Como Ser Um Fantasma (Sem Querer)
29 Capítulo 29
As horas passaram em câmera lenta, arrastando-se num nível que faria uma lesma com preguiça parecer um carro de Fórmula 1. Pelo menos essa era a sensação no meu cérebro, que já estava superaquecendo de tanta ansiedade. Sério, eu nunca imaginei que sete vampiros imortais, que teoricamente correm na velocidade da luz e não precisam parar para abastecer ou ir ao banheiro, conseguissem atrasar tanto uma simples viagem. Qual era a desculpa deles? Trânsito de alces na estrada?
Quando a noite finalmente resolveu dar as caras, meu sistema nervoso já tinha entrado em colapso. Eu estava num nível de nervoso que beirava o patético. Troquei de roupa quatro vezes — o que é um recorde pessoal de indecisão —, prendi o cabelo num coque, achei horrível, soltei, prendi de novo e, no fim, desisti e deixei bagunçado mesmo. Encarei meu próprio reflexo no espelho, tentando fazer uma sessão de autoajuda que claramente não estava funcionando.
— Você vai conhecer pessoas, Bella. Pessoas normais.
Pausa dramática.
— Quer dizer... vampiros vegetarianos completamente anormais. Mas você entendeu o ponto.
Fechei os olhos e respirei fundo.
— Foco. Você consegue fazer isso sem passar vergonha.
Enquanto eu dirigia até a casa dos Denali, transformei meu cérebro em um mantra repetitivo: "Não crie expectativas, não crie expectativas". Isso era fundamental. Quase uma questão de sobrevivência psicológica. Porque se aquela trupe não fosse o clã dos Cullen, eu provavelmente teria um colapso e choraria no meio da sala na frente de um bando de desconhecidos predadores. O que, convenhamos, seria uma péssima primeira impressão para o meu currículo social.
Assim que estacionei, a quantidade de carros de luxo parados na frente da propriedade quase me fez dar ré. Meu coração deu aquela acelerada típica de quem está prestes a pular de paraquedas. Eles já tinham chegado. Juntei o resto de dignidade e couragem que me sobrava, saí do carro e bati na porta.
Tanya abriu quase no mesmo segundo, com aquela eficiência sobrenatural irritante. Ela abriu um sorriso radiante.
— Você veio!
— Bem, você me convidou. Eu achei que seria falta de educação faltar.
Tentei parecer descolada.
— Ainda bem que não faltou. Entra logo, eles acabaram de chegar.
Meu estômago despencou como se eu estivesse num elevador em queda livre. Dava para ouvir um combo de vozes, risadas e conversas ecoando diretamente da sala de estar. Aquela casa finalmente parecia cheia, quebrando aquele silêncio de museu que eu tinha encontrado na semana passada. Tanya foi andando na frente, assumindo o papel de mestre de cerimônias.
— Gente, a Bella chegou!
Como num passe de mágica, o volume das conversas despencou e vários rostos perfeitos se viraram exatamente na minha direção ao mesmo tempo. Meu coração parou. Literalmente. Por um segundo inteiro, esqueci como a biologia humana funcionava. Porque eu conhecia cada uma daquelas feições de mármore.
Carlisle foi o primeiro que meus olhos focaram. Elegante como um lorde capa de revista, calmo e totalmente sereno. Ele estava conversando com o Eleazar, mas parou e me deu um sorriso educado e acolhedor. Logo ao lado dele estava a Esme, exibindo aquela mesma expressão incrivelmente doce, o tipo de olhar que parecia capaz de transformar até uma caverna escura em um lar confortável. Ela me deu as boas-vindas com aquele sorriso caloroso que eu conhecia de cor e salteado... mas sem fazer a menor ideia de quem eu era. O soco no estômago dói mais quando vem disfarçado de gentileza.
Mais ao fundo, a cota de puro caos da família: Emmett. Ele estava encostado no braço do sofá, gesticulando e falando alguma besteira que tinha acabou de fazer a Kate soltar uma gargalhada. Ele estava enorme, absurdamente exagerado e com aquela cara de quem não consegue ficar sentado parado por mais de dez segundos sem quebrar alguma lei da física. A Rosalie estava bem do lado dele. Linda de doer, impecável e ostentando aquela postura clássica e defensiva que gritava em letras garrafais: "Não encoste no meu cabelo e nem respire perto de mim". É bom ver que algumas coisas no universo são imutáveis.
Jasper estava num canto, conversando num tom quase inaudível com o Eleazar, provavelmente tentando monitorar o tsunami de hormônios e ansiedade que eu estava emanando. E a Alice estava perto da janela, fingindo prestar atenção numa plantinha decorativa que a Tanya devia ter colocado ali. Ela ergueu os olhos e disparou um sorriso simpático e bem-educado na minha direção. Mas era um sorriso vazio de memórias. Um sorriso de "prazer em te conhecer, estranha". Meu peito apertou tanto que achei que ia quebrar uma costela. Para todos eles, eu era só uma humana qualquer que tinha brotado no Alasca.
— Pessoal, essa é a Bella. — Tanya anunciou, com um tom de quem apresenta uma atração de circo. — A aventureira destemida que apareceu completamente perdida por aqui na semana passada.
Emmett interrompeu o que estava fazendo e abriu um sorriso de orelha a orelha.
— Perdida? É mesmo?
Olhei de rabo de olho para a Tanya. Traidora. Que bela maneira de me introduzir no grupo.
— Foi uma situação totalmente sob controle e temporária.
Tentei me defender, usando o máximo de ironia que consegui reunir.
— Ela tentou fazer trilha na floresta usando um carro comum.
Tanya entregou o resto da piada, rindo.
A sala inteira ficou em um silêncio absoluto por meio segundo. E então, o teto quase veio abaixo. Emmett começou a rir. Mas não foi uma risadinha discreta, foi uma gargalhada estrondosa, daquelas de preencher o ambiente inteiro.
— Espera aí... — ele tentava formular as palavras enquanto quase engasgava de tanto rir de mim. — Você... você realmente tentou... fazer trilha... usando um sedã comum?
Cruzei os braços, adotando a minha melhor postura de indignação.
— Olha só, eu não vim aqui para ser julgada pelas minhas decisões automobilísticas, tá legal?
Emmett cortou a risada, piscou surpreso com a minha audácia e cutucou o Jasper com o cotovelo.
— Cara, eu já adorei ela.
Jasper apenas balançou a cabeça de leve, usando a mão para camuflar um sorriso de canto. Carlisle, mantendo a pose de diplomata da família, se aproximou com passos calmos e estendeu a mão para mim.
— Sou o Carlisle.
— Bella.
Respondi, apertando a mão dele. Sentir o gelo daquela pele de novo fez meu estômago dar mais uma reviravolta. Era bizarro demais estar ali, cumprimentando formalmente pessoas que já tinham feito parte da minha vida inteira, enquanto para elas eu era uma folha em branco. Esme veio logo em seguida, praticamente flutuando de tanta delicadeza.
— É um prazer enorme conhecê-la, querida.
"Querida". Ela continuava distribuindo esse apelido carinhoso para o mundo. Não consegui evitar que um sorriso legítimo surgisse no meu rosto.
— O prazer é todo meu.
Foi aí que a Alice inclinou a cabeça para o lado, estreitando aqueles olhos de fada. Ela ficou me encarando por alguns segundos que pareceram durar uma eternidade. Muito mais tempo do que qualquer um dos outros tinha gastado me olhando. A expressão dela mudou rápido para algo confuso, bem confuso.
— Nós... já nos conhecemos de algum lugar?
Ela disparou de repente, sem filtro.
Meu coração faltou errar a batida e saltar pela boca. A sala inteira simplesmente emudeceu na hora, como se alguém tivesse apertado o botão de mudo no controle remoto do universo. Vampiros têm essa mania de congelar quando ficam intrigados. Tanya olhou para a Alice, estranhando o comentário.
— Acho que não, Alice. A Bella não é daqui.
Mas a Alice não quebrou o contato visual. Ela continuou me escaneando, franzindo a testa daquele jeito clássico de quem está tentando pescar um sonho meio esquecido que sumiu logo depois de acordar. Desistindo por enquanto, ela soltou um sorrisinho meio sem graça.
— Desculpa, sério. Você só me pareceu terrivelmente familiar por um segundo.
Minha garganta virou um deserto completo de tão seca.
— Sem problemas. Isso acontece.
Consegui gaguejar uma resposta baixinha.
Enquanto o gelo quebrava e todo mundo voltava a se misturar e conversar, eu aproveitei a distração geral para fazer o que meu cérebro estava implorando desde que passei pela porta. Meus olhos correram discretamente pelo ambiente. Uma vez. Depois outra. Varri cada centímetro daquela sala pela terceira vez. E foi aí que o peso da realidade bateu, fazendo minha adrenalina despencar de vez. Havia uma ausência gritante ali. Uma vaga vazia que quebrava toda a simetria daquela foto de família. Edward não estava na sala.
Eu tentei com todas as minhas forças manter a cara de paisagem e fingir demência, juro que tentei. Mas a Tanya parecia ter um radar instalado na minha cara. Ela se aproximou de mansinho e perguntou, com aquele tom casual que de casual não tinha nada.
— Está procurando alguém específico?
Meu cérebro entrou em tela azul de pânico instantâneo.
— Quem, eu? Não, imagina.
— Tem certeza?
— Absoluta. Por que a pergunta?
— Sei lá, é que você já escaneou os quatro cantos dessa sala umas cinco vezes seguidas em menos de dois minutos.
Droga. Eu era uma péssima mentirosa perto de imortais com supervisão. Soltei um sorriso amarelo, tentando desviar o foco.
— Ah, sabe como é... mania de gente desconfiada. Força do hábito.
Ela deu de ombros, fingindo que acreditou na desculpa esfarrapada só para não me deixar mais constrangida. Mas a verdade é que, enquanto o falatório e as risadas do resto dos Cullen continuavam estourando ao meu redor, meu pensamento estava travado em um único looping infinito dentro da minha cabeça: onde diabos estava o Edward?
— Bella!
A voz do Emmett explodiu na sala, me resgatando do transe e arrancando meus pensamentos do buraco negro onde tinham se metido.
— Você morreu aí em pé, garota?
"Quase", pensei. Mas explicar a minha leve parada cardíaca e a crise existencial complicaria bastante o clima da conversa.
— Estava só... meio distraída.
— Ela faz muito isso — Tanya pontuou, entrando na onda. — Às vezes fico genuinamente na dúvida se ela está prestando atenção em mim ou se está escrevendo um romance inteiro dentro da cabeça.
— Na maioria das vezes, as duas coisas ao mesmo tempo — admiti, dando de ombros.
Emmett soltou uma gargalhada genuína.
— Cara, eu adorei ela!
Rosalie revirou os olhos com uma perfeição quase aristocrática.
— Você gosta de qualquer criatura que responda às suas piadas sem graça, Emmett.
— Isso não é verdade!
— É a mais pura verdade.
— Tá... — ele coçou o queixo, pensando. — Mas continua sendo um excelente critério de seleção social.
Pouco a pouco, aquela aura de tensão que parecia prestes a explodir foi dando lugar a algo bem mais leve e familiar. Eu me acomodei no sofá, ficando exatamente entre a Tanya e a Kate. Nesse meio-tempo, Esme caminhou silenciosamente em direção à cozinha.
Alguns instantes depois, ela voltou segurando uma caneca fumegante. Ela parou bem na minha frente, estendeu a bebida e abriu um sorriso radiante.
— Pensei que você pudesse estar com um pouco de frio.
Meu peito apertou tanto com o gesto que quase esqueci como respirar. Ela ainda era exatamente assim. Cuidava das pessoas sem que ninguém precisasse pedir nada, sem esperar nada em troca. Ela sempre encontrava um jeito mágico de fazer qualquer estranho se sentir o convidado mais especial do mundo.
Peguei a caneca, sentindo o calor do líquido passar para as minhas mãos geladas.
— Obrigada, Esme.
— Não precisa agradecer de jeito nenhum, querida.
"Querida."
Ouvir aquela palavra saindo da boca dela de novo foi quase doloroso de tão bom. Por um segundo inteiro, minha memória muscular quase me traiu e eu tive uma vontade avassaladora de me levantar e dar um abraço apertado nela. Em vez disso, apertei os lábios e apenas sorri.
Carlisle se acomodou confortavelmente numa poltrona próxima, adotando sua postura clássica de patriarca atencioso.
— Então, Bella... a Tanya nos contou que você está fazendo essa viagem totalmente sozinha.
Assenti, tomando um pequeno gole do chá para disfarçar o nó na garganta.
— Estou sim.
— E os seus pais não ficaram preocupados de deixar você rodar por aí?
Quase soltei uma risada irônica. Se ele soubesse...
— Ficaram. Bastante, para ser sincera.
— E deixaram você vir mesmo assim?
— Depois de uns bons anos de chantagem emocional e insistência diária.
Os olhos do Emmett quase saltaram da cara.
— Anos?!
— Bastantes anos — confirmei.
— Caramba, que persistência.
Rosalie cruzou os braços, analisando meu rosto com aquele olhar afiado que parecia enxergar através da pele.
— E o que exatamente faz uma garota de dezoito anos resolver cruzar o país inteiro sozinha, num carro, sem companhia?
Todos os olhares da sala convergiram para mim num piscar de olhos. Respirei fundo, bem discretamente, preparando a minha melhor versão de uma meia-verdade.
— Porque eu passei a vida inteira querendo ver o mundo de verdade.
Virei o rosto por um instante, encarando a neve caindo suavemente do outro lado da janela.
— Passei tempo demais sentindo que a minha vida estava... completamente travada. Como se eu estivesse eternamente sentada na arquibancada, esperando alguma coisa incrível acontecer. Até que um dia eu cansei e pensei...
Dei um sorriso fraco, encarando a caneca nas minhas mãos.
— Se eu continuar esperando pelo "momento perfeito", vou acabar virando velhinha sem ter vivido absolutamente nada.
Carlisle assentiu devagar, com um olhar de aprovação genuína.
— Poucas pessoas têm a coragem necessária para dar esse primeiro passo no desconhecido.
— Ou a completa falta de juízo — corrigi, sem perder a piada.
Jasper, até então em silêncio no seu canto, deixou escapar um pequeno e raro sorriso.
— Na minha experiência, essas duas qualidades costumam caminhar exatamente de mãos dadas.
A sala inteira caiu na risada, quebrando de vez qualquer restinho de gelo que sobrava.
— E por quais lugares você já passou até agora? — Alice perguntou, dando um pulinho e se aproximando, os olhos brilhando de curiosidade.
Comecei a puxar pela memória e listar os destinos da minha jornada. Falei de Chicago, de Seattle, das cidadezinhas minúsculas e esquecidas pelo mapa que encontrei no caminho, dos parques nacionais, dos museus e das estradas que pareciam não ter fim. Enquanto eu falava, percebi que todo mundo ali estava prestando uma atenção quase hipnótica nas minhas palavras. Até a Rosalie parecia minimamente interessada.
— E você faz tudo isso sempre sozinha? — Rosalie voltou a perguntar.
— Sempre.
— Não sente medo?
Se eu dissesse a verdade absoluta, a conversa ficaria bem estranha. Afinal, depois de encarar a morte de frente... viajar sozinha de carro pelo país perdia um pouco do fator aterrorizante.
— Sinto. Claro que sinto — admiti. — Mas acabei descobrindo que coragem não é a ausência de medo. É só a decisão de continuar andando apesar dele.
Carlisle sorriu de canto, visivelmente impressionado.
— Gostei da reflexão. Muito boa.
Emmett deu um passo à frente e apontou o dedo para mim, como se tivesse descoberto um grande segredo.
— Eu continuo mantendo a minha tese: ela é completamente maluca.
— Obrigada? — respondi, erguendo uma sobrancelha.
— Pode aceitar, vindo dele foi um elogio — Jasper completou, com a voz serena. — No "idioma Emmett", é o maior reconhecimento possível.
— Eu jamais viajaria sozinho por aí — Emmett declarou, estufando o peito.
— Claro que não. Você se perderia nos primeiros dez minutos — Rosalie disparou no mesmo segundo, sem nem piscar.
— Exatamente! — Emmett comemorou, apontando para ela. — Finalmente alguém aqui reconhece os meus limites!
Kate soltou uma gargalhada alta.
— Emmett, pelo amor de Deus, você consegue se perder dentro da sua própria casa!
— Aquela casa é gigantesca, tá legal?!
— Ela tem três corredores!
— E três corredores são mais do que suficientes para criar um labirinto!
Eu ri junto com eles, uma risada gostosa que veio direto do peito. E, pela primeira vez desde que pisara naquela casa, aquele riso foi cem por cento verdadeiro. Não tinha encenação, não tinha pânico, não tinha aquele medo paralisante de falar a coisa errada e estragar tudo. Por alguns minutos abençoados... parecia que eu nunca tinha ido embora. Parecia que o tempo não tinha passado.
Esme voltou a me olhar, com aquele sorriso maternal que eu conhecia tão bem.
— Seus pais devem sentir um orgulho enorme da mulher corajosa que você se tornou.
Meu sorriso vacilou por uma fração de segundo. A imagem do aeroporto veio rasgando a minha mente instantaneamente. Minha mãe tentando esconder as lágrimas atrás do lenço, meu pai engolindo em seco para parecer durão, e o Ethan correndo atrás de mim antes do portão de embarque, gritando: "Não esquece da gente, tá?".
Engoli em seco, sentindo a garganta dar um nó.
— Eu... espero que sim.
Esme, com aquela sensibilidade afiada que só ela tinha, percebeu na hora que aquela frase simples tinha pesado mais do que deveria. Mas, delicada como sempre, ela não pressionou. Apenas se aproximou e colocou a mão fria sobre a minha por um breve segundo. Um gesto singelo. Amável. Tão exatamente igual ao que ela fazia anos atrás... que meus olhos arderam com a ameaça de lágrimas.
A conversa fluiu fácil pelas horas seguintes. Emmett monopolizou metade do assunto com histórias absurdas, Alice ria de absolutamente tudo, Kate provocava o Emmett sem piedade, e Rosalie soltava comentários secos que acabavam sendo comicamente geniais. Carlisle perguntava mais detalhes sobre os lugares que visitei, enquanto Jasper apenas absorvia o ambiente.
E eu... eu fiquei ali, só observando.
Gravando o tom de cada voz. O desenho de cada sorriso. O ritmo de cada provocação besta.
Porque durante dezoito longos anos, meu maior pavor tinha sido o de esquecer como era estar perto deles. Mas ali, sentada no meio daquela sala, descobri uma verdade ainda mais perigosa: eu não tinha esquecido absolutamente nada.
E a saudade que eu sentia deles doía muito mais do que eu jamais me permitira imaginar.
As horas passaram sem que eu percebesse. O céu do lado de fora já começava a escurecer quando Emmett decidiu que o silêncio durava havia tempo demais.
— Então, Bella...
Lá vem.
— Você já fez alguma coisa realmente idiota durante essa viagem?
Olhei para ele, arqueando uma sobrancelha.
— Você quer a lista em ordem alfabética ou cronológica?
Ele abriu um sorriso enorme.
— Eu sabia!
Rosalie suspirou ao lado dele.
— Você parece orgulhoso.
— Claro que estou. Finalmente uma huma... — ele parou e se corrigiu rapidamente. — Pessoa interessante.
— Obrigada... eu acho.
— Conta uma — insistiu Emmett.
Pensei por alguns segundos, buscando nos arquivos da minha bagunça itinerante.
— Bom... uma vez dormi dentro do carro porque reservei um hotel na cidade errada.
Kate começou a rir.
— Como você consegue reservar um hotel na cidade errada?
— Existiam duas cidades com praticamente o mesmo nome.
— E você não percebeu?
— Percebi quando o GPS dizia que eu ainda precisava dirigir mais quatro horas.
Emmett bateu uma palma estrondosa.
— Sensacional!
— Não foi sensacional. Estava fazendo três graus.
— Eu teria congelado — comentou Esme, genuinamente preocupada.
Sorri. Ela continuava sendo exatamente igual.
— E depois? — perguntou Alice, curiosa.
— Depois acordei com um guarda batendo no vidro do carro.
Emmett já estava rindo antes mesmo do final.
— Ele achou que eu estivesse morta.
A gargalhada dele ecoou pela casa inteira. Até Carlisle soltou uma risada baixa. Rosalie balançou a cabeça.
— Você realmente atrai problemas.
— Eles me encontram. Há uma grande diferença.
A conversa seguiu naturalmente. Era curioso. Eu tinha passado anos imaginando como seria revê-los. Pensava que seria doloroso. Constrangedor. Difícil.
Mas... não era. Na verdade... era confortável. Como vestir um casaco antigo que ainda servia perfeitamente.
Em algum momento, Alice levantou do sofá e foi até uma estante. Voltou segurando um álbum de fotografias grosso.
— Quer ver?
Meu coração acelerou instantaneamente. Fotografias.
Ela abriu o álbum sobre a mesa. Paisagens. Montanhas. Lagos congelados.
— Essa viagem foi há três anos — explicou Tanya.
— E essa? — perguntei, apontando.
— Canadá.
— Bonito.
Alice virou outra página. Depois outra. Enquanto comentava pequenas histórias por trás de cada fotografia, eu prestava atenção. Ou fingia prestar. Porque, no fundo... procurava outra coisa. Outro rosto. Discretamente. Sem que ninguém percebesse.
Mais uma página. Nada.
Outra. Nada.
Mais uma. Nada.
Meu peito apertou. Talvez... talvez eles realmente não estivessem em contato.
Foi quando Emmett se inclinou sobre o álbum.
— Ei! — Ele apontou para uma fotografia. — Lembra desse dia?
Kate fez uma careta.
— Como esquecer?
— Foi quando...
Rosalie deu uma cotovelada discreta nele. Tão rápida que um humano provavelmente não perceberia. Eu percebi.
Emmett fechou a boca na mesma hora. Silêncio. Pequeno. Estranho.
Ele coçou a nuca, visivelmente desconfortável.
— Enfim... Mudando de assunto.
Eu conhecia aquela reação. Muito bem. Emmett só mudava de assunto daquele jeito quando alguém dizia para ele, silenciosamente, que estava prestes a falar demais.
Alice fechou o álbum com delicadeza. Um pouco mais rápido do que antes.
— Bella — ela sorriu, a voz um tom acima do normal. — Você pretende ficar quanto tempo no Alasca?
A mudança de assunto foi tão descarada que quase admirei o esforço.
— Ainda não sei — respondi. — Talvez algumas semanas. Talvez mais. Depende.
— Depende de quê? — perguntou Jasper.
Olhei para minhas mãos. Depois olhei para cada um deles.
— De encontrar o que estou procurando.
A resposta saiu baixa. Sincera.
Ninguém falou nada. Carlisle apenas observou meu rosto por alguns segundos, como se tentasse entender o peso escondido naquela frase.
Então Esme sorriu com doçura.
— Espero que encontre.
Meu peito apertou forte.
— Eu também — respondi.
E, pela primeira vez desde que entrei naquela casa... aquilo não era apenas uma esperança. Era quase uma prece.
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