A casa finalmente ficou em silêncio.

Não aquele silêncio pesado e tenso das noites em que a incerteza me sufocava, mas um silêncio tranquilo, morno e familiar. O tipo exato de silêncio que só existe quando uma casa inteira finalmente desacelera e dorme depois de um dia cheio e barulhento.

Minha mãe tinha ido para a cama depois de me fazer prometer umas cinco vezes seguidas que eu não sumiria novamente no mapa sem dar notícias. Ethan, depois de passar horas inteiras tentando descobrir se Edward era um "suspeito de algum crime", finalmente tinha sido vencido pelo cansaço e ido para o quarto dele. Provavelmente ainda com a cabeça a mil, formulando uma nova lista de perguntas investigativas para o café da manhã. Porque, aparentemente, meu irmãozinho tinha transformado meu namorado no seu mais novo projeto de investigação secreta.

Eu estava deitada de costas na minha cama, olhando para o teto do meu quarto.

Era uma sensação bizarra. Depois de tudo o que passei... Depois de passar tanto tempo querendo voltar, chorando num purgatório sem fim... Agora eu estava ali. Na minha antiga casa, no meu quarto da juventude, com uma vida completamente diferente nos papéis, mas tão viva no peito. Ainda parecia um sonho prestes a se desfazer.

Foi quando senti. A presença dele.

Eu nem precisei abrir os olhos para saber. Eu conhecia Edward em cada átomo da minha alma. Conhecia o jeito perfeitamente silencioso como ele se movia, deslocando o ar sem fazer um único ruído na madeira do piso. Conhecia a forma atenciosa como ele tentava não me assustar, mesmo sabendo que eu provavelmente perceberia sua aproximação de qualquer forma.

— Você sabe que a invenção de bater na porta ainda existe no mundo humano, não sabe? — perguntei para o teto, sem abrir os olhos.

Alguns segundos de silêncio se passaram antes de ouvir aquela risada baixa e aveludada perto da janela.

— Você sabia que era eu desde o segundo em que pisei aqui.

Abri os olhos. Ele estava parado perto da porta do quarto, lindo, com a luz da lua recortando seus traços de mármore.

— Sim — admiti, dando um sorriso preguiçoso. — Mas eu gosto de fingir que ainda tenho um por cento de chance de pegar você desprevenido.

Ele sorriu. Aquele sorriso torto que eu tinha sentido uma saudade devastadora durante quase duas décadas.

Edward caminhou até a cama com passos que não faziam som algum e se deitou ao meu lado na colcha. Sem hesitar, eu me aproximei dele e passei os braços ao redor do seu corpo frio e sólido, afundando meu rosto no seu pescoço.

Ainda era estranho e maravilhoso processar que aquela era a minha realidade. Eu podia simplesmente esticar o braço e abraçá-lo. Podia sentir seu cheiro de neve e jacintos. Podia dormir sabendo que, ao acordar no dia seguinte, ele ainda estaria ali do meu lado. Depois de uma vida inteira perdendo tudo e todos... ter aquilo parecia um milagre absoluto.

— Edward?

— Sim, meu amor?

Respirei fundo, sentindo o ar quente encher meus pulmões. Eu tinha pensado muito, infinitamente sobre aquilo. Muito mais do que ele jamais poderia imaginar.

— Eu quero ser transformada.

Edward ficou completamente imóvel.

O que era uma façanha impressionante, considerando que ele já era naturalmente a criatura mais estática da Terra. Mas, desta vez, parecia que até o sutil ritmo de presença que ele mantinha tinha sido congelado.

Ele virou o rosto devagar na minha direção, os olhos de topázio arregalados.

— O quê?

Eu sorri, sustentando o olhar dele sem vacilar.

— Você ouviu perfeitamente.

— Bella... — a expressão dele mudou drasticamente. Não era felicidade imediata; era uma onda avassaladora de preocupação e cuidado. — Você pensou nisso com calma? De verdade?

Assenti com a cabeça, firme:

— Pensei. Muito.

Ele ficou alguns segundos em silêncio, os olhos me escanando em busca de qualquer dúvida. Então, perguntou com a voz grave:

— E a sua família?

Eu sabia que essa pergunta seria a primeira a sair da boca dele.

— Você sabe exatamente o que a mudar significa, Bella — a voz dele ficou mais baixa, carregada de um aviso doloroso. — Significa que você vai ter que deixá-los. Para sempre.

Virei o rosto e olhei para o teto por um instante. Era verdade. Essa era a única parte que fazia meu coração doer. Minha mãe, meu pai, o Ethan... A família que me acolheu nesta segunda chance. A vida que me foi presenteada.

Mas eu sorri, virando de volta para ele.

— Edward.

Ele me encarou, atento.

— Você está esquecendo um detalhe muito importante.

— Qual detalhe?

Toquei a bochecha fria dele com a palma da minha mão humana.

— Todas as regras deste mundo têm exceções. E nós somos mestres em achar brechas.

Ele franziu levemente a testa, confuso.

— Bella...

— Eu estou falando muito sério — insisti, inclinando-me para mais perto. — Antigamente, lá em Forks, no começo do século passado, talvez fosse absolutamente impossível manter contato sem levantar suspeitas em pouco tempo. Mas nós estamos em outra época. O mundo mudou.

Dei uma risada curta.

— Você por acaso já viu os tutoriais e as maquiagens que existem hoje em dia?

Ele piscou, pego completamente de surpresa pela curva da conversa.

— Maquiagem?

— Sim! — Fiz um gesto expansivo com a mão livre. — Tem produtos e técnicas absurdas hoje em dia. Pessoas conseguem mudar completamente a estrutura do rosto, criar efeitos, simular idade. Eu posso aprender a colocar algumas rugas sutis aqui, algumas marcas de expressão, fingir com o passar dos anos que o tempo está caindo sobre mim. Fingir que estou envelhecendo devagar como qualquer humana.

Ele me encarava sem piscar, absorvendo a ideia maluca. E eu continuei, com o peito cheio de esperança:

— Eu não preciso simplesmente evaporar ou simular uma morte trágica para sumir da vida deles desta vez. Posso continuar aqui. Posso vir visitar nas férias, posso mandar fotos, posso continuar sendo a irmã do Ethan e a filha da minha mãe.

Respirei fundo, deixando a emoção transbordar:

— A diferença gigante, Edward... é que dessa vez eu posso escolher.

Edward permaneceu em silêncio absoluto. Eu sabia que aquela era a espinha dorsal de tudo.

— Na minha primeira vida... — minha voz caiu para um sussurro embargado. — Eu não escolhi nada. Eu não escolhi morrer jovem. Não escolhi virar um fantasma e ficar presa numa casa abandonada. Não escolhi esperar anos no escuro. Não escolhi perder você e ver todo mundo seguir.

Segurei a mão fria dele com as minhas duas mãos, apertando-a contra o meu peito quente.

— Mas nesta vida nova... Eu quero escolher. E o que eu escolho, com toda a minha alma, é ficar com você. Para todo o sempre.

Por um segundo agonizante, achei que ele fosse começar um dos seus discursos clássicos de proteção. Achei que fosse me dar uma palestra sobre os riscos morais, sobre a beleza da mortalidade, sobre a alma humana ou sobre tudo o que eu estaria sacrificando.

Mas Edward apenas me olhou no fundo dos olhos. E disse:

— Tudo bem.

Pisquei, pega desprevenida.

—... Tudo bem?

Ele assentiu, a firmeza estampada naqueles traços perfeitos.

— Sim.

Fiquei encarando-o, desconfiada.

— Só isso? Sem protestos?

Um pequeno e lindo sorriso torto surgiu no rosto dele.

— O que mais você esperava de mim, Bella?

— Não sei... — pensei alto, franzindo o nariz. — Talvez uma palestra formal de duas horas sobre como eu deveria aproveitar a minha juventude humana antes de tomar uma decisão irreversível.

Ele sorriu um pouco mais, o olhar brilhando.

— Eu já fiz essa palestra para você. Muitas e muitas vezes.

— É... fez mesmo.

— Exatamente. Eu aprendi a minha lição.

Soltei uma risada baixa, mas logo fiquei séria outra vez, olhando para ele com atenção.

— Foi fácil demais. Você cedeu rápido até demais para o seu padrão.

O sorriso do Edward desvaneceu lentamente, dando lugar a uma expressão infinitamente mais profunda, triste e verdadeira.

— Não é fácil, Bella — a risada sumiu dos meus lábios ao ouvir o tom da voz dele. ele ergueu a mão e passou os dedos suavemente pelo meu rosto. — Eu sei exatamente o que é viver uma eternidade sem você.

Aquelas palavras me atingiram em cheio no peito.

— Eu sei o que é acordar todos os santos dias sabendo que a única pessoa que fazia este mundo inteiro valer a pena não estava mais nele — ele respirou fundo, num gesto desnecessário, mas carregado de dor antiga. — Eu sei a tortura que é imaginar ter que passar centenas e centenas de anos arrastando uma existência vazia, sentindo a sua falta a cada segundo.

Os olhos de topázio dele se cravaram nos meus com uma devoção avassaladora.

— Eu não quero fazer isso nunca mais. Nunca.

Meu coração deu um aperto bom, quente. Então, eu sorri de canto. Porque, pela primeira vez em duas vidas, eu não estava implorando para ser salva de um perigo ou fugindo de um destino cruel. Eu estava, por livre e espontânea vontade, escolhendo o meu próprio futuro.

— Eu só preciso de mais um pouco de tempo — falei suavemente.

Edward me observou, atento a cada detalhe.

— Tempo?

Assenti, olhando ao redor do meu antigo quarto:

— Só mais um pouco. Eu quero aproveitar essa fase. Quero acordar mais algumas centenas de vezes como humana, sentindo o sol na pele e a fome de manhã. Quero tomar café da manhã com a minha mãe, quero discutir por besteira com o Ethan, quero reclamar de coisas pequenas e banais de gente comum.

Sorri, sentindo uma leveza abençoada.

— Quero aproveitar ao máximo essa chance extraordinária que o universo me deu de viver.

Edward se inclinou e pressionou os lábios frios com carinho contra a minha testa, demorando o beijo ali.

— Então nós teremos todo o tempo do mundo, meu amor.

Olhei para ele quando ele se afastou.

— Você promete?

Ele não hesitou nem por uma fração de segundo.

— Eu prometo.

E desta vez... Eu acreditei. Sem medos, sem sombras, sem fantasmas do passado.

Porque, pela primeira vez em todas as minhas vidas e recomeços... Eu não estava sentada na arquibancada esperando o fim chegar. Eu estava, finalmente, desenhando o meu próprio para sempre.



Era engraçado pensar que, depois de tudo...

Depois de morrer.

Depois de passar anos sufocantes presa como um fantasma em uma casa abandonada, esperando desesperadamente que alguém descobrisse a verdade sobre o meu corpo e o meu destino.

Depois de desafiar a lógica do universo, enfrentar uma entidade cósmica que literalmente controlava a Vida e a Morte e, muito provavelmente, atropelar algumas dezenas de regras ancestrais que eu nem sabia que existiam...

O final da minha história parecia algo perfeitamente e abençoadamente comum.

Eu estava ali, em pé na cozinha, o aroma de pó torrado preenchendo o ar enquanto fazia café com a minha mãe. Ao fundo, ouvia-se o som distante do meu irmão engatando mais uma discussão sem fim com o Edward na sala de estar.

Normal. Ou pelo menos a versão de "normal" que o meu destino torto tinha conseguido esculpir.

— Você sabe que eu estou começando a achar que o Ethan gosta do Edward de verdade, não sabe? — minha mãe comentou em tom conspiratório, dando um gole lento na sua xícara.

Olhei de canto de olho pelo vão da porta da cozinha. Ethan estava jogado no sofá, de braços cruzados, encarando Edward com a exata mesma expressão de xerife desconfiado de quando ele pisou aqui pela primeira vez.

— Eu acho que ele só está tentando, de todas as formas humanas possíveis, descobrir se existe alguma fraqueza no currículo dele — respondi, rindo fraco.

Minha mãe soltou uma gargalhada gostosa.

— E por acaso ele descobriu alguma?

Observei a figura impecável do Edward. Ele mantinha a postura ereta e paciente, esforçando-se ao máximo para responder a um interrogatório absurdo sobre preferências musicais e esportes que claramente não fazia o menor sentido.

— Ainda não.

Fiz uma pausa mental. "Mas considerando que o Edward é um vampiro imortal com mais de um século de bagagem e o Ethan tem treze anos e uma marra gigante...", pensei, sentindo um sorriso espontâneo curvar meus lábios.

— Eu acho que a batalha está perfeitamente equilibrada.

Minha mãe balançou a cabeça, divertida com a cena.

Era bizarro. Porque, durante anos de escuridão e solidão, eu achei que nunca mais teria a chance de viver momentos como esse. Momentos pequenos. Simples. Banais. Momentos que a maioria das pessoas nem nota, mas que, para quem já perdeu tudo, significavam o universo inteiro.

Minha mãe ficou alguns segundos em silêncio, me observando. Então, a voz dela saiu suave:

— Bella?

Virei o rosto para ela.

— Sim?

Ela me deu um sorriso leve, maternal e cheio de um carinho que aquecia meu peito.

— Você finalmente encontrou o que estava procurando nessa viagem?

A pergunta me pegou totalmente desprevenida.

Porque, no fundo da minha alma, eu sabia exatamente o que ela estava perguntando. Não era apenas sobre o Edward. Não era só sobre os Cullen ou a viagem pelo país. Era sobre aquela garota perdida que desapareceu anos atrás. Sobre a menina que viveu no escuro esperando por uma resposta. Sobre a filha que precisava desesperadamente saber que não tinha sido esquecida.

Olhei para a sala. Para o Edward.

Como se sentisse meu olhar, ele virou a cabeça na minha direção e sorriu. Aquele sorriso torto e brilhante que um dia, na minha dor, achei que nunca mais veria na existência. Depois olhei para o Ethan. Meu irmãozinho, que tinha crescido tanto enquanto eu esteve ausente, o mesmo menino que correu chorando atrás de mim no aeroporto implorando para que eu não os esquecesse.

Por fim, voltei meus olhos para a minha mãe. E sorri, sentindo as lágrimas de alívio queimarem nos meus olhos.

— Sim.

Ela continuou me encarando, em silêncio, como se soubesse que aquela simples afirmativa carregava o peso de uma eternidade.

— Eu encontrei.

Eu costumava pensar que a minha história tinha chegado ao fim no dia em que dei meu último suspiro em Forks. Achei que aquele era o ponto final, trágico e injusto. Que tudo o que eu tinha amado ficaria eternamente trancado no passado, virando pó e lembrança.

Mas eu estava completamente errada.

A morte não foi o meu fim. Foi apenas uma curva absurdamente dramática e tortuosa no meu caminho. Uma curva recheada de fantasmas, vampiros centenários, entidades cósmicas, regras impossíveis e uma quantidade inacreditável de problemas.

Mas, no final das contas... eu consegui.

Eu tinha uma família de verdade. Tinha pessoas que me amavam com cada fibra de suas existências. Eu tinha a minha mãe, o meu pai e o meu irmão. Tinha os Cullen de volta.

E eu tinha o Edward. O meu amor. A pessoa que eu perdi uma vez para a tragédia e que o próprio destino tentou arrancar de mim novamente.

Eu fui abertamente contra o que deveria ter acontecido. Contra o roteiro que esperavam que eu seguisse. Contra uma entidade que achava ter escrito o último capítulo da minha vida.

E talvez eu tenha quebrado algumas regras valiosas no processo. Talvez tenha tomado escolhas imensamente questionáveis e arriscadas. Na verdade... eu definitivamente tomei.

Mas, olhando para aquele exato segundo... Com a minha família reunida na sala, com o riso da minha mãe preenchendo a cozinha, com o Edward ao meu lado e com uma vida inteira que eu jamais imaginei ter de volta...

Eu sabia. Tinha valido cada segundo de dor, cada risco e cada lágrima.

Porque algumas histórias simplesmente não terminam quando dizem que devem terminar. Algumas pessoas recusam-se a pertencer ao fim trágico que foi desenhado para elas.

Às vezes... tudo o que você precisa é ter a coragem insana de pegar a caneta e escrever uma nova página.

E, no meu caso... eu precisei morrer uma vez para finalmente aprender a viver de verdade.

Notas finais
Chegamos ao fim, adorei escrever essa história e me divertir com essa Bella. Vou sentir saudades das maluquices dela kkk Me digam o que acharam Nos vemos em uma próxima história. Bjuss
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!