Como Ser Um Fantasma (Sem Querer)
35 Capítulo 35
Voltar para Chicago parecia uma ideia simples. Pelo menos na minha cabeça, onde as coisas costumam funcionar em um cenário perfeito que raramente se traduz na vida real.
Na prática, porém, a ideia significava colocar Edward Cullen — uma criatura com sentidos infinitamente apurados, instintos predatórios e a capacidade de ouvir cada pensamento num raio de quilômetros — dentro de uma lata de metal voadora, prensado a dez mil metros de altitude e cercado por duas centenas de humanos.
O que, pensando bem, talvez não fosse a decisão mais inteligente que eu já tomei. E olha que eu mantinha uma lista consideravelmente extensa de decisões questionáveis.
Morrer jovem? Provavelmente ocupava o topo.
Voltar à vida vestindo o corpo e a identidade de outra pessoa? Também não ficava muito atrás.
Tentar convencer uma entidade cósmica de que a minha teimosia merecia uma exceção às leis do universo? Definitivamente no pódio das três primeiras.
Mas levar meu namorado vampiro para cruzar o país e conhecer minha família humana de verdade parecia... normal. Ou, pelo menos, o mais próximo de "normalidade" que a minha existência bizarra conseguiria alcançar.
Estávamos sentados lado a lado na classe executiva. Edward mantinha uma postura impecavelmente ereta e uma expressão minuciosamente controlada no rosto, mas eu o conhecia há duas vidas inteiras. Eu sabia ler cada milímetro daquela pele de mármore.
O maxilar dele estava levemente travado. As veias dos nós dos dedos sobressaíam enquanto ele segurava o apoio de braço da poltrona com uma força calculada, aplicando exatamente a pressão necessária para não esmigalhar o plástico barato.
Ele estava ouvindo pensamentos demais. Uma enxurrada ininterrupta, um ruído branco e caótico de centenas de vozes internas que ele simplesmente não conseguia desligar. E, pelo visto, os passageiros ao nosso redor estavam fazendo questão de transformar aquele voo em um verdadeiro festival de informações desnecessárias que ninguém pediu para saber.
Pensei por um segundo em perguntar o que exatamente ele estava ouvindo, mas recuei. Eu já sabia que provavelmente não seria nada agradável ou poético. Afinal, humanos trancados em aviões tinham uma habilidade impressionante de gerar os pensamentos mais aleatórios e banais do planeta.
Provavelmente metade das pessoas ali estava tendo uma crise silenciosa de ansiedade por medo de turbulência. A outra metade estava calculando o tempo exato para o serviço de bordo passar e servir comida morna. E, como sempre, existia aquele um por cento pensando em algo completamente estranho e fora do lugar.
A mente humana era, sem dúvida, um lugar assustador e profundamente caótico.
Virei o corpo levemente na poltrona e olhei para ele.
— Você está bem?
Edward demorou alguns segundos longos para responder, mantendo o olhar fixo no banco da frente.
— Estou.
Mentira. Uma mentira absurdamente ruim. O que não deixava de ser irônico, porque Edward Cullen era simplesmente horroroso na arte de mentir para mim.
— Você sabe que eu consigo perceber perfeitamente quando você está fingindo, não sabe? — perguntei, inclinando a cabeça.
Ele finalmente virou o rosto na minha direção, os olhos de topázio me encarando.
— Você sempre foi terrivelmente observadora, Bella.
Sorri de canto.
— Eu prefiro chamar de talentosa. É um dom.
Ele soltou um suspiro baixo e ruidoso, relaxando um milímetro do ombro.
— Os pensamentos por aqui estão um pouco... — Ele buscou a palavra exata na mente. — Intensos.
Assenti, compreendendo o suplício.
— Então fica claro que você precisa de uma distração urgente.
Ele ergueu uma sobrancelha, um brilho de curiosidade cortando o cansaço do seu olhar.
— Uma distração?
— Sim — cruzei os braços, assumindo meu tom mais resoluto. — Algo forte o suficiente para arrancar a sua atenção do caos mental das pessoas ao redor.
Ele me avaliou com uma mistura de divertimento e desconfiança.
— E como exatamente você pretende fazer isso a dez mil metros de altura?
Eu sorri. Aquele sorriso torto e impulsivo que normalmente significava que eu estava prestes a fazer algo que Edward consideraria imprudente ou totalmente fora do protocolo de discrição.
— Eu tenho algumas ideias interessantes.
Antes que ele pudesse formular a próxima pergunta ou tentar me dissuadir com sua prudência centenária... eu me aproximei.
Reduzi a distância entre nossas poltronas e o beijei.
O beijo começou devagar, sem pressa. Não como uma tentativa desesperada ou dramática de fazer o mundo parar, mas como uma escolha deliberada. Como se, naquele pequeno espaço apertado entre duas poltronas de avião, sob a luz fraca da cabine, todo o resto da humanidade e do ruído ao redor simplesmente pudesse evaporar e deixar de existir.
Edward ficou imóvel por uma fração de segundo, pego de surpresa pela minha ousadia. A surpresa pura atravessou os traços do seu rosto.
Então, ele cedeu. Relaxou por completo.
A mão fria dele procurou a minha no meu colo, entrelaçando nossos dedos num aperto firme e acolhedor. Como se ele ainda precisasse, a cada minuto, de uma prova física e palpável de que eu estava ali ao seu lado. De que eu era de carne, osso, ar e realidade.
Eu sorri contra os seus lábios, sentindo o calor do momento. Porque mesmo depois de tudo o que passamos, mesmo depois de dezoito longos anos separados pela morte e pelo tempo... Edward ainda carregava aquele pequeno e secreto pavor de me ver sumir. E eu, por minha vez, ainda mantinha o hábito inabalável de fazer absolutamente tudo ao meu alcance para fazê-lo esquecer esse medo.
A outra mão dele subiu com lentidão e tocou meu rosto, o polegar acariciando minha bochecha com um cuidado extremo. Era uma delicadeza quase absurda e poética para uma criatura que, com um único movimento, poderia partir uma árvore ao meio sem fazer esforço algum.
Era fascinante e estranho pensar que aquele mesmo ser ali, entregue ao meu toque, era uma das criaturas mais temidas e perigosas do mundo sobrenatural. Porque comigo... comigo ele sempre parecia ser apenas o Edward. O meu Edward.
O beijo se aprofundou por alguns instantes abençoados, carregando nas entrelinhas tudo aquilo que não precisávamos gastar palavras para dizer. A saudade acumulada de anos. O alívio de estarmos juntos. A promessa silenciosa, cravada no peito de ambos, de que desta vez a história seria infinitamente diferente.
Quando nos afastamos devagar, apenas o suficiente para respirar, ele continuou me encarando fixamente.
E, pela primeira vez desde que pisamos naquele aeroporto e entramos na aeronave... a expressão no rosto dele estava completamente tranquila. A tensão no maxilar tinha desaparecido. O olhar de dor e ruído deu lugar a uma seriedade suave.
Sorri, vitoriosa.
— Funcionou?
Ele demorou um segundo para absorver a pergunta, o olhar cravado no meu.
— Sim — a voz dele saiu como veludo. — Funcionou perfeitamente.
Inclinei a cabeça, fingindo modéstia.
— Ótimo.
Fiz uma pequena pausa dramática para concluir meu raciocínio:
— Então podemos considerar, oficialmente e sem margem para dúvidas, que a minha presença é infinitamente melhor do que qualquer técnica de meditação guiada.
Um pequeno e inconfundível sorriso torto surgiu no rosto dele, iluminando seus traços de mármore.
— Você é absolutamente impossível, Bella.
— E você adora exatamente isso em mim.
Ele não respondeu em palavras. Mas a curva firme dos seus lábios e o aperto carinhoso nos meus dedos responderam por ele com absoluta clareza.
Ajeitei-me na poltrona e encostei a cabeça no ombro frio e sólido dele, fechando os olhos enquanto o zumbido dos motores do avião preenchia o ambiente.
Pela primeira vez em muito tempo... eu não estava fugindo de nada. Eu não era um fantasma preso ao passado, nem uma garota perdida tentando provar sua existência. Eu estava indo para casa, para a minha vida.
E, desta vez... Edward estava exatamente ao meu lado.
Chegar em Chicago à noite parecia certo.
Talvez porque aquela cidade sempre tivesse sido o lugar onde minha segunda vida começou. Ou talvez porque eu estivesse tentando fingir, com todas as minhas forças, que aquilo era apenas uma viagem absolutamente normal.
Uma pessoa normal visitando a família. Com o namorado do lado. Uma coisa completamente comum.
Claro.
Porque nada gritava "pessoa comum" como viajar de carro com um vampiro centenário que precisava se esforçar para fingir que era humano, enquanto eu tentava convencer minha própria consciência de que aquela situação inteira não era absurdamente insana.
Olhei pela janela do passageiro enquanto Edward dirigia com uma precisão pelas ruas conhecidas da cidade. Ele estava silencioso. Mas, desta vez, eu sabia exatamente o motivo.
Não era tristeza. Não era distância. Eram as mentes ao redor.
E, provavelmente, uma metrópole como Chicago era o pesadelo definitivo para alguém com o dom dele.
Milhares de vozes. Milhares de pensamentos se sobrepondo. Milhares de humanos preocupados com coisas absurdamente aleatórias.
Eu não precisava ler mentes para adivinhar a enxurrada. Alguém na calçada devia estar pensando no que comer no jantar. Alguém no carro ao lado estava desesperado com o prazo do trabalho. E alguém, com certeza, estava revivendo uma conversa constrangedora de dez anos atrás em pleno sinal vermelho, porque, aparentemente, o cérebro humano tinha um prazer sádico em torturar seus próprios donos.
Virei o rosto para o Edward.
— Você está bem?
Ele soltou um suspiro curto, mantendo os olhos na pista.
— Estou.
Levantei uma sobrancelha, encarando-o.
— Essa resposta seria consideravelmente mais convincente se você não tivesse feito exatamente a mesma expressão de quando está em sofrimento físico.
Ele me olhou por um breve segundo.
— Estou tentando ignorar o ruído.
— Quer que eu distraia você?
Um pequeno e inconfundível sorriso torto apareceu no rosto dele.
— Como exatamente?
Eu sorri de canto.
— Você realmente precisa perguntar?
Ele soltou uma risada baixa, aveludada. E, sinceramente? Eu poderia viver cem anos e ainda achar a coisa mais incrível do mundo ouvir Edward Cullen rir. Ainda mais porque, depois de tudo o que passamos, eu sabia o quanto aquele som quase tinha desaparecido do universo.
Quando o carro finalmente encostou em frente à minha casa, Edward desligou o motor. A penumbra da rua iluminava os traços dele. Ele olhou para a porta de entrada e depois virou para mim.
— Você avisou sua família que estávamos vindo?
Eu sorri. Aquele meu sorriso clássico. O sorriso que ele já conhecia de cor e que significava uma única coisa: problema à vista.
— Não.
Ele virou o rosto lentamente na minha direção, franzindo a testa.
— Não?
— É uma surpresa.
Ele ficou alguns segundos em silêncio absoluto, absorvendo a informação.
— Bella...
— O quê?
— Você realmente acha uma boa ideia aparecer na porta da sua família depois de meses sumida, sem mandar uma única mensagem antes?
Inclinei a cabeça, pensativa.
— Tecnicamente, eu já fiz algo parecido no passado.
Ele me encarou, impassível.
— Isso não ajuda em nada o seu argumento.
— Eu sei — sorri. — Mas continua sendo uma verdade histórica.
Ele suspirou, balançando a cabeça com resignação.
Abri a porta e saí do carro antes que ele pudesse começar um dos seus discursos detalhados sobre planejamento, segurança e, muito provavelmente, sobre como eu deveria ter elaborado um protocolo de emergência para uma simples visita familiar.
Edward tinha melhorado muito nos últimos tempos, mas ainda era... bem, o Edward.
Caminhamos lado a lado pelo gramado até a varanda. Meu coração humano começou a martelar contra as costelas num ritmo desordenado.
Era engraçado, se você parasse para pensar. Eu já tinha enfrentado vampiros recém-criados. Tinha barganhado com uma entidade cósmica que controlava a vida e a morte. Tinha voltado do além para o mundo dos vivos. Mas tocar uma campainha e encarar a minha própria família? Aquilo me deixava genuinamente aterrorizada.
Talvez porque eles fossem reais. Porque eles eram a minha vida de agora.
Estiquei o dedo e apertei o botão da campainha.
Alguns segundos agonizantes se passaram... e a porta se abriu.
E eu quase rachei de rir no mesmo instante. Porque, é claro, tinha que ser ele.
Ethan. Meu irmãozinho.
Que, aliás, não era mais tão "zinho" assim. Agora ele era um adolescente de treze anos, exibindo o início de um estirão. E, pelo olhar que me deu... um adolescente de treze anos absurdamente convencido.
Ele ficou parado no vão da porta. Completamente imóvel. Piscou uma vez. Duas.
— Bella?
Sorri, sentindo o peito esquentar.
— Olá, pestinha.
A expressão no rosto dele mudou por uma fração de segundo. Parecia que ele ia abrir um sorriso enorme e me abraçar. Mas aí ele se lembrou da regra de ouro: adolescentes têm uma reputação de "cara durão" a manter.
Ele murchou a surpresa e vestiu a melhor máscara de indiferença que conseguiu fabricar. O que era comicamente adorável, porque eu me lembrava perfeitamente do garotinho que chorava escandalosamente quando eu saía do quarto. Agora, ali estava ele, tentando parecer um jovem misterioso e inabalável.
Quase fofo. Quase.
— Você voltou — ele disse, com a voz mais plana que conseguiu forçar. — Uau.
Coloquei a mão espalmada no peito, fingindo um choque dramático:
— Essa foi, sem dúvida, a recepção mais emocionante e calorosa que já recebi na minha existência.
Ele deu de ombros, encostando no batente da porta.
— Eu só constatei um fato.
— Claro que sim — abri os braços. — E eu só vou fazer isso aqui.
Antes que o garoto tivesse qualquer chance de esquivar ou fugir... eu me avancei e o puxei para um abraço apertado.
Ele ficou completamente rígido nos meus braços, como se eu estivesse cometendo uma violação gravíssima do protocolo social adolescente.
— Bella... me solta...
— Senti sua falta também, pirralho.
— Eu não disse que senti a sua!
— Você não precisava dizer.
Ele tentou se afastar, mas demorou uns bons segundos para empurrar meus braços. O tempo suficiente para entregar o jogo. Eu sorri. Porque, no fundo, debaixo de toda aquela marra de treze anos, ele ainda era o meu irmãozinho. Mesmo que agora tentasse agir como um mini adulto irritante.
Quando finalmente se soltou, ele ajeitou a camisa e limpou a garganta, tentando recuperar a dignidade perdida.
— Então...
Ele olhou para o homem parado logo atrás de mim. Depois olhou para mim. Depois voltou a escanear o Edward de cima a baixo. A expressão de indiferença dele caiu por terra, dando lugar a uma desconfiança imediata.
— Quem é esse aí?
Sorri, dando um passo para o lado:
— Esse é o Edward. — Fiz uma pausa dramática. — Meu namorado.
A cara do Ethan caiu no mesmo segundo. Foi uma transição tão trágica que quase virou piada.
— Namorado?
— Sim.
Ethan estreitou os olhos, encarando Edward como se estivesse diante do suspeito principal de um crime federal. O que era terrivelmente injusto, considerando que Edward era, disparado, a pessoa mais impecavelmente educada e polida que ele conheceria na vida.
— Ele parece meio estranho — Ethan soltou, sem filtro algum.
Edward apenas ergueu uma sobrancelha, mantendo a postura impecável. Eu mordi o lábio inferior com força para não dar uma gargalhada na cara do meu irmão.
— Ethan! Que modos são esses?
— O quê? — ele cruzou os braços, estufando o peito. — Tô só dizendo a verdade.
Olhou novamente para Edward, analisando a pele pálida e a postura de estátua.
— Ele é sério demais. Parece esquisito.
Edward deu um passo à frente e respondeu com a voz calma e aveludada de sempre:
— Você acabou de me conhecer, Ethan.
— Exatamente — Ethan apontou o dedo para ele, vitorioso. — E em menos de dez segundos você já tá com cara de quem fala frases profundas em latim e lê livros velhos mofados no canto da sala.
Olhei para o Edward. Depois olhei para o Ethan.
— Bom... — cocei o queixo, fingindo ponderar. — Essa descrição foi assustadoramente precisa.
Edward me lançou um olhar mortal, porém divertido.
— Obrigado pelo apoio incondicional, Bella.
Sorri, piscando para ele:
— Estou apenas tentando manter a imparcialidade do recinto.
— Você nunca foi imparcial na sua vida.
— Verdade absoluta.
Passei pelo meu irmão e entrei na casa, sentindo o cheiro familiar do lar.
Lá fora, na varanda, Ethan continuava encarando Edward com a cabeça erguida, e Edward mantinha o olhar calmo cravado nele. Era uma disputa de espaço silenciosa e hilária.
E, pelo visto... eu tinha acabado de colocar sob o mesmo teto dois seres absurdamente teimosos: um vampiro de mais de cem anos de idade e um adolescente de treze anos cheio de marra.
Perfeito. A minha família estava oficialmente reunida. E eu já sabia, com cem por cento de certeza, que aquele fim de semana seria um caos memorável.
O que era terrivelmente engraçado. Porque Ethan ainda era a exata mesma criança que chorava escandalosamente quando eu demorava mais de cinco minutos para voltar do mercado da esquina. Agora, ali estava ele, ostentando a postura rígida de quem pagava as contas e sabia de todas as coisas do mundo.
Spoiler: ele não sabia de nada.
— Então... — Ethan cruzou os braços sobre o peito, estufando os ombros. — Edward.
Ele pronunciou o nome devagar, como se estivesse testando o peso do som na boca, tentando descobrir um segredo oculto apenas pela pronúncia.
— Sim — Edward respondeu com uma polidez impecável e serena.
O que, considerando que meu irmão estava nitidamente tentando intimidá-lo com um encarar de filme policial, era uma demonstração impressionante de paciência vinda de um predador imortal.
— Quantos anos você tem?
Silêncio absoluto.
Eu quase engasguei com a minha própria saliva.
— Ethan!
— O quê? — ele virou o rosto para mim, sem desmanchar a postura de detetive. — É uma pergunta perfeitamente normal.
Não. Não era. Definitivamente não era uma pergunta normal para se fazer a um vampiro na porta de casa.
Mas eu conhecia bem aquela expressão no rosto do meu irmão. Ele estava curioso, claro. E, pior — ou melhor — ainda... estava tentando, do seu jeito torto de treze anos, proteger a irmã mais velha. O que era irritantemente fofo.
— Tenho vinte e dois anos — Edward respondeu, sem piscar.
Uma mentira tecnicamente correta. Mais ou menos. Se você desconsiderasse o pequeno detalhe de um século de existência.
Ethan estreitou os olhos, escanando o rosto pálido e perfeito do Edward.
— Vinte e dois?
— Sim.
— Que específico.
Precisei virar o rosto rapidamente para a parede para esconder o sorriso que ameaçava explodir. Porque o meu irmãozinho tinha acabado de questionar a precisão de um vampiro imortal sobre a própria idade. Coragem pura ou total falta de noção? Talvez uma combinação perigosa das duas coisas.
— Ethan — falei, recuperando o controle da voz. — Deixa ele entrar.
Ele deu um passo para o lado, abrindo espaço no corredor, mas sem tirar os olhos de cima do Edward por um milissegundo sequer. Um verdadeiro segurança de aeroporto em versão miniatura.
Entramos na sala. E, claro, meus pais apareceram logo em seguida, atraídos pelo barulho das vozes.
A reação deles foi completamente diferente da marra do Ethan.
Minha mãe parou no meio do caminho, os olhos arregalados. A mão voou para a boca e, por alguns segundos, ela simplesmente ficou congelada me encarando, como se precisasse processar e confirmar que eu era de carne e osso.
E então ela veio até mim. Sem hesitar, sem rodeios. Me envolveu num abraço apertado.
Dessa vez eu não fiz piada. Não consegui.
Porque aquele abraço era diferente de tudo. Era o abraço sufocante e morno de alguém que tinha passado meses seguidos esperando a filha voltar para casa.
— Você não avisou que vinha... — minha mãe murmurou contra o meu cabelo.
Sorri, apertando os braços ao redor dela.
— Essa era a ideia da surpresa.
Ela se afastou o suficiente para segurar meu rosto com as duas mãos, examinando cada centímetro.
— Você continua fazendo isso.
— Fazendo o quê?
— Aparecendo do nada e quase causando um ataque cardíaco na família inteira.
Pensei por alguns segundos, ajustando a expressão.
— Eu diria que é um talento especial.
Ela soltou uma risada fraca, enxugando o canto do olho. E aquele som... aquele som me lembrou com clareza de que algumas coisas nesta vida nunca mudavam.
Depois dos abraços emocionados e das primeiras dezenas de perguntas atropeladas, finalmente chegamos à parte inevitável da recepção: Edward.
Minha família inteira virou o foco para ele ao mesmo tempo. E eu quase senti pena. Quase.
Porque Edward Cullen, um vampiro que já tinha enfrentado perigos sobrenaturais e criaturas muito mais ameaçadoras do que uma sala cheia de humanos curiosos... estava nitidamente desconfortável.
Minha mãe abriu um sorriso acolhedor para ele.
— Então você é o Edward.
Ele assentiu com a cabeça, impecável.
— Sim, senhora.
— O namorado da Bella.
— Sim.
Ela olhou para mim. Depois olhou para ele. Depois voltou a fixar o olhar em mim. Aquele olhar clássico de mãe. O olhar silencioso que prometia: "vamos conversar muito sobre isso mais tarde". Eu conhecia aquela expressão. Infelizmente.
— Ele parece muito educado — minha mãe comentou, avaliando a postura dele.
Sorri.
— Ele é.
Ethan, jogado no canto do sofá, soltou um estalo ruidoso com a língua.
— Ele é estranho.
Todo mundo na sala olhou para ele no mesmo instante.
— O quê? — Ethan deu de ombros, sem se abalar. — Eu só estou dando minha opinião sincera.
Apontei o dedo na direção dele:
— Você tem treze anos.
— E daí?
— E daí que você não está exatamente em posição de avaliar a estranheza de ninguém.
Ele pareceu profundamente ofendido com a minha colocação:
— Eu sou uma pessoa perfeitamente normal!
Edward, ao meu lado, virou o rosto na direção do meu irmão e soltou, com a voz serena:
— Tenho certeza absoluta de que ele acredita nisso.
Eu virei o pescoço bem devagar para encarar o Edward.
Ele tinha acabado de fazer uma piada. Uma provocação pequena, irônica, mas genuína.
Meu rosto se abriu em choque e surpresa.
— Você está oficialmente implicando com o meu irmão?
Edward me olhou de canto de olho, ajeitando a postura:
— Ele começou.
Fiquei alguns segundos em silêncio, absorvendo a cena. Então, um sorriso enorme surgiu no meu rosto.
— Estou profundamente orgulhosa de você.
Ethan encarou nós dois, indignado com a aliança instantânea:
— Espera aí... vocês estão se juntando contra mim?
— Sim — respondemos juntos, em perfeito coro.
O que fez minha mãe soltar uma gargalhada alta na sala.
Mais tarde, depois de um jantar barulhento, Ethan continuou sua missão obstinada de arrancar qualquer informação comprometedora sobre o Edward. E Edward, por sua vez, continuava respondendo a cada pergunta com uma paciência quase irritante.
Era uma cena cômica de assistir. O meu irmão estava tentando desesperadamente encontrar alguma falha, algum motivo palpável para não gostar dele. Mas Edward era polido demais, calmo demais, impecável demais. E essa perfeição parecia irritar o Ethan ainda mais.
— Você gosta de esportes? — Ethan perguntou, apoiando os cotovelos na mesa.
— Sim — Edward respondeu.
— Quais?
Edward pensou por uma fração de segundo, ponderando o que responder sem revelar suas habilidades sobre-humanas.
— Vários.
Ethan estreitou os olhos, apontando o garfo:
— Essa foi claramente uma resposta evasiva de quem não quer responder.
Eu rachei de rir.
— Ethan...
— O quê?
— Você está literalmente interrogando o meu namorado?
Ele ficou sério de repente, a marra dando uma leve trégua.
— Talvez.
Cruzei os braços, encarando-o da minha cadeira.
— E por que você está fazendo isso, me explica?
Ele olhou para mim. E, desta vez, a resposta não veio com ironia ou provocação. Veio mais baixa, honesta e vulnerável:
— Porque você demorou tempo demais para voltar para casa.
Meu sorriso murchou na hora.
Ethan desviou o olhar para o prato, e a casca de garoto durão desmoronou por completo.
— E eu não quero que ninguém faça você ir embora de novo.
O silêncio caiu sobre a mesa.
Por um instante, ele não era o adolescente irritante de treze anos tentando parecer perigoso. Ele era apenas o meu irmãozinho. Aquele mesmo menino que chorava e me procurava quando o mundo parecia grande demais.
Eu me aproximei dele, puxando a cadeira para perto.
— Ethan...
Ele fingiu que não estava prestando atenção, encarando a mesa.
— Eu não vou embora de novo.
Ele deu de ombros, a voz embargada:
— Você já falou exatamente isso antes.
Meu coração apertou com tanta força no peito que quase doeu. Porque ele tinha razão. Eu tinha ido embora. Tinha morrido, sumido e deixado um vazio na vida dele, mesmo que sem querer.
Sentei ao lado dele e coloquei a mão sobre o ombro dele.
— Mas desta vez é diferente, eu juro.
Ele virou o rosto para me olhar.
— Como é que você sabe?
Sorri de canto, tentando aliviar o peso no ar:
— Porque agora eu tenho um homem absurdamente dramático me seguindo para todo canto.
Edward ergueu uma sobrancelha no mesmo instante.
— Dramático, Bella?
— Extremamente dramático.
Ethan olhou para o Edward. Depois olhou para mim. E então soltou uma risada baixa. Uma risada pequena, contida, mas cem por cento verdadeira.
E ali, vendo aquele sorriso no rosto do meu irmão, eu percebi que essa era a parte mais importante de toda a viagem.
Não se tratava de apresentar o Edward para a minha família, de tentar explicar as lacunas do meu passado ou de consertar magicamente o tempo que perdemos. Era apenas sobre estar ali, presente. No sofá da minha casa, com meu irmão implicando comigo, com a minha mãe sorrindo na cozinha e com o Edward ao meu lado.
Uma vida inteira e comum que eu achei que nunca mais teria a chance de viver.
E, sinceramente? Depois de tudo o que atravessei para chegar até aqui... eu pretendia aproveitar cada segundo. Mesmo que isso significasse ter que sobreviver a um adolescente de treze anos tentando, sem sucesso, assustar um vampiro centenário.
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