Como Ser Algo Que Não Sou
1 O que eu podia fazer?
Notas iniciais
Como eu a conheci?
Acho melhor começarmos do começo. Foi em um dia desses de verão, o expediente finalmente havia acabado, tirando a parte que ainda teria que concluir alguns projetos em casa. Eu esta exausto do longo dia, fui até meu carro, este estava estacionado do outro lado da rua, já que os caras “importantes”, quando digo importantes quero dizer os riquinhos que ainda mamam na tetinha da mamãe; estavam encrencados então o estacionamento estava lotado. Abri a porta, coloquei minha caixa de materiais no banco do passageiro, puxei o cinto, pronto pra voltar pra casa.
Liguei os motores fazendo a manobra devagar, quando olhei pelo retrovisor interno... Vi aquelas belas pernas bronzeadas, algumas curvas claramente existiam debaixo daquele vestido florido preto e branco. Logo armei um sorriso malicioso, tinha ganhado o dia, meus pensamentos foram além. Bom, eu era solteiro, não havia nem um mal em fazer aquilo, olhar não arranca pedaço, não é mesmo?!
Então a atropelei.
Aquele par de coxas me fascinaram tanto que nem me lembrei de olhar pra frente enquanto fazia a manobra.
Saí em disparada na tentativa de ajudar. Ela estava no chão tentando se levantar, meio zonza para conseguir tal façanha. Suas coisas estavam todas espalhadas em frente ao carro, algumas na calçada, em cima do capô e outras na rua; certamente ela estava voltando das compras.
As belas pernas passaram/desfilaram pela calçada, por um momento até esqueci que tinha atropelado alguém, e esta me lembrou apoiando em mim para se levantar.
Peguei-a no colo, tudo que ela sabia fazer era me bater e me bater, coloquei-a no banco de trás, para leva-la ao hospital. E voltei para recolher o que poderia se julgar, usável.
– Você não olha pra onde anda? Eu estou bem! E porque deixaria você me levar para o hospital se foi você quem me atropelou? – ela falava sem hesitar, decidi não retrucar qualquer palavra que dissesse — Deixe-me sair! – tranquei a porta, nunca se sabe.
O resto do diálogo gentil e amoroso não convenhamos saber. E adivinha? Tive que ficar o resto do dia com a ela naquele lugar cheirando a doente.
– Sr. Mckenzie? – um senhor de idade, melhor dizendo, experiente, trajando um jaleco branco com sua prancheta em mãos surgiu do longo corredor me despertando.
– Sou eu! Pois não – me levantei do banco de espera da recepção guardando meu celular no bolso interno do paletó, o cumprimentei.
– O Senhor teve sorte, nada grave aconteceu por aqui, só alguns arranhões e roxos. Mas... – e lá vem, pensei — por via das duvidas ela terá que ficar até o fim do dia sobre observações médicas.
– Obrigado por tudo, tenho uns trabalhos a fazer. Depois me liguem para resolver os custos.
– Acho melhor o Senhor ficar. Os parentes dela não estão na cidade, foram viajar. Preste mais atenção da próxima vez, companheiro.
– O que eu podia fazer? Eram belas pern... – ele me olhou confuso – Posso entrar? – pensei rápido.
– Terceira porta a direita, quarto 320 – ele me deu uns tapinhas nas costas incentivando minha decisão.
– Só mais uma coisa – me virei – Como ela se chama?
– Lessa... Gwen Lessa! – assenti agradecendo.
Dei duas batidinhas rápidas com o osso do dedo indicador, só para avisar que estava entrando. E lá estava ela, deitada na cama, com uma camisola verde com vários escritos, provavelmente era o nome do hospital.
– Eu deixei você entrar? – sentei-me na aconchegante poltrona ao lado da porta. Irritadinha ela não? Também, o que eu podia esperar depois de ter a atropelado, meiga que não seria.
– Ainda estou aqui! – tirei minha gravata que me incomodava.
Ela bufou e se virou de costas pra mim.
– Não estou a fim de ver sua bunda – ri pelo nariz analisando o lugar.
Todos quartos de hospitais são iguais, uma janela pra ventilar, a maca, poltrona, às vezes um sofazinho pros supostos visitantes que nesse caso eu sou o felizardo, botão de emergência, aposto que todo individuo já teve vontade de apertá-lo só pra ter o gostinho de importância em saber que alguém viria correndo ver o que você precisa.
– Só não olhar pra ela – acho que ela havia esquecido que existe uma abertura da camisola na bunda, e não. Ela usava calcinha!
– É vermelha... – em seguida cantarolei qualquer música que me veio à cabeça disfarçando o que acabara de falar.
– Seu imprestável de merda! Só não te bato por que... – me jogou o travesseiro.
Uma enfermeira adentrou o quarto interrompendo Gwen.
– Vim ver se precisam de algo, mas acho que não – esta nos olhou com um ar apimentado pensando coisas, que talvez não devesse.
– Não, não é nada disso! – Gwen tentava se explicar.
Eu somente ri, e deixei-a pensar o que quisesse, pois ainda estava com o travesseiro na mão. Como tinha corrido pra lá e pra cá alguns botões da minha camisa já estavam abertos, então todas as evidencias se tratavam daquilo que pensara.
– Eu não quero nada. Você quer alguma coisa meu bem?
– Cala boca!
– Ela é assim mesmo – cochichei para a enfermeira — Isso significa que não, obrigado – sorri de satisfação.
– Ok, podem... – ela desistiu de continuar a frase e fechou a porta com a expressão anterior.
– Seu idiota, metido a besta! – se virou novamente, só que desta vez puxando o lençol em seguida.
– Não tem de que.
Peguei meu celular e fiquei jogando todos os tipos de jogos que encontrei, alguns nem sabia que ali existiam.
– Já jogou Candy Chush? – ela nada respondeu, a música “envolvente” do jogo ecoava no quarto, pareciam àquelas bandas de restaurantes italianos refinados, tocando sem parar.
– Desliga esse caralho! – ela resmungava.
– “Delicious, hmmmmmmm” – o jogo disse, parecia que eu tinha feito de propósito, comecei a rir, ela bufou o mais alto que pode para me intimidar.
– Já te falaram que você tem jeito de velha ranzinza? – foi uma pergunta retórica, mas é claro que ela iria responder.
– Já te mandaram se foder?
– A todo minuto!
Ficamos nisso até eu enjoar do jogo e pegar no sono.
No dia seguinte acordei com meu celular tocando, estava atrasado para o trabalho. Droga!
Ela não estava lá, sua cama estava arrumada, pus-me a correr para a recepção. Droga, de novo.
– Você sabe se uma moça dessa altura – mostrei em gestos mais ou menos o tamanho dela — passou por aqui?
– Qual o quarto?
– 320 – ela digitou rapidamente em seu computador buscando respostas imediatas.
– Gwen Lessa? — sua voz era fina e estridente.
– Isso! Você sabe se ela foi embora? — eu estava inquieto, queria que a moça respondesse todas as perguntas dos meus pensamentos sem eu ter que dizer em voz alta.
– Ela passou por aqui uma meia hora atrás, senhor.
– Droga! – bati no balcão, a atendente me olhou assustada – Quanto ficou? — tentei soar o mais normal possível, mudando minha voz.
CONTINUA...
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