Com amor, com afeto.
24 Ironia.
Ponto de vista de America White.
– Lar doce lar! — Gabe disse, jogando as malas que tinha em mãos pra trás, enquanto eu tentava apanhar todas e ria da folga do meu melhor amigo.
Entramos em casa e tudo parecia tão diferente. Diante daquele palácio em que vivemos há alguns dias. Devo confessar, entretanto, que pra mim aquele era o verdadeiro palácio. Sem correria, sem formalidade, sem chatices, sem Aurora! Éramos só eu e meu melhor amigo novamente.
– Nada como voltar pra casa. Esses dias não fizeram muito bem à minha pela, America. Sinceramente, qual o problema daquela família?
Comecei a rir e assenti.
– Também não entendo. A cidade é tão maravilhosa, mas tudo aquilo parece tão louco. A Rainha era um amor, devo confessar, mas aquela Aurora...
– Nem me fale naquela víbora que meu sangue ferve só de lembrar dela.
– É. São dias para ser esquecidos.
– Nem todos, vai. A menininha falando que 'shippa' Harverica foi maravilhoso.
Virei a cara, mas podia ter plena certeza de que meu amigo revirava os olhos e bufava naquele exato momento.
– Não quero falar sobre isso. Podemos esquecer Harvey por alguns minutos, dias, meses, anos...
Ele veio até mim e sorriu fraco, inspirando confiança a cada gesto. Gabe sempre foi assim. Você pode até não conhecê-lo, mas ele pode arrancar todos os seus segredos com apenas um sorriso. Odeio isso.
– Acho melhor não, afinal, agora você tem que saber tudo sobre o cara. Quer dizer, tudo e mais um pouco.
Comecei a sorrir abertamente.
– Está dizendo que vai me ajudar?
– Nem invente de colocar palavras na minha boca, America White. Se você quiser detonar com a vida do cara, pode ir, mas eu não vou ter nada a ver com isso. Nada. Ouviu bem?
Bufei e revirei os olhos enquanto Gabe andava de um lado para o outro.
– America, meu amor. Eu respeito e respeitei todas as suas decisões até hoje exatamente pelo fato de que você sempre foi a mais racional de nós dois. Agora você simplesmente aparece com uma ideia maluca dessas. Pelo amor de Deus, minha linda. Pense bem antes de fazer uma coisa de que você pode se arrepender pra sempre. — Dito isso, saiu andando com algumas malas, enquanto eu não tinha forças nem pra levantar do sofá.
Ponto de vista de Harvey Madley.
– Então quer dizer que você e a tal jornalistazinha vão sair? É isso mesmo, Harvey? — Brad fez essa pergunta pela décima vez.
– Quantas vezes terei de responder à essa mesma pergunta? Sim, nós vamos. Você quer uma imagem de bom menino, romântico e tudo mais. É isso que vai ter.
Ele riu e começou a olhar o smartphone que tinha em mãos.
– O problema não é esse. Se tudo isso fosse só pra parecer melhor, eu estarei satisfeito até demais. Mas, essa sua relação com a America já está passando dos limites, Madley.
– Agora a coisa ficou séria. Me chamou até pelo sobrenome.
– Isso, vai brincando. Você tem de focar na sua turnê, Harvey. Não pode se apaixonar.
Comecei a rir. Apaixonado? Eu? Pela America? Não, claro que não. Eu podia até gostar dela ou sentir atração ou algo do tipo, mas daí a amar? Já era outra coisa bem diferente. Harvey Madley não se envolve. Não se deixa abater. Seu coração é de pedra...
Será mesmo?
– Eu não me apaixono, Brad. Posso ter todos os tipos de vício na minha vida, mas o amor é demais pra mim. Causa dependência e depressão pós-uso.
– Assim que se fala, garoto. Muito bem! Sua música é sua amante.
E que amante!
– Olha só, temos ensaio amanhã às oito. Esteja de pé ás 7.
Assenti, já passando as mãos pelo cabelo. Mau sinal. Quando isso acontecia, o nervosismo já tomava conta de mim.
– Vai dar tudo certo, ok? Sem pressão. Só temos vários fãs e dinheiro e pessoas que não podemos decepcionar e dinheiro...
– Eu entendi, cara. Tem dinheiro na jogada.
– Isso mesmo.
– Vai dar tudo certo.
– Já deu.
Ponto de vista da Autora.
America deitou na cama e rolou algumas vezes, numa falha tentativa de pegar no sono. Amanhã encontraria Anne e conversaria sobre o plano delas contra Harvey. A verdade é que nem ela tinha certeza do que fazer. Já tinha sido magoada por homens tantas vezes que aquela era só mais uma na lista. E nem tinha sido tão ruim. Algumas palavras jogadas fora e nada mais, mas pra ela tinha um peso enorme. Palavras podem machucar mais do que tudo.
A garota bufou algumas vezes e foi para a sala. Abriu o velho notebook e sorriu ao ver as inúmeras mensagens de leitores à procura do amor ou de algum sinal dele. Por incrível que pareça, e por mais frustrante também, não havia nem sinal de H. A garota suspirou derrotada, mas no meio de tantos e-mails encontrou um perdido entre tantos. Era de uma garota. O título era bem sugestivo ' O que fazer quando a vingança se torna a única opção? '
America riu e abriu o e-mail. Mais uma história clichê ali diante de seus belos olhos que fitavam a tela. Ela respondeu rapidamente algo sobre o fato de que a vingança nunca compensa. Que ironia, não?
Ela sorriu, ainda olhando para a tela e fechou os olhos. O sono veio em seguida. Ela sonhou com Harvey e um final feliz. Pena que a realidade é totalmente o oposto, ás vezes.
***
America acordou sonolenta com o notebook nas pernas e uma dor lancinante no pescoço.
– Droga. GABE! — Gritou.
O garoto que estava na cozinha sorriu ao ver a amiga totalmente descabelada.
– Bom dia, flor do dia.
– Bom dia. Dormi demais?
– Não mais do que o necessário. São 7 da manhã. Relaxa.
A garota arregalou os olhos rapidamente.
– 7 da manhã? Preciso chegar à Redação às 8.
– Então corre.
E foi isso que ela fez. Depois de fazer toda a higiene matinal e estar totalmente pronta, checou o celular e duas mensagens apareciam na tela. Harvey e Anne.
" Droga! " , pensou.
Resolveu abrir primeiramente a de Anne.
" Espero você ás 8 aqui. Não esqueça. Harvey Madley será desmascarado e você terá sua promoção concedida. Espero que esteja contente.
– Anne. "
" Nem imagina o quanto. ", a garota pensou.
America ficou meio receosa ao ver a foto que tinham tirado há alguns dias atrás. Estavam no palácio e ele insistiu que tirassem aquela foto. Ela amou na hora porque, de fato, tinha ficado muito bonita. A paisagem. Os dois ali. Agora tudo parecia tão longe.
A garota suspirou, ainda sem acreditar nas palavras que o garoto tinha pronunciado há alguns dias. Abriu a mensagem, ansiosa, mesmo que não quisesse estar. Ela estava tentando com todas as forças evitar todos os sintomas.
" Entusiasmo, suspiros, pensamentos e todas aquelas baboseiras. Se persistirem os sintomas, nem o médico poderá te ajudar. "
America riu com o pensamento e abriu a mensagem.
" Já sinto sua falta.
– H. "
A garota estremeceu ao ver o H ali e sorriu ao perceber a infeliz coincidência. Harvey tinha a mesma inicial do suposto H.
– Ah, que ótimo. Agora eu sou viciada em caras com nomes que começam com H. — A garota disse, alto demais.
– Hum... São os melhores, sem dúvidas. Herby era um doce. — Gabe disse, entrando.
America começou a rir e abraçou o amigo.
– Vai mesmo prosseguir com o plano contra Harvey?
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