“Mild is the water caught as a bird once free” Bird –Billie Marten

San Francisco – Sexta, 7 de Setembro [4:41 P.M.]

Cutucava o fígado exposto em minha bancada enquanto com a outra mão minha cabeça se apoiava. Última aula da semana e era anatomia, duas coisas que eu realmente adorava mas não quando Gemma está ao meu lado falando sem parar.

Depois que fui suspensa, naquele mesmo dia mais tarde ela veio em casa querendo saber detalhes do que aconteceu. Nem preciso dizer que a garota “paz e amor” me deu o maior sermão. Gem odeia brigas e passou a semana inteira no meu pé por conta disso, James e Ethan tentavam aliviar minha barra mas essa menina é muito teimosa, e chata.

— Me leva logo força suprema. – sussurrei olhando para o teto, esperando algum sinal do universo.

— Lisa, você entende quando digo que briga não leva a nada? – Gem me cutucou. Soltei um gemido batendo a cabeça na parede, ouvi risadas dos meninos atrás de nós e soletrei um “socorro” para eles.

— Posso ajudar Senhorita Wood?

— Desculpa professora Taylor, estou só confirmando um negócio com Lisa.

Após isso Gemma ficou quieta até o final da aula, o sinal tocou e corri para meu armário para não ouvir o restante do seu falatório. Coloquei meu material dentro e peguei minha bolsa.

— Não sei como não mandou ela ir a merda ainda. – James comentou rindo ao abrir seu armário.

— Sabe que eu também não? – cruzei os braços vendo as pessoas correrem para fora do colégio. Isso se chama desespero para o fim de semana. – Acho que meu amor inconsciente fala mais alto quando acontece isso.

— Quanto amor então... – ele envolveu seu braço em meu pescoço e fomos até o carro. – Ficou sabendo de Ethan?

— Que ele está indo ter um encontro? – perguntei colocando o cinto de segurança.

— O garoto vai vir busca-lo aqui na porta, para deixar todos de cara. – James disse fazendo biquinho estralando os dedos. – Bem “eles vão ter que engolir”.

— Gosto desse lado confiante dele, precisamos ajuda-lo a desenvolver isso mais vezes. – sorri ao passar pela frente do colégio, vendo-o conversar com Gemma.

— Tem certeza que ela não quer que esperemos juntos? Depois a levo para o restaurante.

— Perguntei para ela a mesma coisa mais cedo, mas insistiu que a mãe dela passaria por aqui. Única vez no dia que Gemma mudou de assunto comigo, disse que a Trisha quer falar uma coisa muito especial e importante.

— Vai vir um mini Wood?

— Será? – respondi sua pergunta com outra, tentando imitar seu olhar misterioso.

San Francisco – Sábado, 8 de Setembro [1:23 P.M.]

O apito do forno me avisou que o bolo de carne já estava pronto. Corri até ele batendo palmas animada e ao abrir o cheiro maravilhoso bufou na minha cara, peguei a travessa de vidro com uma luva e a coloquei em cima do fogão.

— Não é porque fui eu que fiz, mas está com um cheiro ótimo! – falei enquanto derramava um fio de azeite em cima da carne e das batatas que estavam ao seu redor.

Terminei de cortar a cenoura colocando na salada, a variedade de cor era de se admirar.

— Jonathan, vem me ajudar a colocar as coisas na mesa, por favor? – entrei na sala chamando a atenção do meu irmão mais velho.

Fui com ele até a cozinha e quando o mesmo viu que fiz sua comida preferida, seus olhos brilharam.

— Sim, é recheado com queijo. – falei já sabendo que ele perguntaria isso.

— Eu te amo. – seus braços musculosos me cobriam inteirinha, era como se um urso estivesse me abraçando.

— Anda logo, estão nos esperando. – bati em sua bunda. Peguei a travessa de madeira com a salada e a jarra com suco de manga.

Todos se encontravam na mesa conversando animadamente sobre como foi a semana de cada um, essa era a única hora que a gente se dava bem. Senti minha camiseta ser puxada e vi que Pamela me chamava.

— Li, você fez sobremesa? – sua boca estava toda suja de molho barbecue, ri pegando o guardanapo e limpando seu rosto com cuidado.

— Está comendo muito molho Pam. – a repreendi tirando de seu alcance o pote melecado. Seu olhar animado ainda se mantinha a espera da minha resposta. — Fiz sim, vamos terminar de comer e logo depois trago. Pode ser?

A única diferença dela para Jonathan, era que ela é filha apenas da mesma mãe mas isso não faz eu ama-la menos. Daria minha vida por essa garota de quatro anos.

Depois de terminarmos de comer e muitas suplicas de Pamela, retirei as coisas da mesa e peguei o prato com os brownies já cortados.

— Essa menina vai enfartar um dia. – resmungou Gabriela enquanto recusava um pedaço para minha mãe. – Aquela carne já foi o suficiente. – sua feição era de nojo.

— E a harmonia foi-se embora. – ironizei colocando um pedaço para Pam. – É bom que sobra mais. – surrando dei uma piscada para a garotinha que riu.

— Vai achando que cozinha bem Lisa. Sonhe bem grande mesmo, quem sabe um dia chegue lá? – se levantou sem dizer mais nada e saiu deixando seu prato sujo ali.

— Que educação, não é mesmo? – o simples comentário de Jonathan fez com que o rosto de Eduardo mudasse de tom rapidamente, era evidente seu desconforto.

— Puxa, me esqueci do sorvete. Vem cá me ajudar Jon. – disse puxando seu braço e o levando para a cozinha. Encostei-me na bancada virando para meu irmão que me olhava sem entender. – O que Eduardo tem a ver com isso?

— Tudo, Lisa! – rolei os olhos com sua resposta tosca.

— De novo isso Jonathan? Pensei que tivesse amenizado essa sua birra com ele.

— Como se sente ao ver ele permitindo que a filha dele trate a nossa família como lixo?

— Você sabe que Gabriela não tem jeito, não podemos fazer nada em questão a isso. Lembra da ultima vez que ele a colocou de castigo? A garota colocou pimenta em toda comida do dia de Ações de Graças!

— Tudo bem Lisa, mas ninguém é bonzinho demais, ninguém. Esse cara com certeza esconde alguma coisa.

— Já chega Jonathan. – me aproximei dele brava. — Não tem problema você não aceita-lo na família, tenho certeza que isso vai mudar mas só o respeite ta bom? Diferente de Gabriela, Eduardo nos trata muito bem e faz de tudo para deixar mamãe e Pamela felizes.

Um silencio pairou no lugar e resolvi subir, pedi para ele retirar o meu prato da mesa e cuidar de Pamela.

Estava começando a desenhar um beija-flor composto por flores, igual ao que sonhei. Era simples porém muito delicado, assim como sonho que fora rápido demais.

O beija-flor perdia suas flores, como se elas fossem apenas pétalas e assim que a última caiu, ele se tornou uma luz de cegar qualquer um que ousasse olha-lo diretamente e após um tempo parado voou em disparada, era incrível que quanto mais longe mais forte era seu brilho.

Pulei da cadeira ao ver Trisha limpando o quarto da frente e meu coração por um instante quase saiu pela boca. Peguei meu celular que estava jogado na cama e corri até a casa do lado. Toquei umas cinco vezes a campainha, dando de cara com uma Gemma mastigando algo. Entrei sem ser convidada mesmo, afinal já era mais de casa do que a própria dona.

— Que é? – sua voz saiu destorcida por conta dos restos de comida dentro da sua boca.

— Eca. – fiz uma careta. – Por que sua mãe está arrumando o quarto dele?

Ela começou a forçar uma tosse incessante porém nitidamente falsa, caminhei até ela começando a bater em suas costas.

— Nossa, você está bem? Será que isso melhora? – dei um tapa consideravelmente forte no mesmo lugar a fazendo soltar um grito de dor.

— Você é louca? — Gemma me encarou inconformada.

— Posso te dar outro se continuar enrolando.

— Ta bom, ta bom! Eu falo... – ela tomou uma certa distancia. – Só senta antes.

— Sentar para que Gemma? Conta logo o maldito motivo de sua mãe estar arrumando o quarto do seu irmão. Depois que ele viajou ninguém mais entra lá.

— Lisa, olha... Será que você pode sentar? Vai ser melhor, sério.

— GEMMA!

— Mas...

— O Dylan está voltando, Lisa. – a voz da mãe de Gemma a interrompeu.

Senti minhas pernas tremerem e perderem a força, me apoiei no corrimão da escada enquanto minha melhor amiga me segurava pelo outro lado. Não sabia qual era a hora de respirar e expirar, então minha visão ficou turva e pensei que iria cair dura no chão. A figura de Trisha preocupada tomou minha atenção, suas mãos seguravam meu rosto e ela falava alguma coisa que eu não conseguia escutar, só ouvia um zumbido extremamente irritante. Eu resmungava algumas sílabas, coisa que sempre faço quando estou nervosa. Não percebi que estava sendo carregada apoiada no ombro das duas até chegar no sofá, ao sentar vi que minhas mãos tremiam.

— Lisa, está me ouvindo querida? – finalmente ouvi a voz de Trisha, assenti apenas e ela sorriu para mim.

— Aqui Liz, toma um pouco. – Gemma apareceu em minha frente com uma água de cor estranha. Sem ter forças para questionar bebi de uma vez, minha cara se contorceu em uma careta ao perceber que era água com açúcar.

— Está melhor flor? – a mão de Trisa passou por minha bochecha, ela mantinha o olhar materno de sempre, sabia que ela estava preocupada comigo e se sentia um pouco culpada por tudo aquilo.

— Só foi um susto senhora Wood, me desculpe por isso. É que faz mais de dois anos que não o vejo.

— Que todas nós, não é? – ela riu. – Sei que vocês tiveram uma história Lisa, e quando ele se foi acabou sendo difícil para você, assim como para nós. Mas acredite em mim, está sendo mais difícil para Dylan. – Trisha guardava alguma coisa e não queria me contar, não a conhecia o bastante para saber através dela, mas sim de Gemma que com a ultima frase, se mexeu desconfortavelmente.

— Aconteceu alguma coisa com ele? – perguntei sentindo um nó na garganta junto com um aperto no peito, tentei me levantar mas com o movimento rápido acabei caindo de volta no sofá pela tontura. – Ai!

— Lisa, olha... – Gemma tomou o lugar de sua mãe e se ajoelhou em minha frente segurando minhas mãos. – Você sabe que nunca te escondi nada, sempre te contei tudo mas agora não tem a ver comigo e sim com Dylan. – me surpreendia vendo seu modo de falar, afinal nunca havia visto Gemma tão séria. — Antes que pergunte, ele está bem. Abalado, mas bem. – meu coração não sabia se ficava preocupado ou aliviado. — Porém preciso que você entenda que não posso te contar uma coisa dele, assim como você também não pode força-lo a contar. Eu conheço meu irmão o bastante para saber que logo fará isso, então fica tranquila.