Com amor, da sua admiradora secreta
5 Eu só queria ver as estrelas
Eu nunca fui para detenção. Talvez, uma vez, quando empurrei um garoto contra a parede, quando tinha quatorze anos. Ele estava sendo tão insistente em me paquerar, mas eu não queria sua atenção. Ele insistiu tanto, que o empurrei com força contra o concreto, no pátio da escola. Por acaso, a pedagoga, Luiza, estava passando. E quando viu a agressão, me levou para diretoria. Conversamos e meus pais foram chamados. Fiquei em detenção por uma semana, por mau comportamento. Eu expliquei minha atitude, mas a pedagoga me disse que eu não deveria agir daquela maneira, quando uma situação não me agradava. O Paulo também ouviu dela, é claro. Aliás, o Paulo é amigo do Rafael. O cara que eu gosto. E ele até hoje não para de me olhar com um ar estranho. Não sei se é magoa ou outra coisa.
Enfim, eu me encontro mais uma vez em detenção. Dessa vez é por ter quebrado uma regra da escola. Ficar até tarde no observatório. Eu precisava disso. Necessitava fugir de casa e do convívio familiar. São tantas situações irritantes que meu estomago parece queimar toda vez. Dessa vez, meus pais estão se separando. E mamãe quer ficar na casa e meu pai vai procurar outra, mas eles estão decidindo quem vai ficar com as crianças. No caso, eu, minha irmã Lorena e meu irmão Otávio. É claro que Otávio não é mais uma criança. Tem vinte anos e decidiu que vai morar com meu pai. Mas, Lorena ainda tem seis anos. Ela não sabe para onde deve ir. Provavelmente vai ficar com minha mãe. Então, só falta eu me decidir, a filha do meio. A filha problemática e sem rumo. É claro que eu tenho um plano para o futuro, mas meus pais acreditam que eu não levo nada a sério. Eu sei que tirei notas ruins em algumas matérias, mas tenho minhas prioridades. Eu sei que já sai à noite, sem que eles soubessem, para ir a uma festa, que por acaso, meu irmão havia me convidado e que consequentemente, meus pais descobriram. Está aí mais um dos motivos para ficar trancada em casa e não poder sair com Rafael. E a quem eu quero enganar? Eu tenho medo de ter qualquer tipo de relação com garotos.
Bom, eu fiquei presa em uma sala, com outros alunos. Incluindo Paulo e Rafael, que estão em cantos separados da sala. Eu vi seus olhos roxos e seus olhares ferozes. Eles parecem ter tido uma briga feia. Eu não sei exatamente o que houve, mas pela forma como se encaram, devem ter brigado por algum motivo bobo. De fato, eu nunca vi Rafael causando qualquer problema. Ele sempre foi um aluno exemplar. Vê-lo ali é uma surpresa.
Fiquei sentada na fileira das carteiras do meio, na primeira, para que não tive contato com ninguém, afinal, era uma situação embaraçosa estar ali. Havia alguns alunos que iam para detenção frequentemente por problemas disciplinares. E esses problemas em sua maioria eram bullying, briga dentro ou fora de sala de aula e depredação do patrimônio da escola. E eu estava ali por uma simples quebra de regra. Aquilo era demais, mas na verdade é que não foi somente isso. Eu reagi mal ao ser repreendida pela pedagoga.
Escutei passos e alguém sentando atrás de mim. E isso me tirou dos meus devaneios. Olhei para trás instintivamente e vi Rafael. Virei para frente, com o coração aos pulos. Então, depois de alguns segundos, ele passou um papel e deixou em cima da minha carteira. Dona Tania nem viu o que ele fez, pois estava teclando freneticamente no celular. Abri o papel e li a seguinte pergunta:
“O que uma menina como você está fazendo aqui?”
Não sei o motivo, mas o tom era um pouco ofensivo. Coloquei a minha bolsa de alça de couro sobre a mesa e abri. Peguei meu estojo e retirei de lá de dentro uma caneta bic preta. Escrevi a resposta em baixo da dele. Nem sem antes verificar se Tania estava me vendo escrever.
“Eu não sei se isso é da sua conta”
Devolvi o bilhete rapidamente, deixando sobre o tampo da mesa que ele ocupava. E não demorou tanto para ele me responder. Eu poderia dizer que foi um minuto.
“Você está sendo muito arisca. Quando me escreveu aquela carta, parecia mais atenciosa. Seu tom era mais doce.”
Eu li e reli várias vezes suas palavras. E não sabia o que responder. Tania olhou para mim, com um ar desconfiado, da sua mesa perto da lousa. Eu olhei para baixo e amassei o bilhete na mão esquerda e guardei dentro do bolso.
*
A detenção foi até às cinco da tarde. Precisamos escrever uma redação sobre respeito às regras de convivência. Valia pesquisar o tema no celular e a sorte que tinha WIFI na escola. Quando eu vi, havia alunos se juntando para fazer a tarefa. Tania não reclamou. Rafael resolveu aproveitar aquele instante para fazer a tarefa comigo. Eu fiquei sem palavras. Não sabia o que dizer para ele, então, eu apenas troquei poucas palavras com ele. Foi então que ele me perguntou:
— Por que você está na detenção?
Engoli a seco. Olhei para seus belos olhos castanhos e gentis. Eu gostava muito dele, de verdade. Mas, ao mesmo tempo, mal o conhecia. Então, eu gostava mesmo dele ou era só uma paixão platônica?
— Eu só queria ver as estrelas.
Ele sorriu para mim, segurando sua caneta sobre a carteira, com a mão esquerda. Ele era canhoto. O que me causou inveja.
— Ok, ver as estrelas. Quer dizer que você invadiu o observatório fora do horário das aulas?
Apenas assenti. Aquela foi a maior conversa que tivemos. Depois disso, ele entregou a redação dele e saiu da sala. Eu entreguei vinte minutos depois, porque eu precisava passar a caneta o que escrevi em lápis. Eu tinha muita dificuldade em escrever de caneta, sem errar. E corretivo não dava certo para mim.
Sai exausta da sala e fui para meu armário. Iria deixar minha mochila lá e rumar para casa, sem nada nas costas. Foi quando eu vi um bilhete colado com durex na porta. Peguei-o e abri.
Oi Ana,
Eu acredito que tenha demorado muito para responder sua carta. Pode me perdoar por isso?
Uma vez me disseram que você só tem uma chance para fazer as coisas darem certo. E essa é minha chance de fazer algo dar certo. Então, por isso queria saber se ainda há chance para nos conhecermos. Você parece não gostar de conversar pessoalmente e eu entendo isso.
Na verdade, não vou mentir para você. Eu não acho isso legal. Eu esperava que pudéssemos conversar ao menos, frente a frente. Mas, você parece não gostar de falar comigo. E isso eu percebi duas vezes. Quando te convidei para sair e hoje na detenção. Então, se eu estiver supondo errado que você queira realmente falar comigo, ignore esse bilhete. Se não estiver, por favor, me envie uma mensagem no meu número. Quem sabe podemos conversar assim. É o que você gostaria de fazer?
P.S.: O livro que estava lendo, que talvez você tenha visto era Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.
No verso estava escrito o telefone dele. Eu li e reli o bilhete. Até fui para casa com ele e me enfiei dentro do quarto, sem falar com ninguém dentro de casa.
Ele estava falando a sério sobre aquilo? Sobre nos conhecermos? Eu não sabia o que fazer. Apenas me sentia queimar por dentro. Era de vergonha, é claro. Nunca imaginei que minha carta teria qualquer repercussão. Afinal, ele nunca deu atenção para qualquer garota na escola.
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