Dois dias depois, eu estava no Alasca.

O que parecia uma frase simples, de estrutura curta no caderno. Mas, se você colocar na conta que passei anos economizando cada centavinho de mesada e de limonadas abusivas, convencendo meus pais número dois de que eu não estava entrando para nenhuma seita maluca e jurando de joelhos para o Ethan que eu não seria sequestrada por nenhuma gangue internacional... Aquilo era uma vitória histórica.

O frio me acertou no exato milissegundo em que botei o pé para fora do aeroporto. Foi como levar um soco congelante bem no meio do estômago.

— Certo — murmurei entre os dentes, puxando as golas do casaco térmico para mais perto do pescoço, tentando não morrer congelada. — Isso é puramente pessoal.

O Alasca nem ligou. Devia estar ocupado demais congelando as pessoas nas calçadas.

Nos primeiros dois dias de busca, fui pelo caminho padrão. Procurei o nome do Carlisle nos registros de saúde dali. Depois, olhei em clínicas da região atrás de qualquer rastro dos Cullen. Por fim, cacei qualquer sumiço ou mudança estranha na cidade.

O saldo de tudo isso? Nada. Absolutamente nada. Só uma tela em branco de dar pena.

— Cullen? — um senhor de cabelo branco perguntou, parando de mastigar o sanduíche numa lanchonete de beira de estrada.

— Isso, eles mesmos — incentivei.

— Nunca ouvi esse nome por aqui, garota.

— Carlisle Cullen? O médico? — perguntei para um rapaz de jaleco numa farmácia horas mais tarde.

— Conheço não. Não tem ninguém com esse nome na nossa rede.

— Família Cullen? — tentei com a moça de uma loja de caça e pesca.

— Não, nenhum registro.

Era como se eles tivessem simplesmente evaporado no ar, limpando os rastros de novo. Eu já estava começando a achar que vampiros imortais faziam isso de propósito só para testar a minha paciência de duas vidas.

Na tarde do terceiro dia de batida de perna sem rumo, o meu estoque de calma já tinha zerado. Eu já estava pensando seriamente em voltar para o plano idiota da minha infância: entrar no meio do mato e gritar pelo Edward até alguma criatura sobrenatural aparecer para me calar na marra. Era um plano horroroso e sem lógica nenhuma, mas eu estava ficando sem opções.

Foi bem nessa hora de desespero que resolvi entrar numa cafeteria de esquina. Uma daquelas portinhas de família, com mesas de madeira velha, cheiro gostoso de café torrado e uma senhora atrás do balcão que parecia ter o histórico de fofocas de metade do estado na cabeça. O alvo perfeito para o meu banco de dados.

Cheguei perto do balcão com a minha melhor cara de simpática.

— Posso te fazer uma pergunta?

A senhora parou de limpar uma xícara e abriu um sorriso.

— Claro, querida.

— Existe alguma família muito reservada morando aqui por perto?

Ela cerrou os olhos, pensando na palavra.

— Reservada?

— Muito reservada — confirmei, chegando mais perto.

— Estranha?

— De preferência, sim.

A mulher deu uma risada alta, achando graça do meu jeito de perguntar.

— Bem... essa é uma pergunta meio esquisita para uma tarde de quarta-feira.

— É que eu tenho uns interesses meio diferentes por sociologia — dei de ombros, debochada.

Ela ficou quieta por uns segundos, batendo os dedos no balcão. Aí, balançou a cabeça devagar.

— Talvez.

Meu coração disparou na hora, acelerando tudo.

— Tem uma família com esse estilo, sim — ela continuou.

— Tem? — perguntei, me inclinando para a frente.

— Eles moram bem afastados, isolados no meio do mato, na zona rural.

— Sim?

— Quase nunca aparecem na cidade. Não dão as caras por nada.

— Sim?

— Bonitos demais para o nosso clima, se quer saber. Parecem até modelos de revista.

Eu quase dei um soco na mesa de madeira, esquecendo totalmente a pose de dezoito anos.

— CONTINUA.

A senhora parou o pano na hora e me encarou com a maior cara de julgamento do mundo.

— Você é uma garota bem esquisita, sabia?

— Eu tenho plena certeza disso, senhora.

— Muito esquisita mesmo.

— Eu sei.

— Tá bom — ela limpou a garganta, voltando para a fofoca. — Eles quase nunca vêm aqui, como eu disse. Mandam só um ou outro para buscar as compras básicas.

— Quantas pessoas moram lá? — disparei rápido.

— Não sei certinho.

— Muitas?

— Acho que sim, a casa é cheia.

— Tem mulheres?

— Algumas, pelo que o meu marido conta.

— Loiras?

— Pelo menos uma delas é bem loira, sim. Linda de morrer, um absurdo.

Meu peito deu um nó e o meu coração carnal começou a dar umas batidas bem preocupantes nas costelas. Uma loira bonita demais morando no Alasca. Rosalie? Tanya? As peças estavam se encaixando no meu mapa.

— Qual é o sobrenome deles? — perguntei, com a voz quase falhando.

A mulher franziu a testa, tentando lembrar.

— Ih, esqueci de cabeça agora. É um nome bem diferente para a região.

Meu ânimo murchou no mesmo segundo.

— Mas peraí... começa com a letra D.

Travei na mesma posição, estátua no banco da cafeteria. O ar sumiu dos meus pulmões.

— D? — perguntei feito um robô.

— Acho que sim, tenho quase certeza.

— D?

— É.

— D?

A senhora cruzou os braços, já sem paciência comigo.

— Menina, você vai ficar repetindo essa letra até quando?

Minha mente deu um estalo na velocidade da luz, puxando as lembranças do meu passado secreto. Porque eu só conhecia uma família de vampiros imortais no Alasca cujo sobrenome começava com D. Os parentes vegetarianos de Denali.

— Denali? — a palavra voou da minha boca antes que eu conseguisse segurar por causa do juramento da praia.

A mulher estalou os dedos, com a cara toda iluminada.

— Isso! Esse mesmo!

Meu coração quase explodiu no peito, uma onda de calor me atingindo inteira.

— Denali! — comemorei baixinho, mordendo os dentes.

— É esse nome mesmo que está no registro.

— Você tem certeza absoluta disso, senhora?

— Tenho, claro.

— Certeza mesmo?

— Quase toda.

— Já serve para mim — decretei, abrindo um sorriso bem focado.

A cafeteria voltou ao silêncio normal, mas na minha cabeça o jogo tinha virado totalmente. Mudava tudo. Absolutamente tudo.

Os Denali. Tanya, Kate, Irina, Carmen, Eleazar. E o detalhe mais valioso de todos: os Cullen eram super amigos e aliados dos Denali há décadas. Séculos, sendo bem exata. Se tinha um lugar no mundo onde alguém ia saber o endereço ou o paradeiro do Edward... era exatamente ali, naquela colina escondida.

A senhora do balcão continuou falando sozinha sobre o preço das coisas da cidade, mas eu já tinha desligado o rádio daquela conversa. Não ouvia mais nada. Porque, pela primeiríssima vez desde que desci do avião no Alasca... eu não tinha só uma pista morta. Eu tinha uma linha reta desenhada no meu mapa.

— Onde fica a casa deles exatamente? — perguntei, cortando o papo dela. Rápido demais, até quebrando o disfarce.

A mulher cerrou os olhos, desconfiada da minha pressa.

— Mas por que você quer tanto saber onde eles moram, afinal?

Que fiscalização, credo. Ajustei as desculpas na hora, caçando uma saída normal.

— Trabalho da escola avançado.

— Você tem dezoito anos, garota. Não tem mais idade para fazer cartolina.

— Trabalho da faculdade para a entrada, então — mudei a marcha rápido.

— Um estudo sobre uma família aleatória e isolada no meio do mato?

— Sociologia sobre famílias ricas que vivem isoladas — mandei, sem piscar.

— Hum — ela resmungou.

Dava para ver nítido que ela não acreditou nem um pingo no meu papo de faculdade, mas ela gostava mais de fofocar do que de proteger o endereço dos outros. Uma qualidade maravilhosa para o meu lado.

Ela esticou o braço e apontou pela janela de vidro em direção a umas montanhas escuras cheias de neblina lá no norte.

— Por ali.

— "Por ali" onde, moça? Seja mais específica.

— Naquela direção da estrada de terra, logo depois que passa a ponte de ferro.

Lindo. Uma indicação que parecia mapa de pirata bêbado no meio de uma tempestade. Mesmo assim... pensando bem, era muito mais do que eu tinha no caderno até ontem.

Saí da cafeteria com o coração na boca, o vento gelado cortando a minha cara. A neve fresquinha fazia barulho embaixo do meu tênis a cada passo na calçada.

Porque depois de oito anos caçando no escuro nas regras do mundo dos homens... Depois de duas vidas diferentes... Depois de morrer em 1962... De nascer de novo em Chicago... E de uma quantidade doentia de teimosia pura... Eu estava mais perto do meu alvo do que nunca em toda a minha história espiritual.

E, contra todo o meu deboche, uma pergunta nova apareceu na minha cabeça. Não era mais o velho: “Onde diabos os Cullen se esconderam?”. A dúvida que agora exigia uma resposta certa era:

“O que é que eu vou falar quando der de cara com os olhos dourados do Edward?”

Porque agora, olhando para aquelas montanhas cheias de neblina do Alasca... aquela chance tinha deixado de ser um sonho de criança. Tinha virado uma realidade assustadora.

Eu tinha um endereço. Um endereço real, físico. Um endereço que eu não achei em teorias malucas da internet na madrugada ou em mapas rabiscados num guardanapo. Aquilo, para a minha nova vida, já era uma vitória gigantesca.

Depois de sair correndo da cafeteria, passei umas duas horas parando metade do pessoal da cidade na rua para perguntar. Educadamente, claro. Mantendo o disfarce em dia.

— A família Denali? — perguntava para um morador.

— Sim.

— Eles moram perto das montanhas, né?

— Sim, mas onde exatamente?

— Lá para cima, na zona rural.

— Onde exatamente, em metros?

— Naquela direção geral da floresta.

— Moço, "naquela direção" não é endereço que se preze — reclamei, mordendo os dentes com o meu mau humor de sempre.

— É para quem mora aqui.

— Mas eu não moro aqui, sou de Chicago!

O mistério da cidade só acabou quando a terceira pessoa que parei teve pena da minha cara de dezoito anos. Um rapaz que fazia entregas na região. Um herói de verdade que merecia uma medalha.

— Ah, os Denali da colina? — ele arrumou o boné.

— Sim! Eles mesmos!

— Aquela casa gigante construída bem na ponta da reserva florestal.

— SIM! Exatamente!

— É fácil, garota. Você segue direto por esta estrada, vira à direita logo depois que passar a ponte de ferro e continua andando por uns quinze quilômetros de terra...

Eu quase quebrei as regras de etiqueta e abracei o entregador no meio da rua.

Uns quarenta minutos depois, eu estava no volante de um carro alugado por uma estrada de terra batida, cercada por pinheiros gigantes cheios de gelo. Neve por todo lado, montanhas imensas cortando o céu cinza e um silêncio total. O cenário perfeito onde vampiros imortais com certeza iam escolher morar para sumir do mapa.

Aí a casa apareceu no meio das árvores. E... meu Deus do céu.

— Isso não é uma casa comum — murmurei para o painel do carro, com os olhos arregalados. — Isso é uma declaração de imposto de renda completa.

A construção era um absurdo de grande. Super bonita, isolada no meio do mato e totalmente escondida das pessoas normais. O lugar exato que uma família de vampiros vegetarianos cheios da grana ia escolher para viver em paz.

Meu coração disparou de vez. A caçada tinha saído do caderno de Chicago; aquilo era a mais pura realidade.

Estacionei o carro no cascalho. Desliguei o motor. Respirei fundo, sentindo o peito apertar. Olhei bem para a fachada de vidro e madeira.

— Certo — falei para o espelho do carro. Respirei de novo, organizando as ideias. — Você tem sessenta anos de experiência como fantasma, Samantha Isabella. Você consegue dar conta disso.

Abri a porta do carro e saí no frio cortante. Subi os degraus firme até a porta principal. Estiquei o braço e apertei a campainha.

E, no segundo seguinte... travei inteira na varanda.

Porque uma pergunta super lógica finalmente conseguiu entrar na minha cabeça. Uma dúvida básica que devia ter aparecido uns oito anos atrás, quando eu ainda brigava por causa de gráficos na cozinha.

O QUE DIABOS EU IA FALAR AGORA?

Sério. Qual era a minha desculpa na hora em que abrissem a porta?

"Olá, boa tarde. Estou procurando uma família de vampiros imortais vegetarianos que conheci quando eu era um fantasma que morreu em 1962"? Uma ótima ideia para ir direto para o hospício com camisa de força.

"Oi, eu sou a reencarnação da Bella Swan"? Piorou. A entidade divina não deixaria.

"Olá, pessoal da colina. Por acaso vocês têm o telefone do Edward Cullen?" Estranho demais. Super suspeito para uma garota de dezoito anos que acabou de chegar de Illinois.

Eu ainda estava tentando inventar uma mentira aceitável quando ouvi o barulho da fechadura. A porta de madeira pesada abriu num movimento só, bem leve.

E o meu coração quase parou de verdade.

Uma mulher loira apareceu na porta. Ela era linda de um jeito absurdo. Elegante, perfeita demais para ser humana, com os olhos num tom de dourado bem limpo e a pele pálida igual a mármore.

A Tanya. A própria Tanya. Minha memória a reconheceu na hora, lembrando das coisas que o Edward me contava na antiga casa de Forks. Eu sabia direitinho quem ela era, mesmo sem nunca ter falado com ela na vida.

Ela inclinou a cabeça um pouquinho para o lado, me olhando com uma curiosidade calma.

— Posso ajudar? — a voz dela saiu super doce, parecendo música no ar.

Meu cérebro simplesmente deu tela azul na hora. Fiquei sem saber o que dizer.

— Eu... — comecei, gaguejando. Parabéns, Bella. Um ótimo começo de conversa para quem se achava esperta. — Eu me perdi.

Ficamos num silêncio na varanda. A Tanya piscou os olhos perfeitos, tentando entender a notícia.

— Se perdeu?

— É, exatamente isso.

— Aqui na nossa propriedade?

— Sim.

— No meio de uma floresta fechada no extremo norte do Alasca?

— É.

A gente se encarou por um tempo.

— De carro? — ela arqueou a sobrancelha perfeita.

Que burrada de lógica. Eu tinha esquecido de combinar a minha desculpa com a realidade.

— É uma longa história — cortei o assunto, tentando parecer normal.

O sorriso na cara de estátua dela aumentou de canto, achando graça de verdade.

— Imagino que seja, com certeza.

Eu estava morrendo por dentro, xingando o meu corpo de adolescente em todas as línguas possíveis.

— Eu estava fazendo trilha — a mentira saiu da minha boca antes que eu conseguisse parar.

Tanya continuou me secando com os olhos. Olhou por cima do meu ombro, encarando o carro alugado certinho estacionado no cascalho lá fora. Depois, voltou a olhar bem na minha cara de dezoito anos.

— Trilha?

— Sim.

— De carro, no meio da neve?

Droga de faro de vampiro.

— É um jeito moderno de explorar o lugar — dei de ombros, debochada, voltando ao meu deboche de sempre.

Por algum motivo, a minha resposta atravessada fez a vampira dar uma risada limpa e aberta. De verdade.

— Você é uma figura engraçada — ela falou, relaxando os ombros de mármore.

— Obrigada pela parte que me toca.

— Não tenho certeza se o que eu disse foi um elogio — ela pontuou, achando divertido.

— Eu aceito de qualquer jeito, economiza tempo de conversa.

A resposta pareceu deixar a Tanya ainda mais divertida. Bem nessa hora, um vento super forte e gelado passou pela varanda, batendo na minha roupa. Meu corpo deu um tremelique violento no puro reflexo. Dessa vez foi de verdade, porque eu estava morrendo de frio naquele clima hostil do Alasca.

Tanya sacou o meu movimento na mesma hora.

— Você está com frio.

— Estou começando a achar que o Alasca não gostou muito da minha presença por aqui.

Ela deu um sorriso carinhoso, os olhos dourados brilhando na luz da tarde.

— Entra, por favor.

Meu cérebro travou de novo no tabuleiro.

— O quê?

— Você está congelando aí na minha varanda, menina. Pode entrar.

— Ah... — balancei a cabeça devagar, processando o convite. Houve uma pausa rápida. — Tá bom. Eu aceito.

— Até porque — continuou a Tanya, dando um passo para o lado para eu passar —, qualquer pessoa que tenta fazer trilha usando um carro alugado no meio da neve com certeza precisa de ajuda urgente.

Um veredito justo. Muito justo.

Ela abriu mais a porta e eu passei, entrando na fortaleza deles. O lado de dentro da casa dos Denali estava quentinho e confortável. O lugar era lindo de morrer, aconchegante, com um cheiro gostoso de madeira e pinheiro.

E, no exato segundo em que o meu tênis pisou no tapete daquela casa de imortais... uma dúvida bizarra passou pela minha cabeça igual a um raio.

Será que eles sabem de alguma coisa? Será que o clã dos Denali tem alguma pista do que aconteceu com os Cullens depois que o Emmett cavou o quintal da Esme?

Mas enquanto eu olhava a Tanya fechar a porta principal atrás de mim, cortando o vento gelado da floresta, uma certeza gostosa apareceu no meu peito.

Porque, pela primeiríssima vez em anos caçando no escuro nas regras do mundo dos homens... eu tinha cruzado a barreira. Eu estava no mundo deles de corpo presente de novo.

E o sucesso desse plano significava que achar os Cullen e encurtar a distância até eles talvez estivesse bem mais perto do que o meu pessimismo imaginava. Ou... que a confusão estava prestes a ficar bem mais complicada, profunda e perigosa para a minha cabeça de duas vidas. O que, conhecendo o meu histórico de azar com o universo, parecia a opção mais provável de acontecer. A engrenagem do Alasca estava oficialmente girando.

A primeira coisa que notei ao passar da porta foi que vampiros imortais têm um talento irritante para arrumar a casa.

Tudo no lugar parecia perfeito. As paredes tinham cores calmas que combinavam com a luz da tarde, os móveis pareciam saídos de uma revista chique da Europa e as luzes clareavam o escuro direitinho. Até a fruteira em cima do balcão parecia ter sido colocada ali por um artista profissional.

Como eu passei anos morando na mesma casa que o Emmett Cullen e as suas manias de quebrar as coisas sem querer, eu sabia reconhecer um milagre de arrumação quando via um.

Tanya virou com aquele jeito leve dela, apontando para a sala principal.

— Pode sentar.

Obedeci na hora, sentando bem na ponta do sofá fofinho. Principalmente porque o meu corpo ainda estava tentando aceitar o fato de que eu tinha acabado de entrar, por vontade própria, na casa de uma imortal que podia me transformar em jantar em dois segundos se quisesse.

Não que a Tanya parecesse perigosa ou com raiva de mim. Pelo contrário; ela era super simpática e acolhedora. Mas o meu passado guardava lembranças claras sobre o jeito dos vampiros: caras bonitas e modos educados eram a armadilha mais antiga e eficiente da natureza para pegar a comida.

— Então — ela falou, sentando na poltrona bem na minha frente. Cruzou as pernas toda elegante e cravou os olhos dourados na minha cara, me vigiando com uma curiosidade calma. — Qual é o seu nome?

Meu coração deu um tropeço no peito. Pequeno, sutil, mas no puro reflexo. Porque passei quase dez anos em Chicago planejando tudo na mesa da cozinha só para ter o direito de falar o meu nome de verdade sem quebrar as regras do além. A chance real de falar quem eu sou.

— Bella — a palavra saiu da minha boca de um jeito super natural. E alguma coisa na minha cabeça comemorou a vitória.

Tanya balançou a cabeça devagar, testando o som do nome.

— Bella.

— Isso.

— Isabella? — ela cerrou um pouco os olhos, querendo o nome certinho.

Dei um sorriso de canto, adorando a minha brecha no contrato.

— Tecnicamente, sim.

— Entendo.

Pelo jeito dela, a Tanya pareceu gostar do nome. O que achei ótimo, já que tive que fazer uma guerra contra os meus pais número dois para conseguir ter esse nome no meu documento nesta vida.

— E o que uma garota de dezoito anos está fazendo sozinha no Alasca? — ela perguntou na lata, chegando mais perto.

Lá vinha a cobrança por respostas. Eu precisava inventar uma resposta rápida e inteligente; alguma coisa que não fosse mentira para não acionar o faro dela, mas que passasse longe de contar a verdade sobre o meu plano. Um talento com as palavras que treinei ao máximo em duas vidas.

— Estou viajando.

Uma frase totalmente verdadeira.

— Sozinha? — Tanya rebateu, sem parar de me olhar.

— Sim.

Também baseado em fatos reais.

— Por quê?

Se eu falasse a verdade absoluta, a resposta seria: “Estou caçando o endereço de uma família de vampiros para voltar a falar com o leitor de mentes que amei com toda a minha alma na outra vida”. O que, convenhamos, seria um péssimo jeito de começar uma amizade com a Tanya Denali.

Então fui pelo caminho mais seguro:

— Atrás de aventuras.

A sala ficou num silêncio por um segundo. A Tanya piscou os olhos perfeitos, avaliando a minha desculpa.

— Aventuras?

— Sim.

— Você largou tudo para ir atrás de aventuras?

— Falando desse jeito, até parece que o plano é meio irresponsável — comentei, cruzando os braços com o meu deboche de sempre.

Ela soltou uma risada limpa, o som gostoso ecoando pelas paredes da casa.

— Porque É irresponsável.

— Discordo da sua opinião — mantive a guarda armada.

— Claro que discorda.

Justo. A Tanya apoiou o queixo na mão de mármore, me encarando fixamente, como se estivesse lendo a minha mente para entender quem eu era.

— Então você simplesmente resolveu conhecer o mundo?

— Mais ou menos isso.

— Mais ou menos? — ela incitou, pegando a falha na minha fala.

Hesitei por um segundo, calculando os riscos. Resolvi soltar um pedacinho da verdade que eu sentia; uma parte que o meu orgulho não via problema em colocar na mesa.

— Eu passei muito tempo sentindo que estava esperando alguma coisa.

A Tanya continuou durinha na poltrona, em silêncio.

— E um dia cansei de esperar — completei.

E aquela frase era a mais pura verdade. Eu passei sessenta anos como um fantasma parado na colina de Forks, esperando acharem o meu corpo no quintal. Passei mais de dez anos presa num corpo de criança em Illinois, esperando crescer para ir atrás dos Cullen. Esperar era uma coisa que eu entendia melhor do que ninguém.

— Então resolvi me mexer.

Tanya continuou me secando com os olhos, num silêncio que demorou demais na sala. O suficiente para deixar o meu disfarce em alerta.

— Que foi? — perguntei, erguendo a sobrancelha.

Ela mudou a cara séria, dando um sorriso misterioso.

— Nada.

Uma mentira descarada, anotei mentalmente.

— Minha resposta foi meio esquisita para você? — provoquei.

— Um pouco.

— Justo.

— Você fala igual a alguém bem mais velha — ela comentou, cerrando o olhar de um jeito perigoso.

Meu coração deu uma travada de mentira no peito. Alerta de perigo total para o meu segredo. Minha mente antiga tinha vazado no meu jeito de falar de adolescente de novo.

— Já me disseram isso antes — mudei o rumo da conversa super rápido.

— Muitas vezes?

— A vida inteira — dei de ombros, debochada, mantendo a minha cara de paisagem.

O sorriso na cara da imortal aumentou, aceitando a desculpa.

— Consigo acreditar.

Lindo. Problema resolvido no tabuleiro. Pelo menos por enquanto, o suficiente para manter o meu disfarce civil de Samantha Isabella funcionando.

Tanya levantou da poltrona toda leve e foi até a cozinha. Segundos depois, voltou trazendo duas canecas de cerâmica quentinhas, saindo fumaça de um líquido cheiroso.

— Chocolate quente? — ela ofereceu, estendendo a caneca.

Olhei para a bebida e depois para a cara pálida dela.

— Você por acaso está tentando me sequestrar dentro da sua própria casa?

Ela piscou, totalmente surpresa com o rumo da conversa.

— O quê?

— Pessoas que são boazinhas e simpáticas demais logo de primeira costumam esconder segundas intenções — justifiquei, séria.

Tanya caiu na risada de novo, o som ecoando pelo teto de madeira.

— Você é desconfiada demais, Bella.

— Pura experiência de vida, querida.

— Experiência aos dezoito anos de idade? — ela arqueou a sobrancelha, achando graça da minha marra.

— Você ficaria muito surpresa se visse o meu histórico — murmurei de canto.

Se ela fizesse a menor ideia do mistério do além que me trouxe até aquela colina gelada do Alasca, os circuitos de vampira dela iam pifar na hora.

Ela chegou perto e me entregou a caneca quentinha. Sentou de novo na poltrona e, sem nenhum aviso, soltou a pergunta certeira que quase fez o chocolate quente derramar no meu casaco:

— E que aventura específica trouxe você logo para esta região do Alasca?

Meu coração disparou na hora, acelerando tudo nas minhas costelas. Lá estava o ponto crítico. A fresta perigosa que motivou todo o meu plano desde Chicago.

Fiquei olhando para o fundo preto do chocolate quente na caneca. Olhei de volta para a cara perfeita da Tanya Denali. Olhei para a janela, vendo os flocos de neve caindo na floresta escura lá fora. Organize os pensamentos e mandei a maior e mais legítima meia verdade da minha vida:

— Estou procurando uma pessoa.

— Alguém muito importante?

E, pela primeiríssima vez desde que passei daquela porta de vidro e mármore no Alasca... o meu cérebro não precisou inventar nenhuma mentira ou desculpa de cobertura.

— Sim.

A palavra saiu da minha boca tão baixinha e fraquinha que quase sumiu no quentinho da sala. Mas a audição de vampira da Tanya pegou o som no mesmo milissegundo.

Eu ainda estava segurando a caneca de chocolate quente quando ouvi o barulho da porta abrindo. No reflexo, virei a cabeça para ver quem era o novo personagem a entrar no jogo.

E quase engasguei com a fumaça da bebida.

Porque o homem que entrou na sala parecia ter saído direto de um comercial chique de "homens misteriosos que moram no mato e mandam em empresas secretas". Ele era alto, tinha o cabelo escuro todo arrumado, os olhos num tom de dourado bem limpo e uma cara super calma, quase de rei.

Vampiro. Com certeza vampiro, em qualquer exame.

Ele parou assim que me viu, travando o passo leve dele. Eu parei assim que vi ele, ficando estátua na beirada do sofá fofinho. A Tanya olhou para os dois, com uma cara de quem estava adorando ver o choque de energia na sala.

— Quem é ela? — ele perguntou. A voz dele era baixa, aveludada e certeira.

Uma ótima pergunta para começar o dia, comentei mentalmente. Eu também queria muito saber o que eu era ali dentro agora.

— Bella — respondeu Tanya, mexendo a mão de leve.

— Bella? — ele testou o som do nome, erguendo a sobrancelha pálida.

— Ela se perdeu — a loira entregou com um deboche cínico.

A sala dos Denali ficou num silêncio que pareceu demorar um tempão no relógio. O homem ficou me encarando sério. Depois, olhou para a janela de vidro. Depois, olhou para o carro alugado certinho estacionado no cascalho lá fora. Depois, voltou a olhar bem na minha cara com um faro de detetive renovado.

— De carro?

Droga de faro de vampiro analítico. De novo não. Eu odiava quando a minha desculpa era destruída pelas provas do crime.

— Foi uma tarde difícil, sabe? — expliquei, cruzando os braços para disfarçar o frio.

Tanya começou a rir na hora, o som gostoso ecoando pelas paredes de madeira chique. Uma bela aliada de mentira, anotei no meu relatório de reclamações.

— Bella, este é o Eleazar — a imortal apresentou o novo integrante da casa.

Ele chegou mais perto e estendeu a mão de mármore para mim, todo educado.

— Prazer.

Apertei os dedos gelados dele com a minha mão de dezoito anos.

— Igualmente.

E, no exato milissegundo em que as nossas peles se tocaram, o meu radar secreto mandou um aviso na hora. O Eleazar era observador. Muito observador. Pegava microexpressões na cara, testava o tom de voz e era o tipo exato de vampiro antigo que prestava atenção demais em tudo ao redor. Um perigo ambulante para as minhas mentiras contratuais.

Ele sentou numa poltrona perto de mim, continuando a me estudar de canto de olho. Ou, sendo mais sincera, tentando parecer educado na frente de uma humana normal.

— Então você está viajando sozinha? — ele perguntou, quebrando o silêncio com uma voz calma.

— Sim — confirmei, mantendo a guarda armada.

— Aos dezoito anos? — ele cerrou os olhos dourados, achando estranho.

— Todo mundo fica repetindo isso como se fosse um absurdo — dei de ombros, mostrando o meu mau humor com as regras chatas do mundo.

— Porque É um absurdo — ele rebateu na lata, feito um fiscal do governo.

Justo, aceito o argumento. Não tinha como discutir com a lei. Ele pareceu achar graça da minha marra, relaxando a cara séria.

— E o que você está procurando?

Ah. Lá vinha ela de novo. A mesma pergunta de sempre. O ponto crítico que já tinha cruzado o meu caminho com a Sarah em Chicago e na cafeteria ali perto.

— Aventuras — mandei a minha desculpa padrão, sem nem piscar.

Eleazar ergueu a sobrancelha escura só um pouquinho.

— Claro.

Ele não engoliu a mentira. Nem um miligrama, dava para ver nítido o ceticismo dele. Ótimo, o disfarce estava operando sob pressão.

Mas foi bem nessa hora de desconfiança que me veio uma ideia na cabeça. Porque talvez... pensando de forma estratégica... eu pudesse aproveitar a deixa para fazer umas perguntas de volta. Perguntas que pareciam super inocentes para uma turista perdida. Perguntas que, para quem estivesse de fora, não tinham nada a ver com o paradeiro de uma família de vampiros de Forks.

— E vocês? — perguntei, erguendo o queixo de leve.

— Que tem a gente? — a Tanya perguntou, encostando no sofá.

— Moram aqui faz muito tempo? — joguei a primeira pista.

Tanya balançou a cabeça de estátua de um jeito bem leve.

— Bastante tempo.

— Quantos anos? — apertei o cerco.

— Muitos anos — ela respondeu.

Uma frase de mentira para os humanos, já que escondia os séculos de imortalidade deles.

— Nossa — fingi surpresa de adolescente, mudando a cara para o modo normal. — Deve ser difícil morar tão isolado de tudo.

— A gente gosta daqui — o Eleazar falou, mantendo a voz calma e os olhos fixos na minha reação.

— Quantas pessoas moram nesta casa? — perguntei fingindo costume. Super normal. Normal até demais para quem só queria fugir do frio do Alasca.

Tanya inclinou a cabeça um pouquinho para o lado, sacando a minha insistência.

— Por que quer saber?

Droga de fiscalização. Estiquei a corda demais.

— Curiosidade — voltei para a minha desculpa universal.

— Você é bem curiosa — Eleazar pontuou, pesando a palavra.

— Até demais — admiti, debochada.

Eles pareceram aceitar isso na conversa. O que achei ótimo para o meu lado. Porque, acima de tudo, era a mais pura verdade sobre a minha pessoa aos dezoito anos.

— Somos poucos — respondeu Tanya, relaxando a cara de mármore.

— Só a família? — insisti, caçando brechas no grupo.

— Sim.

— Têm parentes morando por perto? — disparei na lata, testando as conexões deles com os Cullen.

O silêncio tomou conta da sala. Pequeno, sutil, mas o suficiente para o meu radar sacar a mudança de energia no ar.

— Alguns — respondeu Tanya, quebrando o silêncio com pouca conversa.

Interessante. Super interessante para as minhas anotações secretas.

— Família grande? — continuei apertando o cerco.

— Mais ou menos — Tanya soltou só o mínimo de informação.

— Todos moram no Alasca? — apertei mais a logística.

— Nem todos.

Meu coração disparou de vez dentro do peito, mas mantive a minha cara totalmente neutra. Usei toda a minha experiência de velha rabugenta para emular a frieza de uma estátua na frente deles.

— Eu sempre quis ter uma família grande — menti descaradamente para os donos da casa. Eu já tinha visto de perto como era a rotina de uma família grande de vampiros — o bando dos Cullen — e aquela movimentação todo santo dia, com o Emmett quebrando o quintal e a Rosalie limpando carro, era cansativa demais para o meu tédio eterno.

— E você? — o Eleazar perguntou, jogando a conversa de volta para o meu lado seguro. — Como é a sua família?

— Tenho pais — respondi, com a voz baixando sem querer ao lembrar da despedida no aeroporto de Chicago. Uma frase totalmente verdadeira. — Um irmão — emendei, com o coração batendo mais calmo. Também verdade. — E ele é um desastre ambulante na lei de casa — completei, deixando o meu deboche vazar na sala. Totalmente verdade.

Tanya deu uma risada gostosa, quebrando o gelo que tinha ficado entre as poltronas.

— Quantos anos ele tem agora?

— Doze.

— Sente falta dele na sua viagem de aventuras? — a pergunta do Eleazar cortou o ar e me pegou totalmente desprevenida.

Porque a resposta veio na minha cabeça voando, atropelando toda a minha pose de durona cínica:

— Sim.

A resposta saiu da minha boca num fio de voz, muito mais rápido e sincero do que o meu orgulho esperava deixar vazar na conversa.

Tanya deu um sorriso bem doce na cara pálida.

— Então você gosta dele, afinal de contas.

— Não espalha essa notícia por aí, por favor. Vai acabar com a minha fama de brava — torci o nariz com o meu mau humor de sempre.

— Segredo de estado — ela piscou, cúmplice.

— Ótimo. Trato feito.

Foi bem nesse segundo de análise quieta que o Eleazar chegou mais perto, cravando os olhos dourados direto na minha cara e soltando uma pergunta simples, mas cirúrgica:

— Bella, você disse antes que está procurando uma pessoa por aí.

Meu coração de carne deu uma parada na hora, o ar travando na garganta no puro reflexo.

— Sim.

— Você achou quem estava procurando por aqui? — ele perguntou, sem tirar os olhos de estátua de mim.

O silêncio da casa dos Denali voltou com tudo.

Porque, pela primeiríssima vez desde que achei aquele artigo do Carlisle na internet às duas da manhã... o meu cérebro simplesmente não soube o que responder. Não ainda. Não com o jogo mostrando tantas cartas escondidas.

Mas olhando para a cara misteriosa do Eleazar e da Tanya naquela colina isolada do Alasca... talvez... talvez a minha teimosia obsessiva tivesse me jogado num lugar do mapa muito mais perto do Edward do que o meu pessimismo ousava calcular.

A temporada de negociações continuava oficialmente aberta sob a neve.