Notas iniciais
Muito obrigada pelo incentivo e desculpem pela demora! Vou tentar postar novamente amanhã!

Os dias começaram a adquirir uma rotina.

O que, sob circunstâncias normais, seria uma notícia absolutamente terrível para mim. Rotinas eram perigosas, rotinas levavam à mesmice, e o tédio era o meu maior e mais persistente inimigo natural. No entanto, a rotina dos Cullen operava em uma frequência tão bizarra que eu acabava me entretendo pelo puro absurdo da situação.

A primeira grande descoberta científica aconteceu em uma segunda-feira de manhã.

Eu estava confortavelmente empoleirada no corrimão da escada principal, observando a movimentação matinal da casa, quando todos os jovens começaram a descer os degraus vestindo roupas arrumadas e elegantes demais para pessoas que viviam isoladas no meio de uma floresta temperada.

No início, pensei que estivessem saindo para uma sessão de caça matinal. Depois, imaginei que talvez fizessem parte de algum tipo de culto secreto de vampiros aristocratas. Ou, quem sabe, reuniões administrativas urgentes da comunidade sobrenatural. Talvez existisse uma Associação Nacional dos Mortos-Vivos com fins burocráticos, o mundo do pós-vida é cheio de mistérios, nunca se sabe.

Foi então que ouvi Alice comentar alegremente com Jasper algo sobre uma prova de álgebra.

Fiquei confusa. Muito confusa. Infinitamente mais confusa do que no dia em que descobri que sugadores de sangue de fato existiam.

Segui o grupo flutuando até a garagem subterrânea. Edward entrou em um carro esportivo reluzente, Alice deslizou para o banco do motorista de outro veículo impecável, Emmett marchava resmungando sobre trapaças enquanto Rosalie ignorava solenemente a existência dele, e Jasper mantinha uma postura rígida, parecendo apenas tentar sobreviver emocionalmente à convivência com a própria família.

E então eles partiram. Todos. Juntos.

Em direção à escola.

A escola pública de Forks.

Fiquei parada no meio do concreto da garagem durante quase cinco minutos inteiros, tentando digerir os dados daquela informação monumental.

— Não... — murmurei para as paredes vazias.

Houve uma pausa dramática.

— Não pode ser.

Mais uma pausa.

— Vocês são a porra de uns vampiros — argumentei com o vento. Olhei para a estrada deserta de acesso. — Vocês têm, tipo, centenas de anos de idade acumulados.

Silêncio absoluto.

— Por que diabos vocês estão indo frequentar o ensino médio?

Infelizmente, não havia nenhuma criatura presente para responder ao meu questionamento sociológico. Passei o restante do dia flutuando de cômodo em cômodo, tentando decifrar aquela lógica reversa, mas falhei miseravelmente.


Na semana seguinte, a situação conseguiu piorar e atingir o ápice do ridículo.

Carlisle arrumou um emprego. No hospital municipal de Forks. Como médico plantonista.

Eu gostaria genuinamente de dizer que houve algum contexto histórico ou uma justificativa dramática que tornasse essa informação menos absurda, mas não houve. Era exatamente o que parecia: um vampiro imortal. Trabalhando em um ambiente de saúde. Cercado por sangue, bolsas de plasma e cortes abertos. Todos os santos dias.

Aquilo ultrapassava os limites do bizarro, parecia uma piada de mau gosto escrita por um roteirista de comédia pastelão. Passei uma tarde inteira flutuando de cabeça para baixo no teto do escritório dele, tentando encenar mentalmente como teria sido a entrevista de emprego daquele homem:

— “Então, doutor Carlisle, o que exatamente o qualifica para esta posição de liderança em nosso hospital?”— “Bem, eu passo uma quantidade significativa e diária de tempo concentrando cada fibra do meu ser para simplesmente não morder o pescoço das pessoas.”— “Excelente! Contratado imediatamente.”

Era a única explicação plausível para o departamento de Recursos Humanos ter aceitado o currículo dele.

A grande verdade era que aquela família inteira parecia profundamente determinada a ser o pior clã de vampiros de toda a história da literatura gótica. Vampiros tradicionais deveriam morar em castelos medievais na Transilvânia. Ou em criptas úmidas. Ou em mansões vitorianas assustadoras no topo de montanhas enevoadas. Eles definitivamente não deveriam frequentar o ensino médio, usar jaquetas de grife e trabalhar na área da saúde pública. Era simplesmente conceitualmente errado, quase uma ofensa profissional à classe dos monstros.

Com o passar dos dias, porém, o meu cérebro acabou se acostumando com a anomalia. O casarão ficava completamente vazio durante boa parte do dia: Carlisle operava humanos no hospital, os jovens aterrorizavam professores de matemática com notas impecáveis e rapidez desumana, e apenas uma única pessoa permanecia ali guardando o forte.

Esme.

Eu gostava de Esme. Não de uma forma estranha — quer dizer, provavelmente era de uma forma um pouco estranha, considerando que eu era o espectro de uma adolescente observando a rotina de uma mulher pela janela —, mas vocês entenderam o ponto.

Esme era diferente do resto do clã. Mais tranquila, mais serena. A estrutura da casa parecia respirar com muito mais leveza quando ela estava presente nos cômodos. Enquanto o restante da família corria em velocidades absurdas pela floresta, destruía móveis caros acidentalmente ou competia para ver quem era o mais arrogante, Esme passava horas e horas cuidando meticulosamente das plantas do quintal.

E eu, por falta de opção e por pura curiosidade, comecei a acompanhá-la.

A propriedade possuía um jardim enorme nos fundos que havia sido engolido pelo mato ao longo dos anos, e que Esme vinha restaurando pouco a pouco, com uma paciência cirúrgica. Todas as manhãs, ela saía para o gramado úmido armada com luvas de jardinagem e tesouras de poda.

Ela aparava galhos secos, replantava mudas delicadas, arrancava ervas daninhas com determinação e... conversava com as flores. O que às vezes me fazia questionar seriamente se viver isolada naquela floresta com aquele bando de esquisitos também já não estava derretendo a sanidade mental dela.

Eu costumava me acomodar em um galho de pinheiro próximo, observando o trabalho dela por horas a fio. Esme parecia genuinamente feliz em meio à terra e aos brotos. E a felicidade verdadeira era algo raro de se ver. Os humanos normais que já haviam passado por aquela casa sempre carregavam pressa, ansiedade crônica, prazos e preocupações mundanas. Esme não. Ela simplesmente existia no espaço. Com calma. Como alguém que dispunha de todo o tempo do universo e escolhera usá-lo para apreciar pequenas coisas vivas.

Numa tarde em que a chuva havia dado uma trégua e pequenas gotas d'água ainda reluziam como diamantes nas pétalas, observei enquanto ela transplantava algumas mudas para um canteiro novo. Ela analisava cada botão com uma atenção quase maternal, como se estivesse ajeitando lençóis em berços de crianças.

A imagem me fez esboçar um sorriso genuíno. Porque era exatamente assim que ela gerenciava os Cullen lá dentro. Como se fossem seus filhos pequenos. Mesmo aqueles que claramente já tinham idade cronológica suficiente para terem sido presidentes de grandes repúblicas ao longo da história humana.

— Você é muito esquisita — murmurei para o ar, balançando as pernas fantasmas no galho da árvore.

Esme continuou ajeitando a terra ao redor da muda, ignorando completamente a minha frequência espiritual, focada em seu próprio casulo de paz.

— Mas acho que você é a menos estranha de toda essa família — concluí, inclinando a cabeça.

Pensei no vampiro que usava jaleco médico. Nos vampiros centenários que fingiam fazer o dever de casa de biologia. E pensei em Emmett, que ainda entrava nos banheiros da casa testando cautelosamente os espelhos com o dedo antes de fechar a porta.

O sorriso travesso voltou a desenhar-se no meu rosto.

Talvez eu estivesse errada na minha análise inicial. Talvez eles não fossem o pior clã de vampiros da história. Talvez fossem simplesmente a família mais escandalosamente esquisita que já pisou na Terra. E, para a minha total e absoluta sorte, eles tinham decidido fixar residência exatamente na minha casa.

Uma das maiores e mais revoltantes injustiças de toda a minha existência pós-morte era o fato incontestável de que os meus poderes sobrenaturais pareciam ser administrados por um departamento de recursos humanos completamente incompetente.

Sério. Era a única explicação lógica e plausível.

Porque nada — absolutamente nada — funcionava de maneira minimamente consistente. Alguns dias eu reunia energia para mover objetos pesados e desafiar a física; outros, mal conseguia fazer uma cortina de linho balançar. Às vezes eu atravessava paredes de gesso sem sequer pensar no assunto; às vezes, ficava flutuando presa por alguns segundos agonizantes dentro dos tijolos, parecendo uma completa idiota.

E, aparentemente, o processo mecânico de me materializar visualmente para as pessoas vivas seguia essa mesma lógica matemática e completamente aleatória.

Porque, depois do glorioso e inesquecível incidente com Emmett no quarto... eu nunca mais tinha conseguido repetir o feito. Nem uma única vez.

O que era algo profundamente irritante. Minha autoestima de assombração estava sob séria ameaça. No começo, cheguei a imaginar que a minha primeira aparição tivesse sido mero golpe de sorte. Depois, cogitei que talvez eu precisasse de alguma frequência específica de concentração neurológica pós-vida. Então, passei a testar teorias. Muitas teorias.

Emmett, sem qualquer direito a voto ou consentimento prévio, transformou-se no meu principal objeto de pesquisa científica.

Certa manhã, por exemplo, materializei-me com toda a força da minha vontade bem na frente dele, no centro da cozinha. Nada. O grandão passou direto pela minha frequência espiritual, atravessando-me como se eu fosse um banco de névoa.

Na semana seguinte, fiquei estática no corredor, esperando estrategicamente que ele saísse do quarto para lhe dar um sobressalto. Nada. Em outra ocasião particularmente desesperada, sentei-me literalmente na beirada do colchão dele enquanto ele arrumava os travesseiros. Nada. Emmett cruzou a extensão do quarto sem sequer desviar o foco de suas órbitas douradas na minha direção.

Aquilo era ridículo. O mesmíssimo homem que tinha corrido por aquele casarão inteiro berrando "FANTASMA" em um tom de voz agudo agora exibia uma total e absoluta incapacidade biológica de me enxergar. Chegava a ser ofensivo.

— Eu estou bem aqui! — reclamei em voz alta certa tarde, bufando ao lado dele.

Emmett abriu uma gaveta da cômoda.

— Bem aqui, seu brutamontes! — insisti, agitando as mãos fantasmagóricas diante dos olhos dele.

Ele pescou uma camisa preta e a vestiu com calma.

— Bem. Aqui.

E saiu do quarto batendo a porta. Sem qualquer reação neurológica. Eu quase arremessei um travesseiro de penas na nuca dele por pura frustração.

O pior de tudo era que aquela anomalia visual não se limitava apenas ao Emmett. Acontecia com todos os membros do clã. Ninguém me via. Ninguém captava meus sussurros vocais. Ninguém reagia aos meus espasmos de presença.

Comecei a deduzir amargamente que aquele primeiro momento de sucesso havia sido apenas uma exceção inexplicável do tecido cósmico. Uma falha de renderização na realidade. O universo tinha me concedido generosamente cinco minutos de puro entretenimento e, logo em seguida, retirado o meu privilégio espiritual. Cruel. Extremamente cruel.

Foi exatamente por isso que, quando os jovens Cullen estacionaram os carros e cruzaram a porta da frente naquela tarde chuvosa, eu não alimentava nenhuma expectativa realista de diversão. Apenas flutuei na esteira do grupo para dentro da sala de estar.

A porta foi batida. Alice entrou primeiro, marchando com passos pesados que de modo algum combinavam com sua estatura de fada. Depois vieram Edward, Jasper, Rosalie e Emmett, trazendo o restante das mochilas.

A energia que emanava do grupo de estudantes imortais estava visivelmente diferente hoje. Mais irritada. Mais cansada. Ou pelo menos o equivalente vampírico mais próximo do que os humanos entendem por fadiga mental.

Alice arremessou sua mochila de grife contra o estofado do sofá com uma violência dramática.

— Eu odeio os seres humanos — anunciou ela para as paredes, cruzando os braços.

Edward soltou uma risada abafada, jogando-se na poltrona oposta.

— Você verbaliza essa frase exata todos os dias, Alice.

— Porque todos os dias eles encontram maneiras inéditas de me dar novos motivos!

— O que aconteceu de tão grave agora, querida? — a voz doce de Esme ecoou vindo do vão da cozinha.

Alice jogou a cabeça para trás de forma teatral, desabando no sofá.

— Stacy Miller aconteceu. Essa é a gravidade da situação.

— Quem exatamente é Stacy Miller? — Emmett perguntou, acomodando-se em um dos cantos da sala.

— Exatamente! — Alice apontou o indicador na direção dele de forma enfática. — Essa é, de longe, a pergunta mais correta do dia.

Jasper sentou-se logo ao lado dela. O canto de seus lábios exibia um leve tremor, um sinal claro de que ele estava se esforçando ativamente para segurar o riso — o que para mim funcionava como um indicador de que algo hilário havia acontecido nos corredores do ensino médio.

— A garota passou exatos quarenta minutos discorrendo sobre tendências de esmaltes — Jasper informou ao resto da sala.

— Bem, isso não parece um cenário tão terrível — comentou Esme, surgindo na porta com um pano de prato nas mãos.

— Quarenta minutos seguidos, Esme — Alice enfatizou, os olhos arregalados.

— Ainda assim, parece tolerável para uma adolescente.

— Eu fui forçada a visualizar trinta e sete futuros alternativos diferentes durante o curso daquela única conversa!

Edward explodiu em uma gargalhada genuína.

— E aposto que em todos eles ela continuava discorrendo sobre o assunto.

— Em trinta e quatro deles, sim — Alice corrigiu, séria.

— E nos outros três?

— Nos outros três futuros eu simplesmente empreendia fuga por uma das janelas do corredor.

Achei aquela dinâmica simplesmente magnífica. Acomodei-me confortavelmente no braço largo do sofá, apoiando os cotovelos nos joelhos, sentindo que a tarde estava finalmente ganhando contornos interessantes.

Alice continuou com o seu monólogo de indignação, ignorando solenemente o deboche dos irmãos.

— E para piorar o meu martírio psicológico, ela me mostrou fotos.

— Fotos de vidros de esmaltes? — Emmett arriscou, genuinamente confuso.

— Fotos das próprias unhas dela exibindo os esmaltes em questão!

— Sinceramente, eu não consigo enxergar o grande problema disso tudo — Emmett deu de ombros.

Alice direcionou um olhar dramático para o gesso do teto.

— É claro que você não enxerga, Emmett. Você não possui a menor sensibilidade para entender o sofrimento estético e psicológico que eu fui submetida a enfrentar hoje.

Rosalie adentrou o cômodo naquele momento, carregando um livro técnico nas mãos.

— Você está gastando saliva reclamando da Stacy de novo, Alice?

— Porque a existência dela me consome!

— Ela é uma menina simpática — pontuou Rosalie, sem desviar os olhos do livro.

— Ela me forçou a analisar cento e vinte e seis fotografias idênticas no visor do celular dela, Rosalie.

— Cento e vinte e seis fotos? — Emmett ergueu uma sobrancelha, surpreso.

— Eu fiz questão de contar cada uma delas.

— Claro que contou — ironizou Edward.

— Porque me sobrou tempo de sobra para isso!

Edward afundou o corpo no estofado, cruzando as pernas com um sorriso perverso de canto de boca.

— Se quer a minha opinião profissional... acho que a Stacy gosta muito de você, Alice.

A garota espetada fez uma careta de profundo desgosto.

— Por favor, Edward, guarde as suas projeções assustadoras para você mesmo.

— Ela definitivamente nutre sentimentos de amizade intensa por você — Edward continuou, alimentando o caos. — Ela passou o horário do almoço inteiro rastreando seus passos pelo refeitório.

— Edward, pare.

— Ela inclusive questionou se você não gostaria de acompanhá-la ao shopping no próximo sábado.

— Edward!

— E quis saber qual era a sua cor favorita para dar início a um bracelete da amizade.

Alice enterrou o rosto entre as duas mãos, soltando um gemido abafado contra as palmas.

— Eu odeio adolescentes com todas as minhas forças imortais.

— Você é tecnicamente uma adolescente, Alice — relembrou Jasper, com a voz mansa.

— Isso é completamente diferente!

— Como?

Alice removeu as mãos do rosto e apontou para o próprio peito.

— Porque eu sou eu.

Sinceramente? Eu achei aquele um argumento filosófico extremamente sólido. Eu estava começando a desenvolver uma simpatia profunda por aquela garota de cabelos espetados. Não que aquilo fosse uma novidade na casa; Alice era, de longe, a criatura mais divertida daquela propriedade depois de mim. E, talvez, depois do Emmett — dependendo estritamente do nível de desespero psicológico em que ele se encontrava no dia.

Meu olhar espectral deslizou de Alice para Edward. Ele exibia uma expressão de extrema satisfação pessoal, claramente se deliciando com o tormento da irmã menor.

Foi nesse exato milissegundo que um estalo deu no meu cérebro. Uma ideia. Uma ideia pequena. Inocente. Perfeitamente razoável dentro dos meus parâmetros de entretenimento pós-vida.

Olhei fixamente para as feições perfeitas de Edward. Depois, direcionei o foco para a expressão exasperada de Alice. E, por fim, encarei a mochila de lona escura dela que continuava jogada de forma desleixada no estofado do sofá, bem ao lado das minhas pernas invisíveis.

Um sorriso lento, largo e totalmente maquiavélico desenhou-se nos meus lábios fantasmagóricos.

Talvez eu não possuísse densidade molecular suficiente para me materializar visualmente para eles de forma consistente. Talvez eu não conseguisse estabelecer um diálogo formal no plano físico, e talvez ninguém pudesse registrar a minha presença naquele segundo.

Mas eu ainda guardava a capacidade técnica de mover algumas coisas pequenas. Às vezes.

E, às vezes, um pequeno movimento na matéria era tudo de que uma fantasma entediada precisava para instaurar o caos perfeito.

Na verdade, quanto mais eu refletia sobre aquela nova abordagem metodológica, mais gostava da ideia de sabotagem oculta.

Porque aparecer dramaticamente diante de alguém e fazer um espetáculo visual era divertido, claro, mas manipular uma situação inteira à distância, mantendo-me em um anonimato absoluto? Aquilo sim era arte. Pura, refinada e sutil arte do pós-vida.

Direcionei meu olhar espectral da mochila de Alice para o rosto de Edward. Ele estava confortavelmente recostado na poltrona com aquela expressão irritantemente serena e onisciente que parecia usar vinte e quatro horas por dia. A postura exata de alguém que acreditava piamente entender cada milímetro do que acontecia ao seu redor. O que, vamos combinar, era um detalhe cômico e bizarro, considerando que o sujeito dividia o teto com uma adolescente morta há décadas e não fazia a menor e mais remota ideia disso.

Alice, por sua vez, continuava desfiando o seu novelo de reclamações adolescentes.

— E então, para coroar o meu sofrimento, ela quis saber qual era o perfume importado que eu uso.

— Qual o problema de uma pergunta dessas? — Emmett deu de ombros, esticando as pernas imensas.

— O problema é que eu não uso perfume, Emmett.

— Então era só responder isso para a menina e mudar de assunto.

— Mas eu respondi exatamente isso!

— E aí?

— E aí ela me perguntou qual era o motivo de eu não usar!

Emmett franziu o cenho por um breve segundo, ponderando sobre a lógica humana.

— Justo. Um argumento válido.

— Emmett! — Alice bufou, ultrajada.

Aproveitei aquela maravilhosa e caótica distração geral na sala de estar. Concentrei toda a minha essência espiritual na mochila. O acessório estava jogado sobre o braço de uma poltrona de camurça próxima. Não era um objeto excessivamente pesado; eu tinha capacidade técnica para realizar aquilo. Provavelmente. Talvez. Com um pouquinho de sorte cósmica.

A mochila tremeu sobre o tecido estofado. Só um milímetro. Uma vibração imperceptível que ninguém registrou.

Continuei insistindo, empurrando o ar com a força da minha pura teimosia pós-morte. A alça escorregou lentamente pela lateral lisa da poltrona. Mais um pouco. Mais um centímetro. E então... a gravidade finalmente fez o seu trabalho.

A mochila despencou no assoalho de madeira.

Tum.

O som do impacto ecoou de forma nítida pelo cômodo. Todos os vampiros na sala giraram a cabeça e olharam para o objeto no chão no mesmo milissegundo. Inclusive eu. Por puro reflexo mecânico. O que era uma atitude ridícula, visto que eu mesma tinha sido a autora do crime.

Alice piscou os olhos grandes, confusa.

— Estranho...

— Você acabou de deixá-la cair, Alice — Rosalie pontuou, sem desviar o foco de seu livro.

— Eu não cheguei nem perto dela, Rosalie.

— Ah, claro. Então a bolsa adquiriu pernas e pulou sozinha da poltrona?

Alice alternou o olhar desconfiado entre a mochila caída e a fisionomia entediada da irmã loira.

— Sim. Exatamente.

Rosalie revirou as órbitas com uma força monumental. Tive que prensar os lábios fantasmas para não soltar uma gargalhada ruidosa ali mesmo.

Eu ainda não tinha dado por encerrado o meu experimento artístico. Enquanto a atenção do clã lentamente voltava para os rumos da discussão de colégio, flutuei suavemente até o tapete, posicionando-me ao lado da mochila. O zíper principal do bolso maior encontrava-se entreaberto. Perfeito. Um cenário técnico impecável.

Muito devagar, canalizei toda a minha energia sutil na pequena aba metálica do fecho. Ela se moveu alguns milímetros pela trilha de plástico. Depois mais alguns. Mais alguns, arrastando-se silenciosamente até o zíper abrir por completo de ponta a ponta.

Aquele processo mecânico exigiu muito mais esforço espiritual do que eu gostaria de admitir em meu diário de bordo. Honestamente, mover uma montanha inteira usando apenas a força do pensamento parecia uma tarefa mais simples. Mas cada gota de suor virtual valeu a pena.

Porque, alguns segundos depois, Alice abaixou-se para resgatar a bolsa do chão e travou o movimento. Suas sobrancelhas uniram-se em um vinco profundo.

— Eu fechei esse zíper. Tenho certeza absoluta.

Ninguém na sala fez menção de responder.

— Eu fechei isso antes de sair do carro, pessoal. Eu me lembro.

— Talvez a sua memória perfeita tenha falhado por um segundo e você tenha esquecido — sugeriu Jasper, com aquela voz mansa e pacificadora que parecia projetada para acalmar leões.

— Eu não esqueci, Jasper.

— Você esquece detalhes cotidianos às vezes, Alice.

— Eu não esqueço!

— Esquece sim.

— Eu literalmente vejo o fluxo do futuro em tempo real, seu idiota!

— E, surpreendentemente, ainda assim consegue esquecer onde larga as suas próprias chaves — Jasper rebateu, com um sorriso de canto de boca.

Alice inflou as bochechas, parecendo profundamente ofendida. Eu estava adorando cada milímetro daquela mini crise de convivência.

A conversa continuou fluindo de forma veloz, mas algo sutil começou a arranhar a minha percepção. Ou melhor... alguém começou a me deixar em estado de alerta.

Edward.

Porque, enquanto todos os outros discutiam calorosamente sobre a memória falha de Alice, ele permanecia em um silêncio absoluto. Observando. Suas órbitas douradas e cortantes vagavam ocasionalmente pelo espaço vazio da sala de estar. Pensativo. Analítico. Com a exata expressão de um detetive tentando encaixar as peças de um quebra-cabeça invisível.

Aquilo me deixou ligeiramente desconfortável. Não porque eu nutrisse algum medo genuíno e primitivo dele — afinal, eu era a droga de um fantasma intangível, o que exatamente um vampiro adolescente faria contra a minha integridade espectral? Vingar-se me forçando a ouvir os desabafos da Stacy Miller? —, mas porque Edward parecia estar gradualmente percebendo que havia uma anomalia inteligente operando naquela casa.

E eu decididamente não gostava quando criaturas muito espertas começavam a juntar fragmentos de evidências. Pessoas inteligentes eram um problema metodológico para o meu lazer. Pessoas inteligentes resolviam mistérios. E eu fazia extrema questão de continuar sendo o maior e mais intocável mistério daquela colina.


A chuva fina começou a fustigar as vidraças com mais intensidade. Lá fora, a imensidão da floresta de Forks mergulhava lentamente na escuridão azulada do fim da tarde. Dentro do casarão, Esme trouxe alguns volumes de livros de arte para a sala, organizando o ambiente com sua calmaria habitual.

Carlisle cruzou a porta da frente pouco tempo depois, retornando de seu plantão. O que, no meu ponto de vista, continuava e sempre continuaria sendo uma frase completamente absurda e surreal de se formular mentalmente: um vampiro ancestral voltando de um dia exaustivo de trabalho no hospital público. Eu jamais me acostumaria com aquilo. Jamais, nem que vivesse mais dez séculos.

O patriarca acomodou-se em sua poltrona habitual, afrouxando ligeiramente o nó da gravata com um suspiro condescendente.

— Como foi o dia de vocês na escola? — perguntou ele, varrendo os filhos com um olhar acolhedor.

— Horrível — Alice disparou de imediato, cruzando os braços.

— Dentro da normalidade — Jasper ponderou.

— Bastante divertida — Emmett abriu um sorriso largo.

— Extremamente irritante — Rosalie concluiu, fechando seu livro com um estalo.

Carlisle esboçou um sorriso brando e compreensivo.

— Então, pelo visto, foi apenas mais um dia perfeitamente comum.

Acomodei-me de forma desleixada no encosto alto do sofá de couro e fiquei apenas observando o quadro daquela família reunida. Era uma sensação profundamente estranha. Porque eu tinha passado tanto tempo imersa em um isolamento absoluto e gelado que o meu cérebro ainda criava resistência para se acostumar com aquilo.

Com o som de vozes sobrepostas. Com o movimento constante de corpos. Com a presença de pessoas.

Aquele casarão decadente parecia genuinamente vivo outra vez. Mesmo que as criaturas responsáveis por aquela pulsação fossem tecnicamente cadáveres ambulantes. Ou parcialmente mortas. Ou vampiricamente falecidas; eu não dominava a terminologia correta da biologia sobrenatural.

Tudo o que eu realmente sabia, no fundo da minha essência, era que eu gostava daquele barulho.

Gostava de ouvir as reclamações dramáticas de Alice. Gostava das provocações ácidas e infantis entre Edward e Emmett. Gostava da aura pacífica que emanava de Esme e até dos olhares fuzilantes que Rosalie distribuía de hora em hora. Aquelas paredes tinham sido revestidas por um silêncio sepulcral por tanto tempo que eu quase havia deletado da memória a sensação de se ter companhia.

O pensamento poético e melancólico me atingiu de surpresa, pegando-me desprevenida. E eu, agindo com a rapidez de quem foge de uma assombração (o que era ironia pura), tratei de ignorá-lo imediatamente.

Sentimentos profundos eram perigosos na minha condição. Especialmente quando se é uma fantasma presa ao mesmo gesso há décadas inteiras.

Por isso, fiz exatamente o que qualquer criatura psicologicamente madura e equilibrada faria em uma situação de vulnerabilidade emocional: voltei a focar toda a minha atenção no planejamento de novas e requintadas formas de aterrorizar a mente de Emmett. Era uma estratégia de enfrentamento infinitamente mais saudável.

Meus olhos localizaram o vampiro brutamontes do outro lado do cômodo. Ele estava empolgadíssimo explicando alguma história de caça para Carlisle, utilizando gestos absurdamente exagerados com os braços imensos para ilustrar a narrativa. Provavelmente detalhando mais uma de suas competições idiotas contra a velocidade de Edward.

Foi aí que um estalo maravilhoso deu na minha mente. Uma ideia de proporções colossais.

Porque, apesar de todos os meus esforços recentes de sabotagem com canetas e porta-retratos... fazia dias inteiros que Emmett não soltava um único grito agudo de pânico doméstico.

E, sendo totalmente honesta comigo mesma? Eu já estava começando a sentir uma falta dolorosa daquele som.

Notas finais
O que estão achando que Emmett vai aprontar?