Como Ser Algo Que Não Sou
3 Seção de Biscoitos
Notas iniciais
A princípio tive uma grande estranheza em receber aquilo assim, do nada. Intimação Judicial? Logo pra mim?
Depois de ler e saber do que se tratava me desabei a rir, aquilo não faria diferença sequer na minha vida. Prejudicar-me, muito menos.
E lá estávamos nós perdendo tempo com algo sem futuro. O que Gwen não esperava é de que eu era advogado, eu conheço a lei como ninguém e não teria provas suficientes para me declarar culpado, na verdade não tinha prova alguma.
Como já era de se esperar a audiência não deu em nada, mas nas palavras de Gwen, isso ainda não havia acabado. Acho que vamos nos ver muitas vezes ainda.
Cidade pequena, os dias vão e vêm e a gente se tromba uma hora ou outra, e ela sempre com a mesma picuinha de história. Até que em uma dessas trombadas tomei uma atitude.
Peguei-a pelo braço e empurrei-a na parede, encurralando-a de canto em pleno supermercado.
– Dá pra parar com isso?! Foi um acidente, ok? Fiz tudo o que estava ao meu alcance. Prestei socorro, te levei para o hospital, você não gastou um centavo se quer com a consulta. Você ainda está viva e é isso o que importa. Agora se você não foi com a minha cara, não posso fazer nada! O que mais você quer de mim?
– Me solta! – se desvencilhou.
– Mas no fundo, no fundo mesmo acho que eu não sou seu real motivo pra toda essa raiva, só apareci na hora errada – busquei ar até meus pulmões doerem — Você sabe onde me encontrar... – sussurrei inspirando.
– Você mal me conhece e acha que sabe alguma coisa da minha vida – vi-a sumir no extenso corredor da seção de biscoitos.
[...]
Ocupado como sempre estava a assinar minhas papeladas de processos, pedi para que minha secretária não permitisse a entrada de ninguém. Lana é uma boa secretária, séria quando tem que ser, e educada. Diferente de outras sua voz não me irrita, é macia. Nunca tive grandes problemas, uns de seus pontos baixos são que ela comete erros banais como deixar o telefone fora do gancho quando estou para receber uma ligação muito importante.
Assina. Assina. Assina. Assina. Assina. Assina... – respira — e assina – meu celular toca, paro, fecho os olhos e peço aos céus que não seja mais um problema pra eu resolver. Até parece que sou o Batman. Olho o visor do celular não identifico de quem seria o número, penso em não atender. Então suplico mais uma vez.
Ligação On
– Alô?
– Alô, aqui é a Gwen eu queria...
– Se desculpar talvez? – ri pelo nariz, sinto que ela revirou os olhos quando ouvi sua respiração expelir pela linha telefônica.
– Não mesmo! Nem sei por que liguei, achei que você seria útil, boba eu não?! Acreditar que você levaria alguma coisa a sério.
– Ok, ok. No que eu poderia te ajudar?
– Prefiro falar pessoalmente, tudo bem na quarta ás 14h?
– Você está ocupada? Se você quiser pode ser daqui uns quinze minutos. No café perto do supermercado – acho que esse lugar não deveria ser citado, mas já foi.
– Não, mas não vai dar tempo de eu chegar lá...
– É... Eu passo te pegar, só me passar o endereço... – acho que fiz cagada.
– Acho que é muita audácia a sua, mas não seria uma má ideia já que você me deve algumas – eu não devo nada, porém já chega de cutucar a onça com a vara curta por hoje.
– Prometo que dessa vez, vou prestar mais atenção e não vou te atropelar – ela riu, era a primeira vez que ouvi sua risada. Desde que nos conhecemos, se isso pode se chamar de conhecer alguém, nunca tivemos em alguma situação para ter a liberdade de rir.
– Vou ficar na calçada por precaução.
– Qual nome da rua? Pra eu anotar aqui – peguei um bloco de notas pertos dos livros em cima da mesa e uma caneta.
– Viagem ao Céu, 157. Nome engraçado não?! – riu abafado.
– Muito, até porque de anjo você não tem nada... Ok, parei.
– Até que você aprende rápido. Até daqui a pouco.
– Até!
Ligação Off
Ajeitei meus papeis de lado, peguei meu paletó que estava na guarda da cadeira, arrumei minha gravata... Chaves, celular, tudo ok. Passei pela porta do escritório.
– Já que o senhor terminou a papelada, posso pegá-las para conferir e arquivá-las? – eu sentia na firmeza de sua voz que ela trabalhava no lugar certo, digo, gosta do seu trabalho e o faz com prazer.
– Não, não. Eu ainda não as terminei.
– Vai sair?
– Afinal pessoas são mais importantes do que meros papeis, você não acha?
– Sim, senhor.
– Quantas vezes eu já te pedi pra não me chamar de senhor?! – disse num tom brincalhão – Já trabalhamos á muito tempo juntos, não precisa de tanta formalidade. Só quando recebermos clientes.
– Tudo bem, senh... Bryan!
– Melhor assim – sorri — Vou sair, se alguém ligar, diga que fui resolver assuntos pessoais.
[...]
Gwen me esperava em frente a sua casa, destravei as portas do carro e ela entrou. Na ida trocamos poucas palavras. Não é nada confortável estar no mesmo ambiente que uma pessoa que você mal conhece a poucos centímetros de distância, ainda mais quando você já a atropelou. Esse assunto sempre vai me fazer rir.
Chegamos, saí um tanto rápido do carro para pelo menos abrir a porta pra ela, não igual às outras mulheres que entraram nesse carro apenas por interesse, não por amor. Nesse caso nenhum dos dois motivos se encaixaria. Antes que eu pudesse chegar até a porta ela já estava saindo – sorri internamente agradecendo minha boa vontade sendo jogada no lixo.
Corri para puxar a cadeira, desta vez deu tempo, podem rir eu não ligo. Chamei o garçom, perguntei o que ela queria e fiz o pedido.
Ela sentou em minha frente, e pude notar o quão bonita ela era. Seus cabelos eram castanhos e lisos até seus ombros, o rosto era fino, suas sobrancelhas eram bastante expressivas deixando seu olhar negro realçado, fixando-os na cabeça de qualquer um. Seus dentes não eram perfeitos iguais a essas atrizes de novela, tinham uma leve abertura no meio, os tornando únicos em sua boca e pra finalizar uma pinta um pouco a baixo da maçã do rosto.
– Então eu preciso que você me ajude. Você me parece um bom advogado – tirou-me de meus devaneios.
...CONTINUA...
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