Os dias passaram. Depois vieram as semanas. E, antes que eu conseguisse recuperar o fôlego ou organizar a bagunça que era minha cabeça, meses inteiros tinham evaporado.

Era engraçado — e levemente assustador — como o tempo funcionava naquele canto isolado do Alasca. Às vezes, um único minuto em silêncio parecia durar uma eternidade dolorosa. Outras vezes, três meses simplesmente desapareciam num piscar de olhos, levados pela neve constante e pela rotina nova que se desenhava sem que eu percebesse.

No começo, eu ia até a casa dos Denali pisando em ovos, apenas quando a Tanya me convidava explicitamente e com algum pretexto plausível. Depois... Passei a simplesmente aparecer. Tirava a neve das botas na varanda, batia na porta e entrava. E o mais bizarro era que ninguém parecia se importar.

Na verdade, a Tanya fazia questão de reclamar quando eu demorava a dar as caras.

— Você sumiu.

Ela dizia, cruzando os braços e fingindo uma indignação perfeita assim que me via na porta.

— Faz dois dias que não aparece.

— Dois dias não é sumir, Tanya. É ter uma vida — eu rebatia, tirando o casaco pesado.

— Para mim é sumir.

Aos poucos, a minha presença ali deixou de ter cara de "visita formal de uma humana perdida". Virou rotina. Virou casa.

Eu almoçava com eles — ou melhor, comia minha comida humana sob o olhar curioso de predadores imortais. Jogava cartas com a Kate, que trapaceava usando eletricidade estática para fazer as cartas grudarem nos dedos sempre que estava prestes a perder. Tentava cozinhar, para o desespero e pânico coletivo da Tanya, que achava que eu ia atear fogo no imóvel a qualquer momento. E passava horas intermináveis conversando com o Eleazar sobre história, filosofia ou qualquer assunto aleatório que surgisse. Ele tinha uma curiosidade quase infinita sobre os costumes dos humanos modernos, e eu... bom, eu tinha uma curiosidade igualmente infinita sobre a eternidade. Funcionava numa harmonia esquisita, mas perfeita.

Mas não eram apenas os Denali que preenchiam meus dias.

Os Cullen começaram a aparecer em Denali com uma frequência quase suspeita. Às vezes passavam um fim de semana inteiro, ocupando cada cômodo com aquela energia vibrante. Às vezes surgiam só para passar uma tarde. Às vezes chegavam sem nem avisar, brotando da floresta como se as duas famílias fossem uma só. O que, de certa forma, sempre foram.

E, sem que eu tivesse tempo para erguer minhas defesas, fui sendo puxada para o centro daquela dinâmica familiar.

— Bella!

O Emmett gritou na manhã de um terça-feira, escancarando a porta da frente com tanta força que o batente estalou.

— Trouxe uma oponente digna para o videogame! Prepara o lombo!

Olhei para ele por cima do meu livro, desconfiada.

— Eu não aceitei desafio nenhum, Emmett.

— Medrosa.

— Estratégica.

— É medo.

— É instinto de sobrevivência.

Perdi. Em vergonhosos vinte minutos. O Emmett comemorou dando uma volta olímpica na sala, gritando como se tivesse acabado de vencer um campeonato mundial de e-sports.

Com a Rosalie, a aproximação foi mais lenta, esculpida na base da paciência. Ela cismou de me ensinar a dirigir na neve sem matar o motor do meu carro. Foi assim que ela descobriu, em tempo recorde, que eu tinha um talento quase mediúnico para fazer o carro rodar em trechos de asfalto completamente retos.

— Como... como você conseguiu fazer isso? — perguntou ela, descendo do carro e encarando o veículo atravessado no meio do nada, com uma expressão que misturava choque e profundo desgosto mecânico.

— Honestamente? — Olhei para o volante, congelada de pavor. — Eu também gostaria de saber.

Ela respirou fundo. Muito fundo. O tipo de respiração que vampiros nem precisam dar, mas que ela usava para não surtar.

— Vamos tentar outra vez. E solta essa embreagem como se ela não fosse de porcelana.

A Esme, por sua vez, me alimentava. Constantemente. Era um mistério fascinante. Ela sabia perfeitamente que nenhum dos vampiros da casa precisava comer. Sabia que eu morava sozinha e sabia cozinhar o básico. Mesmo assim... toda vez que eu pisava lá, havia uma torta fresca, uma sopa fumegante ou um prato impecável me esperando sobre o balcão.

— Você precisa comer direito, querida.

— Esme, eu comi antes de vir.

— Um sanduíche seco não é almoço, Bella.

— Dependendo do sanduíche e do que tem dentro...

— Bella.

Arqueei a cabeça, derrotada pela doçura impositiva dela.

— Tá bom. Eu como.

O Carlisle gostava de ouvir minhas histórias de viagem. Às vezes, ficávamos horas na varanda, vendo a neve cair enquanto o frio cortante parecia não afetá-lo em nada. Ele perguntava sobre as cidades por onde passei, os hospitais antigos que cruzei no caminho, as pessoas que conheci, os museus esquecidos. Eu respondia tudo, maravilhada. Nunca na minha vida tinha conhecido alguém tão genuinamente interessado na alma humana quanto Carlisle Cullen.

O Jasper falava pouco. Mas, curiosamente, acabou se tornando uma das pessoas com quem eu mais gostava de estar por perto. Nossos diálogos eram tranquilos, quase táticos. Longos silêncios confortáveis, poucas palavras, mas um nível absurdo de entendimento mútuo. Ele parecia ler a minha ansiedade melhor do que eu mesma.

E a Alice... Bem... A Alice simplesmente decidiu, por conta própria e sem consultar ninguém, que o meu guarda-roupa era uma afronta direta ao bom gosto e precisava urgentemente de um resgate.

— Você só usa casaco cinza, Bella. É deprimente — comentou ela certa manhã, inspecionando minha jaqueta com dois dedos.

— Não é verdade. Eu tenho um azul — me defendi.

— Que é cinza emocionalmente.

Não consegui rebater. Era uma lógica distorcida, mas estranhamente correta.

Foi assim que, numa tarde de sábado particularmente caótica, me vi arrastada pelo imenso shopping center de Anchorage, prensada estrategicamente entre a Alice e a Tanya. Uma combinação que representava um perigo iminente para qualquer conta bancária humana.

— Esse vestido — disse Alice, puxando um cabide com uma peça de tecido verde-esmeralda.

— Não — respondi imediatamente, sem nem me dar ao trabalho de desacelerar o passo.

— Você nem olhou!

— Eu conheço esse tom de voz, Alice. Quando você usa essa entonação de "fada empolgada", significa que eu vou falir nos próximos dez minutos.

Tanya soltou uma gargalhada ao nosso lado.

— Ela aprende rápido, Alice. Já entendeu como você opera.

Alice fez a sua melhor cara de inocente, piscando os olhos enormes.

— Eu só quero ajudar. Você é tão bonita, devia se valorizar mais!

Cinco minutos depois... Eu estava carregando três sacolas imensas, me perguntando em que momento exatamente tinha perdido o controle da minha própria vida.

— Isso não é uma ida ao shopping, é uma emboscada — murmurei, ajustando as alças nas mãos.

— Chama-se moda, meu amor — corrigiu Alice, já entrando na loja seguinte.

— Chama-se falência decretada.

Entramos em outra loja. Depois em mais uma. E depois em outra que eu nem sabia o nome. A essa altura, meu senso de direção já tinha ido para o espaço.

— Alice... — pedi, parando no meio do corredor. — Por favor. Quantas lojas ainda faltam para essa tortura acabar?

Ela parou, colocou o indicador no queixo e pensou seriamente por dois segundos.

— Todas.

Fechei os olhos, respirando fundo.

— Entendido. Vou pedir minha correspondência para ser entregue aqui no shopping a partir de hoje.

Tanya ria tanto que precisou se apoiar na vitrine de uma joalheria para não perder o equilíbrio.

— Eu juro por tudo que nunca vi alguém sofrer tanto por ter que comprar roupa nova!

— Porque comprar roupa sob coação é uma forma velada de sofrimento!

— Você diz isso porque ainda não experimentou aquele casaco verde que a Alice separou — comentou Tanya, me provocando.

— Eu experimentei.

— E ficou lindo! — Alice interveio.

— Parecia um brócolis elegante e caro — resmunguei.

Tanya literalmente gargalhou alto, chamando a atenção de duas idosas que passavam perto de nós.

Mais tarde, exaustas — ou, no meu caso, fisicamente destruída —, nós três nos sentamos em uma mesa no canto da praça de alimentação. Eu finalmente consegui desabar numa cadeira e recuperar a sensibilidade das minhas pernas. Olhei para o mar de sacolas espalhadas ao redor da mesa, um exército de compras que eu nem sabia como colocar no porta-malas do carro depois. Depois, olhei para a Alice, que me encarava com uma expectativa infantil.

— Você está feliz agora? — perguntei.

Ela tomou um gole longo do seu refrigerante (que ela mantinha na mão só para disfarçar entre os humanos).

— Muito. De verdade.

— Ótimo. Porque a minha carteira entrou em estado de luto oficial e não há enterro previsto.

As três caíram na risada juntas.

E foi exatamente naquele instante...

Observando a Alice rir até quase perder o fôlego e jogar a cabeça para trás; vendo a Tanya brincar, dizendo que eu finalmente parecia uma pessoa "vestida por vontade própria e não por obrigação"; sentindo uma leveza no peito que eu não experimentava havia décadas...

Que uma percepção silenciosa e avassaladora me atingiu em cheio.

Eu era feliz. Feliz de verdade.

Não como um fantasma preso ao passado, vagando por aí e tentando desesperadamente se agarrar a memórias desbotadas. Não como alguém que vivia em função de uma busca obsessiva, respirando apenas para reencontrar o Edward.

Eu ainda queria encontrá-lo. Meu Deus, como queria. Todos os dias, ao acordar e ao deitar. A saudade continuava ali, cravada no fundo do meu peito, vívida e pulsante.

Mas, pela primeira vez desde que tinha reencarnado e despertado neste novo mundo... a minha vida não girava exclusivamente em torno dessa espera sufocante.

Eu tinha amigos reais. Uma família emprestada que me acolhia sem pedir nada em troca. Uma rotina com pé e cabeça. Motivos sinceros para rir até a barriga doer.

E isso fazia com que o peso da espera doesse um pouco menos. Deixava de ser um fardo insuportável e virava uma esperança paciente.

Mesmo que, no fundo do meu coração... Ainda existisse um lugar vago. Um espaço com o formato exato de uma pessoa que, curiosamente, era o único membro dos Cullen que nunca, em hipótese alguma, aparecia nas visitas à casa dos Denali.

Ainda estávamos na praça de alimentação.

As sacolas de compras ocupavam metade da mesa, criando uma barreira colorida no meio do shopping. Alice observava distraidamente o fluxo constante de pessoas passando pelos corredores do andar inferior. Tanya mexia no celular com agilidade, respondendo a alguma mensagem rápida.

Eu dava um gole demorado no meu chocolate quente quando, de repente, senti o peso de um olhar sobre mim.

Levantei os olhos do copo.

Alice.

Ela estava me encarando fixamente. Não era de um jeito estranho ou intrusivo, nem com aquela curiosidade brincalhona de sempre. Era... triste. Muito triste. O tipo de olhar devastado de quem está encarando alguém que havia perdido há muito tempo.

Meu sorriso diminuiu até sumir por completo.

— Alice?

Ela piscou piscou rápido, dando um leve sobressalto, como se estivesse acabando de acordar de um transe.

— Hum?

— Aconteceu alguma coisa? — perguntei, deixando o copo sobre a mesa.

— Não.

A resposta saiu rápida demais. Instantânea.

— Tem certeza?

Ela sorriu. Mas era um sorriso mínimo, apagado, sem vestígio daquela alegria vibrante e habitual.

— Claro que tenho.

Continuei olhando para ela, sem ceder. Alice nunca soube mentir direito. Pelo menos não para quem realmente prestava atenção. E eu tinha passado os últimos meses prestando atenção em cada detalhe dela.

— Você está mentindo.

Tanya levantou os olhos do celular na mesma hora, guardando o aparelho no bolso.

— É, Alice. Ela percebeu — disse Tanya.

Alice fez uma careta resignada, soltando um suspiro derrotado.

— Eu odeio quando as pessoas começam a me conhecer bem demais.

— É um efeito colateral inevitável das amizades — respondi suavemente.

Ela soltou uma risada baixa, sem humor. A tristeza continuava ali, alojada em seus olhos de fada, silenciosa e densa.

Então, ela suspirou fundo.

— Desculpa, Bella. Não foi minha intenção te deixar preocupada.

— Então o que foi? Pode falar.

Alice ficou alguns segundos em silêncio absoluto. Ficou observando a própria caneca sobre a mesa, como se estivesse escolhendo cuidadosamente cada palavra antes de colocá-la para fora.

— Você...

Ela ergueu os olhos para mim novamente, sustentando o olhar.

— Às vezes você me lembra alguém.

Meu coração deu um salto violento contra o peito. Senti um arrepio percorrer minha espinha, mas me obriguei a manter a expressão tranquila e curiosa.

— Alguém da sua família?

Ela assentiu bem devagar.

— Sim.

— Quem?

Alice demorou um pouco para responder, o olhar perdido por um instante.

— Uma pessoa muito querida — a voz dela saiu mais baixa, quase um sussurro. — Muito querida mesmo.

Tanya também ficou em silêncio, o sorriso provocativo desaparecendo completamente do seu rosto. O ambiente na mesa mudou de figura.

— Ela foi embora cedo demais — continuou Alice, apertando os dedos ao redor do copo. — Bem antes do que deveria ter ido.

Meu peito apertou de uma forma dolorosa. Eu sabia exatamente de quem ela estava falando.

De mim.

Mesmo assim... eu precisava engolir o nó na garganta e continuar aquela conversa como se não soubesse de nada. Como se eu fosse apenas a Bella, a humana que apareceu no Alasca.

— Ela era sua irmã? — perguntei, com a voz falhando ligeiramente.

Alice sorriu de leve, saudosa.

— Não.

— Prima?

— Também não — ela balançou a cabeça. — Mas era família. Daquelas pessoas que chegam de repente... e simplesmente passam a fazer parte de todo mundo.

Engoli em seco, sentindo o ar faltar por um segundo.

Alice continuou me encarando, examinando cada detalhe do meu rosto.

— Às vezes você faz uma expressão igualzinha à dela.

Meu coração apertou ainda mais, quase parando.

— Sério?

Ela assentiu, com os olhos brilhando.

— O jeito que você inclina a cabeça para o lado quando está pensando concentrada. O jeito que responde uma piada séria demais, sem sorrir de primeira. Até a forma como fica olhando fixa pela janela quando acha que ninguém está prestando atenção.

Ela deu uma risada baixa, quase sem som.

— É estranho. Porque vocês não se parecem fisicamente. Nem um pouco. Mas... tem alguma coisa. Alguma coisa na sua energia que eu nunca consegui explicar.

Senti meus olhos arderem. Uma queimação quente subiu pela minha garganta. Olhei rapidamente para baixo, fixando a vista no copo de plástico.

Eu não podia chorar. Não ali. Não agora.

As regras da minha nova chance, os termos impostos pela Vida e pela Morte tinham sido cristalinos: "Nunca revele quem você foi."

A regra parecia simples quando ouvida no vazio. Mas, naquele momento, sentada em frente à minha irmã de alma, foi a coisa mais absurdamente difícil que já precisava obedecer.

Tomei fôlego, engoli as lágrimas e levantei novamente o olhar.

Sorri. Um sorriso pequeno, contido.

— Ela devia ser uma pessoa muito especial.

Alice sorriu de volta. Dessa vez, um sorriso carregado de puro afeto e saudade.

— Ela era. Incrivelmente especial.

O silêncio caiu entre nós três. Não era um silêncio desconfortável ou constrangedor. Era um silêncio cheio, denso, pesado... e bonito.

Depois de alguns segundos, Alice completou, tentando aliviar o clima:

— E ela fazia o Emmett perder completamente a paciência.

Eu ri pelo nariz, deixando escapar um arzinho.

— Isso parece uma tarefa difícil.

— Você não faz ideia — Alice deu um piscar de olhos. — Ela fazia umas piadas horríveis e provocava todo mundo. Principalmente o Emmett.

Tanya sorriu, entrando no clima suave.

— Então ela realmente devia ser muito divertida.

Alice assentiu com veemência. Os olhos dela brilhavam sob a luz do shopping.

— Ela fazia a casa parecer... viva.

Minha garganta fechou por completo.

Por um instante avassalador, a vontade que me deu foi de me jogar por cima da mesa, abraçar a Alice pelo pescoço e gritar: "Sou eu! Eu também senti tanta falta de vocês! Eu pensei em vocês todos os dias da minha vida! Eu nunca fui embora porque quis!"

Mas apenas apertei um pouco mais o copo de chocolate quente entre as mãos, sentindo o calor do papelão nas palmas geladas.

E permaneci em silêncio.

Porque, às vezes... guardar um segredo era a única forma de proteger quem a gente amava. Mesmo quando esse segredo partia o nosso próprio coração em mil pedaços.

A despedida aconteceu pouco depois.

Tanya insistiu em levar metade das minhas sacolas até o carro, mesmo comigo dizendo, várias vezes, que conseguia perfeitamente carregar tudo.

— Você é muito dramática — comentei, ajustando o casaco.

— E você compra roupa demais.

— Eu comprei? — perguntei, apontando para o exército de bolsas no meu braço. — Eu fui claramente coagida!

Alice sorriu com a maior cara de inocente do mundo.

— A palavra correta é "convencida", Bella.

— A palavra correta é "vítima" — rebati.

— Drama — disseram Tanya e Alice ao mesmo tempo, em perfeito coro.

Olhei de uma para a outra, franzindo a testa.

— Vocês ensaiaram isso no caminho?

As duas apenas sorriram, sem negar. Traidoras.

O céu já estava tingido por um tom alaranjado e denso quando finalmente deixei o estacionamento do shopping. O rádio do carro tocava alguma música genérica que eu não conhecia. Estiquei o braço e desliguei o som.

Pela primeira vez naquele dia... eu queria silêncio. Muito silêncio.

A conversa com a Alice não saía da minha cabeça. Ficava martelando no meu cérebro em um looping doloroso.

"Você me lembra alguém." "Ela fazia a casa parecer... viva."

Fechei um pouco mais os dedos sobre o volante, sentindo o couro frio. Era bizarro. Durante dezoito longos anos, eu sonhei acordada com o dia em que reencontraria cada um deles. Imaginava como seria a cena. As lágrimas inevitáveis. Os abraços apertados. As perguntas atropeladas. As respostas guardadas há tanto tempo.

Mais a realidade era completamente diferente. Tortuosa.

Eu estava ali com eles. Praticamente todos os dias. Conversava. Ria. Brincava. Criava novas memórias. E, ao mesmo tempo... era obrigada a assistir, de camarote, cada um deles sentir uma saudade devastadora de mim. Sem poder dizer uma única palavra para aliviar essa dor.

A Vida e a Morte sabiam exatamente como arquitetar um castigo refinado.

Quando finalmente cheguei ao pequeno apartamento que havia alugado no centro de Anchorage, o céu já estava completamente escuro. Joguei as chaves sobre a bancada da cozinha com um estalo metálico. Tirei os sapatos pesados com um suspiro carregado de cansaço.

O silêncio do apartamento parecia maior, mais pesado do que o normal.

Entrei no quarto a passos lentos. As sacolas de compras recém-adquiridas ficaram esquecidas no chão, perto da porta. Nem me dei ao trabalho de tirá-las de lá. Simplesmente me deixei cair de costas sobre a cama, com os braços abertos em cruz.

Encarei o teto branco e sem graça. Respirei fundo. Depois outra vez. E mais uma. Como se tentasse organizar uma bagunça que não existia no quarto, mas que estava destruindo minha cabeça por dentro.

— Isso é ridículo... — murmurei para o nada.

Fechei os olhos. Eu tinha conseguido, não tinha? Finalmente fazia parte da vida deles de novo. A Esme me abraçava e cuidava de mim. O Emmett me provocava como um irmão mais velho. A Rosalie já não me olhava com desconfiança ou desdém. A Alice me levava para fazer compras. O Carlisle me ouvia com atenção genuína. O Jasper conversava comigo durante horas no mais absoluto conforto.

Eu tinha recuperado a minha família.

Então... por que diabos parecia me faltar oxigênio?

Porque havia uma cadeira vazia. Sempre. Em toda visita. Em toda conversa da sala. Em toda fotografia do álbum. Em toda lembrança.

Edward. Onde você está?

A pergunta escapou dos meus lábios num sussurro doloroso e quase inaudível. Não havia ninguém no quarto para responder.

Fechei os olhos com mais força. Por um instante, a lembrança do jardim da antiga casa dos Cullen veio como uma tempestade. A grama alta. O cheiro das flores que a Esme cuidava com tanto carinho. A mão fria dele tocando meu rosto pela primeira vez. O beijo. A despedida...

"Se existir outra vida..."

Engoli em seco, sentindo a garganta queimar.

— Eu cumpri a minha parte... — sussurrei para o teto. — Eu voltei.

Minha voz falhou miseravelmente no final da frase.

O apartamento permaneceu em silêncio absoluto. Silêncio demais.

Então... o celular começou a tocar.

O toque alto e estridente no criado-mudo me fez dar um pulo na cama. Alcancei o aparelho na mesa de cabeceira e, no mesmo instante, um sorriso surgiu no meu rosto ao ver o nome brilhando na tela.

ETHAN

Meu irmãozinho. Ou melhor... nem tão "inho" assim nos últimos tempos.

Atendi, tentando disfarçar o nó na garganta:

— O que foi, pirralho?

Do outro lado da linha, ouvi um suspiro profundo de pura indignação infantil.

— Eu já tenho doze anos, tá?!

Sorri, fechando os olhos e me ajeitando no travesseiro.

— Exatamente. Um pirralho profissional de doze anos.

— Samantha! — ele disparou do outro lado.

Revirei os olhos imediatamente.

— Ethan... quantas vezes eu já te disse? Isabella. Me chama de Isabella.

— Nunca.

— Ethan...

— Nunca mesmo.

Suspirei de forma dramática, bem perto do microfone:

— Você é um péssimo irmão.

— E você é uma irmã pior ainda por ter me deixado aqui.

Ficamos em silêncio por um segundo. E então... nós dois começamos a rir ao mesmo tempo. Era simplesmente impossível ficar brava com ele por muito tempo, mesmo quando ele fazia questão de me provocar com aquele nome.

— Como estão as coisas aí em casa? — perguntei, deixando o peso do dia começar a diminuir.

— A mamãe queimou o jantar.

Sorri.

— De novo?

— Pela terceira vez só essa semana — ele contou, em tom conspiratório.

— Ela continua tentando cozinhar aquela lasanha de vegetais?

— Continua.

— Corajosa.

— Teimosa, isso sim — corrigiu Ethan. — O papai já cansou, fingiu que esqueceu a carteira no carro e pediu pizza escondido.

Soltei uma risada baixa e verdadeira.

Era tão absurdamente fácil conversar com ele... que, em questão de minutos, todo o peso sufocante do dia parecia evaporar. Como se aquela ligação simples tivesse atravessado milhares de quilômetros para me resgatar e me lembrar de algo fundamental:

Nesta vida nova... eu também tinha uma família incrível me esperando.

Continuei deitada na cama, o celular pressionado contra a orelha, ouvindo a algazarra da minha antiga casa atravessar o país e preencher cada canto silencioso do meu quarto.

— Você tá comendo? — perguntei, desconfiada.

Silêncio do outro lado.

E então, um crunch crocante, seco e nitidamente amplificado pelo microfone.

— Não — Ethan respondeu, sem a menor vergonha na cara.

— Ethan.

— O quê?

— Você acabou de mastigar um salgadinho no meu ouvido.

— Não era salgadinho... era... o sofá.

Franzi a testa, olhando para o teto.

— Você mordeu o sofá?

— Talvez.

Soltei uma gargalhada curta.

— Meu Deus, você é muito estranho.

— Engraçado você falar isso, né, Samantha? — ele retrucou, usando o nome da minha vida atual para me provocar. — Quem passou dezoito anos juntando cada centavo de mesada e fazendo bico pra atravessar o país sozinha foi você.

— Isso se chama planejamento financeiro e determinação — corrigi.

— Isso se chama obsessão pura e simples.

Fiquei em silêncio por dois segundos inteiros, absorvendo o golpe.

— Você tá muito folgado pro meu gosto.

— Eu cresci, aceita.

— Continua baixinho do mesmo jeito.

— Eu tenho um metro e cinquenta, tá legal?! — ele protestou, a voz afinando de indignação.

— Nossa, um verdadeiro gigante da floresta.

— Cala a boca.

Sorri, me ajeitando melhor nos travesseiros. Era bom demais implicar com ele. Ainda mais porque o moleque não amarelava e revidava sem pensar duas vezes, com aquele espírito competitivo que só irmão mais novo tem.

De repente, ouvi uma voz abafada e distante ao fundo da ligação:

— Ethan!

— Quê? — ele gritou de volta, longe do telefone.

— Para de comer bobagem antes da janta!

Ele tentou tampar o microfone com a mão, mas a vedação foi um fracasso absoluto e deu para ouvir o diálogo inteiro.

— Já tô indo, mãe!

Ele voltou para a linha, arquejando de leve:

— Droga, eles descobriram a minha reserva estratégica de salgadinhos.

— Você roubou comida da despensa?

— Eu não roubei. Eu escondi comida preventiva.

— Onde, Ethan?

— Debaixo da cama.

Fechei os olhos, massageando as têmporas.

— Ethan...

— O quê?

— Você é um animal silvestre por acaso?

— Foi uma decisão puramente estratégica!

— Foi nojento. Vai dar formiga no seu quarto.

— Você só fala isso porque não viu o meu esconderijo novo atrás do armário.

— Nem quero ver. Mantenha os seus segredos longe de mim.

Ele riu. Aquele riso alto, debochado e vitorioso de irmão mais novo.

— E aí? — perguntou de repente, mudando o tom para uma curiosidade descarada. — Já arrumou um namorado aí no gelo do Alasca?

Revirei os olhos com tanta força que por um segundo achei que ia enxergar meu próprio cérebro.

— Não, Ethan.

— Namorada?

— Também não.

— Um cachorro?

— Ethan.

— Um papagaio das neves?

— Ethan.

— Um pinguim?

— Você sabe que não tem pinguim no Alasca, né? Pinguim é no Polo Sul.

Houve um pequeno e desconfiado silêncio na linha.

—... Tem certeza disso?

Sorri.

— Absoluta. Geografia básica.

— Droga. Achei que tinha feito uma piada genial de clima.

— Você fez. Só estava cientificamente e geograficamente errada.

— Detalhes técnicos, Samantha. Não apegue a isso.

Cruzei uma perna sobre a outra na cama, ajeitando o celular no ombro.

— E você? Já arrumou uma namorada na escola?

— Claro que já. Sou um sucesso.

Arqueei uma sobrancelha, mesmo sabendo que ele não podia ver.

— Sério?

— Não. Eu tenho doze anos, me respeita.

— Ainda bem que você tem essa autoconsciência.

— Mas a Júlia gosta de mim — ele soltou, tentando parecer casual.

— Quem é Júlia?

— Ninguém importante.

— Ah, então você gosta dela mesmo.

— Não gosto, não!

— Ethan...

— Tá bom! — ele cedeu, irritado. — Ela gosta de mim. Mas eu mantenho a postura. Sou misterioso.

Comecei a rir alto, rolando um pouco para o lado na cama.

— Misterioso? Você?

— Sim, ué.

— Ethan, você tropeçou no próprio cadarço e caiu de cara no gramado na festa da escola no mês passado.

— Aquilo foi estratégia pura.

— Estratégia pra quê, me explica?

— Pra chamar atenção.

— E funcionou?

— Aparentemente sim.

— Todo mundo riu da sua cara, garoto.

Ele ficou indignado do outro lado:

— Você é oficialmente a pior irmã do mundo.

— E, mesmo assim, foi você quem me ligou.

— Foi um erro. Me arrependo amargamente.

— Então desliga.

Silêncio.

Um segundo. Dois. Três. Quatro. Cinco.

Sorri sozinha no escuro do quarto, ouvindo apenas a respiração dele.

— Não vai desligar? — perguntei, bem baixinho.

Ele respondeu num resmungo quase inaudível, engolindo o orgulho:

— Não.

— Por quê?

Outro silêncio longo se fez na linha. Quando ele voltou a falar, aquela casca de garoto durão caiu completamente, e a voz saiu bem mais baixa, vulnerável e sincera:

— Porque eu tava com saudade.

Meu sorriso zombeteiro desapareceu na hora. A provocação e a implicância deram lugar àquele aperto quente e gostoso no peito que só a família de verdade conseguia provocar.

— Eu também tava com saudade, pirralho.

— Para de me chamar de pirralho...

— Só quando você crescer.

— Eu cresci três centímetros inteiros esse mês, tá?

— Nossa. Impressionante. Daqui a pouco você consegue alcançar a maçaneta da porta sem ter que subir na ponta do pé.

— BELLA! — ele gritou, caindo na minha armadilha e usando meu nome de verdade sem perceber.

Caí na risada, o som ecoando livre pelo quarto.

Do outro lado da linha, ouvi o Ethan reclamar alguma coisa totalmente incompreensível enquanto a minha mãe perguntava, ao fundo, por que diabos ele estava berrando com o telefone.

Por alguns minutos valiosos, o meu apartamento alugado deixou de parecer um lugar frio e vazio. A voz irritada e viva do meu irmão preenchia o silêncio e aquecia minha alma muito melhor do que qualquer aquecedor ou música jamais conseguiriam.