Como Ser Um Fantasma (Sem Querer)
2 Capítulo 2
Os dias seguintes foram, sem sombra de dúvida, os mais interessantes que eu tinha vivido em décadas.
O que, sendo honesta, não era um padrão particularmente difícil de superar. Meu recorde anterior de puro entretenimento consistia em observar um guaxinim obstinado tentar roubar uma lata de sardinha enferrujada durante três noites consecutivas. Mas, ainda assim, foi uma melhora significativa de cem por cento na minha rotina.
Passei a maior parte do meu tempo espionando os novos moradores. Não de uma forma assustadora, claro. Ou talvez exatamente de uma forma assustadora, dependendo de quem estivesse contando a história.
Eu preferia pensar em mim mesma como uma observadora dedicada. Uma pesquisadora de campo. Uma cientista altamente comprometida com a busca da verdade empírica.
A verdade, nesse caso, sendo: que diabos estava acontecendo com aquela família?
No primeiro dia, fiquei encolhida no segundo andar observando a logística da mudança. No segundo, acompanhei a reforma estrutural. No terceiro, comecei a seguir discretamente cada um deles pelos cômodos. E, no quarto dia, eu já tinha estruturado um sistema completo de monitoramento em tempo integral. Se alguém me visse ali, flutuando de cabeça para baixo perto das vigas do teto, provavelmente concluiria que eu era uma stalker sobrenatural. O que seria uma tremenda ofensa. Stalkers normalmente têm algum tipo de vida social, eu só tinha o Gregory.
A velocidade com que a casa mudou foi absurda. Quando eles chegaram, o casarão estava praticamente implorando para ser demolido. As paredes estavam manchadas de mofo, o piso rangia como um coral de almas penadas e o telhado parecia estar travando uma batalha perdida e humilhante contra a lei da gravidade. Era uma construção velha, cansada.
Três dias depois, o lugar parecia uma mansão de revista de arquitetura.
Eu ainda não conseguia processar como tinham alcançado aquele milagre. Um dos rapazes — o grandalhão com braços do tamanho de troncos — passou uma tarde inteira carregando vigas colossais de madeira de carvalho. Sozinho. Fiquei empoleirada no parapeito da janela esperando que ele soltasse o peso, caísse de joelhos ou pelo menos soltasse um palavrão. Ele não fez nada disso. Nem sequer respirou pesado. Nem uma única vez.
Outro deles passou horas consertando as telhas bem no meio de uma tempestade elétrica. Uma tempestade de verdade, daquelas que fazem a energia da cidade inteira cair. Eu já tinha visto homens vivos choramingarem porque uma única gota de chuva estragou o gel de seus cabelos, aquele sujeito trabalhava debaixo de uma cortina torrencial de água como se estivesse aproveitando um piquenique de primavera.
Nada naquilo era normal.
A confirmação definitiva veio em uma tarde particularmente cinzenta. Eu estava sentada confortavelmente no corrimão da escada, deslizando de cima para baixo para passar o tempo, quando a garota loira entrou pela porta da frente trazendo uma estante de livros inteira. De madeira maciça.
Sozinha. E ela não estava arrastando ou empurrando. Estava carregando nos braços com a mesma leveza de quem transporta uma sacola de compras plástica com duas caixas de leite dentro.
Eu quase caí do corrimão, atravessando os degraus no processo.
— Certo — murmurei, pairando no ar. — Isso responde algumas perguntas.
Na verdade, não respondia absolutamente nada. Só criava outras cinquenta dúvidas na minha cabeça fantasmagórica.
Quanto mais eu os vigiava, mais aquela família parecia desafiar a lógica. Eles eram rápidos. Ridiculamente, absurdamente rápidos. Às vezes eu piscava o olho e um deles, que estava na sala de estar, já aparecia no topo da escada. Em outras ocasiões, materializavam-se silenciosamente atrás dos outros sem que o assoalho velho emitisse um único estalo. Aquilo deveria ser fisicamente impossível para corpos com massa molecular.
Também havia a perturbadora questão da comida. Ou melhor, da total e absoluta falta dela.
Porque ninguém comia. Ninguém. Jamais.
Eu prestei atenção. Muita atenção. Sendo um fantasma, o tempo livre era basicamente o meu único superpoder, então montei acampamento na cozinha. Monitorei os armários, inspecionei a geladeira vazia, vigiei os horários tradicionais de refeição. Nada. Ninguém preparava um café da manhã. Ninguém montava um sanduíche de madrugada. Ninguém sequer bebia um copo d'água após carregar um sofá de trezentos quilos escada acima.
Era profundamente bizarro. Principalmente porque, bem no fundo da minha memória fragmentada, eu lembrava vagamente de gostar muito de comer. Não lembrava o sabor das coisas, mas tinha certeza de que a comida era uma parte excelente de estar viva. Qualquer pessoa que ignorasse uma cozinha daquele tamanho claramente tinha algo terrível a esconder.
E, para fechar o caixão das esquisitices, havia o mistério do sono. Eles simplesmente não dormiam.
No início, achei que estava perdendo o momento exato por pura distração. Talvez eles fossem para os quartos depois que eu me afastava. Decidi tirar a prova real: passei uma noite inteira acordada — o que não era difícil, já que eu não tinha outra opção — vigiando os corredores. Depois passei a segunda noite. Depois a terceira.
Resultado? Nada. Nenhum deles sequer bocejou. Nenhum fechou os olhos.
Era impressionante e, honestamente, um pouco ofensivo. Eu tinha passado décadas odiando o fato de não conseguir dormir, considerando a insônia eterna uma das piores maldições da morte. Agora, descobria que existia uma família inteira de seres vivos que abria mão do privilégio de dormir por pura escolha própria. Psicopatas. A conclusão era inevitável.
Eles não eram humanos. Eu ainda não sabia o que eram, mas humanos com certeza não eram.
A questão começou a me consumir por completo. Enquanto eles organizavam os cômodos, conversavam em sussurros velozes ou desapareciam na floresta densa por horas a fio, eu flutuava em círculos pelo teto, catalogando teorias.
Teoria Um: Alienígenas colonizadores. Uma possibilidade clássica.
Teoria Dois: Experimentos superssecretos do governo que fugiram de algum laboratório subterrâneo. Totalmente plausível.
Teoria Três: Uma seita de modelos estranhamente atraentes. Uma hipótese esteticamente sólida.
Teoria Quatro: Criaturas sobrenaturais de alguma espécie. O que, considerando o fato de que eu mesma era a prova viva (ou morta) de que o sobrenatural existia, parecia a explicação mais inteligente.
Numa tarde em que a chuva batia com força contra as vidraças limpas, fiquei sentada no topo da escada principal, observando o clã reunido na sala de estar logo abaixo. Eles conversavam tranquilamente em tom baixo. Riam de piadas internas. Liam livros clássicos em velocidade recorde. Pareciam perfeitamente normais.
Quase.
Havia algo de errado em cada milímetro de movimento daquela família. Algo sutil, mas profundamente perturbador. Era como observar atores usando fantasias impecáveis de seres humanos, pessoas que tinham estudado a humanidade estritamente através de manuais de biologia e estavam se esforçando ao máximo para imitá-la, mas esqueceram de incluir os pequenos defeitos, os espasmos, o cansaço.
Meu olhar se fixou no rapaz musculoso. Ele estava sentado na poltrona de couro. Imóvel. Completamente estático. Eu estava cronometrando: fazia exatamente quinze minutos que ele não alterava a posição de um único dedo. Nenhuma mudança de postura, nenhum piscar de olhos prolongado, nenhum sinal mecânico de desconforto.
Estreitei os olhos, apoiando o queixo fantasma nas mãos.
— Certo — murmurei para as paredes, sentindo um sorriso lento e vitorioso desenhar-se em meus lábios. — Seja lá o que vocês forem... eu vou descobrir.
Inclinei a cabeça para o lado, sentindo minha essência vibrar. Pela primeira vez em décadas, eu tinha algo infinitamente melhor para fazer do que tentar adivinhar a personalidade de uma goteira de cozinha.
E eu pretendia aproveitar cada milissegundo daquela investigação.
Durante quase duas semanas, eu mantive uma distância estritamente segura.
Observei de longe. Analisei padrões. Coletei evidências. Criei teorias bizarras, descartei essas teorias e passei a elaborar hipóteses ainda mais absurdas. Era um processo científico de alto rigor metodológico. No entanto, infelizmente, havia uma pergunta crucial que continuava orbitando minha mente sem qualquer resposta.
Uma pergunta terrivelmente importante. Fundamental.
Eles conseguiam me ver?
Porque, sinceramente, eu não fazia a menor ideia. A maioria das pessoas vivas nunca me enxergava de verdade. Ao longo dos anos, algumas poucas pareciam apenas sentir um arrepio na espinha com a minha presença. Outras notavam correntes de ar frio ou pequenas bizarrices estéticas acontecendo pela casa. E, claro, havia os Smiths, que tinham sonhos esquisitos depois de eu passar a madrugada inteira sussurrando ideias no pé do ouvido deles.
Mas me ver? Com nitidez? Era algo raro. Raríssimo.
Até aquele momento, os novos moradores aristocratas não tinham dado o menor sinal de consciência sobre a minha existência. Nenhum olhar atravessado na minha direção, nenhuma reação espontânea, nenhum sobressalto. O que, para ser sincera, era um pouco decepcionante. Eu tinha uma dignidade e uma autoestima fantasmagórica para sustentar naquele casarão.
Por isso, decidi que era hora de realizar um teste prático. Pela ciência. Definitivamente em nome da ciência.
Naquela tarde cinzenta, a maior parte da família bizarra havia saído de casa. Eu os observei pela janela sumindo em meio aos pinheiros da floresta, movendo-se em velocidades que continuavam agredindo todas as leis conhecidas da física.
Restavam apenas dois na propriedade. O grandão musculoso e a loira de passarela.
Eu já tinha desenvolvido opiniões psicológicas bem sólidas a respeito de ambos. A loira parecia estar constantemente a exatos três segundos de distância de querer socar a face de alguém. Já o grandão... bem, ele parecia o tipo de sujeito que pisaria acidentalmente em um urso pardo e pediria desculpas sinceras ao animal por estar bloqueando o caminho.
Naquele momento específico, a loira estava ocupada em algum cômodo do andar de baixo. O grandão, por sua vez, encontrava-se totalmente sozinho em um dos quartos do segundo andar.
Perfeito. Era o cenário ideal para um experimento de campo controlado.
Atravessei a parede de gesso e deslizei silenciosamente para dentro do quarto.
O rapaz estava de costas, organizando metodicamente algumas caixas pesadas perto da cabeceira da cama. Eu me encostei casualmente contra a parede e fiquei apenas observando. Ele era imenso. Absurdamente imenso. Se aquele sujeito por algum motivo resolvesse travar um combate corporal contra uma montanha de granito, eu honestamente não saberia dizer quem sairia dali vencedor.
Durante alguns segundos, permaneci completamente estática. Esperando. Nada aconteceu, ele continuou focado em empilhar suas caixas sem notar nada.
Decidi que era hora de avançar para a fase dois do experimento. A fase divertida.
Havia uma caneta esferográfica esquecida sobre a cômoda de madeira logo à minha esquerda. Fechei os olhos por um segundo e me concentrei. Mover objetos físicos nunca tinha sido uma tarefa simples para mim; ainda exigia um esforço mental exaustivo, uma teimosia quase física que parecia dar nós na minha essência abstrata. Mas, depois de décadas de tédio e prática diária, eu tinha ficado razoavelmente boa naquilo.
A caneta tremeu sobre o tampo de madeira. Deslizou alguns centímetros. Parou.
Continuei insistindo, empurrando o ar com toda a força do meu pensamento. O objeto avançou mais um pouco, perdeu o equilíbrio na extremidade e finalmente despencou no assoalho.
Tac.
O impacto foi pequeno, quase imperceptível. Mas foi o suficiente.
O rapaz interrompeu o movimento dos braços no mesmo instante. Ele se virou de forma lenta, franziu as sobrancelhas espessas e olhou para a caneta caída no chão. Em seguida, ergueu a cabeça e varreu o quarto com os olhos.
Eu permaneci exatamente onde estava. Parada. Bem na linha de visão dele. Esperando.
Ele deu mais uma olhada minuciosa pelo ambiente, a expressão visivelmente confusa. Então, seus olhos passaram direto por onde eu flutuava... e continuaram o trajeto. Por um milissegundo frustrante, achei que ele simplesmente tinha me ignorado ou que sua capacidade visual era defeituosa.
Mas aí o grandão congelou. Completamente.
Seus olhos voltaram devagar. Muito devagar. Centímetro por centímetro, até travarem o foco com precisão cirúrgica contra o meu rosto.
Nós nos encaramos. Finalmente. Depois de semanas de pura espionagem. Alguém. Conseguia. Me. Enxergar.
Meu sorriso travesso surgiu de forma automática nos lábios. Tentei esboçar uma expressão amigável — ou, pelo menos, o que o meu cérebro achava que parecia amigável. Talvez o resultado final tenha ficado um pouquinho aterrorizante, considerando que eu era uma garota com a pele ridiculamente pálida, cabelos bagunçados e usando uma camisola de algodão de outra época, flutuando silenciosamente no canto do quarto dele.
A percepção do quão bizarra eu parecia veio tarde demais.
Os olhos do grandão ficaram imensos. Gigantescos. Foi uma reação de puro cinema, magnífica. A expressão dele atravessou uma montanha-russa de emoções em uma fração de segundos: confusão, choque estupefato, descrença biológica e, por fim, um pânico absoluto e primitivo.
Ele ergueu um braço, apontando para mim com um dedo indicador visivelmente trêmulo. Abriu a boca. Fechou. Abriu novamente, como um peixe fora d'água.
E então, o colosso de dois metros de altura soltou um berro:
— FANTASMA!
Eu nunca, em toda a minha pós-vida, tinha ouvido uma criatura tão imensa produzir um som em um tom tão absurdamente agudo. Parecia uma buzina de brinquedo.
No instante seguinte, ele simplesmente bateu em retirada. E eu não estou usando de hipérbole literária aqui: ele correu de verdade. O rapaz disparou em direção à porta do quarto como se o próprio ceifador de almas estivesse colado em seus calcanhares. O que era particularmente irônico, visto que eu já era a personificação da morte ali dentro — ou, pelo menos, uma versão bem menos eficiente e muito mais entediada dela.
— FANTASMA! TEM UM FANTASMA! TEM UM FANTASMA NA CASA! — a gritaria ensurdecedora dele reverberou com força pelas paredes e pelo teto do corredor.
Lá de cima, consegui ouvir o caos se instalando no andar inferior. Portas sendo escancaradas com violência, passos pesados e apressados ecoando pelo assoalho, e o som de objetos decorativos sendo derrubados no chão com o impacto da correria. E o grandão continuava o seu circuito de pânico:
— ROSALIE! ROSALIE! TEM UMA GAROTA MORTA NO MEU QUARTO!
Fiquei estática no centro do quarto por cerca de três segundos, tentando de fato processar o espetáculo que tinha acabado de presenciar.
Então, o riso explodiu do meu peito. E eu ri. Ri tanto, com tanta intensidade, que precisei dobrar o corpo e me apoiar na parede para não perder o equilíbrio no ar.
Décadas. Eu tinha esperado décadas inteiras por uma validação daquelas. Anos a fio sem que uma única alma viva me desse a menor atenção. E a primeiríssima pessoa que finalmente conseguia me enxergar com total clareza saía desembestada pelo corredor, berrando como um personagem de desenho animado clássico nas manhãs de sábado.
Foi, sem dúvida alguma, o momento mais genuinamente feliz de toda a minha existência pós-morte.
Lá fora, uma tempestade apocalíptica inteira poderia ter desabado sobre Forks e eu jamais teria notado. Eu estava ocupada demais gargalhando de forma histérica, enquanto os gritos apavorados do grandão continuavam ecoando em algum ponto estratégico do andar de baixo, quebrando o silêncio milenar daquele casarão.
Pela primeira vez em muito, muito tempo... eu tinha encontrado moradores verdadeiramente divertidos.
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