Come back to me
4 Remember
“It's coming back into my head, memories of the time we had. I'm trying hard to stay alive” Memories -Europe
San Francisco – Domingo, 9 de Setembro [10:56 A.M.]
Pulei da cama ao ouvir o grito fino de Gemma vindo da rua. Fui tentar olhar pela janela mas meus pés enrolaram na coberta me fazendo cair de cara no chão.
— Não acredito que você está realmente aqui!
Estava tentando entender tudo deitada no chão enquanto eu poderia muito bem descer e ver pessoalmente o que estava acontecendo. Ou apenas olhar pela janela. Cogitei a ultima possibilidade, porque a preguiça era bem grande.
— Mas que por... – não consegui terminar de brigar com a menina pois todas as atenções voltaram-se a mim. Principalmente da surpresa do dia.
Cravei minhas unhas na janela não percebendo que minha respiração estava presa. Minha mente rebobinou todos nossos momentos juntos, não sei se ria ou chorava. Por mais que meu quarto desse mais de oito metros da rua, pude ver seu sorriso enorme se destacando de sua cara pálida. Desci as escadas correndo quase que tropeçando nos meus próprios pés.
Sem ao menos me importar em estar de pijama, sai já de braços abertos e assim que cheguei perto de Dylan, pulei em seu pescoço o abraçando.
— Não acredito nisso! – disse quando ele finalmente me colocou no chão. Passei minha mão em sua bochecha, acariciando-a. Analisei cada ponto seu.
O rosto cheinho de bebe ingênuo que tinha foi embora dando lugar a traços marcantes fazendo parecer que tudo era moldado a mão, além de ter emagrecido o tempo deixou seu rosto mais fino. Seus olhos não tinha mais aquele ar sonhador, mas sim um ar sedutor que com certeza deixava qualquer uma babando. E por fim seu cabelo, que antes era cheio com cachos por toda parte agora mantinha um topete enorme na frente deixando seus cachos para trás.
— Mudou tudo mas ainda continua passando batom? – quando mais nova sempre o atormentava dizendo isso pois Dylan sempre tivera lábios avermelhados, e isso era a coisa mais fofa de se ver.
— Pelo visto ainda continua com inveja não é mesmo Salazar? Nem cheguei direito e já está olhando para minha boca? – seu sorriso malicioso era evidente.
— To vendo que a puberdade finalmente chegou, já pode ir ao urologista. – nisso sua expressão se fechou. Uma gargalhada alta nos tirou de nossas provocações, Gemma se dobrava de tanto rir, me juntei a ela imaginando Dylan fazendo o exame de toque. – Acabei de imaginar a cena, e foi a pior coisa desse mundo! – a cara de nojo que os irmãos Wood fizeram não negava o grau de parentesco.
— Vamos entrar logo... – disse Gemma pegando uma das malas e entrando na casa deles.
Ia os acompanhando quando ouvi minha mãe me chamar.
— Depois conversamos melhor, mais tarde passo ai. – me virei para Dylan que apenas assentiu. Ao me virar senti seus dedos envolverem meu punho.
— Precisamos conversar. – seus olhos agora estavam sérios mas mantinham o brilho que eu conhecia muito bem. Balancei a cabeça negativamente e puxei levemente meu braço para me desvencilhar dele.
— Licença.
Depois do almoço fui para meu quarto espairecer. Minha zona de conforto, onde ao adentrar podia-se sentir a paz vagando pelo lugar. Não quero parecer nenhuma hippie falando mas é a mais pura verdade, tudo porque minha mãe uma vez por mês faz uma limpeza pesada com incensos na casa toda, principalmente aqui. Ela pode não bater muito bem com as ideias, mas garanto que é uma ótima pessoa, principalmente amiga e mãe.
Sentei-me na mesinha que ficava encostada em frente à janela para terminar um desenho do pássaro, relembrando de novo do sonho.
Fui me levantar para ir ao banheiro mas acabei me deparando com a cena de Dylan andando pelo quarto arrumando suas coisas.
Ele tirava as roupas da mala de viagem e guardava no guarda-roupa, todo organizado, completamente diferente do meu irmão. Ri com a comparação e continuei a observa-lo lembrando de um dos últimos dias dele aqui em San Francisco.
Seu peito descia e subia fazendo minha cabeça que estava apoiada acompanhar seu ritmo descompensado. Depois de uma noite de amor descansávamos esparramados em sua cama.
— Ficou quieta de repente, fiz algo de errado?
— Só imaginando com vai ser ficar longe.
— Não pense nisso agora, aproveite enquanto temos tempo. – seus dedos enrolavam uma mecha do meu cabelo em um caracol.
— Será que vamos conhecer outras pessoas? Digo, que irão substituir um na vida do outro? – perguntei ignorando totalmente seu pedido.
Os dois minutos em silencio que ficara pareciam horas e isso me deixou aflita. Internamente, ele se perguntava o mesmo.
— Eu te amo. – e foi isso, nem um sim e nem um não, apenas contornou o assunto. Resolvi não brigar e apenas fiz o que ele havia pedido antes, aproveitei o momento.
O que tive com Dylan não foi necessariamente um relacionamento, na verdade nunca se firmou nada.
Crescemos juntos afinal sou melhor amiga de sua irmã desde pequena. Nós não nos desgrudávamos e ele então sempre esteve por perto. Melhor amigo ele não era, mas o considerava como um irmão. No final do 6º ano acabamos dando nosso primeiro beijo, foi engraçado e bastante embaraçoso.
— Vamos lá Lisa, só um beijinho! – a garota ria me rodeando, assim como todos os alunos da nossa sala.
— Não, parem com isso. Eu não quero! – empurrei o menino que estava próximo demais. – Já chega Tomas, não vou ficar com você sem realmente querer. – um “oh” ecoou de pessoas ao nosso redor minhas bochechas arderem provavelmente bem vermelhas.
— O que está acontecendo aqui? – Dylan atravessou o circulo e parou ao meu lado.
— Eles não entendem que eu não me importo de nunca ter beijado alguém. – gritei furiosa com tudo aquilo já, estava virando uma palhaçada.
— Vocês gostam de atormentar a vida dos outros né? – ele rolou os olhos irritado. – Se mandem daqui!
Sorri ao ver que ele me protegia como se Gemma estivesse em meu lugar. Gostava desse sentimento mesmo sabendo que eu poderia me proteger sozinha, tenho 13 anos mas me viro muito bem.
Ninguém se moveu dali, ainda queriam alguma coisa. E tudo aconteceu como um flash. Dylan bufou e eu sabia muito bem que logo daria merda. Mas não pensei que seria tão logo assim.
Suas mãos tomaram meu rosto e fui puxada para um beijo.
Desde então nosso pequeno relacionamento se estendeu até o final do 9º ano, quando descobrimos que se mudaria para a cidade de seu pai, definitivamente eu não me esqueceria desse dia tão rapidamente.
Tentava processar as palavras de Dylan sentada na cama com ele logo a minha frente. Meus olhos estavam cheios de lagrimas, não permitiria que ele visse meu estado então minha cabeça permanecia baixa.
— França? – sussurrei. – E como foi esse contato tão de repente? Como do nada ele veio procurar vocês pedindo uma chance? Onde te encontrou?
— Lisa, eu não sei. É como eu disse, estou indo para tentar entender.
— Entender o que? Que ele abandonou sua mãe gravida de Gemma? Sumiu sem dizer um adeus?
— Não fala assim.
— E quer que eu fale como? – levantei para mantermos contato visual, percebi sua cara de dor ao me ver chorando.
Por fim nos resolvemos e tentei ao máximo ficar ao seu lado. Gemma se negou a ir, nunca tocou no assunto e sabia que isso era algo delicado para ela, então não cheguei a sequer comentar sobre. Mas aquela garota é minha melhor amiga, e a conheço o bastante para saber que pensava exatamente igual a mim.
— Depois conversamos melhor, mais tarde passo ai. – me virei para Dylan que apenas assentiu. Ao me virar senti seus dedos envolverem meu punho.
— Precisamos conversar mesmo. – seus olhos agora estavam sérios mas mantinham o brilho que eu conhecia muito bem. Balancei a cabeça negativamente e puxei levemente meu braço para me desvencilhar dele.
Vivi um belo romance adolescente com Dylan, e não me arrependo de nada, só que passou três anos após tudo isso e eu me sentia bem sozinha. Não preciso de alguém agora ao meu lado. Gosto da minha vida de solteira, e quero aproveita-la enquanto posso.
Dei um pulinho na cadeira ao me assustar com o toque do telefone de casa. Não o utilizávamos muito porque depois do celular, ninguém mais se quer toca no coitado.
— Finalmente acordou Bela Cinderela. – sua voz rouca soou do outro lado da linha após eu atender, olhei para frente encontrando Dylan sentado na ponta da cama de frente a janela com o telefone na orelha sorrindo.
— Primeiro que é Bela Adormecida. – o informei segurando a risada, Dylan sendo Dylan. — Segundo que eu estava apenas pensando. – disse simplesmente, como se a ultima coisa que eu estivesse fazendo era pensando nele.
— Pensando? Lisa, você está ai por meia hora sem mover um músculo, quem faz isso? – ele gesticulava incrédulo me fazendo rir, suas caretas eram as melhores. – Vem logo, estou te esperando.
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