios imortais.

— Eu gosto dele.

— Do Emmett? — Edward questionou mentalmente, a sobrancelha dando um leve espasmo.

— Sim.

— Por quê?

Olhei para o vampiro de dois metros de altura que continuava gesticulando e discutindo desesperadamente com as irmãs para defender a integridade da minha existência civil. E deixei que um sorriso genuíno, suave e aquecido desenhasse em meus lábios pálidos.

— Porque ele é o único nesta casa que acredita em mim sem precisar me ver.

Por algum motivo que desafiava a física e a biologia dos mortos-vivos, aquela minha constatação poética fez Edward abandonar o escudo de esnobe e sorrir de verdade também.