Como Eu Fui Com Você — Por Will Traynor
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Notas iniciais
2009
— Você é um bom contador de histórias, Will — Nathan diz enquanto retira o curativo da gaze em volta do tubinho na minha barriga. Ele limpa com cuidado e logo em seguida faz outro curativo. Troca meu coletor descartável de urina e eu torço o nariz para o saco com o líquido amarelado qual antes eu expelia como todo ser macho da Terra.
— Seria melhor ainda se esta não fosse a minha história e se você já não a tivesse escutado trocentas vezes com variadas versões — retruco, olhando-o de soslaio quando ele volta do banheiro, alternando o olhar entre um frasco de comprimidos coloridos e uma seringa.
— Nessa versão você trepa com uma loira gostosa. Essa é nova. — ele comenta, estreitando os olhos.
Eu poderia alegar que pela primeira vez, finalmente contei-lhe a história de verdade mas, prefiro que ele continue tentando descobrir qual a versão que de fato aconteceu.
— Dê-me aquelas belezinhas para dormir, sim? A realidade está fucking forte demais para que eu possa suportar.
Nathan me olha torto. Ele é o que posso chamar de melhor amigo — se eu ignorar totalmente o fato dele me ver pelado todo dia —, mesmo com censura no olhar, ele me administra os calmantes. Como eu disse, melhor amigo.
Hoje não tenho nada pra fazer, algo que vem fazendo parte da minha rotina por dois anos, meu trabalho hoje foi extremamente fácil ao colocar mais uma possível cuidadora para correr aos prantos com uma bela encenação de dor do Corcunda de Notre Dame. Um trabalho divertido qual venho executando há alguns meses. Isso é claro, me rendeu duas broncas do Sr. e Sra.Traynor vulgo, meus pais, Steven e Camilla.
Não que isso me incomode, eu nem sei porquê diabos eles se importam tanto com isso, eu não vou andar, nunca mais.
Não tenho expectativas futuras, não depois de dois anos lutando para meus malditos membros paralisados não atrofiarem, para meus ossos não desmineralizarem de vez, para a bendita trombose não bater em mim com força nas pernas e tentar me manter o mais próximo possível de antes minhas condições físicas — agora tão limitadas.
Não funciono do toráx para baixo, isso inclui meus braços. Pode espetar milhões de agulhas desse ponto para baixo — alguma ex mal comida (atualmente), sentiria-se á vontade para experimentar espetar alguma coisa pontiaguda nos meus genitais, iria ser divertido ter algum olhar feminino nessa área após tanto tempo —, e eu não vou sentir nada. Talvez meu cérebro envie uma mensagem aos meus nervos que estou sofrendo violência ou até tesão, mas meus músculos não responderão aos comandos.
O efeito dos remédios começam mais rápido do que o previsto, e logo estou com o pescoço pendurado num ângulo esquisito para um lado do meu corpo enquanto eu tentava continuar a assistir ao filme estrangeiro que Nathan pôs para mim.
Ouço seus passos ligeiros e suas mãos hábeis me projetam para fora da cadeira em direção á maldita cama onde fico confinado a maior parte do tempo.
Essa parte é odiosa. O ócio me faz sentir inutilidade. Inutilidade gera descontentamento generalizado que se espalha avidamente por todos meus poros em forma de adrenalina num corpo morto. O suor é a resposta para as ações que somente minha mente executa.
— Para um homem de trinta e poucos anos você é bem molenga — Nathan brinca quando checa minha temperatura. Mando-o se foder, e ele só ri.
Gosto da amizade do Nathan, ele nunca pisa em ovos quando está comigo. Ele não tem medo de magoar meus sentimentos, ele diz o que tem que ser dito e eu tenho que ouvir e entender como qualquer ser humano normal.
Porquê sou um ser humano normal, sou limitado porém normal.
O irritante celular de Nathan toca, ele corre para atender. Tenho a leve impressão de que ele está saindo com alguma universitária, ele sempre fica sorrindo ao falar de ossos e articulações.
Sorte á dele hein, tem a capacidade de poder sair para beber sem ninguém ao lado bancando a babá salva vidas, poder ir direto ao motel com uma morena bem gata que te deu mole a noite toda em uma festa, poder transar até não sentir as pernas.
Eu não sinto minhas pernas, porém não é consequência de uma maratona sexual, infelizmente.
Nem cinco contra um, só acontece na minha cabeça.
Nathan volta cauteloso, dou um meio sorriso deixando o sono começar a me embalar suavemente como uma doce mãe faz com seu bebê, como Camilla costumava agir comigo... Até o acidente, tudo mudou, ela nem consegue me olhar nos olhos, me tornei tão inútil assim?
Procuro ignorar esses pensamentos por agora.
— Durma bem amigão, amanhã teremos visita. — ele pronuncia se aproximando da cama.
O estupor dos calmantes deu aquela parada brusca, tipo quando a mãe tem que fazer uma segunda coisa além de ninar seu filho. Olho-o com um sorriso diabólico.
— Dia de diversão, expulsando enfermeiras?
— Sim, mais uma pseudo-cuidadora para participar do psicoteste de Will Traynor logo pela manhã. Trate de descansar muito bem, estou com uma vibração positiva.
— Vibração positiva? Se conforme que é o único que vai me aturar até o fim.
— Acho que não, cara. Acho que não.
— Okay...
Se tudo correr bem, conforme o que tenho planejado, mais uma garota perderá a chance de tentar fazer parte da minha miserável rotina.
Não, não é vitimismo. Penso com meus botões, fecho os olhos respirando fundo. Qual cena devo reproduzir no dia seguinte? Tem que ser impactante para que essa seja a última vez que eu precise apelar para tal ato.
É um enorme favor que venho fazendo à todas essas pessoas desconhecidas.
E ninguém reconhece!
Will Traynor não têm uma vida. Eu sei bem disso, pois sou ele. Não quero tirar de ninguém a liberdade e a capacidade de viver de verdade.
Não escolhi estar como estou, ser como sou e viver dessa maneira, não há espaço para conformismo infelizmente mas, o que eu puder fazer para garantir que ninguém sinta o que é ser Will Traynor, eu o farei.
Sem hesitação.
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