Commedia
8 Capítulo 7 Nunca confiar numa deusa
Commedia
por Jodivise & Olg'Austen
Capítulo 7: Nunca confiar numa deusa
Dois dias haviam se passado até o brigue de velas expostas chegar naquele exacto local, defronte a uma ilha sinistra, onde o silêncio que pairava a tornavam remota, mas a qual era, para os mais supersticiosos, um local onde passariam longe. Benjamin passava a mira do binóculo pela praia de areia branca, onde uma floresta começava atrás desta, cortada a meio por um rio que subia até à mais alta montanha.
― Diz que ela mora para além do pântano? ― Ben perguntara ao imediato muito mais baixo que si.
― Sim. Calypso... cujo nome humano é Tia Dalma, vive ali. ― o dedo enrugado apontava para um local ao calhas. ― Subindo o rio, chegaremos a um pântano. A ilha parece desabitada mas tem uma tribo que vive em função dela. Na sua adoração... não sei como andam as coisas, mas pelo que me disseram... muita gente continua a consultar a grande Tia Dalma.
― Não me parece que meu pai deixasse algo aqui. Nesse fim de mundo. ― Ben encolhera o instrumento náutico, virando costas, mas uma mão em seu peito o travara.
― Como pode afirmar isso sem verificar? ― Victória perguntou. ― Nós vamos atrás dela sim!
― Vá você. ― Benjamin sorrira displicente. ― Quando levar uma mordida de um crocodilo, não diga que não avisei.
― Cagão! ― Victória exclamara.
― Com todo o respeito, capitão. ― Pintel se colocara no meio dos dois. ― Mas Jack não tinha medo dela. E pelo que ouvi falar... desde que foi liberta, não se encontra aqui sempre.
― Sr. Pintel! ― Victória ajeitara o casaco comprido, colocando o tricórnio na cabeça, sem tirar os olhos de Ben. ― Desça um escaler. Nós vamos ter com essa mulher e é agora.
Ben Sparrow não pudera mais fazer senão engolir em seco, maldizendo Victória. Mas enquanto ela ali se mantivesse, não podia fazer nada. A tripulação respeitava-a, admirava-a mais que a ele. E se não queria perder a última gota de dignidade, tinha de o aceitar. Um escaler fora descido, transportando o imediato repetente, assim como aos dois capitães e ainda a Robert, Otávia e Lucciano.
― Não sei porque trazemos esse italiano. ― Ben resmungara entre dentes, tomando a dianteira do pequeno barco.
― Io tenho ouvidos buone, capitano! ― Lucciano lhe bateu com a ponta dos dedos no ombro. ― Io quero ver essa cartomante com mios olhos.
― Tia Dalma não é uma cartomante. ― Pintel dissera. ― Ela lê o destino.
― Ler o destino e ser cartomante é o mesmo, ora. ― Otávia dissera, sentindo-se pequena quando adentraram pelo pântano, notando o ambiente abafado e sinistro daquelas águas.
― Quero ler mio destino. ― Lucci mirara as próprias mãos. ― Saber quando mia vita melhorará.
― Será quando calar o bico. ― Benjamin arregalara os olhos para o de nariz proeminente, assustando-se com a proximidade de Pimpinelli. ― Italiano chato.
― Seu rosto... daria um belissimo retrato, non? El capitano medroso!
― ORA CALE-SE SEU...
― SHIU! ― fora Pintel a berrar, quebrando qualquer intenção de Sparrow quebrar a cara de Pimpinelli. Só aí os dois se tocaram para o que os rodeava.
No meio da bruma, junto das grandes raízes de árvores, vultos se faziam. Pessoas segurando velas, entoando uma qualquer canção que apenas com murmúrios gelara o sangue dos piratas. Victória mirava atenta as águas ao seu lado quando um movimentar estranho, seguido de um focinho cheio de dentes lhe aparecera. O crocodilo a olhara, mergulhando em seguida mas fora o bastante para fazer a jovem se assustar e chegar-se mais para o interior. Sem querer, sua mão pousara no que estava ao lado, sentindo outra lhe tocar a pele. Ao virar-se, Victória trombara com Robert, mirando os olhos tão verdes deste em primeiro plano. Por breves segundos ela se perdera, para depois perceber que a mão em cima da sua era a dele e que a matéria que ela apertara fora a perna do irlandês.
Largando imediatamente, voltara a se afastar perdendo a atenção para a casa em madeira que se abria aos seus olhos. Segura por estacas, rodeada de velas e penduricalhos, ali estava a cabana de Tia Dalma. E se tudo lhes parecera estranho, mais ficara quando puseram os pés dentro daquela casa.
A primeira impressão que tiveram fora de sair para fora, ao perceberem o aposento abarrotar de coisas. Por todo o lado jaziam amuletos, objetos não identificados, recipientes pendurados guardando todo o tipo de coisas mirabolantes desde olhos até fetos de animais. Benjamin já ia dando meia volta ao notar-se rodeado pela grande piton albina quando uma voz melosa os chamara.
― Ahh... ― congelando-os, uma figura excentrica se levantara da mesa ao canto, dirigindo-se a eles. ― Estava a ver que não mais chegavam, meus queridos.
O que passara pela mente de todos, menos de Pintel, fora que alguém assim não podia ser deusa. A mulher de tez negra, da mesma altura de Victória e Otávia, apresentava-se num vestido esfarrapado, onde os cabelos revoltos em rastas se assemelhavam muito ao teto da sua cabana em termos de objetos ao dependuro. Num sorriso rasgado que mostrava os dentes anormalmente negros, aquela figura fizera sorrir Victória.
― Oh grande deusa! É um privilégio voltar a vê-la. ― Pintel se ajoelhou aos seus pés, beijando-lhe a mão.
― Menos Pintel. Ou terei de adoptar você como bicho de estimação. ― Tia Dalma lhe sorrira.
― Estava... à nossa espera? ― Ben gaguejara quando Tia se voltara na sua direção.
― Meu querido... Benjamin Sparrow! ― a mulata abrira os braços, chegando dengosa ao capitão. Ben congelara com a aproximação. ― Seus olhos são os mesmos daquele safado do Jackie. ― se assemelhando a um gato ronronando, Tia Dalma levou uma mão ao rosto onde os pelos da barba já cresciam novamente. ― E a beleza é quase a mesma... ― supreendendo o louisiano, a deusa lhe depositara um beijo nos lábios, efémero, mas que deixara os outros com cara de parvos.
― Grande deusa, bruxa, feiticeira e... ― Lucciano se chegara na frente, empurrando todos.
― Tia Dalma, só... me afeiçoei a esse corpo. ― a mulher dera a mão a beijar ao italiano. ― Lucciano Pimpinelli... caído por acidente no navio de Benjy... e que ainda fará muito estrago pelo caminho...
― Óptimo! Irá borda fora. ― Ben sorriu.
― Ma che cosa, capitano! ― Lucci o olhou com desdém. ― Modera esse seu facho, ein? ― e sem pudor, o italiano lhe olhou no meio das pernas. ― Se é que ele existe, si?
― Ora seu... ― Benjamin tentara lhe acertar, mas Victória o afastara.
― Caly... Tia Dalma. ― a pirata abreviara o assunto. ― Nós viemos aqui porque Sparrow acha que tem algo importante e...
― Não. ― o rosto da feiticeira se fechara. ― Eu não tenho parte de mapa nenhum.
― MENTIRA! ― o tresloucado Sparrow gritara, engolindo em seco depois. ― Quer dizer. Se sabe... é porque sabe!
― Sabia que quando tinha sua idade, Jack era meio desfazado mental? Mas passou-lhe. ― Calypso sorrira. ― Só é preciso ter esperança.
A deusa remetera-se depois ao silêncio, pedindo para que se aproximassem dela. Sentando-se, Tia ficou um pouco em silêncio, meditando sobre algo. Pegando em algumas patas de caranguejo, esta as juntou nas mãos, fechando-as em concha, sussurrando algo numa língua incompreensível. Depois as jogara sobre a mesa, arregalando os olhos com o que vira.
― Jack se meteu numa grande alhada. ― Tia Dalma dissera, ainda a ver a posição das peças. ― Ele devia ter deixado essa lenda para trás.
― Ele está vivo? ― Ben se sentara próximo a esta.
― Sim. Mas se o continuará, só o destino o dirá. ― Tia o olhou. ― O tesouro que procuras... fica numa ilha mítica, certo?
― Sim. Avalon. ― fora Victória a falar, fazendo a deusa encará-la.
― Tenham cuidado. Aquele lugar foi amaldiçoado. O reino daquela lenda... assistiu a uma luta entre o bem e o mal... e no final, todos foram condenados a vagar pelos infernos ardentes. Um tesouro incrível é guardado sob a mesa dos grandes cavaleiros. Mas para o acessar tem de se passar pela maior prova de todas.
― O que nos pode dizer mais?
― Conhecéis as lendas que circundam Avalon?
― Sim. ― Ben e Victória responderam ao mesmo tempo.
― Morgana... uma grande feiticeira. Das mais poderosas que já existiram. Ela fez pacto com o demónio. ― Tia Dalma dissera. ― Seu pai precisa ser salvo, Benjamin. E você precisa achar esse mapa. MAS... cuidado. Só acharão o caminho de regresso quando tiverem as três partes unidas.
― A parte que meu pai me deixou só mostra o caminho para lá. ― Ben ferrou o próprio lábio. ― Pensei que a outra estivesse consigo.
― Não. Teu pai é um homem esperto. Ele não deixaria com alguém tão provável como eu, meu querido.
― A terceira parte. Eu acho que meu... marido... ― Victória entalou-se. ― Ele podia possuir uma parte do mapa. Mas ele está morto.
― Cuidado com as aparências, Victória Slaughter! ― a mulata exclamou. ― Nem tudo o que vemos nos é como nos parece... ― e virando o olhar para Robert, Tia sorriu. ― Mas existem coisas que por mais claras que nos apresentem... nós teimamos em não deixá-las desabrochar.
Como sempre, Benjamin fisgara o olhar dado entre Tia Dalma e Robert, sorrindo de canto. ― Então... que rumo devemos tomar?
― Sua bússola não funciona mais? ― a deusa lhe perguntara.
― Cl...claro que funciona! ― Benjamin esganiçara a voz. ― Ah... a bússola. Sim... ela aponta para o que mais desejo.
― Então é só segui-la. ― Tia se levantara, indo na direção da calada Otávia. ― Minha querida... já sofreu tanto na vida.
― Eu? ― a caribenha engolira em seco.
― Tem de ser mais confiante... ― e afastando-a dos outros, esta lhe dera algo para a mão. ― Ametista... é uma pedra formidável que dará um grande poder a quem a tiver. ― passando-lhe a mão pelo rosto, Tia sorrira. ― É hora de impôr sua atitude e não deixar-se mais pisar.
Otávia ficara a olhar para a pedra até sair daquela cabana. A sua coloração violeta lhe encantara e por incrivel que fosse, ao apertá-la, sentira algo aquecer seu coração.
Chegando-se em Tia Dalma quando os outros já saíam, Ben a interceptou. ― Posso trocar uma palavrinha?
― Claro, meu querido. ― um sorriso se fizera no rosto marcado da deusa, levando as mãos ao peito do capitão.
― De certeza que consegue perceber o que cada um sente?
― Está duvidando dos meus poderes? ― Calypso erguera o sobrolho.
― Então já percebeu que Victória tem-se revelado uma excelente capitã. ― Ben lambera os lábios. ― Alguém que eu tenho vindo a estimar e...
― A quer fazer de companheira. ― Tia concluira, virando-lhe costas.
― Eu tenho jóias. ― Sparrow apressou-se a dizer. ― De um saque que fiz. Uma delas é digna de uma rainha... de uma deusa.
― Hum, eu gosto de jóias... ― Tia rira, voltando-se novamente ao capitão. ― E o que quer em troca desse pagamento?
― Viu o Robert Duane?
― Sim. Celta... lindo. Com aqueles olhos verdes, tão puro nos seus sentimentos. ― a mulata dissera. ― Ele lhe estragou um plano romântico.
― Eu preciso que o tire do meu caminho. Victória o trata como um irmão. O protege até. ― Benjamin trincara os dentes. ― Eu quero que o seduza. E que Victória veja com seus próprios olhos o safado que ele é.
― E toma-me como uma prostituta que dormirá com ele a troco de jóias. ― Tia ficara pensativa. ― Eu podia recusar esse plano. E o recusaria. Mas confesso que aquele anjo é um doce. Um doce do qual gostaria de provar. ― sorrindo dengosa, a deusa lhe dera a garantia de tirar o irlandês de vez do seu caminho.
*
Na companhia de Victória, Robert caminhou para fora da casa enfeitada de Tia Dalma, sentando-se no batente de madeira e fincando os pés na terra molhada, quase enlameada pelo pântano. Slaughter pensou em acompanhá-lo, mas o olhar de Bob estava perdido em qualquer outra coisa ao seu redor, menos na pirata. ― Vai ficar aí, leprechaun? ― ela quis saber.
― Falou comigo?
― Há outro leprechaun, por acaso? ― Victória abanou a cabeça, escorando uma mão à parede da casa. ― Vamos de volta ao navio...
― Quando quiser dirigir-se a mim, se não se importar, seja mais direta, Victória. ― o mau humorado ralhou, jogando uma pedrinha encontrada ao chão, ao pântano num movimento firme e violento ― Me chame logo de idiota!
Victória rolou os olhos, impaciente ― Está bêbado?
― Existem coisas... ― ele parafraseara Calypso ―... Que, por mais claras que sejam, nós teimamos em não deixá-las desabrochar. ― disse erguendo os olhos verdes até a garota parada à sua frente, de pé ― Não... Não estou bêbado, ainda...
Parado atrás do irlandês, Benjamin aparecera cortando-lhes a conversa ― O que ainda fazem aqui ? ― Sparrow perguntou com um sorriso estúpido nos lábios, dando a volta no jovem sentado à soleira. ―... Vamos andando, Victória Slaughter.
Antes que Robert se levantasse, indo no encalço dos capitães, uma mão tocou-lhe ao de leve num dos ombros, fazendo-o olhar para trás. ― Menino celta... ― lá estava Tia Dalma, lhe sorrindo, exibindo as gengivas negras onde os dentes igualmente sujos faziam-se vistos.
― Deusa Calypso? ― ele gelara.
Meneando a cabeça, a mulher não fez muita questão de assim ser chamada. Encarando o verde sobressaltado dos olhos alheios, ela apenas seguiu a sorrir. ― Só Tia Dalma.
― Bob! ― Slaughter gritara à distancia, estranhando ver Robert às vias de voltar à habitação da deusa. ― Robert, você não vem?
Ao seu lado o moreno segurou-lhe um braço. ― Deixe-o. ― Benjamin fez pouco caso, gesticulando na direção do irlandês ― Talvez queira se divertir um pouco com a feiticeira, hum?
― O que? ― a cabeça da pirata esquentara ao mesmo tempo em que um nó subiu-se à garganta, vendo o rapaz sumir no instante em que Tia Dalma fechou a porta. ― Que diabos, ele...?
― Deixa, Slaughter! Duane é mais esperto que eu nesses assuntos, não?
― Com certeza! ― caminhando sobre uma pequena ponte de madeira, Victória o acompanhou. ― E Vic é a senhora sua mãe. Para você, meu nome é Slaughter.
Do lado de dentro da casa de Tia Dalma, Robert voltara a analisar os inúmeros penduricalhos dispersos pelo ambiente, firmando os olhos em cada conserva contida de algo estranho e ouvindo o sibilar das palavras da deusa muito próxima de si, convidando-o por se sentar. ― Aceita? ― a mulher de olhos escuros oferecera-lhe uma caneca de uma estranha bebida. Ao vê-lo recusar, ela insistira. ― Não vai se arrepender... Uma gota já faz parecer que bebeu do melhor rum vezes sem conta.
― Você... A senhora... Senhorita... ― era impossível saber como chamá-la.
― Tia, somente, meu querido. ― Calypso sorrira, empurrando a caneca novamente na direção dele, fazendo-o beber.
Atenciosamente, ela o viu levar a bebida à boca, ressoando após o primeiro gole. ― Hmm... É uma delicia. Se parece... ― sorrindo estupidamente, ele tentara falar .― Parece com algo que não provava há tempos.
― Algo que lhe remete à infância? ― Dalma quis saber, como se já não soubesse a resposta. ― Algum xarope à base de menta talvez?
― Sim... Algo que só a Sra. McCann sabia fazer dentro do perímetro de onde cresci... ― sentindo os olhos arderem, Robert abanara a cabeça, tendo o peito apertado numa súbita saudade. Seus sentidos davam voltas e de repente deixou-se deitar as costas no encosto da cadeira enquanto um estranho cansaço lhe tomava o corpo. ― Eu fui um crápula em deixar tudo aquilo pra trás, não fui?
Como se do assunto já conhecesse, Calypso o confortou pousando uma mão no ombro alheio. ― Todos tomamos decisões na vida, meu rapaz... Só teve que fazê-las muito cedo.
― E onde estou? ― ele desabafou. ― Sou um maldito pirata... Se padre Duane me pudesse ver agora... Que vergonha, meu Deus!
― Esqueça, meu jovem. ― franzindo o cenho, a deusa não compreendera de fato o porque de tamanho desmorono. ― Ele fez as escolhas dele. E você as suas.
Levando uma mão aos próprios caracóis, Robert tornou a confessar ― Se eu estou aqui... É por causa dela.
― Dela...? ― a mulher de pele negra afastou-se de pronto, esquecendo-se do que o filho de Sparrow lhe havia proposto. ―... De sua avó?
― Avó? Eu não tenho família, senhora Tia Dalma.
― Mas eu vejo algo... ― os olhos castanhos da feiticeira miravam as visões e nomes baralhados que se faziam em sua mente, voltando-se numa confusa expressão. ― Não é bem avó, é mais... Está mais distante... é por causa dela que está aqui. Pelo menos está no caminho de encontrá-la... Ou de seguir seus passos.
Robert erguera a voz ao mesmo tempo em que mostrara a palma de uma mão, pedindo por espaço por falar. ― Victória. Estou aqui por ela.
― A pirata Slaughter... ― tudo ficara mais claro para a deusa que se levantou de pronto. ―... Sparrow miserável! O pai jamais faria algo do tipo... Não algo tão baixo. Seduziria a moça, jogar-lhe-ia seus encantos, mas jamais pediria a ajuda de alguém para tirar um verdadeiro amor do caminho que toma!
Bebendo o que restara no fundo da caneca, Robert viu a casa ao redor de si girar em trezentos e sessenta graus. ― Do que... Está falando? ― os olhos do ex-taberneiro pesaram.
― Nada, menino! ― ela se adiantou. ― Vá embora e tome cuidado com o filho de Jack... Tem qualquer coisa estúpida nas intenções daquele filho da nobreza... Não chega a ser mau, mas... Vingativo. Ande, vá! ― tentando erguer o irlandês pelas axilas, Tia Dalma tratou de encaminhar Robert até o lado de fora.
Mas antes que chegasse a erguê-lo, como se assim pudesse, três batidas espaçadas à porta foram ouvidas. A deusa arqueara uma sobrancelha, soltando o rapaz quase adormecido ao abrir passagem para a visita inconveniente que lhe chamava ― Scusa o incômodo, signorina... ― do lado de fora, Lucciano falara, escorando uma mão à porta, fazendo uma pose. ― Mà me mandaram buscar Il irlandese...
― Quem? ― Tia Dalma olhou os cantos.
― É... Mi scusi, mà è segreto, eh!
― Não há segredos para mim, Signore Pimpinelli! ― ela falou, dando espaço para que o homem entrasse.
Chegando-se à beira da cadeira do precocemente bêbado, Lucciano batera-lhe numa das faces. ― Roberto! Roberto! Acorda, bambino!... ― voltando-se à deusa ele brincou. ― Parece um angelo... Nos braços de Bacco.
― Parece sim...
― E agora? ― o italiano cruzara um braço sobre o peito, franzindo o nariz avantajado a pensar. ―... Penso que vou... Deixá-lo aí, eh? Vou me sentar... E beber um pouco desse vino...
― Não é vinho, signore... ― ela o corrigiu.
Pimpinelli sorriu, exibindo quase todos os dentes ao apontar para uma outra garrafa e não para àquela da qual Robert se servira. ― Aquela bottiglia... È italiana?
― Portuguesa!
Ele agarrou o gargalo da bebida, não fazendo caso, sentindo-se em casa, literalmente. ― Dio benedica il sud dell'Europa!
― Pois, que abençoe mesmo... ― os olhos de Tia desceram pelas costas do homem que apesar da altura mediana era mais alto que si. Mirou firmemente os cabelos claros compridos e apanhados num laço. Em seguida ela mirou o perfil risonho deste, esquecendo-se do irlandês que à sua mesa parecia dormir de olhos abertos, ensaiando se levantar.
Nem Lucciano e nem a deusa viram o momento em que Robert saíra daquela casa, segurando-se nos objetos soltos que decoravam a estranha habitação, alcançando a porta e tateando até o lugar que achasse ser o mais distante possível daquele pântano.
*
Victória passara toda a noite a despertar de pequenos sonhos chatos. Mal o dia raiara, em sua cabine, ela se colocara de pé, calçando as botas e colocando-se em direção ao convés. Otávia jazia desperta, sentada de qualquer jeito ao chão de madeira, mirando a pedra ametista dada pela deusa Calypso. ― Joga esse negócio fora.
― Porque eu faria isso? ― sua amiga abanou a cabeça. ― Eu gostei do amuleto.
― Aquela mulher não presta. ― a pirata falou dando uma mordida numa maçã ― Joga fora, Otávia!
― Não! Olha, eu fiz bem em sair da cabine ontem... Me sinto bem melhor depois que fomos visitá-la...
Victória rolou os olhos, ensaiando voltar pelo caminho de onde viera. ― Vou ver se o Robert tem algo mais a conversar que não seja sobre essa deusa... Você ‘tá chata, hein, Otávia?!
― Arre, Victória! ― a mais moça bradou antes de emendar: ― E não adianta ir atrás do Robert... Ele não está no navio. Acho que dormiu em terra ontem.
― Quê? ― o tempo para a pirata parara. ― COMO ASSIM?
― Primeiro, fala baixo... ― a de cabelos cacheados pediu. ― Segundo... Nem ele nem o Pimpinelli dormiram no navio...
― Lucciano não voltou...? O que pode ter acontecido?
― Bom dia, estrela do dia! ― a voz de Benjamin fez-se ouvida às costas das moças, só então notando a presença de Otávia. ―... Bom dia... Doormat. Como está?
Séria, a caribenha respondera: ― Com as orelhas pregadas na cabeça. E isso já me é de bom tamanho.
― Certo... ― ele falou do alto de sua antipatia, coçando os pequenos pêlos que lhe cresciam no rosto de belas feições. ― Prontas para zarparmos? ― perguntou já sabendo o que havia de ser dito logo a seguir, mas a voz de Victória, que até então o ignorara, falou:
― Robert e Pimpinelli não estão a bordo.
Fingindo analisar tal noticia Ben sorriu. ― Ah! Não?... Temos que achá-los então... Aposto que Robert não saiu da casa de Dalma, pois?
― Eu lá sei! ― desviando os olhos de Otávia, Slaughter falou, tentando não transpor a raiva que sentia só de imaginar tal situação. ― ‘Tá olhando o quê, Lane?
― S... par... row! ― pondo-se calmo, ele sibilou. ― Anda, vamos lá atrás do padreco. Se é que ele ainda é padre.
O regresso à casa de Tia Dalma fora rápido. Seguiram o mesmo caminho do dia anterior, andaram a passos de moça na pequena ponte inconstante e, estúpidos, bateram à porta da deusa, esperando serem bem atendidos àquela hora da manhã. ― O que fazem aqui? ― a cara amanhecida da mulher lhes perguntou. Tia Dalma tinha um farrapo de lençol lhe cobrindo o tronco, nua por debaixo do tecido fato que fizera Otávia estranhar tamanho à vontade do pirata, Victória pensara a maior das besteiras e Benjamin virara os olhos para a parede, mais num incômodo do que em respeito.
― Que se passa aqui? ― a moça de cabelos pretos perguntou, escancarando a porta da pequena casa.
― Como ousa...? ― Dalma tentou lhe dizer, mas Victória já passara por si.
― Cadê o irlandês, Tia Dalma? ― Benjamin perguntou com um sorriso nos lábios. ―... Em vossa cama talvez?
Vendo Victória adiantar os passos, passando pelos inúmeros objetos da casa, subindo por uma escada helicoidal até um mezanino minúsculo que ali havia. ―... Mas que? ― ela tardou a acreditar em quem estaria ali, mas não sendo Robert deu-se por aliviada.
― Buongiorno, Capitã! ― parcialmente coberto por um lençol, Victória viu Lucciano dali lhe acenar, trazendo o rosto carregado numa expressão de sono.
A voz de Benjamin se esganiçara numa exclamação impossível de ser contida ― QUÊ? ― seus olhos negros se sobressaltaram quando, imitando Victória, ele subira até o mezanino para a falta de privacidade do italiano de voz nasalada. ― Como você veio parar aqui?
― Com as pernas, eh!... Uma à frente da outra... Pá. Cheguei.
― O que está fazendo nessa cama? ― seguiu a perguntar, ao passo que Victória levara as mãos à cabeça descendo pela escada até a beira de Otávia.
Lucciano bufou. ― É preciso explicar? Estou...Riposando depois de uma notte de...
― CALE-SE! ― o louisiano gritou.
― Me perdoe, Tia Dalma, eu... ― Slaughter tentou dizer algo a mais, mas não conseguia.
Após um longo minuto, mirando o primeiro andar, a mulher abanou a cabeça. ― Tudo bem, menina. ― a mulher negra falou enquanto uma discussão se fazia mais acima. ― Sparrow... Ele é o problema. Benjamin Sparrow.
― Eu? ― o nervosinho descera as escadas, sendo seguido por Lucciano de cabelos soltos a resmungar qualquer coisa, trazendo uma das próprias botas em mãos. ― Ora, sua...
Antes que Benjamin ofendesse Tia Dalma, despertando a fúria da deusa que havia dentro da mulher, um burburinho fez-se ouvido do lado de fora da casa. Otávia fora a primeira a ouvir risos de criança por ali. ― Bêbado! ― ela as ouviu falar enquanto que aos tropeços corriam em direção à ponte.
― Espera aí, menino! ― andando para fora, Otávia chamou um rapazinho de cabelos rastafári que freou os pés, voltando-se a ela. ― O que se passa?
― Vamos azucrinar um bêbado que à praia dorme.
― Que novidade! Um bêbado dormitando na praia... ― ela rolou os olhos. ― Vocês não dormem na praia ou bebem?
―... É um branquelo dos cabelos de mola. ― o pequeno falou. ― Desses não temos aqui.
― RAIOS! ― Victória ouvira a curta conversa. ― É o Robert, Otávia.
Quando Victória e Otávia correram em direção à praia, Benjamin quedou-se sozinho com Tia Dalma e Lucciano. Esperando o italiano despedir-se, o filho de Sparrow pôs-se impaciente, batendo com o solado da bota ao chão.
― Mi mancherà di te... ― enlaçando a deusa pela cintura, Lucciano trouxe-a mais para perto de si, mirando os orbes quase negros da mulher enquanto que essa se focara no anel esverdeado dos olhos alheios. ― Grazie per il divertimento...
― Disponha, Signore Pimpinelli... ― ela sorriu numa mania manhosa.
Ouvindo a batuque dos pés de Benjamin, o italiano não demonstrara pressa, dando a volta no corpo da feiticeira, colocando-a de costas para o pirata para que somente ele, em meio aquele gesto, pudesse ser visto por Sparrow. Segurando o rosto de Tia Dalma, Lucciano juntara seus lábios numa despedida, em memória da noite que passara em sua companhia.
Benjamin erguera os olhos para o alto, mas quando deu por si já estava observando a dupla se beijar. Pimpinelli mirou-lhe uma única vez, provocativo ao erguer os olhos hazel enquanto tomava a boca da feiticeira. ― Acabou? ― o moreno perguntou, descontente. ― Tia Dalma, acho que me deve algo.
― O quê? ― a mulher zonza voltou-se a ele, mirando-o sobre os ombros. ― Ainda está aí, Sparrow?
― Pois, devolva minhas jóias!
― Mà, de che ele fala? ― Lucciano erguera uma sobrancelha, confuso ― Zia?
― Ela não é “zia” de ninguém! O nome dela é Tia, Tia Dalma! ― Ben repetira. ― E é uma ladra!
A feiticeira ergueu um dedo, pondo-o muito próximo às fuças do pirata. ― Olha como fala de mim, Benjy Lane!
― B... BENJY... L... LANE? ― ao gaguejar tal grito, Benjamin pôs-se quase roxo de raiva, espumando para falar a verdade. ― DELVOLVA-ME! Você me roubou!
― Você... ― ela respirara fundo. ― Negócios voltados para a desgraça dos outros nunca dão certo! Pois vá pegá-las no inferno... Porque estas que me deu... São MINHAS!
*
O corpo de Robert estendido à praia não podia ser visto à distancia visto que estava meio encoberto pela areia que as crianças jogavam em si. O riso destas, infantil, ecoava pela orla, atraindo Victória e Otávia que correram de pronto a fim de salvar o amigo. O irlandês estava desacordado. Respirava normalmente, mas dormitava feito uma pedra.
― SUAS PESTES! ― a pirata bradou, espantando os moleques que riam do ex-taberneiro coberto por areia. ― ROBERT!
― Calma, Vic... ― Otávia levou as mãos à cintura, reconhecendo o celta ao chão.
Ajoelhando-se ao lado deste, Slaughter levara uma mão à cabeça do rapaz, deitando-a em seu colo. ― Olha o que eles fizeram! ― disse tirando a areia do rosto alheio, descendo esta pelo peito nu do adormecido, limpando-o. ― Alguém lhe deixou só de calças?
― Ele pode ter tirado a camisa... Vai saber!
― Otávia...! ― mandando um olhar mortal à outra, Victória tentou trazer Robert à luz. ― Bob! Robert! Duane! Leprechaun! BOB!
― Já disseste “Bob”. ― a de cabelos presos sorriu. ― Aqui... ― tomando o chapéu da cabeça da capitã, Otávia propôs. ― Joga-lhe água.
Sem pensar duas vezes, a pirata foi até a água, enchendo o chapéu, trazendo-a até Robert. Foi imediato. Assim que sentiu o liquido salobro chocar-se contra o seu rosto, Robert acordou, abrindo lentamente os orbes cor de oliva, sentindo-se ainda tonto e um pouco enjoado.
― Aonde eu...? Argh! ― ele deitou a língua de fora, sentindo um gosto ruim descer pela própria garganta. A água que escorrera pelo tronco deste no momento em que ele se sentou, num impulso, limpara parte da areia grudada em si, revelando o tronco magro e bem delineado que possuía. Victória não pretendera, mas acabara deixando-se mirar o traçado do abdômen alheio, ausente de pêlos, que morria em suas linhas de pélvis bem marcadas, masculinas.
― Acorda agora, tu, Victória Slaughter! ― Otávia rolou os olhos.
― É... ― a portuguesa ensaiou falar, sendo pega no flagra. ― Dormiste aqui... Robert!
― Dormi? ― ele respirou fundo. ― Eu estava sentado na sala daquela... Tia Dalma...
― E...? ― a morena afastou-o pondo-se sentada de uma só vez.
― E não lembro mais de nada...
Otávia sentou-se noutro ponto da praia, mirando a espuma branca do mar enquanto seus dois melhores amigos discutiam numa tensão que parecia nunca acabar. ― Porque aceitou o convite dela?
― Porque ela me tratou bem, Sra Slaughter! ― ele passou uma mão pelos olhos a fim de melhor enxergar. ― Eu lá sabia que amanheceria nessa praia!
― Senhora Slaughter o caramba! EI! Achou que amanheceria na cama da feiticeira, pois? ― enfezada ela seguiu a lhe inquirir. ― Que vergonha, Robert!
“AHÁ!” ― A exclamação estúpida de Benjamin fora ouvida à distancia, aproximando-se gradativamente para a desgraça do trio à praia. ― AHÁ!
― Para de dizer isso, stronzo! ― Pinpinelli resmungara atrás de si, recebendo o desprezo do mais moço, somente.
― Aí está ele, hum! ― o capitão do Commedia ralhou. ― Aonde passou a noite, Robert? Nos braços de alguma nativa? Veja só até perdeu a camisa!
― Eu a perdi por aí... Senti muito calor à noite... ― ninguém lhe acreditou. ― Deve ter sido a bebida que ela me deu...
Dando um murro na areia, Victória espalhou grãos dourados por todo o lado num acesso de fúria. Pimpinelli mirou-a, estarrecido. ― Também senti calore à noite, eh! ― Lucciano brincou, passando uma língua pelos lábios finos quase inexistentes, antes de coçar o rosto, admirando o corpo alheio sentado e seminu à sua frente. ― E agora me sobe também outro calore... ― numa expressão safada o italiano não sabia para que lado atirar. ― Congratulazioni, irlandese!
― Tem certeza de que não é grego? ― Benjamin estranhou a exclamação alheia. ― Tem um fogo do car...!
― Greco? Io sono italiano...
― Dá licença! ― Otávia falou as costas dos dois homens parvos de pé. ― Vamos andando, Robert e Victória. ― e adiantou-se a segurar um dos braços do ex-taberneiro. ― Me ajuda, Vic, que esses dois são feitos de merda. Malditos homens!
― Eu posso ir andando! ― Robert ainda tentou falar.
Mas Victória lhe apontou um dedo. ― Desse jeito? ― disse enquanto lhe dera um tapa no braço. ― Desse jeito você morre pelo meio do caminho e vai voando!
Benjamin não queria, mas acabou auxiliando as moças no transporte de Robert até o navio. Lá chegando, o rapaz já se sentia menos zonzo e fora direto ao porão, deixando os “piratas de verdade”, como ele mesmo falara ao se ausentar, cuidarem da partida do navio. ― É bom vê-los de volta... ― Pintel sorrira sem graça. ― Achei que tínhamos de partir sem os senhores...
― Menos, Sr. Pintel. ― Benjamin fora a própria cabine, dando espaço para que o homem e Victória viessem atrás de si. ― Aonde vamos agora? Meu pai tinha outros amigos piratas?
― Amigos? ― o careca gorducho pensou, alisando a própria barriga redonda. ― He he he...
― ‘Tá! Meu pai não tinha amigos... Mademoiselle Victória? ― galante, Benjamin estendera tal pergunta para a capitã enfezada cujo chapéu molhado jazia em mãos, respingando no assoalho. ― Algum destino em mente?
― Tua mãe! ― ela bradou quase numa ofensa. ― Pode estar com ela, não?
― Se estivesse com a minha mãe eu saberia...
Apertando o tricórnio, a paciência da pirata foi pelos ares. ― Olha, me dêem licença! ― Victória quase gritou, impaciente, doida por sair daquele cômodo. Porem, ao fazê-lo, deixara a porta aberta por onde entrara Otávia.
― Isso aqui não é festa, menina de saia! ― Sparrow fizera uma careta. ― Volta pra cozinha... A... Ai! ― mas um tapa da taberneira ardeu em sua nuca. ― Eu sou o capitão!
― Que seja, sem-moral! ― com as mãos à cintura ela ensaiou uma fala antes de ver o olhar curioso de Pintel sobre si. ― Essa banda desse desenho...
― A parte do mapa para Avalon, você quer dizer? ― os olhos pretos dele se estreitaram à figura dos dela. ― O que tem? Acabei de dizer que não está com a minha mãe.
― Claro que não está com a sua mãe. ― ela falou. ―... E se estava já deve ter virado cinzas. Que mãe em sã consciência deixaria seu único filho sair atrás do pai incompetente? ... Esse desenho... Mapa. A outra parte... Enfim, pode estar com alguém que não seja pirata... Não sei, alguém que tivesse sido muito amigo dele, mas que não seja da pirataria, entende?
Ben mordeu um lábio, curioso. ― Como uma meretriz?
― As meretrizes da época em que o teu pai as tinha já devem estar todas mortas e enterradas. ― disse. ― Deve ser alguém que ele sabia que estaria sempre lá... De pé, mirando o horizonte!
― Elizabeth Turner! ― Pintel dera um soco na mesa sobre a metade do mapa. ― Só pode estar com a Sra. Turner!
O velho pirata enchera os olhos de lágrimas ao relembrar os velhos tempos. Sentara Otávia numa cadeira, que nunca ouvira tal história antes, e repassara cada instante de aventura vivido ao lado de Jack Sparrow, Elizabeth, e William Turner. ― Então o jovem Turner apunhalou o coração de Davy Jones!
― Que história linda... ― levando uma mão ao peito, Otávia respirara fundo. Ao seu lado Benjamin enterrava-se em tédio. ― E então ela ainda o espera?
― A maldição durava por dez anos. Todo mundo esqueceu-se disso... William não era o temido Davy Jones que teve de viver para sempre em alto-mar. A maldição que coube ao rapaz foi a primeira, de somente dez anos. ― entre risos ele falou. ― Já devem estar unidos novamente há um bom tempo!
― Duvido que meu pai deixasse tal metade do mapa com uma ex-pirata... ― Benjamin menosprezou a idéia do marujo. ― Ele não era estúpido, sempre que quisesse ela podia ir roubá-lo... Swann... Minha mãe conheceu seu pai. Se fosse vivo o governador nem deveria lembrar-se mais de Lady Beckett.
― Caramba, sua mãe... ― Otávia exclamou. ― Mulher batalhadora, hum? Ouvi falar desse Beckett...
― Há quem diga que ele ainda vive... ― Pintel contou-lhes. ― Mentira, não vive não... He he he.... Mas o William é vivo e vive com Elizabeth a leste da Nova França...
― FLORIDA? ― a voz de Ben afinara-se ao localizar o estado a leste da sua querida terra. ― Os ingleses estão lá... Claro que eles estão lá. ― disse a si mesmo. ― Onde mais estariam?
― Você está bem, capitão? ― Pintel perguntou ao ver o outro saltar da cadeira.
― Estou ótimo! ― o jovem Sparrow bradou. ― Vamos indo, Pintel... Com destino à Florida... A qualquer cidade ou colônia em que eles estejam...
*
Robert passou pela cela de Brand, notando os olhos azuis do imediato de Victória firmarem-se em si. Dando meia volta o irlandês acertou a entrada da cela. De tão zonzo que estava, muito não podia fazer corretamente. Sentia-se na obrigação de alimentar o homem visto que os outros isso não fariam por ódio que guardavam do pirata escocês. ― O taberneiro fiel. ― a voz de sotaque escocês falara. ―... Você nunca vai ser mais do que isso, Duane, sabia?
― Come Brand... ― dando-lhe a cesta com comida, Robert viu o esfomeado ir com tudo na tigela de frutas, devorando uma manga. ―... Está aí pra pensar nas besteiras que já fez... E que planejava fazer...
― Nós somos iguais, Robert... ― com a boca cheia o louro lhe falou. ― Somos iguais... Ninguém nos nota, embora precisem de nós em demasiado. A sorte é que nunca nos verão prancha abaixo.
Sentindo a areia da praia lhe pinicar a pele, Bob se adiantou. ― Cala a boca... ― disse se afastando da cela, indo até a própria cabine, mas não sem ouvir a fala repetida de Brand lhe irritar.
“Somos iguais” ― Iguais? Quem era Brand para equiparar-se a Robert? Um homem inconseqüente, capaz de abusar de uma jovem indefesa jamais se compararia à bondade do irlandês que tudo o que queria era um “sim” daquela que amava, fazendo-a feliz e sendo ele próprio feliz. Não era bandido e decerto que não era pirata. Ficara fascinado pela pirataria porque, convenhamos, pirataria é algo fascinante, mas jamais seria capaz de cortar uma garganta, fazer um refém, ou de pilhar um navio com as próprias mãos.
De frente à bacia d’água, posta encima da cama, ele encharcou a esponja de banho, em seguida levando esta a um de seus braços, tirando a crosta de areia que ali endurecera. Fizera o mesmo ao outro, sentindo a cabeça latejar por efeito da bebida tomada, subindo a esponja até o próprio peito desnudo, esfregando-o, tentando se lembrar de como fora parar à praia, causando uma cena estúpida.
Quando se voltou aos próprios ombros, Robert deixou o rastro da água que da esponja escorria traçar um caminho molhado por suas omoplatas, seguindo por sua cintura e morrendo no limite do cós das calças brancas que em parte jaziam castanhas por encontrarem-se sujas. Aos poucos sentiu o corpo relaxar, embora a mente ainda pesasse. Um pouco de água doce apenas era preciso para lhe por novamente em calma. Sentindo o frio dessa molhar-lhe o rosto, Robert curvou-se em direção à bacia, de costas para a porta da cabine, a fim de mergulhar a cara e lavar os cabelos.
Quando se voltou às próprias calças, jogando os cabelos úmidos para trás, Robert Duane não fazia idéia de que seria surpreendido às traseiras. Na verdade, não o fora logo de primeira. Silenciosamente, Victória que do lado de fora gastava o chão ao pensar se deveria ou não descer ao porão e ir ter com o amigo que tratara duramente, abrira a porta da cabine. Achara que ele poderia estar dormindo, por isso tamanho cuidado em não fazer ruído algum, mas foram os seus sentidos a serem provocados com a vista que tivera.
Robert puxara as calças com destino ao chão, desvencilhando uma perna e depois a outra do tecido sujo. Slaughter engasgara ao mirar a traseira desnuda deste. O ímpeto de exclamar algo lhe subiu à garganta, mas ao invés disso, apenas quedou-se a admirar a pele branca dos músculos firmes da retaguarda alheia. Essa era pequena, um tanto somente pronunciada e os pêlos ínfimos que poderiam se fazer por ali jaziam ouriçados devido ao frio do ambiente e da água que escorria das costas largas e másculas de Duane, sumindo por entre o espaçamento de sua nádegas.
Foi com uma imensa vontade de se enfiar num buraco que Robert ouvira um barulho se fazer do lado de fora. Instantaneamente, Victória cerrara a porta às próprias costas; e este fora o segundo ruído que o irlandês ouvira. ― Victória! ― ele quase gritou, girando o corpo na direção dela que desviara os olhos para o teto. Pegando a calça ao chão, tapando ao menos as partes pudendas, estava vermelho de vergonha por ser surpreendido no banho. ― Por que está aqui? O que... Veio...?
― Escusa de ser tão encabulado... ― ela própria sentia as faces arderem, mas não dava o braço a torcer, fingindo analisar a cruz pregada à parede em madeira.
― Me dê licença... ― o rapaz de cabelos molhados pediu.
― Não... Eu preciso falar contigo. Te veste.
― Estou tomando banho...
Rolando os olhos, Victória girou o corpo rapidamente na direção dele, driblando qualquer vergonha que antes sentira ― Depois termina, então.
― Deus do Céu!
― Shiu! ― levando um dedo aos lábios cheios dele, Victória o calou, afastando-se logo em seguida a abanar a mão. ― ‘Tá... Agora... Desculpa por ter duvidado de você...
Notando os olhos escuros dela pararem onde sua calça se encontrava a lhe esconder o sexo, Bob rebatera. ― Você duvidou de mim?
― Duvidei... Benjamin me encheu a cabeça com idéias e... Fui à casa da Tia Dalma, vi o Lucciano seminu...
― Viu? ― erguendo uma das sobrancelhas negra o rapaz pelado repetiu. ― Caramba, Vic!
― ‘Tá com ciúmes? Não fica... Eu acho você mais bonito, leprechaun! ― disse checando o tronco firme alheio. ― Vai, te veste!
― Você está com vergonha? ― ao vê-la lhe dar as costas, ele aproximou-se, colocando-se alguns centimetros atrás de si a perguntar, curioso. ― Está com vergonha, Sra. Slaughter?
― Que conversa boba, Duane! Eu vim aqui para lhe ajudar a ver se você não se lembraria de ter feito alguma besteira... Algum hematoma diferente no corpo? Alguma marca... Peculiar?
― Como o quê?
― Não sei... ― ela voltou a mirá-lo, tocando um de seus ombros a lhe analisar a pele. ― As mulheres com quem já dormiu nunca te deixaram marcas?
― Como chupões e... Arranhões? ― num olhar saudoso, Robert provocou Slaughter a mudar de assunto. ― Teve uma vez que...
― Tá, tá tá! ― a moça de cabelos negros resmungou. ― Já somos amigos de novo?
― Nunca deixamos de ser... ― explicando-lhe, Robert folgara a mão que segurava a calça que lhe tapava a frente, deixando tal peça cair no chão. ― Desculpe-me! ― ele se adiantou ao vê-la sufocar, semicerrando os olhos.
Quando Duane voltou-se ao próprio corpo, Victória aproveitara para soprar sob as próprias vestes, tentando findar um mal estar que lhe subia pela roupa. Desde quando aquele cômodo era tão calorento? Não, não era. Do contrário a pele clara do irlandês não estaria arrepiada de frio. ― Você e Tia Dalma, conversaram muito?
― Não lembro de nada. Falo a sério, Victória.
― Como saberemos... ― na verdade ela queria dizer “como saberei”. ―... Se você participou de alguma festinha com a deusa ou não, hum? Talvez o Pimpinelli nos diga, hum?!
As calças voltaram a cair no chão, mas dessa vez Robert não ligara. Seu orgulho acabara de ser ferido e pouco importava se Victória teria de mirá-lo da forma como viera ao mundo. Se ainda estava ali era porque queria vê-lo assim. ― Escuta aqui, Capitã! Não me aconteceu nada com a Tia Dalma ou com a Calypso.
Sentindo os dedos dele contra a pele de seu rosto, ela parara. ― Chega mais pra lá. ― a moça pediu, desviando do toque das mãos dele, mas Robert logo lhe tocara o queixo, fazendo-a parar.
― Esse tipo de coisa precisa de permissão para que se aconteça, entende? ― o dono dos orbes verdes lhe disse. ― Eu já dormi com algumas mulheres, sim. Já lhe disse isso, mas eu me permiti a esses momentos. Me arrependo porque não tem nada de bom para se recordar deles, só o prazer físico. Um tipo qualquer de senhorita me dando prazer em troca de mais algum... Era isso que era. Deus sabe o quanto me arrependo! Eu certamente estaria na lama se tivesse dormido com a Tia Dalma, também. Mas eu não dormi!
― Não precisa gritar... ― ela sussurrou, sem demais forças por falar.
― Tem uma coisa da qual eu não me arrependo, Slaughter. ― ele fazia questão de lhe frisar o sobrenome herdado do marido. ―... De tê-la beijado no outro dia. Tenho sonhado com aquele beijo todos os dias... E é bom você sair daqui antes que eu te dê outro.
― Assim, pelado? Põe uma roupa!
Movendo a cabeça negativamente, Victória já contava com o gesto feito por ele. Robert avançou ao seu encontro, colando-a à porta da cabine às suas costas, ao unir os lábios aos seus. A última coisa que ela viu antes de sentir sua boca ser tomada fora o verde que nos olhos dele queimava. Robert espalmou uma mão à madeira da porta, enquanto que lhe contornara sua nuca com a outra livre.
Movendo a boca contra a alheia, Robert sentiu a respiração dela ser cortada pela sua. Victória entreabrira os lábios ao seu encontro, arfando na eminência de ter sido pega sem fôlego. ― Bo... Bob! ― cruzando os braços às suas costas, ela inclinara o rosto a fim de melhor receber a língua do celta, percebendo a pele molhada deste ao lhe tocar a nuca, enveredando os dedos pelos cabelos igualmente úmidos, puxando-os ao de leve ao sentir a textura dos fios em contato com sua pele quente.
Slaughter via-se louca, mas mais louco estava Robert, sentindo as roupas da pirata roçarem-se ao seu corpo, lhe provocando por tirar as vestimentas dela própria ― Eu... Não sei como isso aconteceu. ― à sua boca ele deixou-se falar. ― Não... Mentira... Eu sei sim.
― É melhor nos afastarmos porque você está nu, lembra? ― tonta, ela lhe recordou. ― É sério... Me deixa ir...
― Eu vou deixar... ― respirando fundo, ele pediu um tempo. ― Espera um pouco...
Vendo-o sair de sua frente, Victória pôde respirar fundo novamente, tratando de dar as costas à figura dele e saindo porta afora. Quantas mais vezes aquilo aconteceria, e em que grau de seriedade se faria a mais até que ela se desse conta de que estava perdidamente apaixonada pelo seu melhor amigo?
XXXContinuaXXX
Fale com o autor