Como Ser Algo Que Não Sou
4 Será que está acontecendo?
Notas iniciais
– Se você diz...
– Vamos direto ao assunto – colocou sua bolsa em cima da mesa – Como pode saber meus pais estão fora da cidade. E infelizmente não é para tirar uns dias de férias. Estamos sendo despejados.
– O que está havendo? – coloco os cotovelos em cima da mesa e apoio meu queixo sobre meus polegares.
– Eu sei que parece algo bobo. Eles disseram que a casa é a única coisa que conquistaram juntos durante todos esses anos, e não deixariam ser tomada assim, dessa maneira.
– A casa pode guardar muitas recordações boas pra eles – como a minha pra mim.
– Mas eu sei que não é só isso. Não sou mais aquela garotinha que pegava insetos para domesticar. Eu cresci, eles não conseguem ver isso, ainda acham que têm que me privar das necessidades de casa – deu uma pausa para respirar — Eles não estão só chateados de estarem perdendo a casa, como também de não poderem deixar nada de herança pra mim e pra minha irmã.
A minha pergunta não tinha sido aquela, mas percebi que ela precisava contar isso pra alguém. E talvez esse alguém não devesse ser seu conhecido ou confidente, ela só queria contar pra alguém que não visse sua fraqueza como estou vendo agora, inconscientemente senti vontade de abraça-la e dizer que eu estava ali para o que der e vier, mas se eu fizesse isso agora quebraria o laço que ela estabeleceu sobre “nós”.
– Porque exatamente vocês estão sendo despejados? – o garçom chegou com os pedidos, assenti agradecendo.
– Na época eles estavam passando por momentos difíceis, eu e minha irmã também não fazíamos parte dos planos deles. Meu pai andava muito ocupado, assim como você – sem perceber ela se referia a mim não mais como antes, agora era de uma maneira diferente – Então minha mãe se encarregou de procurar a casa, e o corretor percebendo sua inocência e falta de conhecimento no assunto se aproveitou para trocar a papelada e ela assinar a casa no nome dele – ela tomou um gole rápido de seu cappuccino – Então? Você pode me ajudar?
– Vou fazer o possível para ganharmos essa causa! — dei uma golada do meu café forte. Queimei a língua, devo ter feito careta, pois ela riu da situação.
Ela me olhou e disse “obrigada” em silêncio, sua voz não saiu, mas pude ler seus lábios grossos. Bryan... Bryan! Não estrague tudo!
Terminamos nosso café sem mais delongas, ergui a mão com o dedo indicador levantado para pedir a conta, logo o garçom a trouxe. Gwen abriu sua bolsa, soube logo que ela iria querer pagar a conta.
– Por minha conta! – eu disse.
– Não grita comigo! Eu pago!
Discutimos durante uns dez minutos, quando finalmente entramos em um acordo, eu iria arcar com a conta, então percebi que o garçom ainda permanecia ali, em pé e ele havia assistido a toda essa algazarra.
Olhei pra Gwen e esta me olhou de volta, ambos olhamos para o garçom a cara dele era igual a um rato quando olha para o gato, assustado. Pronto! Motivo para rirmos sem parar.
Mesmo depois ter pagado, ainda ríamos.
No caminho de volta, senti um pouco mais de liberdade em falar certas coisas, ela estava abrindo brechas. Afinal Gwen não teria nada a perder, nossa boa relação só entraria positivamente para o bom andamento do futuro processo aberto.
Ela estava entregue, viva, assim como a peguei. Gwen deu duas batidinhas no vidro da janela do lado de fora do carro, eu o abaixei.
– Quanto é? – uma pessoa passou pela calçada.
– É serio que você vai querer assustar mais gente, vão achar que somos loucos! – demos uma breve risada.
– Não, não quis dizer sobre o café. Quanto tenho que pagar pelo seu serviço?
– Ah, isso! Não é nada – me recosto no banco do motorista.
– Você sabe que não vou deixar isso por isso – ajeitou sua bolsa que estava prestes a cair do ombro.
– Vamos fazer assim – desliguei o motor do carro e puxei o freio de mão – Você não me pagando nada quer dizer que estamos zerando a minha divida contigo e ganhando seu perdão.
– Vou pensar no seu caso... – fechou os olhos erguendo as sobrancelhas, sorrindo.
– Se mudar de ideia é só me ligar.
Quase me esqueci de voltar para o trabalho. Eu abriria aquele processo por conta própria e não interligado com a empresa. Que se danem eles esse problema é meu.
– Sem querer me intrometer, mas acho que você – deu ênfase em “você” para mostrar que estava acatando minhas ordens – resolveu o que tinha que resolver na rua. Está até com o semblante mais jovial.
Mulheres, sempre sabem demais e nesse momento até mais do eu mesmo. Entrei em minha sala, sentei em minha cadeira. Comecei a refletir no que Lana acabara de falar, e revi tudo desde o começo por etapas, prestando atenção nos mínimos detalhes.
O jeito que brincava com ela no dia do acidente. Quando eu fiquei nervoso por ela ter sumido do hospital sem me avisar. Como me preocupei se ela estava bem nos dias seguintes. O modo em como reparo em sua personalidade. E a maneira em que a notei hoje no café.
Ela por sua vez, não fez nada além de ser ela mesma. Diferente de tudo que já vi. Em sequer momento ela fingiu algo ou alguém que não seja de seu próprio espírito natural. É isso que tem me cativado.
Enfim, o quanto anseio em poder vê-la novamente.
...CONTINUA...
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