Como Ser Um Fantasma (Sem Querer)
7 Capítulo 7
Por alguns segundos, nenhum de nós falou nada.
A chuva continuava batendo contra as janelas da sala — um som familiar, até confortável. Eu vinha escutando aquele mesmo temporal há décadas, mas, pela primeira vez, ele não era a única coisa a preencher o silêncio da casa.
Edward estava ali. Olhando para mim. Não através de mim, não para o vazio. Para mim.
Ainda era uma sensação estranha.
— Então... — comecei, quebrando o gelo. — Você está lidando com isso surpreendentemente bem.
Edward soltou uma risada curta, arqueando uma sobrancelha.
— Estou?
— Sim. — Apontei na direção da porta. — O Emmett gritou.
— O Emmett grita quando encontra uma aranha.
— Era uma aranha muito grande.
— Era uma joaninha.
— Ela parecia suspeita.
Eu gargalhei.
— Isso é maravilhoso.
— Não encoraje esse comportamento — ele alertou, embora seus olhos sorrissem.
— É tarde demais. Eu praticamente vivo para encorajar esse tipo de comportamento.
Edward balançou a cabeça, mas parecia mais divertido do que irritado. Gostei daquilo. Muito.
De repente, uma pergunta flutuou na minha cabeça. Na verdade, centenas delas tinham surgido de uma vez, mas decidi começar pela que mais me intrigava.
— Quanto tempo você demorou para perceber?
— Perceber o quê?
— Que tinha uma fantasma morando aqui.
— Eu não percebi.
— Ah.
— Eu só sabia que alguma coisa estranha acontecia — ele corrigiu.
— Isso é ofensivo.
— Você derruba objetos pela casa.
— Arte.
— Você escreve ameaças em espelhos.
— Comunicação.
— Você assombra o Emmett.
— Serviço público.
Edward riu. Riu de verdade dessa vez. Senti uma pequena pontada de orgulho; afinal, fazer vampiros centenários darem uma gargalhada genuína claramente era um talento raro.
— Falando nisso... — comecei, mas ele me cortou antes que eu terminasse.
— Não.
— Você nem sabe o que eu ia perguntar!
— Sei sim.
— Não sabe.
— Você quer saber se o Emmett ainda verifica os espelhos.
Cruzei os braços, impressionada.
— Ele verifica?
Edward soltou um longo suspiro.
— Verifica.
Eu quase caí para trás de tanto rir.
— Eu sabia!
— Bella.
— Isso é incrível!
— Bella.
— Eu sou uma lenda.
— Você é um problema — ele corrigiu, embora o canto de sua boca estivesse curvado para cima.
— Também sou uma lenda.
Edward abriu a boca para responder, mas parou no meio do caminho. Sua expressão mudou drasticamente, tornando-se mais séria, mais cuidadosa. A mudança repentina me fez engolir o resto da risada.
— O quê? — perguntei, subitamente tensa.
Ele me observou por alguns segundos antes de falar:
— Você realmente mora aqui há décadas?
Meu sorriso murchou um pouco.
— Acho que sim.
— Você não sabe?
— Não exatamente.
Edward franziu a testa, dando um passo discreto em minha direção.
— Como você não sabe?
Desviei o olhar para a janela, focando nos pingos de chuva que escorriam pelo vidro e na floresta densa logo além. Aquela era uma pergunta que eu evitava fazer a mim mesma, simplesmente porque odiava a resposta. Ou a falta dela.
— Eu não me lembro de muita coisa.
Edward ficou em silêncio, esperando. Quando percebi que ele não ia me pressionar, continuei:
— Eu lembro do meu nome. Bella. — Assenti para mim mesma. — E de algumas coisas aleatórias. Pequenos detalhes, sensações... fragmentos.
— Como o quê?
Pensei por um instante, vasculhando a névoa na minha mente.
— Eu gostava de livros.
— Isso é bem específico.
— Eu sei.
— Mais alguma coisa?
— Gostava de desenhar. E... acho que tinha uma bicicleta.
— Uma bicicleta?
— Talvez — dei de ombros, sentindo o peso da frustração.
— Bella...
— Eu avisei que eram só fragmentos.
Edward sorriu levemente, mas seus olhos continuavam atentos, lendo cada nuance da minha expressão.
— Você não lembra da sua família?
A pergunta acertou em cheio. Eu já tinha tentado lembrar. Muitas vezes. Milhares de vezes. E a resposta era sempre o mesmo vazio enorme e frio.
Balancei a cabeça.
— Não.
— Seus amigos?
— Não.
— Como... morreu?
Meu sorriso desapareceu por completo. O silêncio que se seguiu pareceu abafar o som da tempestade lá fora.
— Não — a palavra saiu num sussurro, mais baixa do que eu pretendia.
Edward imediatamente pareceu se arrepender. O peso da culpa caiu sobre seus ombros.
— Desculpa.
— Tudo bem.
— Eu não queria...
— Eu sei. — E eu realmente sabia.
Mas ainda assim doía. Aquela era a grande questão. A única pergunta que eu nunca conseguia responder. Eu era um fantasma, então obviamente estava morta. Mas por quê? Como? Quando? Eu não fazia a menor ideia. Era como abrir um livro e descobrir que alguém havia arrancado todas as páginas importantes.
Edward me observou por mais alguns instantes e, deliberadamente, mudou de assunto para aliviar a tensão.
— A Alice vai surtar.
Pisquei, Grata pela corda de salvamento.
— O quê?
— Quando ela descobrir que eu consigo falar com uma fantasma.
Meu sorriso voltou no mesmo segundo, a melancolia se dissipando.
— Ah.
— Vai ser um desastre.
— Um desastre maravilhoso.
— Ela vai ter aproximadamente oitocentas perguntas.
— Eu também tenho oitocentas perguntas — rebati.
— Isso não me surpreende.
— Na verdade, tenho mais.
Edward suspirou, fingindo exaustão.
— Claro que tem.
— Por exemplo... — Apontei um dedo acusador na direção dele. — Como exatamente um vampiro vai para o ensino médio durante cem anos sem enlouquecer?
— Bella.
— É uma pergunta válida!
— Bella.
— Você já repetiu álgebra quantas vezes? Eu morreria. — Parei por um segundo, processando minhas próprias palavras. — É... péssima escolha de palavras.
Pela segunda vez naquela conversa, Edward abandonou a rigidez e começou a rir de peito aberto.
E, pela segunda vez naquela conversa, percebi algo estranho e sutil no ambiente. A casa inteira parecia fundamentalmente diferente hoje. A mesma casa velha. As mesmas paredes descascando. A mesma chuva batendo no vidro. A mesma floresta engolindo a colina.
Mas diferente. Menos vazia. Menos deprimente.
Talvez porque, pela primeiríssima vez em longas, frias e arrastadas décadas de isolamento absoluto... quando eu falava, alguém respondia.
— Será que só você consegue me ver?
Edward continuava escorregado contra a madeira da estante, mantendo os olhos dourados cravados em mim como se eu fosse um holograma prestes a evaporar no ar.
— Não sabemos disso.
— Você acabou de dizer isso de outro jeito.
— Bella...
— Talvez a Alice consiga — insisti, flutuando em círculos.
— Talvez.
— Talvez o Carlisle.
— Talvez.
— Talvez o Emmett consiga de novo.
Edward arqueou uma das sobrancelhas perfeitas, cruzando os braços de mármore.
— Você parece perigosamente animada com essa última alternativa.
— Porque ele grita.
— Claro.
— E porque seria hilário.
— Obviamente.
— E porque, honestamente, eu sinto falta da gritaria dele.
Edward passou a palma da mão pelo rosto, soltando um longo suspiro imortal.
Antes que ele pudesse formular uma réplica, o eco característico de pneus mastigando o cascalho da garagem cortou o barulho da tempestade. Meu rosto fantasmagórico iluminou-se no mesmo milissegundo.
— Eles chegaram.
— Bella.
— Eles chegaram! — Praticamente atravessei a extensão da sala de estar em um salto flutuante. — Vamos descobrir agora mesmo.
— Descobrir o quê?
— Quem mais tem a sensibilidade óptica para sintonizar a minha beleza.
— Há uma probabilidade estatística sólida de que seja ninguém.
— Você é um assassino profissional de diversão, sabia?
As portas dos veículos foram batidas lá fora em uma sequência rápida. Poucos segundos depois, a porta principal do casarão abriu-se com um clique limpo.
Alice cruzou o umbral primeiro. Como de costume, ela parecia fisicamente incapaz de caminhar em linha reta sem transformar o simples ato de andar em um desfile dramático de alta costura. Atrás dela vieram Jasper, Rosalie e Emmett, trazendo o dinamismo barulhento do mundo exterior. Carlisle e Esme fecharam o bloco, adentrando logo em seguida.
A sala de estar foi imediatamente inundada por um coral de vozes sobrepostas e passos velozes. Senti uma onda de pura adrenalina e animação infantil crescer no centro da minha alma penada. Porque, pela primeiríssima vez em longas e arrastadas décadas de isolamento absoluto, existia uma chance matemática de interatividade humana — ou vampírica.
— Certo. — Virei-me para Edward, adotando uma postura de pura determinação investigativa. — Vamos dar início ao teste.
— Vamos?
— Vamos.
Edward soltou mais um suspiro resignado.
Eu desci a escada flutuando em velocidade recorde — tecnicamente não havia corrida envolvida, visto que meus pés ignoravam as leis da gravidade, mas a pressa era a mesma. Parei exatamente no centro do cômodo, bem no meio do fluxo daquela aglomeração de monstros. Abri os braços de forma teatral e projetei a minha voz no espaço:
— Boa tarde, mortos-vivos!
Nenhuma reação. Nenhuma pausa neurológica no ambiente.
Alice passou direto por mim. Literalmente atravessou a minha densidade invisível como se eu não passasse de uma lufada de vento úmido vindo da floresta. Fiz uma careta de profundo desgosto. Aquilo continuava sendo uma sensação horrível, um lembrete gelado e desconfortável da minha condição.
— Alice? — aproximei-me, esticando as mãos. Nada. Acenei com vigor diante das órbitas dela. — Alice, olhe para cá. — Nada. — Pequena fada hiperativa. — Nada.
Franzi as sobrancelhas, o meu orgulho de assombração sofrendo um solavanco óbvio. Desviei o foco para o patriarca do clã.
— Doutor Vampiro?
Silêncio absoluto.
— Médico oficial do além?
Nada.
— Profissional da saúde com hábitos alimentares extremamente suspeitos?
Carlisle continuou removendo o casaco longo com sua calmaria cirúrgica de sempre. Nem um milímetro de desvio, nem uma piscada prolongada que indicasse registro do meu fenômeno sutil.
— Inacreditável.
Rosalie conseguiu ser ainda pior para o meu ego. Parei plantada como um poste bem na linha de visão dela, bloqueando o seu trajeto mecânico.
— Rosalie?
Nada.
— Loira azeda?
Nada.
— Rainha indiscutível da antipatia secular?
Nenhuma reação biológica. Ela simplesmente me ignorou com uma perfeição que flertava com o ofensivo.
— Certo. Registrado. Isso foi claramente um ataque pessoal.
Voltei-me para Emmett com uma expectativa renovada. Agora sim. Esse era o ápice da pesquisa de campo. Parei exatamente diante dele, fincando as minhas coordenadas virtuais no tapete. Cruzei os braços.
— Você.
Emmett continuou marchando em direção à cozinha, totalmente alheio.
— Você me viu daquela vez, lembra?
Nada.
— Você empreendeu uma fuga dramática.
Nada.
— Você soltou um berro agudo maravilhoso.
Nada.
— Você quase demoliu uma parede de alvenaria de tanto pânico.
Absolutamente nada. Meu queixo virtual despencou de boca aberta.
— Ah, faça-me o favor. Isso é uma tremenda ofensa ao meu currículo.
Lá em cima, no topo dos degraus da escada, Edward monitorava o meu colapso dramático. Ele estava se esforçando ativamente — com uma rigidez que repuxava cada músculo de mármore de suas feições — para manter uma postura estritamente neutra. Tentando. Porque eu detinha a capacidade técnica de capturar o canto da boca dele sofrendo um leve tremor de deboche. O miserável estava se deliciando com o meu fracasso público.
Voltei para o centro da sala de estar, gesticulando para as paredes vazias.
— Certo. — Apontei para o próprio peito de forma melodramática, listando as minhas qualificações para o vácuo. — Eu sou um fantasma legítimo. — Silêncio. — Uma garota morta há décadas. — Nada. — A assombração residente desta colina. — Nada. — Sou bela, charmosa e me encontro espiritualmente disponível para sustos. — Absolutamente nada. Cruzei os braços, bufando com desdém. — Isso foi um vexame humilhante.
— O que foi um vexame humilhante?
A voz aveludada e perfeitamente controlada de Edward ecoou do vão da escada. Virei-me de imediato, estreitando as órbitas. Ele estava terminando de descer os degraus com passos lentos, exibindo uma fisionomia totalmente plácida. Como se não estivesse vendo uma adolescente morta surtando e esbravejando no meio de sua própria mobília.
Flutuei até ele em um estalo, furiosa com a audácia do esnobe.
— Não se atreva a me dizer que você vai encenar uma farsa agora.
— Como foi o dia no colégio? — perguntou Edward para Alice, adotando o tom mais casual do seu banco de dados de estudante.
Eu paralisei no ar, observando o perfil dele. Depois olhei para as feições de Alice. Depois foquei nele outra vez, os neurônios processando o teatro.
— Eu não acredito que você tem coragem de fazer isso comigo.
— Horrível — Alice respondeu, desabando de forma pesada no estofado. — Os seres humanos estão mais cansativos do que o normal hoje.
— Edward, pare com isso.
— Alguma novidade importante por Forks? — ele perguntou a Carlisle, ignorando a minha proximidade física de forma milimétrica.
— Nada fora do comum, meu filho.
— Edward!
O traidor continuou caminhando com elegância aristocrática pela sala. Passou direto por onde eu flutuava, atravessando a minha densidade invisível sem pestanejar. Ignorou a minha existência por completo.
Meu olho esquerdo começou a tremer em um tique nervoso de pura exasperação.
— Edward Cullen.
— E como foram os plantões no hospital? — continuou ele, puxando assunto com o patriarca de forma mecânica.
— Bastante tranquilo — Carlisle respondeu, ajeitando alguns papéis na mesa.
— Edward Cullen, olhe para mim.
Nada.
— Edward Anthony Masen Cullen.
Nada.
— Seu traidor desalmado.
Nada.
— Seu vampiro irritante de grife.
Nada.
— Seu leitor compulsivo de manuais velhos.
Edward finalmente acomodou-se no sofá de camurça com uma leveza desleixada. Perfeitamente tranquilo, ele pescou uma revista qualquer da mesa para compor o cenário perfeito da sua farsa.
Alice, no entanto, portava aquele radar atento de fada e interrompeu o fluxo de seus próprios pensamentos sobre esmaltes, travando o foco de suas órbitas escuras no irmão. Suas sobrancelhas uniram-se em um vinco de desconfiança.
— Você está agindo de um jeito estranho.
O meu sorriso travesso, largo e totalmente vitorioso ressurgiu de imediato nas minhas feições de dezenove anos. Edward congelou o movimento das mãos sobre as páginas da revista por uma fração infinitesimal de segundo. Só um espasmo imperceptível. Mas eu capturei com precisão cirúrgica.
— Não há nada de estranho no meu comportamento, Alice.
— Está estranho sim — respondeu a garota, categórica.
— Não estou.
— Está.
— Não estou.
— Está.
Eu simplesmente explodi em uma gargalhada limpa e ruidosa, dando cambalhotas mentais de pura satisfação. Porque Alice tinha acertado em cheio no alvo. Ela carecia da capacidade de me sintonizar visualmente, mas claramente estava capturando uma anomalia térmica ou uma flutuação comportamental drástica no ambiente. Edward estava agindo de forma estranha. E aquilo era total e absoluta responsabilidade minha. Excelente dado para os meus arquivos de terror doméstico.
Sentei-me de forma folgada bem ao lado dele no estofado, encurtando a distância até ficar colada ao seu ombro rígido de mármore.
— Ela está coberta de razão, seu esnobe. — Edward ignorou o meu sopro gelado, mantendo os olhos fixos nas letras da revista. — Você está esquisito. — Silêncio. — Estranhíssimo. — Nada. — Muito estranho. — Nada.
Foi então que um estalo maravilhoso, refinado e deliciosamente maquiavélico deu na minha mente. Uma ideia de proporções colossais. Inclinei o meu corpo para a frente, eliminando qualquer espaço de privacidade, até minha boca ficar posicionada praticamente colada ao ouvido dele. Concentrei toda a minha essência sutil nas cordas vocais fantasmagóricas e soltei os sussurros em uma frequência contínua:
— Edward. — Nada. — Edward. — Nada. — Edward. — Nada. — Edward.
— Bella.
A resposta rasgou o falatório do cômodo de forma automática. Instintiva. Um reflexo que escapou de seus lábios de mármore sem que seu intelecto centenário pudesse conter.
A sala de estar inteira mergulhou em um silêncio sepulcral em um décimo de segundo.
Eu congelei no ar. Edward estancou a postura no estofado, a rigidez atingindo o ápice absoluto. Alice piscou as órbitas escuras, perplexa. Emmett interrompeu o movimento no vão da porta. Carlisle ergueu uma das sobrancelhas espessas de forma lenta. Rosalie abandonou o total desinteresse pelo ambiente e cravou os olhos diretamente nele, fixando o foco.
— Bella? — perguntou Alice, as sobrancelhas unidas em um vinco profundo de completa e total incompreensão biológica.
O sorriso que desenhou-se no meu rosto pálido foi simplesmente gigantesco. Lento. Perigoso. Magnífico. O triunfo mais perfeito e refinado da assombração residente daquela colina.
Edward fechou as pálpebras de forma resignada, os ombros de mármore caindo de leve em um sinal de derrota. Porque ele sabia perfeitamente o tamanho do desastre arquitetônico e familiar que acabara de assinar com aquele deslize vocálico. Sabia exatamente o que eu estava pensando naquele milissegundo de caos doméstico. E sabia, com uma certeza amarga e terrivelmente divertida, que aquele deslize impagável era apenas o começo da sua ruína.
A sala permaneceu em silêncio por alguns segundos. Alice foi a primeira a quebrá-lo.
— Quem é Bella?
Edward abriu os olhos. Eu quase pude ouvir as engrenagens do cérebro dele girando desesperadamente em busca de uma desculpa.
— Uma garota da escola.
Eu gargalhei de braços cruzados.
— Essa foi horrível.
— Uma garota da escola? — repetiu Rosalie, abandonando a indiferença habitual.
— Sim.
— Nunca ouvi você falar dela.
— Porque não é importante.
— Então por que você falou o nome dela sozinho? — perguntou Emmett.
Excelente pergunta. Eu estava muito orgulhosa de Emmett naquele momento. Edward ficou imóvel por um segundo.
— Eu estava pensando.
— Em voz alta? — perguntou Alice.
— Sim.
— Você nunca pensa em voz alta.
— Pensei desta vez.
Alice estreitou os olhos. Jasper também. Carlisle observava a cena em silêncio, claramente intrigado com a súbita falta de jeito do filho.
— Estranho — concluiu Alice.
— Não é estranho.
— É muito estranho.
— Não é.
— É.
Edward decidiu mudar de assunto. Uma estratégia covarde, mas eficiente.
— Como foi seu dia, Emmett?
— Você está mudando de assunto.
— Estou perguntando sobre seu dia.
— Está mudando de assunto.
— Emmett.
— Edward.
Eu estava quase chorando de tanto rir. Foi nesse momento que percebi a revista sobre o colo de Edward. Uma revista qualquer, provavelmente sobre música clássica, ou literatura, ou alguma outra atividade entediante. Meu sorriso cresceu devagar, perigosamente. Ah, perfeito.
Concentrei-me. A revista tremeu. Edward imediatamente percebeu o que eu estava fazendo, e seu olhar encontrou o meu.
Eu empurrei. A revista voou das mãos dele, cortando o ar e caindo no chão com um estalo alto. Toda a sala se virou no mesmo milissegundo. O silêncio que se instalou foi absoluto. Edward olhou para a revista caótica no tapete, depois para mim.
Eu sorri da forma mais inocente que consegui simular.
— Oops.
Alice piscou. Emmett piscou. Rosalie arqueou uma sobrancelha. Carlisle observou Edward, enquanto ele permanecia perfeitamente calmo — o que foi profundamente decepcionante para o meu espírito travesso.
— O vento — explicou ele, sem piscar.
Silêncio. Olhares. Muitos olhares carregados de ceticismo. Alice encarou a janela de vidro selada pela chuva.
— As janelas estão fechadas.
— Sim.
— Então como foi o vento?
— Forte.
— Dentro da casa?
— Muito forte.
— Edward.
— Sim?
— Você está piorando.
Eu tive que me apoiar no braço do sofá para não desabar no chão de tanto rir. Rosalie estava olhando para ele como se estivesse seriamente reconsiderando tudo o que sabia sobre a sanidade do irmão. Jasper parecia genuinamente confuso com as oscilações emocionais do ambiente, e Emmett estava fascinado.
— O vento derrubou uma revista?
— Exatamente.
— Dentro da sala?
— Sim.
— Com as janelas fechadas?
— Sim.
— Interessante.
Edward levantou-se num salto, claramente desistindo daquela conversa humilhante e sem saída.
— Acho que vou caçar.
— Agora? — perguntou Esme, erguendo os olhos com surpresa.
— Agora.
— Você acabou de chegar.
— Estou com fome.
— Você acabou de caçar ontem.
— Estou com mais fome hoje.
Carlisle observou o comportamento errático do filho por um instante, decifrando as entrelinhas, e depois assentiu de forma mansa.
— Certo.
Edward praticamente saiu da sala em velocidade recorde, cruzando o umbral como um raio preto. Eu deslizei no ar e o acompanhei imediatamente.
— Fugindo? — provoquei, flutuando ao lado dele. Nenhuma resposta. — Covarde. — Silêncio. — Traidor. — Nada. — Abandonou-me na frente da sua família.
Edward abriu a pesada porta da frente.
— Monstro.
Ele continuou marchar pela varanda.
— Falso amigo.
Nada.
— Leitor compulsivo.
Nada.
— Vampiro dramático.
Um pequeno sorriso surgiu no canto da boca dele. Eu vi.
— Ah! Você ouviu essa.
Ele não respondeu com palavras. Desceu os degraus de madeira da varanda, atravessou o gramado úmido do quintal e entrou na densidade da floresta temperada. Eu o segui flutuando por alguns metros entre os pinheiros, rindo do seu desespero.
Então, parei. Automaticamente.
Foi um solavanco físico e instantâneo, como se a minha essência tivesse colidido de frente contra uma parede invisível e intransponível. Edward continuou andando, avançando pela névoa, até que percebeu que o som da minha presença ou o rastro do meu pensamento não estava mais atrás dele.
Ele parou. Virou-se de volta sobre o cascalho. Franziu as sobrancelhas.
— Bella?
Eu estava parada exatamente na linha imaginária entre duas árvores antigas. No mesmo lugar, com o corpo espiritual rígido, sem conseguir arrastar a minha existência nem mais um milímetro para a frente. Edward refez seus passos, voltando alguns metros na minha direção.
— O que aconteceu?
Cruzei os braços sobre a camisola, tentando recuperar o tom casual.
— Nada.
— Bella.
— Nada.
— Você parou.
— Eu sei.
Ele fixou os olhos dourados nas linhas do meu rosto pálido, analisando a rigidez da minha postura. Então, o intelecto dele pareceu juntar as peças e compreender o paradoxo.
— Você não pode sair daqui.
O meu sorriso de deboche desapareceu um pouco, dando lugar a uma linha mais suave e resignada. Olhei para o cenário da floresta ao redor, para as copas escuras das árvores e para os limites invisíveis daquela propriedade que eu conhecia tão bem.
— Não muito.
Edward ficou em silêncio por um longo momento, a chuva caindo entre nós.
— Quanto longe?
— Alguns metros além da propriedade.
— E depois?
— Depois eu simplesmente não consigo continuar.
Ele olhou fixamente para o ponto exato do chão onde meus pés flutuavam, como se seus olhos de predador tentassem enxergar a barreira mecânica ou a força que me ancorava ali.
— Há quanto tempo?
Soltei uma risada curta e sem humor, o sarcasmo retornando para mascarar o peso da amnésia.
— Edward.
— O quê?
— Eu sou um fantasma preso numa casa há décadas.
— Certo.
— Então... provavelmente há décadas.
O silêncio voltou a se instalar entre as árvores úmidas de Forks. Mas, dessa vez, a calmaria não era engraçada, nem leve, nem preenchida pelo ritmo rápido das nossas provocações cotidianas. Pela primeiríssima vez desde que cruzamos os olhos na sala de estar, Edward exibia uma fisionomia realmente triste. Uma melancolia sincera que pesava em suas feições de mármore.
Por isso, agindo com a rapidez que me era característica, fiz exatamente o que sempre fazia quando uma conversa ameaçava ficar séria demais ou romper o meu verniz de ironia:
— Além disso, alguém precisa vigiar Emmett.
Edward processou a mudança brusca de assunto e soltou uma pequena risada limpa, o peso sumindo de seus ombros.
— Claro.
— Ele é uma clara ameaça à ordem e à sociedade.
— Concordo plenamente.
— Viu? — Estiquei o braço, apontando para o peito dele com um sorriso largo de orelha a orelha. — Finalmente o seu intelecto está chegando a algum lugar útil.
E, pela primeira vez desde o segundo exato em que ele quebrou a barreira do invisível e me enxergou no meio daquela sala, Edward sorriu de verdade.
A expressão durou apenas um instante, mas eu vi. E, estranhamente, aquilo me fez sorrir também.
Ficamos alguns segundos em silêncio, cercados pela floresta úmida. A chuva tinha diminuído e agora apenas algumas gotas caíam das copas dos pinheiros. Então me lembrei de uma coisa.
Cruzei os braços.
— Ainda estou irritada com você.
Edward ergueu uma sobrancelha.
— Comigo?
— Sim.
— Por quê?
— Você me ignorou.
— Ah.
— "Ah"?
— Eu tinha meus motivos.
— Você fingiu que eu não existia.
— Tecnicamente, ninguém além de mim consegue ver você.
— Isso não melhora a situação.
Edward suspirou.
— Bella.
— Você começou.
Ele balançou a cabeça.
— Eu não podia simplesmente conversar com você na frente deles.
— Por quê?
— Porque eles iam achar que eu estava louco.
Eu gargalhei, o som ecoando por entre os troncos molhados.
— Edward, sua família é composta por vampiros.
— Sim.
— Vampiros.
— Eu sei.
— Um deles acreditou que havia um fantasma na casa.
— Sim.
— Outro consegue ver o futuro.
— Sim.
— E vocês ainda traçam a linha da loucura em conversar com uma fantasma?
Edward ficou em silêncio por alguns segundos.
— Quando você coloca dessa forma...
— Porque é uma ótima forma de colocar.
— Continua sendo estranho.
— Para vocês.
— Para qualquer pessoa.
— Eu sou uma fantasma. Minha opinião sobre normalidade é superior.
— Não acho que funcione assim.
— Funciona na minha cabeça.
— Isso me preocupa.
— Justo.
Edward observou a casa ao longe. As luzes brilhavam através das janelas, recortando a névoa de Forks. Aquela visão era tão comum para mim que eu raramente prestava atenção nela. Mas agora havia alguém olhando comigo. Alguém que entendia do que eu estava falando.
Era uma sensação curiosa.
— Além disso — continuou ele — é melhor manter segredo por enquanto.
— Por quê?
— Porque não sabemos o que está acontecendo.
— Estou morta.
— Eu percebi essa parte.
— Obrigada.
— Quero dizer... não sabemos por que eu consigo ver você.
Aquilo me fez parar para pensar, porque ele tinha total razão. Emmett me viu uma vez, em um espasmo de sensibilidade visual. Edward me via agora, com nitidez cirúrgica. Mas os outros não. Não fazia o menor sentido. Quer dizer, fazia tanto sentido quanto qualquer outra coisa da minha pós-vida, mas ainda assim.
— Talvez eu seja seletiva.
— Você escolheu aparecer para Emmett?
— Talvez… Um pouco.
— Então não.
— Talvez o universo tenha um ótimo senso de humor.
— Essa teoria é surpreendentemente plausível.
Sorri. Edward continuou:
— Até entendermos isso, acho melhor não contar para ninguém.
— Nem para Carlisle?
— Nem para Carlisle.
— Nem para Alice?
— Principalmente não para Alice.
Eu ri de braços cruzados, porque isso fazia um sentido absoluto. Alice descobrir a existência de uma fantasma presa na casa provavelmente resultaria em aproximadamente cinquenta perguntas por minuto. Talvez cem.
— Certo.
Edward pareceu genuinamente surpreso com a minha docilidade.
— Certo?
— Sim.
— Você concordou rápido demais.
— Não estrague o momento.
— Estou desconfiado.
— Eu consigo ser madura.
— Duvido.
— Isso foi ofensivo.
— Foi realista.
Suspirei dramaticamente, jogando a cabeça para trás.
— Tudo bem.
— Tudo bem?
— Vamos manter segredo.
— Obrigado.
— Mas se você me ignorar daquele jeito de novo, eu vou escrever mensagens assustadoras em todos os espelhos da casa.
— Bella.
— Todos eles.
— Bella.
— Inclusive os banheiros.
Edward fechou os olhos, os ombros de mármore caindo de leve.
— Você é impossível.
— E você é ingrato.
— Eu literalmente sou a única pessoa que consegue conversar com você.
— Exatamente. Você tem responsabilidades.
Ele soltou uma risada. Uma risada verdadeira, de peito aberto. Aquilo me fez sorrir novamente.
O silêncio voltou, mas dessa vez era confortável, livre daquele gelo antigo. A floresta balançava suavemente com o vento. As luzes da casa brilhavam ao longe. E, pela primeira vez em décadas, eu não estava completamente sozinha.
A percepção me pegou totalmente desprevenida, como um solavanco térmico no peito. Então, agindo com a rapidez que me era característica, tratei de ignorá-la imediatamente. Sentimentos profundos eram complicados; provocações cotidianas eram infinitamente mais fáceis de gerenciar.
— Certo — falei, recuperando o tom travesso. — Vá caçar.
— Sim, mãe.
— E tome cuidado.
Edward arqueou uma sobrancelha, parando o movimento dos passos.
— Com o quê?
— Com ursos.
— Eu sou um vampiro.
— Exatamente. Eles nunca suspeitam dos vampiros.
— Boa noite, Bella.
— Boa noite, Edward.
Ele começou a se afastar pela vegetação rasteira. Depois de alguns metros avançando com rapidez, sua silhueta desapareceu completamente entre as árvores e a névoa.
Eu fiquei ali parada na linha invisível, observando o vácuo até que ele sumisse de vez do meu radar. Então, girei o corpo flutuante e me virei para encarar a fachada cinzenta da casa. Para a minha casa. Para a casa deles.
E, pela primeira vez em muito tempo, senti uma vontade genuína de voltar para dentro. Porque agora, naquele quadrado de luz, havia alguém que podia me ouvir.
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