Notas iniciais
Postando essa fic que tenho essa idéia há anos e nunca consegui terminar, mas finalmente colocando em prática. Espero que gostem!

A eternidade é uma chatice monumental.

A maioria das pessoas mataria para viver para sempre. Filmes adoram essa ideia. Livros lucram com ela. Vampiros parecem fazer disso sua personalidade inteira. Todo mundo imagina que a imortalidade se resume a aventuras sem fim, sabedoria infinita e tempo de sobra para aprender vinte idiomas, tocar quinze instrumentos e decifrar o significado da existência.

Mas eu? Bem, eu já estou morta. E vou te contar: é uma droga.

Ninguém fala sobre o tédio. Ninguém menciona que, depois de algumas décadas, você começa a desenvolver opiniões bem complexas sobre as rachaduras na parede. Ou que o ápice da sua semana pode ser uma folha seca colada pelo lado de fora da janela da cozinha. A morte deveria vir com um manual de instruções. Algo útil, tipo: “Parabéns por falecer! Aqui estão algumas atividades lúdicas para manter sua sanidade mental pelos próximos cem anos.”

Eu teria apreciado o gesto.

Flutuei lentamente pelo corredor da casa, sem destino algum. Não que existisse algum lugar para onde eu pudesse ir. Conhecia cada centímetro daquela construção velha melhor do que conhecia a mim mesma. Sabia onde as tábuas rangiam, onde a chuva escorria pelo telhado durante tempestades e exatamente quantas rachaduras existiam na parede do segundo andar.

Cento e vinte e três.

Cento e vinte e quatro, se eu estivesse contando aquela perto da janela.

E eu estava.

Porque não havia mais nada para fazer.

Atravessei uma parede e apareci na antiga sala de jantar. Os móveis tinham desaparecido décadas atrás. Algumas pessoas haviam invadido a casa ao longo dos anos para roubar o que restava, mas nunca ficaram muito tempo. A floresta ao redor afastava a maioria dos curiosos. O lugar tinha fama de ser assombrado.

O que era engraçado.

Porque realmente era.

E eu era uma assombração terrível.

Já tinha tentado assustar pessoas algumas vezes. A maioria saía correndo antes mesmo de me ver. Os poucos que realmente me viram gritavam tanto que eu acabava ficando constrangida. Não havia satisfação nenhuma naquilo. Era difícil construir uma reputação sobrenatural quando você tinha o senso de humor de uma adolescente e passava metade do tempo conversando sozinha.

A maioria das pessoas mataria para viver eternamente. Eu sei porque já ouvi isso muitas vezes. Quando você passa décadas presa em uma casa abandonada sem ter nada melhor para fazer, acaba ouvindo conversas de turistas perdidos, caçadores, adolescentes fazendo desafios idiotas e bêbados que tomaram decisões questionáveis.

Os humanos adoram romantizar a imortalidade.

"Eu teria todo o tempo do mundo."

"Eu aprenderia tudo."

"Eu viajaria para todos os lugares."

Que adorável.

Eu também tinha todo o tempo do mundo.

O problema era que eu estava presa no mesmo lugar.

Morta.

Sozinha.

E completamente entediada.

Ninguém fala sobre essa parte.

Ninguém fala que, depois de alguns anos sem nada acontecer, você começa a criar formas estranhas de entretenimento. Depois de algumas décadas, essas formas ficam ainda mais estranhas.

Por exemplo, havia uma goteira no teto da cozinha.

Eu a acompanhava havia muito tempo.

Não fazia ideia de quanto tempo exatamente. Anos? Décadas? Difícil dizer. Quando você não dorme, não envelhece e não tem calendário, os dias acabam se misturando numa sopa confusa de tempo.

Aquela goteira, porém, era confiável.

Ping.

Ping.

Ping.

Sempre no mesmo ritmo.

Eu costumava imaginar que ela estava tentando se comunicar comigo.

Até criei uma personalidade para ela.

Seu nome era Gregory.

Gregory era previsível.

Gregory era consistente.

Gregory nunca me decepcionava.

Gregory também era uma goteira.

O que dizia muito sobre o estado da minha vida social.

Flutuei pela cozinha observando a água cair pela milésima vez. Talvez milionésima. Não sei. Parei de contar depois que percebi que ninguém entregaria um prêmio.

Abandonei Gregory e atravessei o balcão em direção à sala de estar.

A casa era velha, o papel de parede desbotado descascava como pele seca e as janelas acumulavam uma poeira cinzenta que eu já tinha tentado limpar umas cinquenta vezes. Não funcionava. Fantasmas aparentemente não têm densidade molecular suficiente para segurar um pano de prato. Uma injustiça. Eu deveria ter ganhado algum benefício no pacote pós-vida. Voar de verdade, mover objetos com a mente, possuir televisões... qualquer clichê de Hollywood serviria.

Mas não. Eu só conseguia atravessar paredes.

Parabéns para mim.

Atravessei a mesma parede mais três vezes, seguidas. Não por necessidade, mas pelo puro impulso do tédio. Quando você é um espírito, atravessar tijolos vira o equivalente mecânico de batucar uma caneta na mesa. Um tique nervoso irritante.

Parei diante da janela do segundo andar. Lá fora, a floresta abraçava a propriedade com seus pinheiros altos, névoa densa e uma chuva fina persistente. Se a depressão clínica escolhesse um endereço postal, ela certamente moraria em Forks.

Fiquei observando as árvores por minutos ou horas. O tempo é um conceito abstrato quando não se dorme ou come. A casa permanecia em seu silêncio sepulcral. Velha. Abandonada. Esquecida.

Assim como eu.

Não que eu me importasse.

Quer dizer... eu me importava um pouco.

Tudo bem, eu me importava muito. O verdadeiro problema era que eu não lembrava de quase nada.

Soltei um suspiro — ou simulei o movimento mecânico dele, já que meus pulmões eram apenas uma lembrança estética. Ninguém tinha me explicado as regras desse jogo. Ninguém me disse o motivo de eu estar presa aqui. Eu não lembrava da minha morte, da minha família, dos meus amigos ou da vida que deixei para trás.

Às vezes, fragmentos flutuavam na minha mente: o cheiro de maresia, uma voz excessivamente suave, uma risada calorosa. Mas sumiam antes que eu pudesse agarrá-los. Era como tentar montar um quebra-cabeça depois que alguém jogou noventa por cento das peças no oceano.

Tudo o que me restava era um nome: Bella. E uma prisão disfarçada de lar.

Já tinha tentado sair inúmeras vezes.

No começo, eu acreditava que bastava caminhar.

Depois pensei que precisava encontrar algum objeto especial.

Mais tarde imaginei que havia uma fronteira invisível.

Em uma ocasião particularmente desesperada, tentei correr em zigue-zague pela floresta durante quase uma hora.

O resultado?

Apareci novamente na sala.

Exatamente na sala.

Como se o universo tivesse me pegado pela gola da camisa e dito:

"Não."

Foi humilhante.

Desde então, parei de tentar.

Na maior parte do tempo.

Talvez.

Tudo bem, eu ainda tentava de vez em quando.

Mas apenas por princípio.

Apoiei as mãos fantasmagóricas no parapeito da janela, encarando a mesmice da névoa. Nada mudava. Nada acontecia. Nada nunca—

Um lampejo de cor cortou a monotonia verde e cinza.

Um pequeno caminhão de cor carcomida, um tom desbotado de vermelho, apareceu na estrada de terra ao longe. Franzi a testa, meu peito simulando uma batida que já não existia.

Estranho. Ninguém passava por aquela rota.

Observei o veículo desacelerar, serpenteando entre os pinheiros altos até desaparecer sob a copa das árvores. Alguém perdido? Um morador novo na cidade? Um assassino descartando um corpo? Eu não tinha dados suficientes para eliminar nenhuma das hipóteses.

Colei os olhos no vidro embaçado, esperando. Porque qualquer sinal de vida humana — mesmo que perigosa — era infinitamente melhor do que voltar a conversar com o Gregory.

Continuei com o rosto colado à janela por mais alguns segundos, alimentando a vaga esperança de que o caminhão reaparecesse.

Ele não reapareceu.

A estrada de terra voltou a ficar deserta, engolida pela névoa e por aquelas árvores úmidas que pareciam existir com o único propósito de deixar o cenário de Forks ainda mais deprimente. Meu entusiasmo evaporou tão rápido quanto tinha surgido.

Cruzei os braços e encostei a testa no vidro frio.

— Claro que não era para cá — resmunguei.

Era ridículo o quão desesperada eu estava. Bastou ver um vislumbre de metal vermelho à distância e meu cérebro imediatamente projetou o roteiro de uma nova família se mudando para cá. Nova família significava pessoas. Pessoas significavam entretenimento. E entretenimento era o recurso mais escasso do universo quando você era uma fantasma presa em um casarão no meio do nada.

Mas não. Provavelmente era apenas um entregador perdido. Ou um madeireiro. Ou um serial killer.

Pensando bem, um serial killer seria interessante. Pelo menos me renderia algumas semanas de distração espiritual.

Afastei-me da janela com um suspiro dramático. Ninguém estava presente para apreciar meu sofrimento milimetricamente ensaiado, mas eu fazia questão de manter os meus padrões dramáticos elevados.

Atravessei a parede da sala e flutuei até o corredor principal. As tábuas antigas do chão estavam cobertas por uma camada cinzenta de poeira e o papel de parede continuava se soltando em tiras tristes perto da escada. Eu conhecia cada mínimo detalhe daquele lugar. Cada. Único. Detalhe. Quando você habita a mesma estrutura por décadas, acaba desenvolvendo uma familiaridade desconfortável com a decoração decadente.

Eu poderia desenhar a planta inteira da casa de memória. De olhos fechados. Enquanto recitava os nomes dos esquilos que frequentavam o quintal. Não que eu já não tivesse feito isso... mais de uma vez.

Inevitavelmente, minha mente acabou voltando para os Smiths.

Agora aqueles tinham sido moradores de respeito. Talvez a estadia não tenha sido tão divertida para eles, mas foi o ápice da minha pós-vida. Um sorriso travesso surgiu no meu rosto enquanto eu subia a escada, flutuando alguns centímetros acima dos degraus rangentes.

Os Smiths haviam chegado ali anos atrás. Quantos anos exatamente? Eu não fazia a menor ideia. Vinte? Trinta? O tempo era uma equação complicada quando todos os seus dias eram clones perfeitos uns dos outros. Lembrava-me apenas de que era um casal com dois filhos — uma família perfeitamente comum que teve o azar geográfico de se mudar para uma casa ocupada por uma alma penada e terrivelmente entediada.

No início, eu juro que não tinha a intenção de aterrorizá-los. Foi um acidente. Ou, pelo menos, foi a desculpa que usei para aplacar minha consciência inexistente.

A Sra. Smith estava organizando as caixas da mudança na cozinha quando eu consegui mover uma colher de pau. Não foi grande coisa, talvez apenas alguns centímetros para o lado, mas ela se moveu. A mulher ficou tão pálida que achei genuinamente que ela fosse se juntar a mim no plano espiritual. Passei o resto da tarde sentada no balcão, observando-a investigar cada centímetro da cozinha em busca de uma explicação lógica.

Foi o dia mais divertido daquele ano.

Depois desse primeiro sucesso, comecei a experimentar meus novos dotes. Com o tempo, descobri que conseguia interagir com objetos pequenos se concentrasse minha essência com uma força absurda. Não era fácil; parecia que eu estava tentando empurrar uma montanha usando apenas força de vontade e teimosia. Mas funcionava. Às vezes.

Nas melhores noites, eu reunia energia suficiente para abrir a porta de um armário. Nas piores, mal conseguia fazer uma folha de papel tremer. Os meus resultados eram inconsistentes, mas as reações dos Smiths compensavam o esforço.

O filho mais velho, por exemplo, era uma pedra. Impossível de assustar. Certa vez, gastei metade da minha energia para derrubar um quadro pesado logo atrás dele. O garoto apenas olhou para a moldura no chão, ergueu uma sobrancelha com desdém e voltou a assistir televisão. Achei aquilo profundamente ofensivo.

Por outro lado, a mãe dele compensava a falta de medo do filho fazendo metade do meu trabalho sozinha. Bastava uma tábua do assoalho ranger durante a madrugada para ela entrar em colapso. Quando consegui fazer a porta do guarda-roupa dela se abrir sozinha no meio da noite, a Sra. Smith passou duas semanas inteiras convicta de que a casa era o epicentro de uma maldição secular. Duas semanas. Eu quase me senti culpada. Quase.

Meu maior talento, porém, se manifestava quando eles adormeciam.

Até hoje não entendo a mecânica física por trás disso. Talvez a mente humana fique mais vulnerável e fácil de alcançar durante o sono do que o mundo real. Tudo o que sei é que eu conseguia sussurrar pequenas frases direto no subconsciente deles. Nada muito elaborado, apenas algumas palavras soltas. Pequenas ideias. Pequenas dúvidas. Pequenas e deliciosas sementes de paranoia. Era uma arte refinada.

Uma vez, passei três noites seguidas flutuando acima da cama do Sr. Smith, sussurrando em seu ouvido:

— Tem alguma coisa errada no porão...

Não havia absolutamente nada de errado no porão além de teias de aranha e mofo. Mas, após a terceira noite de tortura psicológica, o homem começou a descer lá todos os dias munido de uma lanterna gigante e um pedaço de pau. Ele inspecionava os cantos de hora em hora, durante um mês inteiro, procurando por algo que nunca encontraria. Foi magnífico.

Sorri com a lembrança, mas o sentimento logo murchou. Os Smiths tinham sido maravilhosos, mas, como todos os outros antes deles, acabaram indo embora. Eles sempre iam embora.

Alguns inquilinos resistiam por alguns meses; outros, por alguns anos. Mas nenhum ficava para sempre. E, no fim das contas, eu sempre era jogada de volta para a mesma rotina cinzenta. A mesma casa vazia. As mesmas paredes descascando. A mesma floresta úmida. O mesmo silêncio sepulcral.

Meu sorriso desapareceu por completo. A verdade — aquela que eu tentava mascarar com ironia e piadas mentais — era que, por mais divertido que fosse pregar peças, eu sentia uma falta dolorosa daquelas pessoas quando elas partiam. Sentia falta até das mais irritantes. Principalmente das irritantes. Pelo menos elas falavam. Pelo menos elas preenchiam aquele vazio com som, calor e vida. Pelo menos faziam algo acontecer.

Parei no meio do corredor do segundo andar, encarando o vidro embaçado pela chuva. Lá fora, os pinheiros balançavam lentamente, imersos na mesma névoa de sempre. Tudo estava igual. Exatamente igual.

Até que um som cortou a monotonia.

Um ronco de motor. Distante, mas inconfundivelmente real.

Franzi a testa, congelando no lugar. Por um segundo amargo, achei que meu cérebro entediado estava finalmente criando alucinações auditivas para passar o tempo.

Então, o som ecoou novamente. Desta vez mais alto. Muito mais perto. O barulho pesado de pneus grandes mastigando o cascalho da subida da colina reverberou pelas paredes da casa velha.

De repente, todo o meu tédio milenar desapareceu, substituído por uma descarga chocante de pura adrenalina fantasmagórica.

Alguém estava subindo a nossa estrada.

Nossa. Eu realmente precisava parar de usar esse pronome. A casa era minha. Eu estava ali antes de qualquer um daqueles pobres coitados que já haviam morado nela nascer. Tecnicamente, eu era a ocupante mais antiga e resiliente da propriedade. Se alguém neste condado infeliz tinha direito legal sobre aquele gesso podre, com certeza era eu. Embora, sendo realista, eu suspeitasse que o sistema judiciário americano tivesse sérias ressalvas quanto a conceder escrituras e títulos de propriedade para cidadãos sem pulso cardíaco.

Atravessei a parede do corredor em uma velocidade que teria impressionado qualquer atleta olímpico. Infelizmente, não havia nenhuma plateia viva ali para testemunhar minha monumental demonstração de atletismo sobrenatural.

Surgi na sala da frente e praticamente me joguei contra o vidro da janela principal.

O som do motor ficou mais alto. Mais próximo. Mais real. Por um instante amargo, o pânico me pegou: tive medo de que eles pegassem o retorno, de que errassem a entrada da propriedade e simplesmente desaparecessem estrada abaixo, exatamente como o caminhão vermelho fizera minutos antes.

Mas então, as copas dos pinheiros foram cortadas por feixes de luz branca. Faróis.

Meu rosto colou no vidro de forma tão violenta que minha testa atravessou alguns centímetros da janela sem que eu percebesse. Recuei rapidamente para dentro, ajeitando o cabelo invisível. Manter a dignidade era fundamental. Mesmo quando você já é um cadáver abstrato.

Não era apenas um carro. Havia também um pequeno caminhão.

Meu coração inexistente deu um salto acrobático dentro do peito.

— Não acredito... — sussurrei, os olhos arregalados.

Os veículos avançaram lentamente pela estrada de acesso particular, serpenteando com elegância entre os buracos profundos e a vegetação selvagem que engolira as margens ao longo de anos de abandono. A chuva fina escorria de forma contínua sobre os para-brisas reluzentes enquanto eles se aproximavam da clareira.

Eles finalmente estacionaram diante da fachada cinzenta da casa. E desligaram os motores.

O silêncio que se instalou em seguida pareceu durar uma eternidade inteira. Ou talvez eu estivesse apenas sofrendo de ansiedade pós-morte crônica. É difícil mensurar o tempo quando se está desesperada. Fiquei estática, observando os veículos, esperando que alguma alma viva fizesse menção de se mover.

Nada aconteceu. Ninguém abriu as portas. Ninguém esticou os braços. Ninguém sequer inclinou a cabeça para olhar o painel. Os carros pareciam cápsulas vazias.

— Vamos lá, pessoal — murmurei, batendo os dedos fantasmas no parapeito da janela. — Eu estou esperando. Minha agenda está livre pelos próximos dois séculos, mas eu apreciaria um pouco de agilidade.

Continuou tudo parado. Cruzei os braços, estreitando os olhos.

— Não me façam criar expectativas à toa. É falta de educação com os mortos.

Ainda nada. Por um segundo sombrio, considerei seriamente a possibilidade de que todos dentro daqueles carros tivessem sofrido um pacto de suicídio coletivo ou uma parada cardíaca simultânea na subida da colina. O que seria terrivelmente constrangedor para mim. Eu queria brinquedos novos, não colegas de quarto espirituais.

Finalmente, a porta do primeiro carro se abriu com um estalo suave.

Meu corpo inteiro entrou em estado de alerta máximo. Uma figura alta saiu do banco do motorista. Muito alta. Um homem de porte aristocrático, ombros largos e cabelos loiros que pareciam reluzir mesmo sob a iluminação deprimente de Forks. Ele fechou a porta com um clique abafado e ficou ali, parado na chuva, observando a casa.

Eu observei ele observando a casa. Ele continuou observando a casa. Eu continuei observando ele.

Aquilo rapidamente se transformou em uma disputa silenciosa e mental de quem era o ser mais esquisito da floresta. Sendo honesta, acho que eu venci. Afinal de contas, eu era o fantasma.

De repente, as outras portas começaram a se abrir em um efeito dominó perfeitamente sincronizado. E foi aí que o meu cérebro de dezenove anos quase entrou em curto-circuito.

Mais pessoas surgiram. Uma mulher com traços maternais e elegantes, dois rapazes imensos, três garotas esguias e outro rapaz de cabelos acobreados e desalinhados. Todos eles — sem exceção de um único membro daquela árvore genealógica bizarra — eram incrivelmente bonitos. Ridiculamente bonitos. De uma forma que flertava abertamente com o ofensivo.

Fiquei encarando a aglomeração deles pela janela, totalmente em choque. Meu primeiro pensamento foi terrivelmente fútil: Eles parecem o elenco de um comercial de pasta de dentes de alta classe. Meu segundo pensamento, no entanto, foi um alerta instintivo de sobrevivência. Algo ali estava errado. Muito errado.

Nenhum deles parecia minimamente cansado da viagem longa. Nenhum parecia irritado com a lama ou com o fato de estarem se mudando para um casarão caindo aos pedaços. Nenhum deles carregava o peso normal, aquela postura ligeiramente curvada e exausta que acompanha a existência humana. E o mais bizarro de tudo: nenhum deles estava falando. Eles não trocavam uma palavra. Estavam apenas parados na chuva, imóveis, rígidos como estátuas de mármore esculpidas para um museu de arte europeia.

Uma sensação estranha começou a rastejar pelo fundo da minha mente. Não era medo — eu não tinha medo dos vivos, eu os dominava com colheres de pau e sussurros —, mas sim uma curiosidade avassaladora, daquelas que queimam. Porque aquela família definitivamente não operava na mesma frequência que o resto da humanidade.

Então, o maior deles — um rapaz absurdamente musculoso, com braços que pareciam troncos e cabelos escuros — quebrou a rigidez do grupo e abriu um sorriso imenso, exibindo dentes alvos.

— Bem — a voz dele ecoou pelo gramado úmido, profunda e vibrante. — Finalmente chegamos.

O comando silencioso pareceu ser ativado. Os outros começaram a se mover imediatamente, mas a forma como faziam aquilo desafiava todas as leis da física que eu me lembrava de ter estudado. Eles começaram a descarregar a parte de trás do caminhão. Caixas. Móveis pesados. Objetos de madeira maciça.

E foi nesse exato milissegundo que o meu queixo caiu. Eles estavam carregando peso demais. Muito peso. Peso desumano.

Uma garota loira, que parecia uma modelo de passarela de Milão, ergueu uma caixa de madeira maciça que deveria pesar trinta quilos como se estivesse levantando uma almofada de penas. Logo atrás dela, o rapaz musculoso agarrou sozinho uma estrutura que claramente exigiria o esforço de três homens adultos. Talvez quatro. E ele subia os degraus da varanda com a leveza de quem carrega um saco de pipocas.

Eu me inclinei ainda mais contra a janela. Mais perto. Mais perto, franzindo o cenho até minhas sobrancelhas quase se unirem.

— Certo... — murmurei para o vidro embaçado. — Ou eu passei tempo demais sozinha e o meu juízo finalmente derreteu...

Observei o rapaz erguer um sofá de couro inteiro acima dos ombros, sem demonstrar o menor sinal de esforço físico, sem uma gota de suor, sem que sua respiração sequer alterasse o ritmo. Meu olhar acompanhou o móvel flutuando no ar. Depois voltou para os braços dele. Depois para o sofá. Depois para ele novamente.

— ...ou vocês são a coisa mais esquisita que já pisou no meu quintal.

E, pela primeira vez em décadas, senti aquela sensação maravilhosa.

A sensação de ter encontrado um mistério.

E mistérios eram quase tão divertidos quanto vítimas.