Notas iniciais
1
“— Que tal um spa de luxo em Bali? Poderíamos ficar deitados na areia... passar horas sendo paparicados... ter longas noites relaxantes... ─ Alicia ronronou literalmente, me olhando fixamente.
— Não posso ter esse tipo de férias. Preciso de atividade... ─ respondi, dando de ombros.
— Como se jogar de aviões. ─ ela rolou os olhos.
— Não critique até que tenha experimentado. ─ rebati, frio.
Ela ficou visivelmente amuada.
— Se você não se importar, acho que vou continuar criticando.
Minha camiseta está ligeiramente úmida em minha pele, não me incomodo. Passo um pente pelo cabelo, ligo o celular e dou uma olhada na lista de recados que surge imediatamente na telinha.
— Muito bem, preciso ir — digo. — Tome seu café da manhã. — Inclino-me sobre a cama para beijá-la.
Ela tem um cheiro morno, perfumado e muito sensual. Inalo esse doce aroma de sua nuca e, por um instante perco o rumo dos pensamentos quando ela me envolve pelo pescoço com os braços, me puxando de volta para cama.
— Ainda vamos viajar no fim de semana?
Desvencilho-me, relutante.
— Depende do que acontecer nessa reunião. Por enquanto, tudo está meio no ar. Pode ser que eu ainda tenha de ir à Nova York. Que tal jantar num lugar bacana na quinta-feira, para compensar? Você escolhe o restaurante. — Minha jaqueta de motoqueiro está pendurada atrás da porta, a pego e lhe sopro um beijo.
Seu rosto fica marcado na minha mente.”
Acordo meio zonzo, grogue pelas drogas e pelo estupor de sempre de me sentir enclausurado em meu próprio corpo. O rosto de Alicia vívido em minha mente. Maldição! Porque diabos eu estou sonhando com aquela quinta feira que pra mim nunca chegou, e pior, com a mulher que me abandonou quando mais precisei.
Quem está gritando á essa hora da manhã?
— Graças á Deus! — o alívio naquela familiar voz masculina é nítido. Fecho os olhos devagar e os abro logo em seguida, reconhecendo o rosto velho de Steven enquanto meus olhos tomam foco. Eu deveria ficar muito puto neste momento mas, ainda tenho alguns sentimentos bons dentro do peito.
— Oi... — minha voz sai ainda mais rouca. Malditas cordas vocais preguiçosas, tento me remexer na cama para me sentar, mas todo meu esforço é em vão, ainda não brotaram mãos úteis no meu pescoço. Papai percebe e me ajuda, sinto cheiro de vodca em seu hálito e consigo ver uma marca de batom rosa na gola de sua camisa de algodão desalinhada. — Noite boa?
Ele rola os olhos, enquanto arruma o travesseiro atrás de minha cabeça. Olha meu coletor de dejetos e eu finjo não notar sua cara de repulsa. Fingimento e indiferença são duas características que venho aperfeiçoando á cada dia.
Ele olha o relógio no pulso e arregala os olhos.
— Eu ainda estou aqui — resmungo entredentes, encerrando qualquer contato visual com o homem que um dia foi meu herói. Ele massageia as têmporas e me olha, claro que sinto seu olhar me queimando e é por isso que não consigo mais ignorá-lo.
— Desde que dia não toma um banho? — ele pergunta, parecendo mesmo preocupado. Inspiro forte sentindo muita raiva. Nathan pediu folga no dia seguinte que coloquei mais uma pobre coitada para correr com mais uma boa encenação. Só falta um atestado de insanidade. — Filho... — me encolho quando ele fala essa palavra, ele não me trata como seu filho, não merece me chamar como tal.
— Ninguém me deu banho por pelo menos dois dias, Nathan pediu folga, pois está atolado com os estudos e Camilla pediu que você chamasse alguma enfermeira especial do nosso hospital e o que você fez, querido pai? — friso a última palavra para que ele possa sentir a acidez que eu pus nela. Estou vegetando aqui, sentindo tudo coçar e feder como um cadáver, só que um cadáver com sentidos e não posso fazer nada pra mudar isso. E alguns ainda dizem que não posso reclamar.
— Eu... — Steven me olha alarmado num misto de aflição e culpa. Estende as mãos na minha direção parecendo perdido. É de conhecimento de todos sobre sua segunda vida, a amante mais nova (bem mais nova) e mais bonita (não tanto) do quê minha mãe, porém totalmente indigna de me fazer sentir algum afeto por ela por saber que ela tem alguma porcentagem de culpa no fato de que meus pais estão separados após meu acidente, o culpado maior sou eu, está nas estatísticas mas, isso não minimiza a culpa da Lolita. — Me perdoe Will...
Neste momento sou incapaz de deixar o perdão aflorar em meu ser.
Fecho os olhos novamente, imagino como ele está me vendo ali. Indefeso, sujo e incapaz. Como eu queria não ter acordado neste dia de hoje. Odeio me sentir a vítima, mas, há situações como esta, que é impossível não sentir essa maldita sensação e permanecer impassível. E sobre o que eu disse sobre ser culpado da separação dos meus pais, é só dar uma breve pesquisada de como casais deixam o amor ir embora quando existe um filho totalmente dependente.
Poucas horas depois, Nathan aparece de surpresa alegando que minha mãe exigiu sua presença, pois a nova cuidadora irá se apresentar hoje. Eu sei que Steven o chamou apesar de não ser mentira o fato de que virá mais uma cuidadora se apresentar.
Dois dias sem banho me rendeu um princípio de infecção e escaras nas partes mais inalcançáveis do meu corpo até mesmo para as enfermeiras especiais, detesto quando elas me olham com pena e falam comigo parecendo que eu tenho dois anos e não sei como limpar a bunda depois de defecar. Eu sei limpar, só não posso.
— Se quiser dormir um pouco mais será ótimo para seu bem estar — Nathan sugere após me dar alguns remédios que nem me dei o trabalho de ver para o quê serve, são tantos e pra tantas coisas por dia.
— Nem em outra vida quero perder a hora de ver lágrimas nos olhos da nova cuidadora. — sibilo, soltando um bocejo logo depois. Dormiria tranquilamente assim que ela saísse aos prantos.
— Não seja tão cruel, Will. — Nathan ri. — Estamos precisando ver curvas femininas por aqui, não? — ele arqueia as sobrancelhas, eu rolo os olhos. — Não é nada atraente ver as empregadas de meia idade de meia calça e a Senhora T, ela pode ser um mulherão de cinquenta e tantos mas, não faz meu tipo nem o seu.
— Sou obrigado a concordar. — murmuro, enquanto Will termina de me vestir. Passa a mão nos meus cabelos e eu rosno como um cachorro, ele ri baixo e me desfere uma tapa na nuca. — Está agredindo um incapaz, Nate?
— Você só é incapaz de andar seu traste, mas não de enlouquecer qualquer um á dez metros ou menos de distância. — ele sorri genuinamente e eu não tenho alternativa á não ser sorrir de volta.
Escutamos batidas na porta.
— Oi, estão aí? ─ a voz de Camilla soa do lado de fora. ─ Will, trouxe a senhorita Clark para conhecer você. ─ Resumo minha resposta em um sorriso presunçoso. — Will? Nathan?
O show está prestes a começar, Nathan me lança um olhar aflito. Sinto-me estranho naquela cadeira de rodas, e olha que tive que me habituar aos trancos. Murmuro para Nathan que não abra a porta ou abra com cara de choro, falando que não acordei hoje. Mas, seria muita crueldade, só vou usar um pouco hoje, essa novata não merece minhas melhores traquinagens.
— Ele está arrumado, senhora T. — o traidor vulgo Nathan solta. Então minha mãe abre a porta. E uma jovem com ar assustado fita-me nos olhos, e eu vou lhe dar a minha melhor encenação, se o primeiro dia no emprego novo e normal já é por si só assustador, imagine um aleijado gritando com agonia.
— Will, pare com isso! — Camilla pede, histérica.
Nem perco meu tempo olhando para ela. Outro som pré-histórico emerge de algum lugar próximo a meu peito. É um som terrível, agonizante. Tento não rir para não perder minha aura de atuação. Faço caretas, balanço a cabeça de um lado a outro e a afundo em meus ombros, olhando-a de um jeito homicida.
— Will! Por favor. — Camilla de novo. — Por favor, não faça isso.
A garota engole em seco e a vejo ficar pálida, mas a infeliz não cessa o contato visual. Umedece os lábios e aperta a bolsa num gesto nervoso. Parece que Will Traynor saiu vitorioso mais uma vez.
Continuo com minha encenação até que sou surpreendido pela voz: — Eu… eu sou Lou. — a voz dela tilinta em meus ouvidos, dou um leve aceno constrangido. — Diminutivo de Louisa.
Então, em total surpresa me endireito na cadeira e abro meu melhor sorriso. A filha da mãe passou no teste, eu tenho que armar um plano B, nunca nenhuma passou dessa fase. Continuo a olhando com curiosidade e perplexidade, aqueles olhos demonstravam pavor até poucos instantes, agora exalam confiança.
— Bom dia, Srta. Clark — cumprimento. — Soube que é minha nova guarda-costas.
Não tinha notado que Nathan arrumava o descanso de meus pés na cadeira, até ele levantar balançando a cabeça. O advirto num olhar.
— Você é um homem perverso, Sr. T. Muito perverso. — Ele sorri com deboche e estica a mão para a tal Louisa. Nathan transpira um ar de imperturbabilidade, o cara foi obrigado a aguentar tudo isso em prol de nossa amizade. — Acredito que você tenha acabado de assistir à melhor imitação de Christy Brown, de Meu Pé Esquerdo. Você vai se acostumar com ele. Ele late mais do que morde.
Minha mãe segura com os delicados dedos brancos o crucifixo em seu pescoço. Puxa-o de um lado para outro na fina corrente dourada, um tique nervoso mais do que familiar. Sua expressão está dura como mármore. É a carranca habitual dela.
— Vou deixar vocês se entenderem. Podem usar o interfone se precisarem de ajuda. Nathan vai contar sobre a rotina de Will e o equipamento que ele usa. — Ela fala para Louisa. Sinto a raiva na ponta da minha língua e um zunido nos ouvidos, odeio com todo meu ser quando Camilla se torna apenas a juíza e dona da minha condição de vida.
— Estou aqui, mãe. Você não precisa falar como se eu não estivesse. Meu cérebro não está paralisado. Ainda. — resmungo, controlando a acidez no meu tom, em parte sei que ela está puta comigo pela minha cena.
— Sim, bom, se você vai se portar de maneira desagradável, Will, acho que é melhor a Srta. Clark falar direto com Nathan. — aposto que a tal Clark notou que minha mãe não consegue me olhar nos olhos, desde quando mesmo? Desde quando passei a ser um vegetal de carne e osso, todo tempo minha mãe manteve seu olhar no chão, á uns três metros além de onde eu estou. — Vou trabalhar de casa hoje. Apareço na hora do almoço, Srta. Clark.
— Certo. — a garota concorda, envergonhada.
Camilla desaparece de nossas vistas. Ficamos calados enquanto escutamos seus passos ligeiros sumirem pelo corredor em direção à casa principal. Eu sei que ela vai para o escritório chorar, me amaldiçoar, pedir perdão á Deus, me xingar e chorar de novo.
Nathan então rompe o silêncio.
— Will, você se importa se eu falar de seus remédios com a Srta. Clark? ─ ele esboça um sorriso. ─ Quer assistir à TV? Ouvir música?
— Rádio, estação quatro, por favor.
Mais uma luta perdida, mas eu não vou desistir mesmo agindo feito criança. Essa garota de roupas esquisitas e olhar meigo não tinha me convencido ser capaz.
Quero saber apenas porque minha mãe ainda insiste nisso apesar de ter uma leve dedução á respeito de sua atitude, eu não vou mudar de ideia, não vou ser normal, eu não quero acordar todos os dias encarar o teto, sentir que estou de pé para depois desabar em mim mesmo e pensamentos zapearem em minha mente de que eu nunca vou levantar sozinho.
Sou um cara aventureiro, meu corpo não mais, mas eu sim.
E eu vou me libertar de mim mesmo, todos querendo ou não.
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