Os dias passaram depressa. Rápido demais, como se o próprio tempo estivesse com pressa de ver até onde aquela loucura nos levaria.

No começo, logo quando cheguei ao Alasca, eu contava rigorosamente cada dia. Depois passei a contar as semanas, vendo o calendário acumular marcas de caneta. Até que, sem perceber, simplesmente parei de contar. A vida não era mais um plano de fuga ou uma contagem regressiva; ela simplesmente... acontecia. Eu havia me tornado uma peça encaixada, quase sem esforço, na rotina diária dos Denali. E, de alguma forma inevitável, na dos Cullen também.

E eu... bom, eu estava sempre lá. A garota humana de dezoito anos que virou mobília e parte da família.

Esme começou a pedir minha opinião antes de escolher a decoração de alguma sala ou arranjar as flores no vaso.

— O que acha desse tom de azul para as cortinas, querida? Ou fica muito frio para quem precisa de calor? — ela perguntava, com os olhos brilhando de pura dedicação maternal.

Carlisle me emprestava tomos pesados de história e medicina, e depois passávamos horas preciosas na varanda ou na biblioteca, discutindo sobre as filosofias de séculos passados sob a luz suave dos fins de tarde.

Jasper, por sua vez, gostava de caminhar comigo pela densa floresta congelada. Ele mantinha o passo lento para acompanhar minhas pernas humanas na neve, caminhando em silêncio absoluto. Curiosamente, aqueles silêncios nunca eram desconfortáveis ou pesados. Onde Jasper estava, a paz nos envolvia, e nos entendíamos sem precisar gastar uma única palavra.

Rosalie, depois de longos e exaustivos meses fingindo que apenas me tolerava por pura cortesia social, finalmente admitiu, com um muxoxo e os braços cruzados enquanto eu manobrava o carro:

— É... você dirige um pouquinho menos mal hoje em dia. Não raspou a roda na calçada.

Foi, sem dúvida alguma, o elogio mais generoso e emocionante que ela já me fizera em duas vidas inteiras.

O Emmett já me tratava abertamente como uma irmã mais nova. Infelizmente para mim. Isso significava que eu me tornara o alvo direto de oitenta por cento de todas as piadas, pegadinhas e desafios imbecis dele. Os outros vinte por cento, é claro, ainda eram cautelosamente destinados à Rosalie — quando ele tinha coragem suficiente para arriscar a própria integridade física.

E a Alice...

Bem... a Alice continuava me arrastando sem piedade para os shopping centers de Anchorage sob qualquer pretexto esfarrapado, jurando de pés juntos que meu guarda-roupa "ainda precisava de uma salvação divina urgente". Eu rebatia na mesma moeda, afirmando que ela era um perigo público e um desastre financeiro ambulante com cartão de crédito. Nenhuma das duas jamais conseguiu convencer a outra. Mas adorávamos a rotina.

Mas havia uma coisa... Uma única e dolorosa coisa... Que nunca, em hipótese alguma, mudava naquela dinâmica perfeita.

Edward nunca aparecia. Nem uma única vez.

No início, no primeiro mês, cheguei a pensar que fosse mera coincidência de agendas. Depois imaginei que ele estivesse viajando pelo mundo, Caçando, isolado. Então comecei a reparar em um padrão sutil, quase imperceptível. Sempre que alguém da família esbarrava na possibilidade de mencionar o nome dele na minha frente... o assunto mudava. Naturalmente. Suavemente. Uma manobra diplomática ensaiada à perfeição por seres imortais.

Eu nunca perguntava nada. Não podia. Perguntar diretamente por Edward Cullen faria parecer que eu estava procurando especificamente por ele, que sabia quem ele era. E eu tinha passado meses construindo cuidadosamente a imagem impecável de uma garota comum que conheceu aquela família por mero acaso do destino numa trilha errada.

Então eu apenas engolia a curiosidade e guardava a pergunta para mim. Todas as noites, no silêncio do meu quarto alugado em Anchorage, antes de fechar os olhos para dormir, a mesma frase ecoava no escuro:

Onde você está?

Será que ele tinha seguido o conselho angustiado que eu lhe dera na minha vida passada? Será que estava finalmente conhecendo o mundo sem mim? Vivendo intensamente cada segundo? Tentando seguir em frente... exatamente como eu havia implorado naquela outra existência, antes de tudo acabar?

A ideia de que ele estivesse bem e livre deveria me deixar feliz e aliviada. Mas, curiosamente... só me deixava esmagada de tanta saudade.

Numa manhã especialmente fria, o termômetro do painel marcando congelantes graus negativos, dirigi até a casa dos Denali. Tanya havia me mandado uma mensagem animada na noite anterior, dizendo que todos os Cullen e Denali estariam reunidos na propriedade para passar o dia inteiro juntos.

Sorri durante todo o trajeto de estrada. O clima estava mudando e começava a nevar forte. Flocos pequenos e delicados dançavam diante do para-brisa da minha picape velha enquanto eu manobrava e estacionava no pátio de cascalho.

Desliguei o motor, sentindo o silêncio da floresta me envolver. Peguei minha mochila pesada no banco do passageiro e desci do carro.

O ar gelado da montanha atingiu meu rosto como uma chicotada leve, fazendo minhas bochechas e o nariz arderem imediatamente. Respirei fundo, apreciando o momento. O cheiro de pinheiros cobertos de neve fresca era estranhamente acolhedor, com gosto de lar.

Bati a porta do carro com um baque abafado pela neve. Mal tinha dado três passos hesitantes em direção à varanda da casa quando a grande porta de entrada se abriu num solavanco rápido.

Alice.

Ela praticamente surgiu correndo pela varanda de madeira, os pés mal tocando os degraus. Mas o seu sorriso radiante e habitual não estava lá. Na verdade... ela parecia profundamente preocupada. Tenso de um jeito que eu raramente via.

— Bella — chamou ela, a voz saindo um tom mais baixo do que o normal enquanto diminuía o passo ao se aproximar de mim.

Franzi a testa, desacelerando até parar no meio do caminho.

— Alice? Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem?

Ela hesitou. Foi uma hesitação minúscula, um piscar de olhos prolongado demais, uma fração de segundo que qualquer ser humano comum jamais perceberia. Mas eu a conhecia. Eu percebi.

— Hoje... — Alice respirou discretamente, um gesto puramente humano para ganhar tempo. — Hoje talvez não seja um bom dia para a gente se juntar, Bella.

Pisquei, pega de surpresa pelo banho de água fria.

— Como assim? Aconteceu algo grave com a família?

Alice passou a mão rapidamente pelos próprios braços cobertos pelo casaco fino, esfregando-os. Era um hábito inconsciente que ela só manifestava quando estava profundamente desconfortável ou tentando esconder uma visão desconexa.

— Você... você poderia voltar para Anchorage e vir amanhã? Ou depois de amanhã? Qualquer outro dia da semana seria incrível. De verdade.

Olhei por cima do ombro dela, encarando a fachada elegante da casa. A propriedade estava estranhamente silenciosa. Nenhuma risada do Emmett ecoando pelas janelas, nenhum som de música vindo da sala. Estranho. Muito, muito estranho.

— Claro — respondi devagar, engolindo a frustração e a curiosidade que começavam a borbulhar. — Não tem problema nenhum, Alice. Eu posso ir sim.

Ela abriu um sorriso. Mas era um sorriso nitidamente forçado, tenso, carregado de um alívio quase palpável.

— Obrigada, Bella. De verdade. E me desculpa por fazer você vir até aqui à toa nesse frio.

— Tudo bem, não esquenta.

Sorri de volta para tranquilizá-la, embora a dúvida estivesse praticamente me devorando viva por dentro. Se a Alice estava me mandando embora sem rodeios, se estava me afastando da casa... alguma coisa de proporções astronômicas estava acontecendo ali dentro.

Resolvi não pressionar. Não era meu papel bancar a invasora.

Dei meia-volta sobre o cascalho coberto de branco e comecei a caminhar pesadamente de volta para o meu carro. As minhas botas de neve afundavam levemente na camada macia recém-caída, fazendo um som crocante a cada passo. Enfiei a mão no bolso do casaco grosso, tirei a chave e destravei a porta.

Estendi a mão congelada para puxar a maçaneta de metal do veículo.

Então...

— Alice.

A voz masculina atravessou a extensão do jardim coberto de neve.

Baixa. Calma. Profunda. Aveludada como bronze derretido.

O meu mundo inteiro parou instantaneamente.

Não. Foi pior. O meu corpo inteiro congelou no lugar.

A minha mão direita ficou suspensa no ar, a escassos milímetros de tocar a maçaneta da picape. O ar sumiu dos meus pulmões com a violência de um soco.

Eu conhecia aquela voz. Eu a reconheceria em qualquer canto do universo, em qualquer época, sob qualquer circunstância. Mesmo depois de dezoito longos anos de separação. Mesmo depois de ter morrido, renascido e atravessado duas vidas inteiras para chegar até ali.

Meu coração desgovernou. Começou a bater contra as minhas costelas com tanta força, tão descontrolado, que a dor física no peito me fez sufocar.

Lentamente... dolorosamente... rodei os calcanhares na neve e virei a cabeça.

Ele estava parado perto da linha sombria das árvores da floresta, no limite do jardim da frente. As mãos afundadas nos bolsos de um casaco escuro e pesado. Os cabelos acobreados, naquele tom único de bronze desarrumado, estavam um pouco maiores do que eu me lembrava, caindo em mechas desalinhadas sobre a testa. A neve fina caía suavemente sobre seus ombros largos sem que ele parecesse notar ou se importar com o frio.

Edward.

Por um milissegundo avassalador, fui tomada pela ilusão trágica de que o tempo tinha retrocedido. De que eu ainda era a antiga Bella, a alma que o amava sem medidas. De que bastava eu romper a distância entre nós, correr pela neve, me atirar nos braços dele, enterrar o rosto no seu pescoço frio e chamá-lo pelo nome que passei anos sussurrando no escuro.

Mas a realidade caiu sobre mim como uma guilhotina.

Não. Eu não era mais aquela garota.

Agora eu trajava outro corpo. Tinha outra aparência no espelho. Carregava outro nome nos documentos. Vivia outra vida inteira.

Edward ergueu os olhos dourados. Eles cruzaram o espaço aberto e encontraram os meus. E simplesmente permaneceram ali, fixos.

Meu coração, que antes martelava feito louco, simplesmente parou. Esqueceu por completo como funcionava a biologia do meu peito.

Ele me observava da borda da floresta. Sem qualquer rastro de reconhecimento. Sem um sobressalto de surpresa. Sem a menor fagulha de conexão. Ele me olhava da exata mesma forma que um desconhecido qualquer olha para outro estranho na rua.

Mas havia algo profundamente diferente nele. Algo assustadoramente errado.

Levou alguns segundos de observação atenta para que eu conseguisse processar o que estava vendo.

Edward parecia... exausto. Cansado até a última fibra da sua existência.

O que era um absurdo completo. Vampiros não se cansavam. Não dormiam, não desbotavam, não gastavam energia vital como os humanos.

Mesmo assim... havia uma força gravitacional de peso e ruína em sua postura. Nos seus ombros levemente caídos. Na maneira como ele mantinha a cabeça ligeiramente curvada, como se carregar o próprio corpo fosse uma pena insuportável. Até seus olhos, naquele tom de topázio dourado, pareciam opacos, desprovidos de vida e de luz.

O brilho irônico e afiado que eu conhecia tão bem... aquele sorriso torto e charmoso sempre pronto para surgir no canto dos seus lábios quando ele me provocava... nada disso existia mais. Estava destruído.

Era como olhar para uma fotografia antiga e preciosa que havia passado tempo demais exposta ao sol e perdido todas as suas cores vibrantes, restando apenas o fantasma em sépia do que um dia foi bonito.

Meu peito apertou com uma violência avassaladora. Doeu de verdade.

Porque aquele ser quebrado parado na neve não era o Edward vibrante e apaixonado que eu havia deixado para trás ao morrer. Aquele era alguém que carregava no peito uma tristeza tão devastadora, tão antiga e tão profunda quanto a minha própria.

E, pela primeira vez desde que reencarnei e pisei neste novo mundo... senti um pavor paralisante de descobrir o que diabos tinha acontecido com ele durante todos esses anos em que estive ausente.

Meu coração parecia querer rasgar o peito e fugir dali, num galope descontrolado que ressoava como um tambor retumbante dentro dos meus ouvidos.

Edward.

Era ele. Ali, palpável, ao alcance do meu toque. Depois de dezoito longos anos de dor e escuridão, depois de meses de uma espera silenciosa, depois de infinitas perguntas lançadas ao vento e de tantas noites em claro imaginando em que canto do mundo ele estaria escondido... Ele finalmente estava bem na minha frente, sob a mesma neve, respirando o mesmo ar.

E não fazia a menor ideia de quem eu era.

Respirei fundo. Uma vez. Duas. Três. Forcei meus pulmões humanos a cumprirem seu papel e trabalharem, sugando o ar gelado que queimava até a garganta. Obriguei os músculos do meu rosto a permanecerem neutros, congelados numa máscara de cortesia inocente. Quanto ao meu coração... bem, esse eu já tinha perdido o controle totalmente, ele pertencia a ele, afinal.

Sem desviar meus olhos dos dele, travada na exata mesma postura de choque, perguntei para a fada ao meu lado, esforçando-me ao máximo para soar casual:

— Quem é ele?

Alice acompanhou a linha do meu olhar, virando o rosto delicado para a borda da floresta. O sorriso habitual que ela costumava ostentar desapareceu no mesmo instante, dando lugar a uma sombra de melancolia. Ela respondeu baixo, a voz quase sumindo no sopro do vento, carregada de um carinho dolorido:

— Meu irmão.

Meu irmão.

Aquelas duas palavras atingiram meu peito com a força de um impacto físico. Não porque a informação fosse uma novidade para mim, obviamente. Mas porque fazia tanto tempo que eu não o via ser apresentado de forma tão simples e cotidiana. Como apenas... o irmão da Alice. Não o homem que havia virado meu mundo de cabeça para baixo. Não o amor que destruiu e reconstruiu minha eternidade.

Engoli em seco, sentindo um nó doloroso se formar na minha garganta.

— Posso... ir até lá cumprimentá-lo?

Alice pareceu hesitar. Foi uma hesitação milimétrica, uma sombra de dúvida que cruzou seus olhos dourados por uma fração de segundo, como se estivesse ponderando um risco invisível. Depois, franziu levemente a testa e assentiu:

— Claro. Pode sim.

Minhas pernas pareciam ter virado algodão molhado, moles e sem firmeza. Cada passo que eu dava em sua direção fazia a neve recém-caída ceder sob as solas das minhas botas com um som suave e crocante. Eu podia sentir o frio cortante atravessar o couro e congelar meus pés, ou talvez fosse apenas a minha mente tentando me convencer de que eu não estava num sonho lúcido, de que tudo aquilo era assustadoramente real.

Edward continuava estático, uma estátua de mármore esculpida em dor. O olhar dele permanecia perdido em algum ponto cego e distante no meio dos pinheiros fechados da floresta. Ele nem sequer parecia ter percebido a minha aproximação, isolado em seu próprio universo particular de fantasmas.

Parei a pouco menos de dois metros dele. A distância de um braço estendido.

Por um segundo avassalador... esqueci completamente como se articulavam as palavras. Passei dezoito anos inteiros ensaiando esse exato reencontro na minha cabeça, imaginando diálogos perfeitos, frases marcantes e revelações intensas. Mas nenhum dos meus milhares de roteiros mentais havia me preparado para a aridez sufocante daquele silêncio.

Respirei fundo, buscando forças no fundo da alma. Estendi a mão direita na direção dele.

Ela tremia. Tremia tanto que fiquei horrorizada com a minha própria fraqueza e a recolhi no meio do caminho, disfarçando o gesto ao enfiá-la rapidamente no bolso fundo do meu casaco pesado.

— Oi...

Minha voz saiu mais baixa e trêmula do que eu pretendia, uma fumaça branca de vapor denunciando minha respiração desregulada no ar gelado.

Ele não se moveu por inteiro; apenas virou lentamente o rosto na minha direção. Os olhos dourados, do tom de um topázio escuro e nebuloso, finalmente encontraram os meus.

Tão perto... Ter ele ali, tão perto, era infinitamente pior. Muito pior do que a distância.

Porque agora eu conseguia enxergar os detalhes cruéis que o tempo e a dor haviam esculpido nele. Pequenas sombras arroxeadas sob os olhos, a tensão permanente desenhada na linha da mandíbula, a expressão de um cansaço secular e absoluto. A tristeza silenciosa e devastadora oculta atrás daquela máscara fria e imóvel.

O meu Edward... O meu garoto de sorriso torto e olhar brilhante parecia ter esquecido completamente como se sorria.

Forcei os cantos dos meus lábios para cima, desenhando um sorriso pequeno e trêmulo, a coisa mais difícil que já fiz na vida:

— Eu sou Isabella.

Fiz uma pausa calculada, sentindo o ar me faltar.

— Mas todo mundo me chama de Bella.

O mundo inteiro parou no mesmo milissegundo.

Não foi apenas uma impressão poética da minha mente atordoada; foi como se a física tivesse entrado em colapso, como se o vento tivesse congelado no meio do ar e os flocos de neve tivessem suspenso sua queda.

Edward congelou. Completamente.

O brilho tênue dos seus olhos dourados perdeu o foco por um segundo inteiro. As pupilas dilataram e se contraíram em pânico. A linha reta da sua mandíbula travou com tanta força que os músculos da sua bochecha se tensionaram visivelmente sob a pele pálida.

Era como se aquelas cinco letras...

B-e-l-l-a.

...tivessem atravessado séculos de escuridão, rasgos no espaço-tempo e barreiras da morte para alcançá-lo e rasgar sua alma ao meio.

Meu coração se partiu em mil pedaços bem ali, de pé na neve.

Porque eu conhecia aquela expressão perfeitamente. Não era surpresa. Não era reconhecimento da minha alma. Era dor. Dor pura. Crua. Sangrenta e insuportável.

Ele não estava olhado para mim, para a mulher viva de dezoito anos parada na sua frente com roupas de inverno. Ele estava encarando o fantasma de uma lembrança. Uma lembrança sagrada e intocável que eu mesma havia deixado para trás ao morrer em seus braços.

Esperei. Meu peito gritava por uma reação. Esperei que ele dissesse qualquer coisa, que segurasse minha mão, que soltasse um sussurro, que dissesse um simples "prazer"... Qualquer coisa que me tirasse daquele abismo.

Mas nada aconteceu.

Edward apenas continuou me encarando fixamente, com os olhos arregalados e vazios, como um homem sufocado tentando desesperadamente puxar o ar depois de ter levado um soco avassalador no estômago.

E então...

Sem proferir uma única palavra, sem um sussurro, sem um sobressalto...

Ele desviou os olhos do meu rosto. Virou o corpo rígido na direção oposta e começou a caminhar.

Acelerou o passo. Passou por Alice sem olhar para ela, passou pela varanda da casa dos Denali e seguiu direto para a escuridão densa da floresta. Sem olhar para trás. Sem responder ao meu cumprimento. Sem sequer acenar uma despedida.

O silêncio brutal que ele deixou para trás no jardim foi muito mais doloroso, cortante e humilhante do que qualquer rejeição em palavras poderia ter sido.

Fiquei totalmente parada no meio do caminho. Congelada. O olhar fixo e estático no ponto exato onde a figura escura dele havia acabado de desaparecer entre os troncos altos dos pinheiros.

Minha garganta queimava como se eu tivesse engolido brasas.

Respirei fundo, puxando o ar rasgando. Não. Eu não podia chorar ali. Não na frente da Alice. Não na frente deles.

Alice surgiu ao meu lado num piscar de olhos, sem fazer barulho na neve. A expressão no rosto dela era de um constrangimento profundo e doloroso.

— Bella... Meu Deus, me desculpa. Sinto muito por isso — disse ela, a voz carregada de culpa.

Desviei meus olhos da floresta e os foquei nela. Forcei um sorriso rápido. Ou tentei criar algo parecido com um.

— Tudo bem — minha própria voz soou estranha, oca e distante, como se estivesse saindo de um rádio fora de sintonia. — Acho que... eu devo ter falado alguma coisa errada.

Alice balançou a cabeça veementemente na mesma hora, negando com firmeza:

— Não! Não, Bella, não foi você de jeito nenhum.

— Então... por que ele...?

Ela abaixou a cabeça, os olhos de fada fixos nas próprias botas cobertas de neve.

— Meu irmão... o Edward não é mais o mesmo há muitos, muitos anos.

Voltei a olhar mais uma vez para a imensidão verde e branca da floresta. Eu sabia. Santo Deus, agora eu sabia o peso exato daquela ruína.

— Às vezes ele simplesmente... surta e vai embora. Não consegue ficar — continuou Alice, tentando remendar o estrago. — Não é nada pessoal contra você, juro. Ele é assim com todo mundo.

Forcei outra vez aquele sorriso falso e torto, que a essa altura já fazia os músculos do meu rosto doerem de tensão:

— Relaxa, Alice. Tá tudo bem. Acontece.

Ela ainda parecia querer dizer alguma coisa, dar uma explicação melhor, talvez consoladora. Mas não disse nada. Talvez porque nem ela mesma soubesse como explicar a escuridão do próprio irmão. Talvez porque existam dores e traumas tão monstruosos que nem mesmo vampiros centenários conseguem traduzir em palavras.

— Eu acho melhor eu ir. Volto outro dia — falei, dando um passo para trás em direção ao meu carro.

— Pode ser — ela assentiu baixinho, desolada. — A gente se fala.

Entrei no carro. Bati a porta pesada, isolando o som do vento. Respirei fundo, com as mãos trêmulas. Liguei o motor, engatei a marcha e tirei a picape dali.

Dirigi todo o trajeto de volta para Anchorage.

Durante todo o caminho pela estrada sinuosa e coberta de gelo, eu não chorei. Nem uma única lágrima ousou cair. Mantive as duas mãos firmes, num aperto de garra, sobre o volante. Os olhos fixos, obstinados e secos na pista escura à minha frente. Como se nada de mais tivesse acontecido. Como se o meu coração não tivesse acabado de ser pisoteado e esmagado pela segunda vez na mesma existência.

Foi só quando passei pela porta do meu apartamento alugado... que a armadura ruiu por completo.

Tranquei a porta atrás de mim. Nem tirei o casaco pesado de neve, nem me dei ao trabalho de desatar os cordões das botas. A mochila pesada escorregou do meu ombro e atingiu o piso de madeira com um baque surdo e esquecido. Eu não me importei.

Caminhei cambaleando, meio cega, pelo corredor curto até o quarto. Minhas pernas pesavam toneladas, como se cada passo me custasse a última gota de energia vital que me restava.

Cheguei à beira da cama e simplesmente desabei sobre o colchão.

Afundei o rosto direto no travesseiro macio. Por alguns breves segundos de negação, tentei desesperadamente segurar o colapso. Respirei. Uma vez. Outra. Mais uma.

Não adiantou de nada.

O primeiro soluço rasgado escapou da minha garganta antes que eu pudesse sufocá-lo. Depois veio outro, mais alto, mais doloroso. E outro.

As lágrimas finalmente transbordaram, quentes e incontroláveis, encharcando o tecido do travesseiro. Copiosas. Silenciosas. Devastadoras.

A imagem dele não saía da minha mente por um segundo sequer. A reação visceral e destruída em seu rosto perfeito quando ouviu meu nome sair da minha boca. Aquele olhar de luto cru e insuportável. O silêncio sepulcral. A imagem das costas dele se afastando e se perdendo no meio dos pinheiros.

Ele tinha ido embora. Mais uma vez.

E a ironia mais cruel e perversa de todas... era que, desta vez, fui eu, com a minha própria voz e com o meu próprio nome, quem o fez fugir de mim.

Encolhi as pernas contra o peito, abraçando os próprios joelhos, e fechei os olhos com toda a força que me restava, afundando na minha própria dor.

— Idiota... — sussurrei entre os soluços pesados que sacudiam meu corpo inteiro.

Nem sabia mais se estava xingando a ele por ter fugido... ou a mim mesma por ter sido tão ingênua a ponto de achar que o tempo curaria qualquer coisa.

Talvez estivesse xingando os dois.

Porque, depois de dezoito anos sonhando acordada com a magia desse reencontro... tudo o que eu tinha conseguido fazer, no fim das contas, foi abrir a ferida dele outra vez e fazê-lo sangrar.