Com amor, da sua admiradora secreta

3 Talvez, eu não saiba me comunicar


Eu esperei que Rafael respondesse, mas não havia nada no meu armário. Eu via ele abrir o armário dele todos os dias naquela semana e não olhar uma vez para mim. Parecia distraído e pensativo. Mas, não deixava de sorrir para seus colegas. E até mesmo me deu um sorriso, quando esbarrei com ele no refeitório. Meu coração parecia que iria explodir toda vez que o via. Por que tinha que ser tão difícil conquistá-lo?

— Ó Ana — escutei Milena me chamar — Tá me escutando?

Olhei para ela e vi que a professora de Matemática ainda não havia entrado na sala. Rafael estava algumas carteiras a frente, lendo um livro.

— Que? — Olhei para Milena. Ela estava com o cabelo rosa nas pontas.

— Eu perguntei se você fez a tarefa hoje. Pode me emprestar?

Revirei os olhos e dei meu caderno de Matemática para ela. Eu sempre passava as respostas para meus amigos. Porque eu era a melhor. Não tão boa quanto Rafael, que parecia viver para estudar. Ninguém conseguia namorar ele, mesmo que a garota caísse aos seus pés. Ele dizia que precisava estudar e não perder tempo. Estava tão focado em passar em Medicina, que eu até tinha inveja dele. Eu queria ser programadora e já me esforçava muito, mas minha mãe disse que seria difícil pagar a faculdade de Analise de Sistemas. Então, teria que pegar uma bolsa de estudos para isso. Eu sei que eu iria conseguir.

— Aninha — Miguel me chamou, com um sorriso malicioso.

Olhei para trás. Ele estava atrás de mim e pegou uma mecha do meu cabelo. Bufei.

— Você quer o dever? — atirei. Afinal, eu sabia que ele não tinha feito também.

— Acertou — ele sorriu amplamente.

— Pega com a Milena — eu disse.

— Obrigado amor — ele disse.

Revirei os olhos. E naquele momento me virei para encarar os olhos castanhos de Rafael. Ele estava virado para trás, conversando com Paulo. E ele olhou para mim. Sorriu, como sempre e eu perdi o fôlego. Por que ele tinha que ser tão bonito?

*

Deixei minhas coisas no meu armário e resolvi que iria sem nada para casa, naquele dia. Eu queria parar na piscina da escola, mas só deixavam usar na Educação Física. Então, não rolava. Pensei em ir até o observatório usar o telescópio. Parecia uma boa ideia. Era sexta-feira e não queria voltar para casa. Afastei-me dos armários e cruzei com Rafael. Ele acenou para mim e seguiu adiante para seu armário. Eu fiquei triste, pois ele não respondeu a carta. Afinal, o que eu estava pensando ao enviar aquela carta?

Procurei o celular no bolso, me afastando no corredor. Não estava comigo. Entrei em pânico e corri para meu armário. Abri e encontrei o aparelho sobre meus livros. Coloquei no bolso e fechei.

Quando me virei para trás, Rafael estava me encarando com um olhar de assombro. Engoli a seco. Será que ele havia notado que eu era sua admiradora secreta?

— Qual é seu nome? — ele perguntou.

Espera aí, estudávamos a três anos juntos e ele não sabia meu nome? Aquilo me doeu profundamente.

— Ana — respondi.

Por favor, pensei que ele não me chame de Aninha.

— Ana — ele murmurou e sorriu — Sou Rafael. Acho que a gente estuda junto desde sempre né?

— Aham — concordei, cruzando os braços — Vou indo nessa.

Eu estava irritada e ao mesmo tempo, em pânico. Ele havia se tocado, só pelo jeito que sorria para mim, avaliativo. Ele sabia que era eu a garota que havia enviado a carta, porque eu mesma disse onde era meu armário. Como pude ser tão burra? Saí de perto dele e segui para o observatório, no sexto andar. Tinha que subir de escada, porque elevador era o que me deixava estressada. Ele me seguiu.

— Espera, Ana — ele chamou. Escutei seus passos apressados e ele emparelhou comigo no início de escadaria — Quer sair amanhã? Ou domingo?

Eu não conseguia respirar depois daquela pergunta. Ele estava me chamando para sair?

— Eu...er...- balbuciei. Mas, não parei de andar — Não dá.

Que? Onde estava Milena para me fazer parar de falar besteira. Não era culpa minha. Tinha entrado em pânico

— Por que não? — ele perguntou, de forma direta, subindo comigo.

— Porque...é porque...- Na verdade, eu não podia sair final de semana. Estava de castigo, por ter tirado nota baixa em Educação Física. Educação Física? Quem tirava nota baixa nessa matéria? Eu né. Assim como Artes e Português. Português era na média, sempre. Mas, Artes, era meu fim. Eu não sabia fazer um círculo, por Deus!

— Tá legal — ele disse confuso — Eu não sei por que perguntei.

Ele se afastou de mim. Parei na escada. Olhei por cima do ombro e vi ele descendo. Por que eu fui tão ríspida? Eu não sabia flertar. Eu não sabia ter uma conversa com gente estranha. Mas, ele era o garoto que eu gostava. Como pude ter sido tão estúpida?