Como Ser Um Fantasma (Sem Querer)
32 Capítulo 32
Eu poderia ter desistido.
Essa foi a primeira coisa que ecoou na minha mente, límpida e cortante, naquela noite escura. Deitada na cama do meu apartamento em Anchorage, encarando as ranhuras do teto branco enquanto as lágrimas finalmente secavam sobre a minha pele fria, uma parte de mim — a parte cansada, machucada e exausta — soprava que talvez fosse melhor assim. Abandonar tudo. Aceitar a derrota.
Talvez eu tivesse cometido um erro irreparável ao tentar desafiar a ordem das coisas.
Talvez a minha tentativa obstinada de voltar para a vida deles tivesse sido um ato de puro egoísmo, uma busca cega para curar a minha própria solidão. Talvez Edward tivesse, finalmente, depois de quase duas décadas de dor, encontrado uma forma precária de seguir em frente. E eu simplesmente tinha surgido do nada, irrompendo na rotina dele como um fantasma inconveniente, carregando nas costas o peso esmagador de um passado que ele tentara a todo custo enterrar.
Mas então... eu lembrava do olhar dele.
Aqueles olhos de topázio e sombra cravados nos meus. Não havia raiva ali. Não havia a indiferença fria de quem superou. Não havia o esquecimento.
Era dor. Dor pura, profunda, viva e sangrenta. A exata mesma dor que eu carregava no fundo do meu próprio peito.
E eu conhecia Edward Cullen. Conhecia a alma daquele vampiro melhor do que qualquer ser neste mundo. Ele não tinha me esquecido. Nem por um segundo, nem por um dia. Ele não estava "seguindo em frente". Ele estava apenas tentando sobreviver à minha ausência, arrastando os dias como um fardo.
E essa descoberta, por mais trágica que fosse, doía mil vezes mais do que se ele tivesse simplesmente se apaixonado por outra pessoa ou me apagado da memória.
Na manhã seguinte, quando os primeiros raios fracos do sol do Alasca tocaram a janela do quarto, tomei uma decisão inabalável. Eu não iria desistir. Não dele. Não ainda.
Eu tinha passado uma vida inteira — dezoito anos inteiros de espera, morte e renascimento — tentando desesperadamente encontrá-lo. Eu não era covarde. Não iria virar as costas e fugir na primeira vez em que as coisas ficassem terrivelmente difíceis.
Além disso... eu tinha aprendido uma lição valiosa durante o tempo em que vivi como um fantasma invisível. Algumas pessoas precisavam de tempo. Algumas feridas abertas não fechavam simplesmente porque alguém exigia ou porque a lógica mandava. Elas cicatrizavam quando a alma estava pronta.
E talvez Edward precisasse apenas disso: lembrar, aos poucos, que ainda existia luz e calor além daquela escuridão em que ele se trancara. Mesmo que, por enquanto, ele não soubesse quem eu realmente era sob esta nova pele.
Foi alguns dias depois que peguei as chaves da picape e dirigi até a propriedade dos Denali.
Eu não avisei ninguém. Não mandei mensagem para Tanya e nem liguei para Esme. Se eu avisasse Alice, o radar afiado e a intuição preditiva dela perceberiam que havia algo terrivelmente errado comigo antes mesmo de o meu carro despontar na curva da estrada. E eu não estava pronta para dar explicações.
Eu precisava apenas... de um ancoradouro. De ver rostos conhecidos que me lembrassem de que, apesar do caos dentro da minha cabeça, eu ainda tinha um lugar legítimo naquele mundo.
Assim que estacionei sobre o cascalho, percebi que a grande casa de madeira estava silenciosa. Estranhamente silenciosa. Sem barulho de motor, sem música, sem o eco característico de várias vozes imortais conversando ao mesmo tempo.
Desci do carro, puxando o ar gelado, e caminhei a passos firmes até a varanda. Bati três vezes na madeira pesada da porta.
Por alguns segundos, apenas o som do vento nos pinheiros respondeu. Então, ouvi passos pesados do outro lado e a maçaneta girou.
Para a minha profunda surpresa... Emmett apareceu no vão.
— Bella!
O sorriso enorme, de canto a canto do rosto, surgiu instantaneamente naquela figura gigantesca.
— Você veio! E sem avisar ninguém, que milagre.
— Isso por acaso é um problema, Emmett? — perguntei, arqueando uma sobrancelha e cruzando os braços.
— Um problema? Não, de jeito nenhum — ele abriu mais a porta, dando passagem. — Só significa que eu não tive tempo hábil para esconder minhas coisas realmente importantes de você.
Pisquei, olhando para ele com genuína estranheza.
— Que coisas importantes?
Emmett olhou dramaticamente por cima do próprio ombro, varrendo a sala vazia, e depois voltou seus olhos dourados para mim, sussurrando como se revelasse um segredo de estado:
— Meus chocolates.
Fiquei alguns segundos paralisada, encarando aquela moleca de mais de um metro e noventa de músculos e mandíbula forte. Então, soltei uma risada curta e desacreditada.
— Você é ridículo, sabia?
— Obrigado. Trabalho duro para manter o título.
Entrei na casa, sentindo o calor agradável do aquecedor me envolver. Olhei ao redor. A sala imensa estava deserta.
— Cadê todo mundo? — perguntei, tirando o casaco.
Emmett deu de ombros, uma caminhada despreocupada até o sofá.
— Saíram. Comer, resolver coisas na cidade, passear... sei lá.
Ele fez uma pausa dramática, virando-se para mim com as mãos nos bolsos.
— O que significa que somos só nós dois agora.
Olhei para ele, estreitando os olhos.
— Isso soou terrivelmente como uma ameaça.
— E talvez seja mesmo — ele abriu um sorriso diabólico. — Tenho uma lista atualizada de histórias vergonhosas dos meus irmãos para contar.
— Você é literalmente uma criança de cinco anos presa no corpo de um adulto gigante — balancei a cabeça, sem conseguir conter o sorriso.
— E você adora isso.
Eu queria negar. Queria fazer uma piada azeda e dizer que ele era insuportável. Mas não consegui. Porque eu gostava mesmo. Aquela energia caótica e leve dele era o melhor remédio para a desgraça que vinha destruindo o meu peito nos últimos dias.
Sentamos na sala. Por alguns minutos, engrenamos numa conversa totalmente aleatória. Nada importante, nada pesado, nenhum assunto que exigisse cascas ou disfarces. Emmett reclamou com um drama absurdo sobre uma discussão boba que teve com a Rosalie por causa de um canal de TV. Eu ri. Depois, ele acabou admitindo, num resmungo frustrado, que ela estava cem por cento certa na discussão. Eu ri mais ainda, quase me engasgando.
Mas, em algum momento da nossa conversa... o tom mudou.
Emmett, de repente, ficou quieto. E Emmett Cullen era absolutamente qualquer coisa no universo, menos uma pessoa que ficava quieta por opção.
— Você está bem, Bella? — ele perguntou.
A pergunta, seca e sem os floreios usuais, me pegou totalmente desprevenida. Olhei para ele, sentindo o sorriso congelar no meu rosto.
— O quê?
Ele deu de ombros, apoiando os cotovelos nos joelhos e me encarando com uma atenção quase desconfortável.
— Você. Tô perguntando se você tá bem de verdade.
Soltei uma risada curta, sem humor algum, tentando desconversar:
— Eu tô ótima, Emmett. Por que não estaria?
Ele ergueu uma sobrancelha perfeita, o olhar afiado de quem enxerga através de paredes.
— Mentira.
Pisquei, surpresa com a firmeza da resposta.
— Você... percebeu?
— Claro que percebi.
— Desde quando você virou uma pessoa tão observadora assim?
Emmett levou a mão espalmada ao peito, arregalando os olhos e fingindo uma indignação épica:
— Uau. Que ofensa gratuita. Estou sendo cruelmente atacado e subestimado na minha própria casa!
— Emmett, fala sério...
— A minha família inteira acha que eu sou feito cem por cento de músculos e zero de sensibilidade — ele fez uma pausa dramática, ajeitando a postura. — Mas existe um cérebro funcionando perfeitamente bem aqui dentro, sabia? — Ele apontou com o indicador para a própria cabeça.
— Pequeno — completei, sem perder a oportunidade.
Ele estreitou os olhos, encarando-me com severidade falsa.
— Eu estava prestes a fazer um discurso emocionante e profundo.
— Me perdoe. Por favor, continue.
— Esquece. Agora perdeu todo o impacto dramático que eu tinha planejado.
Não consegui evitar. Soltei uma gargalhada genuína, vinda do fundo da alma. E Emmett sorriu de canto. Um sorriso caloroso, cúmplice. Porque era exatamente isso que ele queria desde o segundo em que passei por aquela porta: me fazer rir. Me tirar daquele transe escuro.
Mas logo em seguida o sorriso brincalhão dele desapareceu, dando lugar a uma expressão serena.
Eu respirei fundo, sentindo o ar queimar no peito, e deixei os ombros caírem.
— Eu não estou bem — a frase saiu baixa. Sincera. Crua. A primeira verdade dita em voz alta desde o desastre no jardim.
Emmett não fez nenhuma piada. Não tentou consertar o clima. Não me bombardeou com perguntas intrometidas ou exigiu detalhes. Ele apenas assentiu devagar, compreensivo.
— Tudo bem.
Fiquei olhando para ele, confusa com a simplicidade da reação.
— Tudo bem?
— É — ele se encostou no encosto do sofá, ajeitando os braços largos. — Às vezes não estar bem é a coisa mais normal do mundo, garota. Você não precisa ficar vestindo essa armadura e fingindo que tá tudo certo duzentos e quarenta horas por dia.
Minha garganta deu um nó doloroso.
— Eu... eu achei que precisava. Achei que tinha que ser forte.
Emmett balançou a cabeça negativamente, a voz assumindo um tom grave que raramente usava.
— Não com a gente.
Ele sorriu de leve, um sorriso pequeno e acolhedor.
— Se você precisar de alguma coisa... Qualquer coisa mesmo... Nós estamos aqui. Sempre.
Meu olhar desviou do rosto dele e caiu para as minhas próprias mãos, cruzadas e trêmulas no meu colo.
— Eu sei... — sussurrei, com a voz embargada. — Vocês sempre estiveram aqui por mim.
Emmett permaneceu em silêncio absoluto por alguns segundos. O ar na sala parecia ter ficado mais denso, mais pesado. Então, ele soltou a frase, com uma calma avassaladora:
— Mesmo quando você não esteve presente...
Meu coração simplesmente parou de bater no peito. O tempo congelou.
Ele continuou, sem alterar o tom suave da voz:
— Nós sempre estivemos aqui.
Levantei os olhos bem devagar, o pulso acelerado. Olhei para ele, encarando cada traço daquele rosto de mármore, tentando desesperadamente entender o que ele estava dizendo, procurando o significado oculto daquelas palavras.
Mas Emmett apenas continuou sorrindo. Aquele sorriso aberto, caloroso e inconfundível que eu conhecia tão bem há duas vidas. O sorriso puro de alguém que não apenas desconfiava... mas que sabia absolutamente tudo.
— O que foi? — ele perguntou, inclinando a cabeça com um brilho divertido nos olhos. — Quer que eu saia gritando de novo pela casa inteira?
A lembrança me atingiu em cheio, como uma onda gigante e avassaladora de nostalgia.
Forks. A antiga casa dos Cullen. O dia em que eu era apenas um fantasma invisível para o resto do mundo... e Emmett tinha sido o primeiro. O único que conseguiu me ver, me ouvir e que saiu berrando pela casa que eu estava ali.
Minhas mãos começaram a tremer descontroladamente sobre os joelhos.
— Como... como você... — minha voz falhou miseravelmente, virando um sopro. — Como você sabia?
Emmett ficou sério por um instante. Pela primeira vez em muito tempo, vi uma vulnerabilidade pura nos olhos dele. Ele inclinou a cabeça para o lado.
— Bella... — ele soltou uma risada baixa, afetuosa. — Qual é a probabilidade estatística de existirem duas Bellas no mundo capazes de conquistar, dobrar e virar essa família do avesso?
As lágrimas transbordaram antes que eu tivesse qualquer chance de contê-las. Quentes, volumosas e libertadoras.
Porque aquela... aquela era a resposta mais genuinamente Emmett que poderia existir na face da Terra. Simples. Direta. Lógica à maneira dele. E absolutamente cheia de amor.
— Você sabia... — sussurrei, cobrindo a boca com a mão.
Ele abriu os braços enormes, estendendo-os na minha direção.
— Eu sabia.
Eu não pensei. Não calculei as consequências, não lembrei das regras do universo ou do segredo que carregava. Apenas me lancei para a frente e me atirei contra o peito dele.
Emmett me envolveu num abraço esmagador e apertado. O mesmo abraço exagerado e desajeitado de sempre. O tipo de abraço forte que parecia capaz de estalar um par de costelas humanas, mas que, naquele exato segundo... era a única coisa no mundo inteirinho capaz de colar os meus cacos espalhados.
— Eu senti tanto a sua falta, garota... — ele murmurou perto do meu ouvido, a voz dele também levemente ríspida de emoção.
Fechei os olhos com força, afundando o rosto no tecido grosso da jaqueta dele, agarrando-me a ele como se fosse meu porto seguro.
— Eu também... Eu senti tanto a falta de vocês...
E naquele instante abençoado...
Depois de longos e dolorosos meses fingindo ser uma estranha, vestindo o nome de Samantha, interpretando o papel de uma garota qualquer que acabara de chegar...
Pela primeira vez desde que pisei de volta neste mundo... eu não precisava mais mentir. Eu não precisava vestir nenhuma máscara.
Porque pelo menos uma pessoa naquele universo infinito... ainda me enxergava de verdade e sabia exatamente quem eu era.
Ficamos sentados na sala por um longo tempo.
Depois daquele abraço sufocante e libertador, nenhum dos dois falou imediatamente. O silêncio que se instalou na sala da casa dos Denali não era desconfortável, mas sim denso, carregado de uma gravidade que parecia desacelerar o próprio tempo.
Era bizarro. Eu tinha imaginado e reencenado mentalmente aquele momento milhares de vezes ao longo dos anos. Pensei que, se alguém descobrisse quem eu realmente era, o cenário seria tomado por um interrogatório emaranhado de perguntas desacreditadas, choque paralisante, confusão e talvez até uma ponta de pavor perante o impossível.
Mas Emmett apenas parecia... aliviado. Terrivelmente aliviado. Como se uma parte pesada dele, que estivera carregando o fardo de uma luto em suspenso há anos, finalmente pudesse pousar o peso no chão e descansar.
Respirei fundo, puxando o ar frio para tentar estabilizar a tremedeira que ainda percorria meu corpo.
— Eu não posso contar para eles, Emmett.
O sorriso aberto que ainda teimava em iluminar o rosto dele murchou um pouco, dando lugar a uma expressão sóbria.
— Eu sei — ele disse, com uma calma inesperada.
Olhei para ele, genuinamente surpresa, pisando em ovos.
— Você sabe?
Ele assentiu devagar, apoiando os antebraços nos joelhos imensos.
— A Alice provavelmente já percebeu que tem algo terrivelmente fora do lugar com você. Ela é a Alice, Bella... ela sempre percebe quando as peças do tabuleiro mudam de posição. Mas existem coisas, limiares cósmicos e escolhas, que até ela aprendeu a respeitar e não forçar.
Baixei o olhar para o meu colo, entrelaçando meus próprios dedos humanos.
— A Vida e a Morte me deram uma escolha — comecei a explicar, a voz saindo baixa e trêmula. — Eu podia voltar. Podia ter uma nova chance de respirar, podia recomeçar e atravessar o país até encontrar vocês. Mas tinha uma condição estrita. Uma cláusula intocável.
Emmett ficou imóvel, totalmente atento a cada sílaba que saía da minha boca.
— Qual condição?
— Eu nunca posso contar para ninguém quem eu fui na vida passada. — Minha voz fraquejou, virando quase um sussurro doloroso. — Eu nunca posso dizer a ninguém que sou a Bella que morreu nos braços dele.
Ele permaneceu em silêncio por um momento, absorvendo o peso de uma regra tão perversa.
— Nem para o Carlisle, para a Esme... para o Edward?
Balancei a cabeça negativamente, sentindo a garganta queimar.
— Nem para eles. Se eu quebrar a regra, tudo desmorona.
Emmett soltou um suspiro pesado, ruidoso, que fez seu peito largo inflar e murchar.
— Isso é muito injusto, caramba. É uma sacanagem cósmica.
Soltei uma pequena risada sem humor, enxugando o canto do olho com a manga do casaco.
— Eu também achei terrivelmente injusto quando ouvi as regras.
Ele me encarou, e uma faísca daquela ironia habitual voltou aos seus olhos dourados:
— Mas você sempre foi teimosa e boa em negociar coisas impossíveis, não é?
Revirei os olhos, não conseguindo conter um sorriso fraco.
— Eu literalmente implorei, barganhei e fiz birra para uma entidade cósmica me deixar voltar para este mundo.
— Exatamente! — Ele apontou o dedo para mim, vitorioso. — Viu só? Isso parece absurdamente você. A Bella que eu conheço não aceitaria um "não" como resposta nem da própria Morte.
Apesar de todo o peso que pairava sobre a sala... eu sorri. Um sorriso verdadeiro, aquecido por dentro. Porque ele tinha razão. Parecia mesmo a minha marca registrada.
O silêncio voltou a nos envolver. Mas, dessa vez, a atmosfera mudou drasticamente. Ficou mais denso. Mais escuro. Mais pesado.
Porque havia uma pergunta fantasma flutuando no ar entre nós desde o segundo em que desci daquele carro. Uma pergunta que eu vinha evitando desesperadamente, mas que precisava fazer antes de enlouquecer.
— Emmett... — chamei, a voz falhando ligeiramente.
Ele ergueu os olhos e me encarou.
— O Edward...
O rosto dele mudou no mesmo milissegundo. Não houve surpresa no seu olhar. O que vi ali foi tristeza. Tristeza pura, crua e devastadora.
— Ele nunca conseguiu seguir em frente, não é? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta.
Emmett abaixou a cabeça, encarando o tapete da sala. Demorou longos e agonizantes segundos para conseguir me responder.
— Bella... — a voz dele saiu abafada, ríspida. — Como diabos ele faria isso?
Meu peito deu um nó tão apertado que senti o ar faltar.
— Mas passaram anos, Emmett... Dezoito anos inteiros.
— Para os humanos, dezoito anos é tempo suficiente para mudar de vida, para curar feridas, para construir uma história nova e esquecer — ele explicou, erguendo o olhar com uma gravidade solene. — Mas nós não somos humanos. Você sabe disso.
Fiquei quieta, incapaz de rebater, ouvindo o som da minha própria respiração desregulada.
Emmett continuou, a voz grave ressoando pela sala vazia:
— Quando um de nós muda... quando um vampiro se apaixona ou passa por uma perda devastadora... não existe o conceito de "voltar atrás" ou "superar". A pessoa que você era, o estado em que sua alma estava, fica eternamente congelado naquele exato momento. Os sentimentos não desbotam com o tempo. As promessas não caducam. As dores não viram cicatrização. Tudo permanece tão vivo, afiado e sangrento quanto no primeiro segundo.
Olhei para ele, sentindo minhas mãos congelarem.
— Você quer dizer que...
— Quero dizer que, para o Edward, perder você não foi apenas passar pelo luto de perder uma pessoa amada — a expressão de Emmett era de uma seriedade trágica. — Foi perder a única mulher que ele escolheu amar para toda a eternidade. A única alma que fez o coração dele bater de verdade.
Minha garganta fechou por completo, um nó cego impedindo qualquer som de sair.
Emmett prosseguiu, dando voz ao pesadelo que eu tanto temera:
— Imagina a tortura que é acordar todos os santos dias, durante dezoito anos, sabendo perfeitamente que a pessoa que você mais ama no universo nunca mais vai voltar. Que ela virou pó. Que ela nunca mais vai existir.
Ele me encarou no fundo dos olhos, e a intensidade daquele olhar me cortou ao meio:
— E você não tem o luxo de esquecer, Bella. Não pode envelhecer para alcançar a pessoa na morte. Não pode mudar e virar a página. Não pode simplesmente ouvir os outros dizerem "faz parte da vida e o tempo cura tudo" e seguir em frente... Porque a sua vida não termina. A sua existência continua, vazia e congelada, para todo o sempre.
Aquelas palavras perfuraram minha alma de um jeito muito mais cruel e doloroso do que eu jamais antecipara.
Porque eu sabia, na pele e nos ossos, exatamente como era a sensação de sentir que o tempo era um inimigo incapaz de apagar uma saudade. Eu tinha passado dezoito anos vivendo com essa marca. Mas eu envelheci, eu mudei, eu morri e renasci.
Edward, por outro lado... Edward passara cada segundo daqueles dezoito anos preso no exato mesmo dia em que me perdeu. Uma eternidade estática de dor.
— Ele... ele tentou...? — Minha voz travou, o pavor me sufocando antes que eu conseguisse concluir a frase. — Ele tentou se matar, Emmett?
Emmett não respondeu imediatamente. Ele desviou o olhar para a janela, e aquele silêncio momentâneo foi a resposta mais aterrorizante e suficiente que eu poderia receber.
Meu coração desgovernou contra as costelas.
— Emmett! Por favor!
Ele passou a mão grande pelo rosto, soltando um ruído de frustração.
— Não. Ainda não.
A palavra "ainda" caiu como uma lâmina sobre a minha cabeça, mas me deu um milímetro de alívio momentâneo.
— O que você quer dizer com "ainda não"?
Ele suspirou, a voz carregada de uma fadiga secular:
— Significa que a ideia passou pela cabeça dele milhares de vezes. Significa que ele pensou nisso seriamente.
Fechei os olhos com força, sentindo uma dor física e lancinante atravessar o meu peito.
— Edward... meu Deus, Edward...
— A Alice não tira os olhos dele por um segundo sequer — Emmett falou rapidamente, tentando me acalmar. — Ela monitora as decisões dele o tempo todo. A família inteira se reveza. A gente nunca deixa ele sozinho por muito tempo, justamente porque sabemos o quanto ele está no limite.
— Mas ele pensou em acabar com tudo... — sussurrei, horrorizada.
Emmett assentiu devagar.
— Sim. Ele pensou. Chegou bem perto. Mas nunca levou adiante.
— Por quê? — A pergunta escapou da minha boca quase como uma prece, um fio invisível de esperança no meio da tempestade.
Emmett me encarou fixamente. E a resposta que saiu da sua boca destruiu e pulverizou a última barreira de proteção que eu ainda tentava manter ao redor do meu coração.
— Porque ele se recusa a quebrar uma promessa.
Meu coração simplesmente parou de bater por um segundo inteiro.
— Que promessa?
Emmett abriu um sorriso triste, carregado de uma melancolia profunda:
— A promessa que você fez ele jurar antes de partir.
Eu já sabia. Santo Deus, eu sabia o que era antes mesmo dele pronunciar as palavras.
— Ele prometeu que viveria — murmurei, a voz embargada.
— Exatamente — Emmett assentiu. — Você pediu para ele viver intensamente. Pediu para ele fechar os livros de luto, sair da escuridão, conhecer o mundo e não passar a eternidade acorrentado à dor da sua perda.
Ele deu uma risada curta e triste, balançando a cabeça:
— O grande problema é que o Edward Cullen é o bastardo mais teimoso e obstinado que já pisou nesta Terra. Mesmo quando a alma dele está em cacos e ele quer desistir de tudo, ele se força a continuar respirando só para cumprir, até o fim, uma promessa que fez para você. Ele vive em função do seu fantasma.
As lágrimas voltaram a rolar pelo meu rosto, quentes e incontroláveis. Eu não fiz o menor esforço para impedi-las.
Porque, no fundo da minha alma, durante todos aqueles meses em que estive de volta, existia um medo oculto e egoísta de que Edward tivesse me esquecido, de que eu tivesse virado apenas um capítulo distante e superado na vida dele.
Mas a verdade era infinitamente mais trágica. Eu nunca tinha saído dali. Eu continuava viva em cada pedaço da existência dele, cravada na parte mais funda da sua alma, aquela parte que ele se recusava a deixar morrer.
Emmett, então, mudou de postura. Ficou sério. Absurdamente sério. Uma expressão que eu raramente, em duas vidas, tinha visto naquele rosto.
— Bella.
Levantei os olhos banhados em lágrimas para encará-lo.
Ele se inclinou na minha direção, o olhar dourado cravado no meu com uma urgência quase desesperada:
— Eu sei que você está tentando ser certinha e respeitar essa regra cósmica do seu renascimento. Eu sei que você tem um pavor desgraçado de estragar tudo e sumir de novo. Mas...
Ele tomou fôlego, um gesto dramático e humano:
— Salva o meu irmão.
O impacto daquelas palavras fez meu peito estremecer.
— Emmett... eu não posso simplesmente...
— Ele está de pé, Bella. Ele anda, fala e finge que existe. Mas ele não está vivo — Emmett interrompeu, a voz firme e implorante. — Ele é uma casca vazia vagando pelo mundo.
Aquelas palavras ecoaram pela sala, cravando-se em mim.
— E você é a única pessoa no universo inteiro que conseguiu fazer aquele idiota querer existir de verdade — ele continuou, permitindo que um sorriso leve e repleto de afeto surgisse no canto dos lábios. — Você foi a única alma capaz de transformar o grande, dramático e inabalável Edward Cullen num cara normal, apaixonado e vulnerável.
— Eu não fiz nada disso... eu só o amei — protestei baixinho.
— Fez sim — ele rebateu no mesmo segundo, sem hesitar. — Você só nunca teve a dimensão do poder que tinha sobre ele.
Olhei para as minhas próprias mãos humanas. Para esta pele nova, para este corpo de dezoito anos, para o nome Samantha registrado nos meus documentos, para esta vida inteiramente nova.
Nova vida, novo rosto, novo nome... mas, no fundo, a exata mesma missão. A exata mesma promessa.
— Eu... eu não sei se consigo, Emmett — confessei, a voz falhando diante da montanha gigantesca que se erguia à minha frente. — Ele me olhou como se eu fosse uma aberração dolorosa quando ouviu meu nome. Ele fugiu de mim.
Emmett se aproximou mais, apoiando uma de suas mãos imensas e pesadas sobre o meu ombro, num gesto de puro apoio fraternal.
— Bella... — ele sorriu, e a confiança que brilhava nos olhos dele foi o suficiente para me fazer tremer. — Você atravessou a barreira da Morte, viveu outra vida inteira, juntou dinheiro por dezoito anos e cruzou um país inteiro sozinha para encontrar a gente. Você acha mesmo que eu vou acreditar que você vai amarelar e desistir dele agora?
As lágrimas continuaram a cair pela minha bochecha, mas o choro desesperado começou a ceder.
Desta vez... havia algo diferente despertando no fundo do meu peito.
Não era mais apenas dor, luto ou desespero. Era determinação. Uma decisão antiga e inabalável recomeçando a queimar nas minhas veias.
Porque eu não tinha recebido uma segunda chance da Vida e da Morte por mero capricho do destino. Eu achava que tinha voltado apenas para ter a chance de ver a minha família de novo, para saber se eles estavam bem. Talvez fosse por isso também.
Mas a verdade inevitável, cravada no meu destino desde o primeiro dia em que vi aqueles olhos dourados em Forks, era outra:
Eu tinha voltado, acima de qualquer regra ou consequência, para resgatar o Edward de si mesmo.
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