A primeira constatação que me atingiu foi puramente espacial: eu estava drasticamente menor do que deveria.

A segunda, e mais alarmante, foi perceber que alguma coisa havia dado profundamente errado com o design dos meus braços. Eles eram minúsculos. Ridiculamente curtos e gordinhos. Pareciam duas salsichas humanas mal-acabadas presas aos meus ombros.

Fiquei encarando uma das minhas supostas mãos por vários segundos. Ou, pelo menos, foi o que tentei fazer. Meus olhos se recusavam terminantemente a cooperar com a minha força de vontade; o foco não existia, e tudo ao redor se resumia a um borrão confuso, difuso e agressivamente luminoso.

— Ela abriu os olhos!

Uma voz feminina explodiu bem perto de mim, quebrando o silêncio com o entusiasmo de quem acabou de ganhar na loteria. Eu me assustei. Ou tentei me assustar. O resultado prático foi um espasmo desajeitado e involuntário, aquele reflexo típico de recém-nascido que os adultos provavelmente catalogaram como "uma gracinha".

Eu odiei aquilo imediatamente.

— Samantha, meu amor, olha para a mamãe!

Samantha?

Houve uma pausa dramática nos meus pensamentos. Quem diabos é Samantha?

Meu cérebro analítico simplesmente travou. Não. Não, não, não. Mil vezes não.

A mulher sorriu para mim, com o rosto inclinado sobre o meu cesto. Seus olhos estavam inundados daquelas lágrimas emotivas que os humanos adoram produzir quando algo de grande magnitude acontece.

— Minha menininha... — ela sussurrou.

Meu coração parou. Ou melhor... ele começou. Porque agora eu possuía um órgão pulsante batendo dentro do peito, e a sensação era bizarra. Muito bizarra. Eu tinha me desacostumado àquela engrenagem barulhenta, desorganizada e emocionalmente instável. Batimentos cardíacos eram uma péssima invenção biológica, se queriam saber a minha opinião técnica.

— Ela é absolutamente perfeita.

Uma voz masculina se juntou ao coro logo em seguida. Meu pai. Quer dizer, meu novo pai. Pai número dois, para ser mais exata. Eu ainda não tinha formulado um parecer definitivo sobre como me sentia a respeito dele. Aparentemente, o universo havia decidido me empurrar uma nova árvore genealógica sem se dar ao trabalho de consultar minhas preferências. Típico.

Tentei me impulsionar para cima e sentar. Eu claramente precisava estabelecer uma linha de comunicação com aquelas pessoas e esclarecer alguns pontos cruciais. Questões perfeitamente normais e urgentes, tais como: “Olá, sou uma ex-fantasma reencarnada por meio de uma brecha burocrática.” “Gostaria de abrir um protocolo de reclamação formal a respeito do nome que ouvi.” “Precisamos traçar uma rota para encontrar um vampiro topetudo.”

Infelizmente, meu novo hardware tinha limitações severas. O resultado de todo o meu esforço oratório reduziu-se a:

— UAAAAAAA!

Um berro. Um choro agudo, estridente e monumentalmente humilhante. Interrompi o som na hora, chocada comigo mesma. Eu acabei de chorar?

— Ela está chorando!

— Está tudo bem, querida, a mamãe está aqui.

— Acho que ela está com fome.

— Ou com frio.

— Talvez assustada.

Ou profundamente ultrajada com a escolha fonética do nome, mas ninguém na porra daquela sala considerou essa hipótese perfeitamente plausível. Amadores.

Foi quando uma terceira voz se manifestou no ambiente. Uma enfermeira.

— Já decidiram como ela vai se chamar?

Meu coração recém-adquirido despencou direto para o estômago. Eu lembrava daquela deixa. Sabia exatamente para onde aquela maldita conversa estava caminhando.

A mulher sorriu radiante, dando início ao meu mais novo pesadelo na Terra.

— Sim — ela confirmou.

Não.

— Nós já escolhemos.

Por favor, tenha misericórdia.

— Samantha.

O silêncio que se instalou na minha mente foi absoluto. Uma calmaria que durou um microssegundo antes de ser engolida por uma indignação brutal.

SAMANTHA?

De todos os nomes disponíveis no dicionário da língua inglesa? De todas as combinações de consoantes e vogais já arquitetadas pela civilização ocidental? Samantha? Eu tinha sido Bella. Um nome limpo, minimalista, clássico. Agora eu carregava um nome que parecia o de alguém que vende velas artesanais aromáticas e cristais energizados pela internet.

— É lindo — elogiou a enfermeira.

Uma mentira deslavada.

— Combinou perfeitamente com as feições dela.

Uma mentira ainda maior.

Meu novo pai alargou o sorriso, orgulhoso.

— Nós ficamos completamente apaixonados.

Alta traição.

Tentei protestar de verdade dessa vez. Abri a boca, organizei meus argumentos conceituais, estruturei minhas evidências empíricas e disparei. O que saiu foi:

— UAAAAAAAH!

Outro escândalo sonoro. Mais alto e descontrolado que o primeiro. Excelente. Uma retórica impecável, Samantha.

Meus novos progenitores imediatamente começaram a me embalar de um lado para o outro, num balanço rítmico irritante.

— Ela não gostou da claridade.

— Deve ser o vento da janela.

— Coitadinha da nossa pequena.

EU NÃO SOU COITADINHA!

— UAAAAAAAH!

Que droga. O sistema operacional desse corpo era tão rudimentar que qualquer tentativa de manifestar intelecto superior era filtrada e convertida em berreiro.

Então me rendi à minha nova realidade, permanecendo ali, rigidamente enrolada em mantas de algodão, sufocada pelo meu próprio orgulho ferido e oficialmente batizada de Samantha.

E o pior de tudo? Eu tinha a nítida, incômoda e persistente certeza de que a Vida e a Morte estavam assistindo àquela cena e rindo da minha cara em alguma dimensão paralela.

E quer saber? Pensando bem, eu também riria. Porque depois de sobreviver a um assassinato doméstico, passar sessenta anos flutuando como uma assombração entediada no jardim da Esme e enfrentar uma despedida de quebrar o coração... minha primeira grande batalha nessa nova era contra uma certidão de nascimento.

E eu já tinha começado perdendo de lavada.



Os primeiros três anos da minha nova jornada na Terra foram, sem sombra de dúvida, a experiência mais profundamente humilhante pela qual já passei.

Primeiro, porque eu ostentava a ingrata condição de ser um bebê. Segundo, porque ninguém com mais de um metro de altura me levava minimamente a sério. E terceiro, porque eu continuava me autodenominando Bella em meu foro íntimo, enquanto o restante da humanidade insistia em proferir aquele atentado nominal crônico chamado Samantha.

Eu tentei corrigir esse equívoco fonético diversas vezes. Infelizmente, a sociedade ocidental não costuma conferir muita credibilidade jurídica ou intelectual a indivíduos que ainda usam fraldas.

— Bel-la — forcei a articulação linguística aos oito meses de idade, encarando meus novos progenitores com toda a seriedade que meus olhos redondos conseguiam emanar.

— Meu Deus, ela falou "mamãe"! — a mulher comemorou, dando pulinhos.

— Não, com certeza foi "papai"! — o homem contestou, estufando o peito.

— Gente, acho que ela quis dizer "banana"! — a babá palpitou ao fundo.

Nenhum deles passou sequer perto do alvo. Foi naquele exato instante que cheguei à conclusão científica de que a barreira da comunicação humana era um obstáculo muito mais intransponível do que minhas memórias sugeriam.

A óbvia vantagem de reencarnar com o HD mental perfeitamente preservado era que reaprender as funções motoras e cognitivas pela segunda vez se resumia a um passeio no parque. A colossal desvantagem, contudo, era a necessidade exaustiva de fingir que aquele processo era um desafio hercúleo.

Aos dezoito meses, eu já dominava a leitura. O problema logístico era que eu não podia simplesmente confiscar o jornal matinal da mesa de centro e começar a escanear as notícias de economia. Isso levantaria perguntas. Perguntas complexas demais para um ser humano que mal alcançava a maçaneta da porta.

Então, arquitetei uma estratégia. Uma estratégia brilhante no papel, mas que naufragou de forma espetacular logo na primeira execução prática.

— Samantha?

Minha mãe entrou na sala de estar e me flagrou sentada no tapete felpudo. Diante de mim, repousava um livro infantil de capa dura. Aberto. De cabeça para baixo.

— O que você está fazendo, querida?

Num reflexo puramente defensivo, usei minhas mãozinhas de salsicha para girar o volume em cento e oitenta graus.

— Lendo — respondi, articulando com uma clareza impecável.

O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Ela piscou, estática. Eu pisquei de volta, praguejando mentalmente contra a minha própria falta de autocontrole. A mulher se ajoelhou, recolheu o livro e me encarou com uma mistura de choque e desconfiança.

— Você... sabe ler?

Foi aí que o alerta de pânico geral disparou no meu cérebro. Eu havia respondido como uma mulher adulta e sarcástica de dezenove anos, e não como uma criatura de um ano e meio cujo vocabulário esperado deveria se resumir a monossílabos babados.

— Uh... — mudei a frequência do meu sistema operacional em tempo recorde. Apontei um indicador gordinho para uma ilustração aleatória de uma criatura quadrúpede. — Au-au! Cachorro!

A expressão de desconfiança dela derreteu instantaneamente, sendo substituída por um orgulho materno quase palpável.

— Ah, ela reconheceu a figura! Que menina inteligente!

Crise internacional evitada. Por muito pouco.

Todavia, quando completei três anos, a situação saiu definitivamente dos trilhos da normalidade. Não por culpa minha. Bom, talvez uma parcela de culpa tenha sido minha, mas o universo não colaborava. Meus pais começaram a suspeitar seriamente de que eu era uma espécie de prodígio incompreendido; eu, por outro lado, comecei a suspeitar de que eles eram apenas assustadoramente lentos para processar a realidade. Era uma convivência complexa para todas as partes envolvidas.

— A Samantha montou um quebra-cabeça de duzentas peças sem olhar o gabarito.

— A Samantha decorou o alfabeto inteiro em uma tarde.

— A Samantha já sabe contar até cem, inclusive em ordem decrescente.

Eu também já tinha capacidade intelectual para preencher uma declaração detalhada de imposto de renda, mas achei pedagogicamente mais prudente ocultar essa informação do mundo.

Toda essa "excentricidade" culminou em uma tarde trágica, onde fui arrastada até o consultório de uma psicóloga infantil. Meus pais pareciam genuinamente aflitos à beira de um colapso nervoso.

— Ela faz perguntas... peculiares, doutora.

— Que tipo de perguntas? — a terapeuta indagou, ajeitando os óculos com interesse clínico.

Minha nova mãe trocou um olhar desconfortável com o marido antes de abrir um bloquinho de notas. Aquilo nunca era um bom presságio.

— Bem... na semana passada, enquanto assistíamos a um documentário sobre o Antigo Egito, ela quis saber exatamente quanto tempo leva para um corpo humano enterrado em solo úmido se decompor por completo.

Traição doméstica da pior espécie.

— E ontem à noite — meu pai endossou —, enquanto eu lia um conto de fadas, ela me interrompeu para perguntar se a estrutura celular de um vampiro envelhece ou permanece estática após a transformação.

Traição dupla com requintes de crueldade.

A psicóloga desviou os olhos do bloco e cravou sua mira óptica diretamente em mim. Eu sustentei o olhar, moldando em minhas feições o sorriso mais angelical, inocente e intocado do meu repertório. O sorriso milimetricamente calculado de alguém que definitivamente não passara sessenta anos assombrando uma casa em Forks.

— E por que você tem interesse nessas coisas, Samantha? — a voz dela era mansa, quase profissional.

Pense rápido, Bella. Pense rápido.

— Só curiosidade — dei de ombros, forçando uma vozinha de criança inocente. — É uma dúvida puramente biológica, tá?

A terapeuta fez uma anotação rápida em sua ficha. Eu não precisava ler a mente dela como o Edward para saber o veredito escrito ali: "Criança bizarra com tendências obsessivas latentes". Justo. Bastante justo.

Apesar de todos esses pequenos atritos com o mundo exterior... eu era feliz. O que não deixava de ser uma constatação incômoda e bizarra.

Durante o período em que estive no limbo da praia cósmica, imaginei que minha segunda existência seria uma cópia carbono da primeira: uma missão obstinada, uma caçada cega, uma obsessão febril para rastrear os Cullen, cruzar os Estados Unidos e me lançar nos braços do Edward. Mas a vida — aquela força impertinente que comandava o universo — teve a audácia de ser vida de verdade.

Minha nova mãe preparava panquecas nas manhãs de sábado com formatos geométricos de animais. Meu novo pai me suspendia sobre os ombros para que eu pudesse alcançar as folhas mais altas das árvores. Havia idas rotineiras ao parque, sessões de desenhos animados nas tardes de chuva, festas de aniversário barulhentas, manhãs de Natal repletas de fitas coloridas. Dias comuns. Detalhes ínfimos. Coisas simples das quais eu sequer tinha consciência de quanta falta sentia... até o momento em que passei a desfrutá-las novamente.

No entanto, a essência do que eu era permanecia intocada pelas engrenagens do tempo.

Eu pensava em Edward. Todos os santos dias, sem uma única exceção cronológica. Pensava nele quando as tempestades desabavam lá fora, lavando as vidraças; pensava quando avistava a silhueta densa de uma floresta de pinheiros; pensava quando alguma melodia clássica de piano ecoava no rádio do carro; pensava, às vezes, por absoluto e completo capricho da memória.

Eu me pegava divagando sobre o paradeiro dele. Será que ele ainda residia na névoa perpétua de Forks? Será que ainda compunha músicas naquelas teclas de marfim? Será que o jardim da Esme continuava intocado, ou o tempo havia transformado nossa antiga colina em um borrão esquecido? E, acima de tudo... ele estava bem? Conseguira seguir em frente, como eu havia pedido antes de partir?

A mordaça imposta pela Vida e pela Morte continuava firme e implacável ao redor do meu pescoço. Eu estava proibida de verbalizar quem eu tinha sido. Não podia explicar a razão de um ser de três anos conhecer nomenclaturas, tragédias e cenários que jamais deveria ter acessado. Não tinha o direito de confessar que guardava uma saudade lancinante de um homem que, técnica e historicamente, eu nunca havia conhecido nesta vida.

Então, eu compactava o segredo. Guardava tudo em uma gaveta trancada, um universo inteiro de memórias clandestinas vivendo dentro do corpo frágil de uma criança pequena. O que, sob uma análise puramente lógica, justificava o porquê de todos ao meu redor me acharem deslocada da realidade.

Em uma noite tipicamente cinzenta e chuvosa, enquanto meus pais me aconchegavam sob as cobertas pesadas do meu quarto, minha mãe inclinou-se com um sorriso doce.

— Boa noite, Samantha. Dorme bem, meu anjo.

Fiz uma careta na mesma hora, torcendo o nariz com o meu mau humor de sempre. Ela soltou uma risadinha, dando um carinho no meu cabelo.

— Você não gosta mesmo do seu próprio nome, né?

— Não — respondi na lata.

— E posso saber por que tanta implicância?

Pensei por um segundo, escolhendo a desculpa. Resolvi mandar a real:

— Ele simplesmente não combina comigo. Não tem nada a ver comigo.

Ela me deu um beijo carinhoso na testa e puxou o cobertor até o meu queixo.

— Um dia você se acostuma, mocinha. O tempo resolve essas coisas.

Assim que ela saiu e a porta fechou com um estalo de leve, deixando o quarto no escuro, fiquei encarando o teto. Sozinha. Naquele silêncio total.

— Duvido muito — sussurrei para o nada.

Porque depois de passar por duas vidas diferentes, eu tinha aprendido uma regra básica: o universo pode até mudar o seu corpo, te dar uma família nova e carimbar outro nome nos seus papéis. Mas o seu jeito de verdade não muda por nada.

E eu continuava orgulhosa e teimosa demais para aceitar que o mundo me chamasse de Samantha.


Aos cinco anos de idade, a minha vida tinha se resumido a três grandes problemas de nível mundial.

O primeiro era aquele de sempre: as pessoas continuavam me chamando de Samantha. O segundo era pura falta de noção dos adultos da casa, que achavam que esconder a senha do Wi-Fi de uma criança prodígio era uma baita medida de segurança. E o terceiro, bem... o terceiro era que eu precisava achar um bando de vampiros imortais sumidos sem poder contar para ninguém o motivo da minha busca.

Sendo bem sincera, olhando com calma, os três pareciam ter o mesmo nível de dificuldade impossível.

A única coisa boa era que as minhas mãos estavam funcionando bem melhor. Uma vitória física que merecia ser comemorada. Vocês não têm noção do esgotamento mental que é tentar digitar quando seus dedos ainda parecem os de um bicho que acabou de descobrir para que servem os polegares.

Mas agora a engrenagem estava rodando. Eu digitava meio devagar, errando uma letra ou outra por causa do tamanho das teclas, mas funcionava. E, no meu dicionário, conseguir mexer nas coisas sozinha significava apenas uma coisa: pesquisa. Muita pesquisa na internet.

— O que você está fazendo aí no escuro, querida?

A voz da minha mãe veio lá da porta do escritório, me pegando no flagra. Num reflexo instintivo — daqueles que aperfeiçoei passando décadas espionando a vida dos outros pelas paredes —, puxei o mouse e fechei a janela do navegador num milissegundo.

— Nada — respondi, fazendo a maior cara de paisagem do mundo.

Ela escondeu os olhos, cruzando os braços com aquela desconfiança típica de mãe.

— Samantha.

— Estou fazendo uma pesquisa — corrigi, cedendo um pouquinho.

— Sobre o quê, exatamente?

Fiquei encarando o monitor vazio. Depois olhei para a cara dela. Voltei a olhar para a tela.

— Vampiros — mandei, sem piscar.

Rolou um silêncio no quarto. Minha mãe soltou um suspiro longo, passando a mão na testa com uma paciência que dava até pena.

— Claro. Com certeza — ela murmurou, dando meia-volta e saindo do cômodo.

Isso já estava virando rotina. Eu tinha descoberto uma regra de ouro na psicologia dos adultos: falar a verdade nua e crua, sem gaguejar, era o jeito mais fácil de fazer eles acharem que era só uma "fase de criança" e simplesmente te deixarem em paz.

O problema é que, se a minha mãe era previsível, a internet foi uma decepção total. Uma vergonha.

Eu gastei todos os nomes possíveis na barra de busca. “Carlisle Cullen” — zero resultados úteis. “Edward Cullen” — absolutamente nada além de um monte de gente com o mesmo nome espalhada pelo mundo. “Família Cullen” — só aparecia link de uma empresa de tecidos na Inglaterra. Inútil. “Vampiros vegetarianos” — uns sites bizarros que me mandavam para piadas ou dietas malucas de fóruns da internet. Mais inútil ainda. “Vampiro que toca piano” — um mar de postagens bobas e vídeos ruins. Só desperdício de internet.

Passei semanas mudando as palavras. Meses apagando o histórico do computador da família. E o resultado continuava zerado. Nenhuma menção em jornais antigos, nenhuma foto, nenhuma pista de verdade. Era quase como se predadores imortais super bonitos e cheios de dinheiro fossem... bem espertos na arte de não deixar rastros na internet. Inacreditável. Uma baita falta de consideração comigo.

Perdi uma tarde inteira de sábado porque cometi o erro de digitar: “Como encontrar vampiros desaparecidos”. O primeiro resultado era um site doido de teorias da conspiração sobre alienígenas no governo; o segundo era um blog de alguém que precisava de tratamento urgente; e o terceiro tentava me vender um kit de cristais contra mau-olhado.

Fechei o notebook com força, me sentindo ofendida com a falta de qualidade da tecnologia moderna.

— Você parece bem irritada, sabia?

Olhei para cima no susto. Meu pai número dois estava sentado na poltrona do canto, folheando uma revista de carros. Ele estava me cuidando. Ele tinha aquela mania perigosa de tentar ler minhas expressões.

— Não estou irritada — decretei, inflando as bochechas.

— Está sim.

Olhei torto para ele, mandando o meu olhar mais gelado.

— Você fala demais para um adulto.

Ele soltou uma risada alta, balançando a cabeça.

— Sabe, às vezes você fala e age igualzinho a uma velha rabugenta de oitenta anos presa num corpo de cinco.

Meu cérebro deu uma travada na hora. Limpei a garganta, sentindo um arrepio na espinha.

— Isso... foi uma comparação bem esquisita.

Ele só continuou rindo, sem nem imaginar o peso real do que tinha falado. Continuei desconfiada, mas mudei de assunto.

Naquela mesma madrugada, depois de garantir que o barulho de passos no andar de cima tinha parado e que os dois estavam dormindo profundamente, rastejei de volta para a cadeira do escritório. Lá fora, as gotinhas de chuva batiam no vidro num ritmo certinho.

Apoiei o queixo na mesa fria de madeira, olhando o cursor piscando na tela em branco. Pensativa. Tinha um erro gigante no meu plano. Um problemão que eu vinha fingindo que não existia nos últimos dois anos.

Vamos fingir que, por pura sorte, eu conseguisse achar os Cullen... o que eu ia fazer depois? Qual seria o meu próximo passo?

Eu estava presa pelo juramento. A regra imposta pela Vida e pela Morte lá na praia era bem clara e absoluta: eu podia lembrar de cada pedaço da minha história, mas estava proibida de contar.

Então, qual era o plano? Parar na calçada da casa dos Cullen, olhar para o Edward e falar: “Olá, sou uma criança de cinco anos com um interesse científico em vampiros e que por acaso está morrendo de saudade de você”? Péssima ideia. Uma desculpa super suspeita. O Edward ia desconfiar em três segundos e achar que tinha alguma coisa muito bizarra com o meu espírito.

Soltei um suspiro pesado, fechei a tampa do computador e me joguei para trás na cadeira.

— Toda essa busca seria bem mais fácil se vocês fossem ruins em esconder segredos — resmunguei para o escuro do quarto.

O universo não se deu ao trabalho de responder. Como sempre.

Mas, enquanto eu olhava as gotas de água escorrendo pela janela embaçada, me veio um estalo. Uma ideia começou a brotar na minha mente. Pequena, meio solta, mas que fazia todo o sentido do mundo.

Eu estava procurando do jeito errado. Estava caçando os Cullen como se eles fossem pessoas normais. Estava procurando gente, quando o certo era procurar padrões.

Afinal de contas... famílias humanas somem com o tempo. Elas mudam de cidade, mudam os documentos, se separam, envelhecem e morrem. Mas predadores imortais? Vampiros vivem num ciclo. Eles fazem as mesmas coisas de tempos em tempos porque estão presos na própria eternidade. Eles continuam existindo, fingindo e reaparecendo nos mesmos lugares quando a poeira das gerações humanas baixa.

E se tinha uma coisa que eu tinha aprendido sobre o clã do Carlisle Cullen espiando a vida deles como fantasma... era que, não importava o tempo ou a distância, eles sempre, uma hora ou outra, davam um jeito de voltar para Forks.

Um sorriso lento e bem focado começou a aparecer no meu rosto.

— Certo — sussurrei para o escuro do escritório.

A investigação para recuperar o meu passado estava oficialmente aberta de novo. E a grande diferença dessa vez é que agora eu tinha internet de alta velocidade.

Mas tinha um detalhe desse tamanho, um probleminha de nada na física do universo, que mudava totalmente a minha vida:

Eu não morava em Forks. Eu morava em Chicago.

Chicago, Illinois. Aquele monte de prédio e trânsito do Meio-Oeste. Quase três mil quilômetros de distância, de carro ou de avião, dos vampiros que eu estava tentando achar de qualquer jeito. Lindo. Maravilhoso. O universo com certeza continuava se divertindo às minhas custas.

— Posso saber por que você está hipnotizada por um mapa de estradas, Sam?

A voz do meu pai número dois veio de trás do sofá numa tarde de domingo. Eu quase caí da cadeira. Quase. Porque no meu corpo atual de cinco anos, minha capacidade de disfarçar que fiz arte era bem pior do que na minha vida passada. Minhas bochechas me entregavam na hora.

— Geografia — respondi, tentando manter a cara séria.

— Geografia.

— Sim.

— Você está encarando o mapa do estado de Washington faz uns vinte minutos.

Que homem reparador, que saco.

— Geografia específica — emendei, sem tirar os olhos do papel.

Ele ficou me olhando com aquela cara que os adultos fazem quando não entendem nada. Olhei de volta com a maior cara de paisagem do mundo. Ele me mediu, eu medi ele de volta. Ele olhou para o mapa, eu pisquei, fingindo tédio.

— Tá bom — ele finalmente suspirou, jogando as mãos para o alto. — Resolvi que não vou perguntar.

— Uma ótima escolha, pai.

— Isso foi uma ameaça discreta?

— Isso foi só um sinal da minha maturidade.

— Você tem cinco anos, Samantha.

— Tecnicamente — dei de ombros.

Meu pai soltou mais um daqueles suspiros cansados e saiu da sala. Mais uma vitória para a lista de "Adultos que desistiram de entender a Samantha".

Chicago era gigante. Barulhenta, cinza, cheia de trânsito, um formigueiro de gente debaixo do vento frio do lago. E, o pior de tudo, Chicago era um lugar totalmente inútil para achar uma família de sete vampiros escondida na costa do Pacífico.

Passei os meses seguintes melhorando minha rotina secreta. Olhava arquivos da prefeitura na internet, procurava certidões de óbito antigas, olhava colunas sociais de jornais de cidades pequenas. Nada. Absolutamente nada. Os Cullen sabiam mesmo como sumir do mapa digital. O que não deixava de ser uma ironia irritante; afinal, eu tinha sido um fantasma de verdade por sessenta anos e sabia reconhecer um trabalho bem feito.

O mais difícil de aguentar, na real, era o tempo. Eu não sabia quanto tempo tinha passado para eles. Na minha cabeça, tudo ainda parecia ontem: o cheiro de chuva no quintal da Esme, o toque gelado daquela pele de mármore, as últimas palavras do Edward no banco de madeira.

Mas para ele? Vai ver décadas já tinham se passado no mundo real. Talvez ele estivesse morando em outro país, fazendo outra rotina. Talvez... ele tivesse seguido em frente.

Só de pensar nisso dava um aperto esquisito e ruim no peito. Uma hipocrisia da minha parte, confesso. Eu tinha sido a pessoa que, com toda a teimosia de dezenove anos, mandou ele viver. Mas uma coisa é dar ordens bonitas à beira do além; outra bem diferente é aguentar as consequências na vida real.

Numa noite de chuva, enquanto meus pais se alienavam na frente da TV, deitei no tapete da sala com o notebook da casa — que eu basicamente confisquei por tempo indeterminado para fins de investigação particular. Meus dedos mexiam rápido no teclado, tentando mais uma busca que daria em nada.

Zero resultados. Mudei as palavras. Nada. Tentei de novo. Tela branca.

Fechei o computador com um estalo, ofendida na minha capacidade de detetive.

— Que foi agora, Sam? — minha mãe perguntou, sem tirar os olhos do programa de auditório.

— A internet mundial é de uma incompetência sem tamanho — decretei, cruzando os braços.

— Sei bem como é, querida.

— Uma falta de qualidade irritante.

— Entendo perfeitamente.

Ela claramente não estava prestando atenção em um pingo do que eu falava, mas eu aceitava a gentileza.

Foi só umas semanas depois que o estalo de verdade aconteceu. Uma ideia tão óbvia, tão na minha cara, que me deu raiva por não ter pensado nisso nos dois anos anteriores.

Eu estava lendo sem muito interesse um artigo sobre dados de cidades e mudanças de estudantes nos Estados Unidos quando a peça se encaixou no lugar certo.

Os Cullen não eram pessoas comuns que davam para rastrear por CPF ou registros normais. Eles eram um padrão que se repetia. Um grupo fixo de sete pessoas que faziam sempre as mesmas coisas: não envelheciam; mudavam juntos de tempos em tempos; escondiam o dinheiro em empresas; e, acima de tudo, tinham uma rotina social bem rígida.

Eles frequentavam a escola.

Porque o Carlisle podia ser um gênio imortal da medicina, mas era um gênio com hábitos super repetitivos. A necessidade de fingir que eram humanos normais para o "bando de adolescentes" da família obrigava eles a repetirem o ciclo de matrículas escolares para sempre.

Meus olhos se arregalaram olhando para a tela.

— Seu filho da mãe certinho... — murmurei entre os dentes.

Minha mãe deu um pulo no sofá, quase derrubando o chá no tapete.

— Samantha! Que modos são esses?

— Desculpa — limpei a garganta rápido, fazendo voz de criança. — Foi um deslize.

— Não repita isso nunca mais, mocinha. Entendido?

— Perfeitamente.

Esperei dar os três segundos de silêncio obrigatórios antes de sussurrar para a tela:

— Filho da...

— SAMANTHA!

Naquela mesma madrugada, deitada embaixo das cobertas no meu quarto em Chicago, fiquei olhando para as sombras no teto. Minha mente trabalhava a mil por hora, ligando os pontos, organizando os dados. Pela primeira vez em anos, eu não estava só tateando no escuro; eu tinha uma direção real.

Eu não precisava caçar os Cullen direto pelas buscas normais da internet. Eu precisava caçar as pistas que eles eram obrigados a deixar para trás em papéis de escola. Mudanças de alunos deixam histórico. Transferências de médicos deixam registros. Matricular alunos com a mesma idade e com uma beleza "fora do normal" em escolas de cidades isoladas cria um erro nos dados. E os vampiros, por mais cuidadosos que fossem... viviam há tempo demais no mundo cheio de burocracia dos humanos para nunca terem cometido um errinho de papelada.

Um sorriso lento e bem afiado apareceu no meu rosto de criança.

— Muito bem, Edward — pensei, ouvindo o barulho da chuva de Chicago na janela.

Eu podia estar presa a milhares de quilômetros de distância. Podia estar no corpo limitado de uma menina de cinco anos chamada Samantha. Podia estar temporariamente trancada no Meio-Oeste. Mas eu jogava com uma vantagem absurda: eu conhecia cada peça desse jogo imortal.

E os Cullen não faziam a menor ideia de que a teimosa Bella Swan — ou, como dizem as más línguas, Samantha Beneth — estava abrindo a temporada de caça de novo.

O jogo tinha começado oficialmente. E, sendo sincera? Se tinha uma coisa que a morte não tinha conseguido tirar de mim, era a minha total teimosia em não desistir.

Notas finais
Belinha voltou! Como será que ela vai encontrar os Cullens?