Como Ser Um Fantasma (Sem Querer)
22 Capítulo 22
Eu tinha um plano. Um plano excelente, perfeito, sem defeitos. Um plano super bem bolado que envolvia anos de pesquisa, espionagem de sites de escolas e análises de mudança de cidades para, no momento certo, cravar o endereço exato de uma família bem específica de vampiros vegetarianos e cheios de drama.
Era um plano sério, difícil, digno de mestre da espionagem.
O universo olhou para o meu caderno cheio de estratégias, deu uma risadinha debochada e falou: "Muito bonito. Agora toma aqui um bebê."
— Samantha, nós temos uma grande notícia para te dar!
Meus pais entraram na cozinha com dois sorrisos idênticos e gigantescos. Os dois ao mesmo tempo. No meu dicionário, isso nunca, de jeito nenhum, era um bom sinal. Abaixei a colher e olhei para eles por cima da minha tigela de cereal, encarando os dois com a maior desconfiança do mundo.
— Alguém morreu?
O silêncio que tomou conta da cozinha deu até para cortar com a faca. Minha mãe travou no meio do caminho, quase deixando a xícara de café cair da mão. Meu pai piscou três vezes, sem entender nada.
— O... o quê? — ele gaguejou. — Por que essa seria a sua primeira pergunta, Samantha?
— Pura lógica — dei de ombros, mastigando o cereal. — Pessoas sorrindo desse jeito logo cedo geralmente estão tentando disfarçar uma falência ou que alguém faleceu.
— Samantha — minha mãe me deu aquela bronca de sempre.
— Tá bom. Podem falar.
Meu pai limpou a garganta, tentando voltar ao normal.
— Não, ninguém morreu.
— Então vocês compraram um cachorro?
— Também não.
— Uma tartaruga exótica?
— Não.
— Uma capivara de estimação?
— Por que diabos a gente compraria uma capivara, Sam?
— Sei lá, as modas da internet mudam rápido. Podem continuar com o mistério.
Os dois trocaram aquele olhar clássico. O olhar que os adultos fazem quando estão prestes a soltar uma bomba que vai mudar a vida de todo mundo para sempre.
— Você vai ganhar um irmãozinho, querida!
O tempo parou na cozinha. Minha colher ficou travada no meio do caminho até a boca. Meu cérebro simplesmente desligou da tomada. Tentou ligar de novo em modo de segurança, deu tela azul e apagou de vez.
— Um... o quê?
— Um irmãozinho. Um bebê de verdade.
Fiquei encarando a minha mãe. Olhei para o meu pai. Voltei a olhar para a minha mãe, cerrando os olhos.
— Vocês... fizeram um bebê? — perguntei, direta até demais.
Meu pai caiu na risada na hora, tapando o rosto com a mão. Minha mãe, por outro lado, ficou vermelha igual a um pimentão de tanta vergonha.
— Samantha! Pelo amor de Deus!
— Só estou checando os fatos — me defendi, sem perder a pose.
— Sim — meu pai engoliu o riso, abraçando ela de lado. — Nós fizemos um bebê.
Fiquei quieta no meu canto, digerindo a informação. Porque aquela novidade mudava totalmente o meu jogo. Muitas coisas mudavam. Principalmente porque eu tinha zero experiência no cargo de irmã mais velha.
Na minha primeira vida, eu fui filha única. Na minha longa e chata vida de fantasma na casa de Forks, continuei sendo uma assombração filha única. E na vida atual... bem, agora o universo tinha decidido que eu ia ter que dividir as coisas e o espaço com um ser humano em miniatura.
Os meses seguintes foram bem esquisitos. Minha mãe vivia morta de cansaço pela casa; meu pai exalava puro nervosismo; a mesa da sala foi soterrada por manuais de gravidez e pediatria. Foi aí que percebi uma coisa: os adultos ficam incrivelmente bobos e fáceis de manipular quando tem um bebê vindo por aí.
— Você vai amar o seu irmão, Sam. Vai ver só — minha mãe cantarolava, alisando o barrigão.
— Ele ainda é só uma ideia que nem nasceu — comentei, sem tirar os olhos do livro.
— Mas vai nascer. E o amor vem na hora.
— Como você pode ter tanta certeza científica disso?
— Porque vocês são da mesma família, meu anjo. É coisa da biologia.
Pensei seriamente em mandar uma resposta super inteligente sobre livre-arbítrio e escolhas, mas, sendo sincera? Parecia dar trabalho demais para uma criança de seis anos. Deixei quieto.
Até que o ser vivo finalmente nasceu. E a paz da casa acabou.
Não por causa de drama, veja bem. Foi um problema de barulho mesmo. Porque bebê chora. E chora muito. Um berreiro estridente e sem fim que parecia feito para testar a resistência das paredes. Eu tinha apagado totalmente essa informação da minha mente, provavelmente como um disfarce do meu próprio cérebro para eu não enlouquecer antes da hora.
No dia em que meus pais chegaram do hospital, eu estava prontíssima. Blindada, madura, responsável. A própria definição de uma irmã mais velha perfeita.
Meu pai, todo orgulhoso, colocou aquele pacote embrulhado num cueiro azul nos meus braços de criança.
E eu... travei.
Porque o bicho era... minúsculo. Ridiculamente pequeno. Menor do que eu lembrava que um ser humano conseguia ser.
O pacote abriu dois risquinhos pretos que eram os olhos. Piscou, tentando enxergar alguma coisa. Olhou bem para mim e, do nada, abriu o bocão e soltou o maior berreiro do mundo.
— Lindo — murmurei entre os dentes, durinha na cadeira. — Mal chegou ao mundo e já pegou ranço de mim de graça.
— Ele não te odeia, Sam — minha mãe riu, exausta, deitando no sofá.
— Você não tem provas reais para confirmar essa teoria — respondi.
O nome veio logo depois na certidão: Ethan. Finalmente um nome normal. Um nome de gente, fácil de falar e sem nenhuma chance de piada com vela perfumada ou cristal místico de internet. Bem diferente de "Samantha". Eu ainda tinha uma baita raiva do meu próprio nome, mas tive que engolir o orgulho.
E a verdade? A verdade chata era que o Ethan começou a tomar conta da minha rotina num ritmo assustador.
Primeiro, porque os olhos dele começaram a me seguir pelo quarto feito um girassol. Depois, porque ele dava um sorriso banguela gigante toda vez que eu aparecia na frente dele. E por último — o que foi um vacilo enorme da minha parte —, descobri que o meu tom de voz sem paciência e debochado tinha o superpoder de fazer ele parar de chorar muito mais rápido do que as dancinhas desesperadas dos meus pais.
O que virou um desastre para a minha vida mansa, já que eles começaram a me pedir ajuda toda hora.
— Samantha, segura o Ethan aqui um minutinho enquanto eu faço a mamadeira?
— Samantha, olha o Ethan só um segundo para eu ir ao banheiro?
— Samantha, você podia...
— Eu só tenho seis anos! — protestei uma tarde, jogando as mãos para o alto. — Cadê as leis contra o trabalho infantil nesta casa?
— Mas você leva tanto jeito com ele, querida — meu pai elogiou, correndo para a cozinha.
Que ódio. Um argumento muito bom para eu conseguir rebater.
Numa madrugada específica, enquanto a chuva de Chicago caía na janela e o Ethan dormia no berço do lado da minha cama, cheguei perto e fiquei olhando para ele. Pequenininho, super calmo. Um serzinho que não sabia nada sobre as regras idiotas e irônicas do universo. Sorte a dele.
Ele soltou um suspiro, mexeu os dedinhos da mão e continuou dormindo.
E foi ali, no escurinho do quarto, que me veio uma ideia incômoda pela primeira vez desde que morri na praia. Vai ver... vai ver a minha nova vida não era só um castigo ou um tempo de espera chato até eu conseguir achar o Edward de novo.
Talvez eu estivesse, mesmo sem querer admitir, construindo uma vida de verdade. Uma vida real, com pais que gostavam de mim, festas de aniversário com bolo decorado e um irmão mais novo pentelho que, daqui a uns anos, com certeza ia tentar mexer nas minhas anotações secretas e nos meus notebooks.
Essa ideia não apagava o que eu vivi em Forks. Não tirava a saudade imensa que eu sentia daquela pele de mármore. Mas também não era uma traição ao Edward. Era só... a vida. O tempo correndo e se impondo por cima das lembranças.
O problema era que esse pensamento era maduro e bonito demais para o meu gosto. Resolvi ignorar na mesma hora. Até porque eu só tinha seis anos.
E também porque o Ethan resolveu acordar. Chorando. Com toda a força do pulmão novo dele. De novo.
— Bem-vindo à família, garoto — suspirei, chegando perto do berço para pegar ele no colo.
O pequeno Ethan agradeceu o carinho da irmã mais velha golfando um jato de leite quentinho direto na gola da minha camisa limpa.
O universo continuava com o seu senso de humor idiota perfeitamente intacto. Tem coisas que nunca mudam.
Descobri rapidinho que ter irmão mais novo é uma propaganda enganosa. Os adultos vendem a ideia super bem, como se você fosse ganhar um parceiro de aventuras, um aliado estratégico para aprontar e um cúmplice.
A realidade, porém, era totalmente diferente. Na prática, eu ganhei um mini humano que babava em tudo o que via pela frente, chorava sem motivo e tinha o dom de começar o show exatamente na hora em que eu precisava de silêncio total.
Principalmente nas horas em que eu estava espionando a internet atrás de pistas.
— Não — falei séria, sem tirar os olhos da tela.
Ethan sorriu para mim. Aquele sorriso banguela e fofo que os bebês usam para enganar a gente.
— Não — repeti, pausadamente.
Ele continuou sorrindo, nem aí para mim.
— Ethan.
O sorriso dele aumentou mais ainda. Olhei para o notebook, olhei para o Ethan, olhei para o teclado. O pequeno criminoso estava segurando o fio do carregador com as mãozinhas gordas. Eu tinha anos de experiência de vida para saber exatamente o que ia acontecer.
— Não puxa o...
Ele puxou. Com toda a força dos bracinhos dele.
A tela apagou na hora. A luz da bateria sumiu. O quarto ficou num silêncio só. Fiquei ali parada, encarando a tela preta, respirando fundo e tentando me controlar para não cometer uma loucura em família.
— Samantha? — a voz da minha mãe veio lá da cozinha.
— Oi? — respondi, tentando parecer fofa.
— Está tudo bem aí? O Ethan está quieto demais.
Olhei para o pequeno bandido deitado no tapete. Olhando a burrada que fez, ele simplesmente soltou uma gargalhada super gostosa. Uma risada alta, livre, como se ver o meu computador dar pane fosse a coisa mais divertida do planeta.
— Está ótimo! — gritei para o corredor.
— Tem certeza, Sam?
— Certeza absoluta que não — resmunguei para as paredes.
Apesar dos testes diários com a minha paciência, o Ethan crescia super rápido. Até rápido demais para a biologia. Num piscar de olhos, ele deixou de ser um pacote de cobertores e virou um bicho de duas pernas que corria feito louco pela casa, batendo em tudo o que via pela frente. Inclusive em mim. Principalmente em mim.
— Sam! — ele gritou, grudando na minha perna no corredor.
Fiz uma cara de poucos amigos.
— Já falei para não encurtar o meu nome feio. Não me chama assim.
— Sam!
— Não.
— Sam!
— Ethan.
— Sam!
— Ethan.
— Sam!
Joguei a cabeça para trás, olhando para o teto com a maior cara de tédio do mundo.
— Agora eu entendo por que alguns bichos comem os próprios filhotes.
Minha mãe apareceu na porta bem nessa hora, com uma cara super brava.
— Samantha! Que conversa é essa?
— É brincadeira.
— Espero que seja mesmo.
— Cinquenta por cento de certeza.
— SAMANTHA!
Mas o Ethan tinha uma mania bem curiosa. Ele era doido para ouvir histórias antes de dormir. Mas não queria contos de fadas normais, histórias de bichinhos ou livrinhos de criança. Ele queria temas bem específicos. Quando fez três anos, começou a me intimar todo dia para "inventar" histórias na beira da cama dele.
O problemão era que eu não tinha criatividade nenhuma para inventar historinha de criança. Então eu simplesmente contava o meu passado.
— E o que aconteceu depois, Sam? — Ethan perguntou, com os olhinhos bem abertos me olhando, enfiado embaixo das cobertas.
Pensei um pouco, organizando as memórias na cabeça.
— Depois... o castelo forte foi cercado e atacado por um bando de vampiros.
— Vampiros de novo? — ele perguntou, achando o máximo.
— Eles são ótimos personagens para a história, Ethan. Aceita e pronto.
— E eles eram monstros maus?
Eu travei. Por um segundo, meu peito deu um nó. Minha mente voou direto de volta para a neblina de Forks. Lembrei do carinho de médico do Carlisle; das dancinhas da Alice; das risadas e das brigas do Emmett; do piano... do Edward.
— Não — respondi, com a voz ficando mais mansa sem eu querer. — Eles não eram maus.
— Então por que eles atacaram o castelo?
— Porque o Emmett achou que seria uma ótima piada para passar o tédio da semana.
— Quem é Emmett? — o menino perguntou, curioso.
Meu coração de mentira deu um baque de verdade dessa vez. Uma pancada no peito de uma criança de oito anos. Senti aquela regra invisível da Vida e da Morte apertar a minha garganta, me lembrando do trato que fiz.
— Ninguém — limpei a garganta, fingindo costume. — Um personagem qualquer.
— Mas se ele é ninguém, por que você sabe o nome dele de cabeça?
— Porque... — Droga, Samantha, para de falar o que não deve. — Porque eu sou uma escritora genial e inventei o nome juntando letras na minha cabeça.
Ethan piscou, pensou na desculpa e acreditou. Criança pequena é incrivelmente fácil de enganar com o papo certo.
O tempo continuou passando nos papéis. E eu continuava procurando. Sempre procurando, mesmo que ninguém percebesse. Mesmo com a rotina cheia de dever de casa da escola, festas de aniversário barulhentas, brincadeiras com crianças da minha idade e coisas de família. Eu nunca desisti.
Um pedaço de mim estava sempre alerta. Eu olhava cada foto de floresta escura em Washington; procurava notícias de cidades sumidas no Alasca ou perto do mar; caçava qualquer sobrenome estranho em jornais antigos na internet. Esperando. Só esperando uma brecha.
E aí... a brecha apareceu.
Eu tinha nove anos. Era uma noite super normal de outono em Chicago. A chuva batia na janela do meu quarto naquele ritmo de sempre; o Ethan dormia profundamente na cama do lado; meus pais estavam hipnotizados com o barulho da TV na sala. Eu mexia no notebook super rápido, olhando fóruns e arquivos velhos de escolas de segundo grau. A mesma rotina de buscas que nunca dava em nada.
Até que uma foto apareceu na tela.
Era uma foto pequena, com a qualidade bem ruim, perdida num artigo super chato sobre um campeonato de corrida de uma escola numa cidadezinha no interior do Oregon. O texto nem falava dos alunos; só mostrava a pista de corrida do lugar.
Mas, lá no fundo da imagem... bem escondida na sombra das árvores perto da arquibancada de madeira, tinha uma pessoa. Quase invisível para quem não estivesse procurando.
O ar sumiu dos meus pulmões. Meu coração novo deu uma parada completa por um segundo inteiro.
Eu conhecia aquele corpo. Mesmo com a foto toda borrada e ruim. Mesmo de longe. Mesmo anos depois de ter visto pela última vez. Mesmo parecendo um milagre impossível na tela do computador.
Aquele jeito elegante de andar que parecia uma fada. O cabelo curtinho, todo desfiado para tudo quanto é lado. O formato do queixo e o comecinho daquele sorriso misterioso que nunca mudava com o tempo.
Alice.
Levantei da cadeira num pulo tão forte que a cadeira de madeira tombou para trás, fazendo um barulhão no chão.
— Samantha? Está tudo bem aí em cima? — meu pai gritou lá da sala, assustado.
Eu nem ouvi o chamado. Minha mente tinha saído de Chicago. Eu estava totalmente hipnotizada por aqueles pontinhos acesos na tela do computador. Minhas mãos de criança começaram a tremer de verdade; meu coração disparou de um jeito doido.
Porque depois de anos tateando no escuro da internet, eu finalmente tinha uma prova real. Uma pista de verdade, palpável. Algo que não era invenção da minha cabeça ou da minha saudade.
Estiquei os dedos trêmulos e toquei na tela de vidro do monitor, bem em cima do rosto borrado da Alice na foto, como se o toque pudesse fazer a imagem ficar mais nítida. Como se pudesse trazer ela para perto.
E, pela primeira vez desde que nasci de novo naquele hospital humilhante, eu sorri. Um sorriso enorme, de verdade, elétrico de tanta esperança.
Os Cullen existiam mesmo nessa linha do tempo. Eles continuavam andando pelo mundo. E agora eu sabia de uma coisa valiosa: eu não estava caçando fantasmas de um passado morto. Eles também estavam vivendo o presente.
E isso significava que diminuir a distância entre a gente e achar o Edward era, a partir daquele segundo, só uma questão de tempo e inteligência. O que era perfeito para mim. Afinal, a morte e o universo podiam ter me dado uma certidão de nascimento com o nome errado, mas tinham deixado intactas as minhas duas maiores armas: uma memória perfeita e uma quantidade absurdamente preocupante de teimosia.
O jogo estava valendo de novo. E eu estava oficialmente de volta.
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