Como Matar um Vampiro e Sobreviver

2 Capítulo 1: O que eu ganho com isso?


Notas iniciais
Mais um capítulo, espero que gostem...

– Megan! O café esta servido! – minha mãe gritou do andar de baixo.

– Já vou! – respondi largando o livro que eu lia sobre vampiros sob a cama.

Não sou fã dessas coisas e só estou lendo por que a professora de misticismo mandou. Pra falar a verdade, eu acho que o governo esta desperdiçando dinheiro com essa aula e aquela biruta – não faço ideia se essa palavra existe, mas eu ouvi por aí e acho que serve perfeitamente na definição de “de que hospício você fugiu?”.

Levantei-me da cama e retirei os fones de ouvido e os guardei na minha mochila branca e cor-de-rosa – foi minha mãe que comprou.

Vesti minha jaqueta de moletom azul-claro, joguei minha mochila sobre o ombro e desci para tomar o café antes de ir para o que eu gosto de chamar inferno, mas que os outros insistem em chamar de escola.

Minha família e eu moramos em Crowsville – Vila dos Corvos. Crowsville é uma cidade no interior do estado do Maine. Esse fim de mundo não se encontra nem no mapa. É o tipo de cidade onde nos filmes e séries acontecem de tudo o que se espera de um programa sobrenatural. Com florestas e árvores coníferas e quase nunca sem poder ver a luz do sol por causa das nuvens, a cidade tem uma aparência cinza. O lugar perfeito pra vampiros viver, se eles existissem. Mas só tem uma única diferença das cidades dos filmes e séries, nesse fim de mundo não acontece nada. A maior festa desse lugar é o tal “Dia dos Fundadores” onde os cidadãos se juntam na praça central e comemoram com todo o tipo de comida, danças e barracas de jogos, o kit completo da cafonice.

Minha casa é modesta. Não somos ricos, mas temos uma ótima estabilidade financeira. Meu pai, Patrick, é gerente do banco desse projeto de cidade de filme de terror. Minha mãe é enfermeira do único hospital da cidade. Os dois são felizes juntos.

– Patrick, seu imbecil! – gritou minha mãe da cozinha. – Você se lembrou em ligar para a companhia de gás?

– Clarisse, amor... – disse meu pai se levantando da mesa e indo até minha mãe que fazia panquecas... bom, pelo menos era isso o que ela planejava, mas o gás acabou. – Não xingue na frente das crianças... – disse meu pai a enlaçando por trás. – No quarto sim, mas não na frente das crianças...

– Perdi o apetite... – murmurei soltando a torrada em meu prato.

– Eu também... – disse meu irmão mais novo, Michael, ou como gosta de ser chamado, Mike.

Meu irmão e eu puxamos os olhos de meu pai, verde, e o cabelo de minha mãe, preto e bom. Mike é apenas um ano mais novo que eu, ele tem 15 anos, mas já parte os corações das meninas por aí.

Minha mãe se virou para o meu pai com uma faca na mão, assim o assustando e o fazendo dar uns dois passos pra trás.

– Patrick, amor... – disse minha mãe com um sorriso nada doce. A mulher sabe como meter medo. – Que liberdade toda é essa? Ainda mais na frente das crianças?

– Mãe... – eu chamei confiante, mas por dentro quase borrando a calcinha. – Você não pode matar o papai, se não vamos chegar atrasados na escola... – eu disse me levantando. – Vamos Mike, pai...?

Minha mãe suspirou derrotada.

– Não se preocupe querida, quando você voltar do hospital o gás já estará funcionando. – disse meu pai se aproximando de minha mãe e tirando a faca da mão dela e dando um selinho. Seria a cena mais fofa do mundo, senão fosse tão nojento.

Mike apenas revirou os olhos. Seguimos ate a garagem e entramos na Mercedes preta de meu pai. Minha mãe tinha um Prisma vermelho.

Ao chegarmos à escola, nos despedimos de meu pai e Mike e eu nos separamos. Ele foi pra junto dos amigos esquisitos dele com cara de nerds e virgens – coisa que eu também sou – e eu fui pra dentro da escola. Não sou popular e nem nada do tipo, sou apenas uma aluna normal, sabe, tipo aqueles figurantes de filmes e series. Sou linda e nada modesta, mas prefiro ficar na minha já que não quero embuchar tão cedo, de preferencia somente depois dos trinta.

Não tenho amigos, tenho colegas. Converso normalmente com os outros. Não sou isolada, simplesmente não achei nenhuma pessoa que valha a pena morrer por ela. Quando eu penso em ter amigos, eu penso em uma amizade verdadeira onde eu possa contar meus segredos mais obscuros – não que eu tenha segredos obscuros – e que essa pessoa não me julgue, apenas fique ao meu lado pra o que der e vier. Acho que eu estou assistindo demais séries teens.

Fui ate o meu armário e o abri. Esqueci quais são as aulas de hoje. E também não sou nerd. Como eu disse, escola pra mim é o purgatório de todos os meus erros que eu não cometi... ainda.

– Meg... – ouvi meu irmão me chamar ao se aproximar de mim. Meu real nome é Megan, como vocês já sabem, mas prefiro ser chamado de Meg. Me virei e fechei o armário rapidamente. Eu sei que ele sabe que eu estou escondendo algo. Isso ficou estranho.

– Oi...? – respondi com um falso sorriso.

– O que tanto você esconde aí nesse armário? – Mike me perguntou estreitando os olhos.

– Nada... – respondi rápido. – Então... o que você quer?

– Sei... – ele me olhou desconfiado. Eu já disse que meu irmão é muito fofo quando faz essas caras e bocas? Me da uma vontade de apertar as bochechas dele. – Pode ir tirando essa cara de psicopata, já passou o tempo em que eu deixava você me abusar...

Coloquei a mão no coração.

– Nossa, dizendo desse jeito ate parece que eu sou uma dessas pervertidas... – me senti ofendida. – Não tenho culpa se você parece um filhote de Samoieda... tão fofo...

– Larga de ser perturbada menina... – ele me olhou como se eu tivesse duas cabeças.

O olhei com meu olhar mais frio do mundo, capaz de congelar ate o inferno. Vi ele se arrepiar e engolir seco.

– Er... então... – ele tentou se recompor. Respirou fundo. – Preciso da sua ajuda...

Ergui uma sobrancelha e o olhei com superioridade.

– E o que eu ganho com isso? – perguntei. Que foi? Uma garota precisa saber sobreviver nesse mundo, e explorar o irmão mais novo é uma das maneiras mais fáceis que existe.

Quando o sinal tocou indicando a hora do intervalo, ainda pensava no que meu irmão pediu. Caminhando pelo corredor rumo ao refeitório, não percebi ate ser tarde demais e esbarrar em alguém. Odeio isso, e odeio ainda mais quando eu caio de bunda no chão.

– Ai... – murmurei. – Não olha por onde anda não?

Como eu sou cara de pau.

– E você, é cega por acaso? – o infeliz teve a audácia de me responder.

Levantei-me e olhei o idiota que me derrubou. Olhos azuis, cabelo preto curto e rebelde, um pedaço de mau caminho. Lembrei-me dele, ele é o aluno novo que entrou hoje na escola, em uma plena quarta-feira, faltando três dias para as férias de dezembro. Ele se chama er... acho que o nome dele começa com um B... esqueci como ele se chama. Ah, tanto faz.

Eis um dos motivos de eu não gostar muito de ler, ainda mais romance, nessa hora, a protagonista perde a fala e falta babar pelo deus grego na sua frente. Se eu fosse babar por um homem, seria o Brad Pitt nos melhores anos da vida dele e de seus fãs. Que homem bonito é aquele... por esse sim eu babaria. Também babo por uma deliciosa barra de chocolate. Deu ate água na boca. Se me perguntarem o que eu prefiro, Brad Pitt ou chocolate acreditem ou não, mas eu fico inclinada a escolher o chocolate.

Teve uma vez, logo no meu primeiro ano do colégio, eu tive um encontro com Joe – que hoje é o cara mais popular da escola – e ele me levou ao cinema. O infeliz teve a audácia de pegar um dos meus chocolates. Acho que aquele foi o pior dia da vida dele, pois eu joguei o refrigerante nele e a pipoca logo em seguida e o fiz passar um vexame. Hoje em dia ele finge que não me conhece. E hoje em dia eu tenho uma fama de psicopata. Eu ainda mato o desgraçado que espalhou esse rumor.

Por alguma razão, eu acho que me esqueci de algo. Bom, se eu esqueci então não deve ser importante. Virei-me e caminhei rumo ao refeitório.

Como sempre, as mesas eram separadas por um tipo de aluno. Populares, nerds, drogados, gays, lésbicas, emos e tudo qualquer tipo de aluno. E é claro, tem a mesa para os alunos normais que vão pra escola pra estudar e tentar passar de ano, que no caso sou eu, mas eu só vou por que sou obrigada e por que eu prefiro passar de ano a ter que repetir o mesmo ano.

Entrei na fila e peguei uma bandeja. Olhei em volta e vi Mike sentado na mesa dos skatistas que não se drogam. É claro que tem outra mesa de skatistas que se drogam. Mike não é nem doido de se drogar, ainda mais sabendo que eu o mato lenta e dolorosamente e depois tem a louca da minha mãe que bota medo em qualquer um. Na mesa dos populares eu vi Joe, o astro do time de basquete, sentado ao lado da namorada e líder de torcida e rainha das periguetes, Kristin. Joe é um loiro de olhos azuis que vem pra escola, assim como todos do time, usando a jaqueta vermelha do time. Kristin é um projeto de Barbie que deu errado. Ela tem os olhos azuis e o cabelo loiro. Que surpresa.

– Então, é cega ou não? – ouvi alguém me perguntar próxima ao ouvido. Senti o hálito dele tocar minha pele.

– AH! – gritei dando um pulo e me virando com a mão no coração e encarei o causador do meu quase infarto. – Desgraça, quer me matar do coração? – olhei bem para o cara a minha frente. Ele me é familiar. Forcei minha memoria e finalmente a ficha caiu. – Era só o que me faltava, quanto mais eu rezo, mas assombração aparece. – respirei fundo e o encarei com cara de paisagem. – O que você quer?

Nem me importei por ter chamado a atenção de muitos pra mim.

– Desculpe... – ele disse segurando o riso.

– Por ter me derrubado no chão ou por ter quase me mandado mais cedo pro paraíso? – eu perguntei. Sim, se o céu e o inferno existem realmente, tenho certeza que eu vou para o céu, por que no inferno eu já estou e agora mesmo estou de cara com uma das almas perturbadas do lugar.

– Por... – ele começou a falar e ainda segurando mais ainda o riso, mas ao ver meu olhar de gelar o inferno, o sorriso sumiu dos lábios dele. – Pelos dois.

Já que eu sou uma pessoa de um coração tão bom...

– O que eu ganho com isso? – perguntei na maior cara de pau do mundo. Que foi? Se ele esta me pedindo algo, então eu tenho que ganhar algo em troca. Essa é a lei do valor equivalente, e é claro que isso só vale pra mim.

É impressão minha ou o deus grego na minha frente não sabe se ri ou fica abismado? É claro que eu não sou cega pra negar que o desgraçado é bonito, mas mesmo assim meu joelho esta coçando com uma vontade enorme de conhecer o amiguinho dele. Por alguma razão ele decidiu sorrir. Esse sorriso lindo e maravilhoso me irrita.

– A minha amizade...? – ele respondeu meio perguntando.

O fitei.

– Passo... – disse e me virei pra continuar a pegar o meu almoço. Será que hoje tem pudim de chocolate?

Olhei mais pra frente ignorando totalmente o ser logo atrás de mim, na verdade, me esqueci completamente dele ao pensar em pudim. Vi que ainda tinha três potinhos com pudim de chocolate.

Comecei a ficar impaciente, pois agora só faltam dois pudins, quero dizer, um. Não, por favor. Tinha apenas mais três pessoas a minha frente. Eu já tinha pego um sanduiche de peru com salame, um suco de laranja, uma pera – minha fruta preferida. Agora só faltava a sobremesa que tinha que ser o pudim. Sou capaz de ate... quase qualquer coisa por chocolate, ainda mais por pudim de chocolate. Chocolate é a minha fraqueza.

Por pouco eu não arranco minha língua fora com a mordia que eu dei para não gritar ao ver Sheyla pegar o ultimo pudim. Sheyla é a melhor amiga de Kristin. Se Kristin é a rainha das periguetes, Sheyla é a princesa. Todas as lideres vem pra escola usando o uniforme daquilo que eles chamam de time. Meu bem, ate eu que sou um desastre em dançar, sou melhor que elas.

Nossa, será que é pedir demais que ela escorregue e lance o pudim ao ar e por um milagre eu o pegue? E por consequência, ela esmague aquele nariz falso que ela tem? Não, acredito que não.

Senti meu corpo arrepiar. Foi como se alguém segurasse o riso direcionado a mim. Chacoalhei o corpo mandando essa sensação pra longe antes que eu vou presa por matar o ser que ousa rir da minha desgraça.

Paguei o meu almoço e me dirigi a primeira mesa desocupada que eu encontrei, que no caso foi a ultima que eu encontrei.

Sentei-me de costas para a fila do almoço e comecei a comer na mais pura paz que um refeitório de escola pode oferecer, ou seja, tive que aturar a risada as gazelas duas mesas atrás de mim. E quando eu digo gazelas, eu realmente quero dizer gazelas, mas são conhecidas por outras pessoas como Kristin e o resto das lideres de torcidas sentadas na mesa dos populares.

Olhei por cima do ombro pra ver do que aquelas hienas estavam rindo e não acreditei no que vi. O aluno novo, aquele safado – pra não dizer coisa pior – deu em cima de Sheyla e conseguiu o pote de pudim. Droga, eu devia ter prestado atenção mais nos filmes pra aprender a seduzir um homem, assim eu ganharia um pote de pudim... e provavelmente casaria com um cara rico pra me sustentar. Que foi? Diga-me, quem realmente gosta de trabalhar nessa vida? Ou passar metade da vida no inferno que é a escola pra depois ter que trabalhar como um condenado? Eu que não.

Bufei e me virei dando toda a atenção para o meu sanduiche. Nossa, isso esta muito bom. Tenho sorte de ter nascido ruim. Posso comer a vontade e não engordo, já aquelas gazelas, vivem na salada. Mas acho que é isso que as vacas comem.

Estava tão concentrada nos meus pensamentos que nem vi quando alguém se sentou no outro lado da mesa de frente pra mim.

– E aí... sentiu minha falta? – ele me perguntou com um sorriso.

Fiquei olhando o deus grego na minha frente. Ele deu um sorriso convencido.

– Quem é você? – perguntei o achando vagamente familiar.

O sorriso dele sumiu e ele me encarou meio... pasmo? Por que será?

– De nada... – ele disse deslizando um pote de pudim pra mim.

Meu reflexo foi rápido e o peguei. A ficha caiu, é o aluno novo que me derrubou de bunda no chão, quase me matou do coração e que eu não desculpei e que deu em cima da Sheyla pra aparentemente conseguir o pote de pudim dela – não sei por que, mas essa ultima parte não me pareceu certo.

– Obrigada... – fitei aquele que parece ter saído de uma capa de revista de modelos. – Tudo bem, esta desculpado... – tem algo errado aí. – Como é que você sabia que eu queria o pudim?

Não que eu esteja reclamando, bem longe disso, apenas me parece meio estranho isso.

Ele ficou meio sem jeito, analisei.

– Além do fato de você parecer uma criança em fila de algodão doce? – ele disse confiante.

– Hey! – me senti ofendida. – Não pareço criança coisa nenhuma! – e mostrei a língua pra ele.

O infeliz riu. Senti um arrepio, e não foi por causa do sorriso deslumbrante do infeliz, mas sim por que eu senti como se estivessem lançando facas contra mim. Olhei por cima do ombro e avistei Sheyla e Kristin me fuzilando com o olhar enquanto Joe e os amigos sem cérebro dele conversavam visivelmente sobre basquete.

– Por que aquelas duas estão me olhando com cara da Noiva de Chucky? – perguntei para o idiota – que eu já desculpei em troca do pudim.

Ele deu de ombros.

– Não faço ideia... – ele respondeu. Mas eu sim.

– Vai ver por que você fez a princesa das periguetes achar que tinha alguma chance com você? – é claro que isso foi uma pergunta retorica.

Ele ergueu a sobrancelha.

– E quem disse que ela não tem? – ele me perguntou.

A resposta dele não me afetou. Ponderei por um momento.

– Acho que tem gosto pra tudo... – dei de ombros e logo em seguida dei uma mordida no meu sanduiche.

– Acho que começamos errado... – ele disse beliscando o sanduiche dele e levando a boca. – Prazer, Blake Van Dreher.

Blake Van Dre... Der... ah, esquece. O coisa difícil de pronunciar. Esse nome me é familiar não sei de onde.

– Seu nome é esquisito... – eu disse sem segurar a minha língua. Às vezes eu tenho esse problema de falar o que penso e o que eu não penso.

Ele riu.

– Sim, fiquei sabendo... – ele disse e por alguma razão ele ficou meio desconcertado. – Já me disseram que meu nome é estranho. – ele disse confiante, mas me deu a entender que ele estava se corrigindo. Acho que é coisa da minha cabeça.

Tomei um gole de suco.

– Bom, Blake... – eu disse dando ênfase no nome dele. – Sou Megan Becker, mas pode me chamar de Meg.

– Prefiro Megan. – ele disse entes de tomar um gole de suco.

Dei de ombros.

– Então, o que o trás a essas bandas? – perguntei tentando ser cordial. Meu sanduiche já estava no fim. – Por que uma pessoa em sã consciência iria querer morar nesse fim de mundo?

– Minha família... – ele respondeu descontraído. – É um ótimo lugar pra se viver...

– Pra quem não gosta do sol... – murmurei. – Tem irmãos?

– Seis. – ele respondeu.

– Cof... cof... – tossi tentando me recompor. Suco escorreu de minha boca. Usei minha mão e limpei.

Seis irmãos? Por acaso os pais dele são coelhos?

Ele levou a mão fechada à boca e tossiu segurando o riso.

– Uau... seis irmãos... – eu disse meio sem graça, o que é raro pra mim.

– Sim, seis irmãos... – ele respondeu. – Não precisa se sentir constrangida...

Onde tem um buraco mais próximo para eu enfiar a minha cabeça? Tomei um gole de suco.

– E você, tem irmãos? – ele perguntou.

– Sim, um. – respondi. – Mike, a coisa mais fofa do mundo... – eu disse sonhadora.

– Quantos anos ele tem? – ele perguntou.

– Quinze... – respondi. Não sei por que, mas ele começou a rir.

O encarei sem entender do por que disso. Esperei ele se acalmar.

– Desculpe, foi indelicadeza minha... – ele disse. Será? – É que eu pensei que seu irmão não passasse dos sete anos...

– Ah... – entendi o que ele quis dizer. – O que eu posso fazer se ele parece um filhote de cachorro quando faz aquelas caras e bocas? Eu simplesmente não resisto. – ele riu e eu o acompanhei. – Conte-me sobre seus irmãos... quantos anos eles tem?

– Eu sou o mais novo, tenho dezesseis. – ele me respondeu beliscando o sanduiche que estava praticamente inteiro ainda. – Tem os trigêmeos de dezessete, uma de dezoito, um de dezenove e o mais velho de vinte anos. Alec, Damian e Phoebe sãos os trigêmeos de dezessete anos. Alyssa tem dezoito anos. Regan tem dezenove anos e Liam é o mais velho, vinte anos.

Tive que morder a língua pra não deixar escapar que os pais dele não perderam tempo. Um atrás do outro, isso é sério? E na época tinha cesariana? Se não, coitada da mãe dele.

– E por que eles, bom, pelo menos os trigêmeos não vieram pra escola? – eu perguntei. – Ou eles são super inteligentes e já terminaram a faculdade? – se for isso, então ele é o bu... quero dizer, ovelha negra da família.

Ele me olhou com cara de que sabe o que eu pensei. Se souber, então não posso fazer nada, não disse nenhuma mentira.

– Não, eles decidiram começar depois do recesso. – ele respondeu.

Estamos no dia dezessete de dezembro, quarta-feira. Dia vinte começa as férias de inverno e no dia cinco de janeiro as aulas retornam.

– Regan e Liam são os gênios da família, ambos já terminaram a faculdade. Alyssa entrou atrasada na escola, então ela esta no ultimo ano. – ele continuou. – Os trigêmeos estão no mesmo ano que Alyssa.

– Hm... legal... – eu disse. Regan e Liam são uns sortudos por terem nascidos com todos os neurônios, agora já estão livres desse inferno. – E seus pais?

Acho que esta pra nascer alguém mais curiosa que eu. Ele suspirou, acho que toquei em alguma ferida.

– Se você não quiser... – comecei.

– Não, tudo bem... – ele disse parecendo triste. – Morreram já faz dois anos em um acidente de carro... Liam já era maior de idade, então ele conseguiu nossa guarda... por sorte, nossa família é rica desde não sei quando...

Isso é triste. Não sei o que faria se perdesse os meus pais. Minha família pode ser disfuncional, mas os amo. É o meu porto seguro, são aqueles que eu sei que vão me amar não importa o que aconteça. Não sei por que, mas algo bem lá no fundo de meu subconsciente piscou como um alerta.

– Sinto muito... – eu disse. Nossa, essa palavra é péssima pra momentos assim.

– Tudo bem, a vida continua... – ele disse com um meio sorriso. – Mas então, conte-me sobre você e sua família...

Aí esta o alerta novamente. E se ele for um psicopata? Meu rosto deve ter demonstrado receio.

– Não se preocupe... – ele disse. – Prometo que não sou nenhum psicopata... – ele ergueu a mão mostrando ser indefeso. Bom, ele pode não ser nenhum Brad Pitt da vida, mas é bem definido pra idade. Ele não é bombado, mas também não é nenhum nerd, ele é simplesmente sexy. Mas é claro que ele nunca vai me ouvir falando isso. Em seu rosto, um sorriso simpático com um traço de convencimento.

Hm, ele me falou da família dele, acho que não me custa nada tentar ser amiga dele, afinal, ele parece ser inteligente e do tipo que foge do clichê que é a escola.

– Minha família esta em Crowsville desde sempre. – eu respondi. – O avô do meu bisavô paterno foi um dos fundadores desse fim de mundo. Acho que isso me faz importante... – dei de ombros. – Minha mãe e sua família se mudaram pra cá quando ela tinha sete anos. Vieram de Nova Iorque a procura de um local mais calmo e acharam o lugar mais calmo do mundo. Sim, eu odeio essa cidade e não vejo a hora de me mandar desse fim de mundo. – respondi a pergunta que estava estampada na cara dele. – Meus pais se conheceram no primário, mas só descobriam que estavam apaixonados um pelo outro no ultimo ano do colégio. Minha mãe é enfermeira do hospital e meu pai o gerente do banco da cidade. Viu, minha vida é simplesmente chata. Não que eu seja uma dessas, mas simplesmente não quero cair na mesmice. Meu irmão acha que é cantor fazendo barulho na garagem dos amigos. É isso.

Eu sei que não disse muito sobre mim, mas esta de bom tamanho o que eu disse, afinal, nem conheço ele pra dizer todas as minhas neuroses. Terminei de comer a minha pera faz alguns minutos e agora eu enchia a colher e comia o meu pudim.

Ficamos conversando ate o sinal tocar indicando o fim do intervalo. Descobri que ele nasceu no norte da Dinamarca, em uma pequena cidade chamada Hillerød, no condado de Frederiksborg. Nunca tinha ouvido falar desse lugar. Ele disse que lá tem um castelo, o Palácio de Frederiksborg. Perguntei do por que dele não ter sotaque, ele me disse que se mudaram para os Estados Unidos quando ele tinha apenas quatro anos. O único que tem sotaque é Liam, quase imperceptível, mas tem. Disse-me que ele e os irmãos se mudaram para a mansão assustadora da cidade e que ela pertence à família dele desde dos fundadores, um parente dele também é um dos fundadores, ou melhor, era, pois agora já virou pó. A mansão em que ele mora fica meio afastada da cidade e é meio adentro da floresta, a Mansão Dreher, pois é, agora eu me lembrei de onde o nome dele me era familiar e finalmente consegui pronunciar – depois dele praticamente escrever como se pronuncia. No outro lado da cidade, existe outra mansão, a Mansão Kleinner. Um dos seus moradores é Joe Kleinner.

Joe tem irmãos e primos, mas ele é o único que esta na escola, todos os outros já terminaram. Às vezes eu acho que o idiota do Joe só finge que não usa o cérebro. Quando nos levantamos e saímos andando conversando, ao passar pela mesa de Joe, senti uma hostilidade entre as periguetes e eu e entre Joe e Blake – e esse por ultimo não faço ideia do por que.

Nos separamos já que iriamos ter aulas diferentes, mas na penúltima aula do dia, eu tive aula junto de Blake, assim como a ultima. Blake, quando não me faz querer meter a mão na cara dele a maior parte do tempo, o que já um bom sinal. Tenho que confessar que ele é uma pessoa divertida. O linguajar dele, muitas vezes é meio sofisticado e parece antigo. Acho que ele é gay, pronto falei. Senti uma tensão vindo dele.

Estamos andando pelo corredor da escola rumo ao estacionamento. O sinal já tocou anunciando o fim da aula de hoje.

Ao passarmos, notei que havia chovido, o que é raro nessa cidade. O clima pode ser sempre nublado e frio, mas raramente chove, tipo, uma vez por ano. Não sei como as plantas não morrem. Eu disse que não sou nenhuma nerd.

– Não sabia que hoje iria chover... – comentei já fora da escola. Estamos parados na escada observando o estacionamento, havia pouquíssimas poças de água da chuva.

– Nem eu... – ele disse parecendo meio aflito.

– O que foi...? – perguntei.

Ele suspirou bagunçando o cabelo.

– Não sou muito fã de chuva... – respondeu e sorriu. – Por sorte já parou de chover...

– Você é estranho... – comentei.

– Você não sabe o quanto. – ele me disse com um sorriso misterioso.

– Idiota... – quase disse isso mostrando o dedo.

Ele riu. Infeliz.

Descemos a escada. Meu pai já esperava no outro lado da rua em sua Mercedes. Mike se despedia dos amigos. No outro lado do estacionamento, Joe desentupia a boca de bueiro de Kristin. Sheyla me fuzilava com o olhar.

– Meu pai já chegou. – eu disse. – Te vejo amanhã...

– Com toda a certeza. – ele disse piscando enquanto andava de costas rumo a Ferrari preta dele. Gays são tão engraçados às vezes. O sorriso dele vacilou, não sei por que.

– Tchau idiota... – eu disse com um aceno.

– Tchau matraca. – ele me chamou disso mais cedo só por que eu digo o que penso. Na hora eu resolvi isso batendo nele com um livro.

– Eu te mato infeliz! – exclamei enquanto ele ria. – Mas amanhã...

Ele passou ao lado de uma poça de água ao mesmo tempo em que eu me virava pra continuar rumo ao carro de meu pai. Algo estranho aconteceu. Virei-me para Blake rapidamente, mas ele já estava longe da poça. Estranho, muito estranho. Eu podia jurar que quando ele passou ao lado da poça, eu vi, ou melhor, não vi o reflexo dele na água. Balancei a cabeça tirando esse absurdo da cabeça.

Andei ate sair do estacionamento e me encontrei com Mike que estava conversando com os amigos idiotas dele, Hugo Caterpaldi, Abnniel Klann, Erik Valim e André Rowehn. É, eu sei, cada sobrenome horrível. Os cinco juntos formam aquilo que eles chamam de banda, Neo Five X-Burguer, quero dizer, X-Burst. Neo Five X-Burst.

– Hoje, as seis na minha garagem... – disse Hugo.

– Encontro vocês lá... – disse Mike se juntando a mim. – Então, maninha... qual é a do novato?

Mike é meu irmão mais novo, mas age como se fosse mais velho quando se trata de homem perto de mim. Ele pode não ser todo cheio de músculos, mas é faixa preta em alguns tipos de artes marciais.

– Ele é legal... – eu respondi tirando o braço do folgado de cima de mim. – Idiota, mas legal... – suspirei. – Você tem certeza dessa sua ideia?

– Absoluta! – ele disse e me olhou com olhos pidões. Onde se encontra uma câmera de alta definição quando mais se precisa?

Suspirei.

– Tudo bem. – aceitei. – Mas isso vai te custar caro.

Mike sorriu.

– Obrigado. – ele disse. – Te amo, você é a melhor irmã do mundo.

– Sou sua única irmã. – eu disse sem vontade alguma de sorrir.

Ele foi no banco do passageiro e eu fui no de trás imaginando como eu iria convencer meus pais – mais precisamente minha mãe – a deixar Mike e eu viajar para Londres e ficar lá por duas semanas sem eles e no natal e no ano novo, só pra que Mike e sua banda idiota toque na batalha das bandas e tentem ganhar o prêmio que é um contrato de gravação com o estúdio patrocinador. É, isso não vai ser fácil. Pelo lado bom, descobri uma maneira de ler o livro sobre vampiros em dois dias: Wikipédia. Eu sou uma gênia.

Notas finais
O acharam? Criticas são bem vindas. Continuo ou não? Gente, passem nas minhas outras fics: "A Mutante em Forks", "Arte e Desejo", "A Filha de Zeus em Forks", "Uma Super Garota Nada Normal" e "Escola de Assassinos". Pagina oficial da fic no facebook: James Fernando - Fanfics https://www.facebook.com/jamesfernandofanfics Meu exemplar do livro que publiquei acabou de chegar, e modestia parte, ficou incrivel. E se não gostarem da capa, existe mais três disponiveis no site. O livro contém magia, aventura, ação, mistério, suspense, mutantes (não os x-mens), dragões, vampiros, uma guerra a caminho. Eu arrisco afirma que pode ser uma mistura de Harry Potter, Percy Jackson, Dragon Ball (no sentido das lutas), e é claro, o nascimento de um romance. https://clubedeautores.com.br/book/146998--O_Ladrao_de_Vidas#.UpFurMRwrKp Proximo capitulo ate sabado, sexta, terça ou quarta, não sei, mas pode acabar sendo postado antes. Ate o proximo capitulo...