Com amor, com afeto.
12 A melodia de Tchaikovsky.
Ponto de vista da Autora
Com os dias passando rapidamente e a promessa de um fiasco no tão esperado baile de Liechtenstein, America acordou naquela manhã de quarta-feira totalmente acabada. Depois de dois dias de ensaio, ela e Harvey ainda não tinham conseguido acertar nem mesmo a primeira parte da música. Viajariam no dia seguinte pro principado e ainda não tinham feito progresso algum.
– Dois pra lá, dois pra cá. Tá vendo, Gabe? Por que, diabos, eu não consigo repetir isso?
Gabe e ela estavam assistindo alguns vídeos para tentar melhorar alguma coisa. Gabe franziu a testa e ficou observando o casal dançando na pequena tela de computador. Os passos era bastante elaborados, mas o amor era tão grande, a intensidade tão verdadeira, que passavam a impressão de que aquilo era a coisa mais fácil de se fazer.
" É isso! " , Gabe pensou.
Era amor! Claro que era. O casal conseguia tudo aquilo e passava uma mensagem de facilidade, porque se via nos olhos dos dois que o amor estava presente ali.
– Amor, America!
A garota franziu a testa e observou o melhor amigo começar a rir, do nada.
– Você enlouqueceu? Não vá me dizer que já bebeu uma hora dessas.
Gabe revirou os olhos.
– É claro que não, sua louca. Preste atenção. O que você vê nesse vídeo que é comum tanto à mulher quanto ao homem?
America olhou o casal dançando suavemente e arrancando palmas da platéia.
– Roupas caras e um bom dinheiro na conta bancária?
Gabe revirou os olhos.
– Rá! Rá! Muito bom. É o amor, sua idiota! O amor. Não vê que estão apaixonados? Eles se entregam um ao outro plenamente, America. Não percebe que estão tão juntos que poderiam ser um só?
– Tá, mas o que eu e o panaca do Harvey temos a ver com isso?
– Ora, não está claro o bastante? Vão ter que sentir algo um pelo outro. Pode não ser amor, mas vão precisar de algum sentimento pra que isso dê certo.
America voltou a olhar o casal e percebeu o que Gabe queria dizer. O amor estava estampado ali pra quem quisesse ver. Ela passou as mãos no rosto, ao perceber onde tinha se metido.
– Não se preocupe, amor. Vai dar tudo certo. — Gabe disse, sorrindo. — Você não odeia ele? Mostre a raiva na pista de dança. Deixe fluir. Aposto que dará certo.
Ela apenas assentiu, pegando a bolsa em cima da mesa e se dirigindo para o salão, onde ensaiariam pela última vez antes de viajarem.
***
Ponto de vista de Harvey Madley
Assim que acordei, corri para o notebook. Fazia alguns dias que eu não falava com Meri. Não gosto de admitir, mas preciso disso. Preciso dela. Estranho, não?
De : h.m@hotmail.com
Para : meri_stratfort@hotmail.com
Coluna Correio do Amor
Assunto : Não posso falar que é saudade, então digo que é falta do que fazer.
Querida Srta/Sra. Stratfort,
há quanto tempo, hein? Devo confessar que nesse meio tempo que não tenho falado com você, enlouqueci mais uns 10%. Falta pouco pra chegar aos 100 e isso tudo é culpa sua. Obrigado.
Mas, não vim aqui pra discutir isso e sim minha vida nesses últimos dias. Nunca minha vida foi tão conturbada e errada e louca... Tenho conhecido pessoas de que não gosto muito. Eu não sei. Não é que eu não goste, é só que não suporto. A lógica é a seguinte : Se estamos tentando ajudar uma pessoa, não acha que essa pessoa também deve cooperar para que alguma coisa dê certo? Aposto que respondeu um belo e sonoro 'Sim.', não foi? Então...
Enfim, tá tudo muito embolado por aqui. Costumo escutar muito Beatles e ontem escutei 'Help' umas 10 vezes. Dizem que a música mostra seu estado de espírito...
Aliás, venho percebendo uma coisa, acho que você tem andado ocupada. Nem manda mais e-mails pra mim. Aposto que encontrou outra letra por aí e decidiu aposentar o H. Acredite, H é a melhor letra de todas. Não troque ela por qualquer outra.
Espero que esteja bem e que em breve me responda.
P.s : Meu desespero ficou claro neste e-mail? Se não, que fique claro agora!
P.s² : Onde achou esse lance de 'Com amor, com afeto'? É tão doce que fico com diabetes ao ler.
P.s³ : Saudad... Ops, falta do que fazer!
Com diabetes por ler o seu 'Com amor, com afeto.' ,
– H.
***
Ponto de vista de America White.
Cheguei no salão na hora marcada e fiquei uns dez minutos esperando antes que Harvey chegasse. Fiquei com muita raiva, o que era bom, já que Gabe disse que o melhor seria usar esse sentimento de raiva na pista de dança e era o que eu ia fazer.
– Desculpe pelo atraso. Estava passando um e-mail.
– Não me interessa o que você estava fazendo. Mas, por favor, chegue na hora da próxima vez ou serei forçada a ir te buscar e, acredite, você não vai querer ver isso. A menos que goste de ver seu sangue derramado de maneira lenta e inescrupulosa. — Disse, com uma expressão ameaçadora.
Ele começou a rir e ligou o som. A música da valsa entrava em meus ouvidos e eu apenas sorri, fechando os olhos. Quando os braços de Harvey me envolveram, eu sabia que daria certo. Mesmo que não quisesse, naquele momento tudo teria que dar certo. Ele começou e eu o segui. Começamos timidamente, dando alguns passos ritmados, mas alguns minutos depois, o salão parecia pequeno para nós dois. Havia muita energia, muita sincronia! Deixei toda a raiva que eu sentia por ele fluir. Aqueles jornalistas me seguindo, ele enchendo o meu saco nesses ensaios. Tudo. E naquele momento, eu soube, que poderia fazer o que quisesse, se colocasse sentimento. Mesmo que fosse de raiva, devo admitir.
Quando terminamos, Harvey me parabenizou e perguntou o que eu tinha feito para dançar daquele jeito. Sorri e apenas disse que a raiva que eu sentia dele tinha ajudado muito. Ele franziu a testa e desligou o som.
– Por hoje, é só. Lembre-se que viajaremos amanhã, ok?
Assenti, limpando o rosto, com uma toalha.
– Olha, America, eu sinto muito por tudo que tem acontecido nesses últimos dias. Peço desculpas pelos últimos acontecimentos e...
– Tudo bem, Madley. Não me importo com nada. Afinal, só topei fazer isso por causa do dinheiro e das entrevistas que seu empresário me prometeu. Se não fosse por isso, eu nem estaria aqui. Passar bem. Até amanhã. Tchau. Bye. Au revoir. Adios.
E saí, deixando Harvey falando sozinho.
***
Quando cheguei em casa, tudo que queria era descansar. Por isso, peguei meus fones de ouvido e coloquei Tchaikovsky pra tocar. "Dance of the sugar plum" estava no último volume e eu nem me importava. Quem dera todos os momentos da vida acabassem em música clássica. A vida seria mais doce se tivesse trilha sonora. Ainda com a música tocando, resolvi escrever um pouco...
A melodia de Tchailkovsky
" Quem dera todo dia fosse ensolarado.
Quem dera todos os suspiros fossem de amor.
Quem dera toda melodia fosse de Tchaikovsky.
Quem dera todo mundo fosse liberto da dor.
Quem dera as pessoas vivessem mais perto.
Quem dera todo mundo soubesse amar.
Quem dera todo choro fosse de alegria, e todo sorriso fosse sanar, a dor de quem não para de chorar. "
Assim que terminei, fechei os olhos esperando o sono vir. Amanhã, Liechtenstein me esperava. E eu nem imaginava o que estava por vir...
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