Commedia

7 Capítulo 6 Um toque do destino


Commedia

por Jodivise e Olg'Austen

Capítulo 6: Um toque do destino

Molhando um pano na tina de água, Otávia mirava o semblante cansado do homem estirado à cama de rede. Felizmente para este, ter sido resgatado por eles abrandara as lesões que tinha, pois a tripulação de contrabandistas não se coibíra de lhe dar um excerto de porrada fosse pelo que fosse.

― A...ai... ― gemendo, o paciente percebera algo molhado em seu rosto. ― Ma che...

― Não mexa. ― Otávia lhe apontara um dedo. ― É uma rodela de batata. É frio... faz bem a esse hematoma.

― Onde... estou? ― o sotaque italiano era tão forte que Otávia tivera de pensar para perceber.

― A bordo do Commedia. Navio que atacou o seu, lembra-se? ― passando o pano pela testa do homem, a ex-taberneira lhe sorriu.

― Sois piratas... ― sentindo-se balançar na cama, o italiano se ajeitara.

― Eles. Eu não. ― focando os olhos negros no nariz adunco alheio, a jovem lhe esticou a mão. ― Otávia Doormat.

― Lucciano Pimpinelli, piacere. ― Lucci lhe esticara a mão mas ao olhar para esta, sua face empalidecera, esbugalhando as orbes hazel. ― MIO ANELLO! MIO ANELLO DE RUBI... LADRI!

― Ei, acalme-se. ― Otávia se levantara, olhando o tresloucado. ― Quando cá chegou já estava sem anel.

― Ma che cosa! Preciso encontrar esse anello, signora! ― agarrando-se às saias de Otávia, este se chorava. ― Preciso voltar também. In caso contrario, io sono un uomo morto!

― Olhe... da maneira que isto vai... seremos todos mortos a curto prazo, hum? ― Doormat pegara na bacia de água, levando-a à cozinha, notando-se seguida pelo italiano cambaleante.

― Para onde vão? ― olhando o ambiente à volta, Lucciano se assustara com uma galinha, encostando-se à parede.

― Para norte.

― Nord?

― Sim... e olhe... já está bom? ― Otávia o mirara. ― Me ajude na cozinha. Esses cães comem como porcos. ― pegando em duas cebolas, a caribenha as depositara nas mãos de Lucciano.

― Cipolla? ― levando o legume aos olhos, como se nunca na vida tivesse visto tal, Lucci resmungou. ― Io sono um refém?

― Não... desde quando cozinha é cela?

― É trabalho forçado! ― Lucciano pousou as cebolas. ― Olhe minhas mani! Delicadas! Io non vou descascar cipollas.

― Está dizendo que minhas mãos não são delicadas? ― Otávia estreitou os olhos.

― Oh non... suas manis sono... como de um marinheiro forte… elegante! ― Lucci exclamou.

Otávia chegou a sorrir para depois pegar na colher de pau que jazia em cima da banca improvisada, batendo com ela no italiano falante. ― Me chame novamente disso e eu arrebento o outro olho... seu seu... ― e lembrando-se da única coisa que sabia em italiano, exclamou alto. ― Figlio di un cane!

― Ma che... cosa ingrata! ― lhe dando costas, Lucciano a deixou pendurada, fugindo da moça que deitava fogo pelas ventas. Saindo dali, o italiano fresco se quedara a olhar a cama de rede. ― Ho lasciato una cella... a venire e portare un arresto pirati. Merda!

*

Quando o novo dia nascera e enfim a tripulação parecia ter as forças no sítio, Victória achou por bem contar aos seus homens qual a prioridade daquela viagem.

― Brand... espero que já saiba das intenções que eu e Sparrow partilhamos. ― Victória o chamara.

― Já ouvi alguns falarem. ― o ruivo cruzara os braços, semicerrando os olhos azuis em direção à moça. ― E o Sea Lion?

― Nós iremos apanhá-lo, Brand. Viajaremos para norte... o mapa do tesouro de Ben indica isso. ― Victória lhe explicou. ― Mas provavelmente teremos de fazer alguma paragem mais antes de sairmos de vez do Caribe.

― Sabe quanto tempo eu levei a descobrir o paradeiro do Walls? ― Brand erguera a voz. ― Daqui a umas semanas ele já vão estar em outra rota! Na verdade, o mais certo é nunca o encontrarmos.

― Calma... é um tesouro. Um tesouro que Joe sonhava encontrar.

― Não venhas falar de honrar a memória de teu marido, Slaughter. ― Brand quase lhe cuspiu aos pés. ― Eu não vou perder aquele navio por causa da fantasia de um moleque doido que nem o Sparrow.

― Ouvi falar o meu nome? ― Benjamin chegara ao pé de Victória, apoiando-se nos cordames laterais.

― Brand quer ir atrás do Sea Lion... exclusivamente. ― Victória explicara.

― Foi para isso que eu me engajei. Mas parece que como sempre... ir atrás da pega do capitão é má ideia. ― Brand lhe apontou um dedo.

― Alto lá! ― Benjamin desembanhara a espada, apontando-a ao pescoço do ruivo. ― Aqui não se fala assim com as mulheres.

― Mas é o que ela é! Se fez de inocente e matou meu capitão. ― Brand não se intimidara, afastando a lâmina do outro. ― Tenha cuidado Sparrow... ou ainda acaba como Joe Slaughter.

― Filho da... ― Victória mordera um punho, engolindo a vontade de esmurrar o pirata. ― Como se tudo o que eu mais quisesse não fosse encontrar o Sea Lion!

― Tenha cuidado com esse seu mestre... eu não confio nele. ― Ben guardara a espada, mirando-a de cima.

― Acontece... que Brand é o único que sabe farejar o Sea Lion, Sparrow. Por mais besta que ele seja... eu preciso dele. ― Slaughter suspirara.

― Não me vai agradecer?

― Agradecer o quê? ― olhando de soslaio, Victória percebera o sorriso luminoso no rosto de Ben.

― Lhe salvei a honra.

― A honra? ― Victória soltou uma gargalhada, chamando a atenção da tripulação. ― Minha honra já se foi... o que me sobrou foi o orgulho de ser quem sou, Benjamin.

*

Mexendo a sopa que serviria de almoço aos piratas, Otávia mirava o aluado por cima do ombro. ― Porquê essa cara?

― Nada. ― Robert jazia cabisbaixo, limpando a própria unha.

― Eu te conheço, irlandês! ― Otávia deixara para lá o que fazia, voltando-se ao eterno menino, vendo-o encostar numa das traves, fechando os olhos ao engolir em seco. ― Tem a ver com a Victória, não?

― Acha que... ― as palavras saíam a custo, enquanto uma sensação estranha apertava o peito de Robert. ― Victória vai casar com o Sparrow? Como fez com o Joe?

― Você é doido? ― a caribenha rolara os olhos, rindo em seguida. ― Ela não vai casar com ele porque ela não casou com o Joe. Ele a tomou como mulher apenas. E contra a própria vontade. ― Otávia ficara distante. ― Devia ser um monstro esse homem...

― Ben é capitão... talvez ela queira tomar o Commedia de vez. ― Rob encolhera os ombros.

― Ela não quer este navio e sinceramente... não acredito que vá com a cara de Benjamin. ― Otávia lhe apontou o dedo, abanando a cabeça depois. ― Há quanto tempo, ein? Há quanto tempo você é louco por ela?

― Eu, ein? ― Robert corara, desencostando-se da trave. ― O calor do porão a está deixando de miolo mole?

― Eu não sou estúpida. Ei, volta aqui! ― Otávia batera o pé, vendo-a afastar-se. ― Não gosta de ouvir a verdade...

Vendo-se sozinha novamente, Otávia voltara ao preparado fumegante. Não seria um manjar dos deuses. Os parcos legumes não davam para fazer iguaria semelhante à de sua mãe. Mas sempre forrava os estômagos com algo.

Entretida a cantarolar algo, a jovem caribenha não dera sequer conta de alguém se colocando atrás de si. O homem corpulento a analisava, quedando-se nas curvas da moça que mesmo navegando há mais de uma semana, continuava a adoptar saias. Se nunca andara vestida como um rapazinho, não seria agora que o faria. Mas talvez o devesse.

Victória a avisara dos perigos de uma tripulação cujas presenças femininas eram nulas. Mas quase não saindo da cabine, Otávia pensava que semelhante perigo estaria longe. Agora, ali, enquanto toda a tripulação se atarefava no exterior, Otávia sentiu algo se encostar a si, tapando-lhe a boca com uma mão.

― Até que enfim... Evinha! ― a voz sebosa de Brand lhe soara aos ouvidos como um alarme. ― Não se dava para ninguém naquele bar... agora aqui não sai desse porão...

Sentindo uma mão do pirata lhe subir pela saia, alcançando-lhe os quadris, Otávia tentou se soltar esperneando, mas a constituição corpulenta de Brand não o permitia, amordaçando-lhe a própria boca, subindo o rosto barbado pelo rosto dela, fazendo-a entrar em pânico.

― Hu...um! ― a jovem tentara gritar quando Brand a agarrara pela cintura, virando-a para si e encostando-a na trave onde anteriormente Bob estivera. Ali, ele lhe soltara a boca, segurando-lhe o rosto, marcando-o com a pressão dos dedos. ― Me... solt...a.!

― Shiu... sua mãe não era tão arredia. ― Brand lhe sorrira, fazendo-a sentir um nojo tremendo deste. ― Eva se dava para todos.

― É... mentira! ― Otávia percebia seus olhos arderem na eminência do choro, lutando o que podia, ao tentar bater no peito do homem.

Virando o rosto com dificuldade, Otávia lhe conseguira cravar os dentes na mão próxima mas o que sentira fora o quente do estalo que este lhe dera a seguir, fazendo-a sangrar do canto da boca. Dando-lhe a volta, percebendo-a tonta, Brand se colocara às suas costas, levantando-lhe a saia a apertar a pele de suas coxas.

Mas quando já se preparava para baixar as próprias calças, o som de metal ecoando fora ouvido e Otávia percebeu o peso às suas costas desaparecer. Tremendo, a caribenha se virara, com o rosto em lágrimas, vendo o pirata estendido no chão.

― Ma che sucedere? ― Lucciano, de panela na mão jazia estático, esbugalhando os olhos para o pirata e para a moça que escorregava até ao chão. ― Bambina de Dio! Está biene?

Chamada por um grito que julgara ouvir, Victória aparecera junto com Robert, surpresa ao perceber o cenário. ― O que se passa aqui?

― Esse cane...o apanhei a molestar a bambina de olho negro! ― Lucciano pousara a panela, se afastando do corpo do desacordado.

― Otávia, céus! ― Vi se abaixara até à encolhida, levando uma mão aos seus cabelos. ― Ele te fez algo?

― Eu quero ir para... o meu quarto... ― Otávia falou entre soluços.

― Ele tentou abusar dela, Victória! ― Robert fizera a maior cara de asco, pontapeando o pirata desacordado que gemera algo.

― Seu... CABRÃO! ― Victória voara neste, levando as mãos ao pescoço de Brand, tentando sufocá-lo e fazendo os olhos claros dele se arregalarem.

Com a confusão, Otávia fugira para a própria cabine, trancando-se lá, enquanto Robert segurava a pirata indomável pela cintura, afastando-a de Brand. ― Não vai resolver as coisas assim, Vic!

― Me deixa... matar esse sacana! ― Victória esperneara, chamando mais homens com o alarido, inclusivé Benjamin.

― Que gritaria é essa? ― na ausência da vítima, Ben se perdeu, apenas dando com Brand tossindo violentamente ao chão e Robert agarrando Victória, puxando-a para si ao encostar-se na parede.

― Esse canalha tentou estuprar a Otávia. ― Robert dissera.

― Que... ― Brand tentava falar no meio da tosse. ― Drama...

― Vai negar, seu filho da... ― Slaughter esbravejava possessa.

― Ela estava precisando... não é tão inocente como diz... ― estúpido, Brand ainda sorrira.

― HOMENS! ― Ben berrara. ― Levem-no para o tombadilho e amarrem-no.

― O que vai fazer? Jogar-me da prancha, filhote de pardal? ― Brand lhe resmungara quando os outros piratas o agarraram.

― Sou pirata mas não sou mau carácter. ― Ben se aproximou deste, arregalando-lhe os olhos. ― Lugar de cães sarnentos como você é no inferno.

― Por pensar dessa maneira é que teu pai nunca foi um grande pirata. ― Brand lhe disse irónico.

― Atirem-no borda fora. ― fora a ordem de Benjamin.

― Esperem! ― já recomposta, Victória confundiu-o com tal pedido.

― Vic... ― o irlandês que tudo acompanhara se indignou.

― Ele é um cão, mas sabe o caminho para o meu navio!

― E você é tão egoísta que vai deixá-lo por aí? ― Ben perguntou.

― Eu não sou egoísta! ― Victória levara as mãos aos cabelos. ― Eu quero que ele seja é devorado por tubarões mas… ― puxando o braço de Benjamin, esta se chegou, falando confidente. ― Ele é a única via para reaver aquilo que me pertence. Por favor… dê outro castigo… mas não o mande para fora agora… não antes que encontre meu navio.

Os olhos negros do pirata se dividiam entre mirá-la e ao ruivo insolente. Mordendo os próprios lábios de nervoso, Benjamin apontara um dedo ao escocês. ― Vai para a cela e não sairá mais de lá.

― Mas não sem levar dez chicotadas. ― Victória falou, fazendo os olhares se voltarem a si. ― Ele magoou minha amiga… não sairá daqui sem saber o que é dor.

― Como se eu já não estivesse calejado. ― Brand riu.

― Óptimo. Trinta chicotadas e cela. ― Slaughter estreitou os olhos, virando costas para o cenário que se seguira.

*

Encolhida num dos cantos daquela cabine, Otávia se embalava a si própria, tentando esquecer o episódio que vivenciara na pele. Estava acostumada a homens violentos. Afinal era dona de um bar. Mas sempre soubera se impor. Sempre soubera contornar as situações e não passar por aquilo que sua mãe se assujeitara.

Eva Allende… era esse o verdadeiro nome de sua mãe que a própria tratara de esquecer e substituir por Doormat. Não o fizera porque lhe apetecera ou porque a isso a obrigaram. Eva tinha-o feito para evitar que o pai de Otávia as procurasse. A razão, só ela sabia. Mas o que a progenitora tinha passado para conseguir o respeito em Tortuga… Otávia sempre soubera que Eva se prostituíra. Que o fizera para poder criá-la. E que acabara conquistando o antigo dono do Faithful Bride, ganhando o bar que lhe dera um futuro.

Agora, esse futuro pertencia a Otávia e pelo menos, até à data, nenhum problema havia surgido. Mas a caribenha sabia no seu íntimo que poderia ser presa caso a Marinha o quisesse. E sabia que, como qualquer outra mulher, estava exposta aos desejos sórdidos daqueles homens. Tinha fama de durona e aos 20 anos lhe deviam respeito naquela ilha. Mas Otávia só o conquistara quando tivera de passar pelo egoísmo e brutalidade que marcavam aqueles homens do mar.

1739

Fazia dois anos que a mítica Eva Doormat, morena das Américas como era conhecida, tinha morrido à mercê de uma febre, deixando o pouco que tinha para a sua filha, Otávia. Fazia 730 dias desde que a moça com agora 16 anos, tomara conta daquele bar/hospedaria administrando-o tal como sua mãe lhe pedira: livre da aura negra que um dia tivera. Um refúgio limpo e sereno para piratas. E fazia um ano que aquele seu ajudante de grandes olhos verdes a ajudava na lida de taberna.

Otávia era já uma garota peculiar, dada ao trabalho, sem olhar a fantasias e namoricos escandalosos. Mesmo no meio daquelas mulheres da vida, a jovem parecia não ligar, impondo respeito aos mais atrevidos e um travão no intento dos mais galãs. O seu ajudante estava cotado para ser padre, mas ela é que parecia mais decidida a seguir uma vida casta.

― Olhem se não é, a mais bela flor do jardim de Tortuga! ― um homem na casa dos vinte anos se aproximara de Otávia naquela noite, onde piratas cantavam animados e apostavam o que tinham e o que não tinham na mesa de jogo.

― Bruce… ― Otávia revirou os olhos, percebendo o jovem de tons morenos cujos olhos hazel se destacavam. Não era feio, mas também não se podia chamar de beleza. E para Otávia, era mais um marujo lhe enchendo a paciência num dia de afazeres. ― Existem muitas flores por aí… mais abertas.

― Mas eu gosto delas fechadas. Ainda por desabrochar! ― aproveitando que esta enchia umas canecas, o atrevido levara uma mão ao rosto da jovem, puxando-a para si.

― Largue-me! ― Otávia se desenvencilhara do cara pegajoso, colocando as canecas numa bandeja de madeira, saindo a distribuí-las entre as mesas. ― Já lhe disse, Bruce. Eu não estou interessada. Procura outra. Eu não fico com ciúmes, ‘tá?

Bruce parecera desistir, colocando as mãos no ar, numa trégua. No entanto, o jovem continuara na área, atento a cada passo de Otávia. Já o era assim desde que lhe pusera a vista em cima e quanto mais negativas levasse, mais atiçado parecia.

― Aquele patrãozinho… não tira os olhos de você, Otávia. ― Robert mirava o marujo ao fundo.

― Quando lhe cair os olhos avisa. Doido. ― a garota bufara, contando o dinheiro que fizeram.

― Tenha cuidado. ― o celta lhe dissera, limpando um jarro vagarosamente. ― Eu não confio nele.

Otávia apenas sorrira para o taberneiro, abstraindo-se daquela presença incómoda. E tanto o fizera que acabara por nem notar a sua saída ao fechar o bar. Trancara as portas, encaminhara os últimos piratas para a rua e os hóspedes para os quartos. Despedira-se de Robert e seguira para o seu quarto, o último do corredor de cima. Sentia-se cansada. Tão cansada que saberia que adormeceria em segundos mal caísse à cama.

Mas tempo, ela só tivera de retirar o avental. Apanhada de surpresa, Otávia sentira alguém agarrá-la por trás, rodando-a e dando de caras com um Bruce sorridente e bêbado. ― Olá, minha flor!

― Bruce? ― os olhos negros da caribenha se arregalaram, sentindo o hálito impregnado de álcool do marujo. ― Me larga.

― Não… não me faz ficar olhando novamente! ― Bruce exclamou, atirando-a à cama. Otávia deixara escapar um grito que logo fora abafado quando o moreno lhe tapara a boca, colocando-se em cima de si. Com uma mão ele lhe impedia de falar, com a outra segurava-lhe o braço.

Otávia sentia seu coração acelerar, um pânico tremendo apossar-se de si, materializado nos olhos aterrorizados e nas pernas inquietas, tentando pontapear o sujeito. Mas embora bêbado, Bruce tinha muito mais força que a jovem, forçando-a ao capturar-lhe o pescoço, sugando-lhe a pele sem delicadeza nenhuma. Tirando a mão do rosto de Otávia, Bruce lhe tomou a boca, enveredando a língua pela cavidade alheia.

A taberneira aproveitara a oportunidade, trincando-lhe o lábio, lacerando este. ― Argh… cabra! ― Bruce se levantara, sentado sobre a moça, levando os dedos aos lábios, percebendo o sangue escorrendo. Furioso, quando Otávia pronunciara um socorro, este a esbofeteou.

Atordoada com a força do impacto, Otávia ainda tentara tirá-lo de cima de si, mas o que sentira a seguir fora a sua alma morrendo aos poucos, a retirada abrupta da sua dignidade, da sua honra. Bruce lhe rompera a blusa lhe beijando sem carinho nenhum, apenas sedento pela pele da moça, louco por satisfazer seu desejo ao se desenvencilhar da própria roupa.

O que se seguira não fora digno de ser visto. No momento em que o sentira colocar-se entre suas pernas, tirando-lhe a roupa de baixo, Otávia cerrara os olhos, sufocando no próprio choro. Agora, ela compreendia o porquê de sua mãe chegar chorando. O porquê desta dizer, ao rezar, longe da filha, que nenhum homem possuía a doçura do seu amor. Eva amava seu pai e no entanto, preferia esquecê-lo. Não, esquecer não. Porque quem se ama não se esquece.

E embora sua mãe caísse naquela vida porque não tivera oportunidade, nem todos os clientes eram bondosos ou no mínimo razoáveis. Muitos se tornavam violentos. Abusavam delas, lhes espancavam. Otávia jurara que não seria o que Eva fora. E no entanto, ali, sentindo aquele infeliz gemer de satisfação ao possuir seu corpo incorrupto, Otávia se sentia a mais suja das mulheres, pois fora conspurcada da pior forma.

Seu corpo fora estuprado. Seu coração violado. Sua alma, ferida de morte para sempre. E no final, ela apenas se quedara na mesma posição, olhando a parede, sem nenhuma emoção no rosto. Bruce ainda abusara no final, lhe deixando uma rosa vermelha sobre a cama. Quando a porta batera, Otávia se entregou a um choro compulsivo, cujos gemidos intercalados a soluços foram ouvidos pelo próprio empregado.

Robert, que buscava um copo de água, se colocara atento quando julgara ouvir algum grito abafado vindo do quarto da patroa. E quando surpreso, se escondera ao ver Bruce sair do seu quarto, o irlandês tivera plena noção do que acabara de acontecer. Quisera ir atrás daquele homem odioso, mas o choro que ecoara o fizera voltar atrás, batendo na porta de Otávia. E quando espreitara, a vira ali, jogada, ferida na própria dignidade. Ela o fizera prometer que nunca, mas nunca deveria tocar naquele assunto. Ele morria ali e Otávia fizera Robert jurar levá-lo para a cova. De Bruce nunca mais ninguém soubera. De Otávia, continuaram a vê-la… mas sem o sorriso de antes.

*

“Isso é sério?” — a voz de Benjamin perguntara no auge do seu sotaque, comendo as consoantes ao prolongar cada vogal, emendando-as — Continua insistindo nisso, Sr. Pintel?

O velho lobo do mar assentiu com a cabeça, trincando os dentes podres ao se lembrar do caminho que Jack sempre tomava quando o sobrenatural vinha no seu encalço, ou quando a morte certa o espreitava. — Era nela que ele mais confiava, capitão!

— Uma feiticeira, uma... — Ben ousou falar com desdém da memória de Tia Dalma, mas Pintel lhe ergueu um dedo, tentando manter-se respeitoso ao mesmo tempo em que passava um corretivo no filho de Sparrow.

— Sh...! — levando o mesmo dedo aos lábios secos, Pintel emendou: — É a Deusa Calypso...

— Tia Dalma é a Deusa Calypso... Tá, tá, tá... Já entendi! — Benjamin abanou a cabeça. — Quando meu pai me falou eu não consegui acreditar... Aliás, é impossível acreditar!

Às suas costas Victória gritara. — Parece que é retardado! — a moça falara consigo. — ... Eu conheço essa história. Joe me contava... Era minha favorita. A deusa Calypso e o temido Capitão Davy Jones...

— Histórias são histórias, Slaughter... Aprenda isso.

— Ora essa! — ela cruzara os braços sobre o peito. —... Histórias sempre são mais do que histórias. Não se contente com tudo que ouve, Lane...

Irritadiço, o capitão a corrigira: — Sparrow!

— Acredite em tudo, mas nunca se contente! Sempre há mais por ser descoberto.

Voltando-se ao imediato, Benjamin girou os olhos — Quanto tempo até chegar à essa... Deusa?

— Já mudou de idéias? — Victória fez graça da indecisão de Benjamin. Girando o corpo na direção do mestre, ela seguiu a falar. — Enfim, eu ordeno ao Sr. Pintel, que sigamos até a Tia Dalma.

— Que seja! — Ben mostrara-se cético ao assentir à ordem alheia. — Duvido mesmo que meu pai tenha deixado algo tão valioso com alguém que fique em terra, mas vejamos se seus dotes de capitã e se seu senso de direção nos leva a algum lugar, hum?

— Você não nasceu mesmo pra ser pirata, hein, garoto? — sem querer, Pintel olhara o filho de Jack piedosamente, não contendo as palavras que lhe saiam boca afora.

— Olhe como fala, Sr. Pintel! — o jovem nervoso bradara, extraindo um sorriso de Victória —... Sou o capitão dessa...

MERDA!” — o timbre italiano soara distante, saído do porão enquanto Pimpinelli passava pelo alçapão até o convés. — C'è uma ratazana na minha rede! — trazendo o bicho morto, pendurado pelo rabo, ele foi na direção do tombadilho, interrompendo os negócios dos capitães. E, que diabos, nunca estivera em muitos navios, mas recordava-se bem que em nenhum deles haviam dois capitães. — Quem faria tal cosa, eh? Imediato?! Eh, immediato?!

Mirando por cima dos ombros a figura de Lucciano, Benjamin não acreditou ser consigo que esse falava. — Alguém, diga a esse senhor que eu sou o capitão desse navio.

— Sr. Lucciano... — Victória levou uma mão à cara, sentindo vergonha por Benjamin. — Lembra-se que são dois Capitães, hum? E o que faz aqui...

— Dois capitanos... — Pimpinelli erguera as duas sobrancelhas, ouvindo tal informação pela segunda vez. — Certo. Mà, eu pensava che eram a signorina e aquele gorducho ali...

— Olha pra mim! — Ben chegara próximo ao homem, encarando o rosto ainda contundido deste. — Eu sou o capitão. Se esta aqui, foi porque eu permiti, compreende?

O tipo de apelido Lucci, mirara aquele um tanto mais alto que si, descendo os olhos claros pelo corpo do pirata, tornando a subir até o rosto barbado do mais moço. Algo na maneira com que o italiano lhe fitava fazia Benjamin sentir-se ameaçado. Sparrow sentira-se estranho, incomodado até. Para pioras as coisas, Pimpinelli ainda lhe sorriu, exibindo os caninos, cerrados, avantajados com um estranho interesse no falar. — Certo, capitano!

— E... Tira esse rato daqui. — o moreno investiu.

Em dois movimentos, depois de jogar o bicho morto ao mar, Lucci levara a mão aparentemente limpa, mas suja pelo segurar do animal, à casaca de Ben, limpando os dedos por ali. — Grazie...

— Aqui falamos inglês. — o louisiano lhe informara. — E é isso que deve falar.

— O nome do navio é... Commedia.

Pintel e Victória se dispersaram da conversa redundante que estava pra acontecer, enquanto Benjamin e o ilustre napolitano só faltavam se estapear. — E no que isso te diz respeito?

— Em nada... — Pimpinelli rebatera, andando à volta do capitão que de si queria mais era distancia — Mà, ao menos sabe o que significa Commedia? Não é pra fazer graça, eh! Significa que não é um drama... Que se tem um final felice!

— Pois em todo trajeto que se inicia, a bordo deste navio, há um final feliz.

— A sério? È ridicolo.

Benjamin dera a volta em Lucciano, afastando-se de si. — Não entendo uma palavra do que diz!

— Pois io digo o mesmo, eh! — o outro rebatera — Onde aprendeu inglês? Na beira do Mississippi? Suo accento é indecifrável... É inglês ou francês? Io non entendo niente!

— O que tem contra os homens do Mississippi? — a expressão de Benjamin tornara-se dura a encarar o outro.

— Contra os creolos nada, mas sendo tu bianco... Ainda falta muito para vocês libertarem aquele povo, eh? — provocou-o. Irritado e incapaz de manter algum diálogo que fosse com aquele homem, Sparrow se desvaneceu em dois tempos, nem chegando a ouvir a última gota do veneno de Lucci cair. — Aposto em... Cent’anni. — ao ver dois tipos em meio à tripulação soltar risadinhas para si, ele ralhou. — O ratinho era di voi? Esperem e verão!

*

Dias depois...

Descendo até o porão, Benjamin chegara à beira da cozinha. Há algum tempo Otávia ali não pisava. Aliás, há tempos a tripulação sequer a via. Ben já começava a esquecer-se do rosto da taberneira. Na verdade, há dias que o filho de Jack Sparrow não conseguia lembrar-se de muita coisa além da voz e das feições de Victória Slaughter. Tinha vontade de se bater por estar deixando-se encantar, novamente. A última vez que o fizera fora há muitos anos, era um rapaz de quinze anos, cheio de sonhos e com uma inocência infantil que, nos dias de hoje, os rapazes daquela idade não tinham mais.

Seu nome era Clara e, a contrastar com este, possuía a pele cor de chocolate mais bela que Benjamin um dia recordara já ter visto. Era mais velha que si alguns anos, talvez uns dois se o jovem Sparrow bem recordava. Era irmã de George, seu velho amigo. Os três eram invencíveis naquela época.

Lady Penélope, sua mãe, não ligava para tais detalhes, ficava feliz em ver seu filho enturmado até, apesar das constantes escapadas do menino. Os colonos, porem, olhavam enviesados para qualquer coisa que proviesse da família de Big Sam. Um dos primeiros escravos libertos da região. Pô-lo em liberdade fora a primeira coisa que seu antigo senhor fizera ao assumir as terras do pai.

A voz de Clara soava em sua mente naqueles momentos, alertando-lhe de que o coração sensível do rapaz um dia poderia levá-lo à maus lençóis. Se soubesse ao menos que ele havia se tornado um pirata, seguindo no rastro do pai, ele sabia, a mocinha jamais colocaria o negro de seus olhos nos de Benjamin. — Duane! — a voz do capitão soara, despertando outro sonhador que num canto jazia sentado fumando um cigarro por si mesmo feito. — Não sabia que era adepto do tabaco.

— Eu também não sabia! — os olhos verdes de Robert firmaram-se na brasa do fumo. — Capitão, senhor, o que faz aqui?

— Fugindo das responsabilidades, ora... O que mais seria?

O irlandês se endireitou, erguendo a vista até o rosto do outro que o imitara, tirando o tricórnio da cabeça a sentar-se no chão, à beira de uma rede. Desconfiado, Bob levara uma mão aos próprios cabelos, terminando de assanhar os caracóis já desalinhados. — Eu não estou aqui fugido de minhas responsabilidades. Pelo contrário! — o sotaque celta, arrastado lhe falara com afinco. — Eu vim atrás delas, por isso subi nesse navio... Na companhia de Victória.

— Victória... Victória... — Ben coçara a barba, encontrando na figura de Robert um lugar onde pudesse se sentir à vontade. — Doce e azeda...

— Victória é agridoce. — Robert sorriu de canto, soltando a fumaça por entre os próprios lábios carnudos, mirando o assoalho como se ali estivesse sua amada. — ... Gostaria de entendê-la, mas não tenho esse direito. Ninguém tem.

— Mas você a conhece muito bem... — curioso, Sparrow se achegara no outro.

O irlandês pensara muito antes de falar: — Conheço menos do que parece.

— Conte-me do pouco que sabe.

— É uma ordem, senhor Capitão? — com desdém Bob perguntara, atiçando-o a implorar. — Pergunte-a, ora essa! — quem era Benjamin para ir até ali e lhe perguntar sobre a garota dos seus sonhos, com uma clara segunda intenção por trás das perguntas que fazia?

Os olhos pretos do mais velho rolaram numa impaciência. — Por favor. Ela é arredia, mas provocante. Num segundo parece que a tenho nas mãos, mas aí ela escapole!

— Essa é a Victória. — perdido no que falava, Bob meneou. — Uma menina linda que te olha como se fizesse a um possível amante... Mas que te trata como um irmão. — ele devaneara mirando a pintura mental que tinha da moça pirata. — Ela te tira o chão quando você mais precisa dele, mas te devolve à terra quando tudo que você quer é sonhar... Te dá asas, mas depois corta cada uma das penas num ato impensado... — sem querer ele sorrira bobo. — Às vezes, até magoa, mas tudo bem. Eu gosto.

A última frase, “Eu gosto”, dita por Robert não fora ouvida por Benjamin que se ouriçara logo a lhe pedir: — Sim, sim! Ela é assim mesmo! Ajude-me, Duane!

— AJUDÁ-LO? — estupidamente, Robert rebatera tal questionamento. Jamais ajudaria Benjamin a conhecer mais de Victória. — Seja idiota só, Sparrow!

— Olhe como fala! — Ben lhe apontara um dedo. — Por favor! Eu quero convidá-la a um jantar... Hoje à noite... Quero apenas sentar-me e conversar... Quero conhecê-la!

— Está doido? — Robert sorrira debochado, tratando de se por de pé. — É impossível conhecer Victória Slaughter... Ela é diferente.

Benjamin soubera ser insistente, deixando o irlandês colocar a mente por funcionar, esquecendo dos escrúpulos que padre Duane lhe ensinara, maquinando algo para cima do pirata. — Eu quero conhecê-la!

— Diacho! — Bob sacudira os ombros. — Está bem! Eu falo do seu convite...

— Que tipo de comida que ela gosta? Eu mandarei fazer a melhor que houver... Música, ela gosta de música? Tem alguma cor favorita? Posso lhe dar jóias...

— É... Victória gosta de... Safiras. — Mentira. Se havia uma pedra preciosa que Victória pudesse admirar estas eram esmeraldas. Nunca gostara de safiras e o fizera muito menos depois de ter conhecido Joe Slaughter e seus inflamados olhos azulados. —... Ela adora peras... Quanto mais doces, mais gostosas ao ver da Vic! — seguindo na mentira cabeluda que contava, Robert levou um dedo ao queixo, engenhoso. — Não parece, mas ela também se agrada com homens recatados... Quase lordes ingleses. Tem em mente algum que possa imitar? Tomar chá com leite, e tal?

— Minha mãe me falava do homem que quase me serviu de pai... Pai do diabo, isso sim... Mas sim, posso ser bem britânico se a Victória quiser. — levantando-se, Benjamin se adiantara. —... Arre! Tenho que tomar um banho, me preparar para o jantar!

— Não pense em fazer isso... — Robert principiara outra mentira, arqueando as sobrancelhas negras. — Victória odeia homens que tomem banho... O último namorado que teve tomava banhos apenas duas vezes ao ano. Mesmo assim ela só o queria ver em uma altura; na véspera de se encher a tina d’água.

— Porque.... — Benjamin lambera um lábio, curioso. — Porque ela é assim? Algum trauma?

— Ela gosta do cheiro da pele sabe?

Deitando a língua de fora, Ben brincara. — “Do fedor” você quer dizer?

— Que besteira! — Robert ralhara. — Se quer algo com ela, tem que fazer tudo isso. Peras, safiras, chá com leite, sotaque inglês e ausência de água.

— Que mulher incrível... — Sparrow dissera, fascinado. — Vou providenciar tudo isso, e, você, estenda meu convite à ela, por favor, Duane... Bob! Meu bom amigo!

A malícia no olhar cristalino de Robert não fora vista por Ben que se adiantara a sair do porão. — Pode deixar, Benjy.... — o celta sorrira, jogando o cigarro ao chão, apagando-o com o solado de uma das botas. — Considere o convite estendido.

Doía armar para cima de alguém que jamais nenhum mal lhe fizera. Na verdade, noutras épocas, doeria armar qualquer coisa que fosse para cima de alguém que até lhe havia magoado de alguma forma. Padre Duane lhe ensinara a ser bom, acima de tudo, mas Robert mudara. Continuara mantendo o coração enorme que possuía, mas... Sparrow somente calado já lhe provocava náuseas. Sparrow falando da sua garota, desejando-a, lhe provocava um intenso ódio.

Armaria para cima de Ben sim, e não se arrependia em cultivar tal mau sentimento. O pirata lhe tratara como um simples taberneiro até ao momento em que o vira cruzar espadas com Victória, não seria agora que começaria a respeitá-lo e tão pouco faria Robert ao filho de Jack.

*

Victória ficara de orelhas em pé quando Robert chegou próximo a si, contando-lhe o que Benjamin lhe pedira para fazer. — Jantar? Porque ele quereria jantar comigo? Eu o odeio!

— Bom... — abocanhando uma maçã tão rubra quanto a coloração que as bochechas dele tomavam ao disparar aquele plano maléfico, Robert lhe falara. — Ele quer vê-la. Acho que vai lhe dar a cabine do capitão... Pelo menos foi isso que o idiota me disse. Muda-se para lá com sua espada e com seus casacos, Vic... Ele vai te dar a cabine.

— Deveria ser minha mesmo... Por direito. — ela disse num bico.

Emburrada, Victória vira Robert se apoiar à contenção do convés, de costas para o mar. O suco da fruta escorrera pelo canto da boca do irlandês, prendendo a atenção de Slaughter que acompanhara a saga da gotícula turva descendo pelo pescoço e sumindo no vão da gola da camisa rota deste. — Vai lá... — ele sorriu pronunciando os olhos claros na direção dos dela. — A hora já se aproxima, capitã!

— Pois... — ela abanou a cabeça, inflando o peito.

— Pois, pois?

— Como estou? — Vi lhe perguntou, endireitando o chapéu à cabeça.

Para quem costumava lhe elogiar a cada passo que dava, a resposta ouvida da boca de Bob fora decepcionante. — Não está mal.

— Quer dizer que eu estou bem?

— Não... — ele repetira. — Quer dizer que não está mal.

— Oh! Obrigada! — engolindo qualquer exclamação, Victória lhe deu as costas. Robert ficara com sua figura que se distanciava. Claro que estava bem. Estava bela como sempre, mas o celta cansara de lhe expor seus sentimentos e opiniões para depois apenas um assanhar de cabelos ou um beijo engraçado receber.

Antes de vê-la adentrar na cabine muito bem iluminada de Benjamin, Bob apenas baixara os olhos, desistindo da maçã ao falar num tom baixo, apenas para que ele próprio pudesse ouvir: — Está... Belíssima.

Ao adentrar nos aposentos de Sparrow, Victória não se reconheceu no mesmo lugar em que antes já estivera. A luz amarela da dezena de candeeiros dispersos pelo ambiente quase a cegaram. A atmosfera quente que ali fazia produzira comichões sob sua roupa, mas mais incomum era a imagem de Ben Sparrow a recebendo na soleira da porta, indicando, num gesto cavalheiro, a cadeira em que pudesse se sentar.

O rosto antes barbado do pirata jazia nu, liso como não sei o que. Algo o havia atacado nas últimas duas horas? Uma infestação de piolhos, talvez? Os cabelos antes soltos seguiam apanhados para trás e o forte sotaque sulista havia dado lugar a qualquer porcaria que alguma vez ele ouvira seus tios falarem em Liverpool.

— Não esqueceu a peruca branca, não? — fora inevitável não brincar com os novos modos do capitão. — Não foi a Otávia que fez isso, pois? — mencionando o jantar sobre a mesinha ela sorriu. — Não me leve a mal, mas não vou comê-lo.

— Peras, minha adorada capitã? — galante, Ben lhe passara o prato onde, cortada, meia dúzia da tal fruta jazia.

— Não... Não aproxima isso de mim! — com os olhos castanhos salientados, Victoria bradara. — Já esteve no Egito? Aquelas catacumbas cheiram à pera.

— Não... — Ben não entendera tal recusa ou tal comparação com as múmias egípcias. Robert dissera que ela adorava, como podia então? — Não gosta de peras? Desde quando?

A moça girou a cadeira, sentando-se deselegantemente. — Desde que me lembro. Escute, soube que queria tratar de negócios comigo... Vamos ao que interessa, hum?

— Fale-me de você, senhorita Victória — apoiando o queixo num dos punhos, Benjamin lhe inquirira. — ...Desde quando tornou-se essa loba solitária?

— Arre, Sparrow! — ela se separara quando a mão livre do capitão tentou alcançar a sua sobre a mesa. — Esses tempos já passaram... Consegui subir a bordo, não preciso mais dessas ceninhas! Quero sua cabine, e você me quer dá-la, certo?

— Você quer dizer, dividi-la consigo, não? — Benjamin sorrira num tom charmoso. — Comecei uma leitura fascinante, doce Victória...

— Fala direito, cabra! — a pirata ralhou. — Parece que vai engolir a língua!

Clamando por paciência, ele se levantara, andando até à beira de Slaughter. — Shakespeare, já ouviste falar?

— Você é grego mesmo... — estreitando os olhos, Victória se via confusa com a esquizofrenia alheia.

Curvando-se ao encontro da garota, Benjamin falou-lhe de frente. — Romeo e Juliet... Bela história, fascinante... Fascinante!

— Sparrow... Afasta um pouco. — pediu, levando uma mão à cara barbeada de Benjamin. —... Você tá fedendo... O que andou fazendo?

— Nada... — ele pôs-se envergonhado, mas mesmo assim tentara ainda cativá-la. —... É o meu cheiro.

Victória contivera uma ânsia, saltando da cadeira, afastando-se o máximo que pôde dele. — Pois, você fede! Fede mais que o Brand!

— Não brinque comigo, Victória... — ele engrossara o timbre de voz, antes de se lembrar do único trunfo que tinha na manga, na verdade, no bolso das calças. — Olhe o que tenho para si. — Erguendo o colar de pedras azuis, quase violetas, até a altura dos olhos dela, ele terminou por cavar a própria cova. — Ciano... A cor não me agrada minimamente, mas ao saber que gostava, tratei de lhe oferecer tal jóia... O colar é seu, Victória. Use-o em memória do que sinto por si...

— O que sente por mim? — num único movimento, ela jogara o enfeite ao chão — Você é DOIDO?

— Quero dividir a minha cabine consigo... Sim eu quero.

Enraivecida, Vi dera para trás, colando-se à porta daquele cômodo. — Robert me disse que queria me ceder a cabine. Não disse que me chamaria de galdéria novamente!

— Eu jamais lhe chamei de galdéria... É um pouco atrevida, mas jamais galdéria... — um clique fez-se na mente do pirata estúpido, finalmente. — ROBERT!

— O que tem ele? — como se mirasse um louco, Vi apertara os olhos.

— Irlandês miserável! — Ben bradou. — Peras, falta de banho, safiras... Sotaque da Coroa... ARGH! Vou esganá-lo!

Erguendo uma mão até um palmo na frente dos olhos pretos ensandecidos, Victória lhe barrara. — Não vai não.

— Quem vai me impedir?

— EU! — ela gritou-lhe. — Sabe de uma coisa, Sparrow? Sou eu que vou esganar o taberneiro mais safado de toda Tortuga!

*

Robert dançava ao som da gaita de Pintel. O imediato de Benjamin divertia-se ao agitar os ânimos, vendo os colegas piratas se animarem a sacudir as pernas no ar. Há pouco o irlandês havia visto Victória adentrar na cabine de Benjamin, sentara-se solitário a vigiar a cela de Brand, mas logo o pirata gorducho, cujo o branco dos olhos eram amarelos, lhe chamou para aproveitar um pouco de música.

Para a surpresa do celta, porem, foi sem esperar que Victória descera como um raio até o porão, interrompendo a música ao lhe puxar para um canto. Antes que algo fosse dito, a mão delicada da moça que lhe apertava o braço folgara-se. — Oi, Vic... — ele falou, mas antes que o cumprimento fosse replicado, sentira um tapa ser estalado numa de suas faces que colocara-se a arder logo em seguida. — Diabos!

— Fala baixo! — vendo-o alisar o rosto ardente, Victoria falara ríspida. — Qual é a sua, hein?

— Qual é a minha o quê? — desviando de um olhar curioso de Pintel, Robert a puxara mais para próximo das redes. — O jantar estava assim tão ruim?

— Olha que cínico! — Slaughter erguera um dedo. — Você sabia que ele queria me fazer de meretriz de novo?

Sobressaltado, Robert rebatera: — Quê? Benjy só queria jantar contigo...

— Me ofereceu a cabine, sim... Mas para dividi-la com ele! — repassando o apelido ouvido Victória reincidira: — Benjy? ‘Tá doido? Você está me jogando para cima dele, Robert? Ele fede.. E agora quer ser inglês... Falta miolos para aquela cabeça tão grande!

— Por que eu te jogaria para cima dele, Victória? — Robert fez uma careta.

— Ele me atirou um colar de safiras. Está mesmo doido. Será que sabe o quanto que aquilo vale? Cada pedra era do tamanho de uma das peras sebosas que me ofereceu... Roubou de uma rainha, só pode!

— Eu faria tudo, menos isso... Jamais te jogaria nos braços dele. — o rapaz respondera, encostando-se à madeira atrás de si. Em meio à escuridão do ambiente, pouco Victória conseguia enxergar de si, apenas via os lábios se moverem conforme ele lhe falava, unidos aos olhos cintilarem conforme a luz de uma lamparina distante era refletida. — Ele queria sim um jantar consigo... Eu o fiz passar por bobo. Fui eu que opinei sobre como devia te tratar, hum?

Robert parecia parvo, orgulhoso do que fizera. Porem, de repente, Slaughter não mais se via irritada, na verdade, até achara graça. — Leprechaun... Ele tirou a barba. As bochechas parecem as de um bebê. Aquele cara nunca viu a fúria do mar, pois? — disse. — Olha, a cada dia descubro mais sobre o Ben...

— Chega! — sobressaltando-a, Robert bradara, estava farto da curiosidade que Victória ainda ousava manter pelo filho de Sparrow. — Chega de falar dele.

— ‘Tá... — ela rolara os olhos. — Obrigada... Bobby!

— Só fiz o que era certo... Não tão certo, mas...

— Sabe o que você merece? — Vi mordera um lábio, levando as mãos ao rosto do rapaz.

Erguendo um dedo, Bob falou, já prevendo: — Nem tente!

— Larga a mão de ser tão durão.

No instante seguinte, Victória se pusera em ponta de pés, puxando o rosto de Robert para si. Ela o fez se curvar ao seu encontro, mesmo que contra a vontade do ex-taberneiro. Na verdade aquele gesto era o que ele mais queria, mas não daquela forma. De qualquer maneira não conseguia negar uma aproximação dela, caindo sempre nos seus braços. — Vic... — ele insistira em lhe dizer qualquer coisa que a fizesse parar, mas Slaughter nunca fora mulher de ouvir.

A pirata colara novamente os lábios cerrados aos também unidos do celta, fazendo-o cerrar os olhos na eminência do toque macio de sua boca. Quando pensou em estalar o beijo, apenas, ensaiando se afastar do rapaz, Victória sentira uma mão deste lhe contornar a cintura, trazendo-a mais para si. Sem muito pensar, Slaughter passara um braço ao redor do pescoço alheio, esquecendo-se de que havia de se separar, recebendo, numa busca por ar, a umidade da boca do seu amigo por entre seus lábios.

Robert colara o corpo ao seu, sentindo o palpitar do coração dela contra seu peito. Subindo a mão pelas costas da pirata, ele lhe alcançara a nuca no instante em que Victória inclinara o rosto, entreabrindo a boca à espera de si. Timidamente, ele deixara-se roçar a língua à sua provocando os sentidos da justiceira. O gosto de maçã misturado ao de alguma bebida chegara ao céu da boca de Victória no instante em que Robert rolara a língua por aquela cavidade entregue dela.

Num longo vácuo, no culminar daquele momento, eles se separaram. Por cinco segundos ainda se olharam. Sim, seus orbes foram os primeiros a se abrir, em seguida, foram as bocas abertas a se fechar. — RÁ! — quebrando com o silêncio mais do que estranho, Victória lhe batera no peito. — Viu como foi diferente?

— Espera, aí... — incrédulo, ele não conseguiu acreditar na expressão matreira que ela trazia à cara. — Você não vai assumir que...?

— Assumir o que? Esse beijo foi diferente, não foi? Você mereceu, Bob!

— VICTÓRIA! — ele lhe disse, sentindo-a se mexer em seus braços. — Pelo amor de Deus. Nós nos beijamos!

Slaughter tentara sorrir, mas não conseguira. Tremia desde os pés até a cabeça. Um arrepio lhe atravessara o corpo enquanto que um pânico fechava-lhe a garganta. — Eu sei que nos beijamos... — embargando a voz que afinara-se com o nervosismo Victória balançara a cabeça, levando a mão à boca.

— E então? Não minta, há algo entre nós!

— É claro que há. — se afastando ela devaneara. — Mas eu sou uma mentirosa, portanto... Não há nada entre nós.

— Ai, Deus! — Bob levou uma mão à cabeça, praguejando. — Isso não vai ficar por aqui, Victória!

— Olha, vai sim... — ela rebatera. — Se ajoelha, e... Vai rezar, Robert Duane!

XXXContinuaXXX

Notas finais
Olá a todos os leitores!!! Aqui vai mais um novo capítulo de Commedia. Queremos agradecer à Vic Mikaelson pelo seu comentário maravilhoso! :) Saudações Piratas!!! :D Jodivise & Olg'Austen