Commedia
6 Capítulo 5 Um duelo, um ataque
Commedia
by Jodivise e Olg'Austen
Capítulo 5: Um duelo, um ataque
Primavera de 1729
Irlanda não era o palco de altas temperaturas, mas, naquele dia especial, no fundo do estômago daquele pequeno órfão sem sobrenome um calor se fazia, gostoso demais para ser verdade. E, ao avistar o homem de meia idade que cruzara o portão da velha casa, atravessando o jardim mal cuidado cujo capim seco já chegava à altura dos joelhos, sentira-se a ponto de explodir de tanta felicidade.
— Está com pressa, Rob? — lhe disse a mulher rechonchuda que agitava o fogareiro simplório no canto da sala, metida num avental sujo, colocando a dúzia de suas pobres crianças sentadas ao redor de uma mesa rasteira a servir-lhes um parco almoço.
O menino baixou os olhos grandes, verdes e sempre curiosos, destacados pelo estado de seu rostinho sujo. — Desculpe, Sra. McCann...
— Tudo bem, meu pequeno anjo de Deus... — assanhando os cabelos em caracóis desnivelados, ela sorrira. — Vai ser o melhor anjo que essa terra já viu. Anda, vai... Vai receber o Padre Duane.
“Padre Duane! Padre Duane!” — quando ele chegava a casa era tudo o que se ouvia. As crianças iam à sua beira e esqueciam-se de tudo quando o bondoso clérigo se fazia presente. — Não vamos muito longe, filha. — a voz doce do homem da igreja confortara Maria McCann antes desta ver Robert partir com o padre porta afora.
Bob tentou não olhar para trás. Prendera os olhos nos sapatos que calçava, maiores que os seus próprios pés, sujos de lama. O menino lembrou-se das coisas que fazia ali, dos amiguinhos e irmãos que deixaria para trás, mas, acima de tudo, tentou se manter, no auge dos seus nove anos, sereno. A única figura masculina que tinha era o bondoso padre e foi a mão deste que ele segurou, caminhando rua abaixo, até onde mais o caminho lhe levaria.
Para sua surpresa, porem, à medida que se distanciava, apertando a muda de roupas cinzenta por entre os dedos magros de sua mão livre, uma voz amiga fora ouvida atrás de si. Ainda que ao longe, uma figura pequenina corria no seu encalço, fazendo ele e Duane mirarem sobre os próprios ombros, sobressaltados. Misturado à vozinha que lhe pedia para esperá-lo, a da Srta. McCann fazia-se ouvida, mais forte a chamar pelo órfão fujão. — Percy, deixe-os ir!
— Percy, volte! — apontando em direção a casa, Robert apontara para o amigo mais baixo que si. Os olhos alheios, de um azul escuro, amendoados, enchiam-se de lágrimas ao ver o outro mandá-lo de volta.
O padre tocara a cabeça do menor. — Srta. McCann lhe chama, Percy. Não a deixe esperando, filho.
— Prometa que vai voltar! — o outro disse, mirando Robert e ninguém mais. A mãozinha de dedos miúdos foi levada aos olhos, enxugando-os de qualquer jeito. — Prometa, Rob!
Num empurrão, Robert levou o outro ao chão. — Eu prometo. Mas não chora. Meninos não choram!
— Eu quero ir... — as roupas encardidas, sujaram-se ainda mais com a lama do passeio. —... Padre Duane, me deixa ir!
— Infelizmente... — um nó fizera-se na garganta do clérigo. — Só há lugar para um, Percy.
— Eu vou voltar, Percy. — Bob lhe falara. — Espera que eu volto.
— Vai, Rob! — colocando-se de pé, o outro avançou ao encontro do mais alto, empurrando-lhe o tronco. Em seguida Percy lhe deu as costas, resmungando em alto e bom tom enquanto se distanciava. — Vai morrer com as doenças dos navios! Os ingleses vão te matar... MORRA!
A última coisa que seu amigo de infância lhe disse foram aquelas palavras. Robert viu Percy que, apesar de mais velho, era muito mais baixo que si e muito mais mal humorado também, se distanciar, levando um bom sopapo da Srta. Mcann ao passar pela entrada do orfanato.
Amigo, o padre sempre tratara de lhe lembrar que a missão dos dois daqui para a frente seria velada por Deus e que nada os colocaria em maus lençóis. — Não vai lhe acontecer nada, filho... Deus não nos traria até aqui para nos ceifar a vida... Deus está connosco.
“Amém, padre.” — para o homem que lhe dera o sobrenome ele somente assentia. Aprendera um ofício, não como o dos outros homens, mas o oficio de amar ao Criador, acima de tudo, e a trazer palavras de conforto e ensinamentos para os filhos deste que nasciam nas colónias do Novo Mundo.
*
Os dias se passavam lentos a bordo do Commedia, e uma semana se fizera assim, lenta demais para a paciência de Otávia que quase sempre se recolhia à cabine, negando qualquer pedido de Victória para fazer a amiga sair e ver o “lindo céu” que havia do lado de fora. A pirata sentia-se em casa a navegar em alto mar. Sua natureza pirata falava mais alto, o sentimento de sentir-se livre tendo pela frente apenas o mar azul e suas ondas temperamentais, fazia-a feliz. Qualquer um podia tirar tal conclusão apenas mirando-a nos momentos em que a tripulação se reunia ao convés.
Na companhia de Robert que, debruçado à contenção, mirava o horizonte como se de algo fossem se aproximar em breve, a viúva de Joe polia a própria espada, enxergando o reflexo de si mesma na lâmina afiada.
— Se trava espadas com o Capitão ainda sai sem as orelhas... — em meio à uma distração, Slaughter ouvira um dos tripulantes de Benjamin sussurrar a outro. —... Viu a audácia no outro dia?
Soando às costas do tipo baixote de tez morena, ela limpara a garganta: — O ‘CÂ?!
— Deixa-os, Victória... — Robert lhe contornou, segurando o pulso ágil que empunhava a arma mortal. — Deixa...
— Nah! — travando os dentes à figura do rapaz Victória fez cara de poucos amigos. — Também sou capitã desse navio... Tenho que me impor. Há dias ouço estes me ofenderem.
Robert sorria de canto, mirando-a de cima. — Não pode deixar essas coisas te irritarem... Senhora. Slaughter!
— Senhora? — erguendo uma sobrancelha a pirata esquecera-se dos homens faladores de pronto. —... Fala direito comigo, leprechaun! Senhoras não manobram a espada como eu!
— Verdade... — Bob soltou-lhe o pulso, mas quando o fez teve o próprio punho tomado no ar.
Victória lhe passou a própria espada, esgueirando-se na direção dos tripulantes antipáticos, roubando a espada à cintura daquele que falara mal de si. O homem apenas notara a arma roubada quando ouviu o tintilar do metal. Num ágil movimento, Slaughter juntara a lâmina da arma alheia à que passara ao ex-futuro padre irlandês. Robert soube ser rápido erguendo a espada de Victória sobre a cabeça, vendo esta a poucos centímetros de si, com ambos os braços levantados a travar uma luta consigo.
Victória sorria novamente, impulsionando a espada contra a outra, tomando um impulso por se afastar e colocar-se em posição. — Pois... E eu que pensei que você que era a senhora, Bob...
— Eu não sei lutar, Victória. Eu só...
— Em guarda! — a voz da moça soara alta, avançando novamente ao encontro dele. Com dificuldade, Robert previra aos movimentos da amiga, deixando-a surpresa com a habilidade que não sabia que o rapaz tinha. — Parabéns!
Por entre o ecoar do metal, Robert ia ao seu encontro, contra-atacando em poucos movimentos de fácil defesa. Porem a adrenalina gostosa que sentia lhe subir pelo peito, acelerando seu coração sempre tão calmo em meio à alguma emoção, fazia o ex-taberneiro sentir-se numa verdadeira aventura, sorrindo abertamente ao cruzar espadas com aquela que mais admirava.
Do tombadilho, Benjamin baixara as vistas até a dupla que abria caminho por entre os homens animados a agitar aquele pequeno duelo. O filho de Sparrow vira Victória sorrir sinceramente, na companhia de Robert, revidando e algumas vezes deixando-se perder, em simples ataques, num movimento qualquer. Talvez o fizesse de propósito, mas aquele que, como um irmão era tratado pela pirata, de fato tinha jeito para a coisa. Robert apenas de um treinamento necessitava. Era maneiro nos movimentos e atento às intenções do oponente. Enérgico, mas meticuloso. Aquele irlandês tinha talento. Algumas pessoas nasciam com o dom nas veias, e Ben, apesar do nome que sustentava, não tinha a sorte de dizer o mesmo de si.
Lembrava-se desde sempre que nunca tivera jeito para lutas ou duelos. Quando mais jovem, de volta à Inglaterra, gostava de consertar coisas, somente. Nos tempos difíceis, em sua amada América, anos antes, auxiliara muito a mãe na pequena plantação de índigo. O azul quase violeta dos arbustos ainda quedava-se em sua mente. Não gostava de recordar aquela época, embora fosse inevitável. Se pensasse nos amigos felizes que lhe acompanharam durante toda sua infância, se pensasse na casa simplória, mas limpa ao extremo pela qual sua mãe tanto zelava, pensava no índigo.
Quando adulto, logo após tomar os mesmos rumos do pai, para a desgraça de sua mãe, ainda voltara à New Orleans, mas triste ficara ao saber que metade dos seus antigos vizinhos havia partido para a Flórida no encalço da laranja.
*
New Orleans, 1740
Quando adentrou nos arredores da vila onde crescera, Ben pouco a reconheceu. Exceto por alguns rostos, os dos mais velhos moradores cujo sorriso branco contrastava com a pele negra quase azulada, fruto dos anos de Sol tomado nas plantações. Sparrow cumprimentara quase todos, pelo menos fizera questão de dirigir-se àqueles que se lembraram de si, chamando pelo “Benjy”, filho de Penélope, a inglesa sem papas na língua e com muito punho para o trabalho. Ali ele não era Sparrow. Era só Benjy.
A situação do lugar já fora das melhores, mesmo nunca tendo sido das boas. Para onde olhava era o amarelo que via... Branco encardido, na verdade. Da frágil madeira que revestia os imóveis, passando pelas roupas puidas dos trabalhadores e culminando no chão de areia, seco. Ajeitando o tricórnio à cabeça, ele passou por dois homens mal encarados do alto de seus respectivos cavalos. Os olhos claros destes vasculharam o jovem pirata de cima abaixo. Cumprimentaram-no em francês, e apenas o fizeram por notar o contraste que Ben fazia na companhia dos escravos libertos.
Benjamin assentiu com a cabeça, apenas, subindo um, dois e três degraus até chegar à soleira da porta de um dos casebres. — BENJAMIN? — um homem negro um tanto mais jovem que si, de mesma altura, mas de uma voz que se esganiçara em face de grandes emoções lhe falara num abraço.
— George... George — o de cabelos compridos meneou. — Sou eu sim.
— Eu quero saber por onde andava! — os olhos castanhos do mais moço brilharam com a volta do amigo de infância.
— Eu quero saber do Big Sam. — ao ouvir Benjamin lembrar-lhe do pai, há pouco falecido, o semblante de George mudou. — Como foi que aquilo aconteceu, George?
Seu amigo lhe puxou uma cadeira em meio à casinha humilde, serviu-lhe de um café fraco e contou como tudo se passara. Samuel, ou Big Sam, estava velho. Passara tanto pela vida. Vivera mais do que os próprios conhecidos. Viu a esposa morrer, inclusive. Não agüentaria muito mais tempo sem sua esposa Netty.
As novidades não eram muitas, mas o inevitável acontecera, os franceses, em meio a tanta pressão, fizeram os trabalhadores caírem nos braços dos espanhóis, mas na mesma vida dura de lavrador. — Eu não fui. Mas a Clara foi, ela e os meninos...
— Clara... — recordando-se do nome de sua primeira namorada, irmã de George, os pensamentos de Benjamin voaram para longe antes dele próprio se pôr novamente em terra. — Estou indo atrás do meu pai, George.
— Que pai, Benjy? — o homem cujo rosto jazia salpicado de sardas minúsculas perguntou, sem freio algum diante dos sentimentos do filho saudoso. —... Só você para ir atrás do Jack, Benjamin! Sua mãe como está?
Por mais que dissesse que estava tudo bem com sua mãe e por mais que repetisse que precisava de fato ir atrás do pai sumido, resgatá-lo onde quer que ele estivesse, George não se conformava com o semblante preocupado de Benjamin. — É meu pai, homem!
— Vai andando, pirata... Se não ainda perde a hora!
— Vem comigo, George! Você nunca conheceu o mar... nunca foi além do Mississipi sequer!
— O rum te torrou os miolos, Benjy? — dando um tapa à mesa, George bradou. — Meu lugar é aqui. Meu pai conheceu o “além Mississipi”, veio menino numa daquelas embarcações, foi tratado como boi desde pequeno... Eu não tenho nada a ver com o "além mar"... Aliás, nem com a Flórida eu tenho algo a ver... Meu lugar é aqui.
Pondo-se de pé, Benjamin tomou a mão do outro, despedindo-se. — Queria que viesse comigo.
— E eu queria que você não tivesse saído da Inglaterra.
*
“Aye!” — o grito de Victória soara alto em seus ouvidos ainda que longe da moça Benjamin estivesse. Ela unia uma mão à do irlandês, apertando-a firmemente e gritando qualquer coisa aprendida ao modo escocês com que anos passara em companhia. A animação da tripulação era invejável visto que, por dentro, Benjamin não era nem um pouco feliz.
— Parabéns, Duane! — às costas do rapaz, ele falara, atraindo o olhar verde do tipo que consigo pouco falava.
Robert mirou-o dos pés à cabeça. Não se lembrava de ter fechado negócio algum com Sparrow. Porque então o moreno lhe estendia a mão, cumprimentando-o como se aquela fosse a primeira vez em que o visse? Levando esta aos próprios cabelos, Robert fingiu não lhe notar o gesto que ficara pendurado, renegando os dedos compridos, poucos anelados, do mais velho. — Onde ouviu meu nome, Capitão Sparrow?
— Qualquer um lembra-se do nome de alguém tão diferente, hum? — Ben sorriu. — Os homens falam, sabia? Dizem que você andava para ser padre...
— Quem disse? — Bob olhou os cantos, não lembrando-se de dizer nada a ninguém.
— Que importa? Eles não só falam como ouvem também. — Benjamin brincou. — Cuidado com o que diz e aonde diz... Ou ainda descubro onde aprendeu a travar espadas.
— Eu nunca tomei aulas, ou...
— Então é um prodígio. — levando os olhos até Victória, o pirata provocou-a. — O que me diz, Slaughter, foi você que o treinou?
Dando as costas ao de cabelos longos e castanhos, Victória, voltou-se à Robert somente, passando um braço no entorno de seu pescoço, fazendo o ex-taberneiro gelar com tal aproximação. — Não me lembro de tê-lo ensinado à treinar... — piscando um olho ao irlandês ela seguiu. —... Nunca tivemos tempo, pois, Bob?
— O que está fazendo? — ao ouvido de Victória, Robert perguntou. Porem, ela não lhe respondera, inclinando-se ao seu encontro, apenas. Em seguida, Vi planeara salpicar um beijo ao de leve numa das faces do celta cujo sobrenome ganho fora Duane.
Victória lhe mirou a bochecha, mas um movimento brusco do rapaz a fez acertar-lhe o canto dos lábios. O gesto fora bastante rápido. Notado por poucos; Benjamin, Robert e Brand que, às costas da capitã, baixara os olhos, desaprovando-a. — De fato não tínhamos tempo para treinar. Robert tem um dom, somente.
Antes que Benjamin se retirasse do convés, caminhando de volta ao leme, fora Robert a se mexer, tirando o braço de Victória ao redor de si e seguindo em direção às cabines.
— Boa jogada, capitã Slaughter... — Ben falara num tom jocoso. — Cuidado com quem machuca.
— Está doido, Sparrow? — ela mostrara a lâmina da espada que trazia na outra mão. — Eu não fiz nada demais... Ele está bem... Está tudo bem.
— É claro que está... — os olhos negros do capitão firmaram-se no decote aberto da larga camisa branca da moça, analisando o ínfimo pedaço de pele exposto de Victória. —... Eu também estaria. — passando a ponta da língua pelos lábios, ele tentou se focar em qualquer outro elemento presente ao redor de si, acabando por deixá-la no vácuo.
*
Pela porta da cabine, Victória passara, colocando fogo pelas narinas ao se deparar com a amiga sentada à beirada da cama, com o olhar paralisado em si. — O que foi agora? O dia não estava lindo?
— Homens! — a mais velha só faltava arrancar os olhos da cara tamanha brutalidade com que se expressava. — Benjamin, Robert...!
— Espera aí... — Otávia ergueu um dedo no ar. — Você falou “Benjamin” e “Robert” na mesma frase?
Slaughter sentou-se no pequeno espaço do chão, flexionando as pernas, apoiando os punhos ao joelho, desinteressada. — E o que tem?
— Está equiparando os dois... O que é muito bom, mas... Está equiparando, não ‘tá?
— Não, Robert é diferente, ora essa! — Victória bradou. — É meu melhor amigo. É o seu amigo, Otávia! Mas ele me deixou sozinha falando com aquele abutre do Sparrow...
— E eu era a estúpida que tratava o Robert como criança, pois? — a de cabelos castanhos agarrou a mecha da própria madeixa, ensaiando fazer uma trança. — Ele é um homem, como você mesma disse. Mas não brinca com ele... Ele não é como os que você já conheceu.
Os olhos castanhos de Slaughter se sobressaltaram. — Está me ofendendo Otávia Doormat!
— Não estou não... Só quero dizer que ele te conhece há anos e tem sentimentos. Não é como o Benjamin que te conheceu a bem dizer ontem, ou como o seu esposo...
Vendo a outra morder um lábio, fraca das ideias, Vi emendara: —... Joe.
— Isso. Ou como o Joe Slaughter... Que viu em você um colo em que pudesse ter afago. — Otávia disse. — Robert tem sentimentos por si, embora eu não saiba quais são. E só isso já basta para você ter cuidado com o modo como o trata.
Num impulso, Victória pôs-se de pé. — Se você não fosse minha amiga... — principiou, erguendo uma sobrancelha.
— Já sei... — a outra rolara os olhos, vendo Victória seguir, passando pela porta. —... Me metia um tiro. Mas é bom ouvi-la dizer isso, significa que a atingi. Me dando um tiro iria ser a única maneira de me calar.
— Até mais, Doormat! — a mal humorada saiu enfim, chiando os solados das botas, mas não sem antes ouvir mais da caribenha:
— Eu aconselho que seja na boca, porque se me deixar viva vou continuar falando.
Rolando os olhos para a fala da moça que se recusava a sair da cabine a fim de evitar qualquer olho comprido da tripulação, Victória seguiu pelo porão até às escadas que davam acesso ao tombadilho.
“TU”! — fora a primeira coisa falada por Victória no instante em que seu olhar cruzara com o de Robert. — O que há contigo?
O irlandês olhou os cantos antes de se aproximar, saindo da sombra da escadaria que dava para o tombadilho. — Algum problema, Victória?
— Está chateado comigo?
Robert engolira em seco, tentando sorrir sem querer. — Porque estaria?
— Eu lá sei, leprechaun! — erguendo uma mão, dando um soco ao de leve num dos ombros alheios ela seguiu: — Eu achei que estaria...
— Está tudo bem, Vic... — numa clara mentira, ele encarou os orbes escuros da moça, lhe fazendo olhá-lo igualmente. — Eu precisei ir ajudar o Sr. Pintel nos afazeres. O homem está muito velho para esse oficio de imediato...
— Ele me contou histórias do que já passou... — vendo-o roer uma unha, Slaughter riu. — Mas não tira o rumo da conversa, irlandês!
Chegando-se na amiga, Robert a interrompera, falando baixo: — Olha, ele me falou dos mantimentos... Estão em baixa e o próximo porto está a umas duas semanas de distancia.
— Os miseráveis não tinham visto o estoque do porão?
— Não tiveram tempo... Seqüestramos o navio antes e o que havia era pouco, pouco até para a dúzia de homens que o Sparrow tinha...
Cortando-lhes a conversa, o próprio Pintel passara correndo junto à dupla, indo ter com o capitão na cabine deste. — Porque tenho a impressão de que estão me escondendo algo? — a pirata olhou os cantos antes de seguir até aos aposentos de Benjamin, mas antes que passasse pela porta deste, fechada segundos antes por Pintel, Victória assustou-se ao ver o jovem Sparrow e o imediato saindo às pressas daquele cômodo.
— Vê, Capitão? — o velho gorducho apontara para o horizonte onde um ponto cinzento se fazia visto da amurada do timão. Benjamin levara um binóculo ao olho, focado na paisagem.
— Ótimo, Pintel. — dando um tapa de consolo nas costas do homem mais baixo que si, Ben sorriu mostrando os dentes. — Vamos interceptá-los.
— O que há? — Victória puxou o que Benjamin tinha em mãos, mirando na mesma direção. — Interceptá-los? Para lhes pegar os suprimentos?
— Como soube? —Ben a mirou com o canto do olho, fazendo uma cara cínica para si.
Victória não lhe dera muita atenção. — Tenho meus informantes... — disse antes de voltar-se à tripulação. — Recolham a bandeira pirata!
— Não dê ordens à MINHA tripulação! — Sparrow inflou o peito. — RECOLHAM A BANDEIRA PIRATA, HOMENS!
Numa expressão de desgosto, Slaughter fez um bico, afastando-se do outro capitão. — Eu já lhes disse isso... Agora, nos aproximaremos da fragata, mas tenham calma...
— SLAUGHTER! — os olhinhos pretos do antes rapaz de New Orleans quase saltaram da cara. — Só o façam quando estivermos a bombordo deles, e...
— ‘Tá... Isso eles já sabem. Agora toca a ordenar aos canhões, faz favor, hum!
Com a confusão instalada, os tripulantes viram que as velas brancas da fragata estendiam-se às vistas, dando impressão de que as nuvens haviam descido ao mar e seguiam na direção do vento, guiando a embarcação. Esperando pacientemente, vendo o navio contrário se aproximar cada vez mais, os homens do Commedia ouviram a voz de Victória dando a ordem, clara e em bom som para que se hasteasse a bandeira pirata quando alcançaram um ângulo que lado a lado, era impossível à fragata dar meia volta, emparelhando-se ao navio pirata.
Benjamin encarregou-se de dar as ordens aos canhões ensurdecedores que foram disparados em direção à embarcação alheia. Em sua cabine Otávia se sobressaltara com o barulho. Ao sair daquele cômodo que tomara como seu, vira o pandemônio que se fazia do lado de fora, vindo a dar com Robert pelos arredores do caminho, excitado com tal cenário. A antiga dona do Faithful Bride nada lhe perguntou, retirando-se a um canto, enquanto o coração parecia estar saltando de seu peito, amedrontada.
Para alguém que apenas e só conhecia Tortuga, ver-se em tal cenário confuso tornava-se um autêntico inferno pessoal que ultrapassava todas as brigas a que já assistira no Faithful Bride. Como, ela perguntava, ninguém conseguia sentir medo? Como Victória, como mulher, conseguia se dar tão bem no meio daquele mundo de homens?
A fragata demorara a se armar, sendo duramente atingida enquanto que os homens a bordo desta agitavam-se em face dos piratas que lhe assaltavam. A luta que se iniciara fora violenta, no entanto, em pouco tempo havia terminado, pois os tripulantes daquele navio não pareciam minimamente preparados para um ataque.
Nem tudo no convés daqueles homens, que nem inglês pareciam falar, fora destruído, mas uma triste paisagem ali se fizera em meio a homens feridos e à ira do próprio capitão, um homem de nariz saliente com olhos tão negros quanto os de Benjamin, mas dono de uma pele mediterrânea incomum.
A visão de Robert se abrira para a desgraça do pós-ataque, não se encontrando tão bem quanto parecia. Na verdade, estava até triste, mas incrivelmente satisfeito com o resultado do assalto. De Victória o mesmo se podia dizer, apesar de que na última vez que fizera algo assim estava na companhia do falecido esposo. Sem muito mais pensar, ao lado de Benjamin, ela ordenara que homens fossem à fragata recolher os pertences e render os tripulantes.
— Sei ladri! — o injuriado gritara a todo pulmão, sendo amarrado ao próprio leme por Brand que o dobro de seu tamanho possuía. — Tutti ladri. Siamo commercianti, e voi sei tutti ladri!
— CALADO! — Brand agarrara-se à garganta do homem, extraindo uma risada de Pintel. — Italiano miserável!
— Solta-o! — Benjamin fora ter com os outros, ordenando-o. No seu encalço viera Victória a fim de tomar a liderança da sua tripulação em que Ben pensava poder mandar. — Solta o homem, escocês nojento!
Brand olhou para Slaughter que nada pôde fazer se não reiterar o que o moreno dissera. — Larga, Brand.
— Sono anche assassini, eh? — o capitão estrangeiro bradara, ainda preso pelas mãos, olhando firmemente para um dos rapazes magricelas de cabelos escuros e pele igualmente morena no meio do grupo rendido. — Giorgio, fare tutto quello che vogliono, altrimenti ci uccideranno... Andiamo, presto! PRESTO, pazzo!
— Capitano... — o tipo confuso lhe falara. —... Cosa succede a noi se esse rubano la merce? Se noi non morire qui, noi morire prima di arrivare a nord!
Voltando-se a Victória, Benjamin coçou a cabeça. — Me sinto estúpido...
— Sente, é? Não é você que vive relendo “Commedia” de Dante? — Victória ralhara antes de erguer os braços no ar, falando qualquer coisa em sua língua mãe, qualquer coisa que, apesar de difícil, ajudara os italianos a compreendê-la.
— Qualcuno che traduciamo? — o capitão repetiu, tentando se fazer claro, antes de perguntar aos colegas: — Dov'è Il Pimpinelli?
— Lui è ferito... — o tipo de nome Giorgio disse, antes de o seu superior repetir a ordem. O rapazote correra até ao tombadilho, trazendo um outro homem consigo logo em seguida. — Lucci, traduce quello che queste persone ci dicono.
O italiano, que parecera ser o único ali presente capaz de mediar tal conversa, estava zonzo nos braços do outro. Não se poderia ver realmente a que altura chegava, visto que se apoiava em Giorgio, mas não era muito alto. Seu nariz era igualmente avantajado, ainda que menos pendente que os demais. Sua pele era clara, porem avermelhada pelo sol que deveria ter tomado recentemente. Não se parecia nada com um marinheiro. Suas feições eram as de um homem que jamais teria sido feito para o mar, e a mão de dedos delicados, artísticos, logo pôde ser vista quando ao convés ele se debruçou, enjoado com o balançar do navio, provavelmente.
Segurando os próprios cabelos, não tão claros quanto os de Brand, mas bem menos escuros que os do resto da tripulação nariguda, o tradutor respirou fundo, focando apenas um dos olhos nas águas, tendo em vista de que o outro jazia fechado, inchado em face de uma pancada, a sangrar. — Me levem daqui... — ele pediu numa voz baixa. Apenas Victória lhe ouvira por entre o sotaque napolitano e a voz nasalada. —... Esses homens... — por entre os lábios finos, cortados, saía o sangue rubro por si vomitado. —... Non são comercianti...
— Como assim? — Slaughter interessou-se.
— Contrabandista’... Se voltam à Firenze sem o que está no estoque... Têm as gargantas cortadas...
— Não podem dizer que foram roubados? — ela propôs.
O falante sorriu, abanando a cabeça — Non!
— Pimpinelli, cosa succede? — o capitão lhe perguntou, nervoso com a longa conversa do outro. — PIMPINELLI!
— Isso no meu olho... — tentando levantar a pálpebra esquerda ele falou. Só então Victória pôde reparar em todo o semblante desesperado dele. Seus orbes iam do cinza ao castanho, rareando dentre o verde, mas, acima de qualquer coloração, vermelhidão ou inchaço; estavam apavorados. —... Non foram suas armi, eh? Capisce? Foram eles!
— Queremos provisões, somente.
— Manjare è... Comida? — tentando entendê-la, Pimpinelli repetiu, em seguida, voltando-se ao capitão nervosinho, traduzindo-lhe. O homem balançou a cabeça positivamente, frisando algumas palavras em seguida: — Se levarem tudo eles... Morrem ante’ de cruzar o oceano... Tire-me daqui, per favor...
— Slaughter? — a voz de Benjamin soou às costas da negociante, fazendo ela e Pimpinelli virarem a atenção para si. — Adiantem-se.
O olhar do italiano firmara-se em Benjamin por um longo instante antes de ele agarrar uma mão de Victória pedindo-lhe: — Levem-me.
— Certo... — desde quando Victória se apiedava das pessoas daquela forma?
Talvez se tornara mais maleável desde que também vivera em cárcere dentro de um navio. Aquele homem, fosse quem fosse, corria perigo com aqueles contrabandistas. Piratas ou não, sempre era melhor estar na companhia de gente das quais se podiam esperar alguma falta de caráter. Contrabandistas eram safados por natureza, nunca se sabe quando vão somente comercializar roubos ou quando, numa vestimenta corsária, saem à caça de procurados por crimes ou por ideologias que fossem contrárias às dos reinos.
A conversa firme dos italianos não convencera Victória que consigo trouxera parte das provisões alheias e o tradutor que se apressou logo a mudar de navio. Benjamin, por sua vez, ficou sem entender se a outra tripulação queria se livrar do homem ou se algum interesse Victória vira no falante em italiano. Slaughter agia estranho. Era uma mulher diferente das outras e uma pirata igualmente ímpar. Cada dia que passava em sua companhia era algo novo que de si descobria, mas, ainda que às vezes pensasse tê-la decifrado, ele sabia, muito mais dúvidas ainda haviam por surgir.
*
Quando a noite caíra, cobrindo todo o mar do Caribe, o Commedia voltara ao seu rumo, com a tripulação a sentir o estômago mais forrado com o saque feito. De nada adiantara o capitão italiano pedir para deixarem as bebidas. Quando se tratava de rum, piratas não escutavam ninguém.
― Aqueles infelizes não podem ver uma garrafa de rum. ― Victória aparecera sorrateira no timão, apreciando a noite estrelada e o semblante vítreo de Benjamin. ― Não adianta olhar essa bússola. Ela não funciona.
― Andou bisbilhotando nas minhas coisas, Slaughter? ― Ben desviara o olhar da bússola para o da pirata que encostada à amurada o fitava.
― Com o perdão da palavra mas... aquela cabine era minha por direito. ― Victória levantou os braços.
― Você que quis ir para o porão, junto dos seus amigos estranhos. ― Ben encolhera os ombros, agarrando o leme.
― Quis se aproveitar de mim, Sparrow. Não se faça de santo.
― Não se faça de santa você! ― Ben lhe apontou o dedo. ― Me seduziu... me despiu... eu lá sei o que fez comigo.
Rolando os olhos, a morena não quisera bater na mesma tecla, aproximando-se de Ben. ― Sério, porque guarda essa bússola? Amuleto?
― Meu pai. ― Ben olhara o objeto abrindo novamente a tampa. ― Era dele.
― Compreendo. Deve ser tão antiga que não aponta mais ao norte. ― Victória o rodeara, afastando-o do leme.
― Ela nunca apontou ao norte, Victória. ― Ben se colocara atrás dela, enveredando os dedos pelas mechas tão negras como a própria noite. No entanto, quando ousara um maior contato, rodeando-lhe a cintura com um braço, a jovem se afastara. ― É uma bússola mágica. Aponta àquilo que desejamos.
― Isso é sério? ― Victória riu. ― Quer dizer que ela aponta para o seu pai? Tendo em conta que é o que mais deseja encontrar.
― Sim... mas ultimamente ela tem variado. ― Ben se colocara ao seu lado, esticando o pescoço. ― Ela cede bastante às vontades mundanas.
Num gesto rápido, Slaughter lhe retirara a bússola das mãos, abrindo-a para si. ― Ela não para de girar. ― constatou ao erguer o sobrolho.
― Das duas umas... ou ela não funciona consigo... ― Ben tornara a encostar-se à moça, vendo a agulha girar em todas as direções. ― Ou então anseia mais do que encontrar o Sea Lion.
Victória nem se dera conta da aproximação do capitão do Commedia, que já levava a mão ao seu ombro, aproximando os lábios do pescoço alheio. Era assim desde que se vira nos braços de Joe pela primeira vez. Qualquer toque em si tornava-se um martírio. Não que Victória tivesse o mesmo nojo no que tocava a Ben.
O capitão do Commedia lhe parecia um homem atraente. Não muito inteligente, mas dono de uma beleza ímpar que deixaria muitas mulheres de rastos. Mas por mais que tentasse, Victória não conseguia sentir nada. Apenas um pânico sentindo-se encurralada assim. Por momentos, desejara algo. Algo que ela procurava mas que nunca encontrara. Algo que a complementasse. Que não fosse Joe e Ben.
No mesmo instante em que sentira os lábios de Sparrow tocarem sua pele, a agulha da bússola parara, apontando para oeste e fazendo Victória olhar nessa direção de pronto. No meio do tombadilho, um Robert que saíra para apenas apanhar ar e conversar um pouco com a tripulação, jazia estático, vendo a aproximação entre capitães. O irlandês não se demorara, cerrando os punhos e voltando a descer até ela o perder de vista.
― Largue-me! ― Slaughter exclamara, afastando-se de pronto, quebrando com o contato e fechando a bússola. ― Eu não acredito nisso. Se essa bússola realmente apontasse para o que desejávamos, porque Jack não a levou com ela?
― E eu lá sei? ― Benjamin não escondera a frustração do momento, voltando-se ao leme, agarrando-o com força. ― Do mesmo modo que eu não sei porque ele não me deu a outra metade do mapa... que supostamente nos diria onde estaria o dito tesouro dentro da dita ilha...
― Como disse... ― Victória lhe devolvera o objeto, olhando-o seriamente. ― Aquele mapa aponta a ilha... não chegaremos longe. Imagine que encontramos Avalon... que realmente Camelot lá fica, ou as suas ruínas. E depois? Era reino! Como acharemos um tesouro? Seja ele o que for?
― Temos de... ― de repente, uma luz se fizera na cabeça de Ben Sparrow. ― PINTEL!
― Sim... meu capitão? ― o gorducho estafado subira até ali, olhando-os confuso. ― Aconteceu algo?
― Quem eram os amigos do meu pai? ― a pergunta fora direta.
― Amigos? ― Pintel chegou a rir, mostrando os poucos dentes que ainda possuía. ― Desculpe... mas seu pai tinha mais inimigos que amigos...
― Arre! Deveria haver alguém. Alguém a quem ele deixasse algo que sabia que seria importante. ― Ben levou as mãos aos cabelos.
― Sr. Pintel, tente lembrar-se de algo... alguém a quem o Jack teria essa confiança. ― Victória lhe pediu.
― Por Calypso... Gibbs já morreu. Era mestre do Pearl e homem de confiança do Jack. ― Pintel esclareceu. ― E se a questão é esse mapa aí... esqueça. Gibbs morreu há mais tempo.
― Quem é Calypso? ― Slaughter erguera o sobrolho ao ouvir tal nome.
― Ah... era uma mulher fascinan...
― Uma deusa... uma coisa complicada. ― Benjamin torcera o nariz. ― História de doidos.
― Doidos nada! ― Pintel ergueu o dedo. ― Eu estive lá. No dia em que libertaram Tia Dalma e ela se transformou em deusa Calypso... o amor do Davy Jones. ― Pintel baixara o tom de voz até um sussurro.
― Tia Dalma?... Ela tinha forma humana?
― Se tinha. ― Pintel riu desgraçadamente.
― Histórias! ― Ben bufou. ― Se ela virou deusa, não é ela que tem o mapa.
― Mas...
― Quando se lembrar de algo útil, Pintel... me avise! ― ajeitando o chapéu à cabeça, Benjamin dera ordem de retirada ao velho imediato.
― Você é mesmo muito bruto! ― Slaughter abanara a cabeça.
― Pirata, love! ― mostrando os dentes perfeitos, o louisiano lhe sorrira.
― Fique com essa bússola dantesca... Que eu vou tratar de saber mais sobre os antepassados de Jack Sparrow, porque o que vem a seguir... ― descendo do timão, a pirata resmungara mais coisas entre dentes, algo que Sparrow não conseguira entender, sorrindo. Era facto. Para Benjamin, arreliar Victória Slaughter tornara-se um dos seus passatempos preferidos.
XXXContinuaXXX
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