Com amor, da sua admiradora secreta
4 Detenção?
Eu nem sabia o que tinha dado em mim para chamar Ana para sair. Quando eu a vi perto do armário, bem próximo ao meu, eu sabia que era ela que tinha enviado a carta. Eu fiquei um pouco entusiasmado por saber que uma garota bonita como ela me queria. Acho que meu ego foi às alturas. Além do mais, ela parecia ser agradável, apesar de tímida. Eu somente queria conversar. Não iria brincar com seus sentimentos, afinal, eu já tive esse problema de ser usado. Eu também não ia ficar com ela. Seria muito complicado lidar com uma namorada. Mas, o que meu pai disse sobre não perder tempo mexeu. Fiquei a semana toda pensando em ir atrás da garota e mandar um bilhete no seu armário. E não precisei. Já descobri que era Ana. Mas, por que ela me tratou com tanta rispidez? Será que ela estava brincando comigo?
Pensar naquela possibilidade me deixou cheio de raiva. Meu estomago fervia e eu não vi nada a minha frente, quando sai da escola. Eu estava com raiva de Ana, por ela brincar com meus sentimentos. Mas, como ela poderia brincar comigo, sendo que eu mal a conhecia? Era meu ego falando alto dentro de mim, é claro. Eu havia ficado entusiasmado com a beleza dela e havia me esquecido do esforço que estava fazendo de não namorar ninguém naquele momento.
Voltei para casa, apenas para ter problemas para estudar. E descobri que meu pai não havia trabalhado aquele dia.
*
Os dias passaram de forma tranquila. Apesar dos meus problemas em casa com meu pai. Ana não me mandou qualquer carta e parecia evitar meu olhar. Eu estava ainda com o orgulho ferido por ser esnobado por ela. E sinceramente, eu não conseguia me concentrar em nada. Não conseguia render nos estudos. Para piorar, o rosto dela vinha a minha mente, a cada instante. Seu sorriso de lábios cheios, sua pele cor de oliva, os cabelos castanhos e longos. Seu rosto oval e pequeno. Ela era tão linda que eu não conseguia pensar em mais nada. Eu deveria é claro, focar no que precisava fazer para passar no vestibular.
Então, resolvi escrever um bilhete para ela. Enquanto escrevia, no intervalo, Paulo veio conversar comigo.
— O que tanto você está escrevendo ai? – Eu estava na sala de aula.
Todo mundo estava na quadra, aproveitando o sol que havia saído. Todos os dias haviam chovido.
— Nada – respondi, ainda concentrado nas palavras que colocava no papel.
— Nada? – ele zombou, puxando o papel. A caneta deslizou, deixando sua marca.
Respirei fundo, me segurando para não acertar um soco nele. Ele leu e sua expressão se tornou debochada.
— Minha admiradora secreta? Que negócio é esse Rafael? – ele perguntou, tirando sarro de mim.
— Não interessa – eu respondi, irritado. Fervia por dentro. E se ele me irritasse mais um pouco, eu daria um soco nele, sem pensar duas vezes.
Ele deu um sorriso cínico.
— Desde quando você tem uma? Hum? Vai ficar escrevendo para a garota, sem chegar nela também? Que coisa mais idiota.
— Para você se sim, que não usa seu cérebro – revidei.
Ele me fulminou com o olhar.
— Você está me chamando de burro? — Ele amassou o papel, cerrando o punho.
Então foi ali que vi tudo vermelho.
*
— Detenção? – eu disse, com a boca machucada.
Paulo não estava muito diferente. Ele estava com o nariz sangrando e tentava estancar com papel toalha. Estávamos sentados de frente para diretora da escola, dona Neuza.
— Sim senhor – ela respondeu, em tom sério – Os dois vão ficar aqui na escola, ajudando em alguma atividade. Que tal, ajudar a pintar a parede?
Eu não acreditava no que estava ouvindo. Simplesmente não podia ser real. Quem ficava em detenção, precisava fazer algum serviço para a escola. Coisa simples. Como ajudar a pintar as paredes, ou cuidar da horta do colégio. As atividades eram variadas, na verdade.
Então, fui obrigado a me juntar a um grupo de alunos que haviam causado algum problema dentro da escola. Eram alunos que tinham problemas disciplinares constantes. Pelo menos, havia quinze alunos em uma sala de aula. E a professora Tania, de Física, estava cuidando da gente. Assustei-me ao ver que Ana entrou na sala, com os olhos vermelhos e não dirigiu o olhar a mim. Ela passou puxando sua bolsa de tricô, pela alça, ajeitando no ombro, quando passou por mim e sentou no fundo da sala.
O que ela fazia ali?
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