Come Home

2 Capítulo 1 –– Reavendo velhos hábitos.


Notas iniciais
Continuem atentos às datas no topo. Boa leitura :)

"Você disse "siga em frente"
Pra onde vou?
Acho que o segundo lugar
É tudo que vou conhecer"

–– Thinking of You, Katy Perry

20 de Setembro

Ele se revirou sobre os lençóis; a cabeça doía e o sono não vinha de jeito algum. Sentou-se, passando as mãos pelo rosto cansado. Estava exausto e a vida monótona que vinha levando não ajudava em absolutamente nada. Um mago normal, –– foi-se o tempo em que destruía construções importantes e ateava fogo em cidades inteiras –– em um casamento normal com uma esposa normal –– por quem ele sabia não sentir nada além de uma forte consideração –– e um filho –– agitado feito o capeta –– normal. Tudo apático e ordinário.

E era em momentos como esses que a saudade apertava dentro do peito.

A carga dos longos anos que se passaram ainda era pesada demais sobre seus ombros. E, mesmo assim, aquele sentimento nunca se aquietou em seu coração.

Bagunçou os fios róseos que agora passavam um pouco da altura dos ombros e suspirou, saindo cama sem fazer barulho –– depois do casamento, aprendera a tornar-se silencioso. Não queria acordar a esposa e ter que dar justificativas sobre estar sem sono. Odiava quando Lisanna fazia perguntas demais. Observou a madrugada pela janela, voltando os olhos para as ruas vazias de Magnólia.

Ou era o que pensava.

Ao vislumbrar fios ruivos dançando ao ritmo do vento, ele sorriu e subiu no parapeito, lançando-se para baixo; não havia perdido a manha de anos atrás, afinal.

–– Às vezes parece que a idade não faz efeito em você, Natsu. Isso é revoltante. E assustador. –– Riu-se a ruiva, cumprimentando o amigo de infância. O Dragon Slayer do fogo gargalhou, acenando com a cabeça. Passou o braço pelos ombros da mulher, ainda sorrindo.

–– Não fale como se fossemos velhos demais, Erza. Não temos nem 30 anos. Você ainda é a grande Titânia. –– A Scarlet desferiu um soco leve no braço de Natsu e sorriu, os olhos castanhos brilhando na penumbra da noite. –– Mas o que faz acordada há essa hora?

Erza suspirou e desviou o olhar para cima, fitando as estrelas, o aperto no peito que sentira mais cedo se intensificando.

–– Hoje veio à minha cabeça uma memória do passado. E então eu comecei a lembrar de todas as missões que fazíamos juntos. Eu, você, o Gray, às vezes a Wendy... E ela. Era engraçado quando a deixávamos de cabelo em pé por termos destruído as coisas. Eu senti falta dos velhos tempos.

O rapaz de cabelos róseos ergueu os orbes de um ônix intenso, enquanto um sorriso triste delineava seus lábios. A vida passara bem rápido, mas aqueles anos haviam sido dolorosos como o inferno.

Sete anos.

Sete anos sem Lucy Heartfilia.

Sete anos vividos à base de mesmice e sofrimento. À base de noites mal dormidas e crises de choro repentinas. À base de uma dor que o consumiu por inteiro; corroeu cada célula, sangrou cada órgão, destruiu cada sorriso.

A dor da ausência. A dor do vazio, da saudade.

A dor de viver em um mundo sem Lucy Heartfilia.

Natsu descobriu, que, quando o assunto era a ex-maga celestial da Fairy Tail, ele era um completo fraco. À mera menção do nome dela, ele desabava e adentrava em um poço de tristeza. O sorriso dela vinha à mente e, sem saídas, as lágrimas aliviavam aquele aperto sufocante.

Descobriu também, pelo cansaço, que ela de fato não queria ser encontrada. Depois do fatídico dia, ele havia procurado em cada canto por qualquer rastro que fosse, mas nunca encontrava. Com o passar do tempo, acabou se conformando que, por mais que doesse, precisaria deixá-la partir.

Ah, mas como doeu. Nunca, em seus mais loucos devaneios, imaginaria que se afundaria daquela maneira. Mas ele definhou; tornou-se irreconhecível, perdido, afogado em puro sofrimento e nada o fazia emergir.

Ele não lutava pela vida, de qualquer forma.

–– Eu estive pensando –– com a linha de raciocínio interrompida, Natsu fitou a ruiva. Apesar da tristeza em seus olhos, ela falava com um tom sonhador. Não se impediu de sorrir. –– em chamar vocês dois, talvez a Wendy, para sairmos em missão. O que acha?

–– Só concordo se formos em uma SS. –– Ambos soltaram uma risada e suspiraram em seguida, tomando o caminho até a casa do Ice Maker. Trocaram algumas palavras durante o trajeto, mas pareciam pensativos demais para conduzirem uma conversa normal.

É, aquele assunto ainda mexia com a cabeça deles.

Tocaram a campainha e tiveram-se recebidos por um menino de cabelos escuros e revoltados, os fios apontando para todos os lados, que coçava os olhos e bocejava. O garoto sorriu abertamente quando viu o rapaz de cabelos róseos parado à porta e correu para abraçá-lo. Erza sorriu com a cena.

–– E o meu abraço? Eu não ganho? –– Reclamou a titânia, logo sentindo um peso sobre si. Retribuiu o carinho, soltando algumas risadas. –– Seus pais sabem que você está acordado, Ren*?

–– Na verdade –– a criança respondeu, enrolando os dedos na barra da camisa –– a mamãe saiu em missão com a Cana-san, a Levy-san e a Wendy-chan, por isso o papai está lá em cima tentando fazer o Izumi* e a Amaya* dormirem.

–– Eu mal consigo fazer o Misaki* ficar quieto, imagine o tanto de trabalho que Gray deve estar tendo cuidando de três crianças. –– Natsu resmungou, adentrando a casa espaçosa atrás de Ren. Foram seguidos por Erza e, enquanto observavam o primogênito dos Fullbuster trancar a porta, sentaram-se sobre o sofá.

–– Gray se tornou um ótimo pai. Deve ser por isso que Juvia não tem preocupações em deixar as crianças com ele.

–– É, eu sei disso. –– A voz grossa e impactante do mago de gelo se acomodou no ambiente. Avistaram-no descendo as escadas com um sorriso de canto brincando nos lábios. Os fios escuros continuavam bagunçados como de praxe e ele possuía a mesma pose de suposta superioridade.

E o mesmo coração mole de sempre.

Podia se perceber o fato apenas pela forma com a qual fitava o filho mais velho: o orgulho e a admiração; a paixão e o sentimento de felicidade eram quase palpáveis.

–– Cueca gelada. –– Gray franziu o cenho, estranhando a atmosfera. Fazia anos que Natsu não o chamava daquela forma. Então por que tão de repente? Apesar de confuso, rebateu.

–– Tocha humana. –– Trocaram mais uma meia dúzia de ofensas antes de caírem na gargalhada. Erza observava a cena com um sentimento de nostalgia intenso tomando conta de si, enquanto Ren parecia não entender o que diabos se passava ali. A saudade do tempo em que eram loucos e desimpedidos bateu, lentamente. –– O que traz vocês aqui?

–– Eu e Natsu andamos pensando em fazermos uma missão juntos. Pelos velhos tempos. –– A ruiva explicou, evitando certas partes.

Tais partes que foram tocadas por Gray.

–– Eu também sinto falta dela.

Os três fitaram-se por instantes e então abaixaram as cabeças, pensativos. Natsu engoliu a seco. Mesmo depois de tanto tempo, não havia aprendido a lidar com a dor.

–– Todos sentimos.

–– De quem estão falando? –– O pequeno se manifestou, não gostando do clima pesado que havia se instalado. Segurou a mão do pai e puxou-a, tentando chamar a atenção do mesmo para si. –– Papai, por que todos vocês estão chorando?

Só então o rosado se deu conta de que seu rosto estava lavado em lágrimas que continuavam a cair conforme ele tentava controlá-las. Escutou Erza fungar enquanto soluçava baixinho. Gray permanecia imóvel, Ren cutucando-o insistentemente.

–– É aquela moça sobre quem eu já te falei, a Lucy, nossa amiga que foi embora há alguns anos. –– O pai respondeu, pegando o filho no colo e abraçando-o. Era em seus filhos que Gray encontrava todas as forças necessárias para não fraquejar. Respirou fundo, querendo quebrar o clima fúnebre que pesava sobre eles. –– Que tal uma SS? Vou provar pro Natsu que ainda sou melhor que ele.

O Dragon Slayer ergueu os olhos inchados, piscando confuso, e um sorriso carregado de nostalgia surgiu em seu rosto, que agora parecia cansado. Mas o brilho infantil que perpassou aquelas feições parecia iluminar novamente alguém que passara a viver na escuridão do sofrimento.

–– Então é isso! Gray, deixe as crianças com a Mira enquanto eu escolho uma missão para nós na Guilda. Natsu, arrume nossas coisas. Nos encontraremos na estação em meia hora. –– Lançou um olhar severo aos dois em seguida –– Não se atrasem, ouviram bem?!

Os dois riram, apesar de tremerem por dentro. No final, as coisas não haviam mudado tão drasticamente. As personalidades eram as mesmas, a diferença é que carregavam o peso da saudade e da perda nas costas, lutando para fazerem os dias serem mais fáceis de lidar ao buscarem forças uns nos outros.

Afinal, esse sempre fora o espírito da Fairy Tail.

Notas finais
*Ren - Em japonês, lírio d'água Izumi - Em japonês, fonte. Amaya - Em japonês, noite chuvosa Misaki - Em japonês, beleza que floresce. Até a próxima postagem ^^ Beijos :*