Abri meu armário, para pegar meus livros e algo caiu no chão. Uma carta lacrada. O lacre era de vela colorida, em tom azul. Exalava um cheiro de cera, que sempre gostei. Na verdade, eu preciso confessar, eu amo cheiro de incenso e velas. Principalmente aquele cheiro característico de lojas que vendem artigos místicos. Não sou cético, mas também não tenho uma religião. Sou rotulado como agnóstico. Mas, busco qualquer tipo de religião que me interesse.

Deixei os livros e a mochila dentro do armário, para pegar a carta do chão. Olhei para os lados, para ver se não era alguma pegadinha dos meus amigos. E se alguém me via com aquela carta, porque, quando se está no ensino médio, as pessoas têm a tendência de serem curiosas, além de tentar se meter na sua vida. Como eu sou um cara que está circulando em vários círculos sociais, eu sou bem conhecido. E se alguém souber que estou recebendo cartas, logo à escola inteira vai saber. E vai ler a carta e vai me expor. E eu não gosto de chamar a atenção, por mais que seja conhecido. Meu pai disse que era pelo carisma. Eu sempre sou gentil com os outros e participo de muitas atividades extracurriculares. A beleza também conta, mas isso é algo que não me gabo, porque não me importa, na verdade.

Como não havia ninguém no corredor, eu rompi o lacre e li à carta. Era uma garota, pelo cheiro de perfume que ela espirrou na carta. Era um cheiro característico floral e cítrico. Confesso que fiquei inebriado com o aroma. E eu não era facilmente impressionável. Sempre fui muito concentrado e racional. Meu foco estava inteiramente em passar na faculdade, para cursar Medicina. Pense no quanto é difícil passar em uma universidade e conseguir uma vaga. Eu estava treinando desde o primeiro ano do ensino médio, para passar no vestibular. E estava confiante que iria conseguir. Então, nada de namoros e distrações.

Li a carta, achando doce a forma como a minha admiradora escreveu para mim. Eu não esperava ter aquela reação, mas isso me lembrou dos meus pais e como eles se conheceram. Confesso que eu queria um dia ter uma relação como a deles, um dia. Depois que li a carta, a dobrei e guardei no bolso. Eu olhei para o armário que seria o da garota. Mas, não iria respondê-la, afinal, não sabia quem era e se ela não teve a coragem de entregar em mãos para mim, eu não sei se valeria o esforço à comunicação que iriamos estabelecer. Aliás, eu nem tinha tempo para isso.

*

Cheguei em casa, depois das quatro. Larguei minha bolsa na poltrona da sala e rumei para o quarto do meu pai. Ficava no andar de cima. Bati na porta e abri, sem esperar resposta. Ele estava deitado, dormindo. Engoli a seco. Já fazia meses que ele estava assim. Não é fácil perder a pessoa que se ama. Eu nem sei como eu me portaria se perdesse alguém tão importante. Mas, talvez, eu soubesse. Pois, quando minha mãe morreu, ano passado, eu fiquei mal, mas não chorei ou expressei qualquer sentimento. Confesso que ainda não havia chorado. Se ela fazia falta? Muito. Ainda mais no café da manhã e no momento em que eu dava boa noite a ela.

— Pai? – o chamei.

Meu pai não se mexeu. Estava encolhido, com o cobertor sobre a cintura. O dia estava gelado e frio, mas, não era motivo para ficar na cama.

— Pai? – chamei de novo.

— O que? – ele respondeu, de forma ríspida.

— Quando o senhor chegou do trabalho? – perguntei.

Ele era funcionário publico, de um banco. Era contador. Estava faltando muito depois que mamãe morreu. Não sei como ainda não havia sido mandado embora.

Escutei seu suspiro, mas ele não respondeu, nem saiu da cama.

— Pai, o senhor quer que eu prepare a janta? — perguntei — Eu posso fazer aquela macarrona que o senhor gosta.

— Tá bom, filho — ele aceitou.

E pude ao menos respirar calmamente. Ele iria sair da cama e conversar.

*

— Recebi uma carta — eu disse, quando servi o macarrão para ele, em um prato.

Ele estava com os cabelos desgrenhados e com a roupa do trabalho amarrotada. Havia se deitado com camisa e a calça social. Isso significava que ele tinha ido trabalhar.

— Sério? — ele perguntou, levando o garfo com o macarrão na boca. Mordiscou, sem muito animo.

Sentei em frente a ele com um prato de macarrão e comi. Estava bom. Estava melhorando o tempero. Não era especialista, mas dois homens morando em uma casa, sozinhos, sem uma mulher para dirigi-los era obrigá-los a se virar. No caso, só eu fazia isso. Papai não tinha animo para nada. Estava sempre apático. Então, eu estava um pouco sobrecarregado. Ao menos a dona Lucia vinha até nossa casa faxinar, passar e lavar roupa, ou eu não teria nem roupas para vestir.

— Sim — eu disse, olhando para seus olhos castanhos e sem vida.

— Dia dos namorados? — papai perguntou, parecendo interessado. Ou não. Eu não sabia responder.

— Acho que sim — peguei o telefone para ver que já havíamos passado da data. Era dia quinze. Minha admiradora havia esquecido de enviar antes. Ri daquele pensamento bobo. Eu com certeza não iria responder a carta.

— Que bom — ele disse, remexendo com o garfo no prato. Comecei a ficar impaciente. Eu só queria que ele comesse um pouco. Mas, percebi que eu era o pai e ele o filho. Estranha a inversão de papéis. Eu sempre fui o filho cuidado e mimado. Mas, agora me via na posição de auxilia-lo — Sua mãe sempre me enviou cartas, sabia?

Eu já sabia daquela história. Mas, deixaria ele contar de novo. Afinal, era uma história bonita e papai precisava conversar, qualquer coisa que fosse.

— Sério? — incentivei, tomando um gole de suco.

— Huhum — respondeu, olhando para o lado, parecendo lembrar dos bons tempos em que mamãe estava viva — Nós morávamos em cidades diferentes. Eu a conheci na praia. Ela catava conchinhas e eu estava correndo com meu cachorro. Gostava de esportes naquele tempo — Assenti, lembro que papai era um ótimo nadador — Então, acho que foi amor a primeira vista. Como aquela música do Renato Russo, Monte Castelo. Naquele dia a gente conversou muito e no dia seguinte eu a encontrei de novo. Foram quatro dias seguidos. Aí ela me disse que iria embora para sua cidade. Que estava ali para passar as férias. Eu fiquei arrasado. Pensei que nunca ia vê-la. Passou um ou dois meses, não me lembro — Ele franziu o cenho, quando disse isso — Então, eu recebi sua primeira carta. A partir daquele momento nós continuamos a conversar. Não foi por telefone, sabe? Vocês adolescentes são privilegiados de ter um telefone só para vocês — Eu ri do comentário dele — É verdade. Eu não tinha essa tecnologia na mão. E mamãe não iria me deixar usar o fixo. Então, a gente mandava carta, que era mais barato. E depois, bom, a gente resolveu namorar de verdade. Eu fui para a cidade dela, ela veio até a minha. Nos casamos depois que me formei e consegui meu primeiro emprego. E você nasceu.

Eu sorri, vendo que ele estava alegre, pensando na mamãe.

— Gosto disso. Quero um amor igual ao seu — falei com sinceridade.

— Então, ai esta sua chance. Responda a carta — ele aconselhou.

— Não sei não. Eu nem conheço essa pessoa. Por que ela não veio falar comigo, afinal de contas?

— Bom, talvez seja medo de ser rejeitada — ele respondeu.

— Sei lá pai, sinceramente — eu disse, dando de ombros — Eu não conheço essa pessoa. E não tenho tempo para isso agora.

— E quando vai ter? — ele perguntou, me olhando sério — A vida vai passando e as oportunidades se perdem, Rafael. Não deixe esse momento se perder.

Eu sei que meu pai tinha boas intenções. Mas, ele e eu não éramos iguais. Eu tinha objetivos fixos na minha cabeça. Precisava me formar e atuar na área. Não era tão simples e uma namorada só me traria dor de cabeça. Apesar da garota ser fofa por ter mandado aquela carta. Contudo, eu já tive problemas com relacionamento afetivo e não iria embarcar em outro.