Commedia

5 Capítulo 4 Um navio, uma rota, dois capitães


Commedia

By Jodivise & Olg’Austen

Capítulo 4: Um navio, uma rota, dois capitães

Há quem diga que para se conhecer o inferno tem de se descer até ele. Pode ser agressivo, mas a verdade é que Benjamin sempre fizera pouco caso quando sua tripulação dizia que o porão se assemelhava em muito ao covil de Satanás. Sua mãe, Penélope Lane, referia exactamente o mesmo quando fora feita prisioneira às garras de Jack Sparrow. E agora, era ele próprio a experimentar o quanto aquele inferno lhe ardia na pele.

― Aquela... aquela... ― as palavras saiam num autêntico gaguejar enquanto Ben se limpava, fazendo pouco caso das vestes que o Imediato lhe passava. ― Vaca!

― Ela agiu pela calada, capitão. ― Pintel lhe disse, olhando o alto. ― E os pamonhas da tripulação deixaram-se corromper por ela.

― Dei... deixaram-se? ― Sparrow arregalara os olhos tão escuros. ― Quem iria se deixar levar pelos encantos daquela serpente?

O experiente pirata preferiu não responder o óbvio. ― Mas eu fiquei ao seu lado, capitão! Assim como sempre fiquei ao lado de seu pai.

― Não me faça rir. ― Ben vestira a camisa de um branco encardido, bufando pelo casaco perdido. ― Ainda bem que ao menos me guardou o chapéu. ― desconsolado, o jovem homem olhava o objeto onde uma pena comprida vermelha se fazia. ― Sei muito bem que se amotinou contra meu pai aquando da maldição de Córtez, Pintel.

― Águas passadas... ― o baixinho apressou-se a emendar. ― O que vai fazer agora?

― Tomar meu navio, ora essa! Acha que eu, capitão legítimo do Commedia, irei dormir aqui? Nesse porão?

― Com o perdão da palavra... ― Pintel se encostava à parede daquele cubículo, dando passagem à barata tonta de nome Benjamin. ― Mas está numa cabine. Era pior se o mandasse dormir nas camas de rede...

― Victória Slaughter... ― o moreno levava as mãos aos cabelos, vendo-se estúpido ao perceber que caira que nem um pato no seu jogo. ― Decore bem esse nome. Porque o sangue dela ficará gravado na minha espada!

― A sua espada está com ela...

― Arre! ― Ben socou a porta daquele pequeno quarto. Se é que se poderia chamar tal espaço enfezado de quarto. Seriam menos de três e não se comparavam à cabine espaçosa que Sparrow sabia ser sua na zona da popa. ― Eu vou falar com aquela galdéria. Saber o que ela quer de mim. Do meu navio e dos meus homens!

― Capi... ― Pintel não terminara a frase, vendo-o passar que nem rajada por si.

Tal caráter tempestivo já era esperado. Pintel conhecia de sobra a loucura de Jack e chegara a ver com os próprios olhos amarelados o ar de importância soberba que Lady Penélope tinha. E se os dois juntos já eram difíceis de se lidar, alguém com as características de ambos era um pesadelo.

Quando soubera que o herdeiro de Sparrow precisava de um imediato, o antigo marujo não hesitara. A tripulação do Black Pearl já quase não pertencia a este mundo. Gibbs tinha morrido dez anos antes e de Barbossa ninguém lhe achava o rastro. Quando Jack conseguira novamente o Pearl, após mais aventuras e desventuras com o capitão mais velho, Pintel ainda o acompanhara, mas decidira dar um termo quando seu amigo de sempre Raguetti, adoecera. Ironia das ironias, quando o zarolho batera a bota alguns meses depois, o mais baixo encontrava novamente a felicidade na pirataria junto de alguém que sabia ter faro para a aventura.

E Benjamin tinha de sobra. Só que à genialidade escondida que herdara do pai, somava-se o caráter fresco e individualista de sua mãe que acabara por dar uma noção errada à tripulação de homens. E tudo culminara ali, quando decidira aportar três dias em Tortuga, sentindo-se preparado para saber o que se sucedera com o Sparrow mais velho. Mas tal e qual como Jack, as coisas nunca poderiam ser fáceis.

*

― Dizes então que a última vez que tiveste notícias do Sea Lion, ele navegava para norte? – Victória coçava o próprio sobrolho, olhando o pirata ruivo do outro lado da mesa.

― Walls é um pouco casmurro, Slaughter. ― Brand espichava os olhos para os mapas sobre a mesa. ― Ele só quer saber de saques e sangue. É quase previsível apanhá-lo. Basta saber quem ele atacará.

― Casmurro, mas não burro. ― Victória apoiara os pés à mesa, sentindo-se dona daquela cabine. ― Pode sair. Amanhã, mal o dia comece a raiar, irei definir uma rota. Por agora só quero navegar para o mais longe possível de Tortuga.

― Só uma pergunta que está já a inquietar a tripulação... ― a voz de Brand decaíra uma oitava. ― Como vai ser com o filhote de Sparrow, hum? Dois capitães no mesmo navio?

― Este navio só tem um único capitão! ― Slaughter bradara. ― Benjamin perdeu toda a sua autoridade quando eu assumi o comando. Quem vai querer um capitão que sobe a bordo nu?

Quando o homem sem modos saíra, Victória suspirara, detendo-se a olhar em volta, para o cómodo iluminado pelas luzes das velas. O Commedia, embora fosse um brigue bastante apetrechado, estava longe de se assemelhar à fantasia que o galeão de Jack Sparrow deixara por aquelas bandas. Possuindo dois mastros, tinha na velocidade o seu segredo. A garota se perguntava do porquê de Benjamin ter mandado batizar aquele navio cujo casco pintado de grená se sobrassaía em qualquer porto, de Commedia.

Na verdade, havia muita coisa que Victória gostaria até de saber sobre Ben. Debaixo daquele véu de prepotência e vaidade, ela sabia encontrar-se alguém interessante. O problema, é que isso parecia não ser suficiente para a agora capitã. Joe também o era e nem por isso conquistara seu coração.

Caminhando pela cabine, Vic passara a mão pelos lençóis da cama estreita, num dos extremos, voltando-se depois para alguns pertences espalhados numa cómoda. Três deles lhe chamaram especial atenção. Uma bússola velha que ao abrir constatou estar avariada; um retrato de uma mulher que mesmo entrada nos quarenta denotava ainda uma beleza única e um livro, cujo título lhe chamara a atenção de pronto.

― Divina Commedia?

― De Dante Alighieri. ― uma voz soara atrás de si, fazendo-a largar o objeto de pronto. ― Minha mãe ofereceu-me quando fiz treze anos. ― em roupas limpas, Benjamin a olhava de cima, com um sorriso sarcástico.

― Acho que isso responde à minha dúvida quanto ao nome tão peculiar do navio. ― Victória encolheu os ombros. ― Diga... já alguma vez passou por um inferno?

― Sim... todos passamos... o meu último está a acontecer agora mesmo. ― Benjamin apoiara as mãos à mesa do centro, fixando os orbes negros em Victória. ― Me devolve o navio, Slaughter.

― Está no seu navio, Sparrow. ― a morena arregalou os olhos, sorrindo. ― Está livre por aí. Ofereci-lhe até uma cabine. E o seu chapéu! ― voltando-se, a jovem desembrulhara algo atrás de si. ― E como prova da minha boa fé... aqui tem a sua espada.

― Você é burra? ― Ben sorriu pegando na arma, com a qual, no mesmo segundo e num golpe de perícia, encostara a lâmina ao pescoço de Victória, prensando-a no móvel atrás de si, junto da janela.

― Não. Mas você me parece realmente um pouco desfazado, caro cavalheiro. ― sem oferecer nenhuma resistência, Victória o tramara, erguendo o joelho a acertar nas partes baixas de Sparrow, fazendo vergar-se e soltá-la. Quando, ao virar-se de novo, pensara investir, deu com o cano da pistola desta apontado a si. ― Nunca, mas nunca confie numa mulher que se faz de indefesa.

― Porque quer meu navio?

― Porque preciso de um, oras! ― Slaughter rodou os olhos. ― Para reaver aquele que me pertence por direito.

― E porquê justamente o Commedia? ― Benjamin colocara a espada à cintura, presa no cinto, fazendo a pirata recolher sua arma.

― Porque é o único à altura do Sea Lion. Pelo menos de todos os que já passaram pelas minhas vistas. ― Victória descansou, sentando-se a analisar os mapas. ― Sabe porque o salvei?

― Porque é fraca, afinal? ― Ben lhe imitou o gesto, sorrindo de canto.

― Porque não pretendo ficar com o Commedia depois. Ele é seu... apenas o pedi emprestado por um tempo.

― Você não entende! ― Sparrow esbracejara. ― Eu não tenho esse tempo. Eu preciso partir e você estragou todos os meus planos.

― Azar. ― Vic sorriu, pegando uma maçã do cesto ao meio.

― Meu pai desapareceu há quase quatro anos. Eu jurei que iria encontrá-lo. Eu preciso encontrá-lo antes que...

― E porque não foi? ― erguendo o sobrolho, Slaughter tinha a certeza de estar perante uma incompetência chapada. ― Tem o mapa. Me disse naquela noite que me deu a conhecer seu navio...

― Porque o mapa não está completo. Jack Sparrow só me deu uma parte. Disse que uma estava perdida e a outra em mãos de alguém que só no momento certo me daria. ― Ben socou o ar. ― Sempre odiei sua fala em códigos.

― Façamos assim! ― Victória se chegou, abocanhando a maçã e falando enquanto devorava aquele pedaço. ― Eu... faço... você... de meu mestre! Talvez até... imediato, hum? E quando encontrar o Sea Lion eu te devolvo o navio e você parte feliz da vida atrás de seu pai.

― Não. ― Benjamin levara um dedo ao canto da boca alheia, limpando o suco da fruta. ― Eu sou o capitão, Victória. E eu vou para onde me apetecer.

― Eu que sou e vou para onde o Sea Lion estiver!

― E eu para Avalon!

― Como? ― Victória quase engasgou ao ouvir semelhante, olhando fixamente Ben. ― O que disse?

― Jack... foi atrás do meu avô e segundo este... o mapa aponta para Avalon. Onde se localiza o mítico reino de Camelot do Rei Arthur e... ― Benjamin bufou. ― Já deve estar farta de ouvir semelhante história.

― Se estou. E sei muito bem que Camelot não ficava em Avalon. Avalon é a ilha onde estava a Excalibur e...

― Meu pai referiu que é isso mesmo que o mapa diz... por isso nunca ninguém conseguiu encontrar o reino de Arthur. ― Ben lambeu os lábios.

Victória ficara pálida. ― Eu posso ver esse mapa?

― Claro que não! ― Ben se levantara. ― Da maneira que é, amanhã aparecia enforcado.

― Não seja estúpido! ― Slaughter exclamou, acompanhando-o. ― Eu só quero ver.

― Nem... pense. ― um dedo comprido do pirata se colocara no meio dos seus olhos.

― Olhe...! ― vendo-o sair, Victória lhe dera a volta. ― Se... se me mostrar esse mapa ou esse bocado de mapa... eu juro que o levo até onde Sparrow se enfiou.

― E seu navio?

― Ele ruma para norte. Até podemos apanhá-lo no caminho. ― Victória sorrira.

Ben estreitou os olhos, levando uma mão a uma mecha do cabelo negro da jovem. ― O que a fez mudar de ideia?

― Joe falava nesse tesouro... ― Victória deixou escapar. ― Ele dizia possuir uma parte do mapa que o levaria a um tesouro que Arthur possuía. Um tesouro para além de prata e ouro e que podia fazer do homem que o encontrasse... o mais poderoso do mundo!

― Meu pai... disse exactamente o mesmo da última vez que o vi. ― Ben balbuciara, lembrando-se da expressão louca de Jack. ― Mas ele era louco.

― E você é o quê? ― Vic lhe sorrira, pousando uma mão em seu peito. ― Eu o levo a esse tesouro...

― Não. Este navio é meu.

― Tudo bem! ― Victória bagunçara os próprios cabelos. ― Eu não abdico de ser capitã... você também não. Que tal se ambos o formos?

― O que quer dizer...

― O primeiro que encontrar seu objetivo... deixa de o ser. ― Victória esticara a mão, pedindo por um acordo.

― A minha cabine... ― Ben olhou em volta, ferrando um lábio.

― Nem...

― É minha por direito... a não ser que a queira partilhar comigo. ― puxando a pirata para si, Benjamin enveredara uma mão pelos cabelos alheios. ― Sempre se pode acabar o que se deixou para trás... sem perigo de comidas adulteradas.

― Er... na verdade... fique com essa sua cabine. ― Victória se afastara lentamente. ― Eu prefiro ficar com os meus.

*

Os olhos claros de Robert tentavam se habituar àquele clima escuro e muito mais degradante que o Faithful Bride em dias de loucos. Andar de navio não era novidade para o irlandês, mas o tempo que já se habituara em apenas ver os navios à distância, lhe provocaram um tremendo enjoo. Pior não estaria que Otávia, que mal sentira o ondular das ondas já ameçava jogar o estômago para fora.

― Desta... eu morro! ― encolhida na cama estreita de uma das cabines do porão, Otávia sentia um calor imenso no ambiente abafado, além do enjoo constante. ― Eu sou doida, só pode!

― Queria estar numa prisão? ― Robert lhe passara um copo de água, mirando-a da porta. A cabine também não dava para mais. Um postigo minúsculo que se podia abrir para deixar entrar o ar e depois uma cama estreita um pouco de chão, onde uma mesinha estreita servia de cómoda. ― A esta hora, o Faithful já foi até incendiado e...

― Cala a boca! ― Otávia lhe bateu num braço, sentando-se à cama. ― Não diz isso nem brincando.

― Mas é a verdade... se ficassemos... seriamos presos. ― Robert a viu beber do contido, notando-a pálida. ― Enjoo de alto-mar. Vai passar.

― Já falou com aquela louca? ― Otávia o mirara, sentindo os olhos pesarem. ― Se ela conseguir o navio dela, eu quero a melhor cabine que houver!

Robert nada dissera, deixando-a só e fechando a porta, voltando-se ao corredor. O dia já amanhecia e no tombadilho eram ouvidos os passos atarefados da tripulação. Num suspiro, Robert ensaiou ir na direção de sua cabine, mas um barulho na que ficava ao lado o sobressaltou. Alguém falava sozinho e parecia bravo. Encostando o ouvido à porta, o taberneiro pensou tratar-se de algum chilique do ex-capitão, mas a voz de Victória logo lhe desfez as dúvidas.

― Victória? ― empurrando a porta devagar, Robert a mirou sentada à cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos nos cabelos, fixando o chão. ― O... o que se passou?

― Oi leprechaun... ― Vitória o mirou de baixo, suspirando em seguida. ― Mudança de planos.

― Porque não está lá em cima? Na cabine do capitão? ― Bob olhara o ambiente, notando aquele cubículo ser um pouco maior que o seu e o de Otávia.

― Eu fiz um acordo com Benjamin. Seremos os dois capitães desse navio. ― Victória lhe apontou a cama, vendo-o sentar-se sem jeito.

― Desculpe mas... isso é mau! ― o irlandês exclamara. ― Ele vai acabar reconquistando os homens dele e ainda seremos lançados da prancha.

― Que drama, Robert! ― Victória o olhou de lado. ― Eu só mudei de aposento.

― Que cavalheiro, não?

― Ele convidou-me... com certos benefícios e eu dei para trás. ― Victória encolheu os ombros.

― Ele é um crápula. ― Robert apontou para a parede como se acusasse alguém.

― E idiota. ― Slaughter acrescentou. Um pouco de silêncio se fizera ali até os dois começarem rindo. ― Vai... ele é idiota mesmo.

― Você o deixou nu em pêlo! ― Robert exclamara com um sorriso nos lábios.

― Mas ao menos lhe deixei as botas, não? ― Victória sorriu, nem ao menos notando o ar bobo do taberneiro vendo-a num momento descontraido. ― Só o que passei para conseguir deixá-lo bêbado. Recusou-se a tocar na comida ao princípio.

― Ele... ― Robert engolira em seco, parando o riso. ― A forçou a algo?

Vic deixara de sorrir, fixando o chão. ― Nenhum homem me força a nada, Bob. E se isso acontecesse, além de nu ele estaria capado.

― Jesus! ― o irlandês quase engasgara.

― Ficou com medo? ― Victória se virara para ele, encarando os orbes verdes. ― Eu não mordo.

― Eu sei.

Por breves momentos a pirata se perdera, olhando os detalhes do rosto do celta. ― Em que ano você nasceu, Bob?

― Ah... ― Robert crispara os lábios.

― Não mente!

― 1720. ― Robert fez um esgar. Seu nascimento era algo que não gostava de recordar. ― Numa zona da Irlanda.

― Eu não sei nada sobre você e você sabe tudo sobre mim. ― Victória falou, levando uma mão aos caracóis do cabelo alheio.

― Minha vida não é interessante, Vic. ― o irlandês adquirira uma tonalidade rubra ao perceber-se tão próximo da pirata. E o calor daquele aposento em nada ajudava. ― Nasci na Irlanda... em Galway. Aí viajei para aqui...

― Otávia vive dizendo que você devia ter ido para padre. ― Victória riu. ― Depois de ontem deve estar fora de questão, não?

― Quê? ― a voz de Robert até esganiçara. ― Não... é mentira.

― Mentira o quê? Você ser safadinho?

― Eu não sou safadinho. ― Robert se endireitou, tentando desarmá-la.

― Eu estou brincando. ― Slaughter sorrira, baixando o braço. ― Você é um doce. E tenho a certeza que aquela cortesã foi mais feliz do que algum dia eu fui nos braços de meu marido seboso ou daquele infeliz que se diz filho de Sparrow.

Robert piscara os olhos. Sem que a pirata visse, o irlandês ensaiara subir uma mão pelas costas de Victória, mirando o comprimento dos cabelos ondulados e negros dela. ― Eu não sou doce. Sou bobo. Parvo. E você não me conhece. Ninguém me conhece.

Fazendo-o recuar com qualquer gesto irreflectido, Victória o tornara a mirar. ― Você guarda muitos segredos... me conta um.

― Quem guarda segredos não os conta, Victória. ― Robert sorriu.

― Um que apenas confessasse a quem confiava. Sei lá... algo que não é uma questão de vida ou morte. ― Slaughter encolhera os ombros, voltando-se de costas ao abrir o postigo, fazendo o ar marítimo entrar na cabine. Ao voltar-se, a jovem pirata piscara os próprios olhos ao perceber um outro mar se fazer nas irís dele.

― Eu não gosto de navios. ― Robert confessou. ― São demasiado apertados, sem condições e... sei lá... sempre existe uma violência desnecessária a bordo.

― Você é um ano mais velho que eu. Não me faz pensar que... você não é burro! ― Victória fez uma careta. ― Se não gosta de navios, porque embarcou comigo?

― Não faço ideia... ― o celta fora sincero. Não totalmente, pois em seu coração ardia a vontade de ficar próximo a ela, de a proteger, mesmo sabendo que ela era muito mais forte que si nesse quesito. ― Talvez eu seja burro mesmo.

― Burro você não é. ― Vic lhe sorrira. ― E é tremendamente corajoso. Obrigada, Bob. Por querer participar nisso. Por... me ajudar a recuperar meu navio e talvez até a achar um tesouro.

― Não tem que agradecer. Otávia vai provavelmente, depois daquele enjoo passar, nos matar por isto. ― Robert mordeu um lábio.

― Melhor eu ir ver como ela está. ― Victória falou. ― Eu fico guardando seu segredo, ‘tá?

― Não sai por aí contando. ― o taberneiro lhe pedira num sorriso.

― Claro que não. Para provar que eu sou mulher de palavra, você fica sabendo de um meu. ― apanhando-o de surpresa, Victória se chegara bem próximo, lhe falando ao ouvido. Tão próximo que Robert sentira o quente do seu hálito. ― Eu não matei meu marido!

Tão fugaz fora o gesto quanto a saída de Slaughter da cabine. Quando Robert acordara do transe, tentando se lembrar do que este lhe dissera em condições, já a pirata e agora capitã não se encontrava ali. Ela tinha o dom de se esfumar dos sítios, mas, ele pensava, nunca do coração das pessoas.

*

Vendo o novo dia raiar, Benjamin analisava o traçado presente naquele pedaço de pergaminho, sentado num dos parapeitos das grandes janelas de proa. Lembrava-se perfeitamente do que seu pai dissera quando o vira pela última vez. O jovem capitão com pouco mais de vinte e cinco anos relembrava cada palavra como se tivessem sido pronunciadas naquele instante e não há seis anos atrás.

― Sua mãe é louca? ― a voz rouca tão saudosa lhe enchera os tímpanos quando, ao olhar em frente, Ben vira Jack prostrado, lhe sorrindo.

― Pai? ― o jovem deixara para trás o livro que lia, abraçando-se ao progenitor mais baixo que si. ― O que está aqui a fazer? Não vinha só no próximo ano?

― Sim... e não... ― Jack subira as escadas do alpendre da casa junto ao mar no sul de Inglaterra, olhando Ben. ― E sobre a sua mãe... não lhe diga nada... mas ela me atirou com um molho de cenouras quando me viu no mercado. Eu só ia dizer olá!

― Ambos sabemos que ela não gosta de proximidades. ― Benjamin encolhera os ombros, percebendo o contraste entre a vestimenta de um e de outro. Jack, por mais que os anos passassem, continuava ostentando os mesmos dreadlocks entre o cabelo grisalho, o mesmo tricórnio emendando e o mesmo casaco. ― Onde deixou o Pearl?

― Por aí... ― num gesto de mãos, Jack apontara ao mar, semicerrando os olhos. ― Ouve... eu vou fazer uma grande viagem, Ben. Que pode durar alguns anos.

― Não se vá meter em confusões!

― AAH! ― Jack ecoara um berro, levando a mão à boca. ― É igualzinho à sua mãe! Sempre querendo levar uma vidinha de legume louisiano.

― Era índigo, pai. ― Ben rolou os olhos.

― Era coisa de lady querendo virar madame. ― Jack fez pouco caso. ― Aproveitando que a fera está fora... ― retirando algo do cinto, Jack passara a Benjamin um pergaminho enrolado. ― Guarda isso muito bem.

― Um pergaminho? ― Ben desviou o olhar para aquele objeto, desenrolando-o e percebendo o desenho de um mapa. ― Um mapa?

― Não é um mapa! ― Jack arregalara os olhos, esperando por uma resposta mas só levou com a cara parva de Ben tentando processar a informação. ― É um mapa especial, capisce?

― Um mapa... que leva a algo... ― Ben semicerrou os olhos.

― É claro que um mapa leva a algo! ― Jack exclamou.

― Pai... não está fazendo sentido. ― Ben suspirou. ― É lógico que sei o que é um mapa. Mas não me disse de quê. Repare... estas linhas... não parece com nenhum mapa do mundo conhecido e olhe só... faltam bocados. ― Ben virara o mapa ao contrário. ― Diria até que dois.

― Todos os mapas de tesouros são estranhos. ― Jack avisou. ― E sim, faltam dois bocados. Foi Teague quem mo deixou. Partiu atrás dele e nunca mais ninguém o viu. Agora chegou a minha vez.

― Não. Não vá! ― Ben ergueu o sobrolho. ― Para quê procurar algo que nem real é?

― Sua mãe lhe está ensinando filosofias descartianas? ― Jack arregalou os olhos, pondo-se de pé. ― Regra número um, Benny... todos os tesouros existem. Só estão é à espera de serem encontrados.

O bater na porta acordara o capitão do devaneio, fazendo-o pronunciar-se sem sair do sítio. ― Entre.

― Licença, meu capitão. ― Pintel entrara ao mesmo tempo que Brand, ambos discutindo entre si.

― Capitão uma ova! Exijo falar com Slaughter. ― Brand bradara.

― Ela ainda não acordou? ― Ben sorriu de canto.

― Sim, eu já acordei. Estava apenas conversando com um amigo. ― Victória entrara logo a seguir, altiva no seu chapéu de três bicos. ― Já sei o que eles nos vão falar. Querem a rota. E eu também a quero, Sparrow.

― Calma. Tudo a seu tempo! ― saindo do lugar, Ben mandara os outros embora.

― Lembre-se que a tripulação está contra si. Não é mais do que um imediato de Slaughter. ― Brand lhe apontara o dedo, irritando-o.

― Onde o foi buscar? À terra dos bárbaros? ― Benjamin reclamara, indicando a cadeira a Vi.

― Está falando da sua?

Ignorando a alfinetada, Sparrow a olhara, entregando algo. ― Essa é a minha metade do mapa.

Victória alcançara-o, reparando nos mínimos detalhes. Desde a rosa-dos-ventos desenhada a ouro, até o contorno da ilha onde eram visíveis as palavras Avalon. ― Como tem tanta certeza que Camelot fica lá? As lendas não dizem isso.

― Lógico que não. Meu pai achava, assim como o pai dele, que não era só a ilha de Avalon. Ela era apenas o começo, o portal de entrada para esse mundo. ― Ben se chegara à moça, empolgando-se, percebendo o mesmo brilho da descoberta nos olhos castanhos dela.

― Mas sem os outros bocados nunca lá chegaremos. ― Slaughter lhe avisara. ― Joe tinha um outro pedaço... eu nunca o vi assim, mas ele retirava-o muitas vezes do bolso.

― E onde está esse pedaço?

― Caiu ao mar junto com o corpo dele. ― Victória levantou os olhos para o moreno. ― Lapso meu.

― Teague disse que só com os três pedaços se poderia saber como sair de Avalon.

― O pai de Joe nunca deve ter cruzado com Teague... como arranjou o terceiro pedaço?

― Teague nunca o teve. ― Ben entreolhou-se com ela. ― Mas de que adianta? Joe Slaughter está morto, você mesma fez esse favor.

― Ei! Eu lá sabia que o mapa era verdadeiro? ― Victória brandou. ― Preferi mil vezes ver-me livre daquele encosto.

― Espero que não me ache um encosto... ― Ben sorriu.

― Não queira saber a resposta. ― Vic respondera séria. ― Onde está o pedaço que falta?

― Com um conhecido de meu pai... ele não me disse quem.

― Isso é óptimo! Porque com apenas e só este pedaço... o máximo que conseguimos é chegar perto da localização da ilha, nunca encontrar o tesouro. ― Vic se emburrara à cadeira. ― Isso quer dizer que a minha prioridade tem muito mais valor.

― De certeza? ― Ben estreitara os olhos. ― Se fosse a si tentaria ter cuidado em quem confia.

― Como em você? ― Victória sorrira. ― Fique descansado. Eu não confio em você, Sparrow.

Erguendo-se, Slaughter tentara sair daquela cabine, mas Ben fora mais rápido a se colocar na frente, encurralando-a. ― Nós fazemos uma óptima parceria.

― Nós? Pois é... a dama e o burro.

― Deixe de ser fresca, Victória. ― Benjamin levara uma mão ao rosto da morena, paralisando-a. ― Já foi casada. Não é santa. Matou até seu marido.

― Isso é um convite para que o mate também? ― Victória sorrira.

― Há muitas maneiras de matar. ― Ben sorriu.

― Se quer matar aquele desejo... ― Victória lambeu os lábios, chegando-se perto. ― Faça um buraco na parede ou procure um homem. Porque eu prefiro ficar sem meu navio do que se tocada novamente por um homem.

XXXContinuaXXX

Notas finais
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