Como Ser Um Fantasma (Sem Querer)
33 Capítulo 33
Voltei para casa dirigindo mais devagar do que o normal.
Não porque a estrada estivesse ruim ou perigosa, com buracos escondidos na pista. Nem mesmo porque a neve caía com mais intensidade, borrando o para-brisa da minha picape. Mas porque minha cabeça estava completamente em outro lugar, flutuando num turbilhão de pensamentos densos e sufocantes.
Cada palavra da nossa conversa na sala dos Denali continuava ecoando sem parar dentro do meu cérebro, cravando-se na minha mente como um eco infinito.
"Salva meu irmão."
Eu odiava o quanto aquela frase do Emmett fazia um sentido devastador.
Porque, no fundo, eu sabia. Sabia com uma clareza aterrorizante exatamente o que o Edward estava fazendo todos os dias. Ele estava tentando continuar. Estava mantendo os pés no chão, respirando por obrigação, fingindo uma existência estática. Mas ele não estava vivendo. A alma dele tinha morrido no exato segundo em que a minha se apagara na outra vida.
E a pior parte de todas... era que eu entendia perfeitamente aquele sentimento.
Eu tinha feito exatamente a mesma coisa durante anos. Durante longos e dolorosos anos da minha vida como fantasma, eu existi apenas no piloto automático, esperando por uma resposta que nunca vinha. Esperando entender por que diabos a minha alma tinha ficado presa àquele mundo. Esperando, no fundo do meu ser, ser encontrada por eles.
A única e cruel diferença era que eu finalmente tinha conseguido. Eu tinha reencarnado, cruzado o país, achado a minha família e reconstruído uma ponte.
Edward não.
Edward continuava acorrentado e soterrado no exato milissegundo em que me perdeu.
Estacionei o carro em frente ao meu prédio de apartamentos em Anchorage. Fiquei longos minutos parada do lado de dentro, com as mãos congeladas ainda presas ao volante, ouvindo o chiado leve do motor esfriando. A neve caía lentamente sobre o vidro, acumulando uma camada branca e translúcida. O mundo lá fora parecia quieto demais, em um silêncio sepulcral que quase doía nos ouvidos.
Respirei fundo, sentindo o ar frio invadir meus pulmões e me devolver um pouco de lucidez.
Eu sabia o que precisava fazer.
Era uma ideia absurdamente insana. Perigosa no nível mais alto imaginável. Provavelmente a pior e mais imprudente decisão que eu poderia tomar nesta nova vida.
Mas também era a única decisão possível.
Eu precisava contar a verdade para o Edward.
Mesmo que isso significasse quebrar de forma irreversível a única regra sagrada que me fora dada ao reencarnar. Mesmo que as forças invisíveis da Vida e da Morte ficassem furiosas e cobrassem um preço alto por essa audácia. Mesmo que alguma consequência terrível e desconhecida caísse sobre mim.
Eu não podia deixá-lo continuar vivendo naquele purgatório, acreditando que a mulher que ele amou tinha simplesmente desaparecido no nada. Que eu tinha ido embora para sempre. Que a promessa que fiz ele jurar não tinha mais razão de existir.
Ele precisava saber. Ele merecia saber.
Saí do carro, subi as escadas mecânicas e entrei no meu apartamento. Joguei as chaves da picape sobre a mesa de madeira da entrada com um estalo metálico. Fiquei parada bem no meio da sala escura, encarando o vazio.
Por um instante avassalador, pensei em todas as consequências possíveis e impossíveis que essa escolha traria.
Se eu contasse a verdade... talvez eu perdesse absolutamente tudo o que conquistei. Talvez o destino me tirasse de perto dos Cullen para sempre. Talvez eu nunca mais pudesse olhar nos olhos da minha nova família, do pequeno Ethan ou dos meus pais. Talvez essa minha segunda chance de respirar simplesmente acabasse e evaporasse no ar.
Mais então pensei no Edward.
No olhar devastado dele quando me viu na neve. No jeito que ele estremeceu da cabeça aos pés quando o meu nome — o nome da falecida — saiu da minha boca. Na dor crua e secular que atravessou aquele rosto de mármore antes de ele dar as costas e fugir para a floresta como um bicho ferido.
Eu não tinha voltado a este mundo apenas para ter uma vida perfeita, pacata e confortável. Eu tinha voltado porque ainda existiam pessoas que eu amava mais do que a mim mesma. E uma dessas pessoas estava se desfazendo e desaparecendo diante dos meus próprios olhos.
Peguei o celular no bolso da jaqueta. Fiquei alguns segundos paralisada, encarando a iluminação forte da tela na penumbra da sala. Meu dedo indicador pairou tenso sobre o contato do Emmett.
Eu quase desisti. Quase guardei o aparelho de volta.
Mas apertei o botão de chamada.
O telefone não chamou nem três vezes. Ele atendeu no segundo toque:
— Bella?
A voz dele veio imediatamente do outro lado da linha, ríspida e atenta. Como se ele estivesse com o celular na mão, literalmente esperando que eu ligasse a qualquer momento.
— Oi... — murmurei.
Fiquei em silêncio por um segundo, o nó na garganta me impedindo de prosseguir.
Emmett percebeu a hesitação no mesmo instante. Claro que percebeu.
— Aconteceu alguma coisa? Você está bem?
Fechei os olhos com força, tomando todo o fôlego que meus pulmões conseguiam suportar:
— Eu vou contar para ele, Emmett.
Do outro lado da linha, o som de fundo da casa dos Denali simplesmente sumiu. Ficou completamente silencioso. Um silêncio pesado e tenso.
— Para o Edward? — a voz dele veio baixa, testando as palavras.
— Sim — minha voz saiu pequena, mas cravada de uma firmeza inabalável. — Eu vou contar toda a verdade para ele.
Mais alguns segundos de um silêncio angustiante se passaram. E então, ouvi o som do Emmett soltando o ar devagar do outro lado.
— Bella...
Não era uma bronca. Não era o tom de um irmão julgando uma loucura. Era preocupação pura, vinda do fundo do peito dele.
— Eu sei o que você está pensando — interrompi antes que ele pudesse tentar me dissuadir. — Eu sei que é absurdamente perigoso.
— Não é só perigoso, garota — a voz dele ficou séria, num tom grave que arrepiava. — Você sabe exatamente o que pode acontecer com você se quebrar essa cláusula. Você sabe o risco de desaparecer.
Eu sabia. Sabia muito bem. Mas também sabia que seria incapaz de continuar vivendo nesta cidade, olhando para o Edward daquela forma, sem enlouquecer de culpa.
— Eu não consigo deixar ele assim, Emmett — minha voz falhou miseravelmente no final, e uma lágrima quente escorreu pela minha bochecha. — Eu simplesmente não consigo fingir que sou uma estranha qualquer enquanto ele está se destruindo e sofrendo por mim do outro lado.
Emmett permaneceu quieto, absorvendo o meu desespero. Depois, numa tentativa desesperada de me proteger, ele falou:
— Eu posso contar por você.
Pisquei, pega de surpresa.
— O quê?
— Eu posso falar com ele e explicar toda a história da reencarnação, das regras, de tudo — ele respirou fundo, tentando parecer convincente. — Ele confia em mim, Bella. Ele é meu irmão. Talvez... talvez se a história vier de mim, ele acredite sem você precisar se expor ao risco.
Neguei com a cabeça imediatamente, mesmo sabendo que ele não podia me enxergar através do telefone.
— Não.
— Bella, escuta o que eu estou...
— Não, Emmett! — minha voz saiu mais firme, cortando o protesto dele. — Ele não vai acreditar em você.
Silêncio na linha.
— Ele vai achar que você está tentando desesperadamente fazer ele se sentir melhor — continuei, as palavras fluindo com uma lógica dolorosa. — Vai achar que é uma brincadeira cruel da sua cabeça, ou uma tentativa desesperada da família de dar uma ilusão para ele.
Emmett não respondeu. Porque, no fundo daquela mente imortal, ele sabia que eu tinha razão absoluta.
Edward tinha passado dezoito longos anos tentando aceitar a perda da pessoa mais importante da sua vida. Ouvir de um irmão que a garota que morreu voltou em outro corpo, sem uma prova viva e visceral... seria interpretado por ele como uma loucura sem tamanho.
— Ele precisa ouvir diretamente de mim — falei, sentindo meu coração martelar contra as costelas. — Ele precisa olhar nos meus olhos. Precisa me ouvir falar as coisas que só nós dois sabíamos. Precisa sentir que sou eu ali.
Minha garganta apertou tanto que precisei fazer uma pausa para puxar o ar.
— Eu preciso fazer isso por ele. E por mim.
Emmett soltou um longo e profundo suspirou de resignação:
— Você sabe que está indo diretamente contra a única regra que te trouxe de volta, não sabe?
Olhei para as minhas próprias mãos humanas no escuro da sala.
— Sei.
— E mesmo sabendo de todo o risco... você vai fazer isso?
Fechei os olhos. A resposta não veio da minha cabeça ou da razão; veio do fundo da minha alma, antes mesmo de eu conseguir conter:
— Vou.
Porque eu já tinha perdido o Edward uma vez para a tragédia da morte. Eu não aceitaria perdê-lo uma segunda vez por puro medo das consequências.
Do outro lado da linha, Emmett permaneceu em silêncio por longos e angustiantes segundos. E então, o tom ríspido da sua voz mudou drasticamente. Ficou mais suave, carregado de uma admiração genuína e afetuosa:
— É... você continua sendo exatamente ela.
Meu peito deu um salto.
— O quê?
— A mesma garota teimosa que brigava comigo por qualquer besteira — ele disse, e dava para ouvir o sorriso no tom de voz dele. — A mesma garota maluca que encarava uma família inteira de vampiros como se fossemos pessoas normais. A mesma garota impulsiva que faria exatamente uma coisa completamente insana e suicida como essa por amor.
Soltei uma pequena risada triste, deixando as lágrimas correrem livremente pelo meu rosto.
— Isso por acaso foi um elogio, Emmett Cullen?
— Foi sim — ele fez uma pausa dramática. — Mas não se acostuma, tá? Não vou ficar repetindo.
Ri baixinho, enxugando as lágrimas com a manga do casaco. E, por alguns breves segundos, o peso insuportável no meu peito pareceu doer um pouco menos.
— Emmett?
— Sim?
— Obrigada. Por tudo.
Ele não respondeu imediatamente. Ouvi o som do vento uivando fraco na linha. E então, a voz dele veio calma e carregada de expectativa:
— Só traz o meu irmão de volta para a vida, tá legal?
Engoli em seco, sentindo a responsabilidade daquele pedido arrepiar minha espinha.
— Eu vou tentar.
— Não — ele corrigiu no mesmo segundo, com a firmeza de um irmão mais velho. — Você nunca "tenta", Bella. Você faz.
Ele fez uma pequena pausa, e completou com doçura:
— Agora só lembra que, do mesmo jeito que você precisou dele para voltar... ele está precisando desesperadamente de você agora.
A ligação terminou alguns minutos depois, com um estalo mudo na linha.
Fiquei sozinha no silêncio do meu apartamento.
Mas, pela primeira vez desde que pisara naquele Alasca congelado... eu não estava com medo. O pavor do desconhecido tinha dado lugar a algo infinitamente mais forte: uma determinação cega e inabalável.
Amanhã...
Eu encontraria Edward Cullen frente a frente.
E contaria a ele toda a verdade sobre quem eu fui, quem eu sou e por que atravessei a Morte para voltar.
Mesmo que o universo inteiro se juntasse para tentar me impedir.
No dia seguinte, eu acordei antes mesmo do despertador tocar.
O que era profundamente irritante.
Eu tinha comprado aquele despertador justamente para me lembrar de que precisava levantar, porque, aparentemente, meu cérebro humano ainda não tinha absorvido o conceito revolucionário de "hora de acordar". Mas, claro, no dia mais monumental, tenso e decisivo da minha vida... ele resolveu colaborar e me dar uma folga antes da hora.
Péssimo sinal.
Passei longos minutos encarando o teto branco do quarto. Aquele tipo de encarada fixa que normalmente significava que eu estava tentando convencer a minha própria consciência de que talvez fosse uma péssima ideia fazer algo completamente insano.
Não funcionou de nada.
Porque eu já tinha decidido. Eu iria até Edward. Eu contaria a verdade.
Bem... quase a verdade.
Porque, tecnicamente, eu não podia simplesmente abrir a boca e despejar a história inteira. A entidade da Vida e da Morte tinha sido cristalina e estrita sobre isso: eu nunca poderia revelar abertamente quem eu fui na vida passada.
Mas ela não disse, em momento algum, que eu não poderia contar a minha história em forma de metáfora. E essa era uma diferença sutil, mas gigante. Uma brecha. Minúscula, ridícula, quase uma trapaça jurídica com o universo... mas ainda assim, uma brecha.
Eu não iria olhar nos olhos dele e dizer: "Oi, eu sou a Bella Swan". Não diria: "Eu morri em Forks". Não diria: "Eu fui o fantasma que passou anos assombrando uma casa abandonada".
Embora, sinceramente, essa última frase fosse uma das coisas mais fascinantes que alguém poderia soltar numa conversa.
"Oi, prazer, eu sou a Isabella, mas antes eu era um espírito preso em uma casa porque meu corpo ficou enterrado no jardim."
Sim. Definitivamente não era a melhor frase de cantada para um reencontro amoroso.
Mas voltando ao problema principal... Eu não iria quebrar a regra estipulada. Eu apenas iria... interpretar. Usar uma linguagem oblíqua. Era diferente. Pelo menos era isso que eu repetia em looping para mim mesma para não surtar. E, considerando que eu estava prestes a desafiar uma entidade cósmica, eu precisava desesperadamente acreditar nessa minha própria desculpa.
Dirigi até a propriedade com as duas mãos apertadas no volante da picape, as juntas dos dedos ficando brancas.
O trajeto de Anchorage parecia três vezes maior do que o normal. Cada curva na estrada coberta de neve me dava tempo suficiente para meu cérebro inventar uma forma inédita de desastre catastrófico.
Edward poderia não acreditar em mim. Poderia me achar uma maluca varrida. Poderia ficar furioso com a minha audácia. Poderia simplesmente me mandar embora e sumir da cidade. Ou pior... poderia continuar me encarando com aquela indiferença polida de quem olha para uma estranha.
Essa última possibilidade era a que mais me aterrorizava.
Porque eu conseguia lidar com a raiva dele. Conseguia lidar com a confusão, com gritos ou até com uma porta sendo batida na minha cara. Mas ser uma completa desconhecida para Edward Cullen? Isso era uma tortura refinada.
Quando cheguei à casa dos Denali, tudo estava num silêncio absoluto. Não era um silêncio vazio e desértico; era aquele silêncio típico daquela família imortal. Elegante demais. Organizado demais. Como se até as partículas de poeira flutuando no ar tivessem medo de cair no lugar errado. Eu tinha certeza de que, se uma sujeira ousasse pousar no móvel da sala, Carlisle faria uma autópsia para descobrir o motivo.
Estacionei no cascalho. Respirei fundo, sentindo o ar congelar meus pulmões. Saí do carro e caminhei pela varanda.
Antes mesmo que minha mão pudesse se erguer para bater na madeira... a porta se abriu.
Não era a Alice. Não era o Emmett.
Era ele.
Edward. Parado bem no vão da entrada. Sozinho.
Por um milissegundo, a pouca coragem que eu tinha juntado decidiu simplesmente abandonar o navio. Covarde, ela saiu correndo antes de mim.
Edward me encarou de cima a baixo. A expressão no rosto dele era neutra. Distante. Impecavelmente educada. E aquilo era quase pior do que a rejeição. Porque eu conhecia aquele rosto centenário; conhecia aquele olhar como a palma da minha mão. Mas faltava a luz. Aquele Edward parecia a cópia em sépia de uma fotografia antiga que alguém deixou tempo demais exposta ao sol.
— Bella.
Ele disse meu nome.
Meu nome. Mas não como antigamente. Não havia o calor aveludado, a surpresa ou o carinho contido. Era apenas uma constatação fria de presença. E, por algum motivo, ouvir meu próprio nome sair da boca dele daquele jeito machucava como uma lâmina.
Sorri mesmo assim. Porque sorrir em momentos de pânico era meu talento especial — logo depois de tomar decisões terrivelmente impulsivas.
— Oi.
Ele continuou me encarando, em silêncio, como se aguardasse pacientemente uma explicação lógica para a minha aparição ali na manhã de um dia útil. Justo. Eu também exigiria uma explicação se uma garota desconhecida surgisse na minha porta depois de semanas fazendo perguntas estranhas.
— Posso entrar? — perguntei, enfiando as mãos nos bolsos do casaco.
Ele hesitou. Foi por apenas uma fração de segundo, mas eu percebi. Então, deu um passo para o lado, abrindo espaço.
— Claro.
Entrei na casa. A grande sala de estar estava deserta. Emmett tinha cumprido a promessa e dado um jeito de tirar a família inteira dali. Éramos apenas nós dois. O pior cenário para o meu nervosismo... e, ao mesmo tempo, o único possível para o que eu precisava fazer.
Sentei-me no sofá de couro. Edward permaneceu em pé, a alguns metros de distância, encostado na coluna de madeira. Distante. Como se aqueles poucos metros entre nós servissem como uma barreira de proteção. Talvez fossem. Para ele, eu era uma humana imprevisível que parecia ter o talento de desestabilizá-lo.
— Você queria falar comigo? — ele perguntou. A voz dele era educada, impecável... e terrivelmente fria.
Aquilo doeu. Porque eu me lembrava daquela exata mesma voz sendo usada para me provocar, para murmurar segredos, para se irritar comigo. Esse Edward ali parecia uma versão no volume mínimo. Ainda era a mesma melodia, mas faltava a alma.
Mesmo assim, decidi ignorar a distância e fazer o que sempre fiz em duas vidas: tratar Edward como Edward.
— Você sempre foi tão formal e tenso assim ou isso é uma conquista recente? — perguntei, inclinando a cabeça.
Ele franziu levemente a testa. Por um breve segundo... quase consegui enxergar o antigo Edward ali. Quase.
— Eu não acredito que nos conhecemos o suficiente para que você faça esse tipo de comentário, Bella.
Sorri de canto.
— Curioso. Você costumava achar que eu era extremamente irritante.
Ele ficou imóvel, a postura rígida.
— Como eu disse, não conheço você o suficiente para ter formado essa opinião.
— Então quer dizer que eu preciso me esforçar mais para te irritar?
Ele me encarou. Confuso. Talvez até um pouco incomodado com a minha audácia desprovida de filtro. Uma pequena vitória. Uma rachadura minúscula na armadura dele. Mas eu pegaria qualquer coisa a essa altura. Eu estava desesperada, e dignidade nunca foi meu forte.
— Edward... — chamei, mudando o tom, deixando a brincadeira de lado.
Ele me olhou, atento.
— Você acredita em fantasmas?
O silêncio caiu pesado sobre a sala. A pergunta, surgida do nada, claramente não era o que ele esperava de uma conversa casual.
— Fantasmas? — ele repetiu, a voz grave.
— Sim.
Ele inclinou levemente a cabeça, analisando meu rosto com aqueles olhos dourados e opacos.
— Por que essa pergunta agora?
Dei de ombros, fingindo uma postura relaxada que eu não tinha:
— Mera curiosidade.
Mentira. Mas uma mentira tecnicamente necessária.
— Você não me parece o tipo de pessoa que acredita nessas coisas — ele observou, a voz baixa.
— E você? — rebati. — Acredita?
— Eu sei o que existe e o que não existe neste mundo, Bella.
Sorri de lado, sustentando o olhar dele.
— Pois eu tenho uma opinião um pouco diferente.
— E qual seria a sua opinião?
Respirei fundo. Era agora. Não a verdade explícita... mas a primeira porta. O primeiro passo no campo minado.
— Eu acho que algumas pessoas simplesmente não conseguem ir embora quando morrem — comecei, a voz saindo serena.
Edward permaneceu estático.
— Não porque querem assustar os vivos — continuei, mantendo meus olhos fixos nos dele. — Não porque estão presas por algum motivo sombrio ou maligno. Às vezes... elas simplesmente têm algo inacabado que precisam resolver antes de conseguir descansar.
O rosto dele mudou. Foi imperceptível para um olho humano comum, mas eu vi. A linha da sua mandíbula se tensionou.
— Resolver o quê? — a voz dele saiu mais baixa, quase um sussurro arranhado.
Olhei para as minhas próprias mãos no colo, controlando a respiração:
— Talvez uma despedida que não aconteceu. Uma resposta que ficou no ar. Ou talvez... apenas a necessidade desesperada de ter a certeza de que a pessoa que ficou para trás está bem.
Edward desviou o olhar para a janela, como se aquelas palavras específicas tivessem atingido exatamente a ferida aberta que ele tentava esconder do mundo.
— Você fala como se soubesse exatamente do que está falando — disse ele, a rigidez voltando ao seu corpo.
Um arrepio frio percorreu minha espinha. Cuidado. Muito cuidado com as palavras.
— Talvez eu saiba.
Ele voltou a olhar para mim no mesmo instante, os olhos estreitados.
— Como?
Sorri levemente, um sorriso triste:
— Digamos que... eu conheci alguém assim. Uma história que me marcou.
O silêncio na sala ficou denso, mas não era mais um silêncio de esquiva. Edward estava ouvindo. De verdade. Cada palavra minha estava sendo processada pela mente rápida dele.
Então, tomei fôlego e continuei:
— Essa pessoa de quem estou falando... ela passou muito tempo esperando no escuro. Esperando que alguém descobrisse a verdade sobre o paradeiro dela. Esperando que a pessoa que ela mais amava soubesse que ela nunca quis ir embora, e que jamais a tinha esquecido.
Os olhos de topázio dele ficaram cravados nos meus, sem piscar.
— E essa pessoa... conseguiu? — a pergunta saiu da boca dele num fio de voz trêmulo.
Meu coração deu um nó doloroso no peito. Porque ele não estava mais perguntando sobre a minha metáfora de fantasmas. Ele estava perguntando sobre a dor dele. Sobre mim. Sobre a garota que ele perdeu e chorou durante dezoito anos.
Respirei fundo, sentindo as lágrimas queimarem no fundo dos meus olhos, mas me mantive firme:
— Sim. Ela conseguiu.
Fiz uma pausa longa, deixando o impacto da resposta se assentar na sala.
— Mas o grande problema... é que, quando ela finalmente conseguiu voltar e olhar para este mundo de novo...
Minha voz falhou miseravelmente, virando um sussurro embargado.
—... ela descobriu que a pessoa que ela mais amava continuava presa, destruída e esperando por ela numa escuridão sem fim.
Edward ficou completamente imóvel.
E, pela primeira vez desde que pisei no Alasca... eu vi algo mudar drasticamente naqueles olhos dourados.
Não era apenas a dor crônica de sempre. Não era a indiferença ou o cansaço secular. Era dúvida. Era um sobressalto de choque. Era uma faísca minúscula, quase invisível, mas indestrutível de esperança.
E eu soube, ali mesmo, olhando para o rosto dele: a primeira rachadura na armadura do Edward finalmente tinha aparecido.
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