Como Ser Um Fantasma (Sem Querer)
34 Capítulo 34
Edward continuou parado. Completamente imóvel.
O que era uma característica bem irritante dos vampiros, diga-se de passagem. Eles já tinham toda a vantagem da beleza sobrenatural, da força absurda e da capacidade irritante de parecerem modelos esculpidos para uma pintura antiga. Precisavam mesmo adicionar a habilidade de virarem estátuas de mármore bem na hora em que uma pessoa estava tentando ter uma conversa emocionalmente decisiva?
Eu respirei fundo, puxando o ar gelado e tentando manter o prumo. Ele precisava entender. Mas eu não podia simplesmente jogar a verdade sem filtro no colo dele. Além de ser uma violação direta da única regra do meu renascimento, provavelmente seria a pior introdução da história das conexões humanas.
"Oi, Edward. Lembra da garota que morreu há décadas e que você achou que perdeu para sempre? Surpresa, sou eu! Ah, e desculpa pelo susto."
Não. Definitivamente não. Eu precisava de um pouco mais de delicadeza. Algo que, infelizmente, nunca foi exatamente o meu forte em duas vidas inteiras.
— Você gosta de histórias? — perguntei, quebrando o silêncio.
Edward franziu levemente a testa, encarando-me como se tentasse decifrar um enigma.
— Histórias?
— Sim — dei de ombros, fingindo uma atitude casual. — Livros, filmes, aquelas coisas todas que os humanos usam para fingir que entendem a própria existência.
Ele quase pareceu confuso. Quase. A máscara de gelo dele deu uma leve vacilada.
— Você está tentando mudar de assunto, Bella?
— Não — respondi rapidamente, ajustando a postura no sofá. — Estou preparando o terreno.
Ele continuou me encarando da coluna onde estava encostado.
— Para quê, exatamente?
Sorri de lado, o meu clássico sorriso de quem sabia que estava prestes a pisar num campo minado.
— Para uma história muito dramática. — Fiz uma pausa dramática, deixando as palavras assentarem. — E, considerando que você parece um pouco mais velho e compenetrado, achei que talvez tivesse um pouco de paciência para me ouvir.
Um pequeno e denso silêncio caiu sobre a sala. Então, ele perguntou:
— Isso por acaso foi uma provocação?
— Talvez — inclinei a cabeça, sem desviar o olhar. — Estou só testando se você ainda tem algum senso de humor guardado aí dentro.
Ele não respondeu nada. Ótimo. Teste do senso de humor: falha miserável. Mas eu não desisti. Continuei mesmo assim, firme.
— Era uma vez... — comecei, a voz saindo serena.
Edward ficou atento no mesmo instante, o corpo inteiro em alerta.
—... uma garota. Uma garota que morreu há muito tempo.
Os olhos de topázio dele mudaram levemente, uma sombra cruzando sua expressão. Eu continuei:
— Ela era jovem. Muito jovem. Tinha uma vida inteira pela frente... ou pelo menos era o que ela achava antes de tudo dar errado. Mas, de repente, a vida dela acabou. E ela ficou sozinha. Completamente sozinha numa casa onde ninguém conseguia enxergá-la. Ninguém conseguia ouvir a voz dela. Ninguém sabia que ela ainda estava ali, respirando sem corpo.
Minha voz ficou mais baixa, carregada com o peso daquela memória:
— Ela passou muito tempo acreditando que aquela solidão era a sua punição. Que talvez fosse isso o que ela merecia: ficar presa no escuro, esperar o tempo passar e desaparecer aos poucos, até não sobrar nada.
Edward não desviava o olhar de mim. Nem por um único milissegundo.
— Mas então... — continuei, sentindo meu peito aquecer. — Sete pessoas chegaram.
A expressão dele mudou drasticamente. A rigidez de mármore cedeu espaço a um choque sutil. Precisei puxar o ar antes de continuar:
— Sete pessoas que, pelas leis do mundo, não deveriam ter conseguido enxergá-la. Mas conseguiram. Sete pessoas que entraram naquela casa abandonada e, de alguma forma, fizeram aquela garota lembrar que ela ainda existia. Que ela ainda tinha um valor.
Edward ficou absolutamente imóvel.
— Eles ensinaram ela a viver de novo — falei, sustentando o olhar dele. — Mesmo quando ela achava que não podia mais. Eles fizeram ela rir. Eles fizeram ela se irritar... muito. — Fiz uma pequena pausa e, por um instante, um sorriso verdadeiro quase me escapou dos lábios. — Principalmente um deles.
Por um segundo, a sala pareceu menor.
— Ele era irritante. Muito irritante — continuei. — Do tipo que fazia questão de provocar ela só para ver a coitada perder a paciência.
Edward abaixou levemente o olhar para o chão, a mandíbula tensionada. E eu soube ali: ele estava lembrando. As engrenagens do passado estavam girando.
— Mas ela adorava isso — continuei, a voz trêmula. — Porque aquela provocação besta fazia ela se sentir viva de verdade.
O silêncio na sala ficou pesado, denso, mas não era mais um silêncio vazio ou de estranhamento. Era um silêncio preenchido por tudo aquilo que passamos anos sem conseguir dizer.
— Essa garota aprendeu a amar — minha voz falhou ligeiramente, e o nó na garganta quase me impediu de prosseguir. — Ela achou que nunca teria isso. Achou que nunca mais sentiria nada parecido na existência dela. Mas teve. Ela encontrou uma família. Encontrou pessoas que se importavam de verdade. Encontrou alguém que fez ela acreditar que talvez ainda existisse um futuro para ela.
Edward respirou fundo. Foi um movimento pequeno, puramente humano e involuntário. Mas eu vi.
— E então... o que aconteceu com ela? — ele perguntou. A voz dele saiu rasgada, quase um sopro de ar que mal se fez ouvir.
Olhei bem nos olhos dele.
— Ela precisou ir embora.
A dor crua e devastadora apareceu no rosto dele no mesmo instante. Mas eu continuei antes que ele pudesse se fechar na sua armadura de luto:
— Não porque ela queria. — Essa era a parte mais importante de todas. — Ela queria ficar. Ela teria escolhido ficar para sempre. Mas algumas coisas simplesmente não dependem da nossa escolha.
Edward fechou os olhos por um segundo inteiro, engolindo em seco, como se aquelas palavras fossem uma lâmina cortando uma ferida antiga.
— Mas ela conseguiu voltar — sussurrei.
Os olhos dele se abriram num estalo.
— Voltar?
Assenti, devagar:
— Sim. Mas não da forma que ela imaginava. Ela não voltou como ela mesma. Não voltou com o mesmo rosto, nem com o mesmo nome nos papéis. Ela voltou vestida como outra pessoa.
O silêncio na sala virou algo absoluto.
Edward me encarava fixamente. Era como ver alguém tentando desesperadamente juntar milhares de pedaços espalhados de um espelho quebrado. Como se a mente rápida dele já soubesse a resposta inevitável, mas o coração ferido estivesse aterrorizado demais para se dar ao luxo de acreditar.
— Bella...
A forma como ele disse meu nome fez meu coração dar uma volta completa no peito. Não era mais a constatação fria de antes. Agora havia pavor. Havia uma esperança desesperada. Havia dor.
Eu não respondi nada. Não conseguia articular uma única palavra.
Então, ele deu um passo à frente. Depois outro. Rompeu a distância de segurança e parou bem na minha frente, a dor estampada em cada traço do seu rosto de mármore.
— Isso é verdade? — A pergunta saiu quase como um pedido implorado. Não uma dúvida racional, mas um clamor por salvação.
Engoli em seco, sentindo a quentura das lágrimas queimarem meus olhos:
— Algumas histórias são verdadeiras demais para parecerem reais, Edward.
Foi a resposta mais próxima da verdade explícita que eu podia dar sem quebrar a promessa do meu renascimento. E, aparentemente, foi mais do que o suficiente.
Porque Edward finalmente entendeu.
Eu vi o instante exato em que a luz voltou aos olhos dele. O momento preciso em que todas as peças do quebra-cabeça impossível se encaixaram perfeitamente: o fantasma invisível da casa em Forks, a garota que ele chorou por dezoito anos, o nome, a humana parada na frente dele agora.
O rosto dele se desfez por completo.
Toda aquela distância estudada, toda a frieza de mármore, a armadura de luto que ele vestiu por quase duas décadas... tudo ruiu de uma só vez.
E antes que eu pudesse respirar ou dizer qualquer outra coisa... Edward se inclinou e me abraçou.
Ele me envolveu com força, uma força desesperada, apertando-me contra o peito frio como se tivesse um pavor brutal de que, se me soltasse por um único segundo, eu me transformaria em fumaça e desapareceria novamente no ar.
Meu corpo inteiro congelou por uma fração de segundo antes de amolecer nos braços dele. Durante anos e anos eu imaginei como seria esse reencontro. Mas eu nunca, em nenhuma das minhas teorias, imaginei que doeria tanto... nem que seria a coisa mais absurdamente bonita de toda a minha existência.
Ele escondeu o rosto no meu ombro, me segurando contra si, e pela primeira vez desde que pisara no Alasca, ouvi a voz do meu Edward — vibrante, aveludada e cheia de vida:
— Eu sabia... — ele sussurrou perto da minha pele.
Minha garganta travou.
— Sabia?
Ele afastou o rosto apenas o suficiente para segurar minha cabeça com as duas mãos frias, os polegares acariciando minhas bochechas. Os olhos dourados dele estavam transbordando de uma emoção tão intensa e pura que achei que fosse me fundir ali mesmo.
— Eu sabia que você não poderia simplesmente ter desaparecido do universo — disse ele, a voz embargada, com a intensidade de quem finalmente acorda de um pesadelo. — Você voltou.
Ele repetia a frase como se precisasse ouvi-la no ar para ter certeza de que não estava enlouquecendo, como se tentasse convencer a si mesmo de que o milagre era real.
Sorri através das lágrimas que finalmente lavavam o meu rosto, segurando os pulsos dele:
— Eu voltei.
E desta vez... ele não me soltou.
Por alguns segundos, nenhum de nós disse nada.
E, sinceramente? Depois de passar anos morta, depois de reencarnar num corpo novo, depois de atravessar metade do país atrás de uma família de vampiros e de quase quebrar uma regra cósmica sagrada... eu esperava que o universo me desse pelo menos cinco minutinhos de paz e sossego.
Mas, aparentemente, o universo tinha senso de humor. Um péssimo senso de humor.
Porque Edward ainda estava segurando meu rosto entre suas mãos frias como se precisasse ter certeza absoluta de que eu era feita de carne, osso e respiração. Como se, a qualquer segundo, eu fosse me desintegrar e desaparecer numa nuvem dramática de fumaça. Embore, pensando bem, eu já tivesse feito coisas consideravelmente mais estranhas nesta e na outra vida.
— Você está aqui — ele sussurrou.
A voz dele carregava uma carga tão avassaladora de incredulidade que meu coração deu um aperto doloroso no peito.
Sorri de leve, tentando quebrar a gravidade sufocante do momento:
— Tecnicamente, sim.
Ele franziu levemente a testa, aqueles olhos de topázio me varrendo de perto:
— Tecnicamente?
Dei de ombros, deixando um sorrisinho escapar:
— Bom, eu já fui um fantasma invisível preso numa casa abandonada em Forks. — Fiz uma pausa dramática. — Acho que a minha vida perdeu o direito de usar a palavra "normal" faz bastante tempo.
Por um instante... Só por um instante minúsculo... Eu vi.
O antigo Edward. Aquele brilho divertido e afiado no olhar. Aquele pequeno e inconfundível movimento no canto da boca, ensaiando o sorriso torto que eu tanto amava.
— Você ainda faz piadas em momentos completamente inadequados, Bella.
Sorri de volta, sentindo meus olhos arderem:
— E você ainda reclama delas.
O silêncio que veio depois não tinha um pingo de dor ou estranhamento. Era um silêncio familiar. Confortável. Como voltar para casa depois de décadas longe e perceber que, apesar de tudo, o chão ainda era o mesmo.
Então, Edward fez algo que eu não esperava. Ele se aproximou mais. Devagar, com uma lentidão quase dolorosa, como se estivesse com medo de me assustar ou me quebrar. Como se eu fosse uma porcelana frágil.
Eu queria dizer a ele que não era nada frágil. Pelo amor de Deus, eu tinha sobrevivido a um assassinato, a anos de isolamento como espírito, a uma negociação com entidades cósmicas e à convivência com a família dele. Eu definitivamente não era frágil.
Mas naquele exato instante... com o Edward me olhando com toda a devoção do mundo... talvez eu fosse um pouco frágil, sim.
Ele tocou meu rosto novamente, os polegares deslizando com uma delicadeza absurda sobre a minha pele. O mesmo toque. O mesmo cuidado infinito.
E então... ele me beijou.
Não foi como o primeiro beijo incerto de duas pessoas que acabaram de se conhecer numa esquina. Não havia nervosismo, hesitação ou dúvida. Era a reunião inevitável de duas partes de uma mesma alma. Era como se estivéssemos resgatando um tempo roubado, como se todos aqueles dezoito anos de separação e luto fossem apenas uma pausa cruel que finalmente, graças aos céus, tinha chegado ao fim.
Eu senti absolutamente tudo naquele toque. A saudade acumulada que queimava, a dor das feridas antigas, o alívio abençoado de estar nos braços dele, a felicidade pura. E, acima de tudo... a certeza.
Edward ainda era o meu Edward. E eu ainda era, sob qualquer pele ou nome, a garota completamente apaixonada por ele.
Quando nos afastamos apenas o suficiente para respirar, ficamos alguns segundos simplesmente nos encarando. Eu queria desesperadamente congelar aquele momento, guardá-lo numa caixinha de vidro e escondê-lo do resto do universo. Porque, pela primeira vez em muito tempo... eu tinha um pavor real de acordar e perceber que era um sonho.
Respirei fundo, sentindo o ar queimar na garganta.
— Eu sinto muito, Edward.
A expressão dele mudou no mesmo instante, a testa franzindo:
— Pelo quê, meu amor?
Baixei o olhar para os nossos dedos entrelaçados. Porque essa era a parte difícil. A parte em que eu precisava admitir a angústia de ter guardado esse segredo dele por tanto tempo.
— Por não ter contado a verdade antes. Por ter fingido ser uma estranha durante todos esses meses.
Edward ficou em silêncio, ouvindo.
— Eu queria te contar — continuei, a voz embargada pelas lágrimas que teimavam em cair. — Meu Deus, como eu queria! Todos os dias, a cada segundo que eu olhava para você ou ouvia a sua família falar da sua ausência... Eu queria gritar quem eu era.
Ele segurou a minha mão com um pouco mais de firmeza. Mas eu precisei continuar:
— Mas eu não podia.
— Por que não podia? — a pergunta dele não veio carregada de raiva ou cobrança. Veio com uma tristeza profunda.
Suspirei, buscando fôlego:
— Porque eu recebi uma segunda chance de viver. E ela veio acompanhada de regras muito estritas.
Edward ficou totalmente atento, a postura rígida:
— Que regras?
Hesitei por um segundo, medindo as palavras na linha tênue que eu vinha caminhando:
— Eu fui proibida de revelar abertamente e diretamente quem eu fui na vida passada. Se eu fizesse isso sem rodeios... a minha existência aqui correria o risco de desmoronar.
A expressão dele mudou de choque para um entendimento doloroso:
— Você estava tentando me proteger disso?
Soltei uma risada fraca e sem humor, limpando uma lágrima:
— Eu estava tentando não ser apagada de vez e não perder você de novo.
Ele ficou imóvel por um segundo, o olhar transbordando emoção:
— Bella...
— Eu sei — interrompi, segurando o rosto dele. — Parece um absurdo completo. Mas, considerando tudo o que aconteceu comigo desde Forks, acho que a palavra "absurdo" perdeu qualquer utilidade no meu vocabulário.
Ele quase sorriu. Quase.
Apertei as mãos dele entre as minhas, abrindo meu coração:
— Eu estava morrendo de medo, Edward. Medo de contar de um jeito errado e perder tudo. Medo de nunca mais poder ver a Esme, o Carlisle, a Alice, o Emmett... Medo de nunca mais poder ter você assim, perto de mim.
Edward passou o polegar suavemente pelas minhas costas da mão, absorvendo minhas palavras.
— Você carregou esse fardo sozinha durante todo esse tempo?
Assenti devagar:
— Durante dezoito anos. Na minha infância nova, na viagem até aqui... em cada passo.
Ele fechou os olhos por um instante, e uma sombra pesada de culpa cortou o rosto dele:
— E eu passei todos esses anos achando que tinha te perdido para sempre... — a voz dele falhou, rasgada de dor. — Eu passei quase duas décadas tentando aceitar a sua morte. E você estava no mesmo mundo que eu.
Balancei a cabeça rapidamente, negando com firmeza:
— Não, Edward. Não pense assim.
Aproximei meu rosto do dele até que nossas testas se encostassem:
— Eu não estava pronta antes. Eu era apenas o fantasma de uma lembrança, uma garota tentando entender por que tinha voltado. Mas agora eu estou aqui de verdade. Inteira.
E desta vez... Edward não tentou discutir, lamentar o passado ou negar o milagre. Ele apenas me puxou para junto do peito dele outra vez, num abraço protetor e apertado, como se aquela fosse a única resposta possível para todas as perguntas do universo.
E talvez fosse mesmo. Porque algumas dores não precisavam de explicações longas; algumas histórias só precisavam, finalmente, encontrar o caminho de volta para casa.
...
Era engraçado como as coisas voltaram ao normal.
Ou pelo menos algo próximo disso.
Porque, considerando que minha vida envolvia uma morte misteriosa, um período agonizante como fantasma, uma reencarnação com regras cósmicas e um namorado vampiro que tecnicamente tinha mais de um século de existência...
"Normal" era uma palavra com um significado bastante flexível.
Dias se passaram. Depois semanas. E, de alguma forma, parecia que eu nunca tinha ficado longe daquela família. Era como se aqueles anos separados tivessem sido apenas uma pausa estranha e extremamente inconveniente na história.
Eu voltava a aparecer na casa dos Cullen sem avisar. Emmett voltava a fazer comentários absurdos. Rosalie voltava a fingir que não gostava de mim enquanto claramente gostava. Alice voltava a planejar coisas para a minha vida sem pedir autorização, porque, aparentemente, a habilidade de prever o futuro vinha acompanhada de uma completa e absoluta falta de limites sociais.
E Carlisle e Esme...
Bem. Eles continuavam sendo Carlisle e Esme. O tipo de pessoa que fazia você sentir que tinha uma família e um porto seguro, mesmo quando o universo tinha decidido complicar absolutamente tudo.
Mas havia uma diferença fundamental.
Edward.
Ele tinha voltado. Pelo menos quase por inteiro.
Porque Edward Cullen ainda carregava alguns efeitos colaterais visíveis da minha morte. Um deles era o hábito terrivelmente irritante de me olhar como se eu fosse desaparecer ou virar fumaça a qualquer segundo. O que era um pouco ofensivo para mim. Eu tinha voltado da morte. Literalmente. Se existia alguém neste planeta com autoridade e experiência na arte de permanecer em um lugar contra todas as probabilidades, essa pessoa era eu.
Mas, aparentemente, esse meu currículo não era suficiente para convencer Edward.
— Você sabe que eu estou aqui de verdade, não sabe? — perguntei um dia.
Ele estava encostado na estante da biblioteca, com o olhar cravado em mim enquanto eu esticava o braço para pegar um livro pesadíssimo.
Edward piscou devagar.
— Eu sei.
— Então por que você está olhando para mim como se eu fosse evaporar nos próximos cinco segundos?
Ele ficou em silêncio. O que, vindo dele, era basicamente uma confissão de culpa.
Cruzei os braços, encarando-o.
— Edward.
— É uma possibilidade real — ele murmurou, a voz baixa.
Fiquei olhando para ele, chocada.
— Você acabou de admitir que ainda acha que eu posso simplesmente desaparecer no ar?
Ele desviou os olhos dourados para a janela.
— Depois de tudo o que aconteceu... — Ele suspirou, um som desnecessário para seus pulmões, mas carregado de humanidade. — Eu acho difícil não pensar nisso a cada instante.
Por um momento, eu não tive uma resposta sarcástica na ponta da língua. E isso era preocupante. Porque, normalmente, eu tinha uma resposta sarcástica engatilhada para tudo. Era praticamente meu talento especial. Além de morrer. E, aparentemente, voltar.
— Edward — caminhei até ele, encurtando a distância. — Eu passei anos presa em uma casa abandonada esperando para ser encontrada.
Ele virou o rosto para me olhar.
— Eu atravessei uma segunda vida inteira, juntando dinheiro e cruzando o país tentando chegar até vocês — toquei meu próprio peito, onde meu coração humano batia rápido. — Você realmente acha que, depois de todo esse trabalho épico, eu vou simplesmente sumir do nada?
Ele ficou quieto, analisando meu rosto com uma intensidade avassaladora. Então murmurou:
— Quando você coloca dessa forma...
— Eu sempre coloco dessa forma — respondi, erguendo o queixo. — Esse é o meu charme.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto de mármore dele. Pequeno, contido, mas inegável. E eu quase comemorei em voz alta. Porque fazer Edward Cullen sorrir novamente deveria contar como uma conquista oficial da humanidade. Talvez eu devesse receber um certificado impresso: "Parabéns, Isabella. Você conseguiu devolver a expressão facial a um vampiro centenário."
Mas o problema não era apenas ele achar que eu desapareceria a qualquer momento. Era a nova e sufocante mania de proteção. Edward tinha se transformado em uma mistura bizarra de namorado dedicado e segurança particular de alta periculosidade. E isso era extremamente irritante.
— Eu consigo abrir a porta da frente sozinha, sabia? — falei certa tarde.
Ele estava parado exatamente ao meu lado, a mão já estendida sobre a maçaneta de metal da entrada. Uma porta. Não uma criatura sobrenatural. Não um inimigo mortal. Uma simples porta de madeira.
— Eu sei que consegue — ele respondeu com calma.
— Então por que você está fazendo isso por mim?
— Porque eu posso.
Revirei os olhos com tanta força que senti a cabeça girar.
— Impressionante. — Cruzei os braços. — O grande Edward Cullen... criatura imortal, caçador habilidoso, leitor de mentes assustador... — Fiz uma pausa dramática. — Derrotado pelo mecanismo de uma maçaneta.
Ele me lançou um olhar divertido, os olhos dourados brilhando.
— Você está realmente reclamando da minha gentileza, Bella?
— Sim, estou.
— Mas você está sorrindo.
Droga. Ele tinha razão. Odeio quando vampiros têm razão.
A parte mais engraçada de tudo isso era que todo mundo na casa percebeu o comportamento dele. Claro que perceberam. A família Cullen era absolutamente incapaz de deixar qualquer situação passar batida sem comentários irônicos. Especialmente quando envolvia o drama de Edward.
Emmett foi o primeiro a se pronunciar sobre a nova fase do irmão, durante uma tarde na sala.
— Então... — ele olhou para Edward. Depois olhou para mim. Depois voltou a encarar Edward. — Você sabe que ela já morreu uma vez e voltou, certo?
Edward estreitou os olhos na direção do irmão.
— Emmett, não comece.
— Não, estou falando extremamente sério! — Ele levantou as mãos imensas em sinal de paz. — Ela literalmente voltou da morte. Atravessou a barreira do além. — Ele apontou o dedo indicador para mim. — Essa mulher é provavelmente a pessoa mais difícil de perder ou matar neste planeta.
Eu assenti com veemência, concordando com a lógica.
— Finalmente alguém sensato e com raciocínio lógico nesta família!
Emmett abriu um sorriso enorme e orgulhoso.
— Obrigado, Bella. Eu tento.
Edward soltou um longo e exasperado suspiro.
— Vocês dois juntos são completamente impossíveis.
— Engraçado — falei, inclinando a cabeça. — Eu costumava dizer exatamente a mesma coisa sobre você.
E foi exatamente nesse instante que ele sorriu de verdade. Não aquele pequeno sorriso contido de antes. Não aquele sorriso cauteloso e tenso de quem teme o amanhã. O sorriso verdadeiro, torto, iluminado e aveludado que eu tinha sentido tanta falta durante anos.
E ali, olhando para ele sob a luz da janela, eu percebi uma coisa fundamental.
Edward ainda tinha medo. Ele ainda carregava as cicatrizes profundas do luto e continuava assustado com a ideia aterrorizante de me perder novamente. Mas ele estava tentando. Ele estava, finalmente, aprendendo a viver de novo.
E talvez fosse isso o que eu precisava lembrar a mim mesma. Ele não precisava apagar ou esquecer a dor do que passamos. Assim como eu não precisava esquecer meu passado como fantasma ou as regras da minha nova vida. Nós apenas precisávamos parar de viver acorrentados e presos a ele.
Embora... eu ainda pretendesse reclamar muito da mania insuportável dele de me tratar como se eu fosse feita de porcelana cristalina.
Porque, sinceramente? Depois de tudo o que eu passei para estar ali... eu merecia pelo menos o direito sagrado de tropeçar nos meus próprios pés sozinha.
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