Como Ser Um Fantasma (Sem Querer)
28 Capítulo 28
E assim se passaram algumas semanas. Para a surpresa do meu próprio relatório de paciência, eu virei uma espécie de bicho de estimação exótico da família Denali.
Eu vivia batendo ponto na mansão de vidro deles. Virou uma rotina: eu pegava o meu sedã alugado, subia a estrada de terra na neve, entrava, ganhava uma caneca de chocolate quente da Tanya e passava a tarde fingindo ser uma humana comum de dezoito anos que só achava o Alasca um lugar "legal para passar as férias".
A parte boa? Eu estava oficialmente infiltrada no mundo dos imortais de novo. A parte deprimente? Nenhum sinal dos Cullen. Nenhumzinho.
O grande nó na minha cabeça era que eu não fazia a menor ideia de como perguntar sobre eles. Falar do Carlisle ou do Edward do nada seria um erro terrível de contraespionagem. Afinal, como uma garota aleatória de Chicago saberia o nome de um clã de vampiros super discretos?
"Oi, Kate, tudo bem? Por acaso vocês têm o WhatsApp daquele leitor de mentes de topete que mora no mato?" Lindo. Ia ser o recorde mundial de como estragar um disfarce em dois segundos.
Numa tarde dessas, eu estava sentada no tapete da sala deles. A Carmen estava por perto lendo um livro e a Tanya polia uma escultura de gelo na varanda como se fosse a coisa mais normal do mundo. Eu fingia ler um livro de história da faculdade, mas a minha mente estava tentando montar uma armadilha com as palavras.
— Bella — a voz do Eleazar me puxou de volta. Ele tinha acabado de entrar na sala, caminhando com aquela leveza de quem não pesa nada.
— Hum? — fechei o livro, fazendo a minha melhor cara de paisagem.
— Você continua lendo a mesma página faz meia hora.
Droga. O faro de detetive do Eleazar atacando novamente.
— É um capítulo complexo — me defendi, ajeitando a postura e soltando o meu deboche padrão. — A economia do século passado exige muito processamento dos meus neurônios.
Ele deu um sorrisinho de canto, sentando na poltrona da frente.
— Sei.
Fiquei encarando o Eleazar por uns segundos. Ali estava a minha chance. Se tinha alguém ali dentro que prestava atenção em conexões, casamentos e fofocas de imortais pelo país, era ele. Ele trabalhou com os Volturi, afinal de contas. O homem era um arquivo vivo de sobrenomes. Eu só precisava jogar a isca certa, sem dar na cara que eu sabia o que os imortais jantavam.
Respirei fundo, testando o peso do chocolate quente no estômago e comecei o meu plano de ataque sutil:
— Eleazar.
— Diga.
— Estive pensando sobre aquele papo de família grande que a gente teve no outro dia.
Ele arqueou uma sobrancelha, focado em mim.
— O que tem ele?
— Vocês disseram que têm alguns parentes espalhados por aí, fora do Alasca — comentei, fingindo o maior desinteresse do mundo, enquanto folheava o livro distraidamente. — Fiquei curiosa. Como funciona o mercado de parentes para quem vive isolado assim? Vocês têm primos em cidades normais ou todo mundo resolveu morar no meio do mato?
A Carmen tirou os olhos do livro por um milissegundo, e a Tanya parou de mexer no gelo lá na varanda. O radar de audição deles tinha ligado na tomada.
— Temos alguns amigos que são como irmãos — Eleazar respondeu devagar, escolhendo bem as palavras para não assustar a humana. — Mas eles também preferem lugares... calmos. Com bastante natureza.
— Tipo o quê? Cabanas no Alasca de novo? — forcei uma risadinha de adolescente boba. — Ou tem gente que curte uma vibe mais chuvosa, sei lá... tipo Washington? Ou Oregon?
O silêncio que caiu na sala foi tão pesado que deu para ouvir um floco de neve batendo no vidro da janela.
A Tanya entrou na sala devagar, limpando as mãos pálidas de mármore num lenço. O Eleazar trocou um olhar rápido com a Carmen. Aquele maldito jogo de olhos em microssegundos que eu já conhecia muito bem. Eu tinha acertado o alvo em cheio.
— Por que você pensou logo em Washington, Bella? — a Tanya perguntou, com a voz super doce, mas com os olhos dourados cerrados, me estudando inteira.
Prepara o disfarce, Bella. Agora é tudo ou nada.
— É que eu pesquisei sobre o clima antes de vir para o norte — dei de ombros, com o meu maior cinismo de Chicago, olhando bem na cara dela. — Vi que o noroeste do Pacífico compete direto com o Alasca em dias cinzas. Achei que, se eu fosse rica e odiasse o sol igual a vocês, montaria uma mansão de grife no meio das árvores de Forks ou de alguma colina dessas por lá. É uma boa lógica de mercado, não acham?
A Tanya piscou os olhos perfeitos, e o Eleazar relaxou os ombros só um milímetro. A cortina de fumaça tinha funcionado, mas a corda estava esticada ao máximo.
Eleazar soltou uma risada contida, o som aveludado cortando o gelo que tinha se formado na sala. Ele balançou a cabeça devagar, me encarando com aquele faro de detetive que, por um segundo, achei que fosse quebrar o meu disfarce.
— Você é bem esperta, Bella — ele pontuou, dando um sorriso de canto que mostrava que tinha sacado a minha armadilha, mas que não ia cair nela tão fácil. — Sua lógica de mercado faz bastante sentido.
— Pura análise de dados — respondi na hora, mantendo o meu cinismo e fingindo que o meu peito não estava quase explodindo de ansiedade.
— De fato — Eleazar continuou, recostando na poltrona e cruzando os dedos. — E para responder à sua curiosidade... sim, você está certa. Nós temos, sim, uma parte da nossa família espalhada por outros cantos. Gente que tem os mesmos gostos que nós e que prefere a calmaria do mato a viver no meio do barulho das grandes cidades.
Fiquei estátua, esperando o resto. Minha mente já estava pronta para anotar o nome dos Cullen no relatório. Diz Washington, seu vampiro misterioso, diz Washington.
Mas o Eleazar não tinha passado séculos trabalhando com os engravatados da Itália à toa. O homem sabia exatamente como fechar a boca quando queria.
— Mas eles mudam bastante de endereço por causa dos negócios — ele emendou de um jeito super vago, sem soltar nenhum detalhe, nenhum sobrenome, nenhuma pista de mapa. Nada. Limpando a mesa de negociações antes mesmo de eu dar o lance. — Coisa de família grande.
A Tanya deu um sorrisinho de canto lá da varanda, claramente achando graça da minha tentativa de arrancar informação. A Carmen voltou a folhear o livro dela como se nada tivesse acontecido. Que bando de profissionais em esconder segredos, credo.
Antes que eu pudesse bolar outro argumento para apertar o cerco, o Eleazar mudou a marcha da conversa sem nenhuma cerimônia:
— Mas mudando de assunto... você disse que acabou de terminar o ensino médio, certo? Já que resolveu tirar esse ano sabático para viajar antes de decidir o que fazer da vida, como estão as coisas em Chicago hoje em dia?
Droga de distração retórica. Ele tinha virado a pauta de ponta-cabeça e ainda tinha usado o meu status de recém-formada desocupada para me enquadrar.
— Oscilando, igual ao humor do meu irmão de doze anos — respondi, suspirando com o meu mau humor clássico e aceitando que, por aquela tarde, a minha espionagem tinha batido numa parede de mármore.
A caçada continuava, mas os Denali sabiam jogar o jogo muito bem. E o pior era que eu ainda não tinha o menor rastro de para onde os Cullen tinham marchado.
No dia seguinte, eu estava de volta ao cativeiro... quer dizer, ao pequeno apartamento que aluguei no centro da cidade. O lugar cheirava a carpete velho e aquecedor antigo, o cenário ideal para uma investigadora clandestina que acabava de levar um baile tático de uma família de vampiros.
Eu estava deitada no sofá olhando para o teto, tentando recalcular a rota do meu plano de espionagem, quando o meu celular começou a vibrar na mesa de centro. A tela brilhou com o carimbo nominal que indicava o maior foco de monitoramento civil da minha vida atual: meus pais número dois.
Soltei um suspiro longo, alinhei os meus circuitos de filha normal e atendi.
— Oi, mãe.
— Samantha Isabella! — a voz dela veio na velocidade de um jato, atropelando a linha do telefone. — Graças a Deus! Duas horas tentando falar com você! Por que você não atendeu antes? Já estava quase ligando para o departamento de polícia do Alasca!
— Eu estava no meio de um processamento de dados importante — justifiquei, mantendo o meu cinismo padrão enquanto olhava para uma mancha no teto. — E eu já pedi para não usar o meu nome completo, parece que estou sendo intimada por um juiz.
— Não mude de assunto, mocinha. Como estão as coisas por aí? Você está se alimentando direito? Encontrou algum lugar quente para comer? O Ethan me disse que o Alasca é basicamente uma geladeira gigante cheia de ursos assassinos.
— O Ethan é um poço de exagero dramático e carece de supervisão — retruquei, torcendo o nariz. — Mas respondendo ao relatório: sim, estou inteira. Nenhum urso me transformou em moeda de troca no mercado biológico ainda.
Bem, os ursos não, mas eu andava tomando chocolate quente na casa de predadores imortais que podiam me quebrar em duas com um sopro, mas esse detalhe eu achei melhor camuflar para não gerar um colapso nervoso no sistema familiar em Chicago.
Foi quando ouvi um barulho de interferência do outro lado da linha e a voz grossa do meu pai assumiu o controle da pauta:
— Samantha? Deixe de bobagem. Onde você está enfiada agora? Já gastou todo o dinheiro que economizou abusando da boa vontade dos vizinhos com aquela limonada cara?
— Meu modelo de negócios com as limonadas era perfeitamente legal e focado no lucro, pai — defendi o meu orgulho sênior. — E não, o orçamento continua operando dentro das métricas aceitáveis. Estou num apartamento alugado bem seguro.
— Acho bom. E o que você está fazendo o dia todo nesse gelo? Já decidiu que rumo vai dar para a vida agora que terminou o colégio ou vai continuar fingindo que é uma mochileira misteriosa na televisão?
Lá vinha a cobrança burocrática sobre o meu futuro. Se ele soubesse que os meus planos pós-ensino médio envolviam sessenta anos de bagagem espectral e a caçada por um leitor de mentes topetudo, ele provavelmente me trancaria num porão.
— Estou apenas expandindo os meus horizontes sociológicos e conhecendo comunidades... herméticas — respondi, sorrindo de canto com a minha própria capacidade de design linguístico. — É um excelente investimento para o meu inventário de experiências.
— Sei... — meu pai resmungou, claramente sem engolir a cortina de fumaça. — Sua mãe quer o telefone de volta. Juízo, garota. Se sumir de novo, eu mesmo pego um avião para te buscar.
— Entendido, chefe.
A minha mãe pegou o aparelho de volta, despejando mais uma rodada de recomendações térmicas, avisos sobre casacos e promessas de que o Ethan ia acabar com o meu estoque de doces em Chicago se eu demorasse a voltar. Quando finalmente desliguei o telefone, o silêncio do apartamento desabou de novo sobre a minha cabeça.
Apertei o celular contra o peito, sentindo o calor da carcaça de dezoito anos. Viver aquela rotina dupla era bizarro. De um lado, uma família de verdade que se importava com o meu casaco; do outro, uma teimosia patológica que me empurrava para o meio de uma floresta congelada atrás de fantasmas do meu passado.
Eu tinha os Denali por perto, mas os Cullen continuavam sendo uma página em branco no mapa. Olhei para a janela, vendo a névoa do Alasca engolir a rua. A temporada de caça estava aberta, os meus pais estavam de olho e eu precisava urgentemente descobrir o próximo passo antes que o meu tempo de mercado expirasse.
Dois dias depois, eu estava subindo aquela bendita estrada de terra congelada novamente. O sedã alugado já conhecia o caminho tão bem que acho que conseguiria subir a colina sozinho. O vento uivava do lado de fora, batendo nos pinheiros com a mesma força de quem quer expulsar qualquer civil do Alasca. Uma recepção climatológica bem padrão.
Quando cheguei e passei pelo batente da mansão de vidro dos Denali, notei uma movimentação esquisita no ar. Não tinha carros novos no cascalho, mas o ambiente interno parecia carregado de uma eletricidade diferente. O chocolate quente que a Tanya me entregou estava quentinho como sempre, mas ela e a Kate trocavam risadinhas misteriosas a cada três segundos.
— Bella, que bom que você veio hoje — a Tanya falou, sentando no sofá de couro com aquela leveza irritante de grife. — Nós temos uma novidade na família.
— Deixaram de ser sonegadores de impostos ou o Eleazar finalmente comprou roupas novas? — brinquei, dando um gole na caneca e soltando o meu cinismo clássico.
A Kate deu uma risada limpa da poltrona ao lado.
— Quase isso. Aquela parte da família sobre a qual o Eleazar conversou com você... eles estão vindo para cá.
Meu coração de carne deu um solavanco tão violento contra as costelas que achei que ia derramar o chocolate quente no tapete persa deles. Segurei o recipiente com as duas mãos, forçando todo o meu sistema operacional a manter a expressão de uma Esfinge entediada.
— Ah, é? — dei de ombros, muito falsamente desinteressada. — O bando de primos que odeia o sol e vive mudando de endereço por causa dos negócios?
— Eles mesmos — Eleazar entrou na sala, surgindo do corredor com os braços cruzados e um sorrisinho de canto. — Devem chegar aqui amanhã à noite. É uma visita de cortesia. Fazia anos que não nos reuníamos com o clã completo deles.
— Que legal — comentei, limpando o canto da boca com um guardanapo. Por dentro, a minha central de dados estava operando em velocidade de cruzeiro, os alarmes de pânico disparando em todas as telas mentais. O clã deles. Clã completo. Anos sem ver. Se a matemática do universo fizesse o favor de cooperar e não acionasse a sua gerência de sadismo, só existia uma família no mundo que batia certinho com esse inventário de dados. Os Cullen.
— E nós estávamos conversando... — Tanya continuou, inclinando o tronco pálido na minha direção, com as órbitas douradas brilhando de empolgação. — Queremos que você venha aqui amanhã à noite. Queremos apresentar você a eles.
Minha garganta secou na mesma hora.
— Apresentar a mim? — torci o nariz, tentando emular o meu habitual descontentamento juvenil. — Tanya, eu sou só uma garota de dezoito anos que terminou o colégio e vive perdida de carro na neve. Acho que o seu bando de parentes ricos não vai achar muita graça em atualizar o inventário de amizades com uma civil de Illinois.
— Bobagem — Kate cortou, piscando de forma cúmplice. — Eles são um pouco... peculiares, como nós, mas adoram pessoas espertas. E você é disparada a hum… Pessoa mais insolente e divertida que cruzou a nossa varanda em décadas. Eles vão adorar o seu deboche. Especialmente os rapazes.
Fiquei encarando o líquido escuro dentro da caneca por um tempo imensurável, sentindo o gosto frio do medo legítimo se misturar com a eletricidade da expectativa pura.
Amanhã à noite. O tabuleiro estava oficialmente montado. Se fossem os Cullen, eu estava prestes a colidir de frente com as órbitas douradas do Edward Cullen na carcaça nova de Samantha Isabella. E eu não fazia a menor e mais remota ideia de como o leitor de mentes ia reagir ao processar a minha nova assinatura de Wi-Fi biológico.
— Certo — respondi por fim, erguendo os olhos e desenhando um sorriso lento, focado e sutilmente perigoso no rosto. — Aceito o convite. Eu adoro conhecer pessoas... peculiares. Preparem o estoque de chocolate quente, porque amanhã eu volto.
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