Como Castigar Um Deus

1 O meu pseudo-papai me odeia


J U L E K A C L A I R

— Mas isso não é justo! — reclamámos em conjunto. Não deu nem dois segundos e nos olhámos com raiva pelo outro ter falado ao mesmo tempo.

— O mundo não é justo! — rebateu Zeus, com aquela cara de sabe-tudo. — Agora deixem de encher o meu saco.

— Mas pai, eu não fiz nada para merecer essa punição! — continuou o outro deus.

— E você acha que eu fiz?! — apressei-me a adicionar, olhando-o incrédula.

Íamos começar novamente a discutir, mas Zeus se levantou, irritado pela nossa falta de colaboração e disse, num tom final:

— Não me interessa se merecem ou não merecem, nem o que fizeram ou deixaram de fazer. A minha palavra é absoluta. Agora... CAIAM FORA!

Parou tudo. Nesse momento, minha vida deu uma volta definitiva e a partir de agora, só vai de mal a pior. Como chegámos a essa situação? Pois bem, vamos voltar um pouco no tempo.

A guerra contra Gaia e os Gigantes havia acabado. Nós vencemos. Nós quem?, você pergunta. Os semideuses (e os deuses, né).

Semideuses são filhos de deuses e mortais (ou outras criaturas que não deidades). Muitos têm poderes que vêm do lado divino da família. Os maiores heróis, como Héracles e afins — julgue-me, eu não gosto de História, seja mitológica ou a versão dos mortais que eles ensinam lá na escola -, eram filhos de deuses poderosos, sendo que aquele que eu mencionei lá em cima era filho de Zeus, o rei do Olimpo. Os heróis que derrotaram Gaia e os Gigantes também tinham poderes (alguns). Perseu Jackson era filho de Poseídon e podia respirar de baixo de água e falar com cavalos; Leo Valdez era filho de Hefesto e podia consertar ou criar diversas coisas, para além de ter algum controlo sobre o fogo.

O PONTO é que alguns semideuses têm poderes. Eu estou incluída nesse grupo. Sou uma filha de Hécate e, para desgosto de muitos, sou bem poderosa. Meu controlo sobre a névoa e a magia que eu pratico são num nível um pouco mais avançado que os outros filhos de Hécate do Acampamento.

Pelo que mamãe me contou, Zeus e os restantes olimpianos ficaram um pouco receosos e inquietos aquando do meu nascimento. Mamãe não queria que nada de mal me acontecesse, ela era mais apegada aos filhos que a maioria dos deuses. Portanto, prometeu a Zeus, sobre o Estige, que caso ele permitisse que eu vivesse e meio que me "adotasse" como sua protegida (ela teve que usar essa palavra, se não Hera teria feito a maior birra do século), eu iria crescer para ser uma grande aliada dos olimpianos, e que nunca me viraria contra eles.

Parece meio desesperado, não? Pois é, mas Hécate estava desesperada. Zeus não é conhecido por sua bondade e misericórdia. Ele tem seus momentos, mas eles são bem raros.

Ainda que relutante, Zeus aceitou. Hécate jurou sobre o Estige, pensou. Qual é a pior coisa que pode acontecer?

Eu cresci saudável e forte, com o meu pai. Eventualmente, fui parar no Acampamento Meio-Sangue e fui reclamada por Hécate. Fui avisada desde cedo por mamãe sobre minha situação em meio aos deuses, já que ela não queria omitir mais do que já tinha omitido. Mãe divina gentil, não é? Pois... Nem sempre. Tal como todos os outros deuses (mesmo os mais simpáticos), Hécate tem seus momentos de ternura e seus momentos "tOTal DesTRUiçÃo, aNIquIlaR huMaNOs". Nos dias de hoje, a gente chama isso de "mudanças de humor" ou se o caso for muito extremo, "bipolaridade".

Fast forward para uns dias antes dos acontecimentos atuais.

Como eu disse, a guerra contra Gaia e os Gigantes terminou com a nossa vitória. Eu estava feliz, o Acampamento estava feliz, os deuses estavam felizes (bem, nem tanto, mas já vemos isso). Estava tudo ótimo e, claro, como não podia deixar de ser, algo tinha que começar a dar errado na vida de alguém. A azarada fui eu.

Crescendo como a "protegida de Zeus", eu era um pouco famosa entre os deuses, principalmente os olimpianos. Não, eu nunca fui morar no Olimpo, nem passar umas férias, mas eu encontrei-me várias vezes com vários deuses. Como tal, havia deuses que eu gostava e havia deuses que eu não gostava. E, bem... Não que eu seja petulante (tá, talvez um pouco), mas tendo Zeus "cuidando" de mim, eu meio que me acostumei a ter um pouco mais de liberdade com os outros olimpianos.

Eu podia dizer sem vergonha nenhuma que Poseidon era um tipo bacano, mas meio lerdo e cabeça de vento, às vezes. Podia alfinetar Ares, apesar de ser só brincadeira, porque a gente até se dá bem (ele não deixar de ser um grosso e um porco, no entanto). Mas havia um mini-complô que saía jogando mesas pelo Olimpo mal eu abria a boca, entre eles, Hera, Apolo e Afrodite.

Portanto, estou eu relaxando no meu chalé, tirando um cochilo e, do nada, PUFF, acordo no chão duro, de mármore ou lá o que aquilo era, do Olimpo. Os deuses estão reunidos, mas estão do mesmo tamanho que eu. Talvez Zeus tenha ordenado isso, com receio que eu fosse pisada por acidente quando ele desse a horrível boa-nova.

Porque eles estavam reunidos? Bem, alguém tem de levar com a culpa de Gaia ter acordado e os Gigantes terem avançado tanto no seu plano de vingança contra os olimpianos. Aparentemente, a pessoa certa para se culpar era Apolo, que, segundo Zeus, tinha dado liberdade ao áugure do Acampamento Júpiter, Octavian, que acabou por ser persuadido por Gaia.

Era uma merda levar com a culpa de uma guerra inteira, mas eu concordo com Zeus. O ponto de vista dele parece-me até bem lógico e, não, este meu modo de pensar não é nem um pouco influenciado pelo facto de eu odiar o deus do Sol e de mais não sei quantas tretas, ele é totalmente legítimo e puro!

Portanto, é claro que Apolo teria de ser punido.

Estava eu muito feliz, de pé, um pouco atrás de Zeus, à esquerda do mesmo, já que Hera estava à direita, com os braços cruzados, nariz empinando e assentindo com a cabeça a tudo o que o rei do Olimpo dizia, quando, do nada, ele fala:

— E como castigo, você vai ter de cuidar e ficar de olho na minha"protegida". Ela acabou de ser admitida numa universidade no Michigan e eu quero constante vigia sobre ela. É claro que já discuti isso com Hécate e ela concordou que Juleka deveria ir acompanhad-

— COMO?! — gritámos os dois em conjunto. Desconfio que, tal como eu, Apolo tinha ficado sem reação durante os primeiros segundos, daí a demora.

— Não me interrompam! — resmungou Zeus, fazendo o céu ribombar.

Engolimos em seco e ficámos quietos durante um pouco.

— É claro que eu não enviaria os dois sozinhos. Com o monte de besteira que Apolo tem feito, pode até lembrar-se de te incinerar na primeira briga.

Olhei em volta. Os outros deuses continham-se para não se desmancharem em risos, principalmente Hermes, Afrodite e Ares. Bufei, irritada com tudo aquilo e já mandando o mundo ir-se foder.

— É por isso que Ares irá convosco — virei a cabeça tão rápido para Zeus que devo ter colocado um ou dois ossos no local certo. Vi Ares ficar mudo e os seus olhos arregalarem-se, incrédulos. — Eu refleti um pouco e acho que fará bem ao temperamento de Ares ter que apartar algumas brigas e impedir violência, em vez de a instigar.

E fez novamente aquela pose de orgulhoso, como se tivesse bolado o plano do milénio. Vi Atena suspirar, quieta, mas não dizer nada. Poseidon e Héstia também pareciam inquietos, mas não se atreveram a questionar o irmão.

— Só pode estar de brincadeira — falei depois de uns minutos de silêncio. — Se é para me deixar sozinha com esses dois, mais vale me jogar no Tártaro de uma vez! Não tem como aquele— apontei para Apolo, fazendo cara de nojo — se controlar e, depois você ainda decide por Ares para o segurar? Ares vai ficar feliz e até grato de me poder jogar nos lobos! — bati o pé, enfatizando o meu escândalo.

— Escuta aqui, sua mortal insolente- Apolo começou, rangendo os dentes, mas foi preciso apenas um olhar de Zeus para o manter quietinho. Olhei o deusinho de lado, com um pequeno sorriso vitorioso que eu tenho certeza que não passou despercebido pelo mesmo.

— Queria, é óbvio que eu não deixaria você sozinha com dois irresponsáveis. Ares vai ser responsável, e ele vai botar ordem na casa quando for preciso.

— Ai vou? — questionou o deus da guerra, confuso.

Vai— confirmou Zeus, num tom tão ameaçador que vi Ares tremer da cabeça aos pés.

É claro que vou! Como eu poderia não o fazer? Haha — riu de um jeito nervoso, coçando a nuca como quem não quer nada.

E isso nos traz de volta ao presente, onde eu estou saindo muito emburrada do Olimpo, com um deus que eu odeio e que me quer morta e um deus que ama violência, pronta para ir arrumar as coisas que faltavam para ir ver meu novo apê, cortesia de Zeus (já que vou abrigar mais duas pessoas que o esperado), no Michigan.

Notas finais
É isso para já, minha gente. Não tenho dia nem data de postagem fixo, vou escrever quando der na telha. Me desculpem pela honestidade, mas prefiro não deixar as pessoas com demasiadas esperanças. Mesmo assim, espero que leiam e desfrutem. Qualquer erro, por favor avisem. Sou de Portugal, então nem sempre sai tudo bem ^^'